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História Death.Time.Love - Capítulo 15


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Capítulo 15 - Padrinhos


Hermione jamais se esqueceria daqueles dias. Não havia acontecido nada em especial, nenhum evento marcante, nenhuma visita inesperada, nenhuma surpresa ou acontecimento grandioso até aquele dia específico. O que acontecia diariamente, e deixava um sabor adocicado em sua boca, era simplesmente… a vida.

Se em algum momento Hermione rolava de um lado para o outro da cama buscando um motivo para levantar, agora a primeira coisa que fazia ao abrir os olhos era sorrir. Draco normalmente já estava acordado em completo silêncio, fazendo carinho no cabelo da esposa, um sorriso sonolento dançando em seus lábios.

Draco, que costumava acordar muito cedo, também não se sentia nem um pouco tentado em deixar a cama. Ele gostava de ver o dia amanhecer por trás do corpo adormecido de Hermione e gostava de ver a forma como seus olhos se abriam lentamente e o procuravam no instante seguinte. Se Malfoy tivesse que eleger seu momento preferido de seus dias, certamente seria aqueles minutos preguiçosos que passavam acordados na cama antes de levantar.

Draco jamais pensou que se veria em uma situação semelhante àquela. Jamais pensou que algum dia iria ficar deitado na mesma cama que uma mulher e estar satisfeito em apenas olhá-la, tocá-la, ouvi-la e, infelizmente em menor frequência, beijá-la.

Porém, para o desgosto de ambos, aquele momento não podia durar para sempre e logo tinham que se colocar em pé para começar o dia. Draco e Hermione se dedicavam grande parte do dia em praticar as habilidades da jovem e o marido se sentia orgulhoso em dizer que ela não tinha qualquer problema em acompanhá-lo. Malfoy julgava, inclusive, se continuassem treinando pelos próximos anos, que Hermione poderia superá-lo. Magia, apesar de ter sido negada a ela durante tantos anos, era algo natural para ela. Estava em seu sangue, corria em suas veias e deixava sua varinha com uma elegância e habilidade que Draco só poderia admirar.

O resto do dia, Hermione passava pintando, lendo ou até mesmo escrevendo. Draco aproveitava o momento de folga para andar pela casa conferindo se havia algum reparo que exigia sua atenção, algum problema em suas propriedades e às vezes acompanhava Hermione fazendo uma leitura ou a observando.

Porém, naquele dia em específico, algo no ar parecia anunciar que o mundo como conheciam estava prestes a mudar. A manhã começou limpa e clara, o sol brilhava derretendo toda a neve que havia caído nos dias anteriores, formando grandes poças pelo jardim. As gotas de água refletiam a luz, fazendo com que pontinhos brilhantes aparecessem por todo o gramado. Parecia aquele o primeiro sinal de que o inverno finalmente estava cedendo e dentro de algumas semanas chegaria a primavera. Apesar da mudança no clima, no entanto, a casa estava aquecida, Dobby havia acendido a lareira já muito cedo, o que dava uma sensação de conforto a todos.

Foi durante o café da manhã, enquanto Draco e Hermione conversavam sobre o que fariam (e o que treinariam) durante o dia, que tudo mudou. Dobby, escorregando em um tapete ao fazer a curva no corredor que ligava a sala de jantar com a cozinha, apareceu correndo com algo nas mãos. 

-Senhor Malfoy, uma coruja trouxe isso agora mesmo. -O pequeno elfo entregou o que segurava até Draco, que leu imediatamente com a testa franzida.

Hermione assistiu ansiosamente enquanto os olhos do marido se arregalavam. Ele levantou em um pulo, fazendo com que sua cadeira caísse para trás. Draco olhou para Hermione por um momento antes de falar.

-Gina entrou em trabalho de parto durante a noite. -Explicou passando a mão pelo cabelo.

-O bebê nasceu! -Hermione falou, sua voz subindo um pouco.

-Ainda não. Parece que está havendo alguma complicação. -Os olhos de Draco se agitaram e Hermione viu terror refletido ali.

-Você quer ir até lá? 

-Não sei se é adequado. A família Weasley está toda lá acompanhando a Gina. -Draco suspirou, os olhos desviando para a janela.

-E quem está lá pelo Harry?

Draco ficou em silêncio. A pergunta de Hermione era legítima, não sabia muito sobre Harry Potter ou sua família. Tudo o que sabia era que os pais tinham morrido quando Harry era criança e seu padrinho, que o criou, havia morrido durante a guerra.

-Na verdade, ele não tem nenhum familiar. -Draco sussurrou. -Mas os Weasley…

-Os Weasley estarão preocupados com a Gina, acho que ele precisa de um amigo por perto.

(...)

Uma hora depois estavam na sala da casa dos Potter. O pai de Gina lia tranquilamente o jornal no canto mais afastado da sala enquanto um irmão olhava pela janela sem dizer nenhuma palavra. Quando Hermione e Draco chegaram, alguns minutos antes, O Sr. Weasley a cumprimentou de forma surpresa. Claramente ele não esperava vê-la ali e muito menos casada com um amigo de Potter. 

Harry, que havia parecido muito grato pela presença dos Malfoy, agora estava sentado em uma poltrona, os pés batendo freneticamente contra o chão. Seus olhos estavam avermelhados e a pele ao redor estava escurecida por círculos negros.

Hermione havia pedido licença para os homens e havia se colocado na cozinha. Imaginou que Harry provavelmente não havia comido nada naquele dia e, embora estivesse muito ansioso para comer, ele precisaria de toda energia possível após o nascimento. Hermione não tinha qualquer experiência em nascimento de crianças, mas já tinha ouvido histórias de mulheres que passaram horas em trabalho de parto até que a criança finalmente nascesse. Se esse fosse o caso de Gina, ela estaria muito fraca até mesmo para cuidar da criança. Harry precisava estar descansado e bem disposto.

A jovem fez alguns pequenos sanduíches com coisas que havia achado na geladeira e passou um café, montando uma bandeja para levar para a sala. Hermione percebeu que Draco havia sentado ao lado do amigo e o mantinha no lugar com um braço em seu ombro. Ela colocou café em uma xícara e entregou a Harry.

-Obrigada, Hermione. -Harry sussurrou pegando a xícara em suas mãos, mas não bebeu. Por alguns segundos ele apenas olhou a superfície do líquido escuro. -Eu acho que não consigo colocar nada para dentro.

-Coma alguma coisa, Potter. Gina vai precisar de você depois. -Draco falou baixo, pegando o prato de sanduíches e o levando até o amigo.

-Está demorando demais. -Harry balançava todo o corpo. -E se algo acontecer com eles?

Os olhos do moreno se encheram de lágrimas e Hermione percebeu que o que ele sentia não era apenas ansiedade pelo nascimento do filho. Ele estava com medo, ele temia que algo pudesse acontecer a sua família. Draco apertou o ombro do amigo, seus olhos escurecidos de repente. 

-Gina é forte, Harry. Nada vai acontecer com eles.

Hermione observou o marido por um instante, lhe ocorrendo um pensamento que até aquele momento não havia pensado. O medo que Harry Potter sentia já havia se concretizado em outro momento para Draco.

Draco havia perdido a esposa e o filho não nascido no passado e, embora não tivesse sido durante o trabalho de parto, ele conhecia a dor da perda. Hermione havia assistido a expectativa e os sonhos do casal Potter durante a gravidez de Gina e imaginou que Draco havia se sentido da mesma forma quando sua primeira esposa estava grávida. Harry, entretanto, certamente teria toda sua ansiedade e nervosismo compensado por seu primeiro filho em seus braços. Draco, por outro lado, teve que lidar com a realidade de ter perdido seu filho e também sua esposa.

Hermione sentiu uma pontada de angústia no peito.

Draco obrigou Harry a comer um sanduíche, o que o moreno fez a contragosto, enfiando o pão quase completamente na boca. O Sr. Weasley e o irmão de Gina, George, permaneciam em completo silêncio. Vez ou outra lançavam ao futuro pai um sorriso de incentivo.

-Por que você não está no quarto com a Gina? -Malfoy perguntou de repente, uma sobrancelha se erguendo.

-Molly me expulsou. -Confessou o Potter com uma carranca.

-A Sra. Weasley?

-Sim, ela falou que não poderia me ajudar se eu desmaiasse. -Harry suspirou frustrado e Draco olhou para o teto parecendo divertido, provavelmente tentando não fazer uma piada.

Harry Potter levou seu café a boca, tomando todo o conteúdo da xícara em um único gole. Nesse momento um grito estridente pareceu ecoar pela casa. Potter arregalou os olhos, se colocando em pé em um pulo. A xícara em sua mão despencou pelo ar, partindo-se em milhões de pedaços ao atingir o chão. Harry disparou pelas escadas com Draco em seus calcanhares tentando o segurar.

Hermione seguiu os dois homens até o andar de cima, sentindo o coração martelar contra seu peito em uma mistura de terror. Ela encontrou os dois homens no corredor, Harry sentado no chão com as mãos sobre o rosto e Draco ajoelhado em sua frente, uma mão em seu ombro o pedindo para que, pelo amor de cristo, mantivesse a calma. 

Outro grito que pareceu ecoar, dessa vez, dentro do corpo de Hermione. A jovem ouviu um soluço e percebeu que vinha do moreno que agora nem mesmo tentava controlar seu choro. Hermione deu um passo em direção a escada, pensando que deveria dar espaço para que Draco ficasse ao lado do amigo, porém parou no instante seguinte, seus olhos se arregalando e o coração batendo fortemente contra o peito.

Não havia mais gritos e nem soluços. Todos pareciam ter parado de respirar naquele instante, como se até mesmo o menor dos sons pudesse atrapalhar aquele momento. O choro de uma criança, forte e estridente, pareceu juntar os pedaços partidos de cada um deles.

Harry escorregou ao tentar se levantar e então Draco, em pé em um pulo, esticou a mão e o ajudou. Os soluços haviam parado apesar de lágrimas silenciosas ainda deixarem os olhos de Potter. O homem deu um único passo em direção a porta no mesmo instante em que ela foi aberta, revelando Molly Weasley sorridente com os olhos molhados enquanto o convidava a entrar.

(...)

Hermione juntou os pedaços da xícara que Harry havia derrubado. Se antes a casa inteira havia mergulhado no mais profundo e terrível silêncio, agora havia risadas e assobios para todos os lados. Draco tinha um sorriso de canto e parecia distraído enquanto olhava pela janela. O som de estalos vindos da escada revelou que alguém descia. Hermione reconheceu pela voz os pais e irmão de Gina que pareciam muito felizes.

-Hermione Granger? -Ouviu a mulher lhe chamar. Hermione deu um sorriso fraco. -É você mesmo?

-Olá, Sra. Weasley! -A jovem sorriu, virando-se para a mulher corpulenta que tinha um sorriso surpreso.

-A última vez que ouvi sobre você, me falaram que você havia… -E então ela parou de falar, a compreensão lhe ocorreu. -Agora é Hermione Malfoy, eu suponho.

-Exatamente. -Hermione desviou o olhar se sentindo sem graça. Aquela mulher deveria ter sido sua sogra e agora estavam ali… juntas após o nascimento do filho de Gina, Hermione com seu novo marido, e o ex-noivo morto.

-Você está bem?

-Estou ótima, Sra. Weasley.

-Tem visto seus pais? 

-Bem, nós não… Nós precisamos… -Hermione colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. -Na verdade não mais.

-E você está feliz? -O sorriso da mulher se alargou e Hermione se sentiu tocada ao perceber que ela parecia emocionada.

Hermione lançou um olhar rápido para o marido e percebeu que ele também a olhava como se esperasse por sua resposta. A jovem sorriu, olhando para suas mãos por um instante.

-Estou, Sra. Weasley! Eu estou feliz!

E com isso a mulher deu um passo à frente e envolveu a menina em um abraço caloroso. Hermione arregalou os olhos no primeiro momento, surpresa com o ato da mulher, mas julgou que o nascimento do neto poderia ter mexido com seus sentimentos. Molly tocou o rosto da jovem.

-Então eu fico feliz por você! -E, se afastando um pouco e limpando o rosto, ela olhou para Draco. -Gina e Harry estão esperando por vocês. Subam!

Draco e Hermione estavam esperando ir embora, na verdade. Apesar de terem aparecido durante o parto, ambos julgavam que o momento era íntimo demais e que deveria pertencer apenas aos familiares. Eles apenas esperavam que os Weasley descessem para deixar uma felicitação ao casal e voltar para casa, mas agora ambos pareciam hesitantes.

Tanto Draco quanto Hermione precisavam admitir que estavam ansiosos por aquele momento. Acompanhar a gravidez de Gina tinha sido incrível. Haviam sonhado com aquela criança, juntamente com o casal. Haviam pensado nela e a amado quando nem tinham visto seu rosto. Draco, lançando um olhar hesitante a Hermione, sorriu e pegou sua mão caminhando em direção às escadas. 

O quarto estava quente e bem iluminado. Gina estava deitada no meio da cama, os cabelos ruivos amarrados em um coque bagunçado no alto da cabeça. Ela parecia meio pálida, porém tinha um sorriso constante no rosto. Seus olhos tinham grandes círculos roxos em volta. Harry, parecendo completamente hipnotizado pelo pequeno embrulho em seu colo, parecia nem ao menos respirar.

-Olá! -Gina sussurrou lhes dando um sorriso.

-Nós estávamos quase indo embora. -Draco explicou. 

-Você deve estar cansada. -Hermione disse indo para o lado da amiga, lançando um olhar curioso para os braços de Harry.

-Sem conhecer o James? -Gina ergueu uma sobrancelha. -Que tipo de padrinhos são vocês?

Hermione e Draco trocaram um olhar arregalado e depois, sem ainda entender, olharam para Gina e depois para Harry esperando por uma explicação. O casal Potter sorriu em cumplicidade. Hermione sentiu o coração bater forte contra seu peito. Draco apertou os dedos da mão de Hermione que ele ainda segurava.

-Padrinhos? -Draco perguntou em um murmúrio, os olhos cinzentos incapazes de desviar do pequeno embrulho de cobertores.

-A família de Harry é você, Draco. E você, Hermione, também faz parte da minha família. Você tem sido uma grande amiga. -Gina sorriu emocionada. -Se algo acontecer com a gente, queremos as melhores pessoas para cuidar do nosso filho. 

Hermione não soube o que dizer. Apenas ficou ali de boca aberta, olhando para o casal de amigos e depois para seu próprio marido que parecia tão surpreso e sem reação quanto ela. O coração da jovem se encheu de ternura e sentiu as lágrimas arderem em seus olhos.

-Ah, Gina… -Levou as mãos ao rosto por um instante.

Hermione também olhou para Draco que continuava parado no mesmo lugar. Ela nunca tinha visto o marido sem reação da forma como estava naquele momento. Sua boca estava aberta, mas Hermione nem sabia dizer se ele respirava. Seus ombros estavam caídos, como se ele estivesse muito cansado. E seus olhos… Hermione não viu nem ao menos uma lágrima escapar por eles, mas podia dizer que eles estavam um tanto mais brilhosos do que o normal. Ele caminhou até o lado de Harry que, relutante, passou o pequeno embrulho para o seu colo. Hermione correu para o seu lado, ficando na ponta dos pés para ver melhor.

Malfoy não sabia muito bem o que fazer com o bebê. Jamais havia tido a oportunidade de pegar uma criança no colo, porém sabia que nada no mundo poderia fazer mal aquele pequeno ser humano enquanto estivesse em seus braços. Não havia dito nem sequer uma palavra desde que Gina e Harry haviam pedido para fossem padrinhos da criança, e não sabia o que dizer.

Draco nunca foi considerado um bom exemplo de nada até a sua vida adulta. Era esperto, habilidoso em magia e gostava de pensar que era honrado e honesto, mas não eram as principais características para ser um exemplo. Para ser sincero, até que Astoria anunciasse que estava grávida, jamais havia pensado na possibilidade de ser pai. É claro que sabia como nasciam crianças e Deus sabia que não fazia nada para evitá-las, mas ainda assim… A possibilidade simplesmente nunca havia passado por sua cabeça. Simplesmente não pensava no assunto e ponto.

Por isso que, quando soube que sua esposa esperava um filho, Draco começou a se preocupar que tipo de pai seria para aquela criança. E, se fosse fazer uma análise crítica, Draco seria muito parecido com o próprio pai e isso era apenas inconcebível. Se uma família nasceria dele, então iria se esforçar para que fosse uma família saudável e feliz.

Infelizmente Draco nunca teve a oportunidade de ser pai. Achou que aquela possibilidade estava completamente perdida para ele. E, Deus… O que ele não daria para ter tido a oportunidade de ver o rosto de seu filho, tocar sua pele e ouvir seu choro ao menos uma vez?!

Olhando o bebê, Draco sentiu-se envolvido por sentimentos que há muito tempo havia enterrado. A criança não era sua, claro. Mas era uma vida e Draco fora convidado a fazer parte dela, participar de sua formação. Ele abriu um sorriso olhando o rosto adormecido da criança.

-Olá, James. -Falou percebendo que sua voz não passava de um sussurro. -Eu sou seu padrinho e prometo que vou te ensinar a jogar quadribol quando o cabeça-oca do seu pai não conseguir.

Houve uma série de risadas baixas no quarto. Harry bufou sacudindo a cabeça, mas Hermione percebeu que, apesar das lágrimas e soluços, ainda tinha um sorriso em seu rosto. Draco ergueu a cabeça por um instante,  ainda tinha o sorriso alegre e os olhos brilhantes, e fez sinal para que Hermione se aproximasse. Ainda segurando a criança em seu colo, Draco passou o braço pela cintura da esposa, a envolvendo em um abraço. Ela ergueu os braços para também envolver Draco e James. O marido repousou suavemente a cabeça na da esposa. 

-E essa é a sua madrinha. -Draco voltou a sussurrar para a criança adormecida. -E parece que nós somos as pessoas mais sortudas do mundo.

 


Notas Finais


Galera! Espero que vocês gostem do capítulo de hoje!
Deixe um comentário, se possível!
Até quarta! ♥


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