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História Delirium - Capítulo 5


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Notas do Autor


Oioi meus xuxus! Cá estamos novamente, com capítulo novinho!

Espero que gostem.
Nos vemos nas notas finais!

Capítulo 5 - I can hear you


Fanfic / Fanfiction Delirium - Capítulo 5 - I can hear you

“O homem é o único animal que ri e chora, porque é o único que se impressiona com a diferença que há entre o que é e o que devia ser."

― William Hazlitt

 

-x-

 

Àquela altura já eu rolara tantas vezes em meio ao amontoado de edredons em minha cama que havia perdido toda e qualquer esperança de voltar a dormir, nem que fossem por míseros e únicos quinze minutos.

Meus olhos pesados se abriram minimamente para o quarto ainda escuro, focando quase que imediatamente no relógio digital sobre minha pequena e velha cômoda branca, cujos números verdes neon indicavam – percebi com um grunhido de descontentamento – pouco além das cinco horas da manhã, o que significava que ainda me restavam muitas horas de sono antes de meu despertador tocar. Muitas horas de sono que eu não teria.

Por inúmeras vezes busquei me concentrar no som ameno da chuva caindo no telhado ou nos desenhos disformes que se formavam na parede toda vez que um raio cortava o céu da madrugada, lançando um brilho rápido como um flash por entre as frestas de minha janela. E, no entanto, nada parecia ser o suficiente para afugentar aquele maldito pesadelo ― que começara pouco após o acidente ― de meu subconsciente perturbado.

Por fim, após muito protelar acabei me dando por vencida, e proferindo uma série de resmungos que nem eu mesma consegui entender afastei o edredom de meu corpo, içando-o preguiçosamente para fora da cama. Minhas pernas desnudas se arrepiaram ao contato de meus pés descalços com o chão frio.

Me vi tentada a voltar para o conforto e calor de minha cama outra vez mesmo que fosse apenas para me torturar sem conseguir dormir, mas, no entanto, busquei por uma muda de roupas qualquer entre a bagunça de meu armário e me dirigi para o banheiro na vaga esperança de que um banho rápido e quente pudesse afastar os tremores que o pesadelo me causara, e com um pouco de sorte, afugentasse aquelas imagens de meu pensamento pelo menos durante resto do dia.

Me esgueirei o mais silenciosamente que pude pelo trajeto após ouvir o ronco de meu pai vindo do cômodo ao lado – que obviamente chegara tarde da noite sem que eu percebesse. Ele provavelmente ainda estava irritado com nossa discussão no carro, e acordá-lo era a última coisa de que eu precisava para provocar ainda mais sua ira.

Fui obrigada a desfazer o emaranhado de nós em meu cabelo antes de o prender em um coque alto, para só então entrar no chuveiro ainda grogue de sono.

Aos poucos, conforme a água quente fazia seu trabalho, a sonolência se esgueirava para longe, permitindo-me pensar com clareza outra vez e organizar a confusão que em algum momento havia se instalado ali.

De alguma forma que eu não era capaz de compreender, agora minha conversa com Yoongi na noite passada parecia mais real e vívida do que me parecera antes, poucos minutos após ele partir em um átimo de segundo bem diante dos meus olhos incrédulos.

Eu não sabia até que ponto isso era bom ou ruim, mas mesmo assim tive o cuidado de não pensar em como queria urgentemente falar com Yoongi outra vez enquanto terminava de me secar e me vestir, lembrando-me de que sua instrução para o chamar era exatamente pensar que precisava dele por perto, afinal, fosse ele uma alma ou não, eu preferia não ser vista naquela situação.

Foi apenas após estar completamente vestida, ter preparado uma tigela de cereais e ligado a televisão em um canal de desenhos infantis qualquer que me permiti tais pensamentos, apenas para me frustrar ao perceber que não importava o quanto eu precisasse de Yoongi ali, ele não apareceria.

Talvez houvesse algo errado com a minha cabeça, impedindo-me de fazer aquilo do jeito certo – pensei comigo mesma, – ou ele simplesmente inventara tudo para poder ir embora sem se preocupar em voltar. Mas havia ainda outra possibilidade, uma que eu não queria aceitar de jeito nenhum: tudo poderia ter sido apenas minha imaginação me pregando uma peça.

Mas eu sabia, instintivamente, que não era nem de longe tão criativa assim. Todo aquele papo de essência e destino era absurdo demais para que eu inventasse sozinha.

Eu estava tão absorta em minha crescente indignação que não vi o tempo passar, tanto que quase nem percebi a figura alta e sisuda de meu pai sentando-se em sua costumeira poltrona de couro preta. Ele tamborilava os dedos longos na lateral de sua xícara de café enquanto me observava por detrás das lentes levemente embaçadas dos óculos.

Ouvi-o pigarrear.

― Como se sente? ― Indagou entre um gole e outro do líquido quente em sua xícara.

Sustentei seu olhar por um breve momento, constatando que ele não parecia tão bravo quanto pensei que estaria.

― Bem, obrigada. ― Falei sem enrolações. Terminei de mastigar meu cereal antes de concluir. ― Não estou mais dolorida, nem zonza.

― Isso é bom. ― Observou, em uma tentativa falha de estender a conversa.

Após alguns instantes de silêncio constrangedor entre nós, desviei minha atenção para a televisão fingindo interesse repentino no desenho que era transmitido. As aventuras de Pororo, o Pequeno Pinguim, me pareciam infinitamente melhores do que qualquer conversa que eu e meu genitor poderíamos ter naquele momento, mas ele aparentemente não pensava o mesmo, pois após entornar o restante de seu café, anunciou:

― Marquei uma consulta no psicólogo para você, esqueci de avisar ontem, e no caso, é hoje. ― Sua voz era mais séria do que antes, com um toque firme de autoridade. ― Te deixarei lá antes de ir para o trabalho. O consultório do doutor Kim fica na ala nova do hospital, é fácil achar.

Anuí, sem tentar resistir.

Não era como se eu abominasse a ideia de ter de frequentar um psicólogo, e eu também não tinha muito mais o que fazer em uma manhã de sábado, considerando que meu plano inicial de dormir até o meio-dia o único plano que eu tinha para ser mais exata havia ido pelo ralo ainda na madrugada.

― O único problema é que não sei que horas estarei livre do trabalho. Acha que consegue voltar sozinha? ― Tive de reconhecer que agora, por trás de sua expressão séria, havia uma preocupação real com meu bem-estar.

― Posso voltar de ônibus ou metrô sem problema. ― Garanti, dessa vez olhando-o nos olhos para acrescentar. ― Prometo que vou tomar cuidado.

Ele assentiu mais para si mesmo do que para mim enquanto levantava-se.

― Vou me vestir para o trabalho. Se quiser trocar de roupa também, ainda temos algum tempo.

Instantemente olhei para o que vestia, concluindo que meu costumeiro jeans e minha camisa branca estavam de bom tamanho, mas aproveitei a deixa para ir dar um jeito em meu cabelo e pegar um cardigã bege em meu quarto. Este último apenas para o caso de estar fazendo mais frio na rua do que era esperado em virtude da chuva que caíra durante a noite, e que por sinal, já havia dado uma trégua apesar das nuvens carregadas continuarem lançando suas sombras monótonas pela cidade.

Durante todo o caminho até o hospital a única coisa que quebrava o silêncio entre nós era o aparelho de som ligado em volume baixo, reverberando alguma música clássica pelo carro. Para ser sincera, eu não me importava com o silêncio; era ótimo, na verdade, poder observar as ruas do lado de fora da janela sem precisar entrar em uma conversa que nenhum dos dois de fato queria iniciar.

Porém, diferente de todas ás vezes em que eu me entretera observando as pessoas apressadas pelas ruas, dessa vez me peguei pensando em qual seria o destino delas.

Será que teriam tanto azar quanto eu?

As palavras só se fizeram necessárias quando meu pai estacionou o carro junto ao meio-fio da calçada em frente ao hospital, onde brevemente me passou instruções de como chegar à sala em que seria atendida antes de partir dali, deixando-me por minha própria conta e risco outra vez.

Graças aos comandos de meu pai e também a ajuda de uma enfermeira gentil e prestativa não demorei a encontrar a saleta de espera vazia e luminosa, onde mais ao canto havia uma única porta branca indicando o consultório do doutor Kim.

― Ele deve atende-la a qualquer momento. ― Avisou a mulher baixinha. ― Porque não se senta enquanto espera?

― Claro, muito obrigada! ― Fiz uma breve reverência em agradecimento antes de ela se afastar, e seguindo seu conselho, sentei-me em uma das quatro poltronas azul bebê ali posicionadas.

Só pude vislumbrar brevemente alguns dos quadros coloridos nas paredes cor de creme antes da porta ser aberta lentamente, revelando a imagem de um homem que parecia ter acabado de sair de um desfile de moda. O jaleco branco sobre a camisa social cinzenta realçava ainda mais o tom escuro de seus cabelos e o rosado natural de seus lábios.

Quase me arrependi de não ter me produzido um pouco mais, porém, acabei por aceitar que independentemente de quanta maquiagem ou quais roupas eu usasse, continuaria sendo ofuscada pela beleza do psicólogo provavelmente na casa dos vinte e tantos anos de idade.

― Deve ser a senhorita Hwang Yeo Jin, certo? ― Indagou, apressando-se em abrir a porta por completo para que eu passasse após confirmar minha identidade com um movimento de cabeça. ― Imagino que já saiba quem eu sou, mas pode me chamar só de Seokjin se preferir. Ainda não me acostumei com essa coisa de doutor.

Sorri com uma pontada de constrangimento contida ao passar por ele.

Diferente do que eu esperava, sua saleta era menos luminosa do que a sala de espera. Para ser mais exata, o contraste entre os dois ambientes era quase gritante; os tons claros do lado de fora eram ofuscados por uma paleta de cores escuras e sombrias ali dentro, e por algum motivo, aquilo confundia meu estado emocional. Quase me impelia a desfazer-me em lamúrias diante dele.

Sentei-me na poltrona indicada após o mesmo sentar-se em outra, de frente para mim.

De início nossa conversa se embasou em uma análise minuciosa de minha vida pessoal; desde minha relação com meu pai à ausência de minha mãe, até minhas tentativas frustradas de manter amizade com algumas umas poucas pessoas.

Park Jimin parecia a única pessoa no mundo disposta a ocupar o cargo de amigo em minha vida.

Me surpreendi de verdade ao constatar quão a vontade eu ficara após apenas alguns minutos de conversa, falando de tudo com naturalidade, como se estivesse sozinha naquele cômodo, sem ninguém fazendo anotações sobre praticamente tudo o que eu falava. Sem sobra de dúvida era muito diferente de como eram minhas sessões de terapia quando eu ainda era uma criança aprendendo a lidar com a ausência repentina de sua figura materna.

Mas era visível que não era a isso que ele queria chegar hoje, assim como deveria ser visível para ele que eu tinha conhecimento disso.

― Pelo visto nós teremos muito assunto daqui para frente, mas não é sobre nada disso que vamos conversar hoje. ― Garantiu-me Seokjin.

Me encolhi sobre a poltrona, tensa por saber que ele tocaria em minha ferida mais recente. Por fim, ele cansara da enrolação.

― Yeo Jin, você sabe o que a traz aqui? ― Questionou de supetão, pegando-me de guarda baixa.

Pensei na pergunta por um momento. Uma parte incontestável de mim desejava responder com ironia, mas acabei optando por guardar meus comentários ácidos e defensivos para depois, caso aquilo tudo não tomasse o rumo que eu esperava.

Ele emanava confiança, então optei pela sinceridade.

― Acho que é algo relacionado com meu quase atropelamento e com o garoto que está em coma por minha culpa. ― Suspirei pesarosa. Encarei minhas mãos cruzadas sobre meu colo. ― Acredito que já deva conhecer essa história.

― De fato, sei o que aconteceu, mas a sua história eu não conheço. E estou certo de que vê as coisas diferente dos outros. É por isso que estamos aqui. ― Respondeu sincero. Pela sua pausa breve, imaginei que estava escolhendo por qual caminho continuar. ― Você realmente se culpa, mesmo sabendo que foi uma escolha dele te empurrar para longe do carro?

Seus olhos sustentavam os meus intensamente, me impedindo de desviar o olhar. Era como se Seokjin pudesse ler cada traço em minha expressão. Eu me sentia exposta, sem meios para me esconder ou mudar o assunto, mas não podia considerar isso como algo ruim, por mais estranho que soasse.

― Sim. ― Admiti em voz alta pela primeira vez. Sentia-me grata por Yoongi não estar ali para me ouvir. ― Não importa o quanto eu tente enxergar o que aconteceu de outra maneira, no final, a única conclusão que encontro é a de que ele só teve que tomar essa escolha graças ao meu descuido. Ele jamais teria posto a própria vida em risco se não fosse por mim.

Ou ― Acrescentei mentalmente ― graças ao meu maldito e infeliz destino traçado desde o dia de meu nascimento.

Tive de morder a língua para não falar da aparição de Yoongi e de nossa conversa, pois eu tinha certeza de que não importava o quão compreensível Seokjin pudesse ser, ele jamais acreditaria em uma palavra que fosse sobre aquilo, e eu possivelmente acabaria trancafiada em uma cela de um manicômio qualquer como uma louca alucinada.

― Supondo que a sua hipótese esteja certa e que isso só acabou acontecendo por um descuido seu, você acha mesmo que Yoongi ficaria feliz em descobrir que sua forma de retribuir a coragem dele é odiar e culpar a si mesma por continuar viva? ― Perguntou em tom manso. Não havia julgamento em sua voz. Diferente de todos que haviam me feito aquela pergunta, ele sim buscava verdadeiramente entender.

Meus olhos arderam com a súbita vontade de chorar que me acometeu, porém, não me permiti tal feito. Respirei fundo duas vezes antes de falar:

― Sei que ele não gostaria que eu pensasse assim, mas por mais que eu esteja grata, essa é a verdade. ― Dei de ombros cabisbaixa.

Durante a hora seguinte, Seokjin e eu continuamos no mesmo jogo; ele perguntava, eu respondia, e ele tomava nota. Preferi não mencionar meu recorrente pesadelo, não parecia ser a hora certa.

Quase suspirei de alívio quando ele anunciou o fim de nossa consulta, pondo-se de pé com um sorriso amigável no rosto; só não sei afirmar se o alívio se devia ao fim do interrogatório, ou ao peso que fora tirado de minhas costas após falar tanto e tão abertamente.

― Nos vemos na semana que vêm. ― Não foi uma pergunta. ― Mesmo horário?

― É claro. ― Sorri em resposta. ― Acho que não vai ser tão ruim. Você é diferente do que eu esperava.

― Não é a primeira vez que ouço isso. ― Afirmou, acompanhando-me até a porta.

Após me despedir de Seokjin com uma reverência e um aceno, eu sabia que deveria rumar direto para fora do hospital e encontrar um jeito de ir para casa, entretanto, existia uma lacuna enorme entre o que eu sabia que deveria fazer e o que eu queria fazer de fato.

Alguma coisa dentro de mim, como uma espécie de instinto, me dizia para visitar o quarto de Yoongi. Essa coisa desejava, quase desesperadamente, sanar minha curiosidade. Eu precisava vê-lo – a sua casca – para ter certeza de que apesar das atuais circunstâncias, ele continuava vivo.

Levei pouco mais de uma fração de segundos para me decidir e mudar minha rota.

Com passos rápidos e pesados me coloquei a marchar pelos corredores cada vez mais familiares a mim em direção do quarto onde eu sabia que ele deveria estar, e conforme me aproximava cada vez mais do local, torcia para que não houvesse nenhum familiar seu ali – eu continuava sem conseguir sequer imaginar como reagiria diante deles.

Parei diante da porta com as mãos trêmulas e a abri com uma lentidão exagerada. Espiei para dentro do cômodo e tudo o que pude visualizar foi o corpo imóvel do garoto dos cabelos verdes em seu leito.

Entrei sorrateiramente, fechando a porta atrás de mim. E conforme adentrava no recinto, minha vaga esperança de que a essência de Yoongi estivesse ali também – ou o que quer que fosse aquilo que falara comigo – se esvaiu. Não haviam nem sinais dele.

― Oi. ― Sussurrei por força do hábito, sentando-me na cadeira ao lado da cama.

Ele continuava exatamente como na última vez que eu o vira antes de receber minha alta; pálido, imóvel e ligado a uma quantidade infinita de aparelhos que o mantinham respirando.

Em um gesto praticamente involuntário, segurei uma de suas mãos entre as minhas com tanto cuidado que sentia quase como se estivesse manuseando uma peça de porcelana rara e delicada, de valor imensurável ― o valor de uma vida. E embora eu tivesse completa e absoluta certeza de que ele não reagiria ao meu toque, uma centelha de esperança ainda me fazia esperar que ele retribuísse o aperto de minha mão.

Você continua aqui. ― Sussurrei, mais para provar aquilo para mim mesma do que por qualquer outro motivo. Ao menos o fantasma de Yoongi não mentira quando dissera que ele não estava morto. ― Me desculpe por ter duvidado de você... quer dizer, o que é que eu estou falando? Você nem mesmo pode me ouvir...

― Mas é claro que eu posso te ouvir! ― A resposta veio de trás de mim. Nítida e clara.

Dei um pulo de sobressalto, colocando-me de pé tão rápido que quase derrubei minha cadeira. Ouso dizer que a expressão “meu coração quase saltou pela boca” por pouco não fez jus ao seu sentido literal.

Escorado na parede atrás de si com uma expressão de puro divertimento, Yoongi parecia se segurar para não cair na risada. Soltei um palavrão baixinho, mas minha irritação com o susto não chegava nem perto da euforia que ameaçava crescer em meu peito.

Ele era real. Tudo havia sido real.

― Eu posso até estar do outro lado do mundo, e continuarei ouvindo palavra por palavra do que disserem para a minha casca. Ela é minha, afinal. ― Ele deu de ombros, abrindo um sorriso.

Ponderei suas palavras.

― Então porque você foi embora ontem se podia simplesmente ouvir sua mãe e continuar falando comigo? ― Franzi o cenho, confusa.

― É estranho só ouvir alguém falando comigo e não ver a pessoa em questão. E além do mais, você precisava de um tempo para pensar. ― Observou, caminhando em minha direção. ― Fiquei surpreso quando ouvi sua voz, por isso vim para cá.

― Mas eu também te chamei hoje mais cedo, e você não apareceu. ― Acusei-o.

Ele pareceu quase envergonhado antes de endireitar a postura.

― Eu disse que apareceria quando você estivesse preparada para me ver outra vez. E você não estava.

Então ele havia me escutado! Uma parte de mim sentiu-se traída ao ouvir aquilo.

― E agora eu estou? ― Desafiei, erguendo as sobrancelhas. Não conseguia esconder meu ressentimento.

― Não posso afirmar nada. Admito que minha curiosidade foi maior. ― Ele riu nasalado, direcionando o olhar para algo que fez sua expressão tornar-se quase sombria. Acompanhei seu olhar.

Eu não havia notado que continuava segurando sua mão, a mão de seu corpo. Soltei-a quase que imediatamente, como se houvesse levado um choque. Minhas bochechas arderam de rubor.

― Eu sinto muito... ― Murmurei, tímida de súbito. ― Você pode sentir quando o toco? Digo, quando toco sua casca?

― Não. ― Respondeu firme. Algo em seu rosto deixava indícios de uma espécie de tristeza que não fui capaz de compreender. ― Não posso sentir.

De repente, percebi o quão estranha e improvável era aquela situação; eu estava conversando com a forma astral de Yoongi, enquanto seu corpo físico repousava ao meu lado.

Me perguntava o quão desconfortável aquilo seria para ele.

― Bem, eu tenho que voltar para casa sozinha... o que acha de me acompanhar? ― Propus, esperançosa de que pudesse passar algum tempo próxima dele. Ainda haviam perguntas demais para quase nenhuma resposta.

Yoongi andou em minha direção, parando ao lado de seu leito. E por mais que quisesse evitar, não consegui conter meu olhar, divagando entre suas duas versões diante de mim.

O contraste entre sua essência e sua casca possuía um ar de certo modo poético, e eu sempre ouvira que as melhores poesias se faziam nos piores momentos.

― Não acho que consiga te empurrar para longe de outro carro, mas realmente prefiro que não vá sozinha. Nunca se sabe quando um fantasma vai ser útil. ― Ele riu, afastando-me de meus pensamentos anteriores. Era incrível como seu humor mudava rápido.

― Ótimo. Mas vamos deixar as perguntas para quando chegarmos em minha casa. ― Pedi com uma risada. ― Não quero parecer uma louca falando sozinha.

― Você já parece maluca, esteja falando sozinha ou não. ― Argumentou ironico.

Fiz uma careta para o garoto e marchei até a porta com um sorriso ameaçando se desenhar em minhas feições.

Durante todo o caminho até o lado de fora do hospital tive de me segurar para não acabar simplesmente soltando alguma pergunta ou comentário aleatório para o mais velho ao meu lado, que acompanhava pacientemente meu ritmo.

Ao finalmente atravessamos as portas do local, o sol que brilhava lá fora nos envolveu. Uma brisa agradável soprou meus cabelos quando nos colocamos a andar pela calçada apinhada em direção ao ponto de ônibus mais próximo.

Vez ou outra Yoongi e eu lançávamos olhares um para o outro, e ele quase sempre acabava por fazer uma gracinha desproposital, deixando-me completamente tentada a rir. Nossas interações continuaram por algum tempo até que, ao longe, vi uma figura conhecida se aproximar.

Parei de andar quando Jimin e alguns amigos que eu não conhecia se posicionaram diante de mim. Yoongi se manteve ao meu lado; pelo canto do olho, vi suas orbes negras se arregalarem, mas não entendi o motivo.

― Yeo Jin, o que faz por aqui? Está tudo bem? ― A voz de meu amigo subiu uma oitava enquanto proferia a última pergunta. ― Me desculpe por não ter te visitado outra vez ainda ontem...

― Está tudo bem. Só estava vendo meu psicólogo. ― Garanti com um dar de ombros. Olhei para os dois garotos que o acompanhavam e abri um sorriso tímido. ― A propósito, olá.

Um deles, provavelmente o mais carismático, abriu um sorriso retangular de tirar o folego e me cumprimentou com entusiasmo, ao passo que o outro apenas moveu a cabeça minimamente, sem se dar ao trabalho de olhar em minha direção.

― Ah, me desculpe por não apresentá-los a você. Yeo Jin, esses são Kim Taehyung e Jeon Jungkook. ― Jimin indicou o garoto sorridente e o carrancudo respectivamente. ― Nós estávamos dando um passeio, mas já estou indo para casa. Posso te acompanhar? Não quero parecer super protetor, mas ultimamente ando com um certo receio de deixa-la sozinha por aí.

Meu coração se apertou no peito com uma pontada de desespero; aquilo acabaria com meus planos de conversar com Yoongi.

― Não precisa, não quero atrapalhar vocês e... ― Comecei a falar buscando uma justificativa para poder continuar com Yoongi, mas fui interrompida pelo próprio.

― Vá com ele. ― Yoongi praticamente ordenou sem me olhar. ― Vai ser melhor para você. Ele sim pode te proteger.

Eu queria confrontá-lo, perguntar qual era o problema, mas antes de eu sequer ter uma chance de me afastar de minhas novas companhias para falar com ele sem ser vista, Yoongi de desmaterializou diante de meus olhos, sem se despedir.

Tive de usar todo o pouco autocontrole que ainda me restava para conter minhas lágrimas. Ele provavelmente nem suspeitava que, junto consigo, fizera desaparecer toda e qualquer chance de meu dia acabar bem.

Dei um passo na direção de Jimin, mas minha mente estava em outro lugar.

Espero te encontrar em casa ― pensei, desejando que ele me escutasse ― talvez eu não esteja preparada, mas realmente preciso de você, Yoongi.


Notas Finais


E aí, gostaram?

Contem aí nos comentários! Tô amando interagir com vocês.
Beijinhos e até o próximo!


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