História Dead Alone - Capítulo 12


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Palavras 3.927
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Científica, Romance e Novela, Seinen, Slash, Survival, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Canibalismo, Estupro, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Necrofilia, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 12 - Marcha


Fanfic / Fanfiction Dead Alone - Capítulo 12 - Marcha

Desde que meus machucados haviam melhorado, eu evitara de pensar na minha mãe, na minha irmã. Estava com medo. Medo de ser devorado pela culpa de não fazer nada em relação a elas, medo de sair da segurança dos muros, medo de encarar os horrores que residiam lá fora. Por isso afastei-as para um canto obscuro de minha mente e me concentrei em outras coisas, na esperança de que, eventualmente, esquecesse. Agora, no entanto, da forma mais cruel possível, eu havia sido conduzido à conclusão de que nesse novo mundo, não importaria o quão seguro eu me sentisse, nem o quanto eu me esforçasse para desviar os olhos; a morte me acharia, e não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso.

Eu podia continuar ali na escola, em companhia de seus corpos prestes a apodrecerem, embriagado pela tristeza e desespero, até o momento de morrer de fome ou de cometer suicídio, mas eu era covarde demais para tomar uma decisão dessas.

Mesmo que tudo estivesse perdido e nada restasse; mesmo sabendo que, a partir dali, eu só encontraria quadros de tons cada vez mais negros, eu ainda assim buscaria o menor dos motivos, a menor das fagulhas, para continuar prolongando minha existência. Poderia ser comparado a alguém preso no fundo de um buraco, com apenas uma colher e a escolha de continuar cavando, mais e mais fundo, até não haver luz alguma acima de si. Essa era, ao mesmo tempo, minha benção e maldição.

Por isso juntei apressadamente as coisas e joguei-as dentro da mochila de uma das garotas. Peguei toda a água que seria capaz de carregar sem prejudicar minha mobilidade, e sob a chuva torrencial, dirigi-me ao canto mais afastado do muro da escola.

Lá, fiz uma espécie de escada, empilhando uma, duas e depois três mesas. Em seguida, completamente encharcado, subi para observar a situação.

A rua adjacente à escola era, na verdade, uma travessa, curta e estreita. Seguindo à esquerda, ela terminava em uma interseção em T, enquanto à direita, ia direto para a avenida que eu havia atravessado com a camionete até acertar a frente da escola.

Em toda sua extensão, havia somente um carro estacionado, um Fiat Uno azul, quase na esquina da interseção. A minha frente, do outro lado da travessa, o Centro de Distribuição dos Correios se mostrava com sua fachada de granito e portas duplas fechadas.

Quanto aos meus predadores, contava três na calçada esmurrando o portão de rolar, a uns cinquenta metros à direita de mim. Com a chuva, e se eu fosse rápido o bastante, talvez não reparassem em mim. Caso contrário, estaria com a vida em risco nos primeiros segundos fora daquele lugar.

Se fosse em um dia normal, partindo dali, eu poderia chegar na casa de minha mãe simplesmente entrando à esquerda, depois à direita até sair na avenida, então pegaria à esquerda novamente e seguiria nessa direção pelos próximos quinze ou vinte minutos.

Agora, é claro, eu não faria isso. Não tinha dúvida de que a a avenida estaria fervilhando daqueles monstros. O que me deixava com a opção de investir pelas ruas secundárias. Seria mais demorado, contudo, apresentava vantagens. Elas não eram asfaltadas, o que certamente significaria um menor número de pessoas circulando por ali na hora em que isso tudo começou, o que, por sua vez, representava menos zumbis e menor perigo para mim. Eu só podia agradecer pelo fato de que aquela situação de merda havia se iniciado no meio do inverno. Se tivesse no verão, a cidade estaria com o triplo de habitantes, eles vindos de todos os cantos do estado, principalmente da capital. Seria um verdadeiro vespeiro de aberrações.

Afinal, com os dedos pendurados na ponta do muro, estiquei-me todo para o outro lado dele, e então me soltei.

Após uma breve queda, meus pés tocaram o chão. Nenhum deles no portão se apercebeu de mim. Corri.

Só então me lembrei que ao lado do Centro de Distribuição ficava a entrada de emergência do Hospital de Tramandaí. Atravessei correndo pela frente dela, do outro lado da rua. Lá dentro, quase no bréu total, uma dúzia de figuras moviam-se de um canto para o outro. O menor dos estímulos e eu tinha certeza de que, em questão de segundos, estariam batendo os pés atrás de mim mais rápido do que leões em uma caçada.

Felizmente, não houve problema, e assim que eu alcancei a interseção, deslizei para a esquerda, e depois logo para a direita, numa rua pavimentada com pedras desiguais. Ela seguia paralela à avenida por uma boa porção, então tudo que eu precisava fazer por enquanto era chegar ao final dela.

A tal rua era ladeada por casas, a maioria de um ou dois andares, todas com pequenos pátios na frente protegidos por muros, grades ou cercas dos mais variados materiais. Em algumas dessas casas, sobre a grama ou as pedras do pátio, corpos dilacerados de cachorros repousavam, cobertos de vermes e moscas. Imaginei-os no dia de suas mortes, correndo alegres para seus amados donos, apenas para serem atacados brutalmente, em traições que sequer podiam compreender.

Como eu não praticava exercícios há bom tempo, assim que entrei nessa rua, meus pulmões me forçaram a parar de correr e avançar num ritmo de caminhada. Não havia sequer um deles à vista, contudo preferi avançar com cuidado, prestando atenção em todos os lados. Sabia de sua velocidade, e carregando aquela mochila, não teria a mínima chance se precisasse fugir à pé.

Enquanto avançava por entre as casas, o céu exibia a cor de uma velha televisão fora de sintonia. Poças começavam a se formar nos cantos das calçadas. Estava começando a nutrir a esperança que não encontraria nenhum deles, até que, no momento em que atravessava a frente de um muro de vidro, uma mulher gorda de sutiã pulou para me atacar.

Sua cabeça se chocou contra o vidro com tamanha brutalidade que, quando ela tornou a levantar, um dos glóbulos oculares pendia para fora, segurado somente por um fio vermelho. Ao mesmo tempo, uma baba negra vazava de sua boca e pingava nos seios e barriga.

Na casa seguinte, foi a mesma coisa. Assim que passei pela frente, outro surgiu e se jogou na minha direção, dessa vez sendo impedido por grandes metálicas tão barulhentas que me fizeram voltar a correr. A partir daí, foi uma verdadeira corrida através de um pesadelo.

Eu me afastei para o meio da rua, enquanto de todos os lados, de quase todas as casas, aquelas criaturas emergiam, lívidas, cobertas de veias negras, todas berrando furiosas e se arremessando como bestas nos portões diante das calçadas. Um deles bateu contra uma cerca de madeira e ripas se partiram, ameaçando abrir-lhe passagem.

Então eu ignorei a pontada no abdômen e acelerei, sem olhar mais para os lados. Como um cavalo de antolhos, encarava apenas as pedras à minha frente. Podia jurar que havia pelo menos uma centena deles ali, presos. E pelo menos uns vinte na minha cola. Mas não tinha coragem de virar o pescoço para confirmar, então seguia em frente, a mochila cada vez mais pesada acabando com meus ombros.

Após o que pareceram horas, a rua terminou e desemboquei em outra avenida. De um lado, no horizonte entre as casas, a linha do oceano elevava-se contra o cinza do céu. Do outro, as duas faixas de asfalto seguiam em linha reta, passando pelo Fórum e o quartel da Brigada Militar, situado na esquina da próxima avenida.

Subitamente recordei o que haviam dito na camionete, que havia um bando de cabos esperando no quartel pela ajuda. Imaginei o que teria acontecido com eles. Se também haviam perdido a cabeça e matado uns aos outros. Cogitei passar por lá para talvez arranjar uma arma ou algo assim, mas o mais provável é que mais de uma pessoa também tivesse tido essa ideia, e o que eu iria me deparar seria, na verdade, uma multidão de infectados preparada para me trucidar.

Deixei de lado isso e entrei para a esquerda nessa avenida, e, em seguida, novamente para direita. Precisava continuar reto, mas evitando áreas que no dia-a-dia atraiam muitas pessoas, e o Fórum era certamente uma delas.

Antes de conseguir entrar à direita, no entanto, fui avistado por dois garotos de não mais de treze anos. Vestiam camisa e bermuda, descalços, com o mesmo aspecto abominável dos seus semelhantes. Estavam vagando sem rumo em uma das vias, contudo, assim que me viram, engataram a última marcha e dispararam na minha direção.

Ao mesmo tempo, precipitei-me pela calçada da rua o mais rápido que podia, com seus gritos açoitando minhas costas e extraindo de mim uma velocidade que eu nem sabia ser capaz de atingir. O problema é que vinte segundos depois eu estava prestes a desmaiar com a dor entre as costelas e os pulmões do tamanho de castanhas, enquanto eles continuavam no mesmo ritmo alucinado, aproximando-se de maneira contínua e inexorável.

Quando, entre um fôlego e outro, olhei por sobre o ombro, eles já estavam alongando os braços para me agarrar. E quando, segundos depois, algo roçou a mochila às minhas costas, eu imediatamente, em um movimento enlouquecido, desvencilhei-me dela e apertei o passo.

Houve o som da mochila atingindo a calçada e, em seguida, um rosnado e o som de alguém indo ao chão. Dei uma breve olhada para trás. Um deles tropeçara na mochila. O outro moleque, no entanto, seguia em meu encalço.

Numa tentativa impensada de despistá-lo, saltei por cima do capô de um jeep estacionado à beira da calçada, mas isso só serviu para que eu encurralasse a mim mesmo, pois assim que me joguei por cima do carro e depois pelo parabrisa até o teto, não havia maneira de voltar a correr, não restando alternativa além de ficar ali, de pé feito um espantalho, enquanto a criatura esticava os braços ao lado da porta do motorista e gritava. Logo seu camarada também chegou e então os dois empenharam-se na tarefa de rodear o carro, pular freneticamente e se bater contra os vidros das janelas.

Aos meus pés, o jeep se agitava suavamente de um lado para o outro. Estava de tal forma exaurido que o ar entrava em meus pulmões como se fosse por um canudo. As juntas e as batatas das pernas pareciam feitas de madeira flamejante. Se eu pulasse para o chão, não daria dois passos antes de ser pego.

Olhei ao redor.

Diante da calçada que o jeep estava, havia uma série de pequenas casas de dois andares, todas exatamente iguais, coladas umas às outras, seus pátios da frente separados por barras metálicas cinzas e azuis.

Talvez, se eu pegasse impulso, conseguisse me pendurar no portão e escalá-lo antes que eles me levassem ao chão… Da altura que eu me via em cima do carro, as estacas metálicas do portão, cujas pontas eram redondas e lisas, ficavam na altura dos meus joelhos. Não conseguiria cair direto dentro do pátio, mas pelo menos na metade das barras sim.

Subitamente, um som de vidro quebrado me atingiu e o carro inteiro começou a apitar como se estivesse numa avenida de samba. Sobre o suave murmúrio da chuva, o barulho violava o silêncio virginal da rua e parecia se alongar pelo quarteirão inteiro. Sem demora, divisei, vindas de a ambos os lados, grotescas figuras atraídas pelo alarme. Me apressei.

Parei na ponta do teto do carro e peguei impulso para saltar. Dei dois passos rápidos, nos quais quase escorreguei na superfície molhada, e no terceiro, impulsionei-me através do ar, por cima das cabeças dos dois zumbis, até me chocar com as barras, muito mais baixo do que eu esperava.

Não havia tempo de olhar para trás, para as criaturas rosnando, de modo que, como um macaco bêbado, estiquei desesperadamente as mãos para cima, procurando apoio a fim de me alçar. Afinal minhas mãos atingiram o topo das barras e eu empreendi toda minha força. Mas não me movi. Algo segurava meu pé esquerdo. Com uma careta, olhei para baixo.

As duas mãos pálidas de um dos moleques seguravam meu tênis. O outro tentava se juntar a ele, mas felizmente não havia espaço. A força com que ele havia me pego era absurda. Eu agitei a perna, dando tudo de mim para trazê-la para cima, mas foi em vão. Pensei em chutá-lo com o pé livre, no entanto, temi que caso o fizesse, o outro seria capaz de agarrá-la e, com os dois me puxando, seria o fim.

Eu continuava agarrado nas grades enquanto meus ombros e braços começavam a latejar com uma dor surda, quando, subitamente, a pressão para baixo sumiu e me vi impelido para cima. Com um movimento atrapalhado, atravessei pelo topo das grades, batendo a testa e depois os joelhos nela, e despenquei para dentro.

Minhas costas atingiram a grama com um baque. O pouco de oxigênio que me restava nos pulmões pareceu se dissolver junto com os próprios pulmões e eu rolei de um lado para o outro, gemendo e aturdido demais para levantar. Numa dessas roladas, acabei indo para perto das grades, no que meia dúzia de mãos se precipitaram pelos vãos e me agarraram pela parte da frente do casaco.

Gritando em absoluto terror, tentei me livrar deles, mas não havia maneira. Apoiei as pernas contra os ferros, tentando me libertar, mas eram muitos e mais vinham atrás. Fiz a única coisa que podia. Enquanto me puxavam, usei as mãos para levantar o casaco por cima da cabeça e deslizei para fora dele, ao mesmo tempo em que, com as pernas, jogava a mim mesmo para trás.

Meus braços, no entanto, ficaram presos nas mangas, e por um segundo fui arrastado na direção das grades, para suas mãos ansiosas. Por sorte, havia muitos deles puxando de várias direções, impedindo-os de arrastar o casaco para fora e mantendo-o preso nas grades, o que me deu tempo de me desvencilhar das mangas e pular para trás.

— Oh Jesus, oh merda! — exclamei, livre de pé sobre a pequena extensão de grama, rindo nervosamente.

O alarme do carro, contudo, continuava ligado, atraindo cada vez mais infectados para a frente da casa. Não podia demorar. A última coisa que eu desejava era ficar preso de novo.

Com a meia de um pé chapinhando na grama molhada, fui na direção da porta, agarrei a maçaneta prateada e empurrei-a.

Mas ela não cedeu. Trancada. Me virei.

Havia mais de dez deles espremidos contra o portão.

Trepei nas grades para o terreno da casa da direita, que era igual a que eu estava, e desci na grama, com eles me seguindo na calçada.

Fui na porta. Também, trancada.

— Mas que…

De novo, saltei as grades para a próxima.

Forcei a maçaneta. A mesma coisa. Dei um chute na porta.

— Filhas da puta!

Só então me dei conta de que havia uma janela de guilhotina ao lado e que eu poderia muito bem quebrá-la.

Sem perder tempo, agarrei um dos vasos de plantas que decoravam os cantos dos muros e, com as duas mãos, joguei-o através do vidro.

Ele se espatifou para dentro e cortinas amarelas esvoaçaram. Depois de confirmar que nada se movia no interior, meti a mão pelo vão dos cacos e destranquei-a.

Mergulhei lá dentro.

A única iluminação provinha do dia nublado que se infiltrava pela janela quebrada, de modo que eu só enxergava vagamente a mobilia.

A casa era constituída de um cômodo alongado, cuja parte mais próxima da porta era a sala de estar, com sofá, armário e televisão, e a parte de trás a cozinha, os dois separados por um balcão. Num canto, uma escada de metal branca conduzia ao segundo andar. Toda a casa fedia a mofo e poeira.

Avancei direito para a cozinha. Só quando já estava abrindo a geladeira à procura de um pouco de água me atingiu o pensamento de que podia haver alguém ali dentro. Na verdade, o mais provável é que realmente houvesse, visto que o lugar se mostrava limpo demais para estar abandonado.

Com essa nova possibilidade em mente, tirei o tênis que me restava e subi a escada o mais silenciosamente possível.

No segundo andar, deparei-me logo de cara com um estreito corredor, e no final dele, duas portas, uma de cada lado.

Sem nenhuma luz, eu enxergava menos ainda lá em cima, mas avancei mesmo assim, às apalpadelas, até o fundo.

Uma das portas, a da direita, estava entreaberta. Espiei pelo vão e pisos brancos no chão e nas paredes me indicaram que ali era o banheiro. Me virei para a outra. Tentei empurrá-la, mas não se moveu. Estava prestes a abaixar a maçaneta quando pensei melhor e decidi bater antes. Se houvesse alguém, ou alguma coisa, com certeza faria algum movimento e eu daria o fora dali no mesmo instante.

Bati usando os nós dos dedos. Nem o menor ruído. De novo, mais forte. Quando não houve nada, abri-a.

Um guarda-roupa contra a parede, uma cama de casal no meio, lençóis amarrotados e uma televisão sobre uma cômoda, em frente à ela. Nada fora do comum. Quem quer fosse o morador, ele não estava ali. Retornei ao primeiro andar.

Na geladeira, achei uma garrafa pet com água e bebi-a pela metade. Em seguida verifiquei o que mais tinha ali. Quase pensei que fosse a minha geladeira, aquela. Havia presunto, queijo, alguns tomates, salsicha, leite, hamburgueres. Tudo estragado e fedorento.

Bem, o que eu esperava, não havia energia há pelo menos uma semana. Fechei a porta e tentei a sorte nos armários.

Como havia perdido a mochila, precisava levar comigo pelo menos alguma comida, em caso de emergência. Contudo, não havia mochila ali, e uma sacola serviria apenas para fazer barulho e me atrasar. Decidi comer o que tivesse e me preocupar com o resto depois.

Os armários se mostraram tão miseráveis quanto a geladeira. Fora pacotes de macarrão instantâneo e bolachas de sal, só havia potes e uma ou duas panelas.

Depois de comer as bolachas, agarrei uma faca de carne de uma gaveta, e rumei para a janela ao fundo da cozinha. Abri as venezianas.

A uns dois metros, havia um muro de pedra da altura da cintura, pintado de amarelo. Além dele, um mato alto percorrido por vários cabos, nos quais peças de roupa agitavam-se aos prazeres do vento, molhadas e encardidas. A casa, de alvenaria, estava afogado em todo aquele verde, a porta e as janelas do fundo abertas como bocas negras.

Antes de sair dali, procurei no quarto do segundo andar um par de tênis. A última coisa que queria era ter de correr por aí descalço.

Na parte debaixo do guarda-roupa, em cima de umas caixas, encontrei par de Nikes falsos, preto com detalhes laranjas. Um pouco apertados, mas melhor que nada.

Pulei da janela da cozinha para o muro do vizinho, e dele para o mato que alcançava os joelhos. Atravessei-o com um leve receio de que pudesse haver uma cobra rondando por ali, que logo foi substituído por um receio muito maior quando, contornando a casa, escutei algo se quebrando no interior dela e, em seguida, um grunhido.

Acelerei o passo.

O muro na parte da frente era um pouco maior, permitindo somente vislumbrar o telhado das casas vizinhas. Subi nele e verifiquei os arredores.

A rua ali era de asfalto e bem mais larga, de modo que foi uma surpresa não encontrar uma grande quantidade de carros, ou acidentes. Durante a maior parte dela, tanto de um lado quanto de outro, seguia quase vazia.

Á direita, observei um gato sarapintado fugindo de cinco infectados, até que ele escalou o muro de uma casa e saiu do alcance de suas mãos. À esquerda, a mais ou menos uns cem metros, uma única figura de branco andava de um lado para o outro no asfalto, agitando a cabeça. Por um segundo pensei que fosse uma mulher perturbada com alguma coisa, mas a pele amarelada e o comportamento errático não deixavam dúvida.

Aquilo não era bom. Eu precisava seguir na direção dela, mas de jeito nenhum que não seria notado, não com ela indo de um lado para o outro daquele jeito. Se batesse de frente, ela saltaria sobre mim muito antes de eu ser capaz de enterrar a faca em sua cabeça. Sem mencionar que eu saíra da escola tão fora de mim que esquecera de levar as luvas e máscaras do laboratório, então mesmo se tivesse sucesso em matá-la, poderia terminar infectado de qualquer jeito. O que me deixava só com uma escolha.

Engatinhei sobre o muro até o terreno do vizinho, depois passei para o muro dele e assim continuei, a fim de evitar a mulher.

Algumas casas não tinham muros, apenas grades, de modo que eu precisava descer em seus quintais e depois dar um jeito de trepar de novo rumo à próxima. Outras exibiam os portões abertos e rastros de sangue que seguiam para a calçada ou para dentro das casas. Numa delas, eu estava atravessando o pátio na direção do próximo muro quando um sujeito emergiu da escuridão de uma porta e quase arrancou um pedaço da minha perna antes que eu pudesse escalar.

Pouco tempo depois, alcancei a casa diante da qual a criatura perturbada zanzava. A parte frontal era vasta e os muros de pedra polida negra, altos e largos. Nele havia duas entradas, uma para carros, que se conectava a uma garagem fechada, e outra menor, a qual seguia por um caminho de cascalho até a porta da casa. Ela estava escancarada, e várias pegadas vermelhas marcavam o concreto do pátio em sua direção.

Decidi que de jeito nenhum sairia de cima daquele muro, e comecei a contorná-lo pelo lado da calçada, a fim de chegar na próxima casa. Calculei que era alto o bastante para que mesmo pulando, apenas as pontas dos dedos da mulher tocassem o topo. Apesar disso, não pude evitar de congelar no lugar e engolir em seco quando, do outro lado da rua, debaixo da chuva, a coisa se virou e me lançou um olhar sinistro.

Devia contar uns 30 anos antes de ser contaminada. Tinha um rosto de traços delicados, um nariz arrebitado, rímel negro e borrado acentuando o azul de seus olhos. Os cabelos lisos jaziam colados ao pescoço, o qual era amarelado e denso de veias escuras. Abaixo dele, um vestido branco imundo contornava seu corpo magro e descia-lhe até joelhos repletos de lacerações. Poderia facilmente ser considerada bonita, não fosse a expressão consternada deformando-lhe a face e o líquido negro que, a todo momento, corria dos lábios.

Ao me ver, imaginei que fosse correr em minha direção, gritando e rosnando, contudo, para minha surpresa, ela não o fez. Ao invés disso, parou e fitou-me, um brilho confuso e insano nos olhos que se moviam sem parar. De súbito, com uma voz que parecia unhas raspando um quadro-negro, berrou:

— AAAaaaaMmmOooorrRRR.

Minhas pernas bambolearam e quase perdi o equilíbrio. Apertei o punho da faca, enquanto a mulher avançava com passadas longas e rápidas, seus lábios repetindo medonhamente a palavra.

Diante disso, a coragem me desertou por completo, e antes que me desse conta, estava pulando para dentro do pátio.

Amorteci o choque nas pernas agachando-me e me deixando rolar sobre a grama. Em seguida, pus-me de joelhos e lancei um olhar sobressaltado para a porta da casa, um retângulo escuro, incógnito, povoado de ameaças latentes. Mas nada indicava que algo estava vindo.

Suspirei, limpei a água dos olhos e virei-me para o muro.

Em cima dele, a mulher me observava, o pescoço ligeiramente inclinado, o olhar vidrado que parecia enxergar sem ver.

— AaaAAammMoorRrR?



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