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História Degrassé - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Flashover (1 to 3)


(É um verão que cheira a giz de cera e suco de morango. Cidadezinha pacata, litorânea, palco de boatos sobre extraterrestres e viajantes no tempo, embora o ceticismo mordaz continuasse febril. Época das cigarras casamenteiras, das férias escolares e pipoca agridoce na manteiga cintilante, dizem as avós que acompanham seus netos energéticos. No Parque Três da Avenida Nove Menos Quatro, as árvores sacolejam músicas de indie rock, suaves, enquanto as crianças brincavam de amarelinha — as extrovertidas, das bochechas coradas de pó-de-rubor. As introvertidas, tipo iohC uygmoeB e Choi Soobin, sujam os joelhos e os calções por estarem sentados em cima da grama azul-fluorescente, brincando com as cartas de Yu-Gi-Oh!

Os outros os excluem porque Soobin tem nome estranho, cabelos peculiares e olhos que escondem um cosmo abissal bastante misterioso. Por ser amigo dele, uygmoeB levava má fama também, apesar de andar nos “conformes” que o governo diz ser “padrão”. Mas tudo bem. De qualquer forma, uygmoeB nunca foi de gostar de padrões. E isso é tão gritante nas suas feições que se metamorfoseiam ao tédio extremo quando Os Manos vomitavam regras — e nas músicas que chiam no seu walkman também.

Soobin é risonho demais. Tem voz de pluma que se assemelha a trovões violentos quando ele bem quer, porém, de resto, sua personalidade é muito doce, tranquila e sábia. Enquanto isso, uygmoeB só se retraía na sua bolha confortável porque tinha receio, apesar de tudo, de mostrar a sua animação de folião. Oh, é, como queria brincar de amarelinha ou tentar alcançar as estrelas lá naquele balanço molenga que é interditado pelas crianças padronizadas. Viver é tão chato quando não se faz parte de umas regras mixurucas, não é? Aliás, quem inventou estas benditas regras?).

“Oras, uyg”, diz Soobin, repentinamente, o olhar adornado por estrelas fixos no seu deck. “A vida é chata com regras, porém elas são necessárias para que haja paz e tranquilidade na sociedade. Até nesse jogo de baralho há regras. Faz parte da vida. Lide com isso. É uma maldição, mas também uma bênção.”

“Não quando sempre limitam a gente”, responde uygmoeB, os joelhos sujos de lama, de cicatrizes feitas após cálculos insensatos e impulsos divertidos. “Você sabe o que a minha mãe diz sobre isso? O Yu-Gi-Oh!, no caso. É sempre a mesma ladainha de ‘É coisa do Demônio, uyg. Na tevê, canal meia-meia-meia, as pessoas falam sobre a lavagem cerebral que o Kapeeta faz nas crianças inocentes como você, meu filho. Algum dia, hei de dar um fim nisso tudo! Você não era assim até começar a andar aquele menino de nome e cabelo esquisito!’”.

Dita ele, a voz fina querendo imitar a mãe. Soobin gargalha.

“Ela só se preocupa contigo. É normal.”

“Talvez… mas vem cá, Soobin. Por que seu nome não é igual aos das outras pessoas daqui? Digo, seu nome começa com letra maiúscula! É meio diferente… As pessoas até te olham meio torto. A sua mãe é dessas diferentonas, é?”

(Há um silêncio de um, dois, três segundos. Entrecortado pela sineta dos carrinhos de pipoca. Das risadas esganiçadas das crianças. Das ondas rompendo no mar — junto ao canto melancólico das baleias e das cigarras veranis. Das incertezas, das dúvidas, do receio).

“Não exatamente”, Soobin volta a agraciá-lo com a sua voz que ressona mais tranquila quanto a brisa que passou e afagou os seus cabelos. “É só que... você reclama das regras. Não é muito diferente em outros universos, sabe?”

uygmoeB, curioso, pisca os cílios bonitos.

“Sério?”

Soobin ri — a carne das bochechas formando covinhas sapecas — e escolhe uma carta que faz uygmoeB resmungar.

“Sim. Sempre haverá regras — e em qualquer lugar que você cair.”

“Como sabe disso com tanta certeza?”, a mão de uygmoeB se afrouxa no material espesso e castanho das cartas. “Andou lendo aqueles livros do akuyH, é?”

Soobin ri mais uma vez — há um tom de odisseias estelares jamais ditas aos humanos.

“Talvez eu tenha caído aqui, por um engano, após passar em cima do Triângulo das Bermudas…”

uygmoeB franze o nariz. “Quê isso?”

“Nada, nada. Mas é sempre bom te ver. Sempre será. Espero que a gente se encontre sempre, mesmo que você nunca tenha noção de quem sou eu, B-e-o-m-g-y-u.”


Notas Finais


— views em cysm: https://www.youtube.com/watch?v=cMFHUTJ13Ys
— eternally: https://www.youtube.com/watch?v=mxlloUcfUy0
— playlist da história: https://open.spotify.com/playlist/5QHieTxs5kj2VS7vdY5B9p

flashover
n. the moment a conversation becomes real and alive, which occurs when a spark of trust shorts out the delicate circuits you keep insulated under layers of irony, momentarily grounding the static emotional charge you’ve built up through decades of friction with the world.


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