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História Delirium - Capítulo 16


Escrita por:


Notas do Autor


Oioi meu amores! <3
Tudo bem com vocês?

Bom, antes de deixar vocês lerem o capítulo em paz, queria agradecer demais pelo carinho de vocês, pelos comentários, e pelo apoio maravilhoso que tenho recebido até aqui!
Como alguns leitores mais antigos sabem, Delirium permaneceu em hiatus por quase 2 anos, e esse ano decidi retomar a escrita, porque eu não podia desistir de uma história que eu tanto amo... e bem, graças a vocês, cada vez mais eu tenho a certeza de que fiz a escolha certa em começar tudo do zero e não desanimar.
Obrigada, do fundo do meu coração, por me inspirarem a escrever. Eu sou eternamente grata a cada um de vocês, que cedem um tempinho de seus dias para mim e para essa história.
Vocês são incríveis!
Obrigada!

Sem mais enrolações e melosidades da autora kkkkk boa leitura!
Nos vemos nas notas finais!

Capítulo 16 - Hidden feeling


Fanfic / Fanfiction Delirium - Capítulo 16 - Hidden feeling

“Nada pesa tanto como o coração quando está cansado.”

― Máximo Gorki

 

-x-

 

O mundo inteiro pareceu silenciar-se por um momento, como se desejasse presenciar sem quaisquer interrupções aquela cena improvável.

Embora alguma parte de mim mesmo que remota e distante soubesse que ficar sentada ereta e com os olhos fixos em Seokjin era a pior forma, dentre todas as minhas opções, para tentar mascarar ou ao menos tentar suavizar a estranheza do que estava se passando ali, eu simplesmente não conseguia evitar; não haviam maneiras esconder meu choque.

Afinal, se ele realmente estivesse vendo Yoongi, o meu fantasma, o que aquilo significava? Se agora eu já não era mais a única a vê-lo, como eu poderia ter certeza de que todas as explicações que Yoongi me dera sobre nossa conexão eram de fato verdadeiras? E, dentre tantas dúvidas, a pior: se tudo isso não passasse de uma mentira, realmente haveria uma nova chance para nós?

Eu não conhecia nenhuma definição boa o suficiente para descrever-me naquele instante e até mesmo duvidava que algum dia fosse encontrar. Eram tantos e tão variados os sentimentos tomando forma em meu âmago que eu me sentia a ponto de explodir pela confusão.

Um milhão de perguntas amontoavam-se em minha mente, impedindo-me de ter qualquer raciocínio lógico naquele instante, tanto que quase nem me importei com o fato de Jungkook e Namjoon estarem alternando olhares confusos entre mim e meu psicólogo – ambos provavelmente perguntando-se o que diabos estava acontecendo ali.

Pensei ter visto pelo canto do olho a mão do moreno ao meu lado se estender até a minha, mas se ele realmente o fez, recuou antes de fazer qualquer menção de tocá-la.

― Hyung, você consegue me ver? ― Insistiu Yoongi, agora com a voz quase alarmada, irrequieto. ― Se consegue, diga alguma coisa, qualquer coisa! Eu preciso saber!

Realmente cheguei a pensar que o homem diante de mim cairia desmaiado a qualquer momento, principalmente a julgar pela cor de seu rosto, visto que ela praticamente desaparecera dando lugar a uma palidez assustadora. O tom fantasmagórico de sua pele – percebi – lhe dava agora uma irônica e literal comparação com Yoongi.

Aquele pequeno detalhe certamente me teria feito rir comigo mesma – isso se eu não estivesse completamente atônita, é claro.

Em um movimento rápido e desajeitado Seokjin colocou-se de pé, fazendo com que a cadeira atrás de si caísse com um estalo alto de encontro ao piso de tábuas corridas. Os poucos fregueses do restaurante e um garoto baixinho e prestativo que limpava o chão e trazia os cardápios imediatamente voltaram seu foco para nós. Alguns com cara de reprovação, outros, de curiosidade.

Dessa vez, após inclinar-se em uma breve reverência como pedido de desculpas a todos, Namjoon reagiu também:

― Jin, está tudo bem? ― Não sei se foi seu tom de voz preocupado ou se foi a mão de Jungkook, finalmente tocando meu braço, que me arrancou de meu transe momentâneo. Senti os pelos de minha nuca se erriçarem e por pouco não me pus de pé também.

Pisquei os olhos algumas vezes e forcei uma carranca confusa ao olhar para Jungkook de esguelha, tentando dar a entender que também não tinha a menor ideia do que estava acontecendo – e só Deus sabe o quanto eu desejava não precisar entender aquilo.

Ainda de lábios cerrados Seokjin tratou de levantar sua cadeira e pegar de volta o sobretudo cor de pêssego que pendurara em seu encosto pouco antes de sentar-se conosco. Sua face de repente tornou-se quase inexpressiva. Seus olhos agora se mantinham fixos no garoto ao seu lado, como se ele temesse olhar na direção de Yoongi.

― Está tudo bem sim, eu só acabei de me lembrar que tenho alguns pacientes agendados para hoje. Me desculpem. ― Pude perceber que embora ele fosse bom em mascarar seu rosto, sua voz entregava suas emoções. Naquele momento, concluí, ele estava no mínimo perturbado. ― Eu preciso ir. Agora.

― Mas hoje não era seu dia de folga? Você disse que... ― Namjoon começou a protestar, mas calou-se ao perceber que seria em vão, visto que Seokjin já não lhe dava mais ouvidos.

Sem nos dar tempo para qualquer outra reação o mais velho inclinou a cabeça em um sinal de despedida e partiu dali a passos rápidos. Aquele inusitado desfecho só serviu para tornar o clima já estranho entre nós duas vezes pior. Namjoon tossiu baixinho, claramente desconfortável.

Engoli em seco, desviando meus olhos arregalados para o prato diante de mim.

Mecanicamente peguei um pedaço de carne e levei até a boca em uma tentativa de agir como se tudo aquilo não passasse de um episódio corriqueiro do dia-a-dia, mas a simples ideia de ter Yoongi ali, ainda atrás de mim, era o suficiente para fazer meu coração errar as batidas.

Eu me sentia agitada, e sabia que não conseguiria mascarar aquilo por muito mais tempo.

― O que você está fazendo aí sentada? Vá atrás dele! ― Praticamente ordenou Yoongi, inquieto, e me vi obrigada a morder a língua com força para não responder nada, uma vez que diferentemente de Seokjin, meus outros dois acompanhantes certamente não viam e muito menos ouviam meu amigo. ― Você precisa falar com ele, Yeo Jin! Ele me viu!

Respirei fundo uma vez e levantei-me com a maior naturalidade que foi possível dadas às circunstâncias. Somente ao me pôr de pé é que pude sentir quão trêmulas estavam minhas pernas.

Discretamente olhei na direção do garoto dos cabelos esverdeados; sua expressão era quase tão abismada quanto a de Seokjin antes de deixar o restaurante, com exceção apenas de suas bochechas infladas em um claro sinal de impaciência.

― Não vai me dizer que você também lembrou de algum compromisso em cima da hora, né? ― Jungkook indagou forçando ar de descontraído, mas havia um quê de curiosidade real muito perceptível em sua voz.

Tanto eu quanto Yoongi viramos em sua direção.

― Na verdade eu só preciso ir ao banheiro. ― Tentei justificar. Procurei o olhar de Yoongi outra vez enquanto falava, para que ele entendesse que eu queria que me acompanhasse, mas seus olhos ainda estavam fixos em Jungkook. Pigarreei alto duas vezes e continuei: ― Não devo demorar.

Por sorte, enquanto marchava pesadamente em direção a parte mais afastada do restaurante, que dava acesso aos banheiros, pude observar pelo canto do olho a figura de Yoongi praticamente arrastar-se em minha direção, o rosto petrificado pela surpresa.

Suspirei aliviada por ele ter entendido o recado eu realmente não conseguiria pensar em nenhuma outra forma de chamar sua atenção caso ele não houvesse me seguido.

Quando alcancei o pequeno corredor de acesso aos sanitários parei diante da porta do banheiro feminino, um tanto quanto incerta sobre aquele ser o melhor lugar para conversarmos, contudo, também não era como se tivéssemos muitas outras opções – sair do restaurante não era viável naquele momento. Me agarrei à ideia de que não causaria tanta estranheza uma mulher resmungando “sozinha” em um banheiro feminino quanto uma fazendo o mesmo em um banheiro masculino, tentando tornar aquilo um pouco menos embaraçoso.

Suspirei pesadamente abrindo a porta diante de mim, entrando só após Yoongi ter me alcançado. Pelo reflexo do espelho na parede do banheiro vi meu amigo hesitar uma vez antes de adentrar no local.

Ao que tudo indicava, nós estávamos sozinhos ali.

― O que é que nós estamos fazendo parados aqui, Yeo Jin? Seokjin me viu! ― Yoongi quase dera pulos de impaciência ao finalmente falar. Seu olhar era urgente. ― Nós precisamos ir atrás dele!

Encarei-o cética, ainda através de seu reflexo no espelho. Pela primeira vez, desde que eu o vira de relance no hospital, Yoongi não me parecera vivo.

― Não é desse jeito que as coisas funcionam! ― Exclamei em voz baixa. ― Aquele cara é meu psicólogo caramba, você não pode esperar que eu simplesmente vá atrás dele e pergunte se ele também viu um fantasma. ― Dei ênfase à última palavra, me virando em sua direção. ― Ele não vai ceder... não sem tentar me taxar como maluca antes, e isso tudo se ele realmente tiver visto alguma coisa.

Yoongi bufou. Os nós em seus punhos cerrados contra seu corpo pareciam cada vez mais brancos devido à força que ele fazia para mantê-los assim.

Você sabe que ele me viu! A reação dele foi exatamente como a sua quando nos encontramos na sua casa. ― Teimou, batendo o pé.

Respirei fundo uma vez.

― E se foi uma coincidência? Você mesmo ouviu a justificativa dele. ― Tentei retrucar. Meu coração batia acelerado contra meu peito, já temeroso para o que eu estava prestes a falar: ― E me diga, como ele pode tê-lo visto se essa conexão é só nossa? Quer dizer que você esteve mentindo durante todo esse tempo?

Yoongi recuou, fuzilando-me com os olhos após a acusação. Ele agarrou suas madeixas verdes com as mãos pálidas, como se estivesse prestes a arrancá-las pelo nervosismo.

― Eu não estaria nesse estado se soubesse o que está acontecendo, Yeo Jin. Estou tão confuso quanto você! ― Ele esbravejou tão alto que, se não fosse pelo fato de sua voz ser audível apenas para mim, pelo menos até agora, o restaurante inteiro certamente o teria ouvido. ― Ele deu uma justificativa besta para fugir, e nós estamos deixando isso acontecer. Você não vê que é exatamente por isso que devemos ir atrás dele?

A súplica em sua voz teria sido muito mais do que o suficiente para me fazer amolecer e ceder, só que eu não podia aceitar aquilo. Fechei os olhos em uma tentativa de escapar da persuasão de seu olhar.

Na falta de uma resposta de minha parte, Yoongi continuou:

― Eu nunca mentiria para você, Yeo Jin, você sabe. ― Sua voz soou fraca e, dessa vez, machucada. ― Por favor...

― Eu não posso... não dá. ― Sussurrei. Tornei a abrir meus olhos sem conseguir encará-lo. ― Se eu for atrás de Seokjin agora, Jungkook vai acabar indo atrás de mim também. Desse jeito as coisas só vão sair ainda mais de controle e você sabe!

Por um breve espaço de tempo pensei que Yoongi compreendera o que eu dissera, mas então, para meu espanto, ele riu. Um riso amargo e carregado de escárnio, completamente oposto de sua costumeira e doce risada que fazia meu coração acelerar e me convidava a rir também.

― Então não é com o que Seokjin vai pensar que você está tão preocupada, afinal. ― Ponderou casual, mas amargo. ― É com o que Jungkook vai pensar que você realmente se importa!

A acusação em sua voz era gritante e de todas as coisas que poderia ter dito, a única que saiu de meus lábios foi:

― Ele não tem absolutamente nada a ver com isso. Só quero evitar que mais gente se envolva nisso! ― Inflei as narinas em uma inspiração profunda e, com um sorriso forçado, acrescentei: ― Essa ceninha toda agora é por ciúmes?

Ele mordeu a língua como se não esperasse por aquela pergunta. Àquela altura Yoongi provavelmente esperava que eu tivesse desistido de confrontá-lo, mas ele estava enganado.

Você não vale tudo isso. ― As palavras praticamente fora cuspidas de sua boca. Se em algum momento Yoongi quisera evitar me machucar, agora ele já não buscava mais se censurar. ― É tão difícil assim encarar os fatos? Você não liga para como eu estou me sentindo, é tudo sobre você! Sempre é!

Fitei Yoongi perplexa.

VOCÊ não quer ir atrás de Seokjin porque VOCÊ tem medo do que possa acontecer se mais pessoas se envolverem e VOCÊ acabar saindo como maluca. ― Ele fez questão de enfatizar cada palavra. ― Onde EU fico?

Cerrei os punhos. Aquela era a primeira vez que Yoongi e eu brigávamos e embora meu peito apertasse mais e mais a cada instante, eu não me permiti ceder.

― Tudo o que você quer é que eu me sinta culpada por simplesmente não correr atrás de Seokjin e confrontá-lo como você espera! Como pode dizer que “é tudo sobre mim” quando nem está se importando com meus malditos sentimentos!? ― Grunhi entredentes. Um nó se formou em minha garganta, tornando minha fala embargada. ― Realmente acredita que eu queria estar nessa situação? Digo, acha que eu quero acabar internada em um hospício qualquer como a louca que fala com um fantasma? Porque é exatamente isso o que vai acontecer se eu confrontar meu maldito psicólogo e ele me taxar como louca!

Se Yoongi pretendia falar algo, não permiti. O calor do momento me subirá a cabeça e agora as palavras simplesmente saíam de minha boca, sem nenhum controle ou censura:

― Se tudo der errado e eu acabar internada não haverá futuro para nenhum de nós. Você sabe que confrontar Seokjin não é tão simples assim! ― Sibilei. E então, apesar do silêncio quase conformado de Yoongi, cometi o maior deslize de todos: ― Às vezes eu acho que tudo seria mais fácil se você fosse só um fragmento de minha imaginação, uma invenção minha. Às vezes, só às vezes... eu queria que você não fosse real, Yoongi.

 Me arrependi de minhas palavras no instante em que elas saíram de minha boca, mas mesmo que eu soubesse que elas não eram verdade e sim algo dito por impulso, não havia nada que eu pudesse fazer para apagá-las. Não haviam e nunca haveriam maneiras de voltar atrás com uma coisa dita.

Por um breve momento tive de usar todo meu autocontrole para conter à vontade quase descontrolada de dar um tapa em meu próprio rosto ou de simplesmente puxar meus cabelos com toda a força que fosse possível.

Os olhos negros e opacos de Yoongi se fixaram nos meus tão intensamente que tudo ao meu redor, que não fossem aquelas írises escuras e marejadas, perdeu o foco.

― Mais do que ninguém eu me importo com o que você sente. Você é que tem sido egoísta demais para perceber. Fui quem foi deixado falando sozinho, não você! ― Aquelas palavras me atingiram como lanças pontiagudas. Recuei um passo, apoiando minhas mãos no mármore frio da pia. ― Sou eu quem deve perguntar se você realmente acredita que eu gosto de ser um maldito espírito preso na terra, sendo obrigado a ver todas as pessoas que eu amo me esquecerem só porque uma vez, uma única e maldita vez, eu quis fazer algo de bom e não ser o desgraçado de sempre!

Senti meus olhos ameaçarem transbordar as lágrimas que eu estivera lutando para conter.

Eu fora longe demais.

― Yoongi, eu...

― Não, não precisa dizer mais nada, você já falou o bastante. E sabe de uma coisa? No fundo você tem razão, seria melhor se eu não estivesse aqui. ― Yoongi suspirou e desviou os olhos dos meus, fitando o chão aos seus pés. ― Saiba que você não é a única a imaginar outras possibilidades para o que poderia ter acontecido. Às vezes eu também me pergunto se não seria melhor ter deixado aquele carro te acertar...

Yoongi deu as costas para mim, encarando a parede diante de si ao continuar:

― Você era só uma desconhecida, afinal, uma garota qualquer que eu também acabaria esquecendo, assim como todos estão esquecendo de mim..., mas eu te salvei, Yeo Jin. Eu não me importei com o que os outros iriam achar ou sobre como iriam me taxar. ― Vi seus cabelos esverdeados movimentarem-se quando sua cabeça pendeu para frente, ao passo que seus ombros arriaram pelo peso daquela conversa. ― Eu me tornei o maluco que pulou na frente de um carro por você, mas nem mesmo agora, nem se tentar muito, eu me arrependeria da decisão que tomei.

Minha fala já havia se perdido em algum lugar distante dali e não parecia fazer menção de dar as caras tão cedo outra vez, mas eu precisava fazer alguma coisa.

Juntando o resto de minha coragem avancei na direção de Yoongi, que permaneceu parado, sem fazer a menor menção de mover um único dedo para se afastar. Foi um alívio perceber que ele não fugiria de meus braços, porém, quando minhas mãos estendidas finalmente chegaram de encontro a suas costas, o inesperado aconteceu: elas simplesmente o atravessaram, como se ele fosse um nada, como se ele fosse ar.

Puxei minhas mãos de encontro ao peito como se uma corrente elétrica houvesse atingido-as. Yoongi virou-se para mim. Procurei o olhar dele de imediato, esperando encontrar uma expressão tão horrorizada quanto a minha deveria estar, mas me deparei com o par de olhos mais tristes que eu já vira.

Vê-lo vulnerável e magoado daquele jeito fez meu coração doer como se estivesse em pedaços. Saber que a culpa era minha só tornava a sensação ainda mais esmagadora.

― Eu sabia... já está acontecendo. ― Ele sussurrou e em seguida estendeu a mão em direção ao meu rosto, mas no lugar de seu toque, tudo o que senti foi uma corrente fria. ― Pelo visto você está se saindo muito bem sem mim.

Toquei com a ponta de meus dedos a pele de minhas bochechas onde deveria ter sentido os dele. Uma gritante sensação de angústia me acometeu.

― Do que está falando? O que está acontecendo? ― Indaguei tão baixo que cheguei a duvidar que ele tivesse me ouvido. Mas pelo modo como ele abriu um meio sorriso amargo, pude reconhecer que ouvira. ― Por que eu não consigo te tocar!?

Ele ignorou minhas perguntas.

― Talvez agora eu devesse simplesmente desaparecer, não acha? ― Sua voz, apesar de ácida, tinha um toque de embargo. Eu sabia, ou ao menos esperava, que alguma parte dele relutava em dizer aquilo. ― Isso vai evitar que eu seja um incômodo... você não precisa mais se preocupar em parecer uma louca. Esqueça Seokjin, esqueça tudo... me esqueça.

Balancei a cabeça aflita.

― Você não pode ir, não pode. Eu não queria ter dito aquilo. ― Lamentei, mordendo o lábio inferior. Senti o gosto salgado de minhas lágrimas mesclar-se à minha saliva. ― Yoongi, por favor...

Avancei mais uma vez em sua direção ansiando por ficar frente a frente com ele e fazê-lo olhar em meus olhos para perceber que eu me arrependera do que havia dito, mas antes que eu pudesse formular qualquer coisa para me expressar, ele me fez parar com um breve gesto de mãos. Após sustentar meu olhar por mais uma vez, sem dizer absolutamente nada, Yoongi desapareceu diante de mim, deixando-me sozinha com um mar de arrependimentos se agitando em meu peito destroçado.

E embora tudo o que eu mais desejasse fosse simplesmente me deitar no chão e esperar que ele me engolisse ou que no mínimo eu me misturasse ao piso velho, eu sabia que não poderia fazê-lo. Jungkook e Namjoon ainda esperavam por mim lá fora e eu já demorara mais do que o normal.

Andei vacilante até a pia e, enquanto jogava água fria em meu rosto, senti meus joelhos fraquejarem uma ou duas vezes. Alguns tremores tomaram meu corpo ameaçando se apoderarem de mim junto com a onda de tristeza que se chocara contra meu peito, porém, de alguma forma que jamais conseguiria entender, suprimi todos aqueles sentimentos.

Tudo o que eu teria de fazer era mascarar as coisas até chegar em casa. Eu não precisava de mais ninguém envolvido com meus fantasmas.

Mais tarde eu resolveria tudo aquilo - concluí comigo mesma - chamaria Yoongi e junto com ele encontraria as respostas de que precisávamos. Por ora, tudo o que estava ao meu alcance era aguentar firme.

Encarei meu reflexo brevemente no espelho e, após concluir que já não parecia tão lamentável quanto acreditava que estaria, saí do sanitário feminino deixando para trás – mas não esquecida – absolutamente toda a minha conversa com Yoongi.

Apressei o passo enquanto voltava para nossa mesa. Fiquei um tanto quanto confusa quando me deparei apenas com um Jungkook aparentemente entediado, com o queixo apoiado nas mãos, a me esperar.

Por força do hábito olhei em volta, porém não haviam nem sinais de Namjoon. O moreno por sua vez já notara minha presença quando me pronunciei:

― Onde é que ele...?

― Namjoon hyung disse que ia atrás de Seokjin. ― Jungkook esclareceu de imediato. ― E, bem, ele pagou a conta. Disse que sente muito por ter tido que sair assim.

Dei de ombros e fiz a típica expressão de quem sente muito, mas rapidamente desfiz meu muxoxo quando notei o olhar de Jungkook sobre mim. Seus olhos pareciam analisar atentamente cada traço de meu rosto e seu maxilar cerrado indicava que havia alguma dúvida pairando ali.

Me impeli a desviar o olhar com um pigarro.

― Algum problema? ― Indaguei.

― Não, nenhum. ― Jungkook abriu um sorriso largo e esticou os braços espreguiçando-se lentamente antes de se colocar de pé. ― Vamos nessa?

― Claro. ― Assenti, tentando mascarar ao máximo meu alívio ao ouvir sua proposta. ― Não é como se tivéssemos muito mais o que fazer por aqui, de qualquer forma.

Devo admitir que não foi surpresa alguma quando Jungkook teimou em me acompanhar até em casa. A única surpresa em questão escondia-se no fato de eu realmente ansiar por sua companhia e não tentar objetar em sua decisão.

Eu o queria por perto.

Levei algum tempo para perceber que se não fosse pelo garoto sentado ao meu lado no ônibus enquanto ouvíamos algumas músicas aleatórias no fone de ouvidos compartilhado, mesmo que sem dizer uma única palavra, eu provavelmente teria desabado no exato momento em que percebesse estar sozinha. O vazio em meu peito ardia, machucava.

Sua improvável companhia até duas semanas atrás agora acabara se tornando praticamente indispensável. Embora por vezes eu tivesse cogitado a ideia de puxar algum assunto para não parecer tão desanimada, me detive. Jungkook parecia tão imerso nas músicas que ouvíamos que não me pareceu justo arrancá-lo de sua bolha de imersão.

Por fim, quando eu menos esperava, foi ele a quebrar o silêncio de nossas vozes.

― Eu nunca teria imaginado que você e Jin hyung se conhecem. Muito menos que você é paciente dele. ― Comentou de repente, abrindo os olhos castanho-escuros e mirando-os em mim. ― É quase como se o destino quisesse que nós nos encontrássemos, não acha?

Ao passo que Jungkook riu descontraído após sua observação meu estômago embrulhou com a simples menção daquela maldita palavra, no entanto, me esforcei para dar-lhe um sorriso.

Era invejável perceber a naturalidade com que ele se referia a ele, o destino, quando para mim era como se falasse sobre uma espécie de sentença cruel e impiedosa. Sentença essa que por sinal eu acabaria sendo afetada por corromper.

Sem uma resposta minha, o outro prosseguiu:

― O que a levou até ele? ― Questionou. Embora Jungkook parecesse um pouco constrangido com a própria pergunta, não desviou o olhar de mim.

― A vida. ― E a morte. Acrescentei em pensamento.― Ela que me levou até ele.

― É perfeitamente compreensível. ― Pontuou, calando-se em seguida.

Uma das coisas que eu mais admirava em Jungkook era sua capacidade de compreender os momentos mais oportunos para não insistir em um assunto, e isso já havia se tornado um fato inegável.

De alguma forma ele fora capaz de enxergar que eu não queria falar sobre aquilo e voltou ao seu silêncio sepulcral sem reclamar, isto até o momento em que a condução parou diante do ponto de ônibus mais próximo de minha casa.

Jungkook desceu do ônibus logo atrás de mim, abrindo um sorriso em provocação quando o fuzilei com o olhar.

― Ainda está cedo. Não tenho medo de andar na rua sozinha a essa hora. ― Observei, apontando para o céu azul que se revelara sobre nós.

― Você é sempre tão estraga prazeres assim? ― Perguntou com uma careta.

― Só com você. ―Admiti, não conseguindo conter uma risada.

Pensei tê-lo ouvido sussurrar algo como “bobinha”, mas apesar da dúvida não pedi que repetisse ou questionei sobre.

Jungkook me pareceu estranhamente pensativo durante todo o caminho. Enquanto o observava pelo canto do olho ao longo de nossa caminhada pude até mesmo chegar à conclusão de que aquela era uma nova face sua; um novo pedaço de seu eu que ele me permitiu conhecer.

Nós dois ainda cantarolávamos a melodia de última música que havíamos ouvido antes de deixar o ônibus quando paramos diante do portão de entrada de minha casa. Arrisquei olhar na direção de meu companheiro que, por sua vez, já me encarava.

― Até que o dia foi divertido, apesar de tudo. ― Jungkook riu, coçando a parte de trás da cabeça. ― Me desculpe por ter agido como um babaca hoje mais cedo.

― Tudo bem, eu é que devo me desculpar. ― Sorri, soltando as alças de minha mochila que eu estivera segurando até então. ― E, hm, foi bem legal da sua parte ter me mostrado a sala de dança. Deveríamos ir lá mais vezes, não acha?

― Eu adoraria. ― Ele anuiu sorridente. ― Agora acho que é melhor eu ir andando. Imagino que deva estar cansada...

― É, pode ser. ― Suspirei, retribuindo seu sorriso em seguida. ― Nos vemos amanhã?

― Certamente. ― Respondeu pouco antes de acenar um tchau e virar as costas.

Estava decidida a esperar que ele se afastasse para só então entrar em casa, mas não imaginei que ele fosse dar três passos e parar, estacando na calçada como uma estátua.

Será que ele havia esquecido alguma coisa?

Ouvi um suspiro ruidoso de sua parte.

― Acho que você vai ter que me desculpar por uma coisa... ― Ele falou de surpresa, virando-se com uma lentidão quase exagerada em minha direção. Uma lentidão típica de quem ainda não tem certeza sobre o que vai ou não fazer.

Franzi o cenho sem entender o que ele estava dizendo.

― Achei que já tivesse te desculpado. ― Retruquei, ainda confusa. ― Mas seja como for eu...

― Não é do que aconteceu antes de estou falando. ― Ele me interrompeu, sem me deixar concluir minha fala. ― É disso.

O momento seguinte à sua fala pareceu se passar em câmera lenta e, ainda assim, rápido demais; em um ato total e completamente inesperado por mim Jungkook retomou a proximidade entre nós, puxando-me para si com uma delicadeza quase extrema.

Seus braços envolveram meu corpo junto ao seu e fui acolhida de encontro ao seu peito. Eu o senti quente sob a camisa do uniforme escolar e pude perceber claramente sua respiração descompassada se misturar com a minha própria, quase tão desregulada quanto a dele. E por maior que fosse a minha surpresa, não pude fazer outra coisa senão me permitir envolvê-lo com meus braços também.

Seu peito inflou e desinflou em um suspiro e quase posso jurar que senti seu nariz roçar o topo de minha cabeça ao inspirar.

Minhas pernas tremeram pela terceira vez naquele dia, mas não fora por aflição.

― É por isso que você deve me desculpar. ― Ele sussurrou, apertando-me ainda mais junto de si. ― Eu juro que tentei evitar, mas depois de vê-la daquele jeito no restaurante tudo o que eu mais quis foi te abraçar. Não precisa me dizer o que aconteceu, mas quero que saiba que estou aqui por você.

Um sorriso se desenhou em meus lábios. Ele havia percebido.

Apesar de não lhe dar uma resposta, de encontro ao seu peito me acomodei um pouco mais, tornando-o meu abrigo.

Mas enquanto dentro de mim alguma voz sussurrava obrigada e praticamente implorava para que ele não me soltasse mais, outra, ainda mais baixa, chamava por outro nome.

Por outro alguém.

Por outro rapaz.


Notas Finais


E aí, o que acharam? Gostaram?
O que será da Yeo Jin agora hein?
Me contem aí nos comentários!

Beijinhos e até o próximo! <3


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