História Demônio disfarçado - Capítulo 3


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Categorias Amor Doce
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Palavras 4.604
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - Capítulo três


Fanfic / Fanfiction Demônio disfarçado - Capítulo 3 - Capítulo três

 

Ela havia efetivamente saltado da maldita embarcação.

Castiel permaneceu no convés e a olhou com uma expressão grave quando a viu ressurgir na superfície da água e começar a nadar em direção à praia distante, lutando para manter o autocontrole. Para trancar todo aquele desejo a sete chaves, nas profundezas de sua memória.

Como aquilo tinha acontecido? Outra vez?

Não havia mais ninguém a culpar a não ser a ele mesmo, o que só piorava a situação, ainda mais.

– Perdoe-me, senhor, mas ela… Caiu? – perguntou uma voz por detrás dele, parecendo chocada. – Não deveríamos ajudá-la?

Ele não queria pensar nela como uma pessoa. Não queria sentir aquele seu sabor inebriante novamente em sua boca nem aquele insano desejo se agitar dentro dele outra vez, deixando-o tão rígido a ponto de quase sentir dor e parecer um estranho para si mesmo. Ele não queria nada daquilo.

– Essa é uma excelente pergunta – resmungou Castiel.

Ele ainda a observou por um longo e tenso momento, dando aquelas braçadas longas e seguras em meio à imensidão azul, quase admirando a sua força de vontade, para não falar na sua graça e habilidade, mesmo completamente vestida.

Castiel teve que se esforçar para manter o seu corpo sob controle e afastar aquele desejo denso que ainda latejava dentro dele. Havia sido o tipo de beijo que conduzia a cenas ardentes, e se aquela não fosse Camille, ele não teria pensado duas vezes, e a teria possuído ali mesmo, no chão do salão.

E contra a parede. E sobre as almofadas macias na sala de estar. Repetidas vezes, só para se deleitar naquela química que havia entre eles e que ele tentara se convencer de que tinha esquecido completamente até aquilo voltar a ser a única coisa em que conseguia pensar.

Mas aquela era Camille.

E Castiel sempre fora um homem prático, focado em tudo o que fazia. Nunca havia se desviado do caminho que traçara para si, nem sequer ficara tentado a fazê-lo. Exceto por uma infeliz escorregadela em Cádiz, naquela noite, e uma repetição ali, em seu iate.

Aquilo já era demais. Ele tinha que recuperar o seu autocontrole e não voltar a incorrer naquele mesmo erro.

Ele a viu se virar na água, certamente checando se havia alguém atrás dela, e lutou contra aquela parte do seu ser que lhe sugeriu deixá-la simplesmente por lá. Ela já o havia feito perder tempo demais. Sua agenda estava lotada naquele dia, e ele havia deixado tudo de lado a fim de tentar impedir que ela fosse embora. Por que fizera aquilo, afinal? E depois a beijara?

Não importava, disse ele a si mesmo, implacavelmente. Cami era uma assistente muito valiosa para que ele corresse o risco de deixar que ela se afogasse. Ou de se tornar a sua amante, como o seu corpo ainda demandava entusiasticamente. Havia pensado a mesma coisa, três anos atrás, quando ela se candidatara àquela promoção. Tudo deveria continuar exatamente como era antes.

Ele não compreendia por que ela queria deixar o seu emprego tão desesperadamente nem por que havia ficado tão furiosa com ele, de uma hora para outra. Tinha, porém, certeza de que se investisse dinheiro suficiente naquele problema, especialmente se o único problema fosse os seus sentimentos feridos, tudo se resolveria. Ele torceu a boca. Ao menos era assim com todo mundo.

– Senhor? Talvez devêssemos usar uma de nossas lanchas. Ela já está um pouco longe agora… – perguntou o capitão, outra vez, mais subserviente e mais preocupado.

Ele não estava gostando nada de Camille tê-lo feito sentir o que quer que fosse, menos ainda, algo como aquilo. Ela era a sua assistente pessoal perfeita, competente e confiável. Seu relacionamento com ela era impessoal. Foi só quando começou a enxergá-la como mulher que as coisas começaram a se complicar, e que ele começou a se sentir do jeito que imaginava que os homens mais fracos se sentiam – inseguro e até mesmo carente. Aquilo o horrorizara.

Nunca mais, jurara ele, ainda muito jovem.

Nada mais de sentimentos. Ele já havia sentido coisas demais nos primeiros 18 anos de sua vida, e sofrera muito por causa disso. Sucumbir àquelas coisas era para o tipo de homem em que ele não tinha a menor intenção de se transformar. Fracos. Maleáveis. Comuns.

Aquelas idéias o haviam guiado por quase duas décadas.

Quando algo estava fora do seu alcance, ele simplesmente o ampliava e tomava o que queria. Se não estava à venda, ele pressionava até que estivesse e freqüentemente por um preço menor que o seu verdadeiro valor, graças às suas maquinações.

Se uma mulher não o queria, ele simplesmente realizava os seus desejos, quaisquer que fossem até ela chegar à conclusão de que havia sido apressada demais em sua avaliação. Se sua assistente queria deixar o emprego, ele simplesmente a substituía, e se achava que deveria ficar ele lhe dava o que ela quisesse para tanto. Comprava tudo o que queria porque tinha cacife para tanto. Porque nunca mais voltaria a ser aquele menininho marcado pela vergonha de sua mãe. Porque não era, nem jamais seria governado por seus sentimentos.

Aquela louca obsessão por uma mulher que já havia tentado deixá-lo duas vezes no mesmo dia estava se tornando perigosa.

Ela o fazia desejar, e ele se recusava a dar mais corda àquilo.

– Prepare uma das lanchas – disse ele, em voz baixa, ouvindo, logo em seguida, toda a tripulação entrar em ação, como se só estivessem esperando ouvir a sua ordem. – Eu mesmo a buscarei.

Ele detectou certa surpresa, por parte do comandante, diante de sua resposta. É claro, ele era Castiel Collins. Não recolhia mulheres nem funcionários. Eles lhe eram entregues como qualquer outro pacote. E mesmo assim, lá estava ele, indo atrás daquela mulher. Mais uma vez. Aquilo era simplesmente inconcebível... Mas, ainda assim, ele o estava fazendo.

Foi quando avistou, finalmente, uma figura abrindo caminho teimosamente pelo mar.

– Vai entrar na lancha, ou resolveu fazer isso a noite inteira?

Cami o ignorou, ou, pelo menos, tentou.

– Estamos mais longe da praia do que parece – prosseguiu ele, comprimindo os lábios. – Sem falar na corrente. Se não tiver cuidado, poderá ser arrastada para o Egito.

Ela continuou nadando. Havia realmente beijado-o daquele jeito? Outra vez? Cádiz fora um caso atípico. Ele estivera tão diferente aquela noite, e tudo parecera tão orgânico, tão perdoável, dadas as circunstâncias... Mas não existia desculpa para o que acontecera naquele dia. Ela sabia muito bem a opinião que ele tinha a seu respeito. E mesmo assim, o beijara daquele jeito. Ardente, exigente e sensual...

Cami jamais se perdoaria por aquilo.

– Prefiro mil vezes o Egito a um momento sequer a mais na sua companhia... – exclamou, mas ele a interrompeu com um estalar de dedos para o capitão que estava operando a lancha. O motor ganhou vida, abafando qualquer palavra que ela pudesse ter dito.

Cami parou de nadar, olhando consternada e muito aborrecida para a pequena embarcação que girava em círculos concêntricos em torno dela. A água salgada bateu em seu rosto, e ela teve que esfregar os olhos. Quando voltou a abri-los, o motor já havia silenciado e a lancha estava perto demais, o que significava que Castiel também estava perto demais. Como ela podia estar no meio do oceano e ainda assim se sentir tão presa?

– Você está parecendo um guaxinim – disse ele, do seu modo rude, como se estivesse se sentindo pessoalmente ofendido.

– Oh – respondeu ela, numa voz frágil. – Esperava que eu mantivesse um rosto impecável enquanto nadava para salvar a minha vida?

Ela precisou lançar mão de todo o seu autocontrole para não esfregar os olhos outra vez, surpresa e levemente amedrontada diante da intensidade da própria vaidade.

– Não quero pensar na sua maquiagem agora – respondeu ele, naquele tom enganadoramente suave, o mesmo que fizera seus ossos amolecerem. – Quero fingir que isso jamais aconteceu e que eu nunca tive que ver nada além da máscara perfeitamente serena que você normalmente usa.

– Já eu, Senhor Collins, não dou a mínima para o que você quer.

Aquilo o divertiu. Ela viu a versão dele de uma gargalhada se mover por aquele rosto feroz, fascinante; uma espécie de luz na escuridão, e teve que conter a sua reação, dizendo a si mesma que aquilo se devia ao mar, ao sal e ao cansaço, e não a ele. Não aos efeitos de um beijo que a água já deveria, há muito, ter enxaguado.

Deus, como ela mentia mal.

– O que lhe importa ou não está entre as principais coisas que não me interessam a seu respeito. – A boca dura dele se entortou em uma versão fria e predatória de um sorriso. Cami teria preferido encarar um tubarão. Teria muito mais chances de sobreviver, se fosse aquele o caso. – Sei que é perfeitamente capaz de compreender o que estou dizendo, Srta. Bennett. Vou esperar.

Embora houvesse uma série de coisas que ela desejasse jogar na sua cara, ela engoliu em seco e reavaliou a situação. A verdade era que ela estava cansada. Exausta.

Tinha usado toda a sua energia para sobreviver durante aqueles últimos anos, e havia muito pouco dela ainda disponível, depois do que gastara naquele embate com Castiel.

Como que para enfatizar aquele pensamento, uma nova onda bateu em seu rosto, fazendo com que ela engasgasse levemente e então afundasse. Lá, durante um segundo, ela pôde flutuar sob a superfície e se permitir sentir o quanto estava quebrada, abatida. Arrasada por aquele dia confuso. Pelos longos anos que o haviam precedido. Pelos beijos que nunca deveriam ter acontecido e pelo irmão que jamais deveria tê-la deixado daquele modo.

Ela sentiu o seu corpo convulsionar como se estivesse chorando ali, debaixo da água. Como se estivesse finalmente cedido.

Aquilo fora demais. Cinco longos anos de preocupação e trabalho, imaginando futuros brilhantes nos quais ela jamais acreditara realmente. Não por inteiro, embora tivesse tentado. Quando Dominic se livrasse dos vícios, dissera ela a si mesma. Quando trabalhara tão duro porque o desejara, e não porque precisava fazê-lo. Havia sonhado muito e se convencido de que poderia acontecer, se ela trabalhasse o suficiente para isso. Sonhara deixar a sua infância corrompida para trás e alcançar algo mais brilhante, não é? Por que não aquilo, também?

E então chegara aquele dia terrível em que ela recebera a notícia de que Dominic estava morto. Havia tido que seguir o rastro de Castiel por meio de um mapa da Bélgica feito à mão, agindo como se o seu coração não tivesse sido arrancado do peito. Castiel não notara nenhuma diferença – ela não permitira que ele notasse o que quer que fosse. Assegurou-se de pagar todas as contas e dívidas de Dominic, enquanto um terrível pesar pairava sobre ela, à sua espera. Ela havia ignorado aquilo também. Dissera que era o seu trabalho ignorá-lo, fingir que estava tudo perfeitamente bem. Orgulhava-se de sua habilidade de ser perfeita para Castiel; de satisfazer as suas necessidades, independentemente do que estivesse acontecendo em sua vida.

Ler aquele e-mail, no início daquela manhã, em Londres, e enxergar a verdade a respeito de todos os seus anos passados com Castiel havia sido a gota d’água.

Parte dela quis simplesmente afundar, como uma pedra, ser envolvida pelo mar Adriático, e acabar com tudo aquilo. Simplesmente deixar-se ir. Dominic não havia feito o mesmo? O que ainda a prendia tão firmemente ao mundo, afinal?

Mas Castiel pensaria que aquilo dizia respeito a ele, e ela simplesmente não podia permitir uma coisa daquelas.

Ela se debateu, com força, e voltou para a superfície e para o sol, respirando fundo ao avistar Castiel. Ele ainda estava lá, evidentemente irritado, como se não fizesse a menor diferença se ela afundasse ou não, contanto que não atrapalhasse mais o seu dia.

De algum modo, aquilo era estimulante.

Ela não ia submergir outra vez, compreendeu Cami, então, ao olhar para aquele homem por quem ela havia se sacrificado, dia após dia, graças à sua mente fantasiosa. Não ia se machucar, nem por Castiel nem por nada.

Como poderia se já estava despedaçada?

Havia uma força naquilo, pensou ela, tirando a água do rosto e fingindo não sentir o calor dos seus olhos que indicava que não era apenas a água do mar que ela estava esfregando.

Eu lhe prometo Dominic, pensou ela, ferozmente, fazendo a própria prece, que vou deixar esse homem e o levarei para Bora Bora, como você sempre quis. Eu o lançarei ao vento e à água, como jurei que faria. Depois disso, nós dois estaremos livres. Assim, ela engoliu as palavras amargas que teria gostado de jogar na cara dele e nadou até o outro lado da lancha e estendeu a mão para agarrar a sua lateral. Castiel se aproximou dela, tenso. Estava mais furioso do que ela jamais o havia visto.

– Está bem – disse ela, inclinando a cabeça para olhar para ele como se aquilo não tivesse a menor importância. – Eu vou entrar na lancha.

– Sei que vai – concordou ele, maviosamente. Furiosamente, pensou ela. – Mas enquanto a tenho aqui, Srta. Bennett quero estabelecer algumas condições, está bem?

Cami afastou o cabelo do rosto. O coque que fizera cuidadosamente, aquela manhã, em Londres, já tinha se desfeito há muito tempo, e ela imaginou que aquela massa escura deveria estar pendendo sobre a sua cabeça como algas. Feliz, ela teve certeza de que Castiel desaprovaria aquilo profundamente. Aquele pequeno prazer permitiu que ela simplesmente arqueasse as sobrancelhas e esperasse, como se nada daquilo a estivesse magoando. Como se ele não tivesse a capacidade de magoá-la.

– Imagino que toda essa demonstração tenha sido um esforço calculado para fazer com que eu reconhecesse que você é, de fato, uma pessoa – continuou ele, naquele seu modo insuportável, tão condescendente.

– Que conveniente para você ignorar quase tudo o que eu efetivamente disse – murmurou ela, num tom semelhante.

– Eu vou dobrar o seu salário – propôs ele, como se não a tivesse ouvido.

Podia ficar com ele e todo aquele dinheiro, ou recuperar o seu amor-próprio; ao menos o que restava dele. Não poderia ter ambos. Aquele dia o havia provado de maneira definitiva.

Ela quis lhe dizer muitas coisas, mas o modo como Castiel olhou para ela fez com que Cami suspeitasse que, se dissesse alguma delas, ele a deixaria na água. Sabia exatamente o quão implacável ele podia ser, por isso apenas se agarrou na lateral da pequena lancha e olhou para ele.

– Estou com frio – disse ela. – Vai me ajudar a subir?

Um breve e intenso momento se passou, e então ele se inclinou, passou as mãos por baixo dos braços dela e a tirou da água como se ela não pesasse mais que uma criança. A água escorreu da roupa molhada dela, assim que Cami pousou os pés na lancha, e ela ficou subitamente ciente de seu estado. O tecido ensopado da saia, dez vezes mais pesado do que deveria enroscado e apertado demais em torno dos quadris e coxas, a blusa molhada grudada na pele, sob a brisa marinha e o emaranhado de seu cabelo molhado.

Ela ergueu o olhar, e o ar pareceu fugir de seus pulmões. Não precisou ver os olhos de Castiel para saber que ele olhava diretamente para o modo como as suas roupas ensopadas estavam se moldando às curvas do seu corpo. Sua blusa, originalmente de um tom suave de cinza, quando seca, estava praticamente transparente, exibindo o sutiã magenta que ela usava por baixo.

Cami não conseguiu processar todo o caleidoscópio de emoções que se agitou por ela: decepção embaraço aquela terrível vulnerabilidade, aquele choro debaixo d’água, ameaçando transbordar mais uma vez. Ela olhou nostalgicamente para o mar, mais uma vez, chegando a pensar em voltar a cair na água.

– Nem pense nisso – disse ele, entre dentes, e então várias coisas aconteceram simultaneamente.

A lancha deu uma guinada para frente, certamente em decorrência de algum sinal de Castiel. Cami teria caído se ele não a tivesse agarrado pela cintura e a pousado sobre as almofadas brancas imaculadas, ao seu lado. Cami sentiu o calor e a força que emanavam dele e um desejo desesperado se elevou dentro dela, fazendo com que odiasse a si mesma. Logo depois, estava sentada ao lado dele, e a lancha seguiu em direção ao iate.

Castiel não disse mais nada até eles chegarem à segurança a bordo, e um dos membros de sua tripulação envolvê-la, sem expressão alguma, em uma toalha bem grande e quente. Ela lançou um sorriso de agradecimento ao capitão. Apesar de patético e enlameado, Castiel olhou para ela como um belo deus espanhol, intocável.

Os tripulantes desapareceram como se tivessem percebido o que estava por vir. Se ainda tivesse um mínimo de bom senso, Cami teria feito o mesmo.

Em vez disso, ela ficou lá e esperou, com as costas retas e uma expressão, ela esperava tão serena quanto possível. Castiel baixou os seus óculos escuros e a avaliou com um brilho daqueles olhos intensos e dourados.

– Tenho certeza de que você sabe onde estão as roupas extras neste iate – disse ele, tranquilamente.

Ela não confiou naquele tom.

– Sugiro que você se sirva delas e então venha falar comigo. Vamos nos comportar como duas pessoas civilizadas e discutir as condições da manutenção do seu emprego, fingindo que o restante deste dia jamais aconteceu.

Cami se obrigou a sorrir.

– Eu estava com frio e quis sair da água – disse ela. – Mas pedi demissão. – Ela deu de ombros diante da expressão incrédula dele. – Posso lhe dizer o que você quiser, e então desaparecer na primeira oportunidade disponível, ou ser honesta e torcer para que me deixe partir com alguma dignidade. A escolha é sua.

Castiel estava olhando para ela como se já a tivesse destruído há muito e olhasse para as cinzas restantes. Ela voltou a encará-lo e disse a si mesma que os arrepios que estava sentindo se deviam apenas ao frio.

– Você e eu nos afastamos muito da dignidade, hoje – disse ele, num tom de voz bem mais baixo.

– Sua escolha continua a mesma – repetiu ela, como se não estivesse excessivamente próxima das lágrimas. – Com dignidade ou não.

– Vá se arrumar, Srta. Bennett – disse Castiel, num tom suave, sombrio e ameaçador, com um sotaque excessivamente intenso que deveria tê-la assustado, caso ainda houvesse alguma parte sua inabalada. – Conversaremos depois disso.

Cami VOLTOU mais tarde e adentrou o estúdio luxuoso, todo apainelado, em madeira escura, a fim de encontrá-lo, mas não estava “arrumada” como Castiel havia esperado. Ele estava de pé no deque, falando ao celular, naquele seu tom brusco. Ela, porém, não se aproximou para se inteirar do assunto. Não queria fazer nada que fazia antes, por isso, simplesmente esperou.

– Eu preciso desligar – disse ele, ao aparelho, sem tirar os olhos dela. – Posso saber que roupa é essa?

– Eu não sabia que deveria respeitar algum código de vestimenta – respondeu Cami, como se não o tivesse compreendido. – A última mulher que eu vi neste barco, há cerca de uma hora, parecia achar que o fio dental era a última moda.

– Ela não está mais conosco – disse ele, estreitando os olhos. – Mas isso não explica por que você está vestida como se fosse…

Ele se deteve.

– Uma pessoa normal? – perguntou Cami. Sabia que ele não ia aprovar a sua escolha e o havia feito deliberadamente. – Ora, Senhor Collins, estamos em pleno século XXI. Esta não pode ser a primeira vez que vê uma mulher de jeans.

– É a primeira vez que eu vejo você de jeans – disse ele em um tom mais duro, tanto quanto o olhar dele, e o pulso de Cami parecia acelerar sob a sua pele, arrepiando os seus braços. – Eu não tinha ideia de que o seu cabelo era tão longo.

Cami deu de ombros como se estivesse completamente imune a ele e seguiu em frente, acomodando-se em uma das poltronas de pelúcia posicionada de modo a obter a melhor vista das amplas janelas do iate. Ele estava certo – ela sabia exatamente onde estavam as roupas extras. Tanto os itens que Castiel havia estocado para as suas inesperadas convidadas quanto o guarda-roupa que ele mantinha para si e para ela, caso os negócios os conduzissem até lá de surpresa.

E quando dizia estocadas por Castiel, queria dizer, é claro, por ela.

Cami dispunha de tudo o que precisava para retomar o seu antigo papel de robô prestativo, mas não conseguira se convencer a fazê-lo.

Em vez disso, deixara o seu cabelo secar naturalmente, enquanto escolhia, lentamente, o que vestir – agora ele pendia em escuras ondas sobre as costas dela. Encontrara um jeans branco em um dos armários, bem mais justo do que ela gostaria e escolhido de acordo com as medidas da maioria das convidadas habituais de Castiel. Em outro, um adorável top, largo e solto, em um vibrante padrão azul e branco para fora do seu jeans. Ela ainda havia escolhido uma echarpe cinza ardósia para se proteger da brisa do mar e permanecido com os pés descalços e o rosto limpo.

Estava parecendo consigo mesma. Finalmente. Mas Castiel a olhava como se ela fosse um fantasma.

– Essa é uma nova versão sua a bordo, Srta. Bennett? – perguntou ele, com uma voz que reverberou pelo recinto silencioso, fazendo o coração dela saltar dentro do peito. – Outra desesperada tentativa de atrair a minha atenção?

– Foi você quem quis conversar, não eu – respondeu ela, forjando um sorriso frio. – Eu teria ficado perfeitamente feliz em me retirar do foco de sua atenção. Para sempre.

O músculo do maxilar de Castiel se moveu.

– E se eu triplicar o seu salário? Você disse que morava em uma quitinete alugada? Eu lhe comprarei um apartamento. Uma cobertura, se você quiser. Escolha o bairro de Londres que preferir.

Grande parte dela desejava aquilo. Quem não desejaria? Ele estava lhe oferecendo uma vida inteiramente diferente pelo mesmo trabalho que ela sempre gostara muito, até hoje.

Mas… E depois? Perguntou ela a si mesma. Aquela sugestão não passava de uma maneira refinada de prostituição. Ela se entregaria a ele, que lhe pagaria por isso.

Ela enxergou tudo muito claramente e ficou enjoada. Seria mais fácil se pudesse fazer aquilo simplesmente pelo dinheiro, porém ela já havia ido longe demais. Pelo menos agora, pensou ela, já sabia de tudo. Era um começo.

– Eu não quero morar em Londres – disse-lhe ela, ignorando o modo como seu estômago se revirou e seu coração pareceu uivar. – Não quero um apartamento.

– Onde, então? – Ele arqueou uma sobrancelha. – Está pensando em uma casa? Uma propriedade? Uma ilha particular? Acho que disponho de todas essas opções.

– É verdade – respondeu ela. – Você tem 16 residências. Tem também três ilhas particulares, bem como uma modesta coleção de atóis, ao menos, segundo os últimos dados. Você sempre adquire algo novo, não é?

Castiel se apoiou na ampla mesa que se estendia pelo centro do recinto como se fosse um trono, onde ele esperava ser venerado, e cruzou os braços. Cami não pôde negar a intensidade daquele olhar. Era como um fogo que a atingiu até as solas dos pés descalços, embora ela não tivesse ideia do que ele estava enxergando.

– Escolha um deles.

Era uma ordem.

– Você não pode me comprar de volta – disse Cami, num tom tão tranqüilo quanto o dele. – Eu não quero o seu dinheiro.

– Todos têm um preço, Srta. Bennett, especialmente aqueles que alegam não ter um.

– Sim – disse ela, remexendo-se em sua cadeira, inquieta. Queria já ter passado por tudo aquilo e encontrado forças para enfrentá-lo e ir embora. – Sei muito bem como você age. Mas eu não tenho mais família para ser ameaçada ou salva. Não tenho dívida alguma de que você possa se valer a seu favor. Nenhum segredo sujo que você possa ameaçar expor ou esconder mais profundamente. Nada pode me forçar a aceitar de volta um emprego que não me interessa mais.

Ele apenas a olhou daquela sua maneira característica, como se não desse a menor importância para o que ela havia dito. Estava inamovível.

Cami foi tomada por uma agitação desesperada e não conseguiu mais permanecer sentada, por isso se levantou e se afastou dele.

– Srta. Bennett – começou ele, em um tom de voz que ela reconheceu imediatamente.

Aquele era o tom de voz que ele usava para envolver as suas vítimas antes de desferir o golpe mortal. Ela já o havia ouvido em centenas de salas de reuniões e em milhares de videoconferências.

– Por que está fazendo isto? – perguntou ela, cerrando os punhos e sentindo um calor escaldante no fundo dos olhos.

– Eu já lhe disse – respondeu ele impacientemente, em um tom frio e ameaçador, enquanto ela se sentia quebrada em mil pedaços. – Você é a melhor assistente pessoal que eu já tive. Isso não é um elogio, mas uma constatação.

– Isso pode ser verdade, mas você poderia ter me substituído por 15 assistentes perfeitas, todas treinadas e prontas para servi-lo na mesma hora. Poderia ter me substituído por qualquer pessoa do mundo. Não há nada que justifique o que está fazendo. Não existia explicação há três anos e não há agora!

– Ao que parece – disse ele, friamente –, seu preço é mais alto que o da maioria.

– Isso é insano. – Ela balançou o cabelo para afastá-lo do rosto e proibiu a si mesma de cair em prantos. – Você não precisa de mim.

– Mas eu a quero.

Cami decidiu parar de tentar se conter. De que adiantava tudo aquilo, afinal?

– Havia uma pessoa que eu amava. Uma pessoa que eu perdi. Anos que eu jamais poderei recuperar. – Ela não se importou que sua voz estivesse trêmula e alta e que seus olhos estivessem molhados. Não se importou com o que ele pudesse ver quando olhasse para ela, nem que pudesse suspeitar que ela estivesse falando a respeito de alguém que não o seu irmão. – Não há nenhum dinheiro no mundo que você possa consertar o que se quebrou. Nada me fará reaver o que perdi... O que foi tirado de mim. – Pior, o que ela dera a ele, tola que fora. – Quero desaparecer para um mundo onde Castiel Collins não tem nenhuma importância, nem para mim, nem para ninguém mais.

Aquilo era o principal.

A verdade é que ele não precisaria ter lhe oferecido os seus apartamentos, propriedades, ou ilhas. Bastaria que lhe tivesse dito que a queria… A masoquista que havia dentro dela sabia muito bem que trabalharia para ele, até mesmo de graça, se Castiel a desejasse daquele modo.

Mas ele não queria ninguém assim. Especialmente não a ela. Cami podia dizer a si mesma que Castiel era incapaz de um sentimento como aquele, que ele nunca havia amado ninguém, nem jamais amaria... Mas aquilo seria dourar a pílula.

– Você já deixou a sua posição bem clara – disse Castiel, depois de um momento de tensão.

– Então, por favor, deixe-me ir embora.

Fora muito mais difícil dizer tais palavras do que ela havia imaginado, e Cami se odiou por isso.

Aquela estranha luz reapareceu nos olhos fascinantes dele, mas seu rosto pareceu se fechar logo em seguida, e ele se empertigou a fim de olhá-la de cima a baixo. Aquele era Castiel Collins, lembrou Cami a si mesma, o homem que não deixava nada escapar. Que nunca se curvava nunca se comprometia. Ele simplesmente prosseguia até vencer.

– Você me deve duas semanas – disse ele, como se estivesse decretando uma sentença. – E eu não pretendo abrir mão delas. Você pode executar o seu trabalho durante esse período e cumprir as suas obrigações, ou eu simplesmente a manterei comigo como um cachorro, só de pirraça. – Ele, no entanto, parecia quase triste, o que provocou um frio na barriga de Cami. Outra vez. E aquele terrível desejo que voltou a crescer dentro dela…

Castiel sorriu, como que de muito longe, frio e duro.

– A escolha é sua, Srta. Bennett.



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