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História Demônio ou maldição? - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Olá meus lindos, sejam bem-vindos.

Estou postando esta fic aqui apenas porque a amo muito. Espero que vocês gostem dela tanto quando eu e meu squad surtadinho :)

Capítulo 1 - Past


 

오직 하나 엄마 손이 약손

그대는 영원한 나만의 placebo

I love mom

 

_____

 

- Aceita mais uma xícara de chá, meu anjo?

- Claro mamãe. - o pequeno respondeu com um sorriso.

Dita a resposta, o bule de chá se ergueu magicamente pelos ares, seguido pela xícara, imediatamente servindo o garoto com mais um pouco da bebida fumegante.

- Obrigado mamãe. Você é a melhor mãe do mundo!

Jungkook sorriu mostrando seus dentinhos, muito feliz por ter aquela linda mulher sempre ao seu lado, fazendo-lhe companhia.

- E você é o melhor filho que eu algum dia poderia querer. - ela respondeu com um sorriso maior ainda.

O pequeno sorriu novamente, levando um pedaço de bolo até a boca. Ele mastigava com vontade quando percebeu que seu amigo não estava tão contente assim. Nem havia tocado na comida ainda.

- Mãe, o Sr. Bigodes tá estranho. - Jungkook disse apontando para o pequeno coelho sentado na cadeira ao seu lado.

- Oh, ele deve estar com ciúmes. Acho que eu devo elogiá-lo também.

A pelúcia apenas concordou com a cabeça, esperando o melhor dos elogios.

- Você é o melhor amigo que meu anjo poderia ter. É fiel, companheiro e muito divertido. Eu nunca vou me esquecer de tudo o que nós três passamos juntos.

O Sr. Bigodes, em resposta a declaração, pulou alegre no lugar, indo num salto para o colo de seu amado dono.

O pequeno coelho praticamente se camuflava na roupa preta e branca do menor, sentindo-se protegido toda vez que recebia algum carinho. Jungkook sempre o abraçava apertado, dando um beijinho no focinho dele várias vezes por dia.

Apesar de ser um brinquedo, Sr. Bigodes tinha uma extrema importância na vida do pequeno garoto de seis anos. Era ele e sua mãe as suas únicas companhias naquela enorme mansão. E graças a mulher, o coelhinho fofo conseguia animar e trazer ainda mais vida ao cotidiano do menino.

- Jungkook! Ei! Cadê vocês? Já é hora de ir para a escola! - o Dr. Jeon gritou, procurando pela família.

- Estamos aqui querido! - a mulher respondeu, abrindo as portas do quarto.

- Ah, finalmente achei vocês. Vamos Kook.

- Mas eu não quero ir pra escola hoje papai! - o garotinho disse com um biquinho, abraçando o coelho com mais força.

- Não tem essa de não querer. Já conversamos sobre isso. Agora vem. - homem mandou, estendendo gentilmente a mão para o filho.

Jungkook apenas olhou para a mãe, esperando uma resposta dela.

- Você tem que ir meu anjo. Eu prometo que depois a gente cozinha juntos. O que acha? - ela perguntou enquanto se ajoelhava para ficar na mesma altura do garoto.

- Tá bom. - o pequeno respondeu cabisbaixo. Ele adorava cozinhar com a mãe apesar de que dessa vez era pura chantagem por parte dela. - Mas 'leva eu' pra escola hoje?

- Você sabe que eu não posso meu anjo. - a mulher respondeu rindo da fofura de seu filho. - Mas posso te levar até a porta, pode ser?

Ele apenas concordou com a cabeça, um pouco deprimido. O pequeno detestava ir para a escola. Naquele lugar, Jungkook era triste e incompreendido. Lá o Sr. Bigodes não tinha mais a sua habitual vitalidade e as outras crianças riam dele quando o coelhinho permanecia imóvel mesmo Jungkook jurando que ele tinha vida própria.

Além disso, os outros colegas não o interessavam muito. Eram apenas crianças chatas e hiperativas que viviam correndo por aí. Enquanto elas brincavam animadas por aí, o garoto tímido só gostava de ler, desenhar, pintar ou brincar com seu amado coelho.

Jungkook só se revelava ser uma criança de coração puro e feliz para a sua melhor amiga, sua própria mãe.

 

X

 

A família Jeon adquiriu o terreno que tanto sonhava por um preço esdrúxulo.

Ele ficava numa zona rural, a meia hora de qualquer outra construção humana, ou seja, a paz aparentemente reinaria naquele lugar.

O casal, com o dinheiro que economizaram na compra das terras, resolveram construir uma gigantesca e imponente mansão. Digna do nome da família.

Porém o que mais tinham orgulho era do glorioso jardim em si. Lá era um lugar extremamente fértil para plantar as mais diversas espécies de árvores e flores existentes. E apenas isso já foi o suficiente para as pessoas começarem a sentir inveja. Vinda principalmente por parte dos empregados.

Não bastava todo o amor e respeito que recebiam por trabalhar lá. Eles queriam gozar dos mesmos privilégios que o casal possuía, tanto na terras férteis como na relação maravilhosa entre marido e mulher que tinham.

E um certo dia, quando a senhora Jeon recém tinha tido seu primeiro filho, uma das empregadas, cansada de atender as dezenas de pedidos da patroa, se irritou e gritou com ela.

- Se não está gostando da decoração, faça você mesma sua bruxa!

Bruxa era um dos piores apelidos que a mulher possuía. Só porque ela gostava muito de chás e passava a maior parte do tempo conversando e cuidando de suas plantas, não significava que ela tinha alguma relação com magia negra ou bruxaria.

- Eu sei que estou sendo um pouco exigente demais mas... Eu ainda estou de repouso. Não consigo organizar a festa sozinha.

- Não interessa! Eu já estou de saco cheio de tanto mudar essas flores de lugar. Por que não usa sua varinha mágica pra fazer esse lixo de festa acontecer? Tenho certeza que vai funcionar bem melhor do que meus serviços.

Rose, como gostava de ser chamada, era uma mulher linda, frágil e delicada como as flores que cultivava no jardim. Ela era extremamente amorosa e gentil com as pessoas que amava, além de muito apegada as coisas ao seu redor. Praticamente tudo naquela casa possuía algum valor sentimental na vida dela.

- ÓTIMO! Se é assim, meus poderes de bruxa farão essa festa ser a melhor que esta cidade já viu! E você está demitida. Suma desta casa antes que eu te envenene com minhas ervas.

Mas sua fragilidade também levava a sua personalidade para um lado cruel e vingativo. Ela possuía tantos acúleos quanto uma bela rosa vermelha a espera de ser colhida.

Contudo, como esperado, aquele terreno onde a casa foi construída não era normal. O preço baixo justificava o medo do antigo morador. Lá, por algum motivo desconhecido, era uma terra amaldiçoada.

A fertilidade tinha um preço. Neste caso as palavras.

Qualquer um que dirigisse seu verdadeiro ódio, inveja e maldade para aquele terreno seria amaldiçoado. Porém eram os moradores quem sofreriam da maldição, não as pessoas más que proferiam tais palavras.

Isso fez a família Jeon arcar com as temidas consequências.

Mais especificamente a tal bruxa.

A empregada ao lançar-lhe inveja e ódio fez com que a jovem mãe fosse amaldiçoada com aquilo que mais amava.

Sua casa.

E seu filho.

No dia seguinte a demissão da invejosa, Rose começou a sentir-se diferente. Parecia mais forte. Mais viva. Como se todos os seus desejos pudessem se tornar realidade.

Por causa disso, resolveu dar continuidade a belíssima coroa de flores que seria exposta em sua festa de aniversário. Ela estava sentada em uma cadeira, observando os resultados da última modificação que fez, quando sentiu que precisava de mais lírios para terminar a decoração.

Só que eles estavam numa cesta longe dela. E a mulher não queria gastar suas forçar em se levantar. E foi através do poder de sua mente que as flores chegaram mais perto de si.

Primeiro ela pensou que fossem coisas da sua mente perturbada.

Porém as movimentações não pararam por ali. Não foi somente a cesta de lírios que se moveu sozinha. Com o tempo, todos os objetos que ela quisesse se moviam por conta própria.

Rose havia adquirido um novo poder. A telecinese.

 

X

 

Infelizmente, esse novo talento não trouxe apenas praticidade na vida da família.

Apenas mais inveja e ódio era propagado pelos poucos empregados que viviam lá.

Rose tentava esconder seu segredo a todo custo, mas às vezes era pega de surpresa abrindo as cortinas sem usar as mãos, por exemplo. Ou então impedindo alguma louça valiosa de cair no chão apenas com o poder da mente.

Os termos feiticeira, bruxa e até demônio eram cada vez mais proferidos dentro daquela mansão. E a mulher sabia muito bem disso.

Por causa disso, ela passou a ficar com os ouvidos mais atentos. E claro, começou a se armar de objetos perfurantes, caso alguém tentasse fazer algum mal a si ou ao marido e filho.

Mas isso não impediu que as ameaças de morte chegassem. Principalmente das vindas de seu próprio pai.

Ele abominava a própria filha desde pequena. O homem nunca conseguiu ter um filho do sexo masculino como sempre sonhou e culpava Rose por isso. Dizia que foi ela quem trouxe má sorte para a família e por isso, sempre a tratou muito mal.

A pobre mulher tinha medo do próprio pai.

E tudo piorou quando ele resolveu passar uns tempos na mansão da família, com o propósito de se aproximar de seu único netinho, Jungkook.

- O vovô Sung chegou nessa casa para trazer muita alegria ao seu netinho! E claro, para a minha filha também. Eu decidi que quero me reaproximar de você. Fazer as pazes.

Era tudo mentira. O homem de idade já avançada queria apenas roubar o herdeiro para si e destruir a vida do jovem casal. Especialmente a de Rose.

E quando ele descobriu os poderes da única filha, não pensou duas vezes antes de planejar sua ruína. E tudo com a ajuda de alguns outros empregados que desejavam a mesma coisa.

- Vamos fazer algo trágico. Bem cara de filme de terror.

- E tem que ser no aniversário dela né? Se não perde a graça. Imagina ela sendo desmascarada na frente de todos os convidados?

- Nossa, mas como vamos fazer isso sem ninguém desconfiar da gente?

- Nada disso! Ninguém vai desmascarar nem acusar a minha filha na frente dos outros. É o nome da família Jeon que está em jogo. Vamos matá-la discretamente. E quem vai fazer isso sou eu. Já está decidido. Apenas desejo a colaboração de vocês, meus caros.

O destino de Rose infelizmente já estava selado.

 

X

 

13 de setembro.

Uma sexta-feira 13 de Lua cheia.

Um belo dia para se celebrar a bruxaria e a magia negra.

Rose não poderia estar mais feliz. Sua festa de aniversário estava linda, exatamente como havia planejado. Flores por todo lado, pessoas felizes e claro, sua família sempre presente ao seu lado.

Jungkook havia acabado de completar oito anos fazia pouco menos de duas semanas e estava radiante enquanto dançava por aí com Sr. Bigodes. É, o pequeno coelho ainda era seu companheiro mais fiel.

O filho, vestido com um adorável terno preto e branco, não queria de jeito nenhum desgrudar da mãe, a linda aniversariante que trajava um belíssimo e invejável vestido vermelho. Ela parecia mais jovem do que nunca e deixava isso transparecer mais e mais a cada sorriso.

Porém, como dizem por aí, a alegria dura pouco.

- Atenção! Atenção meus caros convidados. Gostaria de celebrar esta noite muito especial com a razão de toda a minha felicidade diária. - o Dr. Jeon disse, iniciando a fala sorridente enquanto segurava uma delicada taça de vinho em mãos. - Um brinde a minha querida esposa!

Todos os convidados brindaram entre si, extremamente lisonjeados por terem sido chamados para comemorar o aniversário da esposa do melhor médico da cidade.

A festa seguia bem tranquila, as pessoas dançando, comendo e se divertindo ao luar da noite brilhante e agradável.

- Senhora, estamos com um problema.

- O que houve? - Rose perguntou para o empregado que a puxou para um canto disfarçadamente.

- Parece que aconteceu um problema na fiação lá do porão. Seu pai está preocupado.

- É tão urgente assim que ele não pode consertar sozinho? Ou então deixar para amanhã?

- Ele deu ordens explícitas de que precisa da sua ajuda e opinião com as coisas lá em baixo.

- Aish, tudo bem. Cinco minutinhos a menos de festa não vão me fazer mal.

Dito isso, a mulher traçou seu caminho até o gigantesco porão que havia na mansão ao lado do empregado traidor. E Jungkook, sendo uma criança muito curiosa, seguiu-a as escondidas.

Rose chegou lá em baixo e encontrou seu pai na escadaria, apenas esperando pela sua chegada.

- O que aconteceu Sung? Não dava para deixar pra amanhã de manhã?

- Não minha filha. Você tem que morrer hoje.

- Mas o qu-

E sem mais nem menos, o homem a puxou pelo braço, empurrando-a escada abaixo. A mulher imediatamente desmaiou com o impacto.

Sung já estava buscando a querosene quando Jungkook apareceu, estranhando o que sua mãe estaria fazendo no porão tão tarde da noite.

- Mamãe? Você tá aí em baixo?

- Sai daqui garoto. Não tem nada pra você ver aqui. - o avô respondeu enfadado, jogando algum líquido esquisito e de cheiro forte em algo lá no final da escadaria.

Hoje ela iria queimar como punição da bruxa que era.

As luzes estavam apagadas então o garotinho não conseguia ver direito. Ele não respondeu o avô, decidindo apenas descer as escadas, ainda agarrado ao seu inocente coelhinho de pelúcia.

- Eu disse pra sair daqui garoto! Nem pra me obedecer você serve! - o homem gritou irritado. 

- Mas... Eu quero a minha mãe.

- Quer é? Espero que você tenha falado tudo o que queria pra ela, porque você nunca mais irá vê-la. - Sung disse ao tirar uma caixa de fósforos do bolso. Antes de acender um e acabar com a existência da própria filha, ele pegou o neto inquieto no colo.

- Adeus minha filha. Espero que você não descanse em paz.

Ao se despedir, o homem ateou fogo no corpo, jogando o fósforo aceso lá em baixo.

Jungkook gritou, esperneou e chorou muito ao ver a sua pobre mãe sendo queimada viva, apesar de inconsciente.

O fogo parecia gritar enquanto explodia em chamas brilhantes, reflexo das lantejoulas do vestido vermelho como sangue. A fumaça e o cheiro estranhos começaram a preencher o local quando o pequeno foi carregado para longe dali. Ele já havia desistido de se debater, apenas chorando silenciosamente ao ver a sua amada progenitora desintegrando-se aos poucos, tornando-se apenas rastros carbonizados sem vida.

Rose infelizmente deixou como última lembrança um monte de cinzas injustiçadas no chão sujo do porão. Houveram muitíssimas boas memórias de seus tempos juntos como mãe e filho, claro, mas tudo somava-se a um vazio no coração que jamais seria preenchido novamente.

A única coisa que ainda o preencheria seria a maldição. Aquela que o assombraria pelo resto da vida.

 

X

 

Não foi um enterro fácil. Mas qual deles era?

O belíssimo caixão parecia reluzir toda a atmosfera pesada, cobrindo todo o quintal florido.

O céu chorava com aquela grande perda, e tudo parecia mais triste e sem graça com a ausência dela naquela casa. Até as flores estavam depressivas, suas pétalas mais murchas e sem a leveza natural.

- Mamãe... Tô com saudades...

Jungkook estava arrasado. A dor era tanta que ele já não conseguia mais chorar, o vazio da perda dilacerando seu peito e o impedindo de fazer qualquer outra coisa a não ser sofrer.

Sr. Bigodes ainda o acompanhava, seu corpo macio permanecendo inanimado desde aquele fatídico dia.

Sung também estava lá, com uma expressão impassível durante todo o funeral. No fundo, ele estava contente, nem um pouco culpado pelos seus atos. O plano havia sido um sucesso e todos acreditaram na morte acidental de sua filha. Exceto Jungkook, é claro.

O avô ameaçou tanto a criança que o garoto ficava pior a cada dia que se passava. Se é que isso era possível. Porém, o homem não se importava, só estava a espera de tomar o controle de tudo naquela família, inclusive de seu próprio neto.

O avô o faria brilhar com o orgulho do nome Jeon.

Engano dele.

Jungkook jamais realizaria o sonho daquele homem vil, horrível e assassino.

Após selar o túmulo de Rose no porão da mansão, o temido lugar onde tudo aconteceu, todos foram embora, deixando o garoto e seu pai sozinhos na gélida mansão. O luto era grande demais para ambos e não estava sendo nem um pouco fácil. Principalmente para o pequeno.

Ele era assombrado por pesadelos horríveis todas as noites. Vozes aterrorizantes diziam frases sem nexo, objetos aleatórios flutuavam ao seu redor, o fogo se espalhava por toda parte junto do sangue manchando as paredes, como pegadas que o levavam para baixo. Jungkook estava completamente sozinho, sendo perseguido por facas, adagas, ancinhos, tesouras, agulhas e quaisquer outros itens perfurantes. E no final de tudo, o pequeno acabava sendo levado até o porão. Onde sua mãe estava. 

Ela sempre o esperava de braços abertos, acolhendo o filho com um abraço apertado. Rose sorria para o seu menino, reluzindo ainda mais sua beleza junto de seu vestido vermelho. Para tranquilizá-lo de seu choro, a mesma frase era repetida todos os dias.

"Vai ficar tudo bem. Eu prometo meu anjo. Você só precisa aceitar." 

"Aceite-o dentro de você e eu ficarei orgulhosa."

E Jungkook acabou aceitando aos poucos.

Mas não foi simples.

Na primeira semana de luto, ele ainda parecia normal. Ficava a maior parte do tempo parado, olhando para o vazio. Seu pai ainda tentava conversar com ele, dando todo o apoio e carinho possível. Já na segunda, o contato humano passou a ser restrito. Jungkook não falava com mais ninguém, nem sequer chegava a tocar em qualquer pessoa.

O progenitor já estava ficando preocupado com esses sintomas, por isso tentou de tudo para se reaproximar do filho. Porém não obteve progresso algum. Ao menos, depois de alguns dias, o garoto voltou a "viver normalmente", seguindo a rotina de acordar, comer (muito menos que o normal por sinal), ler e até brincar.

Mas foi na terceira semana, que a telecinese teve início. Começou com um simples reflexo matinal de abrir as cortinas e avançou até o ponto de alcançar um livro no alto da estante em menos de dois dias. O grande problema foi que Jeon não tinha controle algum sobre suas habilidades.

De vez quando os objetos se moviam por conta própria e chegavam a voar por aí, quase machucando ele mesmo. O garoto estava ficando assustado. Adquirir os mesmos poderes da mãe não estava sendo algo bom. Muito menos normal.

Até o Dr. Jeon ficou com medo dele. Ele queria fugir daquela casa, esquecer esses problemas paranormais e seguir uma vida qualquer de um homem viúvo. Infelizmente, esse sonho jamais se tornaria realidade.

Jungkook se tornaria o dono daquela mansão. Seria ele quem ditaria as regras do próprio jogo.

 

X

 

Jungkook ainda estava aprendendo a controlar seus poderes quando o avô resolveu vir visitá-lo. Foi naquele mesmo dia que o garoto perdeu completamente o controle sobre si.

E pensar que tudo começara com uma inocente brincadeira.

O velho homem entrou no salão principal, procurando pelo neto. Mas ele não estava por lá. O único sinal de vida presente na casa eram as velas acesas que iluminavam o aconchego da mesa de madeira rústica. O silêncio reinava no local.

Mas então o piso rangeu.

- Jungkook? É você? - o homem perguntou, olhando para todos os lados a procura do menino.

Logo em seguida as cortinas se remexeram apesar da janela não estar aberta.

- Jungkook, eu sei que é você. Seu pai me contou o que está acontecendo.

Ignorando o diálogo, Jungkook apagou as luzes, deixando Sung apenas na companhia das chamas brandas oferecidas pelas velas. O homem apenas suspirou, esperando o joguinho infantil acabar.

O problema era que aquilo não estava sendo uma brincadeira.

Foi naquele momento de silêncio que o Sr. Bigodes apareceu, saltitando como se fosse um animal de verdade. Ele parou em frente ao estranho, encarando-o e girando a cabeça por alguns segundos antes de atacar, empurrando-o contra a parede próxima da janela com uma força sobre-humana.

E antes que o homem pudesse dizer alguma coisa, uma faca de açougue apareceu flutuando, rapidamente rasgando apenas a frente de sua blusa social.

- Mas o que-

Foi nesse momento que Jungkook se revelou para o avô, segurando novamente seu adorado coelhinho.

A faca ainda rondava o homem, dançando despreocupadamente enquanto esperava a hora certa de atacar.

- Jungkook, o que aconteceu?

Não houve resposta.

- O que você quer? - a essa altura, Sung já estava ficando com medo das atitudes do neto.

Um sorriso fechado preencheu os lábios do garoto antes da lâmina lentamente rasgar a superfície da pele flácida do velho homem, formando um X perfeito em seu abdômen. Ele se contorceu um pouco de dor, mas nada se comparava a sensação que teve quando um fino pincel e uma folha A3 surgiram pairando na sua frente.

Sung olhava aterrorizado para o papel enquanto o pincel fazia cócegas em seu abdome. Palavras escritas com seu próprio sangue eram reproduzidas lentamente na folha.

"V o c ê   a   m a t o u .

A g o r a   v a i   p a g a r ."

O homem arregalou os olhos quando leu a mensagem por completo. Ele só podia estar sonhando. Nada disso poderia ser real. Seu próprio neto... Querendo vingança?

Sung queria fugir para longe daquele garoto demoníaco, longe daquela casa mal assombrada, longe daquele pesadelo horrendo. E foi o que fez.

Mesmo sangrando, ele se levantou com dificuldade e começou a correr até a porta principal. Ironicamente, ela estava aberta, só o esperando chegar lá. Lá fora, as belas cores do entardecer o chamavam como um doce afrodisíaco.

Sung permitiu-se sorrir quando chegou perto da liberdade. Porém ele nunca conseguiu senti-la de verdade.

A saída se fechou tão rápida quanto abriu. Dezenas de objetos perfurantes o esperavam no lugar, todos apontados para si.

- Eu não quero ir lá fora hoje vovô. Vamos brincar no porão. Eu prometo que vai ser divertido. - Jungkook disse, as primeiras palavras depois de tantos dias em silêncio.

O homem engoliu em seco, um arrepio percorrendo sua espinha ao ouvir a palavra 'porão'.

Eles ficaram em silêncio alguns segundos, como se refletissem no que fazer a seguir. A calmaria, porém, não durou muito, logo se transformando em uma tempestade de ódio.

Os diversos objetos começaram a rondar o homem, como se dançassem ao ritmo de uma música imaginária. Nesse intervalo de tempo, as armas propositalmente deram caminho a uma rota de fuga e Sung não pensou duas vezes antes de correr. Porém o primeiro ataque não demorou muito, vindo de uma faca que o espetou pelas costas, fazendo-o se movimentar mais rápido.

As investidas continuaram durante o longo caminho até o porão. As facas, adagas, tesouras e agulhas o guiavam até lá, deixando um rastro de cortes não letais por todo o corpo do avô, desde as pernas até rosto cansado que emitia grunhidos de dor. A cada segundo ele ia mais devagar, perdendo o fôlego e a força aos poucos.

Quando chegaram ao destino final, o homem já não se aguentava mais de pé, quase caindo escada abaixo como a filha havia feito a quase um mês atrás.

Ele se deixou tombar no último degrau, soltando-se do corrimão e apenas esperando pelo golpe final de seu neto. O homem já sabia que iria morrer e queria que acabasse logo. O medo e a adrenalina ainda percorriam suas veias pedindo por um descanso.

Mas Jungkook não permitiria que fosse algo tão fácil assim.

Ele queria sofrimento. Vingança pela dor que sentia no coração naquele exato momento.

E num passe de mágica, as armas pararam de rondar por aí e voltaram para os seus devidos lugares espalhados pela casa. Enquanto isso, Jungkook acomodava-se tranquilamente num dos primeiros degraus da escada, tirando de trás de si um grande pacote de sal.

Ele sorriu maldosamente, lentamente abrindo a embalagem. Com o poder da telecinese, espalhou e esfregou o conteúdo por todo o corpo ferido do homem, fazendo-o sentir uma dor inimaginável. Os gritos e o choro podiam ser ouvidos lá de fora como um sinal de tortura.

Era como música para os ouvidos de Jeon. Ele assistia o avô sofrer com tranquilidade, acariciando seu coelho macio e felpudo enquanto longos e arrastados minutos se esvaiam.

Quando se cansou de observar o homem se contorcer, resolveu acabar logo com a existência dele, da mesma maneira que a vida de sua mãe lhe foi tirada. Com fogo.

Ele simplesmente pegou um pequeno fósforo, acendeu-o e sem a menor piedade, ateou fogo em Sung. O homem demorou um bom tempo para se transformar em cinzas, a pele derretendo lentamente, os nervos gritando enquanto desfaleciam, o corpo desfigurado perdendo forma.

O sofrimento dele foi muito pior, pois ao contrário de Rose, não houve combustível para alimentar as chamas.

O único alimento que havia naquele instante era a vingança. E Jungkook estava cego por ela. Estava tão fissurado que quando esse sentimento cessou, o pequeno pareceu acordar de um transe. Ele se levantou da escadaria, confuso e com uma forte dor de cabeça. O garoto foi dormir parecendo não se lembrar de nada.

Jeon Jungkook não tinha mais um coração puro.

 

X

 

Não demorou muito tempo para descobrirem o assassinato de Jeon Sungmin. Foi algo óbvio e facilmente explicável devido as circunstâncias.

Todos daquela casa começaram a sentir medo de verdade depois daquele dia. Porém Jungkook não se importava. Jeon finalmente havia voltado a ser uma criança normal, sem surtos. Com a exceção dos momentos em que tocavam no assunto da morte do avô. Naquelas horas o menor chegava a ameaçar até o próprio pai com algum objeto letal, principalmente quando ele o acusava de assassinato. Mas não havia o que fazer. Afinal, era o garoto quem ditava as regras por lá.

Porém, isso não significava que o Dr. Jeon desistiria de procurar uma cura para a maldição do filho. Ou qualquer coisa que pudesse trazer a sua doçura habitual de volta. Seu menino havia se tornado num ser frio, sádico e maldoso, um verdadeiro assassino cruel.

Ele não se relacionava com mais ninguém. Estudava em casa e fazia o que bem entendesse para se divertir. Não importava quantas pessoas o pai chamasse para tentar benzê-lo, exorcizá-lo ou quem sabe conversar. Tudo sempre terminava em frustração.

Mas Jungkook ainda tinha salvação. Afinal ele era um ser humano. Não era?

Seu pai queria acreditar nisso. Rezava por isso todas as noites. Seria uma dor grande demais descobrir que seu próprio filho estava possuído por um demônio.

Não poderia ser verdade.

Ele não queria crer no que estava bem na frente de seus olhos.


Notas Finais


E aí, o que acharam???


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