História Demônio disfarçado - Capítulo 4


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Categorias Amor Doce
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Palavras 3.892
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Hentai, Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - Capítulo quatro


Fanfic / Fanfiction Demônio disfarçado - Capítulo 4 - Capítulo quatro

 Eu deveria estar feliz… Ou ao menos satisfeito.

Castielse recostou em sua cadeira e olhou na direção da mesa coberta por uma toalha de linho branco na sala de jantar de sua suíte presidencial, no hotel Príncipe di Sabóia, em Milão, analisando o pequeno jantar que havia feito Camille organizar em um dos locais mais prestigiados da Europa. Os aposentos da ampla suíte davam a impressão de pertencer à realeza, de tão luxuosos, com seus tetos altos, as antiguidades cuidadosamente selecionadas e as mais belas obras de arte italianas.

Os investidores haviam ficado impressionados, conforme o esperado.

Fumaram charutos e gargalharam, sob os impressionantes lustres de Murano.

As negociações foram um sucesso. Mais dinheiro e poder para a Collins Group.

E mesmo assim, ele parecia se concentrar apenas em Camille.

– Está bem – dissera ela, ainda no iate, com aqueles olhos azuis furiosos, um pouco mais escurecidos e a boca tremendo. – Eu não vou levar este jogo adiante. Se faz tanta questão dessas duas semanas, você as terá, mas esse será o fim de tudo.

– Duas semanas como minha assistente, ou como o meu cachorrinho – reiterou-o. – Para mim, não faz diferença.

Ela rira, sem convicção.

– Eu o odeio.

– Você é apenas mais uma de uma lista bastante extensa.

– Quer dizer o mundo todo?

– Eu lhe sugeriria pensar duas vezes antes de tentar alguma espécie de sabotagem passiva em seus últimos dias comigo, Srta. Bennett – advertiu ele, com um olhar que poderia tê-la fulminado. Talvez tivesse. – Você não vai gostar das conseqüências.

– Não se preocupe Senhor Collins – dissera ela, pronunciando o nome dele como um xingamento. – Quando eu decidir sabotá-lo, não haverá nada de passivo.

Cami sumira naquela tarde, e ele não a havia visto de novo até a manhã seguinte, quando ela se apresentou em sua suíte para o café da manhã, vestida no mesmo estilo irrepreensível que costumava usar anteriormente. Ela se acomodou em uma cadeira com o tablet no colo e lhe perguntou como já havia feito milhares de vezes antes, sem nenhuma inflexão especial, se os planos dele para aquele dia haviam se desviado do previsto.

Como se o dia anterior jamais tivesse acontecido.

Como se ela jamais tivesse pedido demissão e ele não a tivesse obrigado a cumprir as duas semanas de aviso prévio.

Como se eles nunca tivessem se beijado daquela maneira, como se seus ânimos não tivessem se inflamado, revelando coisas demais sobre as quais ele não queria pensar.

Naquela noite, Cami parecia tão profissional e fria como sempre. Estava usando um vestido azul, simples, e um blazer feito sob medida, que ressaltava sua elegância. Ela sempre funcionara como o seu braço direito em situações como aquela; era a sua arma secreta, fazendo parecer que ele estava mais interessado em desfrutar da companhia de pessoas interessantes que viriam a se tornar seus amigos do que nos possíveis investimentos.

Era ela quem lhe conferia aquele toque humano que tantos rivais furiosos e derrotados clamavam faltar a ele.

Castiel a havia observado entreter os dez investidores cuidadosamente selecionados para o evento, incentivando-os a falar a respeito de si mesmos e deixando que cada um deles se sentisse interessante e importante. Valorizado. Ela se mantinha atenta a tudo o que eles diziam, se antecipava às suas perguntas e ria com eles, tudo isso de uma maneira refinada e inteligente que parecia totalmente autêntica.

Era por contar com ela que Castiel podia ser simplesmente implacável e focado em si mesmo, sem que ninguém se sentisse intimidado nem ficasse na defensiva.

Ela se sentou à outra ponta da mesa, com o seu tablet à mão. Sua objetividade fazia tudo parecer natural, inclusive a solicitação de uma aplicação de Reiki pelo executivo francês, às 2h da maCamigada. Dava a entender que ficava deleitada em conseguir fazer a sua vontade. Ela era o seu computador ambulante, sua efetiva vice, na verdade.

Era inteligente e confiável. Ele deveria tê-la encorajado a deixá-lo três anos atrás, quando ela quisera aquela promoção. Ela poderia estar gerenciando uma de suas empresas agora.

Motivo pelo qual, é claro, Castiel havia ficado tão relutante de deixá-la ir embora.

Ele tamborilou os dedos em sua taça de vinho, fingindo prestar atenção na conversa ao seu redor.

Ela é magnífica, pensou Castiel, ignorando a súbita dor que se seguiu àquele pensamento, ao lembrar que ela, em breve, o deixaria. Ele teria de pensar logo em uma nova abordagem para conseguir o que queria de seus investidores sem o apoio silencioso e quase invisível de Cami.

Em breve, teria também de enfrentar a crescente suspeita de que sua recusa em aceitar que ela fosse embora tinha bem menos a ver com os negócios do que ele ousava admitir.

Ela se ajeitou no assento, e seu olhar cruzou com o dele, do outro lado da mesa, em meio a todos aqueles investidores e à fumaça de charutos.

Foi como se o restante do recinto tivesse mergulhado na escuridão e não existisse mais nada a não ser Camille. Nada além do impacto chamuscante de sua conexão. Era como se ela tivesse estendido a mão por sobre os restos do banquete que eles haviam compartilhado e de todo o dinheiro que haviam ganhado e o atingido com o objeto mais próximo, diretamente em seu plexo solar.

Cami o odiava. Castiel não dera muita importância àquilo quando ela o dissera, depois de ter ouvido o mesmo de tantas pessoas, ao longo de anos. Mas estava começando a acreditar que ela estava realmente falando sério. Mais que isso, que ela achava que ele era um monstro.

Ele sabia muito bem o quanto havia agido como tal.

Era bom que ele se lembrasse daquilo.

Bem mais tarde, naquela mesma noite, todos os investidores já haviam se retirado, e Castiel não conseguia dormir.

Ele zanzou pelo quarto e acabou indo até o terraço, com uma vista privilegiada de Milão, embora não conseguisse enxergar nada além de Camille à sua frente.

Monstro o pensou, mais uma vez. Ela acha que você é um monstro.

Ele não conseguia parar de repassar em sua mente os acontecimentos dos últimos dias e dificilmente reconhecia a si mesmo em suas lembranças. Onde estava o seu famoso autocontrole que fazia os titãs da indústria se acovardarem à sua frente? Onde estava à frieza que sempre o guiara e que havia feito com que mais de um adversário o acusasse de ser uma máquina e não um homem? Por que se sentia tão abalado com o pedido de demissão de uma assistente a ponto de tê-la arrastado consigo por toda Europa?

Tudo estava acontecendo exatamente como o seu avô havia previsto há tanto tempo, pensou ele, enquanto a lembrança há tanto esquecida, voltava à tona, contra a sua vontade, ainda carregada de toda a tristeza e dor de sua juventude. Ele se flagrou voltando no tempo, retornando ao lugar de que menos gostava: a casa de sua infância, o lugar onde havia nascido e que deixara, 18 anos depois, para sempre.

Todo o povoado já previra que ele não seria nada na vida. Era filho de uma prostituta abandonada que se vira obrigada a passar o restante de seus dias em um convento, como penitência. Ninguém se surpreenderia se a vida dele tivesse seguido o mesmo caminho.

Na verdade, aquilo era tudo o que esperavam dele, seu destino, como acreditava toda a cidadela, inclusive seu avô.

Apesar de tudo, Castiel se esforçara muito para fazer diferente. Seus lábios se curvaram ao lembrar-se daqueles anos vazios, sem fruto algum.

Quisera tanto encontrar o seu lugar naquele mundo, desde que compreendera ainda menino, que não tinha nenhum. Obedecia ao seu avô, em tudo, e era excelente aluno.

Trabalhara incansavelmente na pequena loja da família, sem reclamar, enquanto os outros meninos da sua idade se divertiam despreocupados. Nunca brigava com aqueles que o xingavam – ao menos nunca fora pego. Fizera o melhor que pudera para provar, com unhas e dentes, que ele não era merecedor dos insultos de que havia sido alvo desde que nascera. Queria mostrar a eles que não tinha culpa do que acontecera. Que pertencia ao povoado, à sua família, apesar do modo como fora parar lá.

A antiga frustração ameaçou voltar a tomá-lo de assalto.

Sem conseguir, é claro. Para tanto, seria preciso que Castiel tivesse um coração, e ele havia se virado muito bem sem um, por mais de vinte anos. Deliberadamente.

– Eu cumpri o meu dever – dissera o avô na manhã do décimo oitavo aniversário do neto, quase antes de Castiel ter despertado por completo, como se não pudesse mais esperar nem um segundo sequer, tão pesado era o fardo que vinha carregando por todos aqueles anos. – Mas agora você é um homem e deve suportar o peso da vergonha de sua mãe nas próprias costas.

Castiel se lembrou da expressão no rosto pétreo de seu avô, tão parecida com a sua. Aquela fora a primeira vez em que ele vira o velho parecer algo próximo de feliz.

– Mas, abuelo… – começara ele a dizer, tentando argumentar em seu favor.

– Você não é meu neto – dissera o velho, com aquela terrível fatalidade em seu tom de voz. – Eu fiz o que devia por você, e agora lavo as minhas mãos. Nunca mais me chame de abuelo.

E Castiel nunca mais o fizera. Não quando ganhara o seu primeiro milhão, nem quando comprara todas as propriedades daquela cidadezinha esquecida por Deus, cada casa, cada terreno, cada loja e cada prédio, ao completar 27 anos. Nem mesmo quando se vira diante do leito de morte do velho no hospital, e assistiu, impassivelmente, ao homem que o havia criado, se é que se podia chamar aquilo de criação, dar o último suspiro.

Não houvera nenhuma reconciliação nem arrependimento, ou revelação de última hora. Tudo ocorrera três anos atrás. Castiel tinha 33 anos, e já havia multiplicado os seus milhões inúmeras vezes.

– Você, não! – dissera o seu avô, olhando para Castiel, com horror. Quinze anos haviam se passado. – Ay dios mio!

– Eu – confirmara Castiel, friamente.

O velho havia se benzido com as mãos trêmulas, tortas por causa da artrite. Castiel não movera um músculo sequer.

– Você tem o diabo no corpo – praguejara aquele homem em cujas veias corriam o mesmo sangue de Castiel. – Ele sempre esteve dentro de você.

– Eu peço desculpas – dissera Castiel, secamente, quase despreocupado. – Eu era o seu dever, naquela época, e agora, pareço ser a sua maldição.

Como se tivesse concordado, o velho não disse mais nada. Apenas se benzeu outra vez, e pouco depois se foi.

Castiel não sentira absolutamente nada.

Não havia mais se permitido sentir coisa alguma desde que deixara aquela cidade, em seu décimo oitavo aniversário.

Tinha olhado para trás naquele dia e sofrido pelo que acreditara ter perdido. Sentira-se traído, descartado.

Tudo o que um homem fraco, um menino, sentia. Quando finalmente se refizera, aceitara o fato de que sempre estivera sozinho na vida e decidira que jamais voltaria a sê-lo, bloqueando a patética parte de si que ainda se atinha àqueles sentimentos contra producentes.

Ele havia deixado o seu coração na cidade montanhosa de sua juventude, e nunca se arrependera disso, nem se dera conta de sua falta.

Por isso não sentira nada quando adentrara o hall onde Camille aguardava por ele, com a expressão cuidadosamente neutra como era esperado de uma assistente pessoal bem paga para não esboçar reação alguma.

Não sentira nada durante o longo percurso de volta ao hotel em Cádiz, por entre as montanhas, em direção à Costa de La Luz, como uma viagem por suas lembranças. Não sentira nada pelo restante daquela longa noite, embora a manzanilla tivesse soltado a sua língua, e mais tarde o tivesse feito beijar Camille, contra uma parede, em uma calçada estreita da cidade antiga, erguendo-a contra si de modo que ela enroscasse as pernas em torno dos seus quadris, mergulhando no mel quente da boca de Cami, e de seu beijo.

Não sentira absolutamente nada.

Os lábios dela o haviam encantado, fartos e escorregadios sob os seus, bem como aquelas curvas sensuais deslizando contra ele. Castiel se excitou outra vez só de lembrar a cena, como se ainda estivesse naquela rua escura, há três anos, e não em uma noite gelada, em Milão. Seu coração traiçoeiro, que ele supunha ter conseguido treinar para não perder o compasso, insistia em lhe fazer perguntas que ele não queria responder, fazendo-o querer intensa e profundamente, a ponto de aquilo parecer mesmo uma necessidade. Ele soltou um xingamento em espanhol e esfregou o rosto.

Qualquer que fosse a loucura que estivesse tomando conta dele, contra a sua vontade e para além de se autocontrole, ela teria que parar.

Cami estremeceu quando o ar frio a atingiu, desejando ter vestido algo mais encorpado para dormir do que o pijama de seda, na cor champanhe, que o mordomo havia lhe providenciado, junto com o traje que ela havia usado no jantar. Já estava tentando dormir a horas, sem sucesso.

Por que concordara em trabalhar para Castiel por mais duas semanas, como ele havia solicitado? Já fazia dois dias desde que ela voltara atrás, sem que tivesse encontrado a resposta. Pelo menos uma que não a fizesse se odiar ainda mais. Cami acabou desistindo de tentar dormir e decidiu tomar um ar fresco.

Lá fora, a noite estava úmida. A escuridão era profunda, e as luzes da cidade piscavam suavemente ao redor. Aquilo era lindo, como tudo o que Castiel tocava tudo o que fazia. Como o próprio Castiel. E tão frio quanto, também.

Ela havia ficado porque aquela era a solução mais rápida e fácil, ou pelo menos assim dissera a si mesma, nos últimos dois dias.

O que eram duas semanas, afinal? Aquilo passaria voando, e então tudo estaria terminado.

Por um lado, estava aliviada, como se Castiel pudesse recuperar o bom senso e vir a se redimir... Ela se desesperou com a fé que tinha nele. Como podia confiar que teria força suficiente para deixá-lo em duas semanas quando falhara tão espetacularmente naquele quesito até agora?

– Se você se jogar de uma altura como essa, descobrirá que a Piazza Del La República não amortecerá a sua queda do mesmo modo como o mar Adriático – disse Castiel, em meio às sombras, fazendo Cami se sobressaltar.

Ela bateu no peito como se pudesse forçar o seu coração a parar de bater daquele jeito, tomado de pânico.

Ele estava impossivelmente sexy. Usava apenas um robe de seda que ele não havia se preocupado em fechar por cima de uma cueca preta justa, apertada na altura das coxas, fazendo-o parecer um misto deslumbrante de rei e modelo de lingerie. A boca de Cami secou. Uma coisa era encará-lo usando seus ternos de grife. Outra, quando usava trajes casuais que enfatizavam a sua graça atlética e masculina. Mas aquilo...

Aquilo era praticamente um sonho se tornando realidade. O seu, ao menos.

Subitamente, Cami teve consciência de como o pijama de seda acariciava a sua pele a cada respiração, e que se sentia mais nua do que se estivesse efetivamente sem roupa. Sentiu um calor se instalar e passear por todo seu corpo, como um toque.

Não importava o quanto estivesse zangada com ele, nem o quão tola ou traída se sentisse.

– Eu não sabia que você estava aqui fora – disse ela, percebendo um leve tremor na voz que a denunciou.

Aquilo só fez chamar ainda mais atenção sobre os sentimentos que ela não queria admitir para si mesma e muito menos para ele. Como se derretia por Castiel, mesmo agora. Como latejava em todos os lugares que desejava ser tocada por aquelas mãos quentes e por aquela boca inebriante. Seus lábios, seus seios. E aquela fome entre suas coxas.

Era como se a escuridão, ou o adiantado da hora, não lhe permitisse mais mentir para si mesma.

Ele inclinou a cabeça muito levemente ao se aproximar, avaliando o rosto dela. Estivera mais frio e distante que o habitual durante o jantar, fazendo com que Cami se questionasse verdadeiramente quanto à sua sanidade mental e seu amor-próprio ao se flagrar preocupada com ele.

Não era de surpreender que ela não conseguisse dormir.

– Aqui estamos nós, outra vez, em meio à escuridão – disse ele.

Seu rosto parecia ainda mais feroz em meio às sombras, iluminado apenas pela luz que vinha de dentro da casa, mas o cinza intenso dos olhos parecia chamuscar a sua pele.

Cami sentiu as palavras dele ressoarem nela, provocando uma dor intensa diante da ideia de que algum dia realmente deixaria aquele homem e teria que sobreviver sem ele.

– Eu não tive a intenção de perturbá-lo, Senhor Collins.

Lágrimas de raiva e exaustão inundaram os olhos dela, deixando-a envergonhada e enfurecida. Ela piscou repetidas vezes para contê-las, desviando o olhar do dele.

Castiel estendeu a mão e tocou o braço dela, com sua mão firme e quente. Cami congelou, temendo encará-lo e correr o risco de ele ver toda a confusão, atração e mágoa que ela tão desesperadamente tentava esconder. Em vez disso, ela fingiu estar profundamente interessada em seu rabo de cavalo, passando as mãos por ele, nervosamente.

Ele, porém, fechou os seus dedos em torno do cabelo dela, inclinando a cabeça de Cami para que ela o encarasse antes de soltá-lo.

A doçura daquele gesto tirou o fôlego dela. Talvez aquilo não passasse de mais um de seus sonhos com Castiel, dos quais ela despertava em pânico, em sua minúscula quitinete, arfante e frustrada.

– Diga-me – falou ele, com uma voz grave, porém muito poderosa, fazendo a resolução dela vacilar. – Por que você realmente quer me deixar?

Castiel não havia jogado nada na sua cara, mas perguntara-lhe o que a fizera olhar para ele como se naquele lugar, na calada da noite, ele pudesse se aproximar o suficiente do homem que ela acreditava que ele fosse a ponto de ela poder lhe contar ao menos parte da verdade.

Mas ela piscou novamente, e o calor nos olhos de Castiel fez com que ela se lembrasse de quem ele realmente era.

– Por que está tão determinado a me fazer ficar – perguntou ela – se nem mesmo acredita que eu tenho capacidade de fazer outra coisa que não ser sua assistente.

A boca dura dele se moveu, embora não se tratasse de um sorriso.

– Algumas pessoas seriam capazes de matar por esse privilégio.

Ele estava perto demais, e a poesia puramente masculina de seu belo torso nu, logo ali, aparentemente imune ao frio, estava desviando sua atenção.

O fato de sua reação a ele continuar tão intensa quanto fora há três anos à fez estremecer, como se o seu corpo não pudesse mais fingir que Castiel não a afetava.

– Suponho que esteja me punindo.

Cami avaliou o rosto dele com o coração na boca, ao ver apenas o que sempre via, e nada mais. Aquela expressão implacável e beleza feroz. Tão inalcançável quanto às estrelas no alto, ocultadas pelas nuvens.

Ele franziu a testa.

– Por que eu a puniria?

Cami sentiu as suas sobrancelhas se arquearem de incredulidade.

– Cádiz, é claro.

Castiel soltou um som impaciente.

– Nós certamente temos questões suficientes e não precisamos recorrer a fantasmas – disse ele, com aquela nota estranha em sua voz outra vez.

Como se ele mesmo também não acreditasse em si.

– Um único fantasma – lembrou-a, sem desviar o seu olhar do dele. – Foi apenas um beijo, não foi o que nos dissemos? E mesmo assim você ainda me pune por isso.

– Não diga absurdos.

– Você me pune – repetiu ela, firmemente, apesar da rouquidão em sua voz. – E foi você quem começou tudo.

Ele fizera bem mais que isso. Havia ateado fogo a ambos. Passara o braço em torno dela, zonza depois de tantas tortitas de camaronês, calamares en su tinta e xerez espanhol, e aquela inebriante descoberta, depois de trabalhar dois anos para Castiel, de que havia algo nele que ia além de suas demandas implacáveis e seu estilo agressivo de fazer negócios. Ela sentira o cheiro do seu perfume e do couro que ele estava usando e percebera o calor que emanava da pele dele, sob as suas roupas, tonta com a combinação. Estava comovida por aquela cena de cortar o coração que ele enfrentara com o avô. Compadecera-se tanto pelo que havia acontecido quanto pelo que aquilo tinha causado a ele. Castiel conversara com ela naquela noite, como se ambos fossem mais do que os papéis que representavam.

Aquilo fora mágico.

E então Castiel a pressionara contra a parede mais próxima, e Cami parecera explodir junto a ela, como se estivesse esperando exatamente por aquele momento.

Castiel murmurara algumas palavras que ela não compreendera, e sua boca se apossara da dela, exigente, como tudo o mais que ele fazia. Cami havia sido consumida por um misto de fogo e desejo, e ela se perdeu em meio àquela tempestade, flagrando-se enroscada nele, com as pernas em torno dos seus quadris, enquanto ele pressionava o corpo maravilhoso contra o dela, enquanto sua boca exigia a dela outra e outra vez... Aquilo a mantivera desperta durante noites a fio. E ainda mantinha.

– Não há punição alguma.

A voz grave de Castiel trouxe Cami de volta ao presente.

Os olhos espertos dele procuraram os dela, como se pudessem enxergar as suas lembranças, como se soubesse exatamente o que aquilo havia provocado nela, mesmo depois de três anos.

Como se ele sentisse o mesmo calor, o mesmo desejo.

Como se Castiel também desejasse que eles não tivessem sido interrompidos.

O grupo de estrangeiros que gargalhava mais adiante, na calçada, se aproximara. Ele a colocara de pé novamente, de modo gentil. Quase gentilmente demais. Eles olharam um para o outro, ambos respirando com dificuldade, e zonzos, antes de retomar o caminho para o hotel, onde se separaram no corredor, do lado de fora de seus respectivos quartos, sem dizer uma palavra.

E nunca mais voltaram a discutir o assunto.

– Então por quê…?

Ele passou a mão pelo cabelo dela.

– Eu não queria que você fosse embora – disse Castiel, com a voz abafada. – Não havia nenhum motivo subliminar. Eu lhe disse; não gosto de dividir o que é meu. – Ele suspirou. – Você é parte integral do que eu faço, e, certamente, sabe disso.

Cami balançou a cabeça, incapaz de processar aquilo.

Castiel estava falando de trabalho, a lembrou a si mesma, ferozmente, apesar de ele olhar para ela com aquele calor em seus olhos. Não existia nada mais para ele, além disso.

E aquilo doía.

– Do que você tem tanto medo? – perguntou ela, antes de se perguntar se queria mesmo ouvir a resposta. – Por que não pode admitir o que fez?

Ele a olhou com uma expressão muito grave por um momento. A cidade estava tão silenciosa que parecia existir somente eles dois no mundo. Cami se flagrou mordiscando o lábio inferior.

Daquela vez, ele usou as costas da mão para acariciar o rosto dela, delicada e muito levemente, chamuscando-a com um leve beijo, até a respiração seguinte de Cami soar como um soluço.

– Você está fria – disse ele outra vez, naquela voz abafada.

Era verdade, ela estava gelada e tremendo incontrolavelmente.

Se ele queria pensar que aquilo se devia ao frio, ela não o contestaria.

– Vá dormir um pouco – ordenou Castiel, com os olhos escuros e a boca sombria.

Ele a deixou lá, trêmula e à beira das lágrimas, sem conseguir compreender o que estava acontecendo e com a cabeça girando tão loucamente quanto em Cádiz, quase como se ela tivesse sonhado tudo aquilo.

Quase.


Notas Finais


#MARATONA01/05


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