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História Demônio ou maldição? - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


LEIAM EDGAR ALAN POE

Bom dia.

Capítulo 3 - Trying


You know that I can't

Show you me

Give you me

초라한 모습 보여줄 순 없어

또 가면을 쓰고 널 만나러 가

 

_____

 

- Agora você tem medo até de chegar perto de mim? Sério mesmo isso?

Jimin estava encolhido no canto de uma parede, tremendo de medo. Toda aquela história de que iria ser brutalmente assassinado por Jungkook o deixara realmente apavorado. Não parecia mais uma brincadeirinha tola de telecinese e perseguição. O garoto poderia mesmo ser morto por aquele ser que estava em sua frente.

- Ah, me poupe de tanto drama. O que papai te contou pra você ficar assim?

- E-ele disse que v-você vai me m-matar.

- Ah, então é por isso. - Jungkook disse com um sorriso cômico no rosto. - Relaxa, eu não vou te matar. Pelo menos não por enquanto.

- O q-que quer dizer com isso?

- Ninguém nunca chega aqui em casa e morre na hora. Eu não sou esse tipo de pessoa. Tenho um mínimo de hospitalidade a zelar.

- E que tipo de assassino de você é? - Jimin perguntou receoso.

- Isso só o tempo irá dizer. Agora se me der licença, tenho mais o que fazer. - o moreno falou, já se virando para ir embora.

- Espera! Tenho mais uma pergunta.

- Ora, ora. Não era você quem estava morrendo de medo da abominação que vos fala?

- Quanto tempo durou a última pessoa?

- Uns três meses. - o mais novo pensou, jogando a franja para trás com um balançar de cabeça. - Se você me entreter o suficiente, quem sabe consiga durar mais. Agora tenha um bom dia.

Bom dia? Como raios ele teria um bom dia depois daquelas notícias?

Depois de alguns minutos acocorado na parede, Jimin resolveu se levantar e voltar o quarto, começando a refletir seriamente sobre o que faria.

A primeira coisa que passou por sua mente foi a própria mãe. Ela realmente havia o abandonado. Descartado. Vendido. Tudo por causa daquela maldita dívida causada pelo seu pai, que do dia para a noite sumiu, deixando as contas para os dois pagarem. Bom, ao menos agora a mulher poderia ser feliz. Ela não tinha mais o peso morto que era Jimin.

Sim, era isso que Park Jimin sempre se considerou. Um estorvo naquela casa. A relação mãe-filho nunca fora boa de verdade. Tudo pelo fato dela sempre trabalhar até a completa exaustão, tentando ganhar mais para pagar o que devia. Por causa disso, os dois nunca foram extremamente próximos. Além disso, o menor não facilitava. Praticamente vivia na casa de um amigo, Taehyung. O qual também sentia muita falta.

Porém, como o Dr. Jeon havia dito, o importante era pensar no presente. Jimin secou a lágrima que escorria pelo seu rosto e começou a pensar em como ele iria sair vivo dali.

Quanto mais próximo você estiver do coração de Jungkook, mais perto você estará da vida.

Essa frase não saía de sua cabeça. Depois de tanto repeti-la, percebeu que poderia ser verdade. Quanto mais se aproximasse de Jungkook, maior seria a chance de Jimin não morrer. Se ele conseguisse ganhar o amor e a confiança do menor, tinha quase a certeza de que iria sobreviver. 

O problema era como faria isso. Jeon mantinha aquela aura, aquela espécie de máscara maligna sempre presa a si, escondendo a verdadeira personalidade por trás de tanto ódio e sofrimento. Park sabia que ainda havia bondade em Jungkook. Algo no fundo de seu coração insistia em dizer que apesar de todos os assassinatos cometidos, ele ainda poderia ser salvo.

Mas para que qualquer coisa boa pudesse acontecer, era necessário desvendá-lo. Camada por camada. Saber mais do presente e do passado de Jungkook. Muitos joguinhos psicológicos ainda precisariam ser feitos. Mesmo Jimin sendo péssimo neles.

Por que tão difícil?

Por que o coração sempre tinha que ser a maldita chave?

 

X

 

Jimin passou o resto do dia perambulando pela mansão. Ele passeou por praticamente todos os cômodos, ainda perplexo por quão ambíguos os ambientes poderiam ser. Claro e escuro. Antigo e novo. Era tudo muito bizarro.

Exceto essas incoerências, o mais velho não viu nada de extremamente interessante durante a manhã inteira. Foi só a tarde (depois do almoço misteriosamente surgir no salão principal), quando acabou entrando na cozinha pela primeira vez, que ele se assustou com a presença de mais alguém na casa além do Dr. Jeon e seu filho.

- Hmmm... Boa tarde?

- Oh, boa tarde Jimin. Gostou do almoço? - a empregada perguntou estampando um sorriso gentil.

A mulher aparentava ter mais de 30 anos, e parecia realmente contente por estar ali, cortando frutas. Aparentemente era ela quem fazia todos aqueles banquetes para os dois.

- Como sabe meu nome? - Jimin questionou com um pé atrás, fazendo outra pergunta ao invés de responder a anterior.

A empregada continuou sorrindo ternamente, seus cabelos castanhos claros medianos e rosto bochechudo não harmonizando em nada com a aura maligna da casa.

- Eu sei tudo sobre você, querido. Faz parte do meu trabalho.

O moreno estremeceu internamente com a resposta.

- É você quem cozinha para nós dois?

- Sim. Pode me chamar de Myriam.

- Ãhn, é um prazer conhecê-la. E me desculpe por comermos tanto. - Jimin disse enquanto ria, nervoso por não saber como continuar o diálogo.

- Imagina. Não há problema algum. Apenas espero que em troca, você amoleça o coração dele. Tenho certeza que é um bom garoto.

- Obrigado. - ele agradeceu, tímido. - É... Então. Posso comer uma dessas frutas que você está picando? Queria comer alguma coisa antes do jantar.

- Claro querido. Pode escolher qualquer uma que quiser.

Ao ter permissão de escolha, o menor aproximou-se da bancada e pegou uma pera, querendo evitar ao máximo o sabor doce e pecaminoso da maçã. E quando o fez, finalmente pode observar a mulher mais de perto, notando como seu uniforme rendado era adorável. Porém não foi isso que mais lhe chamou a atenção. Linhas finíssimas e quase cicatrizadas percorriam o colo e mãos de Myriam. Park imediatamente pensou que ela poderia ter se cortado acidentalmente há pouco tempo, mas no pescoço? Aquilo era muito estranho. O que havia acontecido com ela?

Jimin estava com medo de desvendar a verdade. E para piorar, o que mais rondava na sua cabeça naquele momento era:

Por que todo mundo acha que eu posso salvar o Jungkook?

 

X

 

No dia seguinte, quando Jungkook aparentava estar mais bem humorado e paciente, Jimin resolveu começar com seu plano de aproximação.

Ambos tomaram café da manhã em horários distintos, e quando o menor terminou seu suco, ele praticamente correu até o salão principal. Encontrou por lá um Jeon extremamente concentrado em um livro pequeno, sentado no que Jimin secretamente chamava de o trono do rei.

Quando se aproximou, a primeira coisa que fez foi cumprimentá-lo, para logo em seguida tentar lançar-lhe uma pergunta, como o esperado.

- Bom dia Jungkook.

- Bom dia. O que você quer de mim hoje? Pensei que estivesse morrendo de medo do vilão aqui. - ele disse sem tirar os olhos do livro.

- Não era pra eu te entreter? Estou tentando fazer isso agora.

- Está? Não senti nem um pingo de entretenimento nas suas palavras. Apenas tédio.

- Aigoo! Eu nem perguntei nada ainda. Você é muito exigente, sabia?

Ao dizer isso, Jimin sentou-se no pequeno apoio para os pés que havia próximo ao trono, cruzando os braços e fazendo um biquinho emburrado.

- E você é muito ingênuo. Felizmente, eu gosto de pessoas assim. - Jungkook disse sorrindo, finalmente encarando o mais velho.

- Hmm... Informação anotada.

- Como? Você por acaso está fazendo uma lista dos meus gostos pessoais?

- Quase isso. - Jimin admitiu, sentindo bochechas esquentarem. - É que eu quero muito saber mais sobre você.

- Quer é? Pois fique sabendo que eu não sou tão desvendável assim.

- É por isso mesmo que eu estou jogando com você, Jeon Jungkook. - ele disse numa tentativa de provocá-lo.

- Ah, me poupe Jimin. - Jeon disse revirando os olhos. - Por dentro você está morrendo de medo de mim. Eu sei disso.

- Hm. Talvez. Mas quem sabe eu seja corajoso o suficiente para te enfrentar. - o moreno falou com um sorriso infantil.

- Não vou fazer joguinhos com você. Desista dessa ideia.

- Então fala alguma coisa bem legal sobre você.

- Não.

- Por favooor. Por favorzinho Jungkookie.

- Tá. - suspirou derrotado. - Te dou a chance de fazer uma pergunta interessante para mim. Pense bem antes de falar.

- Hmmm... - Jimin balbuciou enquanto pensava. - Que tipos de livros você tanto lê aqui nessa sua biblioteca particular?

- Hm. Até que foi uma boa pergunta pra alguém como você. - Jeon comentou com um pequeno sorriso no rosto. - Bom, se quer mesmo saber, eu leio praticamente qualquer coisa. Viver confinado aqui dentro me ensinou a contentar-se com pouco, e digamos, ser mais paciente com a vida. - ele respondeu meio filosófico e misterioso.

- E o que você está lendo agora? - Jimin questionou, apontando para o pequeno livro nas mãos do rei.

- Um livro de contos do Edgar Allan Poe. Conhece?

O moreno apenas negou com a cabeça.

- Então permita-me apresentá-lo. Edgar Allan Poe foi um autor, poeta e editor estadunidense que ficou famoso por suas histórias misteriosas e macabras. Ele morreu cedo, com 40 anos, lá em 1849. E a causa da morte até hoje é desconhecida. - Jeon falou num tom pensativo. - Mas o que mais me encanta nele são seus contos que mexem com o psicológico, descrevendo todo o sofrimento humano e a beleza que existe na morte.

- Ai que horror! Pra quê falar de morte se podemos discutir sobre a vida? - Park questionou, arrepiado só de pensar nas atrocidades que aquele homem deveria ter escrito.

- A vida é curta e frágil demais para ficarmos perdendo tempo falando sobre ela. Poe acreditava que não existia nada mais romântico do que um poema escrito sobre a morte de uma mulher bonita.

- Ui credo. Que cara mais horrível. Acho que essa é a minha deixa pra ir embora. - Jimin disse se levantando do pequeno estofado.

- Nada disso. - Jungkook disse enquanto batia na cabeça do mais velho com um leque que misteriosamente havia surgido. - Hoje você fica aqui comigo.

- Por que? - ele perguntou, forçado a se sentar novamente.

- Eu quero ler um conto dele pra você. É um texto curto, então não vai demorar. Chama-se "O Barril de Amontillado".

- E o que eu ganho com isso? - o moreno perguntou emburrado.

- Mais um dia de vida, que tal? - Jungkook ofereceu, levantando-se do trono, pronto para começar a ler.

- Tá. Uma proposta aceitável. Começa logo com isso antes que eu morra de tédio.

E com um sorriso no rosto, Jeon iniciou a leitura do conto.

"As mil afrontas de Fortunato, eu as suportei o melhor que pude; mas quando passou destas ao insulto, jurei vingança. Mas você, que conhece tão bem a natureza de minha alma, não há de imaginar que proferi uma única ameaça. Ao fim e ao cabo, eu me vingaria, isso era ponto pacífico, irrevogável - e, sendo irrevogável, a decisão excluía toda ideia de risco. Não devia apenas punir, mas punir impunemente. Um mal não está reparado se alguma represália recair sobre quem o repara. Como não está reparado se o vingador não puder se revelar a quem cometeu o mal.

Claro está que nenhum ato ou palavra de minha parte dera ensejo a que Fortunato duvidasse de minha boa vontade. Continuei, como de hábito, a sorrir-lhe, sem que ele percebesse que sorria, agora, à ideia de sua imolação".

Jungkook de repente parou de ler, dando uma espiadela em Jimin, que permanecia impassivo no pequeno estofado. Ele parecia não estar entendendo nada. Mas logo, logo iria entender.

Para tornar a narrativa mais dramática, o mais novo começou a andar enquanto lia, rodeando o moreno como um urubu em busca de carniça.

"Tinha um ponto fraco, esse Fortunato, muito embora sob outros aspectos fosse homem de se respeitar e mesmo temer. Orgulhava-se de conhecer vinhos. Poucos italianos têm o verdadeiro espírito do virtuoso. O mais das vezes, seu entusiasmo serve ao momento e à oportunidade - a praticar alguma impostura à custa de milionários britânicos ou austríacos. Em se tratando de pinturas e jóias, Fortunato era, como seus compatriotas, um charlatão - mas, em matéria de vinhos antigos, era sincero. Nisso não diferíamos substancialmente: eu mesmo era entendido em boas safras italianas, e comprava à larga sempre que podia.

Foi à hora do crepúsculo, certa noite do desvario supremo da estação carnavalesca, que fui ao encontro de meu amigo. Ele me abordou com vivacidade excessiva, pois bebera demais. O sujeito usava uma fantasia de bufão. Vestia uma peça justa e listrada, e tinha a cabeça encimada pelo chapéu cônico de guizos. Fiquei tão feliz de encontrá-lo, que não queria mais parar de lhe apertar a mão".

- Jimin-ssi, você está prestando atenção?

Ele apenas acenou com a cabeça. Mentiroso.

- Isso aqui não é uma aula de literatura em que o professor se finge de idiota e ignora o aluno que está mexendo no celular. - Jungkook disse, incisivo.

- Mas eu nem estou no celular.

- Não importa! Você não está focando em mim e nem nas minhas palavras. O que eu falei até agora?

- Hmm... Que um cara quer se vingar do outro pra depois tomar uma bela taça de vinho?

- Não é algo tão simples assim. Você precisa interpretar a escrita dele, entender suas intenções, ler as entrelinhas.

- Mas eu sou péssimo nisso Jungkookie. - ele disse manhoso. - Não entendi metade das palavras que você falou.

Jungkook suspirou, paciente. Ele releu mentalmente alguns trechos, procurando palavras mais complicadas e fundamentais para a interpretação do conto.

Imolação é o ato de sacrificar-se, morrer em sacrifício à divindades. E o Fortunato estava vestido de bufão, ou seja, ele usava tipo uma fantasia de palhaço, um bobo da corte pra ser mais específico. E guizos são aqueles sininhos bem pequenos e ocos que tem numas fantasias, tem o som semelhante a de uma cascavel.

- Ah, acho que entendi.

- Agora posso continuar, Jimin?

- Pode. Eu juro que vou tentar me concentrar.

E com um pequeno olhar de confiança, Jeon continuou com a narrativa.

"Disse a ele:

- Meu caro Fortunato, que sorte encontrá-lo. Que bela aparência, é notável! Mas recebi um barril que dizem ser de Amontillado, e tenho lá minhas dúvidas.

- Como? - disse ele. - Amontillado? Um barril? Impossível! E no meio do Carnaval!

- Tenho lá minhas dúvidas - repliquei -, e cometi a tolice de pagar o preço de um Amontillado sem consultá-lo a respeito. Não havia meio de encontrá-lo, e tive medo de perder o barril.

- Amontillado!

- Tenho lá minhas dúvidas.

- Amontillado!

- E quero me livrar delas.

- Amontillado!

- Como você está ocupado, vou ter com Luchesi. Se alguém tem tino crítico, esse alguém é ele. Vai saber me dizer...

- Luchesi não sabe a diferença entre um Amontillado e um xerez.

- Mas não falta o tolo que diga que o paladar dele é páreo para o seu.

- Venha, vamos.

- Para onde?

- Para as suas caves.

- Não, meu amigo, não; não vou abusar de sua bondade. Logo se vê que você tem um compromisso. Luchesi...

- Não tenho compromisso nenhum; venha.

- Meu amigo, não. Não é o compromisso, mas esse resfriado severo que logo se vê que o aflige. As caves são insuportavelmente úmidas. Estão incrustadas de salitre.

- Vamos assim mesmo. O resfriado não é nada. Amontillado! Você foi trapaceado. E quanto a Luchesi, esse não sabe distinguir um xerez de um Amontillado.

A essas palavras, Fortunato apossou-se de meu braço. Vestindo uma máscara de seda negra e puxando um roquelaure rente ao corpo, deixei que ele me arrastasse rumo a meu palazzo".

- Roquelaure é uma peça de roupa, ok? Nada de tão relevante. - Jeon falou, interrompendo a própria narrativa.

Jimin apenas concordou, muito pensativo.

- Deseja compartilhar algum pensamento? Dúvida talvez?

- Não. Eu só pensava que seria o cara lá quem insistiria para o Fortunato a experimentar o vinho. Mas parece que ele estava mesmo animado para experimentar o Amontillado.

- Às vezes o amor e a empolgação acabam cegando as pessoas... Não é mesmo? - Jungkook falou, quase ronronando como um gato.

O menor apenas engoliu em seco, esperando pelo resto da história.

"Nenhum criado estava em casa; todos haviam escapado para festejar, em louvor à época. Eu lhes dissera que não voltaria até a manhã seguinte e dera ordens explícitas de que não dessem um passo para fora da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem sabia, para garantir o sumiço imediato de todos e cada um, tão logo eu lhes desse as costas.

Tirei duas tochas dos castiçais e, entregando uma a Fortunato, conduzi-o com vênias por uma seqüência de aposentos até o arco que levava às caves. Segui por uma longa escada em espiral, rogando-lhe que tivesse cautela ao me seguir. Chegamos finalmente ao pé da descida e pisamos o chão úmido das catacumbas dos Montresor.

O andar do meu amigo era incerto, e os guizos do chapéu tilintavam às suas passadas.

- O barril? - perguntou ele.

- Mais adiante - respondi. - Mas veja só a teia branca que brilha nessas paredes cavernosas.

Ele se voltou para mim e me fitou nos olhos com duas órbitas turvas que distilavam a reuma da ebriedade.

- Salitre? - finalmente perguntou.

- Salitre - repliquei. - Mas quando começou essa tosse?

- Cof, cof, cof! Cof, cof, cof! Cof, cof, cof! Cof, cof, cof! Cof, cof, cof! Meu pobre amigo não teve como responder por uns bons minutos.

- Não é nada - disse, afinal.

- Venha - eu disse, determinado -, vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; é feliz como eu já fui. Sua falta seria sentida. Não há o menor problema para mim. Vamos voltar; você vai cair doente, e não quero ser o responsável. Além do mais, Luchesi...

- Basta disso - disse ele. - A tosse não é nada, não vai me matar. Não é de uma tosse que eu vou morrer".

Jungkook narrou, dando certa ênfase a palavra 'matar' e 'morrer'.

"- Tem razão, tem razão - repliquei. - Também não tenho a menor intenção de alarmá-lo à toa; mas todo cuidado é pouco. Um gole desse Medoc vai nos proteger da umidade.

E desarrolhei uma garrafa que tirei de uma longa fileira disposta sobre o bolor.

- Beba - eu disse, oferecendo-lhe o vinho.

Levou-o aos lábios com uma piscada maliciosa. Fez uma pausa e acenou familiarmente com a cabeça, enquanto os guizos tilintavam.

- Bebo aos mortos que repousam aqui à volta.

- E eu, à vida longa.

Tomou novamente do meu braço e seguimos em frente.

- Estas caves - ele comentou - são enormes.

- Os Montresor - respondi - foram uma família importante e numerosa.

- Qual é mesmo o seu brasão?

- Um grande pé humano em ouro contra campo azul; o pé esmaga uma serpente rampante cujas presas penetram o calcanhar.

- E o moto?

- Nemo me impune lacessit.

- Ótimo! - ele disse".

- Jungkook-ah, o que-

- 'Nemo me impune lacessit' significa 'Ninguém me fere impunemente'.

- Hm... Bela frase pra colocar num brasão de família. Qual é o da sua família?

- Shh! Me deixe terminar. - o mais novo falou, batendo novamente na cabeça de Jimin com o leque. - Não quero estragar o clima.

- Aigoo...

"O vinho cintilava em seus olhos, e os sinos tilintavam. Minha própria fantasia se acalorava com o Medoc. Havíamos passado por paredes de ossos empilhados, com barris e tonéis alternados, rumo aos recessos mais recônditos das catacumbas. Fiz nova pausa, e dessa vez me atrevi a segurar Fortunato pelo braço, acima do cotovelo.

- O salitre! - eu disse. - Veja só como vai crescendo. Agarra-se feito musgo à parede das caves. Estamos embaixo do leito do rio. As gotas de umidade escorrem entre os ossos. Venha, vamos voltar antes que seja tarde. Essa sua tosse...

- Não é nada - ele disse -, vamos em frente. Mas, primeiro, mais um gole do Medoc.

Abri e passei um garrafão de De Grâve. Esvaziou-a de um fôlego só. Os olhos rebrilharam com uma luz feroz. Soltou uma risada e jogo a garrafa para cima num gesto que não entendi.

Olhei surpreso para ele. Repetiu o movimento - que era grotesco.

- Não compreende? - ele perguntou.

- Não - respondi.

- Então você não é da irmandade?

- Como?

- Não é um pedreiro livre?

- Sim, sim - respondi - sim, sim.

- Você? Impossível! Pedreiro livre?

- Sim, pedreiro - respondi.

- Uma senha - ele pediu.

- Aqui está - respondi, tirando uma colher de pedreiro das dobras do meu roquelaure.

- Está zombando - ele exclamou, retrocedendo alguns passos. - Mas vamos ao Amontillado.

- Assim seja - respondi, voltando a guardar a colher sob a capa e novamente oferecendo-lhe o braço. Apoiou-se pesadamente. Continuamos nossa jornada em busca do Amontillado. Passamos por uma seqüência de arcos baixos, descemos, avançamos e, descendo novamente, chegamos a uma cripta profunda, em cujo ar viciado nossas tochas mais ardiam que flamejavam.

No canto mais remoto da cripta abria-se outra, menos espaçosa. Tinhas as paredes cobertas de despojos humanos empilhados até a abóbada, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três lados dessa cripta interior ainda conservavam esse adorno. Os ossos tinham sido arrancados do quarto e jaziam promiscuamente pelo chão, formando um montículo de bom tamanho. Na parede posta a nu com a remoção dos ossos, percebemos um recesso ainda mais profundo, com quatro pés de profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Parecia ter sido construído sem fim definido, um mero intervalo entre dois dos suportes colossais do teto das catacumbas, e era fechado por uma das paredes exteriores de granito maciço.

Foi em vão que Fortunato, levantando a tocha baça, tentou divisar as profundezas do recesso. A luz débil não permitia que víssemos o seu fim.

- Vá em frente - eu disse -, o Amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi...

- É um ignorantão - interrompeu meu amigo, dando um passo incerto adiante, enquanto eu seguia nos seus calcanhares. Num instante, chegou à extremidade do nicho e, sentindo a própria marcha detida pela rocha, ficou ali, estupidamente atordoado. Um momento mais, e eu o agrilhoara ao granito. Na superfície deste havia dois grampos de ferro, a cerca de dois pés um do outro, na horizontal. De um deles, pendia uma corrente; do outro, um cadeado. Passando os elos em volta da cintura, prendê-lo foi coisa de poucos segundos. Estava atônito demais para resistir. Retirando a chave, recuei para fora do recesso".

- Mas... Foi tão fácil assim? Ele vai-

- Shhh!

"- Passe a mão pela parede - eu disse -, não há como não sentir o salitre. Na verdade, tudo é muito úmido. Permita-me implorar de novo, vamos voltar. Não? Então serei obrigado a deixá-lo aqui. Mas antes devo-lhe todas as pequenas atenções a meu alcance.

- O Amontillado! - exclamou meu amigo, ainda não recobrado do espanto.

- É verdade - respondi -, o Amontillado.

Enquanto dizia essas palavras, eu me ocupava da pilha de ossos que mencionei há pouco. Atirando-os para o lado, logo pus a descoberto alguma argamassa e pedra de cantaria. Com esses materiais e com ajuda da colher, comecei vigorosamente a tapar a entrada do nicho.

Mal assentara a primeira fileira de pedras quando percebi que a ebriedade de Fortunato dissipara-se bastante. O primeiro indício foi um grito baixo, lamentoso, do fundo do recesso. Aquele não era o grito de um bêbado. Seguiu-se um silêncio longo e obstinado. Assentei a segunda fileira, e a terceira, e a quarta; e então ouvi a vibração furiosa da corrente. O barulho durou vários minutos, durante os quais, para que pudesse escutar com mais satisfação, interrompi o trabalho e me sentei sobre os ossos. Quando finalmente o clangor cedeu, retomei a colher e terminei sem mais interrupção a quinta, a sexta, a sétima fileiras. Agora a parede chegava quase a meu peito. Fiz nova pausa e, erguendo as tochas acima da minha obra, lancei uns raios débeis sobre a figura ali dentro. Uma sucessão de gritos altos e estridentes, explodindo subitamente da garganta daquela figura encadeada, pareceu me empurrar com violência para trás. Por um breve momento, hesitei - estremeci. Puxando o punhal da bainha, comecei a explorar o recesso; mas bastou um instante de reflexão para me tranquilizar. Passei a mão pela alvenaria sólida das catacumbas e me dei por satisfeito. Cheguei mais perto da parede. Respondi aos berros daquele que clamava. Fiz eco, fiz coro, ultrapassei-os em volume e força. Fiz isso, e o suplicante fez silêncio.

Era já meia-noite, e minha tarefa chegava ao fim. Completara a oitava, a nona, a décima fileira. Terminara parte da última, a décima primeira; faltava uma única pedra por assentar e rebocar. Forcejei com seu peso; encaixei-a parcialmente na posição final. Mas então veio do nicho um riso baixo que me eriçou os cabelos. Ouviu-se em seguida uma voz triste, que tive dificuldade de reconhecer como a do nobre Fortunato. A voz dizia:

- Ha, ha, ha! He, he! Que bela piada, verdade - uma peça excelente. Vamos morrer de rir no palazzo, he, he, he! Com um bom vinho, he, he, he!

- O Amontillado! - eu disse.

- He, he, he! He, he, he! Sim, claro, o Amontillado. Mas não está ficando tarde?

Será que não estão nos esperando no palazzo, a minha senhora e os outros?

- Sim - respondi -, vamos embora.

Pelo amor de Deus, Montresor!

- Isso mesmo, pelo amor de Deus!

Mas espreitei em vão por uma resposta a essas palavras. Fiquei impaciente.

Chamei alto:

- Fortunato!

Nenhuma resposta. Chamei de novo:

- Fortunato!

Nenhuma resposta ainda. Joguei uma tocha pelo vão restante e deixei que caísse para dentro. Não se ouviu mais que um tilintar dos guizos. Senti náuseas - por conta da umidade das catacumbas. Apressei-me a pôr fim à minha obra. Assentei a última pedra e a reboquei. Contra a nova alvenaria, reergui o velho baluarte de ossos. Por meio século, nenhum mortal veio perturbá-los. In pace requiescat!"

- Descanse em paz. - Jungkook traduziu, fechando o livro com força logo em seguida. O som ecoou por todo o salão, causando certo impacto dramático na cena.

Jimin não comentou nada, confuso e com medo sobre o que falar. Ele diria que havia gostado? Adorado ouvir a narrativa de um homem matando ao outro enterrado vivo? Isso era muito maligno. Por que Jungkook tinha escolhido tal conto para contar-lhe?

- Sabe por que eu te contei essa história, Jimin? - o mais novo perguntou, um sorriso de divertimento estampando seus lábios rosados. Era hipnotizante o jeito como ele sorria, seus olhos negros quase brilhando de antecipação a resposta.

Park negou com a cabeça, trêmulo.

- Tem certeza que não sabe? - ele perguntou, erguendo o queixo do mais novo com o leque. Dessa vez era ele mesmo que estava segurando o objeto, aproximando os rostos o suficiente para Jimin sentir a respiração quente do mais novo.

- V-você matou alguém assim? Enterrado vivo?

- Não. - o rei negou, quebrando o olhar e voltando a sentar-se de pernas cruzadas no trono. Jimin imediatamente voltou a respirar, nem percebendo que havia trancado a própria respiração. - Seria óbvio demais. Mas digamos que eu me sinto como o Montresor. Ele de certa forma me representa, sabe? - Jungkook perguntou, começando a entrar em um monólogo profundo. - O jeito como a vida continua leve depois que a morte acontece. Sem remorsos. Sem dor. Sem culpa. Todos os sentimentos ruins e amargos ficaram presos lá dentro, junto do esqueleto de Fortunato. Sabe por que isso acontece Jimin? - fez um pausa proposital. - Porque a vingança é doce. - ele disse lambendo os lábios devagar. - É exatamente assim que eu me sinto. Leve como grãos de açúcar. Nenhuma daquelas quatro pessoas eram importantes para mim. Não passavam de meros estorvos na minha vida.

- Por que está me contando tudo isso? - Jimin interrompeu-o, com muito medo de onde essa conversa estava chegando.

- Por que eu ainda vou te matar. - ele disse simplista. - Vai demorar mas será inevitável. E quero que você morra, sabendo que eu não me importo.

- Mas algum dia vai. - Jimin falou enquanto abraçava os joelhos. Seu rosto estava escondido, tentando evitar o contato visual direto.

Respira fundo Jimin. Respira fundo e pareça confiante.

- O que?

- Se importar comigo. Algum dia eu vou ser importante. Você vai ver.


Notas Finais


JK lendo histórias para o Jimin = tudo pra mim


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