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História Degradê - Capítulo 27


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Notas do Autor


Olá, devo avisar que neste capítulo tudo estava devidamente roteirizado há semanas e que não houve modos de descarregar uma possível raiva.

Capítulo 27 - Capítulo 27



O coração da atriz passou a dar galopes dentro de seu peito, sua respiração passou a ser entrecortada e mesmo que seu cérebro mandasse comandos a todo seu corpo para que ele se mexesse ou esboçasse alguma reação... ela não se mexia. Denis que estava ao lado da atriz fez uma cara de desagrado e tentando disfarçar o máximo que pode se virou e cumprimentou o colega diretor.


— Tudo bem, Rangel?


— Melhor impossível. - mexeu a cabeça forçadamente. — Eu não mereço uma resposta, Regina?


Natália Timberg estava próxima de Lilia Cabral e Reginaldo Faria quando percebeu que tinha algo dado errado demais pois a protagonista da novela estava menor que uma formiga. Lilia por estar mais próxima conseguiu escutar e o silêncio condenatório de Regina não estava ajudando muito, mas o que ela poderia fazer? Nada. Aquela era uma arapuca que Regina Duarte tinha se enfiado sozinha e acabou arrastando com ela pessoas que não tinham nada haver com aquele inferno extraconjugal. 


Tirando forças não sabendo de onde a atriz colocando seu melhor sorriso forçado no rosto se virou e foi até o marido alisando o pingente do colar prateado por ele usado. Ainda fugia de seu olhar já que as palavras não entravam em ordem em sua mente e por isso se resguardava para não falar o que não devia. Del Rangel mais uma vez insistiu esboçando cada vez menos paciência em seu tom de voz que ficava mais e mais baixa fazendo com que a pobre namoradinha do Brasil se sentisse reduzida a um átomo. O que ela falaria? Como poderia fugir daquela armadilha sem expor a verdade em seu peito? Como poderia continuar fingindo uma verdade quando sua maior vontade era extravasar toda a frustração em seu interior? 


Então ela se limitou a sorrir, aquele mesmo sorriso simpático e acolhedor que era capaz de camuflar todo seu inferno pessoal.



— Ivan é o homem da Raquel, meu amor. - deu-lhe uma piscadela.


— Oh, é verdade. - Del deslizou a língua por seu lábio inferior.


— O que você veio fazer aqui?


— Buscar uma esposa fujona.


— Mas eu não fugi. - Del coçou sua pestana. — Bom, talvez eu tenha saído mais cedo de propósito?


— Melhor assim. - Consentiu. — É bom te ouvir falando a verdade. Sem mentir. Sem inventar alguma desculpa. - enlaçou a cintura feminina e sussurrou em seu ouvido. — Por isso vamos conversar em casa mais tarde, só nós dois.


Del Rangel se afastou com um amplo sorriso no rosto, beijou levemente os lábios femininos e saiu do set de gravações. Regina que pensou por um momento ter burlado a inteligência de Rangel ficou estarrecida com o tom das palavras sussurradas em seu ouvido que soaram tão mortíferas como a sentença a injeção letal. Uma gota de suor escorreu por sua espinha e tentando dispersar o medo que o marido lhe causou, pediu licença ao diretor e correu para seu camarim sobre os olhares atentos e não menos preocupados de Natália e Cabral.



Antônio Fagundes estava tão focado nas cenas que estava a gravar com Renata Sorrah que sequer percebeu o clima pesado que havia se instaurado por detrás das câmeras. O homem estava esbanjando bom humor e energia ao gravar todas as sete cenas que tinha na pauta do dia, até o mais distante percebia que o mesmo estava com as feições mais revitalizadas e leves que o normal e o motivo estava mais do que cristalino para todos aqueles que o rodeavam: estava em paz com Regina.


Já se passava das três da tarde quando por Denis o ator foi dispensado fazendo com ele fosse correndo até o camarim de sua amante que estava sendo ajudada por uma auxiliar da figurinista enquanto a continuista dava para ela as coordenadas certas para as cenas com Pedro Paulo Rangel e Lilia Cabral. Ele entrou e como cumprimento os dois piscaram um para o outro e ele ficou lendo os textos da mulher.



— Gravamos em quanto tempo?


— Essas são em quinze minutos e as outras são em uma hora e meia.


— Acabamos, Regina. - a atriz se levantou da cadeira ajeitando o vestido e o blazer de Raquel. — Está melhor do que estava?


— Está ótimo. - balanços os quadris de frente o espelho. — Acho que engordei um pouco.


— Normal. - a moça pegou a bolsa com suas costuras e saiu. 


— Fagundes, precisa de ajuda ou já foi dispensado?


— Já fui. - piscou para a continuista que pegou suas pranchetas, se despediu de Regina que pediu-a para fechar a porta e saiu.


Parecendo querer evitar o amante, a intérprete de Raquel passou a ajeitar suas roupas, sua bolsa, seus cadernos, tudo isso para não olhar o homem que aguardava pacientemente por atenção. Sem saber se era por conta do nervosismo que passado pela manhã ou e precisava ir ao médico mas a mulher alisava de forma interrupta sua barriga para conter a azia e o enjoo que não a abandonou por tempo nenhum, mesmo enquanto gravava.


Antônio tirou do bolso do blazer que compunha o figurino de Ivan o charuto que havia guardado e acendeu com o isqueiro de Regina que ao sentir o cheiro do fumo se virou a tempo de ver as bolinhas que saiam da boca do homem que amava e foi inevitável não ir ao encontro dele que descansou a mão por dentro da coxa e alisou a liga da meia enquanto ela admirava completamente rendida e encantada o ato simples, porém, não menos atraente do que ver Antônio Fagundes fumado um charuto.



— Ainda pareço o Popeye?


— Não, o Churchil.


— O famoso buldogue inglês? - estalou a língua no céu da boca e olhou-se no espelho. — Acho que vou precisar engordar uns quilos e virar branco. - Regina riu sem muito entusiasmo. — O que está acontecendo?


— O Del. - Antônio parou de fazer o carinho que fazia quando a mulher se desvencilhou do toque e encostou-se na mesa com os braços cruzados. — Acho que ele está desconfiado de nós.


— Você deu alguma bandeira? - ela afirmou. — Já sabe o que vai fazer?


— Você sabe que eu quero a separação, mas queria que isso fosse da forma mais harmoniosa possível, sem grilos, sem ficamos com mágoas um do outro.


— Isso vai ser impossível. - no rosto feminino desenhou-se uma expressão de desagrado. — Você sabe que vai ser bem pouco agradável quando ele souber que você o traiu comigo.


— Nossa, que confusão desgraçada essa que eu fui me meter. - Regina se virou fazendo um alongamento nas costas para em seguida ela olhar nos olhos do amante através do espelho. — Já falou com aquela moça?


— Sabia que ela tem nome? - as feições femininas fecharam-se. — Mas, não. Não falei. Vou conversar com a Mara depois da peça no domingo.


— Mas hoje ainda é terça, pra que esperar tanto?


— Porquê ela está em São Paulo com os pais.


— E você não vai pra lá hoje? - ele assentiu. — Então pra que esperar até domingo?


— Porquê eu quero curtir meus filhos de cuca fresca, Regina. Não ficar potencialmente com culpa na cabeça por ter terminado com a Mara.


— Culpa? Culpa de quê?


— Você pode não acreditar ou não querer ver, mas ela é uma pessoa muito agradável que não merece que eu a largue por amar outra.


— Se estiver com grilos de consciência pesada pode ficar com ela e comigo. - alisou a barriga depois de beber água. — Maldito enjoo. 


— Está enjoando? Desde quando?


— Hoje de manhã. A conversa com o Del me deixou nervosa. - a continuista bateu na porta avisando que gravaria dentro de cinco minutos. — Já estou indo.


— Vai no médico, pode ser o emocional. - tragou o charuto depois de alisar a face de sua amante.


— Vou. Prometo que vou. - beijou a testa do amante. — Dá um jeito de me avisar quando chegar lá?


— Vou pedir pra Clarisse ligar pra sua casa. - piscou sapeca fazendo com que Regina desse um leve tapa em sua cabeça. — Não gosto de você assim agressiva.


— Mesmo? Pensei que gostasse. - pegou seus textos e foi até a porta segurando a maçaneta.


— Ah, eu gosto. Gosto muito. - Fagundes correu até Regina segurando-a pela cintura e prensando-a na porta lhe envolvendo em um beijo lascivo. — Vai me esperar voltar?


— Se eu sentir muita saudade eu fujo daqui e vou atrás de você. - Regina mordeu o lábio inferior masculino, pegou o charuto da mão dele e o tragou. — Nossa, ele é bom!


— Gostou mesmo? - ela assentiu. — Fica pra você então.


— Eu não vou poder fumar ele todo agora. - tragou mais uma vez. — Mas prometo fazê-lo mais tarde. 


— Promete?


— Sim.


— Mesmo?


— Unhum. - Regina soltou um sorriso safado e beijou Antônio novamente. — Eu queria tanto continuar assim com você.


— Vem comigo então.


— Seria bom demais pra ser verdade, mas não dá e você sabe. - foi até seu cinzeiro para apagar o charuto que nem tinha chegado na metade ainda e colocou-o dentro da bolsa. — Tenho que ir.


— Você só saí se me der um beijo.


Não era muito difícil para Regina cumprir aquela árdua penitência.



*****


Por volta das sete horas da noite, Regina Duarte encostou o carro que dirigia na garagem de sua casa. Suas costas doíam um pouco e os ombros pesavam, estava cansada como um atleta que fazia a maratona de Boston. Saiu do carro acendendo um cigarro, desabotoou um botão da calça, soltos os cabelos e assim que entrou em casa e passou por seu escritório deixou suas bolsas por lá mesmo e foi direto para o banheiro tomar um longo banho enquanto deixava o cigarro queimar brasa no cinzeiro que ficava em cima da pia do banheiro. Não havia se dado conta de quanto tempo estava no banho e só percebeu que tinha se passado tempo demais quando olhou para a pia e viu que seu cigarro já estava apagado.


Quando saiu limpou o cinzeiro jogando tudo na lixeira, olhou-se no espelho e viu que Del olhava-na como se fosse parti-la ao meio mesmo que soubesse que o ainda marido não era capaz de tocar em um único fio de cabelo de sua cabeça. Del Rangel passou o dia inteiro remoendo toda aquela encenação amadora da esposa, sabia que tinha alguma coisa errada e tinha quase certeza do adultério, porém, queria ter a confirmação da própria Regina.


Ele teria essa confirmação mesmo que tivesse espreme-la como uma laranja.


Ele deixou com que ela trocasse de roupa, passasse os cremes no corpo, penteasse o cabelo, fizesse o que tinha de fazer e quanto ela saiu de novo do banheiro já vestida com um short qualquer e blusa, ele esticou as pernas e cruzou os braços enquanto Regina andava pelo amplo quarto que dividiam.



— Desde quando, Regina?


— Oi? Falou comigo? - ela apareceu por detrás da porta do armário. — Não entendi.



Del respirou fundo.



— Desde quando você me traí?



Se estivéssemos em uma novela agora seria a hora em que a câmera focaria nas mãos da protagonista e em seus dedos brancos de tanto apertar a porta do armário, teria uma câmera dentro do próprio armário filmando todas as reações dela e a cena atingiria o ponto alto onde a atriz de modo veemente daria seu texto no auge da interpretação para defender sua personagem. Mas não estamos em uma novela, não tinham câmeras, nem atores fingindo nada.


Ou melhor, tínhamos uma atriz...



— De onde você tirou isso, Del? - Regina se afastou da porta do armário colocando a mão nas cadeiras. — Eu não traio você.


— Não queira me fazer de idiota, porra! - Rangel rápido com um raio foi até a porta do armário batendo-a com tanta força que o impacto reverberou por toda a casa e fez Regina se assustar. — Você acha que eu não tenho percebido? Que eu não tenho visto? Que eu não tenha escutado? Você acha que eu sou o quê? Não tenho a idade do João que acredita nas mentiras que você conta, caralho!



Graças a porta do quarto do casal estar aberta todos os cantos da casa passaram a escutar os gritos do futuro ex casal, Regina gritava negando toda a acusação feita e Rangel gritava mais ainda pedindo para ela confessar que estava o traindo. Era uma briga de gigantes, era uma briga de titãs, os dois eram dois lutadores mais do que preparados digladiando dentro de um ringue de box pra conquistar o cinturão dos pesos pesados.



André apontou no corredor com os olhos arregalados, Gabriela apontou na porta de seu quarto tentando conter as batidas aceleradas de seu coração enquanto João era impedido de correr para socorrer a mãe pelas empregadas que ainda estavam por ali, até que Regina saiu do quarto a passos rápidos e Del saiu logo atrás impedindo que ela continuasse segurando com mais força do que deveria seu braço, ato este o que quase a fez cair.



— Sua filha da puta! Acha que eu não vi os olhares que você e aquele homem estavam trocando na estréia da novela? 


— Del, me solta. - Regina deu um tranco para fugir das garras do marido. — Você está me machucando.


— Mas é pra machucar mesmo! Quem sabe você não confessa pela dor que me traí com o Antônio Fagundes.


O que um animal faz quando se sente ameaçado? Ataca. Regina deu um tapa por dentro da cara de Rangel que sentiu o ódio preenche-lo com intensidade e sem nenhum cuidado jogou-a contra a parede fazendo com que seus óculos caíssem no chão e ela batesse de cabeça na soleira da porta do quarto de Gabriela que deu um salto seguido de um grito e André correu para segurar o padrasto que avançava como um leão para abater a gazela, que era Regina.



— Eu vou matar você e ele se eu tiver a confirmação que você anda abrindo as pernas para ele, sua filha da puta! - O homem tentou se desvencilhar de André que não sabia de onde havia tirado tanta força para conter o homem. — Me solta, porra!


— Tá maluco, cara? Você não vai bater na minha mãe.



Gabriela puxou a mãe que havia ficado um pouco desnorteada pelo impacto e Regina quando percebeu que seus filhos mais velhos tinham se metido seu o instinto maternal falou mais alto e ela saltou igual uma leoa para cima do ainda marido fazendo com que André, Gabriela, as empregadas e João que nessa altura chorava copiosamente e tentava puxar Regina que arranhava o que podia de Rangel e ele de punhos fechados tentava furar a todo o custo o bloqueio de todos aqueles que tentavam separar o casal para se eles não se matassem.



— Se você tocar nos meus filhos eu mato você!


— Eu não quero eles, eu nunca vou machucar nenhum deles! Eu quero você! Eu quero você, Regina!


— Vem! Passa por todo mundo e vem, Del! - ela tremia de medo, raiva e culpa, mas nunca abaixaria a cabeça para uma agressão por mais errada que estivesse. — Eu não tenho medo de você!


— Diz, porra! Eu só quero que você confesse que me traí com aquele merda.


— Eu não traio mas se ele me der bola eu vou abrir as pernas pra ele porquê você não me come direito há meses!



Um homem com sua síndrome de masculinidade sente-se afetado quando seu desempenho sexual é colocado a prova e por isso que Del Rangel como um trator passou por todos os quatro mais João e quando estava perto de alcançar Regina, a mesma correu em direção a sala.



— Você nunca mais questione a minha masculinidade, sua vagabunda!



Regina ia retrucar, mas só não o fez porquê seu caçula aos prantos abraçou sua cintura implorando para que eles não mais brigassem. Del percebendo que aquilo havia ido longe demais e que os dois haviam exagerado na dosagem olhou para todos que tentavam apartar a situação o pânico por ver um casal que costumava ser tão sereno, entrosado e apaixonado naquela briga que havia ultrapassado todos os limites perdoáveis. 


Permitindo que lágrimas de dor moral, emocional e física escorressem por sua face a atriz ergueu o filho mais novo no colo e o mesmo envolveu a mãe como uma mochila. Gabriela secou uma lágrima e André coçou o cabelo. As empregadas puxaram Del para a cozinha e Regina olhou para os filhos completamente estarrecidos com tudo o que viram. Sabia que tudo aquilo havia sido culpa dela e de sua omissão, mas e se ela confessasse? Como seria a reação de Del? Como os filhos que viviam tão bem com o padrasto viveriam sem ele? Com quem João teria uma imagem paterna tão presente, viva, intensa e tão bonita se não fosse com Del? A dor de ser colocada a margem da sociedade não a colocaria tão para baixo do que ver os filhos crescerem culpando-a por ter os feito infelizes.


Por outro lado nunca havia se sentido tão viva, intensa, apaixonada e com fôlego de viver um amor. Antônio despertava em seu âmago o desejo latente de viver tudo de bom o que a vida teria para lhe dar, fazia com que ela voasse sem tirar os pés do chão, fazia com ela visse o mundo com mais cor, se sentisse mais forte, mais capaz, mais preparada para enfrentar todas as adversidades da vida. 


E mesmo sem acreditar estava de frente com o seu maior dilema: se sacrificar em um casamento que se provou estar fracassado ou agarrar a oportunidade que a vida tinha lhe dado para amar e ser amada?



— Arrumem as coisas de vocês, vamos para São Paulo. - a intérprete de Raquel cruzou o corredor com João no colo.


— Como assim? A gente tem um monte de coisa pra fazer aqui. - André falou seguindo-a.


— Vocês fiquem então. Eu vou com o João. Não aguento mais ficar nem um minuto aqui dentro.




André e Gabriela olharam-se e foram cada um para seus respectivos quartos arrumarem o que a pressa da mãe permitia e assim segui-la para onde quer que ela fosse. João não largou o colo da mãe um minuto sequer pois somente assim ela e Del não brigariam de novo, pelo menos era esse o pensamento do menino de seis anos. Regina não se demorou a arrumar o que precisaria pois no apartamento de São Paulo teria tudo o que ela precisaria. João precisou ir para o chão, para que a mãe carregasse as bolsas e como quem guia uma procissão, o menino fez de tudo para que a mãe e o padrasto não se encontrassem, porém, foi inevitável que os dois não se encontrassem enquanto eles saíam.


 
— Del? - João deixou a mãe e foi correndo para o padrasto que o abraçou apertadamente.



— Desculpa por isso, campeão. - Rangel balançou a cabeleira do menino. — Desculpa se eu fiz você chorar.


— Você e a mamãe estão estressados? - o homem assentiu. — A massagem não vai adiantar dessa vez?


— Não, não vai.


— A gente volta logo. - estendeu o boneco que abraçava. — Pra você não ficar sozinho.  



Nessa hora Regina sentiu uma lágrima involuntária escorrer por sua face, a sensação de asfixia fora tão intensa que a atriz precisou de ar mas não saiu do lugar até seu caçula ir até ela e sair e quando ela ia fazer o mesmo uma voz a fez fez continuar estagnada no mesmo lugar.



— Posso saber para onde vocês vão? - Del colocou o boneco de João em cima da mesa. — Pra onde você vai?


— Vamos para São Paulo.


— Precisou mesmo disso tudo, Regina?


— Não sei, me diga você. - ela o olhou e passou o óculos reserva já que o outro havia quebrado na briga. — Só me faça o favor de aparecer por lá quando estiver preparado para conversarmos.



E assim ela saiu pela porta jogando a culpa nas costas de Del Rangel, como se assim fosse se sentir melhor.


                                          ******


A manhã de quinta feira amanheceu ensolarada no Rio de Janeiro mas na casa da Barra da Tijuca o clima não estava nem um pouco amigável. Del Rangel só saía para trabalhar por obrigação, contudo, sua mente estava tão perturbada que todos a sua volta percebiam seu estado e consequentemente a ausência de Regina no sets de gravação.


Naquela noite depois de quase colapsar no estúdio, o diretor assim que chegou em casa, percebeu que tudo estava silencioso e mais uma vez se sentiu frustrado. Chegou a cogitar que tudo era fruto de sua imaginação, que tinha exagerado em seus pensamentos e ações, que tinha feito uma tempestade acusando a mulher que ainda amava de uma traição. Doía nele, causava remorso, causava peso em sua consciência e por precisar conversar e colocar tudo para fora passou a mão no telefone quase implorando por ajuda.


Cássia Kiss largou o telefone pegando seu marido e a bolsa, conforme o homem conduzia o veículo pelas ruas do Rio de Janeiro a mulher quase se descabelava enquanto implorava para que o mesmo pesasse o pé no acelerador e dirigisse o mais rápido que podia. Ele o fez, e qual a consequência? Quando o automóvel parou em frente a casa de Regina e Del, Cássia abriu a porta do carona vomitando todo o breve jantar. 


Maldita gravidez. Malditos enjoos.


Zé, o seu marido correu para segurar os cabelos da esposa para depois apertar a campainha da casa e pedir a empregada que atendeu um copo de água. O mal estar de Cássia dissipou-se rapidamente e após sentir a firmeza necessária em suas pernas adentrou a casa já por ela conhecida e foi diretamente para o escritório em que Del trabalhava.


O estado do homem não estava muito agradável e quando os olhares dos amigos se encontraram toda a leveza que a intérprete de Leila havia pensado em levar havia se esvaído na mesma proporção que percebeu a ausência dos outros membros da casa, principalmente de Regina.



— Del, o que houve?


— Brigamos.


— Como assim brigaram? Vocês não brigam nunca.


— Não nos olhos do público, mas você tem uma certa razão... dessa forma foi a primeira vez.


— Dessa forma? - Cássia se sentou e pediu licença ao marido. — As crianças se envolveram?


— Até as empregadas, coitadas. - bateu a cinza do cigarro no cinzeiro e alisou a têmpora. — Eu nunca me vi daquele jeito.


— Vocês se agrediram? - o diretor assentiu. — Que baixaria... - abriu as janelas do cômodo para arejar o odor do cigarro. — Mas por quê isso, gente?


— Eu vi uma coisa que insinuava uma traição. Fiquei cego, Cássia. - descruzou as pernas. — Eu já estava pensando isso há meses, até conversamos sobre isso, lembra? - a atriz afirmou. — Na terça de manhã eu acordei e ela já tinha saído e a Gabriela me falou uma coisa que me deixou com muito grilado.


— O que ela disse?


— Que seria bom eu começar a me preocupar com os desencontros frequentes que Regina e estávamos tendo.


— E aí você foi atrás dela? - ele afirmou. — Onde ela estava?


— Na Globo. Estava vendo uma cena do Antônio Fagundes e quando ele beijou a Renata Sorrah, ela disse: "Pra que isso tudo? Não gosto do meu homem beijando outras pessoas assim." - imitou a voz de ainda esposa para em seguida tragar o cigarro e afunda-lo no cinzeiro. — Porra, Cássia, eu não sou nenhum idiota. Pelo menos não me achava um idiota.


— Você finalmente descobriu... - Kiss afastou a franja dos seus olhos. — Eu não queria que tivesse sido assim.



Rangel que havia abaixado a cabeça ao escutar a frase vinda da amiga olhou-a por cima do óculos com uma fúria nunca antes vista por ela. Cássia naquele momento havia percebido que havia falado demais e engoliu a seca pronta para gritar por socorro se fosse necessário.



— Então ela estava mesmo me traindo?



— Você falou que viu, ué.



— Mas ela não confessou, muito pelo contrário. - Rangel se levantou e andou vagarosamente até a amiga que dava leves passos para trás. — Me fez acreditar que eu estava ficando louco. Cássia, você sabia? - a atriz abaixou a cabeça ficando em silêncio. — Você sabia. Sabia de tudo e quando eu te perguntei você mentiu pra mim.


— Eu não fiz por mal, Del, só não queria causar discórdia em um casamento.


— Discórdia em um casamento aquela filha da puta causou quando abriu as pernas pra outro filho da puta, porra! - Del gritou fazendo com que o marido de Cássia aparecesse na porta pronto para fazer um escarcéu. — Desculpa, Zé.


— Onde é que eles estão?


— Eles quem, Cássia?


— A Regina e as crianças.


— As crianças estão em São Paulo e ela eu espero que esteja na puta que pariu.


— Mas que boca suja, para com isso. 


— É para conter a vontade de pegar o primeiro voo e afundar a cara daquela desgraçada em uma parede.


— Agressão não vai adiantar nada. - Cássia puxou Rangel e o sentou no sofá que tinha no escritório. — Nem vai fazer com que você se sinta melhor.


— E o que você quer que eu faça? Que eu finja que isso nunca existiu e fique quieto? Eu sou homem! Não posso aceitar um chifre de boca calada.


— Você é machista pra caralho, Antônio Rangel! - a mulher cruzou os braços. — Se você fosse no lugar dela, se fosse você quem tivesse traído, você estaria assim?


— Mas é claro que não. - tirou os óculos colocando-os dentro do bolso da blusa.


— Então por quê todo esse enredo?


— Porque eu fui traído, Cássia, traído! Está doendo, merda!



Rangel afundou-se em um choro copioso, digno de pena, dó e compaixão. Cássia estava completamente dividida pois nutria amizade respeito e carinho pelos dois. Zé se aproximou a tocou no ombro da esposa compartilhando do mesmo sentimento que ela, o que a fez acolher amigo em seus braços para que ele pudesse por para fora todas angústias através das lágrimas.



********


Antônio estava passando por dias mais que agradáveis em São Paulo na companhia dos filhos. Eles estavam cada vez maiores, mais sabidos, mais sadios, mais inteligentes. Brincou de bonecas com Diana e Dinah, jogou vídeo game com Neto, levou os filhos para passearem juntos, se divertiram como há muito não fazia. Embora fosse um pai presente mesmo estando em outra cidade, Antônio sentia falta desse contato mais próximo, desse calor que a paternidade emanava, da angústia de não saber se as crianças ainda o veriam como o super herói.


Ser pai também não era fácil, principalmente quando tinha que se ausentar para se fazer presente. Quando tinha que pensar milhões de vezes antes de agir pois seus atos poderiam influenciar a vida dos filhos para sempre e nem sempre era bom abdicar de seus próprios desejos.


Na noite de quinta feira quando as crianças já dormiam no colo do ator enquanto viam um filme qualquer no vídeo cassete sentados no sofá da sala, Clarisse lavava a louça da janta na cozinha silenciosa. Já passava das onze e o cansaço fazia sua têmpora latejar e o sono fazia seus olhos arderem. Seus passos a levaram para a sala e quando entrou no cômodo sorriu com a imagem de Antônio dormindo de boca aberta com as crianças dormindo por cima dele. Era uma linda imagem, tão marcante que precisava ser eternizada por uma fotografia, e foi isso que ela fez. Tirou uma foto das crianças e do pai para em seguida acorda-los para manda-los dormir em suas respectivas camas. Fagundes também havia sido acordado e quando pensou em ir embora a ex esposa o mandou de sentar de volta.



— O que você quer falar comigo desde que chegou e não consegue?


— Não era nada demais, deixa pra lá.


— Não, não vou deixar. - Abujamra se sentou na mesa de centro ficando de frente ao ex marido. — A sua cara não me engana, Antônio. O que aconteceu?


— Vou me separar da Mara.


— Já? - franziu o nariz. — Não curtiu a garotona?


— A idade dela não me incomoda, Clarisse. - pegou o charuto no cinzeiro e o acendeu. — Mas é porquê eu amo outra mulher.


— Ih, nem vem! - A morena se levantou mexendo o indicador em negação. — Não vou voltar pra você. Estou conhecendo um cara e ele parece ser legal, desiste.


— Ta maluca? - Fagundes caiu na risada e se policiou pelo sono das crianças. — Não é você, é outra.


— Não sou eu? Não mesmo? - ele negou e ela ergueu as mãos para os céus como se agradecesse. — Então quem é?


— Regina.


— Regina? Que Regina?


— Regina Duarte.


— Ah, mentira! - Agora foi a vez da mulher cair em uma gargalhada tão cativante que foi impossível que Antônio não risse junto. — Fafá, que loucura. Desde quando?


— Estamos entre idas e vindas desde março, abril, sei lá. - jogou a fumaça do fumo pro ar.  


— Mas ela não é casada?


— Isso é um problema. - coçou o canto da boca. — Mas não por muito tempo.


— Por que?


— Ela disse que ia pedir a separação. - Clarisse assoviou. — Depois disso eu me separo da Mara.


— E por quê você ficou com essa menina, cara?


— Sei lá, eu gosto dela. Ela é muito legal, tem um papo incrível, é inteligente, tem postura...


— Mas ela não é a Regina, né?


— Não. - tragou de novo. — Isso é que me incomoda.


— Não devia. Se vocês estão apaixonados um pelo outro não devera ser um incômodo, mas uma solução.


— Você precisa conhecer ela melhor então.


— Ela vai ser a madrasta dos meus filhos, é claro que eu vou conhecer. - se levantou. — Vou pegar as coisas pra você dormir.


— Um absurdo é eu ter de dormir nesse sofá.


— Quer dormir com as crianças? Pode ir.


— Queria dormir com você, mas você não me dá bola. - puxou a camisola que a ex mulher usava fazendo-a cair toda torta em seu colo. 


— Para de palhaçada, Antônio, me solta!


— Só se você me der um beijo. - deslizou a língua pelo lábio inferior. — Eu vou ser um bom menino.


— Você nunca foi um bom menino. - deu um tapinha na cara do ex marido e fez força para sair de seu colo. — Me solta, vai. Tô com sono.


— Não, já disse que você só saí daqui se me der um beijo. - afundou o charuto no cinzeiro e se virou deixando a ex por baixo de si no sofá. — Não vai negar esse pedido pro pai dos seus filhos, né?


— Eu odeio você, sabia? - Clarisse envolveu a cintura do ex com suas pernas. — Mas beija bem, tenho que admitir.



É, o ex casal teve uma recaída.


********


São Paulo, 05/08/1988 - Sexta Feira.



O dia amanheceu ensolarado na Selva de Pedra. Regina abriu as persianas de seu quarto agradecendo ao dia que estava começando e pedindo para que o mesmo fosse melhor que o dia anterior. Ela sorriu e saiu do quarto para tomar café com as crianças que iam fazer alguma coisa pelo condomínio. João ainda estava relutante de sair de perto da mãe e isso deixava-a com a consciência mais que pesada. 


Quando eles saíram, a atriz dedicou-se a um longo banho. Se perdeu no quantitativo de minutos que deixou com que a água caísse por seu corpo e só saiu do chuveiro quando seu telefone residencial começou a tocar. Ela não correu, muito pelo contrário. Saiu do chuveiro com muita paciência se secou, colocou um roupão qualquer no corpo, penteou os cabelos no espelho e quando chegou a cogitar o atendimento, quem ligava já havia desistido há muito tempo.


A atriz balançou a mão em descaso, passou seus cremes, olhou-se novamente no espelho esticando alguns pontos do rosto pensando em fazer uma nova plástica e abandonou a ideia temporariamente quando o telefone novamente tocou e como ela estava sozinha, foi atender pelo quarto mesmo.



— Alô.


— Se eu te ligar você não me liga. 


— Ah, Lilia. - Regina se sentou na cama de forma que ficou de costas para porta. — Me desculpe, mas eu não estava querendo ver nem falar com ninguém.


— Imaginei, mas eu precisava de notícias suas. - Cabral olhou a porta do camarim e percebeu que não tinha ninguém passando pelo corredor. — Como você está?


— Sinceramente? Não sei nem dizer. - pegou sua bolsa que estava no pé da cama e colocou-a em seu colo. — Eu sinto falta do Del, mas nosso relacionamento acabou, por outro lado também sinto a falta do Antônio, sabe?


— Você precisa se decidir, Regininha. Vai esperar dar uma confusão maior do que já deu?


— Não, é claro que não. Mas não quero aceitar a atual realidade da minha vida. - abriu a bolsa desembalando de um lenço de papel o charuto que Fagundes tinha lhe dado. — Eu amo a figura que o Del representa para as crianças.


— Uma figura que se abalou por tudo que aconteceu.


— Mas eu amo o Antônio. - acendeu o charuto. — Ao lado dele eu sinto que finalmente encontrei minha alma gêmea.


— Regininha, acaba logo com esse casamento. Vai adiar o inevitável pra que? Pra viver infeliz? As crianças tem seus respectivos pais, não é no padrasto que eles tem que ver alguma figura paterna.


— Mas quando o padrasto de faz mais presente que o próprio pai essa imagem pesa sim.


— Então faça o pai ficar mais presente, ué!


— Não sei. - maneou com a cabeça. — Eu vou ter que escolher um dos dois, mas não queria fazer isso correndo.


— Você está adiando essa escolha há meses e sabe disso. - Lilia passou a página de sua agenda. — Você sabe que vai ter de escolher, por quê não agora?


— Porque eu não quero abrir mão de nenhum deles. Adoro o meu marido, mas tenho amor pelo meu amante.



Del Rangel estava escutando a conversa toda, ou pelo menos escutando a conversa de Regina com os braços cruzados na porta. Regina continuava a tagarelar com Lilia Cabral no telefone todos os prós e os contras de escolher um deles e para o diretor de Bebê a Bordo a gota d'água foi escutar Regina proferindo a seguinte frase:



— Na verdade os dois são tão bons no que fazem que eu queria passar uma noite inteira dando para eles ao mesmo tempo.




Essa foi a deixa perfeita para que o homem cruzasse o quarto que dividiam quando estavam em São Paulo e olhar para a esposa que ficou mais branca do que o roupão que usava quando percebeu que era olhada pelo ainda marido.



— Del? - Regina deixou o charuto cair no chão de tamanho choque. — O que você está fazendo aqui?


— O que? O Del está aí? - Lilia gritou pelo telefone.


— Sua vagabunda!


Lilia escutou tudo. Possuído pela fúria de um povo cansado de ser massacrado por um governo, Del Rangel desferiu com o verso da mão um tapa na face da mulher que sentiu uma dor lancinante. Em seguida segurou-a pelo colarinho do roupão e lançou-a para a saída da porta. Regina coitada, não conseguiu nem reagir, estava tão desnorteada que não sentiu que estava sendo agredida fisicamente O homem desferiu contra a face feminina um outro tapa, outro, outro e outro. Foram tantos que o lábio superior de Regina havia ficado inchado instantaneamente. 



— Sua filha da puta! Então quer dizer que você queria foder com dois ao mesmo tempo?



Regina tentava clamar por ajuda mas de sua garganta não saía voz.



— Então eu vou te foder, eu vou te deixar tão fodida que nunca mais vai esquecer de mim.



O homem lançou-a contra a parede de vidro que dividia a sala e a sacada. Ela em um ato desesperado de sobrevivência tentou sair correndo em direção a porta, mas havia impossível enxergar com clareza devido ao inchado de um dos olhos. Lilia havia deixado de escutar, contudo, as lágrimas de desespero caíam de forma contínua de seus olhos quando assim saiu correndo para Denis que estava junto de Gilberto e Aguinaldo para pedir por ajuda.


Teve uma certa hora que Del jogou Regina contra a mesa, porém, como ela estava de frente para o móvel seu ventre chocou-se contra a quina do móvel com toda a força. Não se sabe o que passou a escorrer por suas pernas pois a última coisa que se lembrava foi de ter tentado se arrastar e conseguido segurar nos pés de André que havia entrado em casa antes de desmaiar.


Notas Finais


Qualquer coisa eu estou no twitter: @IndioOta.


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