História Demônio disfarçado - Capítulo 1


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Categorias Amor Doce
Visualizações 88
Palavras 4.443
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 1 - Capítulo Um


Fanfic / Fanfiction Demônio disfarçado - Capítulo 1 - Capítulo Um





 

– É CLARO que você não vai se demitir – disse Castiel Collins, impacientemente, sem ao menos erguer os olhos da ampla mesa de aço e granito que se impunha diante de uma vista gloriosa da cidade de Londres.

Não que ele jamais tivesse sido visto desfrutando dela. O que se dizia era que Castiel Collins, na verdade, amava deter aquilo que os outros cobiçavam.

Camille Bennett sentiu uma enorme satisfação por saber que não faria mais parte de sua lista de propriedades e se obrigou a sorrir para o homem que havia dominado todos os aspectos da sua vida nos últimos cinco anos.

Trabalhara dia e noite como assistente pessoal dele, atravessando diferentes fusos horários em cada cantinho do globo terrestre por onde se estendia o seu vasto império.

E ela o odiava.

Era difícil imaginar, agora que sabia da verdade, como havia podido nutrir sentimentos mais puros por aquele homem por tanto tempo...

Mas não importava, disse ela a si mesma, duramente. Aquilo já era passado. É claro que era.

Cami foi tomada de assalto por uma daquelas ondas de pesar que vinham se abatendo sobre ela naqueles estranhos tempos, desde que seu irmão gêmeo, Dominic, morrera. Havia sido a única a ajudá-lo no tratamento de sua doença, ou melhor, de seus vícios.

Cuidara dele, pagara as contas de seus médicos e tratara de todas as questões relativas à sua cremação. Aquilo, sim, havia sido muito difícil, e ainda estava sendo.

As decisões quanto ao seu emprego eram simples. Ela não ia mais tratar a si mesma como a pessoa que menos importava em sua vida. Estava tentando se convencer de que teria pedido demissão de qualquer maneira, mesmo que não tivesse descoberto o que Castiel fizera.

– Este é o meu pedido de demissão – disse ela, calmamente, naquele tom de voz sereno e profissional que se tornara a sua segunda natureza e que ela havia decidido nunca mais voltar a usar assim que deixasse aquele homem.

Já podia mesmo sentir a concha em que havia se escondido por tanto tempo começar a rachar.

– Imediatamente.

Lenta e incredulamente, Castiel Collins, o renomado e implacável fundador e presidente da Collins Group e sua impressionante rede de hotéis, empresas aéreas, negócios e o que mais lhe interessasse, ergueu a cabeça.

Cami conteve a respiração. Ele havia baixado as sobrancelhas negras sobre o intenso calor dourado de seus olhos. A expressão feroz e inflexível de seu rosto, tornada quase que brutalmente sensual por causa da boca atraente, estava ficando cada vez mais grave. Ela sentiu o efeito de ser o alvo de sua completa atenção, um efeito que nem todos aqueles anos de proximidade haviam conseguido amenizar.

Aquilo era o que ela mais odiava. Sua maldita fraqueza.

O amplo escritório pareceu, subitamente, pequeno e apertado.

– Como?

Ela notou o leve sotaque espanhol por trás das palavras dele, traindo o temperamento volátil que ele costumava manter sob estrito controle e conteve um leve tremor. Não era à toa que era chamado de o Satã Espanhol. Ela gostaria de chamá-lo de algo bem pior.

– Você ouviu muito bem – disse ela, sentindo-se bem melhor com a bravata.

Castiel balançou a cabeça.

– Eu não estou com tempo para isso – disse ele. – Envie-me um e-mail detalhando as suas preocupações e…

– Está sim – interrompeu-a.

Ambos se detiveram, talvez por terem notado que ela nunca havia ousado interrompê-lo antes.

– Eu mesma reservei estes 15 minutos na sua agenda para que pudéssemos tratar desse assunto.

Um momento muito tenso transcorreu lentamente entre eles, em que ele sequer piscou, emanando fogo de seu olhar ardente.

– Por acaso decidiu exigir um aumento ou a obtenção de novos benefícios? – questionou ele, rispidamente.

Cami sentiu algo rachar sob a sua armadura profissional, e como se o tivesse percebido, ele sorriu.

– Eu não estou reivindicando um aumento, nem qualquer outra coisa – disse Cami, muito objetivamente, desejando que depois de todo aquele tempo e do que havia descoberto, ela estivesse imune a ele e àquela selvagem sensação que o sorriso dele sempre lhe provocava. – Não quero nem mesmo uma carta de recomendação. Esta conversa é simplesmente uma cortesia.

– Se está pensando em revelar os meus segredos a qualquer um de meus adversários – o avisou, num tom casual que Cami, no entanto, conhecia excessivamente bem para se deixar enganar –, deveria saber que eu seria capaz de dedicar a minha vida para destruí-la, tanto nos tribunais quanto fora deles.

– Não há nada que me agrade mais que uma boa ameaça – respondeu ela, no mesmo tom, embora duvidasse muito que o estômago dele se contorcesse por isso. – Mas não haverá a menor necessidade disso. Eu não tenho nenhum interesse no mundo corporativo.

A boca dele se curvou em algo excessivamente cínico para ser chamado de mais um sorriso.

– Diga o seu preço, Srta. Bennett – sugeriu-o, com uma voz mais misteriosa, parecendo um encantador de serpentes corporativo.

Ela, porém, não era nenhuma de suas cobras e se recusava a dançar de acordo com a sua música, por mais sedutora que ela fosse. Já vinha fazendo-o há tempo demais, e aquele era o ponto final.

Tinha que ser.

– Eu não tenho preço – disse ela, com toda a sinceridade.

Até ontem, bastaria um sorriso de Castiel para que ela movesse mundos e fundos por ele. Hoje, no entanto, ela só podia se espantar com a sua ingenuidade de outrora.

– Todo mundo tem um preço.

No mundo dele, sim, conforme ela bem sabia.

– Sinto muito, Senhor Collins – disse Cami, dando mesmo de ombros –, mas eu não tenho.

Não mais. Dominic se fora. Ela não era mais o único apoio com que ele contava e as correntes invisíveis de emoção e desejo que a haviam governado por tanto tempo não eram mais capazes de mantê-la por lá. Não depois de ela ter descoberto, acidentalmente, o que Castiel realmente pensava a seu respeito.

Ele correu aqueles seus olhos intensos, por ela, como se a estivesse tocando com as próprias mãos, incendiárias e exigentes. Cami sabia o que ele estava vendo. Havia forjado a sua imagem corporativa de acordo com as suas preferências.

Ela se manteve impávida diante do seu escrutínio, resistindo à vontade de remexer em sua saia justa, ou na blusa de seda que estava usando, nas cores neutras que ele preferia. Sabia que o coque que mantinha o seu cabelo castanho preso no alto da nuca estava impecável. Não usava nenhuma jóia chamativa que ele pudesse classificar como “distração”. Sua maquiagem havia sido cuidadosamente aplicada, como sempre, a fim de manter a aparência sempre fresca e arrumada como se não precisasse fazer uso de cosmético algum. Ela havia se especializado em representar aquele papel, em ser precisamente o que ele queria que ela fosse. Tinha feito aquilo por tanto tempo que era capaz de fazê-lo até mesmo dormindo.

Cami percebeu o exato momento em que Castiel se deu conta de que ela estava falando sério. A impaciência desapareceu de seu olhar astuto e se transformou em algo bem mais calculado, quase taciturno. Ele se recostou em sua cadeira enorme e deliberadamente intimidadora, apoiou o maxilar na mão e a submeteu a toda a intensidade de seu olhar devastador.

Castiel Collins jamais aceitava um não como resposta.

Aquele, na verdade, costumava ser o seu ponto de partida.

E onde ela desembarcava, daquela vez, e para sempre. Cami mal conseguia conter a sua satisfação por saber que ela seria a única coisa que ele não poderia dominar. Não mais. Nunca mais.

– O que houve? – perguntou ele, tranquilamente, tendo, obviamente, concluído que a manipularia melhor se demonstrasse interesse no que ela poderia estar sentindo. – Você está infeliz?

Que pergunta absurda pensou Cami, soltando uma pequena gargalhada. Os olhos dele se estreitaram, parecendo quase brilhar com a intensidade da irritação que normalmente mantinha-se apenas à espreita, em seu olhar, como uma promessa que ninguém desejava que ele cumprisse.

– É claro que estou infeliz – respondeu ela, contendo-se para não revirar os olhos. – Não tenho vida pessoal há cinco anos, porque cuido apenas da sua.

– Pelo que é extraordinariamente bem paga – pontuou ele.

– Sei que não vai acreditar em mim – disse Cami, quase compadecida, o que fez com que os olhos dele se estreitassem ainda mais –, porém há coisas mais importantes na vida que o dinheiro.

Ele voltou a lhe lançar aquele olhar acinzentado sagaz mais uma vez.

– Isso tem a ver com algum homem? – perguntou ele, num tom de voz que ela poderia ter chamado de decepcionado, caso ela pertencesse à outra pessoa.

Ela riu novamente, para não permitir que ele percebesse que havia atingido uma amarga verdade que ela não tinha a menor intenção de reconhecer.

– E quando eu teria tempo de conhecer algum homem? – perguntou ela. – Entre a minha rotina diária e as viagens de negócios? Ocupada, enviando presentes de despedidas a todas as suas ex-amantes?

– Compreendo – disse ele, num tom que fez com que ela se empertigasse de tão condescendente. – Sugiro que tire uma semana de folga, Srta. Bennett. Talvez duas. Procure uma praia e alguns corpos quentes. Beba algo forte e sacie os seus desejos. Tantas vezes quantas forem necessárias. Você não é de nenhuma serventia para mim nesse estado.

– É uma ideia encantadora – reconheceu Cami, por entre lábios pálidos de raiva, sentindo algo sombrio e destrutivo arder dentro dela. – E eu agradeço a oferta, mas não sou o senhor. – Ela deixou que tudo o que sentia por ele… todos aqueles anos de desejo e sacrifício, todas as coisas que havia pensado e pelas quais tinha esperado todos os sonhos tolos que ele não tinha ideia que ela nutria desde a sua infância e até mesmo aquela noite complicada e emotiva em Cádiz, três anos atrás, sobre a qual eles nunca haviam falado, nem falariam, queimassem dentro dela ao olhar para ele. – Eu não “sacio os meus desejos” com o mesmo abandono indiscriminado, deixando um rastro pelo caminho, como um Godzilla super sexualizado. Eu sigo padrões de conduta.

Castiel piscou. Não moveu um músculo sequer, mas ainda assim, Cami achou melhor permanecer onde estava, tamanha era a intensidade da raiva que emanava daqueles olhos claros, injetados nela.

– Está se sentindo mal? – perguntou ele. A tensão em seu maxilar de pedra e a intensificação de seu sotaque eram os únicos indícios de fúria, mas Cami sabia reconhecer os sinais de perigo quando os via. – Ou será que perdeu completamente o bom senso?

– Isso se chama honestidade, Senhor Collins – respondeu, num tom agudo que denunciou o alarme que havia começado a soar dentro dela, insistindo para que saísse correndo, que parasse de provocá-lo! – Compreendo que não esteja familiarizado com isso, especialmente de minha parte, mas é o que acontece quando alguém é descuidadamente dominador como o senhor se orgulha tanto de ser. Está cercado de um séquito que o teme excessivamente a ponto de falar a verdade. Eu mesma venho fingindo ser um deles há anos.

Ele permaneceu aterradoramente imóvel. Seu corpo musculoso parecia vibrar com o esforço que deveria estar fazendo para não explodir. Ele injetou os olhos nela, sombrios, furiosos e infinitamente mais letais do que ela gostaria de admitir.

Ou talvez ela fosse excessivamente susceptível a ele. Ainda. Sempre, sussurrou uma voz dentro dela, renovando o seu desespero.

– Sugiro que você pense muito cuidadosamente antes de dizer qualquer outra coisa – o avisou daquela sua maneira enganosa –, para não se arrepender depois.

Daquela vez, a risada de Cami foi verdadeira, ainda que um pouco nervosa.

– O que você vai fazer? Demitir-me? Colocar-me na lista negra? Negar a mim uma carta de referência?

E então, realizando finalmente o sonho que acalentara desde que aceitara aquele emprego estafante a fim de conseguir pagar as contas de Dominic, uma vez que não conseguia deixar de amar o seu irmão, apesar de tudo, e porque ela era tudo o que ele tinha na vida e aquilo representara algo para ela, mesmo quando desejara que não, Cami deu as costas para Castiel Collins, o grande demônio, e saiu da sua vida para sempre.

Exatamente como havia planejado fazer um dia.

Aquilo merecia ao menos um soar de trombetas e nem um traço sequer daquela espécie de angústia que estava tornando tudo muito mais difícil.

Cami já havia quase chegado à porta externa do escritório, onde ficava a sua mesa, quando ele gritou o nome dela. Fora um comando inflexível para o qual ela havia sido excessivamente bem treinada a não ignorá-lo. Ela se deteve, odiando a si mesma por obedecer a ele. Mas aquela seria a última vez.

Ela olhou para trás e ficou arrepiada ao constatar o quanto ele havia se aproximado sem que o tivesse ouvido. Seu olhar de advertência a atingiu em cheio, fazendo o seu coração bater mais forte e rápido.

– Se não me falha a memória – disse ele, num tom frio, completamente em desacordo com a expressão sombria e selvagem de seu olhar dourado e ardente –, consta em seu contrato que você tem que cumprir duas semanas de aviso prévio.

Aquela foi à vez de Cami piscar nervosamente.

– Você não pode estar falando sério.

– Eu posso ser um Godzilla excessivamente sexuado, Srta. Bennett… – disse ele, pronunciando cada palavra como quem desfere uma bala. – Mas isso não abala a minha habilidade em ler um contrato. Duas semanas, que, se não me engano, incluem o jantar com o investidor, em Milão, que planejamos durante meses.

– Por que você ia querer uma coisa dessas? – Cami percebeu que havia se virado para encará-lo quando não tinha a intenção de se mexer, e cerrou os punhos. – Será que você é tão perverso assim?

– Estou surpreso por ainda não ter descoberto a resposta a essa pergunta junto às minhas ex-amantes, de quem você, aparentemente, é tão próxima – disse Castiel, com ironia.

Ele cruzou os braços, e Cami se flagrou admirando, mais uma vez, a perfeição de sua forma atlética, parte do que o tornava tão mortalmente indomável. Cada centímetro daquele corpo era uma arma finamente moldada que ele não hesitava em usar como melhor lhe conviesse, como agora, intimidando-a com sua altura, a amplitude de seus ombros e a inexorável força e poder de sua masculinidade.

Ela não queria vê-lo como um homem. Não queria se lembrar do calor das mãos dele contra a sua pele, da sua boca tão exigente sobre a dela. Preferia morrer a lhe dar a satisfação de ver que ele a havia abalado.

– Cada um tem o que merece – murmurou ela soando quase blasé até para si mesma.

Castiel não pareceu esboçar reação, mas ela sentiu, mesmo assim, algo quente explodir entre eles, que quase a fez voltar atrás. Contudo, Cami se recusou a se acovardar.

– Tire o restante do dia de folga – sugeriu-o. – Nos veremos amanhã às 6h30, como de hábito, Srta. Bennett.

Ele nunca pararia. Toda a sua vida era uma constante reafirmação da sua incapacidade de aceitar um não como resposta. Castiel jamais havia se confrontado com uma regra que não pudesse quebrar, com um muro que não pudesse saltar uma barreira que não pudesse derrubar, simplesmente porque ela havia ousado se colocar em seu caminho.

Ele tomava o que queria.

Havia feito isso com Cami sem que ela sequer tivesse se dado conta disso até aquele dia. Parte dela ainda desejava nunca ter aberto a gaveta daquele arquivo para jamais ter descoberto o quão facilmente ele descarrilara a sua carreira, três anos atrás, sem que ela fizesse ideia disso.

Se concordasse com a proposta de ainda trabalhar para ele por mais duas semanas, poderia acabar morrendo na praia. Ele reassumiria o controle da vida dela como havia feito nos últimos cinco anos, e aquilo não teria mais fim.

Nunca. Cami sabia perfeitamente que ela fora a melhor assistente pessoal que ele já havia tido. Precisara sê-lo, pois necessitava do dinheiro e da influência do nome dele para internar Dominic nas melhores clínicas de reabilitação para dependentes químicos. Ela ainda acreditava que aquilo tudo havia valido a pena, por mais arrasada que estivesse. Dominic não morrera sozinho, numa esquina solitária, em algum bairro abandonado da cidade, sem poder ser identificado, velado e pranteado.

Aquela era a única coisa que importava.

Dominic, porém, havia sido apenas a sua motivação original.

Seus sentimentos patéticos por Castiel foram a segunda razão, bem mais atraente, por sinal, de ela ter se tornado indispensável para Castiel. Cami passara a se orgulhar de sua capacidade de servi-lo tão bem. Aquilo lhe trazia um sabor amargo à boca, agora, porém era a mais pura verdade. Ela havia sido masoquista a esse ponto e teria que conviver com isso. Se ficasse mais um dia que fosse com ele, veria toda e qualquer chance de ainda resgatar a sua vida e fazer algo por si mesma desaparecer.

Ele seguiria comprando mais e mais coisas e vendendo outras tantas, faria milhões e destruiria vidas por simples capricho, inclusive a dela.

E ela continuaria saltando de um lado para o outro a fim de fazer as suas vontades e abrir caminho para ele, antecipando todas as suas necessidades e se perdendo, pouco a pouco, até não ser mais nada além de uma casca de boa aparência e voz serena. Um robô sob o seu comando. Uma escrava dos sentimentos que ele jamais lhe retribuiria, apesar dos pequenos vislumbres de algo em contrário, em noites complicadas de cidades distantes sobre as quais eles jamais conversavam.

Pior, ela desejaria ser tudo o que pudesse para Castiel, contanto que pudesse ficar perto dele, como fizera desde a noite em que havia visto um lado seu completamente diferente, em Cádiz.

Ela se agarraria a qualquer coisa. Chegaria mesmo a fingir que não sabia que ele havia esmagado os seus sonhos de crescer na vida com um único e brutal e-mail.

Sabia que era patética e estúpida a esse ponto. Já não o havia provado durante todos aqueles últimos três anos?

– Não – disse ela.

Aquela era, evidentemente, uma palavra que ele raramente ouvia.

Ele baixou as sobrancelhas negras e os olhos verdes e duros brilhavam, com uma expressão de divertimento. Aquela boca impossivelmente exuberante, a mesma que fazia com que a sua legião de amantes fantasiasse que poderia haver alguma suavidade nele, apenas para descobrir, tarde demais, que aquilo não passava de uma miragem, achatou-se abominavelmente.

– Como assim, não?

O ritmo espanhol de sua fala fez com que as palavras soassem quase musicais, mas Cami sabia que quanto mais denso estivesse o seu sotaque, maiores seriam os seus problemas e mais próximo aquele temperamento vulcânico estaria da erupção.

Ela deveria ter lhe dado as costas e saído correndo, para a sua própria segurança.

Deveria ter respeitado o nó em seu estômago, o calor que correu pela sua pele e o pânico que a atravessou.

– Compreendo que não esteja muito familiarizado com esta palavra – disse Cami, soando, talvez, mais empoderada e segura do que seria indicado. Ou verdadeiro. – EIa significa divergência, recusa. Ambos os conceitos com os quais você apresenta muita dificuldade. Mas isso, eu folgo em dizer, não é mais problema meu.

– Pois vai se tornar seu problema já, já – disse-lhe ele, num tom que ela nunca havia escutado antes. Castiel estreitou ainda mais os olhos, como se nunca a tivesse realmente visto até aquele momento, e algo no seu olhar fez com que Cami ficasse tonta. – Eu vou…

– Pode me processar – disse ela, interrompendo-o outra vez, com um gesto despreocupado que o enfureceu. – O que acha que vai ganhar com isso?

Pela primeira vez, desde que Cami o havia conhecido, Castiel Collins ficou sem palavras. O silêncio era tenso e de tirar o fôlego, e mesmo assim soava tão alto quanto uma sirene. Ele simplesmente o olhou estupefato, com uma expressão que ela jamais havia visto naquele rosto implacável.

Ótimo.

– Vai me tirar o apartamento? – prosseguiu, encorajada, talvez, pelo seu silêncio sem precedentes e pelo caos em seu interior, pelo qual ele era o único culpado. – Aquilo não passa de uma quitinete alugada. Fique à vontade. Se você quiser, posso fazer um cheque agora mesmo com o valor de tudo o que eu tenho no banco. Vai ser esse o preço? – Ela riu e ouviu o som ricochetear pela parede de vidro, a superfície de sua mesa e até mesmo o chão encerado da parte externa do escritório. – Eu já lhe dediquei cinco anos da minha vida. Não vou lhe dar mais duas semanas. Não vou lhe dar nem mais um segundo. Prefiro a morte.

Castiel FICOU olhando para a sua assistente como se jamais a tivesse visto antes.

Havia algo no seu modo de inclinar o belo e perfeito rosto oval, na maneira como os seus olhos azuis habitualmente calmos cintilavam com a força de sua indignação e naquela sua boca que o impediam de desviar o olhar.

Uma lembrança despontou na mente dele, sem ser convidada. A mão de Cami em seu rosto, seus olhos azuis calorosos e um tanto afeiçoados, seus lábios... Não. Ele havia se esforçado demais para arrancar aquela insanidade de sua consciência. Aquela fora uma única noite repreensível em cinco anos sem maiores incidentes. Por que pensar naquilo, afinal?

– Eu prefiro a morte – repetiu ela, como que achando que ele não a tivesse ouvido da primeira vez.

– Isso pode ser providenciado – disse ele, procurando aquele rosto que ele conhecia tão bem, à procura de algo que tivesse desencadeado tudo aquilo. – Esqueceu que eu sou um homem movido a desafios?

– Se vai me fazer ameaças, Senhor Collins, que sejam ao menos críveis. Você pode ser muitas coisas, mas não é um assassino. Pelo menos não ao pé da letra.

Pela primeira vez, provavelmente desde a sua infância como filho de mãe solteira que toda a cidade sabia que fora parar em um convento, logo após o seu nascimento, para não enfrentar as conseqüências de seu ato, Castiel ficou perdido. Poderia ter achado divertido o fato de ter sido a sua tão glorificada assistente pessoal aquela a deixá-lo em tal situação, quando ninguém mais conseguia desequilibrá-lo.

Tinha certeza de que ainda riria muito daquilo tudo, mas e até lá?

Ele precisava dela, de volta ao lugar ao qual pertencia ao papel que ele queria que Cami representasse, por isso ignorou a voz que lhe sugeriu que não haveria mais volta para aquilo. Que ela nunca mais se faria tão confortavelmente invisível quanto antes, que era tarde demais, que o tempo de que dispusera depois do incidente em Cádiz, três anos atrás, já havia sido um bônus e que aquilo era apenas o efeito retardado de...

– Eu estou indo embora – disse ela, tratando-o como criança pirracenta. – Vai ter que se conformar com isso, e se achar necessário me processar, fique à vontade. Eu fiz uma reserva para Bora Bora, esta manhã.

Finalmente, o cérebro dele recomeçou a funcionar.

Uma coisa era ela se retirar para onde quer que morasse, em Londres, ou até mesmo passar uma semana de folga, em, digamos, Ibiza, como ele mesmo havia sugerido, mas a distante Polinésia Francesa? Aquilo era inaceitável.

Ele não podia permitir que ela fosse embora. Recusava-se a fazê-lo e não queria avaliar os seus motivos para tanto, assim como não quisera fazê-lo da última vez em que descobrira que ela queria deixá-lo.

Não havia visto sentido em ir mais fundo, três anos atrás, apenas uma semana depois daquela noite em Cádiz, e não via sentido naquilo agora.

Cami sabia de coisas demais a seu respeito. Ele não podia imaginar quanto tempo levaria para treinar uma substituta e não tinha a menor intenção de descobri-lo. Faria o necessário para proteger seus bens, como sempre.

– Peço desculpas pelo meu comportamento – disse ele, quase formalmente, enfiando as mãos nos bolsos e se virando de um modo que sabia ser o exato oposto da agressividade. – Você me pegou de surpresa. – Os olhos azuis dela se estreitaram desconfiados, e ele desejou ter dedicado algum tempo a aprender como decifrá-la como sabia que ela era capaz de fazer com ele. Aquilo o deixava em desvantagem, outra sensação que lhe era muito pouco familiar. – É claro que eu não vou processá-la – prosseguiu, forçando-se a manter um tom civilizado. – Eu só estava reagindo como qualquer um faria se estivesse correndo o risco de perder a melhor assistente pessoal que já teve. Talvez a melhor de toda Londres. Tenho certeza de que sabe disso.

– Bem – disse ela, baixando o olhar, o que Castiel achou fascinante, acrescentando algo, numa voz abafada, como não é nada de que se possa orgulhar, não é?

Ele quis prosseguir por aquele viés, mas não o fez. Tinha a intenção de descobrir todos os mistérios ainda restantes relativos àquela mulher, até ter certeza de que ela nunca mais poderia pegá-lo de surpresa. Mas não o faria até que tivesse lidado com a situação do único modo que sabia fazê-lo.

Dominando-a e fazendo com que ela ficasse de novo do seu lado, quaisquer que fossem os meios de que precisasse se valer para tanto.

– Contudo, como deve estar ciente – prosseguiu ele –, você terá que assinar uma grande quantidade de documentos antes de deixar a empresa. Acordos de sigilo, para dizer o mínimo. – Ele checou o seu relógio. – Ainda é cedo. Podemos partir imediatamente.

– Partir? – repetiu ela, franzindo intensamente a testa, fazendo com que ele se desse conta de que jamais a havia visto fazer aquilo antes. Sempre fora muito serena. Somente aquela estranha centelha em seu olhar dava indícios do que lhe passava pela cabeça e ele nunca quisera saber do que se tratava. Por que não conseguia desviar a atenção de sua boca, ou das linhas de expressão que ele nunca havia visto? Aquilo beirava o desconfortável. Era como se ela fosse uma pessoa de verdade, e não apenas o seu bem mais precioso, exibindo traços novinhos em folha. Pior, era como se ela fosse uma mulher.

Mas ele não queria pensar naquilo nem se lembrar da única vez em que a enxergara como algo mais que sua assistente. Não queria aquela mulher na sua cama. É claro que não. Ela era inteligente demais, boa demais no que fazia. Ele a queria a seu dispor e ao seu lado, que era o seu lugar.

– Toda a minha equipe jurídica está em Zurique – lembrou-lhe Castiel, gentilmente. – Você certamente não se esqueceu disto em sua pressa de ir embora.

Ele a viu enrijecer e pensou que ela ia se exasperar diante da ideia de uma rápida viagem à Suíça, mas em vez disso Cami engoliu em seco e ajeitou os ombros, como se uma viagem de menos de duas horas no jatinho dele fosse o preço que ela estava relutantemente disposta a pagar pela sua liberdade.

– Está bem – disse ela, com um suspiro impaciente. – Eu assinarei tudo o que você quiser. Até mesmo em Zurique, se insiste. Quero colocar um ponto final nisso tudo.

Castiel sorriu. Ela havia caído em sua armadilha.


Notas Finais


Esse é mais um daqueles livros que leio e praticamente ninguém que conheço ja ouviu falar. #Adaptação


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