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História Dear Future Husband - Capítulo 4


Escrita por:


Notas do Autor


Sim, eu vou ter a cara de pau de aparecer depois de quase um ano sem atualizar, pedindo desculpinhas e torcendo pra se essa joça aqui tiver algum leitor, pra não desistirem da história. Prometo que agora vai.

No último capítulo, D3 nem tinha saído ainda! Confesso que isso foi algo que atrapalhou um pouco, porque eu tive que reformular muitas coisas que já estavam escritas. Inclusive, o capítulo anterior era a minha versão do pedido de casamento deles antes de ver aquele pedido maravilhoso de perfeito do filme. Não vou mudar as que já estão postadas, mas na minha cabeça aquele pedido mais íntimo aconteceu pouco antes do pedido público, e daí o do filme teria sido o "oficial" televisionado pro povo ver e tudo, mas ela já tinha dito sim nos bastidores (segundo esta fanfic), porque de agora em diante eu quero tentar deixar o mais canon possível, de acordo com a vida após o terceiro filme.

Esse capítulo foi um pouco difícil de sair, quebrei muito a cabeça para pensar num contexto que encaixasse com a próxima parte da música e combinasse com o clima da história.

Boa leitura.

Capítulo 4 - 3 - Cause if you treat me right, I'll be the perfect wife


~ Cause if you'll treat me right
             I'll be the perfect wife

Buy groceries
             Buying what you need ~

 

Estava quente demais para uma tarde de Setembro.

Mesmo que o outono já devesse ter começado a se estabelecer, o sol ainda queimava tanto quanto tinha queimado há dois meses atrás, no auge do verão. Aquilo irritava Mal profundamente, ela tinha que ficar passando aquele protetor que deixava sua pele escorregadia e com aquele cheiro doce enjoativo. Ela não via a hora daquela onda de calor passar e o inverno chegar.

Ela estava suando quando finalmente chegou ao palácio. Pulou da moto rapidamente, desesperada para tirar o capacete e permitir que sua testa e nuca respirassem, e então pegou a embalagem que trazia na garoupa e entrou. Passou direto pelas duas primeiras salas de estar, biblioteca, sala de música, de reuniões, indo direto em direção a sala de jantar menor, que estava vazia, e suspirou.

Ainda não tinha se acostumado totalmente com o lugar. Há anos ela conhecia cada canto do palácio, é verdade, mas há apenas dois meses tinha passado a ser dona de tudo aquilo também. Tentava não pensar muito sobre isso.

— Majestade! — Madame Samovar exclamou quando ela colocou a cabeça dentro da cozinha, observando o lugar.

— Oi! — Mal pigarreou, um pouco sem jeito. Ela escondeu a embalagem que carregava atrás de si, para não ser vista. Madame Samovar odiava quando levavam comida de fora para o palácio, dizia que era uma ofensa à comida dela. A cozinha espaçosa estava vazia e sem movimento, apenas a governanta se movia pelo espaço entre a pia e a bancada com um ventilador ligado em sua direção. — Você sabe se o Ben almoçou aqui?

— Não, senhora. Os pais dele fizeram a refeição há mais de uma hora, mas o Rei não saiu de seu gabinete — a mulher suspirou, parecendo tão aborrecida pelo fato quanto Mal. — Se me permite dizer, majestade, estou preocupada com esse menino. Faz dias que não o vejo fora daquele escritório. Ele está trabalhando demais. Demais!

Mal sorriu. No último mês ela vinha trabalhando na árdua tarefa de fazer os empregados do palácio não serem tão formais com ela, estabelecendo uma relação amigável com eles. Descobriu que ser amiga deles era fácil, impossível era fazê-los parar de chamá-la de 'majestade' e outros títulos, mas vinha fazendo bastante progresso quanto a expressões e conversas informais.

— E eu não sei? — Mal retrucou no mesmo tom de voz. — Não sei o que fazer, Madame Samovar. Alguma dica?

— O pai dele era exatamente assim em épocas de tribulação no reino. Todo probleminha era tratado como uma guerra. Eles se preocupam muito, sabe? — Madame Samovar confidenciou. — Eu não faço ideia do que está levando o rei a se comportar como o pai dele agora, mas sei que se tem alguém que consegue tirá-lo de lá é a senhora, majestade.

— Mal — a nova rainha repetiu pela milésima vez, rolando os olhos. Provavelmente não adiantaria de novo mas não custava tentar. — Meu nome é Mal, Madame Samovar. Pode me chamar assim.

A governanta lhe lançou um olhar atravessado e então voltou a mexer o bule de café diante de si.

— Se for agora talvez possa convencê-lo a tomar pelo menos o café da tarde. Diga a ele que fiz pãezinhos doces, majestade.

Mal suspirou, resignada, e apenas concordou antes de seguir seu caminho até o gabinete real. Ela tinha aprendido naquele pouco tempo que o palácio sempre parecia vazio após as refeições. Seus sogros saiam juntos após o almoço todas as tardes, e os funcionários sumiam de vista, a menos que fossem chamados. Com exceção do Zip, que volta e meia aparecia em algum lugar.

A Rainha já tinha se acostumado com a nova rotina, e gostava dela. Desde que se casaram, Mal e Ben não tinham adquirido o hábito de estarem longe um do outro. Sempre inventavam algo para fazer entre as brechas do expediente; quando não saiam para algum passeio, ficavam pela casa assistindo filmes, inventando alguma brincadeira ou que quer que fosse, juntos até que estivessem prontos para subir e estarem juntos antes de dormir. Mas, na última semana, não era assim que estava acontecendo. Pelos últimos sete dias, Ben almoçava e jantava com pressa e corria de volta para o gabinete onde passava boa parte da noite, e Mal ia se deitar sozinha. Isso quando ele comia, o que nem sempre acontecia. E ela não estava gostando nada daquilo.

Mal parou na porta do gabinete com os ouvidos próximos da madeira, em silêncio, tentando ouvir alguma coisa. Seu marido parecia estar murmurando números em voz alta. Ela tomou coragem e deu três batidinha na porta, ouvindo um “Entra, amor” logo em seguida.

Ben estava sorrindo levemente para ela quando entrou.

— Como sabia que era eu? — ela perguntou, curiosa, enquanto se aproximava da grande mesa de mogno repleta de papéis onde o rei se escondia.

— À essa hora, quem mais poderia ser?

Ela deixou a caixa em cima da mesa, se sentou no braço estofado da cadeira, sendo prontamente amparada pelo braço dele que a envolveu, e o beijou.

— Eu já disse que você não precisa bater pra entrar aqui — ele disse, e seu polegar ainda descansava na bochecha dela.

— E se você estiver em uma reunião importante? E se eu atrapalhar?

— Se for uma reunião importante, você provavelmente deveria estar comigo. E a minha rainha nunca atrapalha — ele beijou suas mãos unidas.

— Isso significa que não estarei atrapalhando se te puxar daqui agora e te arrastar pro quarto?

Ele fez uma careta e olhou para os papéis.

— Eu queria dizer que não, mas...

— O reino precisa de você, eu sei — ela suspirou. — Mas se você estiver exausto, não poderá ajudar em nada, Ben. Você não descansou direito por nenhum dia dessa semana, está indo dormir de madrugada e acordando antes do sol nascer, não pense que eu não percebi. E hoje, nem jantou.

Foi a vez dele de suspirar, porque sabia que ela estava certa. Estava se sentindo mais sobrecarregado do que nunca, mais até do que no seu primeiro ano como rei, que não tinha sido nada fácil, ou o ano em que a barreira foi quebrada, outro momento conturbado.

Mal afastou as folhas amontoada na frente dele e puxou a caixa que tinha trazido para o centro da mesa, sua arma secreta contra a teimosia do rei. Ao abrir a embalagem, o sabor tentador da sobremesa dominou o cômodo.

— Pudim de chocolate! — ela exclamou, orgulhosa, apontando para o doce. — Tenho certeza de que ganha do de baunilha.

Quando estendeu a colher descartável para ele, entretanto, seu marido não estava sorrindo. Olhava para o pudim como se estivesse se sentindo culpado, o que não fez o menor sentido para Mal.

Eles tinham criado uma nova meta como casal desde a lua de mel: experimentar todos os doces que existiam. Desde que a viagem tinha proporcionado aos dois a maior quantidade de sobremesas que ambos já tinham visto, eles decidiram ir atrás de todos os que nunca tinham experimentado antes e a lista era imensa. Normalmente eles iam atrás dos doces juntos, mas uma vez que agora Ben não podia se ausentar de suas responsabilidades, ela pensou que poderia fazer aquela surpresa pra ele.

— O que foi? — ela perguntou ao observar a expressão dele. — Pudim de chocolate era o próximo da lista.

— Eu sei, me desculpe — o rei passou a mão no rosto, e Mal percebeu o quanto ele realmente estava exausto. — É que eu não acho justo...

— Comer uma regalia quando o reino está diante de um racionamento iminente?

— Exatamente.

— É por isso que você não jantou hoje? — ela questionou, preocupada.

— Talvez.

Mal engoliu em seco e colocou a caixa de lado. Ele entendia, e deveria ter notado antes. É claro que ele se sentiria assim, porque era como líderes de verdade de sentiam. Ela tinha recordações de si mesma recusando-se a ficar com o melhor da pilhagem da Ilha enquanto Evie, Carlos e Jay não tivessem o que comer também. Aquilo era senso de proteção com os seus, e de justiça também. Ela só não pensou que a situação do reino fosse tão grave.

— Piorou tanto assim?

Ele confirmou com a cabeça.

— Os campos não vingam, a terra não quer frutificar de jeito nenhum — ele apoiou a cabeça entre as mãos, na mesa. — Por enquanto ainda tem o bastante pra todos, mas não por muito tempo.

Eles já tinham conversado sobre aquilo antes. A onda de calor inesperada tinha reduzido as colheitas pela metade, e os estoques que agora ainda mantinham o reino vivo não durariam até o inverno, e se não resolvessem aquele problema agora, enquanto ainda estavam no outono, em breve não haveria como alimentar todo o reino.

Ela se acomodou melhor na cadeira ao lado dele, e puxou novamente os papéis para o centro da mesa.

— Ben! — ela exclamou, depois de alguns minutos olhando os números. — Você não me disse que a situação estava tão séria assim. As provisões estão diminuindo bem mais rápido do que previmos.

— O calor faz as pessoas gastarem mais energia, então elas consomem mais — ele explicou.

— Por que não me disse nada antes?

Ele deu de ombros.

— Você já tem bastante coisa pra fazer.

— Aparições públicas e discursos em inaugurações não é o que eu chamo de ‘muita coisa pra fazer’, Ben. Isso é importante.

— Tudo é importante.

— Não sei não, isso me parece bem mais importante — ela argumentou.

— Eu consigo resolver, só preciso pensar um pouco mais.

Ela puxou o rosto dele para poder olhar em seus olhos. Ben não estava só sobrecarregado, ela podia ver em seu olhar. Estava com medo também. Ele tinha medo de falhar como líder, e isso era uma coisa que ela podia entender mais do que qualquer um.

— Me deixe ajudar — ela pediu.

Ela soube que ele cederia um pouco quando cobriu a mão dela com a sua e forçou um sorriso.

— Tenho uma reunião com o conselho de regentes amanhã. Pode ir comigo?

Ela sorriu.

— Você mesmo acabou de dizer que se existe uma reunião importante, eu devo estar nela com você. E estarei — ela confirmou, então começou a ajuntar os papéis diante deles. — E o primeiro passo para presidir uma boa reunião, é estar saudável e descansado. Então agora vamos comer algo que preste e então subir, daí você vai tomar um banho e cair de cara no travesseiro.

— Ainda são duas da tarde.

— E você não dormiu nas últimas duas noites. E se eu te deixar continuar aqui, você só sai amanhã na hora da reunião. Quer encarar o conselho caindo de sono?

— Mal...

— Sem discussões. Isso estava naquela apostila ridícula das aulas de política que tive com sua mãe, você não quer ir até ela agora e dizer a ela que estava errada, quer? Pensei que não mesmo.

Ele se rendeu com uma risadinha, e levantou-se ao mesmo tempo que a erguia do braço da cadeira direto para seus braços.

— Eu jamais ousaria desobedecer a minha rainha — ele usava aquele termo sempre que podia e o máximo de vezes que conseguia desde o casamento. Soava maravilhosamente bem para ele.

A rainha sacudiu os pés enquanto era beijada, exigindo ser posta no chão.

— Benjamin — ela murmurou, tentando manter o tom sério enquanto se esquivava dos beijos dele. — Você não vai me enrolar, vai comer alguma coisa e tomar um banho antes de ir descansar. Posso ouvir sua barriga roncando daqui.

Ela se contorceu até alcançar novamente o chão, e ele a olhou com aquele brilho que lhe dizia que ela tinha vencido a discussão. De novo.

 

{...}

Mal tinha entrado naquela sala de reunião se sentindo confiante, bem disposta e otimista de que sairiam de lá com uma solução.

Agora, meia hora depois do início dela, estava com dor de cabeça, impaciente e com muita vontade de dar um soco em alguém.

— Pessoal, por favor, um de cada vez! — Benjamin pediu pela milésima vez, enquanto Mal se afundava mais em sua cadeira.

Todos estavam falando ao mesmo tempo, gritando números e datas e nomes que eram incompreensíveis no meio de toda a algazarra. Eles já estavam lá gritando desde antes de Mal e Ben chegarem na reunião, e continuaram gritando logo depois.

— Eles são sempre assim? — Mal perguntou aos sussurros, olhando para Ben com certo desespero. Era a primeira reunião oficial dela como rainha e não sabia o que fazer.

Ela sabia o que queria fazer. Mas provavelmente não era a mesma coisa que devia fazer.

— Só quando discordam em algo — Ben respondeu no mesmo tom, desistindo de tentar estabelecer alguma ordem. — Alguma dica?

— De como controlar animais selvagens? Claro. Mas você não vai gostar.

Ben estendeu a mão em direção à mesa dos gritos.

— Vai fundo.

Mal estreitou os olhos para ele, mas se levantou da mesa e, com os dedos indicadores, assoviou o mais alto que conseguiu.

Aquilo teve efeito, e de repente uma dúzia de príncipes estavam encarando-a. Ben aproveitou a brecha de silencio para tomar a frente, e se levantou.

— Senhores, eu sei que os números estão abaixando rapidamente. Eu tenho os relatórios bem aqui. Mas preciso pedir que tenham calma para que possamos encontrar uma solução, foi pra isso que chamei vocês aqui.

— Calma? Você nos pede calma quando em pouco mais de três meses podemos ter que ver nosso povo passar fome e racionar comida?

Mal tinha decidido que não gostava da Philip desde muito antes de conhecê-lo, mas ele não fazia muita coisa pra ajudar a opinião dela a cada vez que se encontravam.

— Não podemos plantar mais? — Mal perguntou, incomodada como a coisa não parecia tão impossível assim de se resolver, mas os olhares que recebeu indicavam que os regentes não pensavam igual a ela.

— Perdemos um terço da colheita esperada e nada mais está dando sinal de crescer, majestade. Já tentamos, a semente nem germina — foi Arthur quem respondeu, e Mal sabia que era porque Camelot abrigava os maiores campos, portanto era a província responsável pelos principais grãos. — Nem os brotos na estufa fechada estão aguentando.

— Ok. E as frutas? Animais? Não vivemos só de grãos e vegetais — ela tentou novamente, e a expressão no rosto do seu marido lhe indicou que ele já tinha pensado naquilo também.

— Ainda temos bastante frutas, mas o calor está fazendo elas amadurecerem e estragarem mais rápido, as árvores já estão descolorindo, não vão mais dar frutos por agora. Os animais estão bem, mas a falta de comida vai afetá-los em breve também. Mas assim como não vivemos só de grãos, também não podemos viver só de carne — Philip arqueou a sobrancelha para ela.

É, definitivamente não gostava dele.

Ben cobriu a mão dela por sobre a mesa, e retomou a fala.

— Já enfrentamos ondas de calor assim antes, e sobrevivemos. Faremos de novo! Só precisamos de...

— Um plano. É, você já disse isso.

— Já temos um plano, Majestade — Arthur interrompeu Naveen, e sua voz trazia um tom de desafio que deixou o casal real em alerta. — Você sabe o porquê a conta está mais apertada dessa vez, e o porquê os números não batem — ele olhou para Mal. — Porque antes não tínhamos a Ilha para alimentar.

Mal e Ben se levantaram ao mesmo tempo, e Mal já estava com a boca aberta para rebater aquela insinuação, mas Ben levantou a mão e ela recuou. Não o teria feito em outras circunstâncias, mas o fogo nos olhos de seu marido indicava que aquilo seria bom.

— O que quis dizer com isso, Arthur?

— Quis dizer o que eu disse. Nenhum de vocês dois com suas idéias idealistas ousadas pensou na logística de um novo povoado em tempos de crise como esse. Nossos campos — ele abriu os braços para comtemplar cada representante ali, e todos pareciam concordar com ele — vem alimentando a nova terra de vocês por todos esses anos enquanto eles permanecem disfuncionais! Não estão nos oferecendo nada em contribuição à união.

— A Ilha não é uma terra nova da coroa, ela faz parte de Auradon agora! — Ben exclamou.

— Arthur está certo — Philip completou. — Auradon foi criada para ser um reino colaborativo, todos fornecemos algo e recebemos algo e somos mais fortes por isso. Mas a Ilha não tem funcionado assim, está nos enfraquecendo.

— Epa — Mal interrompeu. — Não é bem assim.

— Perdão. Como é, então, majestade?

Ela respirou fundo.

Você não deve dar na cara de um membro do conselho. Você não deve dar na cara de um membro do conselho. Você não deve dar na cara de um membro do conselho.

— Os perdidos já se estabeleceram como população de Auradon, não vamos virar as costas para eles. Para nós. Nosso povo.

— Com todo o respeito à nova rainha — pigarreou Encantado. — As palavras são bonitas, mas não vão fazer surgir comida. Até onde eu sei, a Ilha não produz alimento, nem produtos ou minério. Sim, foram feitas boas escolas e estão se desenvolvendo bem, mas neste momento, estão sendo um fardo.

— Se o seu reino perdesse a fauna e as indústrias de tecido, madeira e as outras, se não tivessem muito a oferecer, gostaria que simplesmente os chutássemos por não poderem retribuir no momento? — ela perguntou. — Não pensei que fosse assim que Auradon funcionasse. Pensei que éramos um reino só, e que uma província podia contar com a outra em momento de crise.

— Somos assim. E mais pra frente, talvez, funcione assim para a Ilha também. Mas neste momento temos que escolher entre alimentar o povo de Auradon ou o da Ilha.

— O povo da Ilha é o povo de Auradon agora — Ben bateu a mão na mesa, e Mal ficou aliviada que ele não parecia nem um pouco disposto a abraçar aquela ideia. — Essa não é a única escolha. É apenas o caminho mais fácil, e também o mais egoísta e errado.

Os príncipes do conselho se entreolharam. Alguns pareciam bravos, outros pareciam estar com vergonha, mas nenhum se opôs. A impressão que Mal tinha era de que eles já tinham conversado sobre aquilo antes daquela reunião e ela não gostou nada da ideia.

O quê? Então eles tinham um grupinho secreto de mensagens do conselho sem o rei e a rainha e achavam que podiam trocar tramas e conspirar planos e chegar até ali e impor algo como aquilo? Eles não podiam fazer isso.

— Vocês não podem fazer isso — ela exteriorizou seus pensamentos.

O conselho se levantou, abotoando casacos e recolhendo papéis da mesa, prontos para sair. Ela olhou para Ben com certo desespero.

— Sinto muito, Majestade — pediu Philip. — Não vamos enviar as provisões que ainda temos para a Ilha, pelo menos não se isso significar a nossa fome.

— Não é uma decisão de vocês! — exclamou Ben. — Precisamos decidir juntos e eu não estou de acordo com isso!

— Você não parece estar pensando no melhor para seu povo, Benjamin — disse Arthur.

— Então limpe suas lentes e olhe de novo, Arthur. Ainda sou o rei, e se eu ordenar que as provisões sejam enviadas, elas serão enviadas.

— Pode até ser — Arthur considerou, mas não parecia abalado. — Mas pense no que uma ordem como esta pode fazer com seu reinado no futuro. Principalmente se for uma ordem que nos leve à fome.

— Onde vocês estão indo? — Ben perguntou, aumentando a voz quando eles começaram a abrir a porta para sair.

— Lhe demos muito o que pensar, Majestade. Seja sábio e faça o que for melhor para o povo. Até breve.

Então saíram sem dizer mais uma palavra.

Assim que a porta se fechou, caiu pesadamente de volta na sua cadeira, parecendo duas vezes mais cansado do que na noite anterior. Ele tirou sua coroa e jogou sobre a mesa, o som do metal de encontro à madeira produziu um som dramático à cena toda.

Mal voltou a se sentar do lado dele e o encarou, preocupada.

— Eles podem fazer algo assim? Um ultimato como esse?

Ben coço a cabeça, pensando por alguns segundos. Estava começando a senti-la latejar novamente.

— Tecnicamente, não. Mas Arthur estava certo quando disse que, se eu obrigá-los a enviar as provisões e o povo realmente passar fome, não vai ser bonito. Eu não quero uma rebelião em mãos, amor. E além do mais, eu sou um líder e não um ditador — ele suspirou.

Mal umedeceu os lábios, pensando.

Estava se sentindo absolutamente impotente, e por alguns minutos eles ficaram em silencio, sentados lado a lado, botando as engrenagens do cérebro para funcionar.

Certo, então o problema era: não há como conseguir alimento suficiente para alimentar a o reino e a Ilha quando chegasse o inverno. Ela sabia que por enquanto ainda tinham o bastante pra todos, mas não por muito tempo.

Ela puxou em sua mente as informações que tinha passado a noite estudando para somá-las à situação atual. A Capital, Auradon City, não produz alimento, ele vem dos reinos com maiores campos, que distribuem para todo o reino. A colheita tinha sido reduzida por causa do calor, e desde então eles vinham replantando arroz e trigo, que são os principais alimentos consumidos no reino, mas não estava vingando. Claro que não, o solo tinha acabado de receber uma safra e estava sem nutrientes, precisava de descanso. Mas eles não tinham tempo para dar descanso ao solo do plantio. E o conselho de regentes não quer enviar as provisões para a Ilha e passar fome.

Ela não podia dizer que estavam completamente errados, porque entendia o sentimento de proteção para com os seus. O que ainda não tinham entrado na mente deles ainda era que a Ilha agora era parte deles também. Mas apesar de receberem bem os perdidos e deixarem-nos se espalhar pelo reino, eles não veriam a Ilha em si como parte de Auradon até que ela começasse a produzir algo que os beneficiasse também.

Ela precisava pensar em um jeito de fazer isso. E rápido.

Droga, ser rainha era difícil.

— Ai, estou com tanta dor de cabeça — Ben reclamou, massageando as têmporas.

Mal se levantou para ir até ele, e apoiou as mãos em seus ombros. Ela poderia ter tentado massagear, mas seria impossível com as ombreiras cheias de apetrechos pomposos inúteis.

— Nós vamos dar um jeito — ela disse tanto para ele quanto para si mesma. — Eu vou pensar em algo, faremos dar certo. Vamos almoçar, então passar o dia juntos no seu escritório fazendo ligações e tendo ideias.

Ben forçou um sorriso e se levantou da cadeira, indo buscar sua coroa de volta na mesma.

— Não podemos os dois nos trancar no escritório, amor, o reino não se resume a um problema. Preciso de você segurando as pontas enquanto eu cuido disso. Tudo bem?

Não, não estava tudo bem, mas ela não queria discutir com ele quando ele parecia tão cansado e arrasado.

— Vamos conversar sobre isso depois do almoço.

— Vai na frente — ele se abaixou e a beijou rapidamente, então tornou a botar a coroa na cabeça e foi em direção à porta. — Eu vou pedir para levarem a comida pro escritório, preciso voltar pra lá agora.

— Ben!

Mas ele já tinha saído.

 

{...}

— E daí ele me largou falando sozinha, acreditam?

Evie e Uma se entreolharam, nenhuma com muita certeza do que dizer diante de uma Mal que estava com o ânimo de um dragão. Elas quase podiam ver pequenos fios de fumaça saindo pelas narinas da Rainha, mas talvez fosse apenas impressão gerada pelos últimos quarenta minutos de discurso indignado que elas tinham tido que ouvir.

— Acredito. Eu também largaria, você fala demais.

— Uma! — Evie brigou, lançando-lhe um olhar de censura.

— O quê? É mentira?

Evie revirou os olhos e a ignorou.

— Mal, você perguntou ao Ben o porquê ele está te mantendo de fora assim?

— Alguma idiotice dessas sobre precisar de mim cuidado do resto das coisas enquanto ele se concentra nesse problema — ela resmungou.

— Então ele quer dividir as responsabilidades, é o que um casal faz, certo? — ela argumentou. — Existe mesmo bastante coisas pra se fazer até o inverno chegar, e se ele vai ficar mergulhado nesse problema, realmente vai precisar de você pra manter o resto de pé. É como deveria ser.

— E eu não me importo como como deveria ser. Ele não está bem. Meu marido não sai de casa há dias, não dorme, não come e não me ouve, como isso está certo, Evie?

— Não está, não foi isso que eu quis dizer — Evie se defendeu. — Sabe, mamãe diz que uma boa esposa oferece apoio e confiança. Talvez você só precise confiar nele. Às vezes ele só não quer que você fique pilhada como ele, está te protegendo.

Uma soltou uma risada sem humor, atraindo o olhar zangado de Evie.

— O quê? — a filha da Rainha Má perguntou. — Tem um conselho melhor?

— Qualquer um teria. Para a rainha da autoajuda, você está bem enferrujada hoje.

— Ela só está tendo uma overdose de Rainha Má por esses dias — Mal riu.

Desde que a filha tinha sido pedida em casamento meses atrás, a mãe de Evie não largava do pé dela nem por um segundo, forçando todas as lições que Evie tinha sido obrigada a ouvir na infância a serem ouvidas novamente.

Evie apoiou os cotovelos na mesa, afundando o rosto nas mãos, e soltou um lamento.

— Ela está me deixando louca!

Talvez você só precise confiar nela — Mal recitou as palavras para Evie com aquele olhar de retribuição maligna no rosto.

— Haha — Evie desdenhou. — Minha mãe também disse que seria difícil e que passaríamos pelo menos metade da vida discordando um do outro. Parece que ela estava certa nisso, não é? Bem vinda ao casamento.

Mal jogou seu guardanapo nela.

— Você acabou de ficar noiva, não fale como se soubesse tudo sobre casamentos — ela disse quando Evie desviou de seu ataque, desviando os olhos para a aliança de coroa coberta de diamantes que reluzia em seu anelar direito, e que ela sempre fazia questão de manter visível. Doug tinha mostrado o anel à Mal antes de fazer o pedido à Evie, e ela teve que admitir que o filho de anão tinha se superado, tanto na aliança quanto no pedido, e Evie era só sorrisos desde então. — Sem querer ofender, Evie, mas a sua mãe não é exatamente um modelo a ser seguido.

— Não existe um modelo a ser seguido, pra nada — Uma retornou à conversa. Suas mãos estavam sujas de glacê do bolinho que tinha acabado de devorar. — Mantenha a vida prática, é o meu lema.

— Você tem uns quinhentos lemas — Evie revirou os olhos.

— E todos são bons.

— E como exatamente eu posso manter a vida prática nessa situação, Uma? — Mal perguntou, sem muita fé no que estava ouvindo.

— Ué, você quer ser útil, não é? Então que seja útil.

Mal encarou Uma por alguns segundos. Esse era o super conselho?

— Bem que eu queria que ele deixasse — ela bufou. — Duas mentes seriam bem mais uteis do que apenas uma, e ele não precisaria se desgastar tanto. Ou pelo menos, não se desgastaria sozinho.

— Mas aparentemente você está seguindo os mesmo passos do Ben — Evie apontou para a comida à frente de Mal. — Você nem tocou no seu almoço!

Ela fez uma careta e empurrou o prato à sua frente, amaldiçoando Ben em pensamento. Ele tinha contagiado ela completamente com aquela coisa de altruísmo. Se sentia ligeiramente culpada por estar almoçando em uma cafeteria chique quando seu reino estava poucos meses da fome e do desespero. O que não fazia o menor sentido, porque naquele momento o reino parecia estar indo bem.

Além do mais, a preocupação era uma coisa que realmente podia acabar com o apetite de alguém. Droga! Como ia dar lição de moral em Ben agora?

— Vou comer quando encontrar uma solução pra isso — ela resmungou, sabendo perfeitamente que estava soando exatamente como seu marido teimoso. Era realmente verdade que a convivência tornava as pessoas mais parecidas.

— Bom, o problema é que os Auradonianos são babacas, não é? — Uma iniciou seu raciocínio. — Qual a novidade nisso? Até eu já sabia. O que vocês fizeram quando eles foram babacas das outras vezes?

— Não é tão simples. Um discurso motivacional não vai resolver dessa vez. Acredite, tentamos — Mal gemeu de desgosto ao relembrar o desastre da reunião.

— Se eles não podem ser convencidos do contrário — Evie opinou, entrando na onda de especulações da mesa. — Isso significa que quando o inverno chegar, a Ilha vai ficar sem comida. Mal, isso é...

— Não vai acontecer! — a rainha exclamou. — Ben não vai permitir.

— Então ele vai causar uma rebelião.

— Uma! — Evie virou-se para ela. — Você não está ajudando.

A filha da Úrsula tirou os pés da mesa onde estavam sentadas, na área externa da cafeteria, e sua expressão era difícil de ler.

— Estou listando fatos. Já fui a reuniões do conselho o suficiente pra saber como eles são. Se Ben os forçar a distribuir as provisões, eles não vão ficar feliz. E se não estiverem felizes, eles não vão ficar calados. É matemática simples.

— Eu sei disso — Mal cutucou o prato diante dela como garfo, pouco interessada. — Por isso precisamos de uma terceira opção. Talvez devêssemos começar a racionar desde já, não só quando o inverno chegar — ela pensou em voz alta, concentrada. — Assim teremos poupado um pouco mais quando a coisa ficar feia. E podíamos mandar o que for racionado para a Ilha.

— Pode ser, mas só isso não seria suficiente — disse Uma.

— O conselho diz que não quer fornecer mantimento para a Ilha porque eles não fornecem nenhum recurso de volta, certo? E se passassem a oferecer?

— Pensei nisso — Mal respondeu Evie. — Mas estamos trabalhando na restauração da Ilha já há três anos, e focamos tanto na parte social dela que esquecemos da comercial. O que eles poderiam passar a oferecer agora, em dois meses?

— O ideal seria comida, já que ela é todo o problema.

Sim, aquele era o óbvio, mas até onde ela sabia o solo da Ilha ainda não estava completamente saudável, por isso Mal tinha descartado aquela possibilidade assim que lhe passou pela cabeça antes. Mas talvez não devesse ter feito isso, não sem verificar realmente como está o solo ao invés de apenas basear-se em achismos.

Ao olhar para a comida parada e fria em seu prato, sua mente começou a trabalhar rapidamente.

— Como está o solo da Ilha agora? — Mal virou-se para Uma, levemente esperançosa.

Só pela expressão de Uma ela já podia dizer que a resposta não seria tão positiva quanto gostaria.

— Faz mais de um mês desde a última vez que eu fui verificar os campos novos, mas ainda não estavam saudáveis.

— Talvez não precisem estar — ela se levantou da mesa de supetão, quase derrubando a cadeira no processo. — Vamos!

— Vamos? Vamos pra onde? — Evie colocou dinheiro sobre a mesa e se levantou as pressas, assim como Uma, seguindo Mal que agora já estava com o telefone no ouvido falando com sabe-se lá quem.

— Para a Ilha.

No mesmo minuto a limusine roxa encostava na calçada em frente à elas. Uma e Evie se entreolharam, um tanto assustadas com o olhar maníaco no rosto de Mal.

— Anda, gente, entra! — ela mergulhou porta adentro e chamou as duas.

— Você ficou maluca? E sua moto? E nossos carros? — Evie questionou, sem acreditar no que estava ouvindo.

— Estarão bem aí quando voltamos. Andem!

Sem muitas opções, as duas entraram no veículo com Mal, que mordia os lábios de antecipação enquanto o motorista as levava em direção à Ilha. Não importa quantas vezes fizessem aquilo, era sempre nostálgico.

Evie puxou um pirulito do compartimento na porta, pensando em como ser amiga de Mal era uma aventura a cada dia.

— Acho bom eu chegar a tempo do meu encontro com Harry — Uma ameaçou.

— Ele vai te pedir em casamento?

— O quê? — Uma arregalou os olhos. — Não!

— Então você não vai perder nada diferente dos outros mil encontros que já tiveram.

— Ele realmente devia pedir logo — Evie opinou, gostando no novo assunto. — Vocês já estão namorando há, o quê, dois anos?

— Você esteve namorando por cinco anos, princesinha. Está falando de quem?

— Eu e Doug começamos a sair ainda no colégio, adolescentes, não conta. Você precisa descontar os anos de estudo, ninguém se casa no ensino médio.

— Tá, isso ainda dá três anos de namoro fora do colégio. Qual a sua desculpa agora?

— Chega, vocês duas — Mal interrompeu a discussão, mesmo que fosse divertido se tivessem continuado. — Uma, pode pedir o responsável pelos campos nos receber? Quero visitar o terreno.

— Um minuto — Uma assentiu e pegou seu celular, começando a digitar.

Mal olhou para fora ao ver a ponte se aproximando. Por mais que agora o caminho sobre o mar fosse visível, a sensação do retorcer no estômago nunca mudava sempre que atravessava. Nunca conseguia passar por ela sem se lembrar da primeira vez em que a atravessou.

Ela passou a mão na saia do vestido, ajeitando o tecido escuro. Não gostava de ir até a Ilha de vestido, mas não tinha tempo para se trocar. De qualquer maneira, Evie estava se aproveitando do fato de que ela não conseguia nem pensar em usar suas jaquetas pesadas com aquele calor infernal e a encheu de novos vestidos para a estação.

— Oi, velha amiga — Evie saudou a Ilha assim que passaram da ponte para a estrada recém construída.

Tudo estava absolutamente diferente. Os últimos anos tinham sido dedicados à reforma da terra da infância das três jovens, e estava quase irreconhecível agora. As ruas de terra e sujeira estavam devidamente asfaltadas, e ruas e estradas foram criadas, facilitando a mobilização de carros. Os barracos e os prédios de latão tinham sido derrubados e reconstruídos com alvenaria de qualidade, fornecendo moradia adequada para os moradores que tinha decidido permanecer por lá, que eram praticamente a maioria.

O carro continuou avançando pelos primeiros bairros, atraindo os olhares curiosos das pessoas agora limpas e bem vestidas que sabiam que aquele veículo significava uma visita da rainha.

— Olhem — Mal chamou a atenção das amigas.

Uma e Mal olharam para a janela que ela apontava.

— O quê?

— As vitrines das lojas. Não estavam assim da última vez que visitamos.

Mal tinha razão, elas perceberam.

Mal e Evie tinha estado na Ilha pouco antes do casamento real, e o lugar estava cheio e repleto de quase tudo que também se podia encontrar nas lojas de Auradon City. Agora, porém, só uma meia dúzia de pessoa andava pela Rua do Comércio, e as vitrines estavam vazias e sem clientes.

As consequências da queda da colheita podiam demorar pra começar a chegar em Auradon, mas já estavam começando a atingir a Ilha. Os suprimentos estavam mesmo mais escassos lá. De repente, Mal sentiu que Ben tinha razão em não estar comendo tanto. Não era justo.

Conforme o centro ficava para trás na Avenida principal, começava a surgir a área que antes era a floresta sombria por onde um dia Mal e seus amigos se aventuraram atrás do cetro da Malévola. Também estava irreconhecível. As árvores foram podadas e todas as plantas venenosas foram retiradas, tornando os limites da parte residencial da Ilha tal qual um jardim bem cuidado.

Mais à frente, finalmente chegaram na parte onde as árvores e destroços tinham sido retirados para abrir um campo relativamente grande para uma futura plantação. O carro estacionou e os três pularam para fora.

— Majestade! — um homem baixo e esguio se adiantou até ela, estendeu uma mão trêmula para Mal. — É um prazer revê-la.

— Digo o mesmo, Balde — Mal apertou a mão dele.

— Que nome curioso — Evie comentou.

— Apelido de Archibald, mas ninguém me chama assim — ele riu e apertou a mão de Evie. — É um prazer, Srta. Evie.

— Balde é responsável pela agricultura — Uma disse. — E tem feito maravilhas por aqui.

— Meu pai arava as terras da Rainha de Copas, sei uma coisa ou duas sobre maravilhas — ele piscou.

— Excelente, Balde. E essas maravilhas incluem uma terra boa pro plantio? — Mal questionou, e eles começaram a andar pelo terreno.

É claro que ela não esperava chegar a um campo de grama verdinha e com cheiro de frutas. Mas tinha pensado que talvez o lugar estivesse um pouco melhor do que apenas a terra preta revirada que via agora.

— Dificilmente, Majestade, eu...

— Por favor, me chame só de Mal — ela pediu, torcendo para dar certo daquela vez.

— Certo, Mal — ele sorriu, e Mal lembrou-se de novo do quanto gostava do povo da Ilha. Ainda se identificava com eles. — Temos trabalhado bastante na nutrição do solo nesta área, mas terra não é uma coisa fácil de recuperar e esta área esteve morta e envenenada por mais de vinte anos — ele explicou, e se abaixou para pegar um punhado de terra na mão. — Aqui, olhem. Ainda está muito seca. O solo está sendo tratado, mas ainda não produz direito.

Ela pegou um pouco da terra também, percebendo que ele tinha razão quanto à secura da terra.

— Não produz direito significa que não produz nada?

Uma e Evie olharam para a rainha, começando a perceber a qual raciocínio ela tentava chegar. Balde, entretanto, não era tão rápido.

— Não exatamente. Significa que pouca coisa nasce, e não em toda a terra.

Mal assentiu.

— E se plantássemos algum vegetal resistente? Acha que nasceria?

Balde coçou a cabeça, se esforçando para acompanhar.

— Talvez. Não tanto quanto como quando a terra estiver boa, mas talvez uma colheita pequena.

— Certo, muito obrigada, Balde! — Mal estava um tanto quanto satisfeita. Não tinha ouvido exatamente o que queria, mas pelo menos metade de sua ideia poderia dar certo. Tinha passado a noite anterior pesquisando a esmo, por isso sabia que valia a pena arriscar. — Tenho uma tarefa para você e sua equipe, Balde.

— Só dizer, Mal.

A rainha sorriu e respirou fundo, mirando o olhar atento de Balde. Ele sabia o que estava acontecendo na Ilha, já tinha provavelmente sentido a diminuição dos alimentos também, e não podia deixar aquilo progredir.

Podia passar o resto da sua vida no palácio, mas nunca se esqueceria de como era quando vivia na Ilha e só tinham os resto de Auradon para sobreviver. Não podia deixar eles continuarem com restos. Não podia deixar aquela fome avançar, de jeito nenhum.

Ela pensou nas vitrines vazias, no sentimento que fazia ela e Ben não conseguirem comer, e olhou para a terra em suas mãos com os olhos brilhando.

Já sabia como resolver a segunda parte do problema.

Uma tinha razão, afinal. Ela queria ser útil, então seria útil.

 

{...}

Ben estava com os cotovelos apoiados na mesa de sua sala, as mangas arregaçadas até o cotovelo e as mãos nas têmporas, massageando a cabeça que não parava de doer enquanto os três telefones do cômodo – sério, qual era a necessidade daquilo? – tocavam insistentemente sem parar pelos últimos quarenta minutos, já que ele se recusava a atender qualquer um deles nesse tempo.

Tinha tentado falar com cada membro do conselho diversas vezes e de todos os modos diferentes e nada tinha mudado. Agora estavam pressionando-o para decretar sua decisão final quanto à separação dos mantimentos, e ele não tinha uma. Precisava de Mal para que tomassem aquela decisão juntos, mas ultimamente sua esposa parecia ser uma pessoa difícil de se achar.

Ele pegou seu celular, pronto para mandar uma mensagem pra ela, e foi quando a porta do escritório se abriu e uma cabeça roxa surgiu em sua visão.

— Oi.

— Oi — ele sorriu enquanto Mal entrava e fechava a porta atrás de si. — Você não bateu na porta dessa vez!

Ela piscou, satisfeita por ele ter notado, e se aproximou da mesa. Estava arrumada como se estivesse pronta para sair, e linda como sempre. Trazia três caixas nas mãos, uma pastinha debaixo do braço e um brilho travesso no olhar chamou a atenção de Ben.

— Onde esteve o dia todo? — ele virou a cadeira para olhar pra ela, e a envolveu pela cintura assim que ela se sentou no braço da poltrona como sempre fazia.

— Fazendo coisas.

— Fazendo coisas?

— É.

— Que tipo de coisas?

Ela sorriu e piscou novamente, deixando Ben absurdamente curioso. Se inclinando um pouco, ela espalmou as mãos nas bochechas dele e o beijou. Apesar de surpreso, ele fechou os olhos e retribuiu, percebendo que estava com muita saudades de passar um tempo de qualidade com sua esposa. O trabalho e a preocupação tinham tirado até aquilo dele, o que era imperdoável.

— Senti falta disso — ele disse entre os lábios dela, e a sentiu sorrindo mais.

— Eu também. Por isso eu trouxe isso — ela empurrou os papeis em frente a ele para longe e abriu espaço para as caixas que tinha trazido. Ao abri-las, um grande pudim de chocolate, uma cesta de pallas e dois pedaços enormes de torta holandesa o encararam.

Eram os próximos três doces da lista dele, começando pelo pudim que ele tinha rejeitado no outro dia, e o cheiro delicio invadiu seu olfato e seu estômago vazio. Ele olhou para Mal tentando não demonstrar desânimo, sabendo exatamente o que ela estava tentando fazer.

— Mal...

— Não. Nem começa — ela colocou o indicador na boca dele, calando-o. — Eu sei o que você vai dizer. E não.

Ele arqueou a sobrancelha.

— Não?

— Não — ela repetiu. — Você não vai passar mais uma noite trancado aqui, passando fome e se preocupando. E não vai rejeitar os doces deliciosos que eu trouxe pra gente.

— Amor, eu... — ele suspirou enquanto ela fingia que não o escutava, começando a cortar os doces na caixa. — Eu quero, muito, conseguir esquecer tudo que está acontecendo e apenas ter um bom momento cheio de doces, mas eu não consigo. Não vou conseguir aproveitar enquanto estiver preocupado. Não é justo que eu aproveite.

— Eu sei que não é justo. Eu também não consegui comer direito nos últimos dois dias. E eu amo o seu coração altruísta e bom — ela parou o que estava fazendo e fechou seus braços em volta do pescoço dele, ainda com aquela expressão misteriosa no olhar. — Foi por isso que eu resolvi tudo.

Ben piscou.

— Você resolveu... Tudo? Como?!

— Que bom que perguntou — o sorriso de Mal se ampliou.

Ela puxou a pastinhas que tinha trazido para perto deles. Dentro dela, alguns papéis e fotos foram espalhados pela mesa, entre as caixas de sobremesa. Ben reconheceu algumas parte da Ilha, a Baía do Tritão e a casa de campo da Família Real, a maior e que era também a mais próxima da capital, ficava nas montanhas perto da fronteira entre Auradon City e Camelot.

— Então, desde a reunião eu não conseguia parar de pensar no problema todo, e que tinha de haver algum jeito - qualquer jeito - que não fosse ter que escolher entre fome e rebelião no reino. Então eu fui até a Ilha com a Evie e a Uma — Mal começou a apontar para ao papéis enquanto falava. — O solo não está completamente fértil, mas não completamente inútil. Então eu mandei plantarem feijão e batata por toda a extensão do campo, porque nascem com muita facilidade. É, eu sei que isso vai atrasar a recuperação total da terra, mas tempos desesperados pedem medidas desesperadas.

Ben puxou o papel que especificava o que ela tinha feito, lendo de perto os números e tudo o que dizia com atenção. Como ele não disse nada, Mal mordeu os lábios e continuou.

— Recrutei um grupo de perdidos para serem enviados para Atlântida nesse período para aprenderem a pescar, e contratei um grupo de lá para reequilibrar a fauna marinha nas águas da Ilha. Assim, a Ilha será autossustentável e produtiva, e o conselho não vai ter motivo algum para não fazer a divisão ou para qualquer rebelião.

Ben umedeceu os lábios enquanto seus olhos não pararam de correr pelos papéis. Mal aguardou, ansiosa, que ele falasse alguma coisa antes de prosseguir.

— Uau — foi o que ele disse primeiro, e tirou os olhos brevemente do papel para olhar pra ela. — Amor, isso é incrível! Você resolveu o impasse com o conselho!

Ela se abaixou até estar com a cabeça do lado da dele, com o nariz quase colado no papel, procurando algum erro. Era impossível, ela tinha revisado tudo mil vezes naquela tarde antes de levar até ele.

— Não só com o conselho. Ninguém vai passar fome.

— É, os campos da Ilha tem uma boa extensão. Mas o racionamento ainda vai ser necessário pra não acabar antes do fim do inverno... — Ben parou seu raciocínio ao ver que Mal ainda parecia absolutamente convencida. Ele soltou o papel na mesma e cruzou os braços ao olhar para ela, sorriu. — O que? O que mais você aprontou?

— Hm... Você gostava muito daquela cabana nas montanhas?

Ben deu de ombros e avaliou a pergunta com um pouco de medo de onde aquilo levaria.

— Passei alguns outonos lá na infância. Por quê?

— Ah, nada. Eu mandei demolir ela.

O queixo do Rei caiu.

— O quê?!

Mal puxou uma das fotos da cabana, o indicador marcando a área ao redor.

— A propriedade é enorme, a terra é muito fértil. Então mandei limpar a área da floresta atrás da casa, e plantar milho e soja, porque eles crescem mais rápido, e alguns legumes em uma horta improvisada também. Assim vamos ter um pouco mais do que o necessário. Além do mais, vamos começar a estocar uma parte de tudo desde já, não vamos esperar chegar o inverno pra isso. Não serão meses de abundância, mas também não vai haver fome alguma.

Mal terminou com uma expressão que podia facilmente ser traduzida como um “Tcharan!”. Só faltou chacoalhar as mãos no alto.

Ben ficou sentado imóvel por alguns segundos, olhando para as folhas e as fotos com surpresa.

Mal mordeu o lábio inferior.

— Eu não devia ter feito isso? — ela perguntou, insegura. — Você está bravo?

— Sim — ele acenou com a cabeça, mas quando olhou pra ela, seus olhos brilhavam. E lentamente um sorriso tomou conta do rosto dele — Bravo comigo mesmo por não ter pensado nisso antes! Você é brilhante!

Ele levantou da cadeira de supetão, tomando-a nos braços, e giraram pelo escritório. Ben não podia acreditar naquilo. Tinha passado a semana mais longa da sua vida doente de preocupação e culpa. Então sua esposa simplesmente invadia sua sala com doces dizendo que tinha resolvido tudo.

Ela era incrível!

— Você é incrível — ele ecoou seus pensamentos enquanto a beijava, pela primeira vez sem culpa por estar se sentindo bem depois toda aquela confusão.

Mal não respondeu, ocupada demais em retribuir o entusiasmo dele contra sua boca. Não aguentava mais o rei agitado e ansioso que não se alimentava e nem dormia. Nada era melhor do que ver o sorriso tranquilo e calmante do seu Ben de volta no rosto dele.

— Por que você não me contou antes? — ele perguntou quando a colocou no chão, e então a puxou até a mesa de mãos dadas.

Ele encostou na borda da mesa, parcialmente sentado, e ela parou de frente pra ela, encostada em seus peito, com os braços dele a prendendo a si.

— Você não me deixava te ajudar e isso me irritou um pouquinho — ela deu de ombros. — Eu não sabia se você ia me ouvir, então eu fui e fiz.

— Me desculpe. Não foi minha intenção fazer você se sentir assim. Mas eu teria ouvido. Eu sempre vou te ouvir — as mãos dele apertaram mais sua cintura, e ele beijou a ponta do nariz dela. — Obrigada por isso.

Ela assentiu.

— É o meu reino também.

— Exatamente. Que bom que começou a entender isso.

Ela se apoiou no ombro dele para puxar a caixa de pudim para mais perto.

— Será que podemos comer os doces agora?

Ben pegou o pedaço de pudim que ela tinha cortado e levou até a boca, mordendo um generoso pedaço. Seu estômago até doeu de satisfação.

— Céus, como isso é bom!

Mal riu e limpou o canto da boca dele com o dedo, provando o resquício de doce logo em seguida.

— Concordo — ela disse, mas sem tirar os olhos dos dele.

— Você é perfeita, Mal — ele esbanjou devoção ao dizer o nome dela, e seu olhar apaixonado apara ela a fazia ter vontade de começar a beijá-lo e nunca mais parar.

Mas invés disso ela apenas sorriu, convencida, e pegou um pedaço do pudim.

— Claro que eu sou.

— Tive uma ideia! — ele pegou duas das caixas e apontou para a porta. — Esse escritório não é nada romântico. Vamos fazer isso direito. Descer até o jardim, comer sob as estrelas e ter a noite que estou devendo a você depois de toda essa loucura.

O coração da rainha rugiu de vitória. Seu Ben estava de volta.

E tinha corrido porta a fora antes mesmo que ela pudesse pegar a terceira caixa e segui-lo.

— Quem chegar ao jardim primeiro fica com o último pedaço!


Notas Finais


Se este capítulo existe é graças à Lanan que me chantageou pra eu conseguir escrevê-lo. Teve até um contrato envolvido. Não vejo a hora de ganhar os prêmios por ter conseguido terminar isso aqui em tão pouco tempo.

O próximo já está escrito (faz séculos), mas eu só vou postar quando conseguir atualizar minha outra fanfic porque preciso parar de decepcionar meus leitores de lá. Mas talvez não demore tanto. Talvez.

Como tá sendo a quarentena de vocês?


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