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História De novo você - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Luosifen, um pivete, um cachorro e um quase nocaute


Morfeu é um deus da mitologia grega, popularmente conhecido como o deus dos sonhos. De fato, “cair nos braços de Morfeu” é uma expressão utilizada para se referir a um bom sono. Era assim que Sakura se sentira ao adormecer naquela sala do hospital, literalmente caindo nos braços de alguém que, por sua beleza fora do comum, poderia muito bem ser intitulado como “um verdadeiro deus grego”. O sono era bom, sonhar melhor ainda. O problema foi acordar e se deparar com a realidade.

             Estava sentada a pelo menos meia hora naquela maca, ainda na mesma sala. Tentava a todo custo se controlar, porém a cada segundo ficava ainda mais nervosa, não pelo fato de ter caído nos braços de Sasuke, mas sim pelo tanto que o fato de poder revê-lo estava mexendo com ela. Bem no fundo de sua cabeça, uma vozinha teimava em lhe dizer que, sim, ela tinha sentido amor por ele e, não, esse sentimento não havia sido superado. Mas faziam anos, ela nem ao menos sabia o que aconteceu com ele durante tanto tempo sem contato. Nem ao menos uma despedida no passado, ele simplesmente sumiu. As vezes sentia como se sua presença tivesse sido um sopro etéreo, um sonho, tão irreal era a sensação que tinha quando se tratava dele.

            Conheceram-se na escola. Ele sempre quieto e distante. Ótimo aluno, péssimo colega. Alvo dos suspiros apaixonados das meninas, mas sem nunca dar atenção a nenhuma. Seu único amigo era Naruto, o garoto mais extrovertido e palhaço do colégio. Ninguém entendia como, quando ou o porquê daquela amizade. A única coisa que possuíam em comum era o fato de serem ambos órfãos, laço que, na época, era estranho para Sakura, mas hoje entendia muito bem. Identidade e empatia eram peças chave para criar conexões além de aspectos lógicos e racionais.

            Ela sempre fora uma das melhores alunas da turma e, no último ano, aceitou participar de trabalhos em grupo com Naruto quando viu ali sua chance de se aproximar de Sasuke. Foram muitos e muitos trabalhos e estudos em trio para provas. Demorou muito para que ele lhe dirigisse um olhar de verdade, demorou mais ainda para acontecer uma conversa entre eles. Os assuntos sempre relacionados aos estudos. Mais para o fim do ano, algumas pequenas gentilezas: receber um copo de água quando ele voltava do bebedor; um apontador emprestado, que apareceu prontamente sobre a sua classe quando a ponta do lápis se quebrou; sentar ao seu lado quando tinham algum tempo livre nas aulas de educação física, sempre em silêncio, mas ao seu lado. Sakura guardou esses pequenos gestos como tesouros preciosos, deixou que alimentassem suas esperanças e lhe dessem força, inclusive depois de brigar com Ino e ficarem sem se falar, por conta da disputa por chamar atenção do garoto mais cobiçado da escola.

Qual não foi a sua tristeza quando nas semanas finais de aula ele deixou de aparecer. Perguntou a Naruto, ele também não sabia o que estava acontecendo. Havia tentado achar o amigo de todas as formas que conhecia e não pode encontrá-lo. Ficaram sabendo, através de um professor, que Sasuke tinha se mudado para outro país. Sem despedidas, sem possibilidades de contato. Acabou, simplesmente assim, sumiu.

Sakura chorou muito por um bom tempo. Teve a sensação de que morreria. Assustou-se tamanha a intensidade da dor que sentiu – seria ela tão caprichosa ao ponto de não conseguir superar a frustação de uma paixonite de escola ou teria experimentado o amor com tão pouca idade? Aproximou-se mais de Naruto. Com o tempo, tinham se tornado bons amigos, fato que também a entristeceu quando ele se mudou no ano seguinte. Mantiveram contato por telefone, mas as mensagens logo se tornaram escassas. Refez os laços com Ino e foram ambas para a mesma faculdade, o mesmo curso. Com o tempo a amizade sincera preencheu seus vazios. Secou suas lágrimas e jurou amar a si mesma e se tornar cada dia mais forte. Pintou os cabelos de rosa e ficou extremamente satisfeita com o resultado.

Dedicou-se aos estudos, formou-se médica, entrou na residência. Teve alguns romances corriqueiros, para satisfazer seus hormônios e matar sua curiosidade. Descobriu que gostava muito do sexo oposto e de curtir a ideia de desfrutar momentos sem compromisso. Facilitava sua vida, na qual a prioridade era sua formação, estudo e trabalho. E assim, em algumas linhas, ficou resumida a pragmática vida de Sakura Haruno. Tudo nos conformes. Tudo dentro do planejado. Até aquele momento, até a jaca podre.

 

 

-- Tsunade quer te ver amanhã cedo – disse Ino adentrando na sala do apartamento que dividiam.

Sakura ainda estava usando seu pijama com a estampa do kung-fu panda, largada no sofá, a TV ligada em um programa aleatório. Estava de folga, devido ao plantão que recém enfrentara, portanto, era realmente estranho que a diretora do hospital solicitasse sua presença tão cedo.

Em seu último expediente, Ino lhe contara que Sasuke e Naruto tinham ido ao hospital, aparentemente, à procura dela. Tinham chegado à recepção, apresentando-se como membros da família de Sakura e não se sabe ao certo como conseguiram obter a informação de onde ela estava e ir até lá. Chegaram à sala, mas saíram logo depois do episódio da jaca podre, sem dar muita explicação a ninguém. Ino ficou sabendo deles, pois pescou um comentário entre algumas enfermeiras sobre dois homens muito bonitos que estavam atrás da médica de cabelos rosados. Foi correndo até onde sabia que poderia encontrar Sakura e deu de cara com os dois, literalmente perdendo a fala quando os viu. Naruto logo a reconheceu e contou sobre o episódio da, nas palavras dele, “bela donzela que deveria cair suavemente nos braços do príncipe, mas que na verdade mais parecia uma jaca bem madura e pesada se estrebuchando nos galhos parrudos de um cacto”. Só de ouvir aquilo, Sakura sentiu suas mãos formigando para reviver algumas cenas dos velhos tempos, quando enchia a cara do amigo de tapas. Mas sempre com muita delicadeza, afinal ela era uma flor de pessoa!

Naquele dia, Sakura acabou não encontrando os dois. Finalizou seu plantão sem muitas ocorrências e depois voltou para casa, desejando dormir mais do que tudo na vida. Ficou extremamente contente por ter realizado a façanha, sobretudo pelo receio de não conseguir pregar o olho com os pensamentos a mil depois de saber que Sasuke estivera ali. Não sabia se ainda iria reencontrá-lo... e agora esse pedido estranho de Tsunade estava lhe atiçando os nervos novamente.

Observou Ino se dirigindo à cozinha. O apartamento que dividiam possuía sala e cozinha conjugadas, ambas delimitadas por um balcão. Viu a loira separar os itens para preparar café e sentiu seu estômago roncar. Não tivera apetite durante o dia, mal comera uma maçã, mas naquele instante sua fome veio com força, fazendo-a desejar um prato bem peculiar: luosifen. Ino odiava a iguaria e não permitia que Sakura comesse dentro de casa, pois, segundo ela, “infestava todo o ambiente com seu cheiro forte”, o que era verdade, infelizmente. Se quisesse comer, teria que sair.

Conhecia um bom lugar perto do hospital onde poderia comer, contudo, lá trabalhava um ex, Kiba, e ela odiava encontrar com ele. Haviam ficado umas duas vezes durante algumas festas no início do ano. Para Sakura não passara de alguns amassos que nem tinham sido tão bons assim. Não sabia se era por ele trabalhar com iguarias de cheiro forte, mas o fato era que o cara fedia a cachorro molhado. Kiba, no entanto, ficara encantado e sempre que a via insistia em se aproximar, forçando um contato que ela não apreciava. Tentou dispensá-lo educadamente, argumentou, chegou a dizer que estava noiva e ia casar... nada adiantava. Não queria ser rude com o cara que preparava sua comida, vai saber o que poderia colocar no seu prato, e realmente gostava do luosifen daquele lugar. Então, como a pessoa cheia de imaginação que era, bolou um plano para comer lá sem ser reconhecida: vestia algumas roupas largas, uma peruca de cabelos castanhos curtos, um par de tênis surrados, boné, óculos e... pronto! Irreconhecível! A primeira vez que tentou a façanha teve que ouvir um sermão de Ino sobre o quão infantil aquilo parecia, sobre como não ia funcionar... mas, bingo! O plano acabou por dar certo e, desde então, volta e meia se disfarçava para comer luosifen.   

Sentindo o estômago roncar, pulou do sofá decidida rumo ao seu quarto em busca do disfarce. Na saída ainda pode ouvir o comentário singelo da amiga:

-- Ai, testuda, o que seria de mim se não tivesse você se esforçando assim para eu rir! Adoro quando você se veste de pivete e vai brincar de flanelinha no estacionamento!

-- Não me incomoda porquinha, ou quando eu voltar faço questão de te contar como estava deliciosa a minha comida, falando bem pertinho, pra você sentir o cheirinho dela...

-- Credo, como pode gostar disso! Vai logo, Sakura!

E assim Sakura partiu rumo à sua missão, não sem antes piscar para Ino que, em resposta, mostrou-lhe a língua. Uma mais delicada do que a outra...

Caminhava tranquila pelas ruas. Moravam num lugar bem próximo do hospital onde trabalhavam, o que facilitava muito o dia a dia. Dirigia-se para os fundos do lugar, era só passar por ali, seguir mais duas quadras e chegaria ao seu destino. De repente, viu a porta de saída do hospital se abrindo e pode ouvir uma voz que estava lhe assombrando desde seu último plantão:

-- Vamos logo, dobe!

-- Espera, teme, deixei cair a caneta que aquela vovó me deu...

Sakura sentiu seu sangue gelar e, sem pensar direito no que fazia, pulou a mureta de uma casa ao lado. Agachou-se ali de olhos arregalados. Segundos depois, ouviu passos próximos e mais vozes:

-- Que foi? Você não estava com pressa?

-- Tive a impressão de ver um pivete se esgueirando pra dentro do quintal daquela casa...

-- Hum... Podemos averiguar. Ei, pivete! Você foi visto! Saia daí, não vamos te machucar!

Sakura sentiu as pernas amolecerem. Quis bater no próprio rosto, não podia acreditar em como estava sendo vítima das peças do destino... Tinha duas opções: levantar e torcer para não ser reconhecida ou se fingir de morta, já que não tinha saída pelos outros lados da casa, cercada pelos muros altos de alguns prédios. Levou um instante nesse dilema até avistar um cachorro enorme que dormia perto de onde estava. Bem pensado, Sakura, uma casa de muros baixos certamente teria algum tipo de proteção. Foi levantando sem fazer barulho. Iria enfrentar o encontro com seus ex-colegas. Pelo menos eles não a morderiam, não é?

Estava quase conseguindo quando foi interrompida pela voz estridente que logo reconheceu como sendo Naruto:

-- Parado! Mãos na cabeça!

Foi alto o suficiente para acordar o cachorro. Ao ver Sakura em seu território, começou a rosnar mostrando os dentes e, num piscar de olhos, armou-se a confusão. Sakura correu desesperada rumo à primeira coisa que viu – uma árvore que estava do outro lado do quintal. Sasuke e Naruto viram o pivete correr e logo se puseram em seu encalço. O cachorro foi segurado pela corrente à qual estava preso, mas nenhum deles notou. Sakura pulou e agarrou-se ao galho mais baixo da árvore, desequilibrando-se ao ter o pé agarrado por Naruto. Ia caindo para o lado quando sentiu as mãos de Sasuke evitando a queda, empurrando-a por baixo para o outro lado. O problema é que ele precisou empurrá-la pela bunda e, quando ela sentiu as mãos fortemente espalmadas naquela região, chutou para todos os lados com toda sua força. Resultado: cachorro latindo, Naruto caído de um lado com o nariz sangrando, ela caída do outro com as costas e bunda doídas e Sasuke parado com cara de tacho.

Não demorou muito para sentir o moreno agarrar-lhe os braços com força, pondo-a de pé como se fosse um saco de batatas.

-- Seu moleque idiota... – o xingamento parou no meio quando ele percebeu os cabelos rosas, já que, no impulso de levantar, peruca e boné haviam caído. Sasuke simplesmente congelou enquanto Sakura sentia as mãos em seus braços lhe apertando com ainda mais força. O momento foi interrompido por Naruto que, ainda no chão, não controlou sua euforia:

-- Sakura?! Você quase me nocauteou! Está ainda mais forte do que eu me lembrava! Se meu nariz estiver quebrado, você me deve uma cirurgia!

Ela só queria voltar para seu sofá quentinho de onde jamais deveria ter saído.



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