História Delicate Storm - Capítulo 13


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Categorias EXO
Personagens Kai, Sehun
Tags Gatilho, Jongin, Professor, Sehun, Sekai
Visualizações 337
Palavras 4.498
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, LGBT, Romance e Novela, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


pra helen que todos os dias me lembra que eu tenho que postar delicate storm

Capítulo 13 - 13


 

Inspirei fundo o aroma da cidade quando coloquei meus dois pés para fora do prédio. Em algum momento durante aquela transição, a Orleans Queen’s parecia uma bagunça de cheiros e gostos e sentimentos. Estava acontecendo uma reforma do lado de fora do prédio e homens com uniforme e cones fechavam uma parte da rua, enquanto agentes de trânsito tentavam causar o menos possível de acidentes numa via dupla interditada. No exato momento em que eu atravessava a rua, tinha um caminhão fechando o cruzamento e o som era irritantemente alto. Buzinas, um tic tic tic constante, o barulho quase ensurdecedor daquelas malditas máquinas que quebravam o concreto. Qual era mesmo o nome daquilo?

Depois de tanto tempo vivendo em uma cidade pequena, voltar para a cidade grande era asfixiante. Era como passar muito, muito tempo debaixo d’água e, de repente, precisar irromper à superfície. Estar às escuras era sempre bom, independente de qual gosto tinha. O gosto, naquele momento, era de nicotina. Era amargo, ligeiramente azedo, e queimava embaixo da língua. O barulho era insuportável. Sempre havia sido assim? Não conseguia me lembrar. Não conseguia lembrar como eram as coisas antes, como se houvesse um borrão em todo o passado e eu houvesse começando a viver a partir do momento em que estacionei meu carro em outra cidade, em frente a um apartamento alugado, com algumas coisas em malas e muita expectativa de um futuro bom.

Andei alguns passos na calçada, fugindo de todo aquele maldito barulho. O sol estava tímido no céu, lentamente derretendo toda a neve que caíra pela cidade durante o ano novo, e os pedestres estavam sempre atrasados e irritados. Olhei para alguns dos rostos anônimos e ninguém me olhou de volta. Mulheres, dentro de vestidos na altura do joelho e enfiadas em meias-calças e sapatos scarpins. Elas pareciam combinar as cores dos esmaltes e dos batons. Sempre vermelho ou marrom. Uma ou outra usava nude, um azul royal ou verde musgo. Elas cheiravam a perfume doce ou creme de pele – um daqueles cremes que minha mãe adorava. Os homens estavam de terno, alguns só de camiseta social, outros com gravatas enfiadas às pressas no bolso da calça.

Em uma loja fechada, olhei meu reflexo pelo vidro. De volta, me encarou um belo hipócrita.

Eu era igual a todos eles. Um rosto anônimo no meio de uma multidão de almas mutiladas. Um sorriso meio irônico nasceu nos meus lábios e precisei lutar contra a vontade de enfiar a mão no bolso e sentir a textura da caixa de cigarros contra meus dedos dormentes. Ali estava um belo hipócrita, igual a todos os outros, pensando que as coisas deveriam mudar e não fazendo absolutamente nada para mudá-las.

Bem vindo ao mundo real, Kim Jongin.

O seu mundo faz-de-conta acabou.

 

 

Era engraçado, eu pensei, que sempre voltava a nevar quando alguma coisa ruim estava prestes a acontecer. Saboreei a sensação da neve naquela noite, enquanto voltava para casa depois de pegar um metrô lotado, e observei a forma como os floquinhos brancos alcançavam o chão depois de flutuarem no ar como partículas de poeira. Neve nada mais era do que água. Precisava estar frio demais para nevar, ou a neve derretia e se tornava chuva antes de alcançar o solo. E estava frio o suficiente naquela noite, eu conclui enfiando as mãos no bolso do casaco pesado e soprando fumaça branca quando tentei puxar ar para os pulmões.

Não havia fumado nem um único cigarro durante o dia, mas sentia uma ansiedade atípica sobre meus ombros enquanto cruzava a esquina e chegava à rua da minha casa. Não havia mais homens uniformizados, mas aquela máquina de quebrar concreto ainda estava lá, e os cones vermelhos também. À luz fraca da Iluminação Pública, os faróis dos carros eram como lanças silenciosas contra o solo. Estava tudo silencioso e barulhento. Havia, ainda, o barulho do trânsito e das buzinas, todos impacientes por uma cama quente. Bem ao meu lado, um grupo de jovens com uma vida inteira pela frente e moletons com o nome da faculdade regional conversavam como se falar daquela série fosse a última coisa que fariam na vida.

Subi de escada, mesmo que o elevador estivesse vazio. Era bom voltar a ter alguns hábitos saudáveis para recuperar os dias de vida que os cigarros me tiraram. Empurrei a porta do apartamento gentilmente, colocando a sacola do mercado na mesa de centro e pendurando as chaves no claviculário bem ao lado da entrada, juntando as mãos na boca e soprando meu próprio hálito quente na tentativa inútil de esquentá-las.

Tirei o casaco e bolinhas eriçadas na minha pele morena denunciavam o frio e a droga do aquecedor estava desligado. Chutei os tênis para fora dos pés e procurei pelo controle do aquecedor antes de vasculhar a casa atrás de Sehun. Exceto pelo som baixinho, quase inaudível, da televisão que vinha do quarto, não havia nenhum outro barulho que denunciasse a presença de alguém nos cômodos.

– Sehun... – Chamei, abrindo a porta do quarto e vendo o contorno do corpo magro enrolado em um cobertor felpudo. Não vi seu rosto, mas notei cabelos castanhos se movimentando nas ondas do travesseiro. Meu coração, de repente, se aqueceu. Pensei no quanto deveria estar quentinho ali embaixo daquele cobertor, e se ele aceitaria bem se eu simplesmente enfiasse meu corpo gelado junto ao dele em busca de um pouco de calor. Talvez ele resmungasse – e resmungaria mesmo, sem dúvida – mas acabasse cedendo. Se fosse um bom dia, talvez até ganhasse um beijo na boca. – Cheguei. E vou preparar o jantar. Algum pedido especial?

– Cigarros.

A voz de Sehun estava abafada pelo travesseiro, rouca e quebradiça. Lembrei-me que havia confiscado todos os cigarros daquela casa. Senti lentamente a vontade de deitar ao lado dele na cama se esvair, porque dadas às circunstancias dificilmente conseguiria alguma reciprocidade. Não quando o deixei sem cigarros um dia inteiro.

– Fora os cigarros. – Eu disse delicadamente, me surpreendendo com a facilidade com  a qual ainda conseguia ser delicado quando o assunto era Sehun.

Ele não respondeu.

Um homem solteiro precisava ter, no mínimo, o bom senso de saber cozinhar. O almoço que guardei para Sehun ainda estava intocado dentro da geladeira, o papel alumínio tão intocado quanto uma virgem denunciando que ele nem mesmo havia aberto a geladeira para verificar o que tinha para comer. Exceto um copo na pia, não existia qualquer outro indício de que ele ao menos levantara da cama. Sehun andava anormalmente deprimido, como se a vontade de fazer as coisas mais ínfimas possíveis sequer existisse.

Mesmo assim, preparei minuciosamente o jantar. Coloquei mesa para dois com o que eu sabia que Sehun gostava de comer pela pouca convivência que tínhamos, e o faria comer nem que precisasse enfiar a comida à força como se ele fosse uma criança birrenta.

Sehun já era um homem, no entanto. Menor de idade, mas um homem. Com dezessete anos, já era consideravelmente mais alto do que eu, e um pouco mais largo. Ele tinha a musculatura de atleta e era tão habilidoso quanto um, apesar de que os cigarros provavelmente já haviam prejudicado uma boa parte do fôlego que um jovem na idade dele deveria ter. Ele sentou-se na cadeira à minha frente e colocou as mãos quase religiosamente sobre o estômago, como se estivesse prestes a juntar os dedos em uma oração e a ideia foi tão estúpida que por um segundo evitei um sorriso irônico nos lábios.

Ele estava com o rosto amassado pelo travesseiro e os cabelos apontavam para todos os lados. Parecia estar de mau humor, o que provavelmente era verdade. Não se inclinou para me beijar, e eu também não o beijei. Eu havia aprendido a respeitar o espaço de Sehun, a lê-lo como se fosse uma página de um livro do Stephen King. E eu sabia quando ele estava de saco cheio, e quando provavelmente não hesitaria em me dar um belo soco por eu ser o escroto que levou os cigarros embora quando ele precisava, mais do que nunca, fumar.

– Como foi seu dia? – Eu perguntei enquanto servia a nós dois. Sehun não fez qualquer mínimo movimento que passasse a impressão de que iria comer.

– Uma bosta. E o seu?

Olhei para Sehun. De repente eu também já havia perdido a vontade de comer e senti o início de uma dor de cabeça tomando cada parte do meu ser como uma maldição. Quase mordi a língua na tentativa de não ser grosso ou responder de forma pouco solícita, porque eu precisava entender que um relacionamento com outra pessoa sempre teria altos e baixos e que aquela vontade de socar Sehun em algum momento iria passar. Respirei fundo, decidido a guardar para mim mesmo o quanto achava que ele deveria, só um pouco, me agradecer por ser o único que aparentemente se importava com ele.

– Tudo ok. – Respondi. – Coma.

Talvez, pressentindo que eu estava a um passo de perder a paciência, Sehun descruzou os dedos da barriga e experimentou um pedaço de carne. Ele mastigou por mais tempo do que seria aceitável e engoliu ruidosamente. Meus pelos estavam eriçados e, no reflexo dos talheres, percebi o quanto parecia cansado e que as orelheiras abaixo dos olhos pareciam carregar mil ressacas e mil tragédias.

– Eu sei que você quer mandar eu me foder. – Sehun disse, parecendo experimentar lentamente cada sílaba. Era como se ele estivesse se esforçando para me deixar puto da vida, e estava conseguindo. – Eu consigo sentir isso pela maneira como me olha.

– Não vou te dar os cigarros. – Minha voz soou baixa, quase como uma ameaça. Eu não era um homem de me aborrecer fácil, nunca havia sido. No entanto, Sehun parecia estar fazendo de propósito. Ele parecia estar cutucando há dias, só esperando uma explosão. – Só desista de uma vez por todas.

Os cantinhos dos lábios de Sehun se ergueram em um sorriso irônico, sem o mínimo de humor. Se eu não o conhecesse o suficiente, poderia até dizer que estava se divertindo com toda aquela situação. No entanto, era alguma coisa muito mais íntima, bem mais profunda do que simples implicância. Talvez... se eu desse os cigarros... Balancei a cabeça, quase rindo escandalosamente, porque dar os cigarros àquela altura seria ceder. E eu estava cansado de ceder e não iria mais carregar no ombro todas as responsabilidades sozinho.

– O que você quer em troca? – Sehun perguntou lentamente, dando um gole demorado em suco de laranja e me fitando de uma maneira que fez meu sangue ferver dentro das veias. – Como posso te convencer, professor?

– Não é negociável.

– Tudo é negociável. – Ele respondeu imediatamente, quase ríspido, quase como se debochasse. – Se eu fizer um boquete, você me deixa fumar?

– Não.

Sangue corria com força nos meus ouvidos. Diferente do que deveria acontecer, não senti tesão ou vontade, só um amargor embaixo da língua. Senti um pouco de vergonha de quem éramos e imaginei o que deveríamos ser. De repente tudo doía. A ponta dos dedos que seguravam com força os talheres. A cabeça. Os olhos. O coração. Mas principalmente a consciência.

– Nunca se imaginou me fodendo nessa mesa? Me segurando pelos cabelos com força enquanto eu me empino só pra você meter, professor? Nunca imaginou como seria bo–

– CHEGA, SEHUN.

Não sei como, mas de repente eu estava de pé. O som da minha mão batendo contra a mesa reverberou pelas paredes do cômodo como trovões, e por breves segundos saboreei a sensação de ver os olhos dele arregalados em surpresa, quase como se esperasse qualquer coisa, menos que o pacato e gentil Kim Jongin se exaltasse. Porém, logo a surpresa se tornou uma leve satisfação que Sehun tratou em esconder com aparente indiferença.

– Tanto faz. – Ele deu de ombros, ameaçando levantar.

– Você ainda não comeu. – Eu disse lentamente, ainda em pé. Segurei a beirada da mesa, tentando me controlar para não gritar ou explodir ou gargalhar.

– Você também não.

– Você me deixou com uma dor de cabeça insuportável. – Eu sibilei, de repente rindo. Olhei para ele e balancei a cabeça, tremendo de raiva. – O que você pretende? Me enlouquecer também? Esse é o seu grande plano? Pois está conseguindo, Sehun.

– Não estou planejando nada. – Ele me respondeu no mesmo tom. Levantou-se também e me encarou na mesma altura, como se me desafiasse. – Eu não quero nada.

– Então somos isso? – Como se mil coisas quebrassem, eu o encarei nos olhos de uma maneira que nunca havia feito antes. De repente era como se eu estivesse vendo Sehun pela primeira vez, e não era nada bonito. – Você só transa comigo, só me chupa, quando quer algo em troca? Somos essa... essa coisa suja, Sehun? Uma transa por uma caixa de cigarros? Um boquete por um Jack Daniel’s? É isso? Quanto que você está cobrando pelo seu amor? Um apartamento na cidade grande?

Porra, eu inspirei ruidosamente. Tudo doía. Eu me senti sangrando. De alguma maneira, quando me afastei, me perguntei como não estava escorrendo sangue pelo chão a cada passo que eu dava em direção ao quarto. Porra, como doía! Porra. Porra. Porra... Havia algo pegajoso descendo pelas minhas entranhas, se alojando em alguma parte do meu corpo. De alguma maneira, aquela coisa que quebrara dentro de mim deveria estar rasgando órgãos e rompendo veias. Deveria, sim, estar sangrando.

Minha mão alcançou a maçaneta ao mesmo tempo em que braços me agarraram pelo peito. Dedos pálidos, longos e femininos espalmaram pela minha barriga e o rosto de Sehun se enfiou entre minhas omoplatas. O som de um soluço preencheu as paredes e eu percebi, com certo horror e incredulidade, que não vinha de mim e sim de Sehun. Minha camiseta ficou molhada enquanto minha testa encostava-se à madeira da porta e minha respiração saia rápida e curta. Mantenha a concentração, eu me ordenei. Você não deve ceder.

Minha raiva esvaiu como em um passe de mágica porque o meu menino estava chorando. Senti meus próprios olhos embaçados, tentando acreditar que não eram lágrimas, me recusando a piscar e deixar que elas caíssem naquele chão imaculadamente limpo como a prova de que eu era muito fraco e que nunca conseguiria ser imune ao que Sehun significava.

– Eu fiz amor com você. – Ele disse. Foi abruptamente, apenas um sussurro rouco e quebradiço no silêncio total do apartamento. Ele tamborilou os dígitos no meu estômago e eu encarei os dedos longos e lindos novamente juntos, enlaçados como em uma prece. – Eu fiz amor, porra. Você que deveria me cobrar por ter me permitido sentir todas essas coisas. Eu só quero, eu só preciso, que você desista dessa ideia e me mande de volta no primeiro ônibus. Eu não aguentaria... Eu não... Eu aguento o seu desprezo. Aguento que me odeie por quebrar o seu coração, mas não vou aguentar quando perceber que me odeia por quem eu sou.

– E quem você é? – Minha voz saiu embargada. Eu estava exausto e magoado e puto, tudo ao mesmo tempo.  Queria magoar Sehun tanto quanto ele me magoava, mas era tolo e apaixonado demais para conseguir pagar na mesma moeda.

– Eu sou Oh Sehun. Eu continuo sendo Oh Sehun até quando não sou mais ele.

Lentamente, virei-me e deixei que minhas costas batessem contra a porta do quarto. Os olhos de Sehun estavam inchados, uma lágrima estava presa em seus cílios estonteantemente longos. Ele me encarou de volta na mesma intensidade e, hipnotizado, permiti que a ponta dos meus dedos deslizassem tortuosamente lentas pelas protuberâncias pontudas do queixo, pelas bochechas rosadas e o lábio superior levemente úmido, observando como ele fechou os olhos para apreciar o carinho maciço de quem não sabe mais como se expressar em palavras.

Sehun apoiou o peso do corpo no meu e pressionou os lábios contra meu polegar, pálpebras escondendo a tempestade que estava ameaçando me afogar. Não conseguia mais fugir dele ou do que queria que fôssemos. Queria gritar um belo foda-se para todo o mundo. Foda-se se Sehun não era a porra de um garoto perfeito. Foda-se de Sehun não era o caralho de um bom exemplo e se ele era carregado de traumas e escolhas ruins. E quem era perfeito, afinal de contas?

Foda-se, eu pensei. Foda-se.

 

 

Sehun amava a neve como amava poucas coisas na vida. À noite, quando estava nevando, ele costumava se enfiar na varanda do quarto apenas de moletom. Quando não estava com um copo de chocolate quente na mão, reluzindo como diamante, estava comendo bolachas amanteigadas que eram suas preferidas no mundo inteiro. Quando não estava tamborilando os dedos no parapeito da varanda, estava fazendo cálculos em uma folha de papel – cálculos que apenas ele entendia.

Uma vez, flagrei Sehun com a boca aberta, tentando que algum dos flocos de neve caísse diretamente em sua língua. Esses eram os dias bons, em que ele sorria ligeiramente arteiro, como se pego de surpresa e fosse orgulhoso demais para assumir que estava com vergonha. Eu amava os momentos bons, em que ele se arrastava pelo colchão, cheirando a neve e chocolate e Sehun, e sussurrava alguma coisa gostosa na boca do meu ouvido e nós fazíamos amor bem devagar, tentando não congelar os traseiros naquele frio do caralho.

Sehun também tinha dias muito ruins – dias muito ruins. Eu não estava familiarizado com os dias ruins, porque Sehun nunca estava por perto em alguma crise. Era quase absurdo como uma pessoa podia, de um dia para o outro, passar da água para o vinho. Começava com um leve mau humor, algumas palavras tortas, nenhuma vontade de levantar da cama. O humor taciturno ia evoluindo para alguma coisa mais intrínseca, mais latente e menos tolerante. Algumas vezes era fácil e rápido, quase indolor. Outras vezes, no entanto, ele ficava tão ruim que começava a arranhar a própria pele com as unhas até sangrar e arder e, na dor, ele parecia sentir algum prazer.

Cheguei a precisar amarrá-lo em uma das crises. Sehun implorou, aos gritos, para que eu o soltasse porque ele precisava... Mas ele nunca conseguia verbalizar do que precisava. A sensação era que ele iria explodir em mil pedaços enquanto se debatia, arrancando sangue da própria boca ao se morder, quase torcendo o pulso ou os tornozelos na força que fazia para tentar machucar a si mesmo um pouco mais porque ele dizia, com os olhos desfocados, que se não conseguisse se soltar alguma coisa realmente ruim ia acontecer.

Quando ele parava, cansado e machucado, eu observava em silêncio sentado em uma das poltronas do quarto, a mão no rosto e mais uma noite insone. Dormir era quase impossível, conseguir pregar os olhos parecia absurdo àquela altura. E tudo prejudicava minha vida, meu trabalho, nossa fonte de renda. Sehun sempre parecia a um passo da histeria, a voz reverberando pelas paredes como gritos que asfixiavam.

Ele se acalmava por pouquíssimos segundos antes de começar a se agitar novamente. Todo o corpo tenso como cordas de um violão pressionadas pelo melhor músico, o rosto manchado de sangue e lágrimas. Eu rezava, silenciosamente, para que ninguém aparecesse e descobrisse que tinha um garoto amarrado à minha cama, mas não tentava fazer com que ele não soltasse tudo aquilo que tinha guardado dentro de si mesmo.

– Meu irmão precisa de mim. PORRA, JONGIN. ME SOLTA. – Ele quase berrava, apertando tão forte os dentes que o maxilar era uma protuberância rígida desenhando o rosto. Ele sim parecia carregado de mil tragédias em todas aquelas noites sem fim. – Sunjin precisa de mim... – Ele murmurava por fim, quase cansado, quase histérico. Quebrado.

Eu só o soltava, horas depois, quando ele estava cansado demais para conseguir machucar a si mesmo. Observava a forma como a pele pálida estava vermelha e machucada, sangue coagulado em algumas partes, os pulsos quase abrindo novamente. E eu me sentia o pior homem do mundo e, ao mesmo tempo em que odiava Sehun com todas as minhas forças por ser tão quebrado, eu o amava ainda mais.

É só uma fase de desintoxicação, eu pensei. Só isso. Em breve ele teria mais momentos realmente bons, e menos momentos realmente ruins. Em breve iríamos rir de tudo aquilo e talvez Nic se juntasse a nós ronronando e mexendo o rabo peludo no ar.

Só uma fase.

Aguente firme, Jongin – eu me dizia todas as noites. Aguente firme, porra.

 

 

Os momentos ruins não passaram. Na verdade, apenas aumentaram.

Sehun estava estranhamente apático sentado naquela cadeira de espera. Diferente do que eu imaginei, as pessoas na sala de espera de um psiquiatra não pareciam loucas. Qual era a diferença de um psiquiatra e de um psicólogo? Será que a sala de espera de um psicólogo seria tão normal quanto à de um psicólogo? Uma mulher bonita, de cabelo cortado irritantemente reto, batom vermelho e salto scarpin, tamborilava os dedos contra o próprio joelho ossudo. Era a única linguagem corporal que denunciava algum tipo de ansiedade e, ao perceber meu olhar, imediatamente parou. Havia uma marca vermelha das unhas na pele muito pálida.

Havia uma mulher bonita atrás de um balcão da recepção. Ela me lembrou de Seungi e me deixou melancólico. Havia olheiras profundas no meu rosto e, dadas às circunstancias, provavelmente pensariam que eu era quem precisava conversar com um psicólogo. Quando tudo aquilo terminasse, eu pensei, talvez realmente fosse necessário. Sehun estava bonito naquele dia, usando uma camiseta preta de gola alta e com mangas compridas. As feridas de seus lábios já haviam se curado, os cabelos estavam penteados para trás com gel. Estava bonito, imóvel e apático. Era um tipo cru e frio de beleza, como se ele estivesse congelado. Não dava nenhum sinal de ter reconhecido o lugar onde estava e me olhava como se não estivesse me vendo.

– Oh Sehun.

A mulher bonita chamou. Sehun não deu qualquer sinal de que tinha ouvido o próprio nome, mas mesmo assim levantou e caminhou altivo pelo corredor que levava à uma das portas fechadas do consultório. Foi sozinho, como deveria ser. Tentei não sentir como se estivesse perdendo-o cada vez mais.

Cruzei as pernas e esperei, um gosto salgado embaixo da língua.

 

 

As consultas de Sehun me eram quase que religiosas. Em momento algum, em todas aquelas semanas, eu o deixei faltar. Ele tinha momentos horríveis, momentos em que eu precisava arrastá-lo à força e enfiá-lo no carro. Havia momentos em que ele rasgava a pele com as unhas, que gritava a ponto de sangue sair pela garganta. Diferente de tudo o que eu mais desejei e esperei, os momentos bons de Sehun estavam se tornando raros. Os momentos ruins tomavam forma e dominavam os minutos, as horas, os dias, as semanas... Já não existia nada de Sehun em Sehun. Ele era como uma folha em branco, como o caos em sua mais dolorosa forma. Tudo doía quando pensava nele. E eu já não conseguia seguir em frente. Minha vida era aquele garoto quebrado. Tudo, absolutamente tudo, se resumia a ele. Já não conseguia trabalhar, escrever, sair com meus amigos ou tomar algum café em uma das cafeterias da cidade. Tudo o que existia era a necessidade de ajuda-lo. Só isso. E ele melhoraria em breve, eu rezava. Em breve não havia mais nenhuma daquelas crises... Era só ter um pouco mais de força...

A força me vinha nos poucos momentos que Sehun parecia estar bem. Mesmo fantasmagoricamente magro e com olhos fundos, ele ainda era a pessoa mais bonita na qual eu já tinha colocado meus olhos. Sentado no sofá do meu apartamento, com Nic em seu colo, ele estava fitando a televisão e assistindo um filme. Ergueu os olhos para mim quando entrei na sala, após conseguir dormir poucas horas, e eu me sentei ao seu lado.

Inesperadamente, Sehun se inclinou até apoiar a cabeça em meu ombro.

– Sunjin uma vez aprendeu na escola como criar uma planta. – A voz de Sehun estava quebradiça e seca. – Ele pegou um algodão e um feijão. Colocou os dois num pote e deixou no apoio da janela do nosso quarto, e não conseguia sair de perto. Ele esperava que fosse crescer assim... De uma hora para outra. Demorou semanas para que um palitinho verde aparecesse e ele ficou tão encantado. Aí eu disse que nós iriamos ter um quintal enorme da nossa casa só pra plantar coisas de verdade. Ele ficou tão feliz com essa ideia. Mesmo com tudo o que nós passamos, ele ficou feliz com uma coisa tão simples. Mas eu nunca vou ter um quintal e nunca vou ter Sunjin de novo. Ele morreu, não morreu, Jongin?

Sehun estava lúcido pela primeira vez em semanas. Ele estava tão consciente que era como se estivéssemos novamente juntos, conversando no parque em uma noite de inverno. Não respondi nada. Ele não estava preparado para aquela afirmação. Eu apenas me virei no sofá e o puxei para o meu colo, e ele enterrou a cabeça no meu ombro e o corpo sacudiu com soluços violentos que preencheram o silêncio. Nic, percebendo a dor de Sehun, colocou a patinha em cima da coxa dele e ronronou suavemente.

– Eu conversei com a minha psicóloga... – A voz dele era pastosa e decidida. Limpou as bochechas com as mãos. – E decidimos que o melhor, no meu caso, é uma internação. Eu posso acabar me machucando de verdade ou machucando os outros.

Eu sempre soube que aquele momento iria chegar. Eu esperava por isso todos os dias, rezando para que não acontecesse. Desejando que ele milagrosamente melhorasse e que nada pudesse mais atrapalhá-los. Pensou que pudessem ser infinitos e eternos.

Não pude dizer nada. Não conseguia falar nada, pois as minhas lágrimas eram de Sehun naquele momento e todo o amor que eu guardei também. Queria que ele pudesse pegar aquele amor nas mãos e experimentar da textura, queria que ele conseguisse ter alguma noção do que sentia e que o que sentia era simplesmente quem eu era. Tudo era dele.

– O mundo quem vai te perder, amor. – Eu sussurrei contra seu ouvido. Mal conseguia reconhecer a minha voz embargada. – Eu amo você, Sehun, entende isso? Meu Deus, você com certeza não faz a menor ideia... Eu amo você, eu amo você tanto, eu amo você a ponto de fazer qualquer coisa pra te ver bem e feliz. E eu me odeio, eu me odeio tanto, por não ter sido capaz... Eu falhei com você, meu amor. – Segurou o rosto dele com as mãos, o peito doendo como nada no mundo. Estava sem ar, eufórico, o peso do mundo nos ombros. – Eu quero você, pra sempre, e eu não quero mais te ver sofrendo.

– Você não falhou. Nunca falhou. Você foi tudo o que eu precisei, Kim Jongin. Você foi bom. E foi gentil. E cuidou de mim até o último momento... Ah, Jongin. Não tenho conserto, nem cura, e mesmo assim aqui está você... Eu não preciso dizer que te amo. Você sabe disso, não sabe? Diz pra mim...

– Eu sei. – Sussurrei de volta. Ele me beijou pela primeira vez em semana. Um beijo molhado, com gosto de lágrimas. – Eu sei.

Eu sabia, Oh Sehun. Eu sei.

Eu amo você.

 

 


Notas Finais


aos corajosos que chegaram até aqui, forças.
o próximo é o último.


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