História Demônio disfarçado - Capítulo 2


Escrita por:

Postado
Categorias Amor Doce
Visualizações 69
Palavras 4.082
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 2 - Capítulo dois


Fanfic / Fanfiction Demônio disfarçado - Capítulo 2 - Capítulo dois


 

Capítulo Dois




 

O HELICÓPTERO pousou no heliporto da coberta de proa do luxuoso iate que se deslocava suavemente. Ao notar que o piloto estava desligando os motores e se preparando para permanecer a bordo, Cami concluiu que não tinha alternativa e desembarcou. Já deveria ter imaginado que Castiel faria algo daquele gênero.

Apesar de querer estar à milhas de distância dele, flagrou-se seguindo o seu passo determinado e atlético pelo deque, aborrecida demais para admirar o mar azul que os cercava por todos os lados e o que ela temia que fosse a Croácia, ao longe. A brisa marinha soltou algumas mechas do coque que ela havia prendido meticulosamente para enfrentar a garoa londrina, e Cami, por força do hábito, passou por um momento de pânico, como se ainda estivesse preocupada com a possibilidade de deixar a desejar no que dizia respeito à sua aparência profissional.

– Isto é um rapto! – disse ela, mais uma vez.

Castiel voltou à cabeça lentamente na direção dela e a sua expressão fez com que todo o corpo dela se arrepiasse.

– Do que você está falando? – perguntou ele, maviosamente. Era um tom perigoso, mas ela não podia permitir que ele a intimidasse. – Ninguém a forçou a fazer esta viagem.

– Nós não estamos na Suíça – disse ela, tentando conter o pânico crescente. – A menos que eu esteja muito enganada, isto aqui é Dubrovnik.

Ela reconhecera a cidade de tetos vermelhos incrustada na costa do mar Adriático e não precisava que Castiel lhe confirmasse onde estavam. Sua vontade era lançá-lo naquelas águas e vê-lo ser consumido por elas, mas não ousava tocar em seus músculos lisos e macios.

Ele já devia ter planejado tudo desde o primeiro momento em que mencionara Zurique, antes, ainda, de eles pousarem naquele misterioso campo de pouso em algum ponto distante da Europa e ele apressá-la para dentro do helicóptero.

– Suíça? – perguntou ele, naquela voz enganadoramente suave. – Você deve ter entendido errado.

– Qual é exatamente o seu plano? – exclamou ela, já prestes a explodir. – Por acaso, virei a sua prisioneira?

– Como você é dramática – disse ele, dando-lhe a impressão de estar escolhendo as palavras cuidadosamente. – Como conseguiu esconder isso tão bem, durante tanto tempo?

– Você deve ter me confundido com outra pessoa. Eu não pretendo obedecê-lo cegamente...

– Tem certeza? – Aquele olhar intenso havia escurecido, aquecendo-a estranhamente, mas ela disse a si mesma que aquilo não passava de raiva. – Se não me falha a memória, a obediência é um de seus fortes.

– A obediência era o meu trabalho – disse ela, com resquícios de sua antiga frieza. – Mas eu pedi demissão.

Castiel olhou para ela por um longo e tenso momento.

– Seu pedido de demissão não foi aceito, Srta. Bennett – exclamou ele, feroz e autoritário, como se ela não devesse ousar mencionar aquele assunto outra vez, e lhe deu as costas, dando o assunto por encerrado.

Cami permaneceu onde ele a deixara, sentindo-se um tanto tola e inapropriada em suas roupas de executiva e seus saltos altos. Ela tirou os sapatos, mantendo-os na mão, e inspirou o ar marinho, pressionando os dedos dos pés contra o deque frio, como que buscando alguma sustentação.

Apoiou os cotovelos no convés e admirou a vista, sentindo todo o seu esforço, angústia, sacrifício e frustração se revolverem em seu interior. A terrível verdade é que alguma parte dela desejava nunca ter descoberto nada. Agora que já abrira a porta para tudo o que havia reprimido por tanto tempo, não podia mais voltar atrás.

Não podia voltar no tempo e impedir que seu pai morresse quando ela e Dominic ainda eram crianças. Não podia impedir a sucessão de amantes de sua mãe, cada um mais depravado que o anterior, nem que o doce e sensível Dominic optasse pela alienação, envolvendo-se com drogas cada vez mais pesadas até que não houvesse mais nada a fazer a não ser esperar pelo trágico fim.

Ela respirou profunda e quase dolorosamente.

Estava livre de todas aquelas obrigações agora, mas também irrevogavelmente só.

Cami mal se lembrava do pai, e a mãe não havia reconhecido a sua existência durante anos. Toda a sua vida se preocupara em lidar com a doença de Dominic, e agora que ele falecera não havia mais nada além de… silêncio. Mas ela o preencheria. Iria construir uma vida baseada, finalmente, naquilo que queria e não em uma oposição às escolhas de sua mãe, ou nas necessidades de Dominic.

Uma vida somente sua, como quer que ela fosse.

Tudo o que precisava fazer era escapar das mãos de Castiel Collins.

Uma nova onda de dor se abateu sobre ela, forte demais para que conseguisse afastá-la.

Castiel. Há três anos, ela tivera a impressão de ter enxergado algum lampejo de humanidade nele, uma indicação de que ele era bem mais que aquele homem que fingia ser em público. Havia construído todo um mundo imaginário de possibilidades baseado em uma conversa íntima compartilhada naquela noite e em um único beijo, despropositado e exageradamente apaixonado. Oh, como ela o desejara, como acreditara, enquanto ele, de tão pouco que se importava com ela, havia chegado ao ponto de impedir sua ascensão na Collins Group.

A Srta. Bennett é uma assistente, escrevera ele em um e-mail endereçado ao Departamento de Recursos Humanos, pouco depois da noite em que ela, tão tolamente, acreditara ter mudado tudo entre eles. Candidatara-se à vaga pensando que já estava mais do que na hora de assumir o controle da própria carreira, em vez de meramente apoiar a de Castiel. Ela certamente não é uma vice-presidente. Procurem outra pessoa.

Castiel não havia escondido o que fizera. Por que deveria? As provas estiveram sempre ali no arquivo de Cami, caso ela se desse ao trabalho de olhar. E ela não o havia feito até aquela pequena faxina que promovera no escritório. Tivera certeza de que tudo mudara entre eles depois de Cádiz, ainda que nada tivesse sido explicitado, e não se importara por não ter conseguido aquele emprego. Lutando para conter a raiva e as lágrimas humilhantes, ela jurou a si mesma que nunca mais seria tão tola.

Cami flagrou-se em um dos vários salões do iate, todo em vidro e mármore, junto a uma ostensiva escada em espiral, tão gloriosamente luxuosa quanto todo o restante daquele verdadeiro castelo flutuante que Castiel ganhara de um oligarca russo em um jogo de cartas de fim de noite.

– Estava à mão – dissera ele, dando de ombros quando ela lhe perguntara por que acrescentara mais um iate à sua coleção. – Por isso o peguei.

Castiel estava lá, acompanhado de uma de suas amantes intercambiáveis e anônimas, toda derretida para cima dele, com seios turbinados e cabelo louro.

Ele havia tirado o paletó e estava deliciosamente amarrotado, com a camisa branca aberta na altura do colarinho e a pele morena parecendo brilhar. A moça fez beicinho e resmungou alguma coisa, aparentemente em tcheco, ao ver Cami, como se fosse a sua presença o motivo de Castiel estar com toda a sua atenção voltada para a TV plana e não para os seus dotes.

Seu prazo de validade está expirando, pensou Cami, impiedosamente, mas se conteve. Afinal, ela não estava competindo com aquela mulher.

Passara tempo demais dizendo a si mesma que não se importava que aquele homem que a beijara com tanto ardor e desejo em uma cidade antiga, e que a olhara como se ela fosse à única pessoa do mundo que realmente importasse para ele, se desse ao desfrute com todas aquelas mulheres anônimas. Por que se importaria? Tinha se debatido a respeito milhares de vezes, no meio da noite, sozinha em seu quarto, enquanto ele se esbaldava com a beldade do momento. O que nós compartilhamos é muito mais profundo que sexo…

Quanta desilusão.

Ela segurou um sapato em cada uma das mãos como duas armas em potencial, e se permitiu um momento de sombria diversão ao ver o olhar atento de Castiel se voltar rapidamente na direção dos saltos finos, como se tivesse enxergado a imagem que se formara na cabeça dela de enterrá-los fundo na sua jugular. Logo em seguida, porém, retornou às notícias sobre a bolsa, ignorando a ameaça e a ela também, com a maior facilidade.

Como sempre.

– Já se recuperou do seu pequeno ataque? – perguntou ele.

Cami sentiu o coração acelerar, quase tremendo de raiva, não só dele, mas de si mesma, também.

– Por acaso pretende me manter presa aqui para sempre? Isso não me parece nada prático, já que as embarcações têm que atracar alguma hora e, além disso, eu sei nadar.

– Sugiro que respire fundo, Srta. Bennett – disse ele, sem se dar ao trabalho de olhar para ela. – Está ficando histérica.

Aquilo foi demais, finalmente. Sem pensar duas vezes, ela atirou um sapato na cabeça dele.

O sapato cortou o ar, e ela imaginou o salto que quase parecia brilhar cravado entre aqueles olhos irônicos e impossíveis...

Castiel, porém, estendeu o braço e agarrou, com a mão grande e máscula, a ponta delicada do salto em pleno vôo.

Seus olhos verdes ardiam de raiva e de algo mais ao olhar para ela.

O que seria? A lembrança compartilhada de uma rua antiga e um beijo explosivo? Não, aquilo não passava da sua desesperada fantasia entrando novamente em ação.

Cami arfou levemente, como se fosse ela, e não o sapato, quem estivesse na palma da mão dele, sentindo aquele mesmo calor selvagem, que desejou ser apenas fúria, percorrer todo o seu corpo e então pulsar em seu ventre, como sempre acontecia quando ele estava por perto.

– Da próxima vez – disse ela, por entre dentes, apertando o outro sapato em sua mão –, eu não vou errar o alvo.

ELA O havia surpreendido novamente.

Seus olhos azuis estavam alerta e intensos, e Castiel não gostou nada do que pode ver neles, apesar de não compreender do que se tratava nem querer tentar fazê-lo. Não gostou do leve rubor em seu rosto tampouco de seus pés descalços e o cabelo que pela primeira vez, desde que ele a havia conhecido, não estava em seu estado perfeito. Sexy.

Ele teve que se esforçar para desviar o olhar do de Cami. Quando o fez, flagrou-se olhando para o sapato que ela havia jogado em sua direção. Não quis imaginá-la deslizando aquele sapato altamente feminino pelos seus pés elegantes e delicados, que ele nunca havia notado, nem a respeito do efeito que aqueles saltos tinham sobre os quadris dela ao caminhar...

Desgraçada.

Castiel se levantou lentamente, com os olhos fixos nos dela.

– O que eu vou fazer com você? – perguntou ele, impaciente com a atitude desafiadora e com a dificuldade de resolver aquela situação que já estava fugindo do seu controle.

Aquelas mechas de cabelo escuro e sedoso, porém, roçando os lábios e o queixo dela o impossibilitavam de desviar o olhar.

– Você teve muitas opções ao longo dos últimos anos – pontuou ela, tomada de fúria. – Poderia ter me deixado assumir uma posição diferente na sua empresa, por exemplo, ou ter me deixado partir hoje, mas em vez disso escolheu me raptar.

Foi então que Castiel se lembrou de que eles não estavam sozinhos e dispensou a loura com um gesto despreocupado, ignorando a sua expressão emburrada ao sair.

Ele jogou o sapato de Camille sobre o lugar onde a loura estivera sentada e se perguntou por que estava sequer tendo aquela conversa, encorajando Cami ao permitir que ela falasse com ele naquele tom desrespeitoso.

Por que estava sentindo aquela necessidade totalmente estranha de lhe explicar os motivos que o haviam levado a impedir sua promoção três anos atrás? A última vez em que tinha se defendido, ou justificado o seu comportamento, havia sido… nunca.

– Eu não gosto de compartilhar as minhas coisas – disse ele, fria, única e exclusivamente para colocá-la em seu lugar.

Cami enrijeceu, e algo que só poderia ser dor inundou os seus olhos azuis.

Pela primeira vez, em anos, Castiel sentiu o mais leve indício de algo parecido com vergonha se agitar dentro dele, mas o ignorou.

– Eu poderia perguntar que tipo de homem é capaz de dizer algo tão deliberadamente insultante, mas de que serviria? – Camille fungou, com um olhar ainda magoado, o que o afetou mais do que deveria. – Nós sabemos exatamente que tipo de homem você é, não é mesmo?

– Os jornais me chamam de uma força da natureza – respondeu Castiel, em tom de advertência, a última que pretendia lhe dar.

Ele não era de aceitar insubordinações e, mesmo assim, vinha tolerando-a há horas. Se ela fosse um homem, ele teria lhe respondido na mesma moeda.

Basta já, pensou Castiel, impacientemente.

Ele se flagrou caminhando na direção dela, captando o modo como Cami engoliu em seco quando ele se aproximou, denunciando que ela não estava tão enojada nem impassível como aparentava.

Aquela mesma lembrança sedutora se revirou dentro dele, voltando perigosamente à vida.

Cami transferiu o seu peso de um pé descalço para o outro, fazendo com que ele se lembrasse de que ela era, de fato, uma mulher, e não um robô perfeito, construído apenas para suprir as suas necessidades. Que ela era feita de carne e osso, uma carne lisa e macia, e que as suas pernas, que se escondiam sob aquela saia de seda, eram perfeitamente torneadas. Que ela não era uma escultura de gelo, e que ele já havia provado do seu calor.

Castiel não gostou nada daquilo, mas deixou que o seu olhar corresse novamente por Camille, mesmo assim, notando, como que pela primeira vez, as curvas que se elevavam em sua figura delgada, nos lugares certos.

Havia algo em seu cabelo despenteado, na emoção do seu olhar e na completa ausência de sua expressão calma habitual que o abalava profundamente. O coração dele começou a bater em um ritmo cada vez mais acelerado, fazendo-o pensar em coisas que sabia que não deveria pensar. Aquelas pernas macias enroscadas em torno de sua cintura, enquanto ele a pressionava contra uma parede na cidade antiga. A boca quente de Cami sob a sua. Toda aquela fria competência da qual Castiel dependera durante todos aqueles anos se derretendo ao seu redor…

Aquilo era inaceitável. Havia uma razão pela qual ele nunca se permitira pensar naquela noite, droga. Maldita Cami.

– Chamá-lo de uma força da natureza o exime de suas responsabilidades, não é? – perguntou Cami, como se não tivesse percebido ou não se importasse que Castiel estivesse avançando em sua direção, embora ele tivesse visto os dedos dela se apertarem em torno do sapato que ainda mantinha na mão. – Você não é um furacão nem um terremoto, Senhor Collins. É apenas um homem isolado e egoísta, com dinheiro demais e habilidades sociais de menos.

– Acho que eu a preferia como era antes – observou ele, com uma voz cortante, mas ela não se acovardou.

– Subserviente?

– Quieta.

Os lábios dela se curvaram em algo excessivamente frio para ser um sorriso.

– Se não quiser ouvir a minha voz, nem as minhas opiniões, terá que me deixar ir embora – lembrou-lhe ela. – Você é tão bom em dispensar as pessoas, não é? Não acabou de fazer isso com aquela pobre moça há cinco minutos?

Ele se valeu de sua altura e se inclinou sobre Cami, aproximando-se excessivamente do seu rosto, sentindo um leve perfume de sabonete ou perfume. Aquilo despertou o próprio desejo. Lembrou-se de ter enterrado o rosto no pescoço dela e sentiu uma vontade incontrolável de fazê-lo outra vez, agora. Não sabia se deveria admirá-la ou provocá-la quando ela não recuou.

Castiel teve a estranha sensação de que aquela mulher podia significar a sua morte. Aborrecido, ele afastou de sua mente aquela estúpida superstição de seus tempos de infância, que ele já acreditava ter deixado para trás.

– Por que está tão preocupada com o destino daquela “pobre moça”? – perguntou ele, com a voz cada vez mais grave à medida que ia ficando mais furioso. – Você sequer sabe o nome dela?

– Você sabe? – a retrucou, chegando a inclinar mais o rosto como se estivesse prestes a cutucá-lo com algo mais que palavras.

– Por que se importa tanto com o modo como eu trato as minhas mulheres, Srta. Bennett? – perguntou ele, em um tom gelado e perigoso que deveria tê-la silenciado por dias.

– Por que você não se importa? – contra-atacou ela, com uma expressão grave.

Subitamente, ele compreendeu o que estava acontecendo. Como não tinha enxergado toda aquela efervescência antes, já que ela deveria estar lá há anos? Ele não permitira que uma única noite insignificante, deliberadamente ignorada, praticamente assim que aconteceu, o assombrasse ou afetasse o seu relacionamento profissional com ela e achara que ela também não.

– Talvez – o sugeriu – você não tenha sido inteiramente honesta quando me disse que não havia nenhum homem envolvido nessa história.

Por um momento, ela ficou simplesmente olhando-lhe, apática.

Depois respirou fundo, enquanto o choque e a incredulidade atravessavam o seu olhar, seguidos de uma súbita consciência, e deu um passo para trás. Mas ele já o havia visto.

– Você não pode estar falando sério – disse ela, arfante, soando horrorizada. Talvez um pouco horrorizada e aterrorizada demais. – Acha mesmo que... Você?

– Eu – concordou ele, sentindo toda aquela fúria se agitar em seu interior, transformando-se em outra coisa, algo que ele lembrava muito bem, apesar de insistir no contrário. – Você não seria a primeira secretária no mundo a ter uma paixonite pelo chefe, não é? – Ele inclinou a cabeça, magnânimo. – Eu assumo toda a responsabilidade por isso. Jamais deveria ter permitido que aquele episódio em Cádiz ocorresse. Foi tudo culpa minha. Permiti que você alimentasse muitas ilusões.

Cami empalideceu, e apesar do que havia dito, tudo em que ele conseguiu pensar foi naquela noite ocorrida há tanto tempo na Espanha, no caminho de volta da bodega para o hotel, enquanto o mundo se turvava e ela passava o braço em torno de sua cintura, como se ele precisasse de apoio. E então a boca de Cami sob a sua, sua língua, seu sabor, muito mais inebriante que amanzanilla que ele havia tomado em uma espécie de tributo torto ao avô, cuja morte, naquele mesmo dia, ele se recusava a lamentar. Em vez disso, ele a beijara contra o muro e em meio a doce escuridão.

Suas mãos contra as curvas dela, seus lábios no pescoço de Cami…

Castiel ainda podia sentir o sabor dela, mesmo depois de todos aqueles anos.

Ele vinha mentindo para si mesmo. Não tinha sido movido apenas por aborrecimento e raiva. Não fora isso o que o deixara rijo e pronto, fazendo o sangue correr mais rápido pelas veias.

Aquilo era desejo.

– Seria mais provável eu me apaixonar pelo capeta – disse ela, furiosa, atropelando as palavras como se não pudesse pronunciá-las rápido o bastante. – Além do mais, eu era a sua assistente pessoal e não a sua secretária...

– Você é o que eu disser que é – advertiu ele, num tom mavioso e perverso, como se aquilo pudesse apagar aquela lembrança, ou colocá-la no devido lugar. A ela e àquele seu crescente desejo por ela também. – Algo que você parece ter esquecido completamente hoje.

Cami arfou e ele voltou a notar aquela centelha, aquela excitação. A lembrança.

Aquele brilho nos olhos azuis dela, que ele já havia visto uma vez e jamais esquecera, por mais que tivesse dito a si mesmo o contrário.

Mais mentiras, concluiu ele, sentindo o corpo latejar com a necessidade de sentir o sabor dela. De possuí-la.

– Eu não desperdicei um segundo sequer do meu tempo “alimentando ilusões” a respeito da sua grosseria e bebedeira em Cádiz – sibilou ela, mas a voz falhou e ele soube que ela estava mentindo, tanto quanto ele havia feito até ali. – Foi um único beijo. Você, por acaso, fantasiou com isso? Foi por isso que me impediu de obter aquela promoção? Ciúme?

Aquela ideia era simplesmente risível, mas Castiel queria sentir novamente o sabor dela e que ela se calasse, e só conseguiu pensar em um modo de conseguir as duas coisas de uma só vez, dizendo a si mesmo que se tratava de uma estratégia.

Seu coração batia com força. Ele ansiava por botar as mãos nela.

Ele a desejava. Apenas estratégia, o pensou outra vez.

Não acreditava realmente naquela história, mas baixou a cabeça, mesmo assim, e a beijou.

FOI COMO se o ar entre eles simplesmente entrasse em combustão.

Ou talvez fosse ela quem estivesse se incendiando.

Isso não pode estar acontecendo outra vez...

Cami, porém, não teve tempo de pensar em mais nada, além disso. A boca dele estava sobre a sua aquela boca linda, dura, cruel e impossível, e Castiel cruzou a distância que os separava tão implacavelmente quanto fazia todo o restante. Exatamente como fizera anos atrás, em uma rua escura, envolto nas profundas sombras de uma noite espanhola. Uma das mãos deslizou sobre o quadril dela até alcançar a base de suas costas, puxando-a para junto do muro de seu peito, enquanto os lábios assumiam o controle dos dela, exigindo que ela o deixasse entrar, que retribuísse o beijo.

E, por Deus, ela o fez.

Ela deixou o outro sapato cair, perdeu a cabeça, e o fez.

Aquilo era tão excitante. Finalmente, sussurrou uma voz, insistente e feliz. Ele tinha sabor de desejo e comando, e ela ficou tão tonta que se esqueceu de si mesma.

Esqueceu-se de tudo que não fosse o calor daquela boca, o modo como ele inclinava a cabeça para beijá-la mais profundamente, e como a palma da mão dele pressionava as suas costas, moldando-a contra a extensão do peito dele, firme como granito. Seus seios estavam tão fartos que chegavam quase a doer esmagados contra ele. Todos os pontos de contato entre eles ardiam como que possuídos por uma febre. Ela estava retribuindo o seu beijo como que enfeitiçada por ele, e por um breve e ardente momento, ela não quis outra coisa senão se entregar àquele encantamento.

Cami não compreendia o que estava acontecendo, mas queria aquilo, quase além do que jamais desejara qualquer outra coisa na vida. A inexorável atração de sua boca, seu sabor, todo ele...

Castiel interrompeu o beijo e resmungou algo em espanhol. E a realidade se abateu novamente sobre Cami com tanta força que ela chegou a se surpreender por seus ossos não terem se quebrado com o impacto.

Ela empurrou o peito dele cegamente. Teve, assim, completa consciência não só de que havia optado por soltá-la, como também de que ela parecia desejar ficar exatamente onde estava esmagada contra ele, do mesmo modo como havia feito anteriormente, para sua própria decepção.

Cami deu um passo cambaleante para trás, e então outro. Estava respirando com muita dificuldade, tomada de um terrível pânico, temendo que não fosse preciso mais que um leve roçar do vento para que ela se lançasse novamente nos braços dele. Não conseguia enxergar nada além da névoa que parecia cobrir a sua visão, a não ser aquele olhar nebuloso, perigoso, de um verde intenso e a sua boca... aquela boca...

Ela podia sentir a histeria crescer em seu interior, o nó em sua garganta e o clamor em seu pulso.

O estômago dela se contraiu e por um aterrorizante momento ela não soube se ia ficar enjoada, desmaiar, ou sucumbir a uma terrível combinação de ambos.

Ela, porém, respirou fundo mais uma vez, e superou aquela crise. Castiel continuou olhando-lhe, como se soubesse exatamente a força com que o seu sangue estava bombeando por todo o corpo e onde ele estava se acumulando. Como se soubesse exatamente o quanto os seus seios estavam sensíveis e onde eles enrijeceram. Como se soubesse o quanto ela ardia por ele e sempre ardera.

Cami não suportou aquilo. Não podia continuar ali, por isso se virou, descalça, e saiu, subitamente, do salão.

Ela acelerou o passo até se dar conta de que estava correndo em direção ao deque, respirando com tanta dificuldade como se estivesse chorando.

Talvez estivesse mesmo.

Sua tola, dizia a voz em sua mente.

No deque, o brilho da luz do sol a cegou por um momento. Ela olhou para trás e viu que Castiel estava logo ali, como sabia que estaria esguio e moreno, com aqueles olhos quentes e exigentes.

– Aonde você vai? – disse ele, num tom zombeteiro, arqueando aquelas sobrancelhas perversas. Aquela boca… Meu Deus, aquela boca… – Achei que não tinha se importado com aquele beijinho.

Estou encurralada, pensou ela, ciente de que estava quase tendo um ataque histérico. Seu coração, porém, já estava partido. Ela sabia que não conseguiria sobreviver àquilo novamente. Não tinha nem mesmo certeza de ter sobrevivido da primeira vez.

Por isso simplesmente se virou, correu até a lateral do iate e se jogou no mar.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...