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História Delirium - Capítulo 4


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Capítulo novo! \o/

Capítulo 4 - Ghost Stories


Fanfic / Fanfiction Delirium - Capítulo 4 - Ghost Stories


“É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.” 
― Friedrich Nietzsche

-x-

 

Aquela voz pareceu ecoar em minha mente, chocando-se contra meu crânio e enviando uma série de calafrios e arrepios por todo meu corpo estático.

Entretanto, diferente de qualquer pessoa que eu poderia imaginar naquela mesma situação, eu estranhamente não sentia mais nada como medo ou pavor, e isso era fato. Porém, algo me mantinha alerta, uma sensação tão atípica e primitiva em meu âmago, que eu sequer lembrava de tê-la sentido antes ou sabia com que palavra nomeá-la ― se é que havia uma.

Mas como se meu corpo estivesse em uma sintonia diferente de meu cérebro confuso, agindo por própria conta e risco, minhas pernas trêmulas movimentaram-se para trás, só parando de recuar do garoto diante de mim quando senti a madeira entalhada da porta se chocar contra minhas costas com um baque surdo; era o fim da linha, não havia como fugir — ou eu simplesmente não queria fugir.

O mesmo sinal que me mantinha alerta, insistia que eu ficasse ali parada e ouvisse o que quer que ele tinha para dizer. Assim como também, de alguma forma ainda que desconhecida por mim, eu sabia que ele não me faria mal algum.

Com um último fio de esperança de que aquilo não passasse de um devaneio, fechei os olhos com tanta força que quase pude imaginar minhas pálpebras se fundindo com o restante de minha pele, não me permitindo enxergar outra vez. Mas quando tornei a abrí-los, assim como em minha tentativa anterior de afugentá-lo, ele continuava materializado em minha frente, tão real quanto era possível.

Min Yoongi me encarava tenso, provavelmente esperando alguma reação.

E sendo sincera, é difícil especificar o momento exato em que a parte sensata e incrédula de meu cérebro se deu por vencida, cedendo seu espaço para aquela outra parte dele, pequena e desvairada que raramente dava as caras, que me fez endireitar a postura e fechar a boca até então escancarada. De repente, eu me permiti acreditar no que via sem me sentir completamente à mercê da insanidade.

Abri a boca em um movimento mínimo na tentativa de dizer qualquer coisa, mas minha voz parecia ter se perdido, afugentada pela situação.

― Eu não vou te morder se você falar comigo. Pode baixar a guarda. ― Bufou o garoto com um quê de impaciência, quebrando o silêncio que se estabelecera entre nós dois. ― Sei que deve estar curiosa sobre mim, sobre quem sou.

Tentei evitar um sobressalto ao ouvi-lo falar outra vez; sua voz aveludada parecia tão clara que eu me perguntava se eu seria a única pessoa capaz de ouvi-la ou não.

Soltei um pigarro alto, esperando que minha voz não soasse amedrontada ou esganiçada quando resolvesse voltar. Seus olhos escuros pareciam enxergar através de mim.

Repirei fundo uma, duas, três vezes.

Minha sensatez relutava em aceitar que eu estava prestes a me dirigir a um fantasma, porém, eu não via quaisquer outras alternativas para me livrar de tudo aquilo.

― O que você quer aqui? ― Indaguei incerta, semicerrando os olhos ao falar. Minha voz parecia quase um lamurio assustado.

A figura pálida deu mais alguns passos em minha direção, tão próxima que eu poderia tentar tocá-la, entretanto, me limitei a cerrar as mãos e enfia-las nos bolsos da velha calça de pijama para evitar aquele impulso. Eu não fazia ideia de como ele poderia reagir caso contrário.

― Vim falar com você. Queria ter feito isso antes, só que era difícil. Você nunca estava sozinha. ― Ele franziu o nariz um tanto quando agitado.

De repente um flashback do momento em que acordei no hospital veio à tona. Vívido e claro, fora ele mesmo quem eu vira parado a poucos metros de meu leito, e não uma alucinação como havia me forçado a acreditar. Era ele, durante todo aquele tempo, esperando por mim.

Um calafrio percorreu minha espinha.

― Mas como isso é possível? Quer dizer, eu te vi no hospital, vivo apesar de tudo, e agora você está... aqui. ― Grunhi atônita em um único sopro de voz que consegui encontrar.

Uma hipótese surgiu em meio aos meus pensamentos conturbados, mas eu desejei com todas as minhas forças que estivesse errada, pois caso contrário, eu sabia que não estava preparada para aquilo. Para aquela resposta.

Yoongi, ou melhor, o fantasma de Yoongi relaxou a expressão séria instantaneamente, assumindo uma face de monotonia pensativa. Era quase como se buscasse as palavras certas para usar.

― Bem, eu não estou morto, se é o que pensa. Pode ficar tranquila. ― Respondeu dando de ombros, como se tivesse adivinhado o pior de meus pensamentos. ― Tecnicamente eu continuo , mas também estou aqui.

Uma onda de alívio me atingiu ao ouvi-lo confirmar que não estava morto, porém, a resposta só confundira ainda mais o emaranhado de pensamentos que eu formara. E novamente, como se adivinhando as perguntas que eu faria, ele tornou a falar.

― Aquilo que você viu no hospital não é nada além de uma casca. A casca que prendia o que você está vendo agora, a minha essência, espírito ou alma, como preferir. ― Explicou, apontando para si mesmo como se o gesto explicasse mais do que as palavras propriamente ditas. ― A minha casca não teve tanta sorte quanto a sua no dia do acidente, por isso eu meio que estou livre para ficar vagando por aí... ao menos por enquanto.

A minha curiosidade naquele momento era tanta que eu sequer estava dando atenção para a voz dentro de mim, avisando-me sobre o quão insano era aquele momento; eu estava prestes a entrar em um debate sobre espiritualidade com nada mais nada menos do que o fantasma do garoto que me salvara, e ele nem estava morto.

― Então, basicamente, agora eu virei uma espécie de sensitiva que pode ver fantasmas? Isso não faz o menor sentido, porque eu não lembro de ter visto outros além de você até agora. Acho que lembraria caso tivesse visto. ― Minha voz saiu quase em um resmungo. Minha cabeça latejava com a confusão se alastrando dentro de dela. ― Já descartei a possibilidade de você ser só um delírio meu. Me parece real demais e fala coisas absurdas demais para ser só obra da minha imaginação.

Pensei ter visto seus lábios se torcerem em um pequeno sorriso. Aparentemente minha confusão o divertia.

― Não. Não é assim que funciona. ― Ele comprimiu os lábios, pensativo. ― É um pouco mais complexo, sabe. Você só tem a capacidade de me ver.

Lentamente o garoto cruzou as mãos nas costas e passou a dar curtos passos de um lado para o outro. Uma porção de pequenas rugas se formou em sua testa quando ele a franziu em dado momento.

― Quando o acidente aconteceu nós dois estabelecemos uma conexão um com o outro, por isso você é sensível a mim, seus olhos podem ver quem eu realmente sou. Como disse antes, você vê a minha essência, mas isso não significa que possa ver os outros que também estão entre a vida e a morte. ― Ele deteve seus movimentos, ficando de frente para mim outra vez. ― Tudo o que você precisa entender, Yeo Jin, é que cada um tem seus próprios fantasmas.

Sua última frase pairou no espaço entre nós arrepiando todos os cabelos de meu corpo. E estranhamente tudo o que ele dissera até ali parecia fazer todo o sentido do mundo. Sentia quase como se cada uma das informações que ele me passara já estivessem em algum lugar profundo e adormecido de meu subconsciente, apenas precisando de um empurrãozinho para virem à tona.

Eu não me atrevi a proferir uma só palavra. Ele parecia ter mais a dizer, a explicar.

E eu definitivamente queria ouvir.

― Sabe porque as crianças têm essa mania de achar que existem monstros em baixo de suas camas ou dentro de seus armários?

Fiz uma negação com a cabeça, permanecendo atenta as suas palavras.

― É porque elas geralmente ainda têm uma conexão com o mundo de lá, pois foi de onde vieram para sua próxima vida, e uma boa parte delas, geralmente as que ficaram mais tempo esperando, conseguem ver algumas essências que permaneceram nesse mundo, tanto as boas quanto as ruins. Mas como a conexão não é forte, dura pouco. Só o tempo necessário para elas se convencerem de que o bicho papão não existe, de que os fantasmas delas não são reais. ― Yoongi falava com tanta propriedade e naturalidade que eu me perguntava como e quando ele descobrira tudo aquilo.

Àquela altura minha boca já se encontrava tão escancarada que senti meu maxilar doer com o esforço.

Por alguns instantes Min Yoongi pareceu me analisar, como se tentasse certificar-se de que eu não entraria em colapso com todas aquelas informações antes de prosseguir. E, julgando sua expressão, eu passara na perícia.

― Você teve sorte, Yeo Jin, eu sou uma essência boa. ― Ele parecera quase aliviado em dizer aquilo. ― As ruins, de pessoas más, ficam com uma aparência podre, como a casca delas deveria ter sido caso a natureza humana fosse justa; elas são aquilo que conhecemos como assombrações.

Pensei sobre aquilo por alguns instantes até resolver falar.

Se Yoongi estava ali, diante de mim, então não havia como duvidar da veracidade da existência de assombrações e outras essências boas como a dele. No entanto, ainda havia algo que me deixava intrigada:

― Isso tudo quer dizer que existe mesmo essa coisa de vida após a morte? ― Arrisquei o palpite, finalmente afastando-me da porta. Dei ênfase em minhas palavras.

Na medida do possível, minhas pernas já estavam firmes outra vez, permitindo-me caminhar até o pequeno sofá bege da sala, onde me sentei. E antes mesmo que eu pudesse cogitar a ideia de oferecer um lugar para Yoongi, ele sentou-se ao meu lado. O sofá não reagiu ao seu peso ― era como se não houvesse nada sobre ele.

Àquela altura eu já estava tão anestesiada por toda aquela bizarrice que sequer dei importância para aquilo. Era só o bônus em um show de horrores.

― Sim, existe. Mas não para todos. ― Yoongi respondeu. Sua expressão tornou-se sombria em uma fração de segundo. ― Existe um lugar para onde alguns vão até chegar a hora de terem sua próxima vida, mas também existe uma espécie de inferno, como os humanos chamariam. Pessoas ruins, como assassinos, estupradores e intolerantes extremistas vão para lá, cada um tem a punição que merece; alguns eternamente, com base na gravidade de seus crimes, e outros recebem a chance de se redimirem em uma nova vida.

Um milhão de novas perguntas se desenharam em minha mente atiçando minha curiosidade, mas soltei apenas a principal delas.

― Como você pode saber de todas essas coisas? Foi, sei lá, Deus quem te contou? ― Perguntei, inclinando-me minimamente em sua direção. Ansiosa por uma resposta.

Agora ele parecia tão confuso quanto eu.

Eu... eu apenas sei. É o lugar de onde viemos, e o que somos, afinal. Isso é algo que todo ser humano sabe, mas não tem consciência de que sabe até dar de cara com a morte. Ou quase. ― Comentou indiferente. Seus olhos variam a sala, observando o pequeno cômodo. ― E não sei se existe algum Deus ou não. Ninguém sabe.

Repentinamente, algo em seu olhar me deixou tensa. Haviam coisas que ele estava evitando dizer, eu tinha certeza.

― E o que vai acontecer com você? ― Franzi o cenho.

― Isso ainda é um mistério inclusive para mim. ― Ele suspirou baixinho. ― Tudo depende de como vou me sair na minha tarefa...

― Que seria? ― Incitei-o a continuar.

O garoto remexeu as mãos inquieto, batendo um dos calcanhares no chão repetidamente. Ele provavelmente não estivera esperando por essa pergunta.

― Eu não sei como explicar isso de forma leve... ― Ele resmungou mais para si mesmo do que para mim. ― Você deveria ter morrido naquele atropelamento, Yeo Jin. Desde o seu nascimento até aquele dia, tudo o que fez e disse a levou para esse caminho. Toda sua vida foi premeditada. Mas eu brinquei com destino. Eu preguei uma peça inesperada nele, e isso alterou tanto o meu caminho quanto o seu.

Meu coração deve ter falhado algumas batidas após aquela informação, e eu não duvidava de que estava quase tão pálida quanto ele. Todas as coisas que ele dissera e mesmo sua própria aparição não haviam me assustado tanto quanto a confirmação de que eu vivera uma vida inteira fadada a morrer ainda jovem, sem quaisquer perspectivas de um futuro, uma carreira ou qualquer outra coisa.

Por algum motivo, aquilo me incomodava. Parecia uma injustiça que eu jamais teria tido outra opção senão aquela ― se não fosse por Yoongi, é claro.

― Como eu te mantive viva burlando as regras, o seu destino se apagou, e para compensar isso, eu terei de criar um novo para você. Tenho que ajudá-la a encontrar um novo caminho. ― Ele falou cada palavra com uma lentidão exagerada, como se me dando tempo para digeri-las. ― E é baseado no caminho que eu te ajudarei a trilhar, que o meu próprio vai ser decidido. Não se pode alterar o tempo de vida de alguém sem bagunçar o próprio.

Então era isso; ele estava preso no limbo da vida e da morte como punição por ter me salvado. Por ter me dado uma nova chance.

Eu não teria percebido ou sequer sentido as lágrimas em meu rosto se não fosse pelo olhar dele, que em um gesto quase terno, estendeu a mão na direção de meu rosto provavelmente determinado a secar as gotas salgadas que escorriam por minhas bochechas. Porém, sua mão se deteve no meio do caminho repousando no espaço de estofado entre nós.

Suspirei lenta e ruidosamente. Tratei de secar meu rosto com as mangas de meu pijama.

― Você não se arrepende de ter se colocado entre a vida e a morte por alguém que sequer conhecia? ― Indaguei com a voz firme apesar do nó em minha garganta ser tão grande que eu sequer me sentia capaz de engolir saliva. ― Por que fez isso, Yoongi?

Um lampejo de lamento se desenhou em sua face delicada, misturado com alguma espécie de indignação.

― Eu fiz isso porque me pareceu o certo, o justo. Você parecia triste, e ninguém merece morrer assim. Jamais pense que eu me arrependo do que fiz, porque se pudéssemos voltar no tempo, eu teria feito o mesmo sem pensar duas vezes. ― Não havia sequer indícios de hesitação em sua voz. Ele estava falando a verdade.

Parte de mim desejava abraça-lo com força, e outra queria sentir raiva, não por ele ter me dado uma segunda chance de vida, mas por ter posto em risco a sua própria. Suprimi aquele misto de sentimentos da melhor forma que pude antes de dizer a única coisa aceitável naquele instante:

― Obrigada. ― Murmurei com a voz subindo uma oitava.

― Eu é que devo te agradecer. ― Respondeu mais para si próprio do que para mim.

Cogitei a ideia de perguntar o que aquilo significava, uma vez que não fazia o menor sentido, mas algo me impediu de fazê-lo. Um sinal de alerta.

Optei por alterar um pouco o rumo da conversa:

― Sabe o que é mais estranho? Fora a parte de que estou conversando com um fantasma que vai me ajudar a decidir meu novo destino, é claro. ― Indaguei de repente, tentando dissipar a nuvem de tensão que se estabelecera entre nós.

― O que? ― Pela primeira vez, foi ele a perguntar.

Dobrei minhas pernas sobre o sofá, permitindo-me ficar mais confortável.

― É que além de estar falando com um, sinto como se ele fosse mais próximo de mim do que qualquer outra pessoa nesse mundo, considerando que nos conhecemos a tipo... ― Por força do hábito encarei o relógio de pêndulo na parede; já se passavam das sete e meia da noite. ― Uma hora?

Soltei uma risada nasalada seguida de um sorriso, que foi acompanhado pelo dele próprio. Um sorriso tão delicado, tímido e doce que destruíra por completo todo e qualquer indício de medo ou receio que ainda poderia haver em algum canto de meu subconsciente.

Seu sorriso era radiante, intenso... e frágil.

― Até que você reagiu bem para alguém que acabou de descobrir que pode ver um fantasma. Acertei no palpite de que você era meio excêntrica. ― Comentou, rindo baixinho.

― Queria tê-lo conhecido antes de tudo isso acontecer. ― Pensei alto, me arrependendo no mesmo minuto.

Bastou esse comentário para a atmosfera agradável que se instalara ali se dissipar tão rápido quanto havia surgido.

Arrisquei um olhar para Yoongi, que me encarava também. Não haviam mais quaisquer indícios de sorriso ou animação em seu rosto, mas em compensação, um lampejo de sentimentos que eu não soube identificar se desenharam nas feições praticamente desprovidas de cor.

Em um movimento tão rápido que quase não consegui acompanhar, ele se levantou.

― Acho melhor eu ir agora. Você precisa de tempo para digerir tudo o que acabei de falar, e, além do mais, daqui a pouco minha mãe deve chegar no hospital. ― Argumentou. ― Mesmo que ela não possa me ver, é bom ouvi-la falando comigo...

Uma onda de culpa e tristeza me arrebatou. Era involuntário. O peso esmagador de tudo aquilo insistia em pairar sobre mim como uma nuvem de chuva pesada e carregada. Não é que eu não me importasse com o que Yoongi dissera sobre não me arrepender, porém, assim como ele não achara o meu destino justo naquele dia, eu não achava o dele também.

― Quando estiver preparada para me ver outra vez, pode me chamar. ― Falou, rumando devagar até estar a poucos passos da porta da frente.

― E como eu faço isso? ― Perguntei me pondo de pé também.

Ele encarou os próprios pés alguns segundos antes de erguer o olhar até mim outra vez.

― Pense que precisa de mim, e eu vou aparecer. ― Disse com um quê de naturalidade na voz. ― Nós estamos em sintonia, lembra? Onde quer que eu esteja, posso sentir as vibrações da sua essência, e os desejos dela.

Tentei engolir aquela informação sem fazer uma careta; ele estava certo, eram coisas demais para um só dia, mas porque minha curiosidade insistia em aumentar?

― E agora você vai fazer o que? Se materializar no hospital do nada ou precisa que eu abra a porta? ― Indaguei em tom de brincadeira.

Ele riu nasalado.

― Eu fico com a primeira opção.

Franzi o cenho, confusa.

― Então porque você foi até a porta? ― Indaguei, realmente curiosa.

― É pra deixar mais simbólico. ― Disse em meio ao riso, antes de, em uma fração de segundos, sumir de meu campo de visão apagando todo e qualquer indício de sua estada ali.

Junto com Yoongi, naquele mesmo instante, a minha fachada de durona se foi. Me permiti desmoronar um pouquinho.

Pelo que poderiam ter sido horas, minutos, ou até mesmo alguns segundos indistintos me mantive estática, com o olhar fixo onde ele estivera, ao passo que meu cérebro tratava de voltar a trabalhar normalmente; a voz da razão me fazia contestar ainda que involuntariamente se toda aquela conversa havia de fato acontecido.

Sem ele ali diante de mim, era fácil acreditar que eu não passava de uma louca falando com as paredes. Eu só teria certeza de tudo quanto ele voltasse ― e eu queria acreditar que era exatamente isso o que aconteceria.

Ainda completamente absorta em meus pensamentos embaralhados, me dirigi até a pequena cozinha da casa, mas meu estômago embrulhado não me permitiu sequer beber um único copo de água e minha tigela de sopa de algas permaneceu intocada.

Aparentemente eu não era capaz de digerir informações e comida ao mesmo tempo.

Tentei afastar ao máximo aquela bola de neve que se formava em meu subconsciente, porém, nem os programas de televisão e livros que eu amava me distraiam por tempo o suficiente para parar de pensar no desastre que eu causara a Yoongi.

Como ele poderia ter êxito em sua tarefa de traçar um novo destino para mim, quando todas as coisas que eu costumava amar haviam sido arrancadas de mim contragosto?

Por mais que eu continuasse ali, viva, não havia perspectiva alguma de que algum dia eu me permitiria viver, de fato, outra vez. E foi só aí que eu compreendi o que ele quis dizer com meu destino sendo apagado; como eu não era para estar aqui, também não deveria haver nada para mim.

Eu deveria ser só uma lembrança, mas Yoongi assumira esse papel em meu lugar.

Minha única salvação daquele poço de remorso e loucura seria Jimin, mas este não apareceu e não ligou. Eu não o culpava por estar ocupado demais se divertindo enquanto eu era assombrada por meus próprios pensamentos.

Ainda era cedo, pouco depois das dez horas da noite, quando finalmente me dei por vencida e ainda que relutante marchei até meu quarto. Deitei-me na cama macia e rolei de lado, de modo que podia visualizar a caixa de joias esparramada sob a luz fraca de meu abajur.

Quase desejei que ele, o garoto de cabelos verdes, estivesse ali.

E então, eu esperei.

Esperei pelo sono.

E ele veio.


Notas Finais


E aí, gostaram?


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