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História Démence Précoce - Capítulo 1


Escrita por: PettyYumeChan

Notas do Autor


Bonjour.
Essa fic foi escrita para o concurso de aniversário do grupo Fanfics Amor Doce e Eldarya (link nas notas finais)
Cada participante precisava escrever uma fic baseada em um título formado com frases correspondentes ao próprio mês do aniversário e o número do telefone.
O meu título ficou como "A triste história de um cientista louco"
Agora que já estamos todos contextualizados, boa leitura.

Capítulo 1 - A triste história de um cientista louco Pt. 1


París, 1784

Ter todos os tipos de figuras excêntricas sentadas em sua sala de visitas não era nenhuma novidade para Eleanor Pinel, ainda assim a menina de seus olhos não conseguiu ignorar o convidado daquele dia.

Se sua mãe a visse naquele momento provavelmente a repreenderia dizendo que “não é apropriado para uma dama espiar”, mas Eleanor estava disposta a correr o risco se isso significasse poder admirar por mais alguns minutos o homem de aparência galante que conversava com o seu pai. Ele não aparentava ter muito mais idade do que ela própria, com olhos bicolores e um rosto forte emoldurado pelos cabelos pálidos como a luz da lua. Trajado de meias de seda que eram expostas pelos culottes pretos combinados a casaca que sobrepunha o colete de um tom azul escuro em tecido brocado, ao seu lado, apoiada ao braço da poltrona, havia uma bengala preta com a empunhadura em prata incrustada com pequenos cristais. Era a imagem perfeita de um cavalheiro.

Eleanor precisava admitir que a imagem do homem dava-lhe uma sensação engraçada no estômago. Não que sua vida girasse em torno dos casamentos, mas já tinha os seus 18 anos e sabia que os pais provavelmente já começavam a cogitar possíveis pretendentes – afinal a filha de um médico não poderia se casar com qualquer um – e essa possibilidade fazia com que a menina já tivesse se imaginado na posição de noiva algumas vezes. A ideia no geral não lhe era incomoda, mas sempre havia aquele pequeno frio na barriga ao se perguntar quem seria aquele a segurar sua mão no dia fatídico. Bem, naquele dia imaginou que um cavalheiro como o que via agora não seria de todo mal.

Como se lendo sua mente, os olhos bicolores se fixaram exatamente na posição onde a garota tentava se ocultar por detrás da porta. A respiração engatou na garganta e ela precisou se segurar para não deixar um grito de surpresa escapar enquanto se movia mais para trás tentando se esconder por completo, tinha certeza de que havia sido o mais discreta possível, mas talvez o convidado da vez fosse muito mais perspicaz que os anteriores. Se amaldiçoou internamente, já era de extrema indelicadeza espionar, ser descoberta então? Tinha a obrigação agora de pelo menos cumprimenta-lo para não dar a impressão de ser uma péssima anfitriã.

Analisou rapidamente a aparência no reflexo de uma janela próxima, algumas das madeixas pretas se soltavam levemente do coque e o vestido em tons pastel estava levemente amassado devido a recente caminhada com sua amiga – e vizinha – Violette pelas ruas da cidade. As duas acabaram por criar aquele habito quando descobriram um interesse mutuo nas diversas construções do local, ou ao menos parcialmente mutuo, Violette estava interessada em nome da arte, enquanto Eleanor tinha um olhar mais teórico, por assim dizer.

“Não importa a situação, uma dama sempre deve estar apresentável” as palavras de sua mãe lhe passaram mais uma vez pela cabeça enquanto ela beliscou as bochechas e mordiscou os lábios na tentativa de trazer um pouco mais de cor ao rosto “branco como um fantasma” – ou era essa a descrição que normalmente ouvia de si – e ficar o mínimo apresentável possível. Respirou fundo uma ultima vez, com a aparência minimamente adequada recolheu seus rascunhos e sua coragem e adentrou na sala.

Sentiu o peso dos olhares em si quando caminhou pela sala. Nenhum deles era realmente acusatório, o primeiro ela reconheceu no maximo como curioso, enquanto o pai tinha o mesmo olhar amável de sempre, estendendo-lhe a mão em um incentivo para se aproximar.

— Boas-tardes meu pai. Acabei por retornar de meu encontro com Violette.

— Sempre um prazer vê-la minha querida. Permita-me apresentar-lhe. — O pai lhe segurou a mão, direcionando-a agora de modo que ficasse de frente para o convidado. — Minha filha, Eleanor, e esse é meu amigo, Lysandre Ainsworth.

— É um prazer conhecê-lo, Mr. Ainsworth. — Seguindo o decoro a garota estendeu-lhe a mão, ao passo que o homem se pôs de pé para recebê-la com um beijo suave.

— A honra é minha, mademoseille. É sempre de grande prazer conhecer a bela família do Dr. Pinel.

— Não estamos no consultório, Lysandre. Podes me tratar por Philippe.

Uma conversa silenciosa se passou pelo olhar dos dois, mas Eleanor sabia melhor do que perguntar, principalmente agora que viu o cavalheiro mais de perto e percebeu como suas mãos e pescoço às vezes tremiam em um tipo de tique e os olhos bicolores costumavam desviar de forma nervosa para lugares onde não havia nada aparente. Esse mesmos olhos se fixaram na garota mais uma vez, fazendo-a tremer sobre seus pés, “pega espiando de novo” ela pensou, mas o homem não pareceu se importar, descendo o olhar para a pasta em suas mãos.

— A senhorita pinta?

— De tempos em tempos, monsieur.

— Não é necessária tamanha modéstia ao redor de Lysandre, minha querida. — O pai abriu um enorme sorriso sobre a xícara de chá, direcionando-se ao convidado. — Ela não diz, mas é uma artista.

Eleanor sempre sentia o estômago revirar quando era adjetivada de tal forma. Era verdade que tinha alguns conhecimentos a respeito da arte, mas não era uma artista, era uma matemática. Ainda conseguia se lembrar de todos os esforços que teve para que o pai a ensinasse a trabalhar com os números, mas com um pouco de teimosia e a promessa de nunca deixar de lado as suas lições de futura mãe e esposa, conseguiu convencer-lhe a lhe ensinar o básico, e com um pouco de esforço ela própria foi capaz de decifrar os livros mais complexos que havia no escritório do pai.

Em poucos meses já era possível encontrar a garota contando os passos de distância de uma parede à outra dos cômodos da casa, então ela corria escada a cima para o seu quarto, rabiscava todos os resultados em alguma folha e começava então a desenhar todo o esqueleto da casa com todas as suas medidas. Fez isso tantas vezes que já sabia de cabeça as proporções da casa, quando começou a ficar entediada conseguiu permissão para visitar a casa de Violette e repetiu todo o processo, mas quanto mais fazia mais rápida ficava e logo já não tinha mais o que medir e calcular.

— Adoraria ver um dos trabalhos da senhorita.

O estômago revirou mais uma vez. Não era uma artista, era uma matemática, mas apenas ela sabia disso. Quando ficou altamente entediada e foi pedir permissão aos pais para “pintar” as casas da cidade não especificou que tipo de pintura estaria fazendo, conhecia os pais que tinha e sabia que “ser uma mulher da arte” seria muito mais bem aceito do que “ser uma mulher dos números”, e se o resultado era o mesmo optou pelo mais fácil. Os pais estavam sempre ocupados com alguma coisa então foi fácil driblar as perguntas com alguns rascunhos simples, claro que já havia cogitado a hipótese de ser pega em suas mentiras, mas não esperava que fosse em uma situação como aquela.

Ainda assim não podia negar tal pedido quando o pai a olhava com tamanha expectativa. Engoliu em seco abrindo a pasta recheada por todos os seus rascunhos das casas da cidade com cálculos matemáticos rabiscados pelos cantos. Não eram nada de extraordinário, principalmente quando feitos por uma mulher, mas ainda precisava apresentar alguma coisa para o convidado expectante. Foi quando uma luz se acendeu para afastar as sombras de seu desespero.

Por entre todos os seus rabiscos turbulentos ela viu uma pequena ponta colorida de esperança. Um dos muitos desenhos de Violette. Havia se esquecido de que estava ali, provavelmente foi algum trabalho o qual a amiga não ficou totalmente satisfeita afinal não havia assinatura, mas Eleanor sempre foi uma fã incurável dos trabalhos da amiga e sempre recolhia as artes descartadas quando ela não estava olhando. Quem diria que tal hábito poderia lhe salvar a pele algum dia, afinal de contas o “insuficiente” de Violette ainda era admirável para os demais, principalmente para Eleanor que precisava escolher entre rabiscos de carvão bruto e delicadas pinceladas de tinta.

Sem pensar duas vezes puxou o desenho do meio de suas anotações e o apresentou ao convidado, abraçando o restante da pasta muito próximo ao peito quase como se a tentasse oculta-lá. Apegou-se à esperança de que apenas um desenho satisfizesse a curiosidade de Mr. Ainswhort. Observou nervosa como os olhos do homem absorviam todos os detalhes da folha de papel e os lábios abriram um sorriso.

— A senhorita é deverás talentosa. Adoraria ter um de seus quadros em minha mansão.

Os ouvidos de Eleanor se animaram sob a menção de “mansão”. Por mais que já tenha estudado a estrutura de diversas casas da cidade elas não fugiam muito do mesmo padrão, sentia que estava fadada a desenhar sempre os mesmos estilos de estruturas. Todavia, o estudo da estrutura de uma mansão iria expandir os seus horizontes de forma que nem ela conseguia imaginar. Mordiscou os lábios, talvez se arrependesse das próximas palavras, mas não podia perder tamanha oportunidade.

— Seria de grande prazer poder fazer uma pintura para o senhor. Inclusive da própria mansão.

Os olhos heterocromáticos se travaram com os castanhos, e por um momento Eleanor se esqueceu de como respirar. O mundo desapareceu do arredor, os olhos eram uma viagem por entre o azul dos oceanos até o dourado do por do sol. Descreveria-o como uma arquitetura barroca. A única arquitetura que havia visto do tipo era a igreja da cidade. Perdeu as contas de quantas vezes foi repreendida por não prestar verdadeira atenção à missa, mas não podia se conter, os olhos vagavam inconscientemente pelos belos padrões das pilastras e dos balaustres da construção.

— Não tens de se prestar a tamanho incomodo, mademoseille.

— De modo nenhum, me seria de imenso prazer.

— Bem, nesse caso a senhorita está mais do que convidada.

— Não sei, Lysandre. — O pai interrompeu. — Sua mansão é um tanto afastada da cidade.

— Oh, pai, por favor. Violette pode me acompanhar, ficaremos bem.

Obviamente essa não era a principal preocupação de Eleanor, se dependesse apenas de si não se importaria de viajar sozinha para a mansão Ainswhort. Mas agora ela havia mergulhado muito fundo em uma mentira e necessitava da presença de Violette para levar tudo adiante, e se a menção da amiga amoleceria o coração do pai então ela apenas juntaria o útil ao agradável.

— Eu não sei, ainda é uma caminhada muito longa...

— Eu posso providenciar uma carruagem. – Mr. Ainswhort apontou.

Os olhos de Eleanor brilhavam para o pai, como um cachorrinho que senta aos pés do dono pedindo por comida ou carinho, e se tinha uma coisa que ela sabia que o pai não poderia enfrentar era aquele olhar. A vitória sorriu para ela quando o pai deixou escapar um suspiro resignado.

— Está bem, está bem. Contanto que o pai de Ms. Delvis a deixe acompanha-la.

Sabia que o pai não costumava demonstrar afeto físico, mas Eleanor não pode conter sua alegria envolvendo-o em um abraço. Mas o homem não pareceu realmente se importar, soltou um leve riso e “retribuiu” o abraço com alguns tapinhas em seu braço.

— Está decidido então. Uma carruagem virá buscar a senhorita e sua acompanhante dentro de três dias.

— Estarei esperando, monsieur. Agora, se me dão licença, retirar-me-ei aos meus aposentos.

Em uma última mesura saiu tranquila da sala, mas assim que fechou a porta atrás de si correu escada acima como se sua vida dependesse disso. Não se preocupou muito em guardar seus materiais, apenas os arremessou sobre a cama quando chegou ao quarto, indo imediatamente para a janela aberta que dava visão à janela da casa vizinha.

Pegou algumas pedrinhas que decoravam o vaso sobre o criado mudo e começou a arremessa-las fazendo um leve barulho quando se chocavam ao vidro da janela à frente, não demorou muito para a figura que esperava aparecesse e abrisse a janela. Os cabelos castanhos caiam como ondas até a altura dos ombros e nos dedos era possível ver pequenas manchas de tinta, provavelmente estava finalizando algum trabalho o que fez Eleanor desejar que os barulhos na janela não a tivessem feito borrar nada ou ela teria problemas mais tarde.

Mas seria por uma boa causa, assim como ela, Violette se deleitaria em poder pintar a grandiosidade de uma mansão, mesmo que Eleanor a estivesse arrastando junto por motivos um tanto egoístas. Correu a seu criado mudo e rabiscou o pequeno bilhete.

“Envolvi-me em uma mentira complicada, careço de sua ajuda. Vem visitar-me daqui três dias. Traga seu material.”

Amarrado a um pedaço de carvão o bilhete voou das mãos de Eleanor até aterrissar sem problemas nas mãos de Violette. Observou com expectativa conforme essa lia o papel, a primeira resposta que recebeu foi uma careta desgostosa, mas Eleanor sabia ser convincente quando abria um de seus sorrisos inocentes. Quase pode ouvir o suspiro resignado que a amiga fizera antes de acenar com a cabeça em confirmação, Eleanor acenou de volta em um gesto de gratidão e ambas as janelas se fecharam.

═════⊹⊱❖⊰⊹═════

O dia marcado chegará, o céu estava levemente nublado, mas o clima não era de todo desagradável com uma leve brisa quente no ar. Eleanor já era uma bola de ansiedade. Sempre se sentia assim quando lhe era dado à permissão de poder, como ela gostava de chamar, “escapar das paredes brancas” de sua casa, mas a situação atual era ainda mais especial, o que só duplicava o sentimento. Violette chegou no horário costumeiro, e de longe já era possível perceber o contraste entre as duas.

Violette era arte em tudo o que fazia. No modo de caminhar, nas ondas castanhas do cabelo sempre presos de maneira a lhe dar uma aparência delicada, no vestido azul claro com babados nas mangas e colo, no colar da mãe que nunca lhe saia do pescoço. Já Eleanor gostava de se definir como mais “prática”. Os cabelos negros sempre completamente presos em um coque alto e os vestidos o mais simples possível nunca indo muito além do amarelo ou do pêssego, sempre parecia caminhar com pressa, isso quando prestava atenção no modo em que caminhava.

Cumprindo seu papel de boa anfitriã recebeu sua amiga como de costume. Convidou-a para entrar e ofereceu uma xícara de chá. Sentadas na sala se visitas conversavam banalidades, mas Eleanor sabia que as perguntas viriam, mas também sabia que a amiga esperaria um momento oportuno. Agradeceu-a mentalmente por isso, não gostaria de comentar os seus planos de conspiração no meio da sala de visitas onde qualquer um poderia ouvi-las.

Por sorte não foi preciso que esperassem tanto, dentro de poucos minutos Eleanor foi avisada de que sua carruagem havia chegado. Ofereceu um sorriso a Violette para que essa seguisse junto, e assim elas foram. Eleanor ainda recebeu mais algumas orientações do pai ao sair, ele claramente ainda parecia relutante, mas não tentou se opor. Com ajuda do cocheiro elas embarcaram e, como esperado, Violette não demorou a dar voz a suas perguntas assim que o transporte começou a se mover.

— Eleanor, minha amiga, sabes que te considero como uma irmã e nunca me duvidaria de ti, ainda assim sinto que careço de algumas explicações.

— E não sabes como sou grata por tamanho voto de confiança. Prometo-lhe explicar tudo desde o princípio. — E assim ela o fez. Explicando como foi colocada em um beco sem saída para exibir suas artes, ao mesmo tempo em que a ideia de poder elevar seus conhecimentos através do estudo de uma mansão lhe atiçou em demasia. — Poderá um dia me perdoar por tamanho equívoco?

— Já estás perdoada, não é comigo que deves se preocupar. Mas, Elly, não achas que estás sendo um tanto imprudente?

— Considerei tal hipótese, mas decidi que estou disposta a me arriscar. Não se preocupe, caso seja pega hei de assumir toda a culpa.

— Não diga tolices. Posso ter chegado aqui sem conhecimento do assunto, mas agora que estou a par da situação é minha escolha continuar ou não. E bem, eu digo que tenho uma mansão para pintar.

— Oh, Lettie. — Ela agarrou ambas as mãos da amiga em reverencia. — És um anjo em minha vida, sabes disso, não é?

— Sei, sei. Já me dissestes milhões de vezes, mas não faço milagres, Elly, tens de aprender a ser mais cuidadosa.

— Não faço promessas.

Elas trocaram um riso cúmplice que foi embalado pelo balançar da carruagem que cada vez mais se afastava das casas da cidade em direção a novos horizontes.

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Eleanor já esperava algo grandioso, mas o que os seus olhos presenciaram era magnífico. Por entre as árvores do caminho da colina a enorme construção branca em todo o seu esplendor maneirista surgiu. Os telhados de ângulos retos se destacavam com o seu tom de mogno a qual combinava com o batente das janelas, e pelo número de janelas que Eleanor via de sua posição ela já pode contar aproximadamente seis quartos. Era como uma criança ganhando doces, sentia que precisava explorar e observar cada detalhe daquela casa, quem sabe assim ao menos nos seus sonhos seria capaz de projetar construções tão grandiosas quanto aquela.

A carruagem parou em frente à porta onde Mr. Ainswhort já as esperava acompanhando por um homem de feições sérias e cabelos pretos não tão compridos quanto o do primeiro, mas ainda longos o bastante para lhe tocar os ombros.

— Ms. Pinel, é um prazer revê-la.

— Igualmente, monsieur.

— E vosmecê deve ser Ms. Delvis.

Ele se dirigiu à garota de cabelos castanhos que tentava se fazer invisível atrás da amiga. Eleanor já estava tão acostumada à amiga sentindo-se segura ao seu lado que às vezes esquecia como na verdade a amiga era extremamente reservada e tímida. Desculpou-se internamente mais uma vez por colocá-la em tal situação.

— Encantada em conhecê-lo, Mr. Ainswhort.

Mas mesmo em toda a sua timidez Violette ainda havia recebido suas aulas de etiqueta e sempre se esforçava para seguir com o decoro, mesmo que sua voz saísse apenas como um sussurro e a mão tremesse levemente quando a oferecia em cumprimento.

— Por favor, quero que fiquem a vontade em minha casa. Esse é Castiel Leunam, meu mordomo e amigo. — O homem de cabelos pretos fez uma breve reverência quando citado. — Qualquer coisa que precisarem podem pedir a ele. Algo que posso fazer pelas senhoritas?

— Honestamente, monsieur. — Eleanor tomou as rédeas da conversa. — A única coisa no momento é que estamos ansiosas para iniciar nosso trabalho.

— Eu entendo perfeitamente. Castiel, por favor.

O homem de cabelos pretos se aproximou recolhendo os materiais que as senhoritas carregavam e instruindo-as a segui-lo. Desviaram-se pela lateral da casa, os pés faziam barulho sobre um caminho de cascalhos que levava aos fundos da casa onde um enorme jardim de cravos roxos se revelou diante de seus olhos. No centro do jardim um pergolado madeira escura era organizado com uma mesa de chá sob si e, olhando com mais atenção, era possível perceber que a madeira parecia relativamente nova considerando que estava a maior parte do tempo ao relento.

— O mestre preparou este lugar para as senhoritas, ele diz ser a melhor visão da casa. – O mordomo explicava enquanto ajeitava os materiais das garotas sobre a mesa. — Não hesitem em chamar se precisarem de algo.

Agradeceram mais uma vez, ficando agora as duas sozinhas entre os cravos. Começaram a arrumar suas coisas em silêncio, mais porque a mente de Eleanor estava vagando muito longe dali, os olhos fixos na construção a sua frente enquanto as mãos passavam pelos materiais de forma automática. O interesse da garota não passou despercebido por Violette, que deu um leve sorriso com a visão.

— É tudo o que imaginava?

— Oh, Lettie, é magnífico! Sabia que valeria a pena essa pequena aventura.

— Sim, sim. Mas ainda acho que deverias ser mais cuidadosa com suas mentiras.

— Minha vida é uma mentira, Lettie. Finjo que serei inteiramente satisfeita com meus futuros deveres de mãe e esposa quando me seria de muito mais interesse ir à escola e a universidade assim como meus irmãos.

A conversa não continuou, já haviam tido essa conversa antes. Violette sabia que a amiga já tinha aceitado a ideia de ter sua vida destinada por um casamento, sabia até que ela não era tão avessa à ideia, mas também sabia que no fundo uma parte de Eleanor sempre estaria almejando por mais, mesmo se a própria tentasse ignorar isso.

Olhou de soslaio para a amiga que não se desviava da arquitetura a sua frente, se perguntou que grandes cálculos se passavam pela mente dela, não pode evitar sorrir com o pensamento. Eleanor às vezes era tão complicada quanto os seus cálculos, e matemática não era a coisa de Violette. Os minutos se passaram e elas caíram em um silêncio confortável, o som do vento e da natureza sendo a única coisa entre elas até Eleanor quebrar o silêncio.

— Vens em minha defesa enquanto tento me aproximar da casa?

A resposta veio em forma de soluço, quase como um engasgo enquanto os olhos cinza encontravam os castanhos em uma expressão de incredulidade.

— Elly?! O que estás a tentar fazer?

— Meus desenhos serão muito mais precisos se eu puder ter as medidas reais ao invés de meras suposições, mas para isso necessito me aproximar da casa.

— Não achas que está abusando de sua sorte?

— Serão só alguns minutos, prometo.

Antes que a discussão pudesse continuar o som de passos sobre o cascalho foi ouvido. Um olhar de conhecimento cruzou as feições das duas e ambas se levantaram as pressas e trocaram de lugar. Haviam acabado de se ajustar em seus novos lugares quando a figura de Mr. Ainswhort surgiu, estava mais simples, apenas uma camisa branca e calças pretas. Eleanor não pode evitar recebê-lo com um sorriso.

— Perdão atrapalha-las, senhoritas. Mas quando mais novo eu também me aventurei pelo mundo da arte e ver as senhoritas me inspira novamente.

— Não se preocupe, monsieur. Somos as únicas a invadir seu espaço, por favor, junte-se a nós.

— Adoraria, mas preciso voltar as minhas pesquisas em breve. Apenas gostaria de ver como as senhoritas estavam indo.

Ele deu a volta pelo pergolado ficando por trás das garotas de modo que pudesse ver os seus trabalhos. Parou primeiro em Violette que agora rabiscava o caderno de Eleanor, mesmo não sabendo nada sobre os números a garota ainda conseguia acompanhar o rascunho da casa feito pela amiga para que fosse o mínimo convincente.

— Ms. Delvis, és adepta dos números?

O..Oui, monsieur. Penso que eles são... fascinantes.

A garota gaguejou a primeira resposta que provavelmente já ouvirá da boca da amiga. A voz ficando cada vez mais aguda ao fim da frase e já era possível ver o rubor subindo até suas orelhas. Pobre Violette, as mentiras podiam não ser o seu forte, mas a timidez era muito real, o bastante para justificar qualquer hesitação. Talvez tenha sido por isso que Mr. Ainswhort apenas sorriu e não forçou mais respostas da garota, indo agora em direção à Eleanor.

Sentiu a presença de Mr. Ainswhort atrás de si observando-a enquanto trabalhava. Mesmo que suas pinturas não chegassem aos pés das de Violette, Eleanor ainda tinha conhecimento o bastante para fingir estar pintando a obra de sua vida, mesmo que esse fingimento significasse ficar adicionando e mesclando tinta na mesma árvore pelos próximos quinze minutos.

— E a senhorita, sente-se inspirada?

Inspirada? Sim. Para pintar? Não. Queria poder rodear a casa inteira, absorver cada detalhe seu, a altura das janelas, as circunferências das pilastras, a distribuição dos quartos. Claro que se seu objetivo fosse apenas pintar a forma da casa não poderia pedir permissão para tamanha invasão, mas talvez conseguisse ganhar seu caminho para uma simples bisbilhotada.

— Absolutamente, monsieur. Mas estou preocupada de não conseguir representar toda a essência da casa.

— E por que a senhorita diz isso?

— Uma casa não é apenas uma construção, ela é só se torna uma casa quando as pessoas passam a morar lá.

— Minha casa não tem muito o que mostrar, mas a senhorita gostaria de ver o interior?

Touché.

— Seria de grande ajuda, mas não quero forçar a minha presença.

— De modo nenhum, por favor, me acompanhe. Ms. Delvis juntar-se-á a nós?

A tímida garota apenas balançou a cabeça em negação enquanto lançava um olhar quase desesperado à amiga como se dissesse “o que pensas que estás a fazer?” essa por sua vez só devolveu o olhar de modo a dizer “confia em mim”.

— Sem problemas, devolver-lhe-ei sua amiga em um instante.

Eleanor tomou o braço que lhe foi oferecido e se deixou ser guiada para o interior da mansão. Ainda assim não pode se conter de olhar para trás uma última vez apenas para receber um olhar nervoso da amiga. Como sempre abriu um dos seus sorrisos inocentes e moveu os lábios silenciosamente formando a frase “Vai ficar tudo bem”, Violette apenas balançou a cabeça dando voz ao seu descontentamento, mas não insistiu, apenas observou as duas figuras desaparecerem pela frente da mansão.

Mr. Ainswhort falava sério quando disse que a casa não tinha muito que mostrar. Não dispunha de decorações luxuosas, sendo simples em sua totalidade com apenas o necessário para se viver. A primeira sala vista ao entrarem era algo como uma enorme sala de estar, apenas sofás e poltronas dispostas diante da lareira. De um lado havia a enorme escada para o andar de cima – o qual era possível ver algumas portas – e do outro um corredor não muito comprido se seguia. Sobre a lareira havia a enorme pintura solitária de uma fazenda.

— Esse é um dos seus trabalhos?

— Sim, uma dos poucos que sobraram.

— O que aconteceu com os demais?

Sentiu o homem ficar tenso ao seu lado. Primeiro pensou que ela havia cruzado uma linha e o irritado, mas quando buscou sua expressão era totalmente o contrário do que esperava. Os olhos estavam fixos na pintura, a respiração pesada e a pele assumindo um tom mais pálido.

Monsieur?

O olhar voltou-se para ela, conseguia ver as pupilas dilatadas e uma expressão de completo terror em seu rosto. Pensou em dizer alguma coisa, mas antes que decidisse pelo que Mr. Ainswhort fechou os olhos e balançou a cabeça, respirando fundo e voltando a sua compostura de sempre.

— Vamos começar com o andar de baixo.

Eleanor foi quase arrastada pelo homem, aquela era a dica para que ela não perguntasse mais, e ela não o fez, deixando Mr. Ainswhort a conduzir pelos corredores da casa. Ainda assim, não pode evitar olhar para trás e ver o quadro mais uma vez. Quando o fez viu o mordomo cobrindo o quadro com um tecido pesado. Desviou o olhar, se concentrando no caminho à sua frente.

Os demais quartos não fugiam do estilo do restante da casa. Todos com o mínimo de mobília necessária, às vezes sendo quase possível ouvir os seus próprios passos enquanto caminhavam. Cozinha, banheiros, sala de jantar, quarto principal, uma biblioteca, diversos quartos que aparentemente nunca sequer foram utilizados, era assim que se resumia a mansão Ainswhort. Claro que Eleanor não estava realmente interessada na decoração, para ela quanto menos mobília melhor, menos interferência em seus cálculos, principalmente considerando que ela estava contando tudo de uma vez só. Provavelmente teria que trabalhar apenas com a estimativa do que se lembrava, mas já era melhor do que nada.

Ainda assim, teve um pequeno detalhe da decoração que ela não pode deixar de reparar. Quadros. Não existia tantos quanto ela imaginava, mas bem, toda a decoração da casa não era o imaginado de uma mansão, mas não era esse o problema. Dos já poucos que existiam, alguns ainda eram cobertos por tecidos grossos, e em algumas paredes ela reparou manchas que indicavam que, em algum momento, um quadro ou algo semelhante esteve ali. Aquilo ficou remoendo na cabeça da jovem, principalmente depois da cena com Mr. Ainswhort e do mordomo cobrindo o quadro no salão principal. Mas claro, ela não se atreveria a perguntar.

— Bem, o único quarto restante é este. — Eles pararam em frente a uma grande porta robusta de madeira. — Infelizmente não vou poder apresenta-lo a senhorita. É o meu laboratório e eu prefiro que as demais pessoas não perambulem por ele.

— Eu entendo perfeitamente, monsieur. Não há com o que se preocupar, o que me mostrou já é mais do que o suficiente.

— A senhorita conseguiu todos os cálculos de que precisa?

Eleanor congelou no lugar com a pergunta. Havia deixado escapar em algum momento suas verdadeiras intenções? Ou ela e Violette não haviam sido realmente discretas em sua troca? Ou talvez ele só estivesse se referindo a outro tipo de cálculo e a culpa a estava fazendo pensar de mais. Esperava que fosse a última opção.

— Perdão?

— Um artista reconhece o outro, mademoseille. E embora conheças a arte não tem aquela paixão no olhar quando a pratica. Ms. Delvis por outro lado. — A pequena mão delicada foi envolvida pela mão maior fazendo a garota engolir em seco e em um golpe final os lábios do homem lhe tocaram as costas da mão, enviando-lhe um arrepio por toda a espinha. — Além do mais, vosmecê tem as pontas dos dedos manchadas de preto.

A garota apenas puxou a mão do gesto, não tendo coragem o bastante para encarar Mr. Ainswhort. Todo o seu ato foi desfeito em minutos, perceberá desde o começo que o homem a sua frente era muito mais perspicaz do que todos os outros que já havia conhecido, deveria ter imaginado que não chegaria longe. Desmascarada por sua própria ganância.

— Por que a senhorita se esconde?

— Não é adequado de uma mulher dedicar tanto de seu tempo aos números.

— É o que a senhorita pensa?

— É o que a sociedade pensa.

— A sociedade pensa que sou um homem louco. A senhorita concorda?

Eleanor pensou cuidadosamente nas próximas palavras, não podia se arriscar a ofender um amigo próximo do pai. Considerou sua posição, pela proximidade com o pai concluiu que Mr. Ainswhort se encontrava em algum espectro especial, mas ela mesma o via como um homem em suas perfeitas faculdades mentais. Ainda assim o próprio dizia ser denominado de “louco”, talvez por realizar experimentos como o de seu pai? Optou pela opção mais segura.

— Por que acharia? Monsieur não é diferente de meu pai, certo? Eu também já o vi realizar experimentos que os demais achariam loucura.

— É assim que me vês, mademoseille? Apenas um cientista?

— Estou equivocada?

Ele não respondeu a principio, os olhos apenas observaram Eleanor com aquela intensidade que sempre a fazia tremer.

— Gostaria de me ver pelos seus olhos, mademoseille.

Não sabia o que dizer. O modo como ele a olhava parecia sempre tirar as palavras de sua boca, era como se ele pudesse lê-la por inteiro, encontrando cada pequeno pedaço que nem ela mesma sabia que estava ali. Sentia-se exposta, e não sabia se isso a fascinava ou intimidava. Mordiscou o lábio mais uma vez, buscando mudar de assunto.

— O senhor vai contar ao meu pai?

— A filha caçula dos Pinel finge ser uma artista quando na verdade é uma grande matemática? Impossível, delírios de uma mente louca. Tal senhorita é a mais sublime das criaturas. — Ele abriu mais um sorriso — Seu segredo está seguro comigo.

Foi uma frase simples, mas que ainda fez todo o interior de Eleanor se aquecer. No peito o coração batia veloz de forma que ela precisou levar uma das mãos até lá, como se garantindo que o coração não saltasse para fora. Forçou as palavras para fora da boca, ainda que não confiasse o bastante no cérebro para formar frases dignas naquele momento.

— Eu... Não deveria deixar Violette sozinha por muito mais tempo.

— Claro, não vou mais tomar o tempo da senhorita. E, por favor, diga a Ms. Delvis que estou ansioso pelo resultado da pintura.

Eleanor assentiu sem conseguir olhar o homem diretamente nos olhos. Mais uma vez estava sendo protegida de seus próprios crimes, mas ser Mr. Ainswhort quem a protegia dessa vez fazia-a sentir a vergonha de uma vida inteira. Perguntou-se se o ocorrido havia mudado a visão dele sobre ela, poderia quase dizer que teve atitudes dignas de uma garotinha, mas ela já era uma mulher e queria ser vista como tal. Prometeu-se ali que iria parar de causar problemas aos outros... ou ao menos iria diminuir... um pouco.

Caminhou de volta pelos cascalhos vendo a amiga ainda com seu caderno de cálculos em mãos, talvez houvesse acabado de trocar de lugar por ouvir o som dos cascalhos pisados. E agora, olhando a paisagem como um todo, achou graça de como a amiga se misturava bem aos cravos do jardim, belos e discretos, roxo combinava bem com ela, lhe diria isso mais tarde.

— Está tudo bem, Lettie, não necessitas mais de fingir. Fui descoberta.

— Como exatamente?

— Mr. Ainswhort é um cavalheiro admirável. Viu através de todas as minhas mentiras, sabe que não pinto, e sabe que dedico meu tempo aos números.

As feições da amiga caíram. Mesmo não concordando com os métodos de Eleanor ainda sabia como isso era importante para ela. Deixou o carvão de lado, embalando a mão da amiga em consolo.

— Oh, Elly, eu sinto muito.

— Não, não sinta. — Os dedos finos resgataram o pedaço de carvão de sobre a mesa. — Eu disse antes, Mr. Ainswhort é um cavalheiro admirável, e está ansioso para ver o resultado de seu trabalho.

— Que queres dizer?

— Não exatamente o convenci, mas Mr. Ainswhort decidiu por manter o meu segredo. Nosso plano segue intacto. — Riu ao receber mais um olhar incrédulo da amiga.

— És impossível!

— Não, apenas um pouco imprudente.

Elas trocaram um sorriso cúmplice antes de voltarem cada uma para seu trabalho original e as conversas banais. Eleanor sentiu uma sensação de calor agradável que lhe envolvia o peito, e mesmo que não soubesse ao certo o que era, sabia especificamente que nada tinha a ver com o clima.

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Livre agora da responsabilidade de precisar fingir que era uma artista talentosa Eleanor não mais se acanhava em desfilar ao redor da casa para reunir o máximo de informação possível. Era isso que vinha fazendo nas ultimas reuniões na mansão Ainswhort e era isso que se encontrava fazendo agora. Escolhia uma das paredes da casa, calculava toda a sua extensão e voltava para Violette contando-lhe todo o seu fascínio e registrando suas descobertas, depois ela voltava à parede escolhida, calculava o espaçamento das janelas e repetia todo o processo.

Foi entre uma dessas idas e vindas que sua atenção foi desviada pelo som de vozes vindas de uma das janelas abertas. Aproximou-se para descobrir que o espaço era algo parecido a uma sala de estudos e a única pessoa presente era Mr. Ainswhort, ele parecia um pouco aturdido, olhando por diversos lugares da sala enquanto conversava consigo mesmo.

Monsieur, algum problema? — O homem se sobressaltou por um momento derrubando a alguns livros próximos o que fez Eleanor mordiscar os lábios para suprimir um sorriso. — Minhas desculpas, não queria assustar-lhe.

— Não se preocupe com isso, mademoseille. Eu, de todas as pessoas, já deveria estar acostumado a vozes vindas do além.

Eleanor não entendeu muito bem o que o homem queria dizer com tal afirmação, mas de novo, ela sabia melhor do que perguntar. Observou pacientemente enquanto o homem recolhia os livros caídos e se aproximava dela pelo outro lado da janela.

— E a senhorita? Estás bem?

Oui. Estava recolhendo as medidas dos arredores da casa e vi o senhor um tanto transtornado. Necessitas de ajuda?

— Nada que precises se preocupar, apenas não encontro algumas das minhas anotações. — Olhos inquietos varreram a sala mais uma vez. — Normalmente não presto muita atenção a isso desde que elas sempre encontram para mim, mas elas vêm se tornando mais confusas nos últimos dias.

— Elas? Suas criadas?

— Algo como isso. — Ele estendeu a mão, ajeitando uma mecha de cabelo escuro que se soltará do penteado da garota. Um gesto simples de cuidado, mas o bastante para Eleanor sentir que seu coração explodiria. — A mansão está sendo de proveito para a senhorita?

— Absolutamente! É simplesmente magnífica, sinto que meus cálculos estão ficando cada vez mais precisos.

— Alegra-me ouvir isso.

Novamente ocorreu um daqueles raros momentos em que seus olhos se encontravam. Mesmos sendo curtos Eleanor sempre fazia questão de aproveitar o maximo possível, se perdendo por entre as orbes coloridas antes que ele desviasse o olhar novamente para diversas direções. Eleanor se perguntava se era algum tipo de mania, ou se ele realmente via alguma coisa.

— Desculpe, o que disse?

— Não tenho certeza se eu disse alguma coisa, monsieur.

— Não, não é isso. — Ele balançou a cabeça, como quem tenta colocar os pensamentos no lugar. — Com sua licença, mademoseille, mas acho que tenho uma nova dica de onde minhas anotações podem estar.

— Não se impeça por mim, monsieur. Também irei retornar as minhas atividades.

Eles se despediram com um último sorriso, mas Eleanor só conseguiu se mover depois que viu a última menção do homem desaparecer por trás da porta. Com a visão dos olhos bicolores ainda na mente ela começou a caminhar de volta para Violette, talvez até um pouco mais saltitante do que antes. No meio do caminho perceberá que não lembrava mais de seus números, precisou voltar para contar de novo.

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Os dias seguiam passando e a mansão Ainswhort já era quase como uma segunda casa, Eleanor se sentia nas nuvens e Violette, embora mais tímida e reservada, também se demonstrava à vontade com a situação. Mas a realidade é que os sonhos não duram para sempre, mesmo que você se perca entre a fantasia e a realidade cedo ou tarde é necessário acordar, e o momento de Eleanor estava chegando.

— Elly? — As duas garotas voltavam de mais uma visita, o balançar da carruagem dava um ar de tranquilidade para a viagem. Violette detestava ter de ser ela quem iria destruir aquilo. — Estou quase terminando a pintura.

— Isso é maravilhoso, Lettie. Estou certa que Mr. Ainswhort ficará deslumbrado.

— Vosmecê não entendeu onde quero chegar.

O tom de voz da amiga se tornou muito mais sério do que o habitual, o que fez Eleanor desviar o olhar da janela e se atentar mais a conversa.

— O que queres dizer?

— Quando acabar o quadro não mais poderei te acompanhar até a casa de Mr. Ainswhort. Meu pai já está incomodado de eu ir tantas vezes à casa de um cavalheiro que ele desconhece. Só fui permitida até agora porque vosmecê está comigo e porque apresento o desenvolvimento do quadro frequentemente.

Eleanor sentiu o seu mundo desabar. Precisava admitir que já estava sendo demasiada sortuda com toda aquela situação, era um milagre o pai de Violette ter permitido que isso durasse por tanto tempo – havia se tornado deveras protetor depois da viuvez – mas o seu pai não mais a permitiria ir à mansão Ainswhort se Violette não a acompanhasse. Desde o começo sabia que suas visitas tinham data de validade, mas já havia se habituado às paredes brancas e os cravos roxos, não estava pronta para deixar isso para trás, não estava pronta para deixar Mr. Ainswhort para trás. Talvez nunca estivesse.

— Não podes fingir que não terminou o quadro?

Ela tentou sugerir, mas logo mudou de ideia quando viu a amiga se mover desconfortavelmente em seu acento.

— Não acho que consigo, Elly. Não lido tão bem com isso quanto tu.

— Sim, eu sei. Perdão, Lettie, não vou pedir para vosmecê fazer tamanho esforço por mim. — Ela sorriu, pegando as mãos da amiga. — Está tudo bem, eu sempre soube que iria durar pouco. Tu já fizeste mais do que o necessário.

— Talvez se vosmecê falar com seu pai novamente. — Ela apertou as mãos da amiga de volta. — Sabe, não sou cega, Elly. Sei que Mr. Ainswhort é importante para ti, vi como olhas para ele.

Eleanor puxou as mãos do alcance da amiga tão depressa que era quase como se essas queimassem. Mas para o deleite de Violette eram suas maças do rosto que queimavam em um leve tom rubro.

— N..Não sei do que falas. — Violette deu uma risadinha.

— E se desejas minha opinião, acho Mr. Ainswhort um cavalheiro admirável.

Enfiou o rosto entre as mãos sentindo as bochechas queimarem. Violette sempre foi muito observadora e, embora sempre se sentisse mais leve quando estava ao redor de Mr. Ainswhort, mas ter a amiga apontando esse fato tornava tudo mais real. O estômago se retorceu com o pensamento, mas não de uma forma ruim.

Mas de toda a conversa com a amiga um pensamento em específico não lhe saia da mente. Eleanor sabia que Violette não era boa em mentiras, não se atreveria a pedir que a amiga se colocasse em maiores problemas. Mas, e se não precisasse? Violette não precisaria mentir, apenas omitir, Eleanor ficaria com as mentiras, já estava acostumada a elas.

Voltaria à mansão Ainswhort, mesmo sozinha.

Conforme a carruagem balançava pela estrada a mente de Eleanor formulava o seu novo plano.


Notas Finais


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