História Dê um Rolê - Capítulo 4


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Categorias Malhação
Tags Élica, Ellen, Lica, Malhação, Vad
Visualizações 171
Palavras 1.992
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: FemmeSlash, Romance e Novela
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Meus amores, desculpa a demora! Tive milhares de compromissos no trabalho, mas finalmente o capítulo chegou! É tetra!

Vocês vão gostar desse capítulo, as coisas estão começando a ficar ~bem boas~ com nosso ship maravilhoso. No próximo, vai SÓ melhorar. Preparem-se que o que todxs estão aguardando vem no cap. 5, que vai ser o último e também no ponto de vista da Lica.

Leiam logo saporra e por favor comentem e divulguem, vamos espalhar um arco-íris por esse fandom tão cinza.

Agradecimento MONSTRO à minha querida beta Laís Ramos que arrasa nos diálogos sarcásticos e ajuda a fazer essa parada acontecer.

Capítulo 4 - Passe um tempo comigo, nesse duplo sentido


Quando a música irrompeu das caixas de som, não foi nada do combinado. Hard rock clássico dos anos 70? Uma ideia cheia de intenções, já que Lica prestava atenção em cada camiseta de uma tal amiga e lá no fundo — um “lá no fundo” mais próximo de “bem na cara”, diriam —, não seria ruim que a dona do guarda-roupa soubesse. Mas e o foda-se?! Uma Gutierrez, a única ademais, bem poderia manejar suas estratégias, envolvendo ou não um pouco de gasolina e fósforos, mas decerto uma canção indiezinha, escolhida do nada, que transformaria uma patética tarde paulistana em cena de filme alternativo.

Let your hair down, let's unwind

Take your problems, leave them behind

You got your troubles and I got mine

Baby that’s right, baby that’s right

Lica traduziu as palavras na literalidade da ação de soltar o cabelo, jogar o elástico longe, bem longe, e sacudir as madeixas castanhas de um lado para o outro de um jeito que esperava ser menos Joelma e mais rockeira. Um limite tenso. Bem, começou a pular um tanto errática, ainda balançando a cabeça como que nenhuma parte do corpo pudesse permanecer parada.

De pé em um ponto médio entre escrivaninha e armário, Ellen soltou um riso engasgado.

“Você tá limpa, Heloísa?” A batida de cabelo seguinte foi discretamente mais cênica. Ela realmente começara a gostar dessa história de ser chamada de Heloísa por alguém; deveria fazer por onde para que o nome se repetisse uma ou duas vezes mais? Decidiu sem nem pensar: sim, deveria. Estacou no lugar, tirou a franja dos olhos e mirou Ellen Rodrigues bem no alvo.

“Não. Música é minha cocaína.” E antes que a pobre garota, cujos ouvidos padeciam da exposição a falas tão ridículas — dignas de filme B, isso sim —, pudesse dar outra risada na cara de Lica, foi puxada pelo pulso e rodopiada no ar. Um convite dos mais toscos. Ellen quase se estatelou na cama, não sem o joelho dar aquela esbarrada mortal na quina. Oops.

“Lica! Porra—”

“Desculpa!” Acudiu a menina ao deixá-la solta de novo. Melhor não cutucar uma vítima de seu próprio destrambelho: elas costumavam ser fatais. Não que fornecer uma mínima assistência fosse cutucar, ou ao menos seria o natural a se pensar, certo?

Lá estava Ellen massageando o joelho, sibilando uns palavrões na difícil recuperação do encontro traumático com a quina, e apenas lhe veio: vá lá, Lica! Dá-lhe chegar perto da Ellen, pegar-lhe as mãos e fazer aquele afago culpado de quem sabe ter causado um pouco de merda. Não esquecer a puppy face de acompanhamento, indicou o passo-a-passo; talvez assim fosse perdoada mais rápido.

“Eu juro que te quero viva. E inteira. Acredita?”

Ellen revirou os olhos. “Estou em choque.”

“Vem dançar comigo,” disse naquela vozinha irresistível de quem pede com muito, mas muito carinho mesmo. Ellen piscou mais vezes que o exigido pela biologia.

“Eu vou sair daqui direto em uma ambulância,” justificou ainda séria, mas já com um jeito meio derretido de quem não tardaria a ser convencida.

Dito e feito.

I get in trouble ‘cause I speak my mind

Sometimes I like it when I make you cry

Baby that’s right, baby that’s right

Caso Ellen focalizasse os versos com a atenção cirúrgica de sempre, ficaria revolta com a visitante insolente que metera sob seu teto e a mandaria extraditada de volta para Higienópolis. Exceto que a mesma convidada fez o dever de casa com esmero e distraiu a amiga de tal modo que ela nem poderia perceber o conteúdo duvidoso. Como?

“Sua des-professora de dança, prazer,” apresentou-se Heloísa com um aperto de mão frouxo daqueles. “Porque pra dançar rock, só desaprendendo tudo.”

Foi essa conversa jogada fora que chamou um sorriso de volta ao rosto da Ellen, antes contorcido de dor. Lica agradeceu às forças espirituais, nas quais não acreditava, pela amiga ter entrado na dela. Ao menos lhe parecia que sim, que Ellen havia mesmo topado as dicas implícitas fornecidas por uma certa cara-de-pau. Veja, ela até respondeu no mesmo naipe!

“E o que você vai me ensinar— desculpa,” interveio com deboche “me des-ensinar?”

Ah, muitas coisas, veio o primeiro pensamento de Heloísa, porém nada de fato demonstrado em palavras ou, pasme, ações. Atrevida, mas tinha seu método. Apenas deixou de rastro sua piscadinha cretina.

“E eu tenho cara de quem dá spoiler?” lançou. A outra garota se encheu da gargalhada mais forçada possível: HÁ HÁ. Deveras, alguma semelhança tinha com o Coringa de Jack Nicholson.

“Se fosse só a cara, ainda dava pra te perdoar, né.” Pigarreou e logo a voz não era mais sua, pois sim imitação de uma Lica nada hipotética: “Cuidado, amiga: a Lexie morre em um acidente de avião na oitava temporada. Pronto, falei.”

Sem dúvidas, Lica era nada menos que uma jovem incompreendida, vítima precoce desde os 14 anos da tal Shonda Rhimes.

“Eu só queria dividir o sofrimento que é Grey’s Anatomy com minha melhor amiga! Não posso?!”

“Não! Amigas sim, mas spoilers à parte.”

Nada chegada a essa partilha e novamente pronta para incendiar qualquer “justo” acordo, Lica redirecionou o assunto ao ponto que lhe convinha.

“Tá! Entendi, mas só acho que você tá desviando da questão principal aqui, Dona Ellen, que é 'você quer dançar comigo?’"

Ellen fingiu ponderar a intimação feito uma boa aprendiz em pausas dramáticas — talvez a convivência com uma tal amiga de fato tivesse seus efeitos.

"Ok, Heloísa, aceito o convite. Vamos ver se você tá com essa moral toda," topou mais casual que nunca, não sem uma dose de curiosidade a despontar no sorriso que amarrou o acerto todo.

O rosto de Lica soletrou “desafio aceito”. No canto da boca notava-se a admiração que sentia pela sagacidade de Ellen Rodrigues. Que mulherão da porra, pensou lá com seus botões imaginários.

Wait 'til tomorrow, then we can reflect

But as for right now where's the party at?

We'll stay up all night waiting for the sun to shine, sun to shine

Baby that's right, baby that's right

Em resumo, festa estranha — a duas — com dança esquisita.

Heloísa: um corpo a vagar feito pêndulo. Idas e voltas em dispersão pela Via Láctea de um quarto alimentado a vácuo. Claro, bizarrice em poesia, mas tente descrever melhor a coreografia de movimentos ilógicos: um braço pra lá dobrado atrás da cabeça, o outro pra cá apontando nada ao cubo; o traço bêbado dos dedinhos escorregando pelo nó da camisa, ensaiando festa na pele pelada da barriga; a cabeça pendurada sem eixo; os pés num troca-troca sem conduta ou estilo. Tudo criação.

Ellen: ué, sabe-se lá! Aconteceu que as meninas inventaram de dançar com olhos fechados, uma a uma capturada pelo mundo que lhes desse na telha. E quando o transe rompeu, seguiu-se assim: fim da música. De acordo. Lica enfim reviu o mundo. Bem no meio dele estava a Ellen, já em modo estátua, uma de olhos radiantes e cabelo enrolado. Visível que pulara pra cacete; aqueles cachos com volume dobrado não concediam mentiras.

“Você dança fazendo biquinho,” lançou no ar, antes que...

Não deu. Elas caíram na gargalhada.

Ellen teve de se apoiar na cadeira para não desmontar: uma misturinha dos excessos em dança e riso deu nisso. A respiração estava uma síncope só. Levou uma mão à boca, fraca ante à risada que remexia o corpo dela todinho. Tudo, tudo virado. Lica não sabia se já vira aquela mulher rir tanto assim na porra da vida inteira, mas tinha muito gosto em testemunhar o momento. E participar; muito participativa esta Heloísa.

Afinal, quem se achegou já pegando nos ombros da Ellen, encostando a testa no braço dela — a pele quente, meio respingada de suor? Ela mesma, a rainha dos afetos à queima-roupa. A seu ver, nada mais natural: gostava do tocar e de suas consequências. Queria que Ellen sentisse isso também.

“Nada de vergonha, hein?” ordenou entre soluços. Deu umas cutucadas bem no meio nas costas dela. “Aqui a gente pode se soltar.” Afastou-se deslizando a mão pela cintura vestida com o cinza do Cora Coralina.

Foi vez da Ellen se virar para acompanhá-la num novo ciclo de gingas bizarras, agora frente a frente. Ainda com um restinho daquela cara risonha, surpreendeu com um molejo cadenciado nos quadris, os passos mais vizinhos da dança de salão aprendida com Fio que da subversão do it yourself do rock. Erra-se umas, acerta-se outras. Lica não estava mesmo prestes a reclamar de uma Ellen toda soltinha. Porra, o que uns minutos dançando consigo mesma foram capazes de fazer! E que quadris

Não só ela deu suas espiadas; Ellen fez o mesmo. Mal teria sido vista caso não estivessem pertinho assim, com poucos limites que as separassem. Para o bem ou para o mal, mais um flagra na coleção: reparou outra vez naquele corpo à sua frente, metido numa dança doida de pedra, as tatuagens expostas em contraste à barriga branca que ondulava com cada batida. Ato falho ou não, aconteceu. Ali já não sorriu que nem boba, mas molhou os lábios bem de fininho.

Lica captou. O quão satisfeita se sentiu com esse olhar curioso?! Caralho... Ficou mexida com o interesse comedido da Ellen; dava-lhe vontade de fazer mais e mais para provocar a curiosidade dela e vê-la assim, tão diferente do normal de todo dia. Sendo seu lema o eterno I can’t get no satisfaction, desmanchou o curto espaço entre ambas enquanto entrelaçava suas mãos e desenhava um arco invisível no ar. Pode-se afirmar que quebrou o gelo: as duas riram do gesto meio ridículo, deixa para Lica envolver os braços ao redor do pescoço de Ellen.

Surgiu assim um tempinho para elas respirarem fundo — esse negócio de dançar cansava até os ossos e o quarto fervia. Lica jogou a cabeça para trás, viajando novamente em um micro-transe artificial. Esperava também que essa privacidade incentivasse a amiga, mais hesitante, a compor formas próprias. Dito e feito. Ellen deu de balançar os ombros nas ondas sintetizadas da canção. Lica sentiu os movimentos, agora preguiçosos que só.

Devia estar bonita de ver. Nada indie, e Lica não dava a mínima.

Deparou-se visualmente com tal cena somente quando os dedos de Ellen enfim tocaram suas costas, bem na altura do fecho do sutiã. Estourou a bolha, mas só para Lica: Ellen ainda se enroscava em um mundinho de sua autoria, meio desligada dessa terra. Um embalo lento fluía da cabeça aos pés, sem tempo e sem pausa. Somente sutil movimento com sabor de um fim de tarde.

“Mas eu sou uma ótima professora mesmo, minha aluna tá arrasando,” Heloísa falou baixinho. Sabia que com aquela proximidade Ellen ouviria cada palavra.

Como que desejasse provar mais um pouco o mel dessa rara tranquilidade, Ellen levou uns segundos a despertar. Espreguiçou-se com um sorriso de quem faria graça cedo, cedo.

“Olha, se eu tô dançando bem, com certeza não tem a ver com a sua aula, professora… Tá há mais tempo de olhos fechados do que me dando instruções.”

“Ah, mas isso não é justo. Eu só tô me aquecendo ainda.” Vagarosa, deixou as mãos escorregarem devagar pelas costas da Ellen, como quem nada quer, até segurarem na cintura da garota. Garota esta que de pronto reagiu com uma fisgada quase imperceptível na respiração; quase, pois Lica reparou. "E vê se você me respeita, tá, Dona Ellen? Alunos não devem desacatar professores..." Completou com a rouquidão tão descaradamente sua.

“Posso tentar,” disse Ellen com voz amolecida e bochechas coradas. As pontas dos dedos alisaram de leve a malha meio desgastada que vestia a amiga, tateando um território incerto. “Mas Lica… Vamos dar uma descansada da música... da dança?”

“O quê, mas já?!”

Ellen soltou uma risadinha da cara de “bezerro desmamado”, assim chamaria das Dores, que Lica lhe fazia no momento. “Eu te zoei, mas a real é que tô doida pra sentar um pouquinho.”

Nada que não pudesse ser acompanhado por uma solícita amiga, outra a sofrer os efeitos desse barato. Descansariam, sem mais.


Notas Finais


Música-título do capítulo: "Dançar pra não Dançar" da Rita Lee.
Música tocando enquanto Lica descaradamente dá mole pra amiguinha: "That's Right" de Cage the Elephant.


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