História Dead Alone - Capítulo 11


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Palavras 2.311
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Científica, Romance e Novela, Seinen, Slash, Survival, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Canibalismo, Estupro, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Necrofilia, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 11 - Solidão


Fanfic / Fanfiction Dead Alone - Capítulo 11 - Solidão

O sabor daquela feijoada era intenso, repleto de temperos, e tão delicioso quanto o cheiro.

Eu e Otávio repetimos mais duas vezes, até estarmos tão cheios que poderíamos hibernar pelo resto do ano.

— Aaaa, vou explodir — exclamou Otávio, deitando o rosto de lua na mesa. — Vocês capricharam mesmo, garotas. Pareço grávido de seis meses.

Soltei uma risada. Pela primeira vez em não sabia quanto tempo, me sentia de bom-humor. Bom-humor até demais.

— Realmente — falei, afrouxando o cinto da calça. — Não como assim desde o natal.

— Que bom que gostaram — disse Gabriela. Seu olhar esbarrou no meu e ela sorriu, a ponta de seus dentes da frente despontando timidamente detrás dos lábios.

Devolvi o sorriso, embaraçado.

— Ana — chamou Otávio de repente. — Hum… Desculpa por ter te batido daquela forma. De verdade. Nunca fiz nada como aquilo antes e… Eu tava totalmente fora de mim. Me desculpa.

Do outro lado da mesa, o rosto enfaixado dela era sereno.

— Eu também não devia ter falado aquelas coisas pra você. — Ela entrelaçou os dedos ao lado do prato. — Foi cruel da minha parte e espero que me desculpe também.

— Claro, claro. Não se preocupa com isso. É essa loucura toda que tá mexendo com a gente, é coisa demais…

— Sobre o papel higiênico — disse Diana, ali do lado. — Foi mal por aquilo também. Foi só por maldade mesmo.

— Ah, bem, aquilo… — Otávio cruzou os braços, severo. — Aquilo vai ser difícil de perdoar. Sinto muito. De onde eu venho, tentar tirar o papel de um cara prestes a se cagar é um crime sério.

Diana mostrou um sorriso plácido.

— A melhor parte — falei, relembrando a cena — foi quando ela sugeriu que usasse sua camisa. — Comecei a rir. — Espera. — Parei e olhei bem para ele. — É impressão minha, ou você tá sem camisa debaixo do casaco?

— Cara, é que só tinha um pouco de papel e… A coisa tava feia. Eu tive que, tipo, dar descarga umas sete vezes depois.

Eu o encarei, sério, por vários segundos. Então, de súbito, caímos os dois na risada.

— Que bom que todo mundo se entendeu — comentou Carlos serenamente. Era difícil olhar para ele. — Nossa jornada vai ser muito mais tranquila assim. É importante que vocês saibam que apesar desse mundo não oferecer mais nada, ainda temos o consolo de não estarmos sozinhos, de que vamos passar por isso juntos.

Carol, que havia permanecido em silêncio até aquele momento, falou, quase num murmúrio:

— Agora vai ficar tudo bem, não vai? — A vermelhidão de seus olhos era intensa.

— Vai sim — disse o professor, confortando-a com um aperto no ombro.

Aproveitando o clima propício, resolvi propor algo que havia me passado pela cabeça, mais cedo:

— Pessoal — falei, hesitante. — Queria sugerir uma coisa… Quando eu tava andando por aí, eu meio que vi umas bolas de vôlei perdidas, dentro de umas caixas de papelão em uma das salas. Então, eu pensei, quem sabe… Amanhã, a gente podia jogar? O que vocês acham? Acho que é melhor do que ficarmos sentados, cada um num canto, pensando bobagens o dia inteiro…

Eu não sabia se aquilo faria alguma bem, mas valia à pena tentar.

— Ótima ideia, cara! — disse Otávio. — Vai ser bom ter um pouco de diversão, pra variar. Eu costumava jogar vôlei o tempo todo na praia.

Os outros, contudo, não se pronunciaram, e imaginei se não havia forçado a barra em propor que jogassem bola enquanto o mundo desmoronava.

— Bem — adicionei nervosamente após um tempo — se mudarem de ideia na hora, é só virem…

Afinal, em um tom complacente, Carlos falou:

— Claro, Alex, pode deixar.

Depois disso, nos despedimos e Otávio e eu voltamos para nossa sala.

A noite já era alta, de modo que não havia o que fazer além de deitar e esperar que o sono e o cansaço, eventualmente, silenciassem a gritaria de fundo.

— Acha que algum deles vai aparecer pra jogar, amanhã? — perguntei, com um braço debaixo da cabeça enquanto mirava o teto.

— Talvez a Ana — disse Otávio, ali perto, estendido em seus trapos —, ou a Diana. Apesar de tudo, acho que gosto dessas duas. Até a Gabriela, quem sabe. Elas pareciam amigáveis. Já a outra garota, esqueci o nome dela, a que tava com o cabelo abarrotado, e o Carlos… Sei lá. Acho que eles não. Viu a cara dele? Droga… Pelo menos eu tento me lavar na pia.

— Já se olhou no espelho? Você não tá muito melhor não.

— E você acha que tá, cara?

— Não faço ideia — confessei. — Não tenho coragem de me olhar no espelho há dias. Nem levanto os olhos na hora de lavar o rosto…

— Tá explicada essa mancha monstruosa de ketchup que tá há três dias na sua boca.

— Sério? — Esfreguei os lábios. — Merda.

— Tô brincando. — Ele deu uma risadinha. De repente, sua voz se alterou: — Ou, cara…

— Que foi? — falei.

— Aquilo que eu disse, sobre ser sua culpa que a gente tá aqui, eu…

— Esquece isso. Passou.

— Beleza.

Depois de um curto silêncio:

— Ou, cara…

— Hum?

— Pode contar comigo.

Sorri.

— É, você também.

Por mais de uma hora, eu me virei de um canto para o outro na escuridão oleosa, aguardando o sono que não vinha. Havia um leve desconforto no meu estômago, e ele se tornava pior a cada minuto, enquanto eu pensava:

Não devia ter comido tanto. Apesar que seria um desperdiço não aproveitar uma comida daquelas. Vai saber quando teremos algo assim de novo. Ainda mais que o feijão acabou… Falando nisso, amanhã preciso checar quanto comida ainda temos. Devia ter feito isso assim que cheguei, mas, enfim. As garotas não são tão ruins quanto imaginei. Perdoar o Otávio depois do que ele fez… Apesar que é apenas natural, pela forma que estamos todos conectados por essa merda toda que nos atingiu… Ahhh, minha barriga. Meu estômago deve ter encolhido depois de dias comendo pouco. Por que fui repetir tantas vezes… Repetir… Repetir.

Como que propelidas por molas, minhas costas saltaram do colchonete e eu encarei a escuridão, uma camada de suor frio subitamente cobrindo todo meu corpo.

Nenhuma vez…, pensei, o desconforto em meu estômago se tornando um punho de gelo remexendo minhas tripas. Elas não repetiram nenhuma vez… Nem o Carlos… Espera… Em nenhum momento eles comeram da panela… Apenas o que já estava em seus pratos quando chegamos! Então… E se… Não… Merda, merda, merda, merda, merda! Não, se acalme, Alex! Você está sendo paranóico! Veneno? De onde elas tirariam veneno? Isso é loucura! Paranóia, paranóia…

Voltei a deitar, tentando varrer aqueles pensamentos absurdos.

Por mais absurda que fosse, contudo, a ideia havia cravado suas garras em mim, e em minha mente, sorrisos inocentes tornaram-se maquiavélicos, sussurros brotaram de lábios selados, suspeitas acumularam-se sobre suspeitas, até os contornos de uma conspiração ganharem vida na noite e me impedir de sequer piscar os olhos.

Mas e se… E se… E se… E se…

Cinco minutos depois, eu estava deitado em uma poça de suor, meu coração feito um pistão subindo e descendo no peito. O leve desconforto no estômago, talvez mais por efeito psicológico do que qualquer outra coisa, havia se transformado em uma dor tão intensa que só poderia concluir que havia ingerido o veneno mais potente e devastador.

Não pude suportar mais.

Com as mandíbulas duras de terror, eu levantei e tropecei até a porta.

Lá fora, o vento frio chicoteou meu rosto e gelou meu corpo molhado, mas eu não me importei. Estava tão apavorado que não sentia nada.

No banheiro, tremendo, com os olhos esbugalhados, me ajoelhei diante da privada e meti o dedo na garganta. Uma, duas, três vezes, regurgitando, até que a agonia foi demais e um jato negro de bile preencheu o vaso. Então fiz de novo, e de novo, e mais uma vez, até nada mais restar dentro de mim.

Quando terminei, sentei no chão e me encostei na divisória ao lado, ofegante, fraco e enjoado.

E lá fiquei até o amanhecer.

Despertei com a cabeça no piso, os ossos congelados e a barriga roncando. Mas ela parou assim que me levantei e encontrei no vaso as evidências de minha loucura da noite anterior.

Meu deus, pensei, pondo-me de pé. Como pude pensar que tinha sido envenenado? Toda aquela comida desperdiçada… Só posso imaginar que esse inferno finalmente começou a cobrar a conta da minha sanidade. Se eu não sair daqui logo eu…

Puxei a descarga.

Tudo o que se sucedeu, no entanto, foi um som de sucção.

Fui até uma das torneiras e confirmei minha suspeita.

A água tinha acabado.

Finalmente havia dado algum problema nas centrais de distribuição, e sem ninguém para resolver, o resultado só poderia ser aquele.

E a gente sequer pensou em estocar. Isso tá ficando cada vez pior.

Sai do banheiro.

O pátio da escola estava quente, abafado e penumbroso. Circulando no céu, nuvens como grandes blocos de carvão ocultavam o sol e sufocavam a atmosfera, preenchendo-a de energia estática e sombras.

Aquilo era bom. Pelo menos nos daria a oportunidade de pegar água da chuva.

Ao entrar na sala, bati a porta e falei para Otávio, deitado de costas para mim:

— Levanta. — Peguei minha garrafinha, ainda cheia pela metade, e gargarejei para me livrar do gosto de vômito da boca. — A água acabou e logo vai começar a chover. Vamos pegar cada balde, panela e pote e colocar lá fora.

Ele grunhiu para que o deixasse dormir.

— Acho que não entendeu a merda que estamos agora — falei, parando de pé ao lado dele. — Se antes já tava ruim, agora vai ser o sétimo inferno. Não dá nem mais pra puxar a descarga.

Empurrei-o de leve com o pé e ele rolou com as costas para o chão. Então o vi.

Estava mais pálido do que jamais esteve. Mais pálido do que qualquer pessoa jamais deveria estar. Seus olhos achavam-se revirados para cima, exibindo somente a parte branca cobertas de veias do fundo. Das narinas, fios de sangue desciam até se juntarem à bolhas vermelhas que se formavam nos lábios entreabertos.

Por um segundo, a sala de aula pulsou em minha visão e eu me inclinei para o lado, recuperando o equilíbrio.

— Ei, Otávio — chamei, numa voz titubeante. — Vamos, levanta. Vem me ajudar.

Mas ele não levantou.

— Para de ser preguiçoso. — Uma risada quebrada. — Como vai jogar vôlei comigo, cara? Apesar que vai chover então vai ser meio… meio…

Minhas pernas cederam e eu caí de joelhos, os braços inertes em frente ao corpo.

— Ei… Eles te mataram, não é? Aquela feijoada… Como não percebeu?

Por que não avisou ele das suas suspeitas? Os pensamentos me atravessaram como punhais.

— Elas odiavam a gente. — Eu fitava seu semblante inanimado. — Estava na cara. Era só você ter usado a cabeça.

Por que você não fez nada?

— Mas elas não seriam capazes de algo assim, não é? Foi ele, não é? Ele envenenou a cabeça delas, não é? Aquele professor…

Foi culpa sua.

— Foi culpa dele… — Cerrei os punhos sobre as coxas. — Culpa do Carlos… Dele, dele, dele… Ele vai pagar…

Saltei de pé, febril, zonzo, balançando para frente e para trás, meu sangue subitamente transformado em ira líquida queimando pelas veias.

— Ele vai pagar!

Corri até o refeitório.

A porta bateu com violência contra a parede e eu me precipitei para dentro como uma força da natureza.

O interior estava cheio de sombras e eu passei por cima das garotas, até onde Carlos estava deitado, e com os dentes cerrados tão firmes que doíam, chutei-o o mais forte possível entre as costelas, gritando:

— Seu filho da puta doente! O que você fez?! O que você fez?!

E chutei de novo, e de novo, e de novo, enquanto minha cabeça girava e eu perdia totalmente a razão.

Quando terminei, Carlos era somente uma mancha escura na penumbra, deitado de bruços, um líquido negro descendo dos lábios até o queixo e formando uma poça no piso.

Eu matei ele…, pensei, ofegante e atônito. Matei ele.

Dei um passo para trás, o que me fez tropeçar e cair em uma das garotas.

Desorientado no meio dos panos, usava os braços para me levantar, quando dei de cara com Carol.

Seus olhos jaziam esbugalhados em terror e ela olhava diretamente para mim, sem enxergar nada, enquanto sangue e saliva ainda borbulhavam, rompendo de seus lábios separados.

Gritei. Me joguei para longe. Rolei e parei em outra das garotas. Ana. Ela, também, morta. E Gabriela, ao seu lado. E Diana. Mortas.

Me pus de pé, entre os cinco corpos estirados no chão, com os olhos voltados para o vazio, algo murchando dentro de mim.

Então, calmamente, desloquei-me até a cozinha.

No cesto de lixo transbordado ao lado da geladeira deparei-me com meia dúzia de embalagens vazias de veneno de rato. Segurei uma entre as mãos por um longo tempo, sem nenhum pensamento específico em minha mente, sem nenhum sentimento, exceto total impotência.

Em algum momento, não saberia dizer quando, voltei a mim e, mecanicamente, comecei a juntar sobre o balcão tudo o que havia de alimentos aproveitáveis, o que acabou sendo somente meio pacote de 1kg de arroz, dois sachês de molho de tomate e um saco de pão de sanduíche vencido há três dias. Juntei tudo numa sacola de supermercado e saí.

Andei cambaleante sob a garoa fria, que como uma cortina transparente, encerrava aquele mundo feito de cinzas.

Pra onde tô indo?

A cada passo, meio oscilante e sem direção, eu era assaltado pela sensação angustiante de que eu era o último ser humano vivo sobre a face da Terra. E então, com um simples pensamento, algo instalou-se dentro de mim.

Só. Eu estou só.

A solidão mais absoluta, perversa e desoladora que já residiu na alma de um ser humano.

Meus pés pararam. A sacola escorregou de meus dedos. Eu olhei para cima, para o céu que escorria em minha testa, olhos, nariz, e bochechas, e gritei.

Gritei com toda a vida que restava em mim.


Notas Finais


Se quiserem, podem comentar do que gostaram mais, do que menos, o que poderia melhorar, o que gostariam de ver mais, etc. ;)


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