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História Démence Précoce - Capítulo 2


Escrita por: PettyYumeChan

Capítulo 2 - A triste história de um cientista louco Pt. 2


Os dias seguiram passando, mesmo que Eleanor desejasse que eles parassem. Violette havia concluído sua parte do acordo, mas Eleanor já vinha montando o seu plano há muito tempo.  Dias antes pediu permissão a Mr. Ainswhort para que pudesse medir os quartos por dentro, o que ele aceitou sem problemas, contanto que não entrasse em seu laboratório. Quanto a Viollete, pediu que não comentasse com Mr. Ainswhort sobre a conclusão da pintura, mais uma vez recebeu um leve sermão sobre como sua imprudência ainda a colocaria em grandes problemas, mas no fim a amiga sempre a cobria em suas confusões.

Em casa continuou a agir como se nada tivesse mudado, então os pais não questionaram quando Violette não chegou para o chá enquanto Eleanor esperava a carruagem. A carruagem chegou mais uma vez para buscá-las, mas dessa vez Eleanor embarcaria sozinha. Não podia negar que a dúvida se instalou em sua mente durante o percurso. O que Mr. Ainswhort pensaria dela? Reprendê-la-ia? Mandá-la-ia de volta para casa? Pela primeira vez começava a realmente ponderar sobre o peso de suas escolhas, todavia não teve tempo de realmente chegar a uma resposta. Os pensamentos correram em círculos e antes que percebesse já estava diante da mansão Ainswhort. Não havia como voltar agora.

Recebeu a ajuda do cocheiro para desembarcar sem realmente prestar muita atenção. Seus olhos não desgrudavam da construção a sua frente que agora parecia maior, mais imponente. Respirou fundo, alcançou a pesada aldrava e bateu à porta. O mordomo a recebeu, convidando-a a entrar. O chá já estava servido sobre a mesa de centro, agora permitida de visitar o interior da casa o mordomo apenas se pôs a seus serviços e deixou-lhe a vontade.

Em princípio ela não soube muito bem o que fazer. Sentou-se no sofá absorvendo os seus arredores, a sala ainda permanecia a mesma. Os sofás de veludo azul escuro, as paredes em tom de creme, o piso de madeira escura. Notou uma única diferença sobre a lareira da sala, o quadro já não estava mais lá. Desviou o olhar para o andar de cima, conseguia ver a porta robusta de madeira completamente fechada. Mr. Ainswhort estava ali? Provavelmente. O que estava fazendo? O que estava pensando?

 Sempre tão boa em mentiras, Eleanor começou a mentir para si mesma, mas no fundo sabia que a casa já não era mais o seu principal interesse. Repreendeu-se mentalmente antes que seus pensamentos fossem longe demais, estava ali para um propósito e um apenas. Respirou fundo dando leves tapinhas nas bochechas para recuperar o foco, recolheu seus materiais e se concentrou em seu trabalho, ou ao menos tentou.

 Os cálculos não estavam tendo muito avanço, nada realmente estava, sua mente completamente fora da realidade. Só percebeu que Mr. Ainswhort havia saído de seu laboratório quando esse já estava falando com ela.

— Perdão não ter lhe cumprimentado antes, senhorita. Perdi-me em minhas pesquisas e esqueci de que dia era hoje. — Ele falava veloz, vestindo a casaca enquanto caminhava e os olhos varriam por toda a sala. — Ms. Delvis não se juntará a nós hoje?

— Não, ela teve alguns... Imprevistos.

— Claro, entendo. — Ele a lançou um olhar conhecedor. Mr. Ainswhort como sempre era deverás perspicaz, mas enquanto as palavras não saíssem da boca dele, Eleanor não se responsabilizaria de nada. — Sabes que é sempre bem vinda em minha casa.

— E sou absolutamente grata por isso.

Exibiu o mais inocente dos sorrisos, à medida que Mr. Ainswhort apenas balançou a cabeça. Provavelmente ele já havia lido toda a sua mentira, ou ao menos desconfiava, mas manter um ar de ingenuidade era o jogo dela.

—Bem, uma pena que Ms. Delvis não esteja para lhe fazer companhia, mas hoje necessito ir à cidade por alguns suprimentos de pesquisa. Não hei de demorar, mas caso necessites de algo Castiel pode lhe ajudar.

— Incomodá-lo-ia se eu o acompanhasse? — Ele parou por um momento, os olhos curiosos a observando.

— Não costumo usar a carruagem, e teremos uma pequena caminhada daqui até a cidade.

— Bem, eu estou acostumada a caminhadas. — Ela disse animada, de certa forma era como se estivesse se convidando, mas se sentia livre para fazer isso na presença de Mr. Ainswhort.

— Não me incomodaria uma companhia real. — Ele lhe ofereceu o braço. — Vamos?

Ela tomou o braço alegremente pondo-se a caminhar lado a lado do cavalheiro enquanto desciam a estrada da colina onde a mansão Ainswhort se escondia. O caminho era tranquilo. As árvores na beira da estrada refrescavam o clima e os galhos faziam com que a luz do sol chegasse a eles como pequenos raios, dando uma atmosfera quase mágica. A mansão era definitivamente afastada da cidade, Eleanor já havia percebido isso pelo tempo que levava na carruagem, a caminhada duraria por algum tempo então a garota começou a procurar formas de iniciar uma conversa.

— É sempre o senhor quem vai a suas compras?

— Sim, senhorita.

— E seus criados?

— A senhorita é inteligente, já deve ter percebido que não existe mais ninguém naquela casa além de Castiel e eu.

— Considerei tal hipótese, mas ainda precisava confirmar. — Ela deu uma leve risada. — Por que apenas Mr. Leunam?

— Nos conhecemos desde a infância. Cavalgava por um dos cantos mais afastados da fazenda de meus pais quanto vi aquele garotinho maltrapilho sob uma das árvores, seus pais nunca estavam em casa então ele costumava vagar pela região, somos amigos desde então. Quando eu disse que estava partindo ele insistiu para vir comigo, nem que fosse para trabalhar. Eu nunca exigi nenhum de seus serviços, mas Castiel é muito teimoso, com o tempo aprendi que o melhor é deixá-lo fazer o que bem entender.

— E sua família?

— Meus pais morreram quando eu tinha 20 anos e então ficamos apenas eu e meu irmão. Ele já tinha suas próprias preocupações e eu não queria ser mais um fardo sobre seus ombros. Meus demônios são apenas meus para lidar, disse que precisava partir para iniciar minha pesquisa, peguei a minha parte da herança e nunca mais dei notícias, ele também não procurou.

— Deve ser solitário.

— Talvez, mas eu nunca estou verdadeiramente sozinho.

Eleanor não conseguia entender todo o peso que aquelas palavras carregavam, mas pela expressão de Mr. Ainswhort entendia que não era um assunto para ela se intrometer. Mordeu o lábio inferior mantendo todas as suas perguntas para si enquanto seguiam o seu caminho de forma silenciosa.

Quanto mais se misturavam aos transeuntes da cidade mais Eleanor percebia que caminhar com Mr. Ainswhort era uma verdadeira experiência. Às vezes ele parava de súbito, às vezes ele desviava por uma rua sem aviso prévio levando a garota a tropeçar levemente em seu passo enquanto tentava acompanha-lo, às vezes era como se ele estivesse tentando fugir de alguém que o seguia. Ficaram nesse vai e vem por alguns minutos até pararem em uma praça onde o homem observou seus arredores com um olhar confuso.

— Queira me desculpar, mademoseille, mas acho que acabei me desviando de meu caminho. — Ele olhou ao redor mais uma vez. — Mesmo que com muitas voltas elas normalmente costumam me guiar pelo caminho correto. Mas eu devia ter sabido melhor, elas já não são mais as mesmas, estão fora de controle.

Eleanor ainda não entendia muito bem o que Mr. Ainswhort queria dizer quando se referia a “elas", mas dada a situação deduziu que provavelmente poderia oferecer um pouco de ajuda. Aproveitou a distração do homem que murmurava consigo mesmo e puxou o leque da cintura, abanou-se para espantar o calor da caminhada enquanto dava olhadelas furtivas ao acessório.

— Se me permite, monsieur. Creio que chegaremos à rua principal se seguirmos por aqui.

— A senhorita tem um bom conhecimento da cidade?

— Bem, eu e Violette sempre caminhamos pela cidade, mas ainda precisamos ter o cuidado para não cairmos no lugar errado na hora errada, então eu fiz isso.

O enorme leque branco se abriu revelando as diversas linhas pretas em si, em um olhar rápido seria impossível dizer que se tratava de algo mais do que uma estampa corriqueira, mas ao se atentar melhor era possível perceber o que na verdade era um mapa de toda a cidade – ou de boa parte dela – com nomes de ruas e pontos de referência mais destacados, alguns até tinham uma breve descrição nas laterais do acessório.

— A senhorita é incrível. — Mr. Ainswhort dizia com palpável admiração em seus olhos. — Sabes disso?

Moui?! Oh, não não, monsieur, não sou nada mais do que uma mulher comum.

— Comum?! Mademoseille, não vê o que és capaz de fazer?

— O que? Isso? Qualquer um é capaz de tal, não é um grande feito.

— E o que consideras um grande feito?

A garota ponderou por alguns momentos. Existiam muitas coisas que ela considerava grandiosas, mas a maioria estava ligada a números e cálculos que grande parte da população não entenderia, ou apenas não se interessaria tanto quanto ela. Não podia apenas apresentar o seu ponto, precisava prova-lo.

 Foi nesse momento que ouviu o ardina anunciando pela praça as noticias do dia. Sorriu assim que ouviu, era definitivamente algo como aquilo que ela considerava um grande feito, algo que ela sonhava em fazer, mas que nunca poderia. Aproximou-se do jovem garoto com os jornais ouvindo os passos do acompanhante a seguirem logo atrás.

— Algo como isso.

Ela apontou para um dos jornais, a notícia principal anunciava como os irmãos Montgolfier foram bem sucedidos em fazer seu balão de ar quente – batizado de La Gustave — erguer voo com uma tripulação humana.

— Balões?

— Não apenas os balões, monsieur, é todo o processo de criação, pense em todos os cálculos necessários para que tamanha geringonça saísse do chão. — Ela falava com cada vez mais entusiasmo, os olhos brilhando em empolgação. — Pense nos céus coloridos por artefatos voadores... Ah, é um mundo fora da imaginação.

— Meu mundo é sempre fora da imaginação, mademoseille, e eu desejo que vosmecê nunca precise o ver como eu. Ainda assim, adoraria que se visse do jeito que eu a vejo.

Como sempre Eleanor não conseguia entender todo o sentimento por trás das palavras do homem, mas a essa altura isso já estava virando meio que habito. De toda forma ela sabia que não teria todas as respostas, viu como o cavalheiro ofereceu uma moeda ao ardina para em seguida lhe estender o braço que ela de pronto tomou e os dois voltaram a caminhar.

═════⊹⊱❖⊰⊹═════

Eleanor continuou a retornar à mansão Ainswhort.  Sabia que no dia em que contasse ao pai que Violette não mais a acompanhava ele também a proibiria de ir, então apenas decidiu ocultar esse detalhe. Sendo através de uma mentira ou não o resultado era o mesmo, resolveu forçar a sua sorte mais um pouco. Depois de tudo ela já havia conseguido rascunhar praticamente toda a casa, se tivesse um pouco mais de sorte conseguiria finalizar todo o trabalho sem ninguém ficar sabendo de suas mentiras – a não ser Violette – e era por esse motivo que ela se encontrava agora debruçada sobre as suas anotações dando o maximo de si para decifrar a equação à sua frente.

 Mas a verdade é que pela primeira vez em muito tempo ela se encontrava perante um beco sem saída. Já havia contado e recontado as medidas do lado exterior da casa, mas não importava quantas vezes fizesse isso, os números simplesmente não batiam, as medidas interiores tinham um resultado menor que as exteriores, mas não um resultado simplório de margem de erro, era como se um cômodo inteiro desaparecesse.

Não podia negar estar animada com a situação, se sentia desafiada e estava disposta a enfrentar o desafio, mesmo que muitas das vezes ela acabasse frustrada. Mas não desistiria, deu leves tapinhas nas bochechas tentando se acordar e subiu as escadas mais uma vez, faria a contagem de novo e de novo até encontrar o erro na equação. Já estava na metade de sua contagem quando um som de vidro se quebrando dispersou sua atenção, por estar distraída não sabia dizer de onde viera, mas não foi preciso muitos minutos para ela ouvir o som novamente, agora mais alto e claramente vindo do laboratório.

Caminhou em direção ao local, e quanto mais se aproximava mais um barulho estranho se fazia presente, no começo foi difícil decifrar, mas agora mais perto ela quase poderia dizer que eram sons semelhantes aos de uma briga. Encarou a enorme porta de madeira a sua frente, sabia das restrições que havia recebido e Mr. Ainswhort já estava sendo demasiado generoso por permitir que ela perambulasse por sua casa durante tanto tempo, mas não conseguia tirar a preocupação do fundo da mente. Arriscou uma batida na porta, iria apenas se certificar da segurança do anfitrião e ainda cumpriria as regras.

Monsieur, vosmecê está bem?

Mas a resposta não veio, a sala aparentava ter sido tomada por um silêncio sepulcral o que só atiçou a ansiedade no fundo da mente. Considerou suas possibilidades e o mais adequado parecia ser pedir ajuda a Mr. Leunam, pelas poucas conversas que teve com Mr. Ainswhort o mordomo já estava mais do que acostumado com as excentricidades do mestre e era a pessoa mais preparada para lidar com esse tipo de situação.

Já estava se afastando da porta, decidida a buscar o mordomo quando uma nova comoção a fez desistir de seus planos. Um novo grito de fúria e o som de vidros se quebrando, o coração da garota disparou, não teria tempo de buscar ajuda, embora também não soubesse o quão eficiente ela seria com seus 1,65 e pouco mais de 50 quilos, ainda assim parou de hesitar e abriu a porta de uma vez, entrando no recinto.

Não sabia exatamente o que esperava ver, mas dado os barulhos que ouviu definitivamente não era isso. Mr. Ainswhort estava sozinho na sala jogado em uma cadeira com a respiração irregular, os longos cabelos estavam soltos e alguns fios se grudavam ao rosto devido ao suor, os primeiros botões da camisa estavam abertos e era possível ver os vergões vermelhos no pouco de pele que ficará a mostra.

Monsieur...?

Ela perguntou hesitante, sentia que havia transgredido uma barreira que definitivamente não deveria. A sala era mal iluminada, mas ela ainda assim foi capaz de reparar na grande mesa repleta por vidros com líquidos estranhos e ervas desconhecidas, tudo muito parecido com o que ela havia visto uma vez no escritório de seu pai.

Engoliu o nó que se formava na garganta, sabia que Mr. Ainswhort compartilhava dos mesmos interesses que o pai, mas nunca se atentou em saber o porquê, deduziu ser apenas coincidência, pois quanto mais tempo passavam juntos menos diferença ela via entre ele e o restante da sociedade, ou talvez apenas tenha ignorado os fatos, afinal, agora que parava para pensar tudo relacionado à Mr. Ainswhort levava a conclusão de que sua mente era afligida pelo o que o seu pai denominava como demencé.

— A senhorita não deveria estar aqui.

Os olhos bicolores brilharam em meio à penumbra, mas era um brilho diferente, um que fazia um arrepio descer pela espinha de Eleanor. Ela engoliu em seco, enquanto procurava as palavras adequadas.

— Ouvi um barulho. Pensei que o senhor estava em perigo.

Inconscientemente ela recuou alguns passos quando o homem se levantou e começou a caminhar em sua direção. Não parecia um movimento ameaçador, parecia algo mais instável, todos os tipos de emoções passando por seu rosto em uma fração de segundos.

— Eu sei! Eu sei! Estou pensando. — Mais uma vez Eleanor sobressaltou-se com a intensidade das palavras, mas a maior surpresa era o fato das palavras não serem dirigidas a ela, mas sim a um canto vazio mais a sua esquerda. — Se vocês me deixarem pensar por um minuto... — O olhar se desviou para outro canto aleatório. — O que?! Não podemos fazer isso, ela é filha do Dr. Pinel.

Eleanor observou estática como o homem se perdia em um espiral de pensamentos. Seu interior gritava que ela deveria ir buscar ajuda, mas ao mesmo tempo a cena a assustava demais para ela conseguir se mover. Mr. Ainswhort discutia consigo mesmo enquanto se movia inquieto pela sala, a respiração cada vez mais acelerada e as mãos seguravam a cabeça em desespero.

— CALEM A BOCA POR UM SEGUNDO!

Em um ultimo grito ele caiu de joelhos, as mãos ainda apertando a cabeça. Havia acabado? Eleanor não sabia dizer, ela sequer entendia o que havia acabado de presenciar. Recolheu a coragem e se aproximou do homem em claro estado de choque, mas assim que chegou a distancio do alcance teve sua mão agarrada e recebeu um olhar de desespero.

— A senhorita precisa sair daqui. Agora!

Não teve tempo de reagir, sendo puxada para trás pelo o que ela logo reconheceu ser a figura de Mr. Leunam. O corpo do mordomo cobriu todo o seu campo de visão enquanto ela era guiada para fora da sala, mas no fundo ela ainda conseguia ouvir os murmúrios de Mr. Ainswhort e o que parecia ser... Choro?

— Espere-me lá embaixo, senhorita.

Foi a única coisa que o mordomo disse antes da grande porta de madeira se fechar mais uma vez para Eleanor. Ela ficou ali por um momento sem saber como proceder, queria entrar na sala de novo e saber o que estava se passando, queria ajudar, mas também sabia que aquela não era a posição dela, apenas estaria invadindo o espaço pessoal de alguém. Desceu para a sala de forma automática e apenas se sentou no sofá, os olhos se fixaram em qualquer coisa aleatória, mas os pensamentos não paravam em lugar nenhum.  Não sabia quanto tempo havia passado – questões de minutos provavelmente – apenas sabia que foi acordada de seu estupor por Mr. Leunam que lhe oferecia uma xícara de chá.

— Eu vou preparar a carruagem para a senhorita.

Ela apenas assentiu com a cabeça, não confiava em seu cérebro para formar palavras nesse momento. Deixou sua língua ser mergulhada no gosto da camomila, embora não acreditava realmente que só aquela xícara seria o suficiente para acalmar os seus nervos no momento, provavelmente precisaria se banhar no liquido pelos próximos dias até conseguir ver algum resultado. Quando a bebida foi finalizada ela recolheu as suas anotações e acompanhou o mordomo até sua carruagem, nenhuma mais palavra ecoou na mansão Ainswhort por aquele dia.

O caminho de volta para casa se seguiu com um gosto amargo na boca, as variadas construções do lado de fora da janela já nem lhe chamavam tanto a atenção uma vez que os olhos estavam fixos nas mãos cruzadas sobre o colo e os pensamentos continuavam voltando para os acontecimentos do dia. Nunca virá Mr. Ainswhort tão... Transtornado, e a realização de tal a fez perceber que na realidade nunca o conhecerá, haviam passado bons momentos juntos e no fundo ela acreditava que eram verdadeiramente próximos, mas a verdade era que os dois não eram muito mais do que meros conhecidos.

Os olhos se encheram d’água perante a realização.

Mademoseille.

Foi tirada do seu estupor pelo som da voz do cocheiro, não percebeu quando havia chegado, o tempo parecia ter parado de passar. Desceu da carruagem de forma automática, não queria pensar, não queria se explicar, só queria entrar em seu quarto e deixar o dia passar na esperança de que as coisas estariam melhor pela manhã. Todavia, não alcançou nem a metade da escada antes de ter os seus planos frustrados.

— Eleanor.

A voz do pai soou séria da porta do escritório, por um momento a garota só se interrompeu em seu caminhar considerando suas opções. Poderia apenas fingir que não ouviu, correr escada acima e se trancar no quarto pelo resto do dia, mas conhecendo o pai sabia que não seria tão simples. Respirou fundo refazendo os seus passos até o escritório do pai, só queria que tudo acabasse logo.

Enquanto entrava no escritório viu uma mesa menor com alguns frascos sobre si. A quantidade era bem menor comparada com o que viu no laboratório de Mr. Ainswhort, mas ainda foi o bastante para que as memórias lhe atingissem como um raio e as lagrimas lhe picassem os olhos novamente. Tentou ignorar o sentimento e se sentou à mesa do pai, precisava acabar logo com isso ou sentia que iria vomitar.

— Como tem sido os dias na casa de Mr. Ainswhort?

— Maravilhosos. É uma casa muito bonita, um deleite para os olhos.

— Imagino que Ms. Delvis está a apreciar também?

— De certo que sim. Violette está tão inspirada pela casa quanto eu.

— Tanto a ponto de ficar sozinha na casa enquanto vosmecê e Mr. Ainswhort passeavam pela cidade?

Todas as cartas estavam na mesa, e Eleanor só conseguia desdenhar de si mesma por estar surpresa com os resultados. Era óbvio, desde o começo, havia voado alto demais e agora, assim como Ícaro, suas asas estavam se derretendo sob as suas mãos.

— Como soubestes?

— Como médico, o mínimo que tenho de fazer é dar atenção aos meus pacientes, estejam eles em tratamento ou não. — O pai respirou fundo. — Qual não foi a minha surpresa ao ser repreendido por um antigo paciente, pois minha filha caminhava com um “homem socialmente insalubre”.

— Mr. Ainswhort é um cavalheiro perfeitamente respeitável!

Nunca antes sequer cogitará em levantar a voz para o pai, mas o dia já havia sido um tornado de emoções e as dela estavam em ponto de ebulição. Também nunca pensou que esse dia chegaria, mas finalmente havia ficado saturada das pessoas lhe dizerem o que era ou não apropriado para sua vida. Viu como o olhar do pai a fitou em desaprovação, mas não pensou em recuar, não se arrependia.

— O problema não é com quem, Eleanor, são as mentiras!

— E teria me permitido ir se disse a verdade? Afinal de contas ainda seria repreendido por eu caminhar com um homem louco.

— Não coloque palavras em minha boca, mocinha!

Viu a mão do pai se levantar e apenas fechou os olhos esperando seu destino. Sabia que era o que merecia depois de se rebelar de tal maneira contra o pai, esperou o impacto, mas ele nunca veio. Ainda um pouco receosa abriu os olhos vagarosamente, vendo a figura cansada do pai sentada na cadeira do outro lado da mesa, as mãos esfregavam os olhos por detrás dos óculos e os lábios deixaram um suspiro escapar.

— Não é tão simples assim, Eleanor. – As voz agora sai mais baixa, mais grave, mais velha. – Lysandre é um amigo de grande estima, uma das mentes mais brilhantes que já conheci. Mas essa mesma mente também carrega grandes aflições, aflições que a sociedade não sabe ao certo como lidar.

— Mas não é por isso que lutas? Para que essas pessoas sejam vistas como, bem, pessoas?

— Sim, é sim, mas não se constroem pontes queimando elas. As pessoas ainda não estão prontas para ver, forçar isso nelas seria como trair sua confiança, e as pessoas ficam agressivas com o que as traiu. Essa não é uma mudança que se consegue da noite para o dia, um paço de cada vez.

— Ainda não entendo qual o problema de ser vista com Mr. Ainswhort. Estar com ele é a prova de que é tão respeitável quanto qualquer outro cavalheiro.

— Mas o mundo não vê desse jeito, Eleanor. E, embora eu preze por Lysandre, ainda prezo mais pela honra de minha filha, e se para protegê-la tens de parar de vê-lo, assim o fará.

— Trancar-me-á em minha própria casa como forma de proteção? —Ela se levantou de uma vez, o corpo já não mais aguentando a onda de emoções que segurava dentro de si. —Humaniza mais os teus pacientes do que tua própria filha.

— Eleanor!

Mas ela não ouviu. Disparou para fora do escritório rumo escada acima, trancando-se em seu quarto e deixando finalmente o estresse do dia lhe vazar pelos olhos e molhar o rosto. Chorou até que a cabeça doesse e seus pensamentos se esgotassem. Quando finalmente parou sentia a cabeça leve, e finalmente se dispôs a encarar seus problemas de frente com o mínimo de razão que lhe havia sobrado.

Considerou as palavras do pai junto aos acontecimentos do dia. Por mais que ansiasse poder ver Mr. Ainswhort mais vezes sabia agora com toda certeza de que ele não era um cavalheiro comum. Não temia verdadeiramente por sua própria integridade, mas o dia de hoje havia vindo para lhe mostrar o quanto a vida poderia ser um fardo para ele, e se perguntou o quanto ela acrescentava naquele fardo, afinal pela sua reação ele claramente tentava se manter controlado diante dela, mas a que custo?

Chegou a sua decisão. Mr. Ainswhort já havia sido demasiadamente generoso, e era hora dela retribuir essa generosidade. A próxima semana seria a última vez que o visitaria, agradeceria a hospitalidade e diria que já foi capaz de reunir todos os cálculos necessários, agradeceria mais uma vez, por tudo, e então partiria, deixaria o homem ter o seu descanso.

A próxima semana seria a última.

A carruagem não veio buscá-la.

═════⊹⊱❖⊰⊹═════

Eleanor já havia tido todas as dicas de que não deveria mais retornar a mansão Ainswhort. Fossem as proibições do pai, fosse o fato de que a carruagem nunca mais voltou para lhe buscar. Ainda assim um desconforto dentro dela não a permitia aceitar que suas despedidas foram precedidas por um momento de sofrimento da parte de Mr. Ainswhort. Precisava dar um final digno àquilo.

Mandou um novo bilhete a Violette, pedindo que essa a encobrisse, de novo a amiga não questionou, apenas acenou com a cabeça em um voto de confiança. Naquela tarde Eleanor saiu sob o pretexto de se encontrar com Violette, mas a verdade é que tinha um destino bem diferente em mente. Caminhar até a grande casa branca no topo da colina era um tanto solitário sem Mr. Ainswhort ao seu lado, mas não deveria se incomodar de mais, aquela provavelmente seria a primeira e única vez.

Alcançou o topo um tanto ofegante, não sabia se por causa da caminhada ou por conta da tensão que crescia em seu peito. Respirou fundo tentando se acalmar e bateu à porta sendo recebida pelo mordomo.

— Ms. Pinel?

— Boas-Tardes, Mr. Ainswhort se encontra?

A garota percebeu o homem vacilar em sua frente, embora ele ainda tentasse manter a pose profissional. Os olhos cinzentos se cruzaram com os castanhos da garota, um leve lampejo de simpatia lhe cruzando às feições.

— O mestre não quer ser incomodado. — O semblante de Eleanor devia ter denunciado sua decepção, pois o homem vacilou mais uma vez a sua frente, limpando a garganta para se recompor. — Ele expressamente ordenou que deseja ficar sozinho... No seu jardim... Nos fundos da casa.

A frase foi finalizada com uma piscadela singela da parte do mordomo, a qual a garota correspondeu com um sorriso cúmplice. Reajustou a postura e replicou de forma inocente.

— Bem, então devo retornar em momento mais oportuno. — Ela finalizou com uma mesura. — Agradeço a atenção, Mr. Leunam. Au revoir.

Au revoir, mademoseille.

A grande porta de entrada se fechou para Eleanor, mas um novo caminho se abriu. Desviou pela lateral da casa para logo ser recebida pelo balançar dos cravos roxos, sob o pergolado central a figura solitária observava a distância. Ele parecia diferente, cansado, como se o mundo lhe estivesse pesando os ombros, as roupas eram simples e os cabelos prateados agora soltos balançavam com o vento.

Agora diante de tal cena a garota quase congelou sobre seus pés. Talvez ter voltado à mansão no topo da colina houvesse sido realmente um erro, mas ao mesmo tempo já era demasiado tarde para voltar. Deixou os passos a guiarem em direção ao encontro final, o som dos cascalhos pisados anunciando sua chegada.

— Estava a me perguntar quando a senhorita voltaria.

— Estavas a me esperar?

Ela já estava a distancia do olhar, mas os olhos dele não buscaram os dela. Permaneceram fixos no caderno em suas mãos sendo rabiscado incansavelmente pela pena.

— De certa forma. Apenas sabia que a senhorita voltaria cedo ou tarde.

— Nosso último encontro foi um tanto infortuno. Gostaria de finalizar as coisas da maneira correta.

— Lamento que a senhorita tenha me visto em tal estado, elas normalmente não são tão agressivas.

— Elas... São como vozes? — Ele sorriu sem humor.

— A senhorita é deverás perspicaz.

— Apenas... As pessoas relacionadas ao meu pai costumam ter... Aflições. E a maneira como o senhor falava naquele dia... — Um silêncio se instalou entre os dois. — Perdão, não queria parecer indelicada.

— Não há problema, senhorita, desde minha infância foi assim. Meus pais tentaram o melhor, mas os amigos e vizinhos diziam, as pessoas ao redor diziam, elas diziam. Quanto mais o tempo passava mais eu percebia que minha mente seria a minha prisão.

— Mas não precisa ser.

O silêncio voltou mais uma vez. O único som real era a da caneta nos dedos esguios do homem que corria veloz pelo papel. Eleanor observou como o papel rabiscado era dobrado e guardado em um envelope e na sua mente a curiosidade se formava. Sabia que não tinha nenhum direito, mas o homem a sua frente era como um cálculo que ela queria desesperadamente solucionar.

— Sabes senhorita, durante muitos anos dediquei-me as minhas pesquisas na esperança de me libertar de meus grilhões. – Ele quebrou o silêncio, os dedos finos brincando despretensiosamente com o envelope em suas mãos. – Devia ter me dedicado a minha arte.

— Tenho certeza de que ainda podes encontrar a liberdade, monsieur.

— Para um homem como eu, só existe uma forma de liberdade. — Eles se encararam depois do que pareciam séculos, os olhos bicolores exibiam o que Eleanor chamaria de carinho, mas ao mesmo tempo eram nublados por uma melancolia. — Espero que a senhorita realize feitos incríveis.

A garota precisou morder os lábios para que as lágrimas não rolassem. Sairá de casa decidida a ser a última vez, mas o homem a sua frente fazia tudo ter um gosto de despedida muito mais amargo do que o que ela esperava. Observou-o se levantar, parando a sua frente e lhe estendendo o envelope que antes causará grande curiosidade.

— Podes entregar isso ao seu pai por mim?

— De certo que sim. — Ela pegou o envelope hesitante, torcendo para que o tremor de seus dedos não fosse perceptível. — Não hesite em pedir ajuda caso necessites, Mr. Ainswhort. Meu pai adoraria ajudar.

A resposta do homem se resumiu a um sorriso sem humor à medida que alcançava as mãos frias da garota e depositava-lhes um beijo singelo.

— Foi de um enorme prazer conhecer-te, mademoseille. Adieu.

E assim ele partiu, desaparecendo pela porta para o interior da casa. Eleanor permaneceu ali por mais alguns momentos, tentando reunir a força necessária para que suas pernas a carregassem de volta para casa. Passou os dedos pela única palavra escrita no envelope com uma caligrafia elegante. “Dr. Pinel”, precisava admitir que estava curiosa a respeito do conteúdo, mas também sabia que o assunto já não mais lhe cabia. Haviam feito suas despedidas.

Enfiou o envelope na manga do vestido e partiu.

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Foi difícil voltar para casa e fingir que nada havia acontecido, mas sob o pretexto da fadiga da caminhada foi capaz de se esconder no quarto e despejar toda a sua tristeza até a hora do jantar. Não estava com fome, mas não aparecer seria como gritar aos quatro ventos de que algo não estava certo, embora já não soubesse dizer se isso realmente importava a essa altura, ainda assim desceu. Jantou em silêncio, a comida lhe descendo forçada pela garganta, os pais não pareceram se preocupar, Eleanor nunca conversava muito durante as refeições e ambos pareciam muito ocupados em alguma conversa que a garota não deu atenção. Foi apenas ao fim, quando todos haviam finalizado suas refeições, que ela se fez ouvir.

— Meu pai? — A voz quase não lhe saiu pela garganta, ainda assim recebeu a atenção do pai com um sorriso. — Encontrei Mr. Ainswhort em meu caminho com Violette, ele solicitou que eu lhe entregasse isso.

Era uma carta, uma simples carta, mas por algum motivo os olhos castanhos da garota não conseguiam se desviar do envelope. Observou com atenção cada movimento do pai, como o envelope dançava pelos dedos, como a espátula rasgava a parte superior dele, como o conteúdo era habilmente desdobrado. Desviou os olhos do papel para o rosto do pai, desejava ter o poder de enxergar as letras de tinta refletidas nas lentes dos óculos, queria ler o conteúdo através das feições do pai, mas o que leu definitivamente não era boas notícias.

O pai, de feições sempre risonhas e gentis, teve a cor drenada de seu rosto conforme os olhos absorviam as informações contidas na carta, a expressão refletia pavor e o papel se movia veloz sob as mãos trêmulas. A cadeira fez um barulho estridente ao ser arrastada pelo levantar súbito do homem e Eleanor quase podia sentir que o seu coração iria sair do peito.

— Querido, qual o problema? — A mãe perguntou.

O olhar de pânico se desviou entre as duas, a boca se movia em busca de palavras, mas nada saia de lá.

— Eu... Eu... — A respiração estava acelerada. — Me perdoem, queridas, mas eu preciso me retirar.

Foi a única coisa que disse antes de sair as pressas do local. As duas mulheres ainda se levantaram as pressas tentando segui-lo e entender o que estava acontecendo, mas chegaram a tempo apenas de ver o homem recolher seu chapéu e casaco do cabideiro e desaparecer pelas ruas frias.

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Eleanor definitivamente não conseguiria dormir aquela noite. Algumas horas haviam se passado desde que o pai desaparecerá pela escuridão da noite, em um primeiro momento ela e a mãe haviam sentado apreensivas na sala de estar aguardando o seu retorno, mas como se tornou óbvio de que ele não viria tão cedo a mãe apenas ordenou que se preparassem para a cama. Eleanor aceitou sem protestar para evitar maiores conflitos na casa, afinal a tensão no ar era tão sólida que poderia quase ser cortada com uma faca, mas assim que todas as luzes foram apagadas ela pegou seu candeeiro e saiu do quarto.

Encontrava-se agora em sua camisola, sentada à escada da casa com a vela acesa ao seu lado e encarando a porta da frente. Do lado de fora uma forte chuva havia começado, ela podia ouvir o barulho do vento e ver as janelas serem lavadas pela água, mas não era isso que a incomodava. Com a cabeça recostada no corrimão uma das mãos brincava nervosamente com o cabelo agora solto enquanto milhões de possibilidades passavam por sua cabeça. Não sabia exatamente para qual caminho seus pensamentos deviam seguir, mas sabia que nunca havia visto o pai tão transtornado daquele jeito, então só poderia ser algo ruim, muito ruim.

Estava prestes a entrar em mais um espiral de pensamentos quando ouviu a porta da frente se abrir. Um raio na distância iluminou a silhueta do pai por uma fração de segundos, as roupas pingavam da água da chuva e toda a sua linguagem corporal expressavam desânimo. Os ombros caídos e os pés que se arrastavam pelo piso, o chapéu e o casaco foram devolvidos de qualquer jeito e as mãos esfregaram os olhos por baixo dos óculos.

— Meu pai?

A garota levantou de seu lugar, carregando o candeeiro consigo e indo de encontro ao pai. Esse por sua vez se espantou com a aparição repentina da filha, mas colocou um sorriso no rosto assim que ela se aproximou, embora Eleanor conseguisse perceber que era necessário um enorme esforço para mantê-lo.

— Minha querida, deveria estar na cama.

— O senhor preocupou-nos.

O homem sorriu mais uma vez, dessa vez parecendo um pouco mais sincero, e avançou para envolver a filha em um abraço. Foi pega tão de surpresa que quase deixou o candeeiro escapar por entre os dedos finos, nutria um enorme amor pelo pai, mas esse nunca fora de demonstrar carinho físico o que deixou a garota aturdida por um momento. Mas não iria reclamar, aproveitou o momento ainda que breve.

— Minhas desculpas. Mas já está tudo bem agora, não existe nada que vosmecê tenha de se preocupar.

— E Mr. Ainswhort?

— Vai ficar tudo bem, minha querida. — O pai respondeu em uma voz calma, parecida com a que ele usava quando ela era apenas uma garotinha que acordava assustada a noite por conta de pesadelos, e ajeitou uma mecha do cabelo preto por trás da orelha. — Agora vás deitar, tem sido uma noite longa para todos nós.

Eleanor ainda tinha milhões de perguntas presas na ponta da língua, mas ela sabia melhor do que perguntar. Assentiu com a cabeça e se pôs a subir a escada em direção ao quarto, chegou a hesitar no meio do caminho, olhando para trás mais uma vez e vendo a silhueta do pai ainda a observar. Ele acenou com a cabeça, o sorriso sofrido ainda no rosto, ela acenou de volta e voltou a subir esperando que sua mente se acalmasse e a permitisse descansar.

Depois daquela noite Eleanor nunca mais ouvirá falar de Mr. Ainswhort.

═════⊹⊱❖⊰⊹═════

Cinco anos depois

Eleanor nunca pensou que voltaria naquela casa depois de tantos anos.

Não por falta de vontade, seu pai sabia o quanto ela insistiu para voltar àquele lugar ou ter o mínimo de notícias de Mr. Ainswhort. Todos os pedidos lhe foram negados e sempre terminavam com a mesma resposta vaga: Ele está bem, minha querida. Vosmecê não tem com o que se preocupar.

Mas Eleanor nunca se contentará com tão pouco, principalmente quando a melancolia ao redor de seu pai começava a crescer cada vez mais desde o último dia em que ela mesma virá Mr. Ainswhort. Sentia-se frustrada por ser deixada as escuras perante uma situação claramente delicada a respeito de alguém pela qual ela também já nutria um carinho. Quem dera tivesse se dado conta mais cedo que o pai apenas a estava tentando proteger.

Descobriu por acaso quando caminhava com Violette mais uma vez. Passavam em frente à banca de jornal a qual nunca chamará atenção, mas naquele dia, por algum motivo, Eleanor olhou. The Gazette de santé, a revista médica em que seu pai comumente publicava seus artigos, mas não foi isso que chamou a atenção, e sim a enorme manchete dizendo que Philippe Pinel estaria ausente por certo período.

Não pode deixar de estranhar, sabia como o pai amava o trabalho e não pararia de divulga-lo por nada. Pegou o exemplar imediatamente em busca de respostas, embora o coração disparado no peito a alertasse de que, no fundo, ela já sabia a resposta. Encontrou a página com uma curta entrevista com o pai, não foi difícil achar as respostas que lhe interessavam.

O motivo da pausa?

Passaria a se dedicar ao estudo da demencé, trabalhando em um dos sanatórios particulares mais conhecidos de Paris.

O incentivo de tal decisão?

Um amigo havia desenvolvido uma “melancolia nervosa" que se “degenerou em mania” e resultou em suicídio.

Não foi difícil para Eleanor juntar os pontos. Era uma garota inteligente, o pai ficaria orgulhoso se tamanha inteligência não a colocasse frente a frente com aquilo do que ele a queria proteger. Não sabe exatamente do que aconteceu depois, talvez tenha entrado em choque, nem Violette nem ninguém na família tocava no assunto, e ela também parou de perguntar, não porque não queria saber, mas porque não tinha coragem.

Sempre achou que quando a situação pedisse ela enfrentaria qualquer coisa de frente. Nunca esteve tão errada. Foi preciso cinco longos anos e uma revolução para que ela conseguisse reunir a coragem de caminhar pela colina que levava à mansão Ainswhort mais uma vez.

Tirou a chave de dentro da manga do vestido. Descobriu depois de alguns anos que a casa – junto de alguns estudos – ficou para o pai. A principio todo o patrimônio de Mr. Ainswhort havia sido deixado para o mordomo, mas esse procurou os Pinel e disse como não seria capaz de viver na casa onde viu o mestre e amigo se degradar até seus momentos finais. E na visão dele o Dr. Pinel era a segunda pessoa mais próxima de uma família para Mr. Ainswhort. Assim a mansão Ainswhort se tornou a mansão Pinel.

Com exceção do cheiro de ter passado anos sem ventilação, tudo na casa ainda era exatamente do jeito que Eleanor se lembrava. A mobília simples, os espaços na parede onde uma vez quadros estiveram pendurados, e os poucos que restavam ainda estavam cobertos por lençóis. Respirou fundo. Se fechasse os olhos ainda conseguia ouvir sua voz, ainda podia ver os dois ali no meio da sala conversando sobre coisas de que ela já nem se lembrava mais.

As tábuas do piso rangeram sob seus pés e o pó se atiçou em volta da barra do vestido. Abriu a pasta com os antigos desenhos da casa, agora que parava para olhar eles não eram tão bons assim, mas vê-los novamente lhe dava um aperto no coração. Observou os cálculos rabiscados nos cantos da folha, eram bem simples comparados com os que ela sabia fazer agora, mas talvez fosse algo bom, agora ela poderia refazer todos os seus passos por aquela casa.

Enquanto folheava os desenhos se deparou com um em especial, aquele cujo a equação nunca fora resolvida, aquele que lhe tirou a paz por dias, pois não importava quantas vezes contasse a casa continuava parecendo menor por dentro. Considerou que talvez agora, com sua nova experiência ela seria capaz de tirar aquela pedra do caminho de uma vez por todas.

Começou a caminhar pelo corredor fazendo seus cálculos. Depois de tanto tempo se perdendo em números grandes acabou desenvolveu um método de contas em que ela média através do tempo que demorava para caminhar pela extensão de algum lugar, dando um leve soco na parede quando completava um minuto. Estava nesse processo de contagem quando algo chamou sua atenção, a última parede em que bateu emitiu um som diferente do habitual.

Primeiro pensou ter sido sua imaginação, precisou voltar um pouco e bater em um ponto mais afastado para ter certeza. Confirmou sua dúvida, as paredes eram definitivamente diferentes. Às vezes poderia ser apenas uma mudança de material no momento da construção, ou apenas a ação do tempo podia ter modificado aquele ponto em específico. Ainda assim era muito curioso e ela não poderia simplesmente ir embora sem saber o que havia acontecido.

Primeiro começou a tatear, mas não parecia realmente diferente ao toque, e apenas o som não lhe dava dica nenhuma. Forçou levemente com as mãos, mas não parecia diferente, foi apenas quando colocou toda a sua força que ouviu o papel de parede se rasgar e a parede em si cedeu sob o peso do corpo. O coração parou por um momento enquanto sentia o corpo ir ao chão, mas não durou muito tempo uma vez que ela logo conseguiu equilibrar o corpo apenas tropeçando um pouco para frente.

Mas a sensação de queda livre já não era a coisa mais chocante, mas sim descobrir que a parede que derrubara não era uma parede, mas sim uma porta, e agora ela havia descoberto o número que faltava em sua equação. Seus cálculos sempre estiveram certos, a casa realmente parecia menor por dentro, mas isso era porque havia um quarto inteiro nunca revelado ao público, e agora ela o havia encontrado.

Não pode conter a empolgação que lhe crescia no peito. Mr. Ainswhort sempre a impressionava, mesmo quando ele já não estava mais lá. Mesmo o quarto estando escuro ela ainda era capaz de perceber que ele estava repleto de objetos que ela era incapaz de identificar. Foi até a janela do local, buscado retirar as cortinas para que a luz do dia lhe revelasse todos os mistérios daquele lugar, e novamente o que lhe foi revelado foi chocante.

Quadros e mais quadros, jogados por todo o lugar. Alguns estavam interminados, outros eram paisagens, mas com as cores totalmente inaturais, alguns pareciam ter sido iniciados com um objetivo específico, mas em algum momento foram cobertos por linhas e formas sem sentido. Mas entre todos, a grande maioria eram retratos, de pessoas que Eleanor nunca virá na vida, mas provavelmente não as reconheceria mesmo se as tivesse visto. Os olhos eram sempre rabiscados de preto, isso quando os riscos não se espalhavam por todo o rosto e em alguns casos as proporções do corpo nem faziam sentido.

Um sentimento de náusea se apossou do corpo de Eleanor. Lembrava-se de quando Mr. Ainswhort disse já ter se aventurado pela arte, e aparentemente agora havia descoberto como essa aventura havia acabado. Não pode deixar de se sentir melancólica, em todos os quadros era possível ver o desespero de um homem, Eleanor quase podia dizer que ouvia os gritos e choros ecoando por aquelas paredes. Por um momento ela ficou sem reação, apenas absorvendo tudo ao seu redor até que os olhos se prenderam em um ponto específico.

Um cavalete solitário no meio da sala. Estava coberto por um pano branco e apoiado a sua frente havia um pequeno envelope esquecido e amarelado pelo tempo, ela se aproximou curiosa e a única palavra escrita fez com que o coração lhe subisse à garganta. Escrito pela mesma caligrafia elegante de que ela ainda se lembrava, havia um nome, um único nome. “Eleanor

Os dedos tremeram quando ela alcançou o envelope, desesperadamente buscando por seu conteúdo e até rasgando um pouco a borda no processo. Havia uma única folha de papel toda escrita pela mesma caligrafia, não era extensa ou complexa, mas Eleanor sentiu que era tudo de que precisava.

"Cara senhorita Eleanor Pinel.

Se a senhorita encontrou essa carta acredito que foste capaz de desvendar um dos maiores segredos da casa. Sempre acreditei que a senhorita era capaz de feitos incríveis.

Sei que a senhorita sempre se achou completamente comum, mas olhe ao seu redor, no quarto onde está jaz o perfeito reflexo da minha mente conturbada. Nada é comum, tudo parece maior ou distorcido, tudo me parece uma ameaça, tudo está para além da imaginação.

Ainda assim, aos meus olhos a senhorita permaneceu completamente comum, e conseguir tal feito na mente de um homem louco é o mais extraordinário dos feitos.

Então aqui eu dediquei os últimos resquícios da minha mente, para tentar fazer com que a senhorita se visse um pouco como eu a vejo.

Incrível, magnífica e perfeitamente comum."

Leu com dificuldade as últimas linhas por conta das lágrimas que já lhe borravam tanto a visão como a tinta do papel, mas assim que conseguiu ler a última palavra puxou o tecido de cima do cavalete, revelando o enorme quadro.

Era um retrato de si mesma, mas era diferente dos demais retratos da sala. Os traços eram delicados e precisos, as cores luzes e sombras estavam todos em harmonia, os brilhantes olhos castanhos eram perfeitamente visíveis. Comparado aos outros era um quadro comum, perfeitamente comum. Inutilmente tentou secar as lágrimas que lhe corriam pelo rosto, mas as mangas do vestido já se encontravam demasiadamente úmidas. Riu de si mesma, era definitivamente um caso perdido.

Pegou o quadro em seus braços, a barra do vestido varreu os corredores mais uma vez em direção ao salão central, a parede sobre a lareira ainda tinha a marca dos quadros que nunca conseguiram ficar ali por muito tempo antes de causarem angústia a seu proprietário, mas agora não haveria mais esse problema.

Pendurou o seu quadro ali. A moldura com as provas de que Lysandre Ainswhort nada mais era do que um homem solitário, fadado aos grilhões de sua própria mente. Buscou em sua pasta os antigos desenhos da casa, espalhou-os pela mesa central junto com uma nova folha em branco, os dedos brancos se mancharam com o preto do carvão e ali ela iniciou o seu novo projeto.

Mas dessa vez era diferente, não seria só mais uma estrutura rabiscada com cálculos matemáticos ao redor. Precisava ser real, precisava ser oficial, precisava de um título.

Rabiscou no topo da folha.

Clinica mental Ainswhort-Pinel”


Notas Finais


Bem, eu disse que era triste... I'm sorry kk
Mas por hoje é isso, muito obrigada por ler até aqui ♡
E de novo vou deixar o link do grupo aqui, se possível deem uma passadinha lá.
Obrigada pelo seu comentário.
Até de repente !!
Kissus da Yume ♡

Fanfics Amor Doce e Eldarya
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