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História Demônio ou maldição? - Capítulo 4


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Notas do Autor


Volteiiiiiiiiiiii

Feliz 2020 pra todos vcs <3

Capítulo 4 - I hate you


Don't know if you love me or you want me dead

Push me away, push me away

Then beg me to stay, beg me to stay, yeah

 

_____

 

Infindáveis dias se arrastaram até que os dois garotos começassem a realmente se entender. Todos os dias Jimin tentava conversar com o mais novo, vez ou outra conseguindo lhe arrancar pequenas confissões acerca de seus gostos, sonhos e pregressos.

Descobriu que Jungkook não era necessariamente aquele monstro terrorífico e assassino que tanto temia. Por trás daquela máscara rígida e maligna havia apenas um garoto adolescente normal, desesperado por atenção além de muito adorável e questionador.

O jeito como o pequeno Jeon deslizava e perdia-se em um diálogo era encantador, mostrando a cada dia mais algum detalhe que não passava nenhum pouco despercebido pelo mais velho. Jimin já havia deduzido, por exemplo, que a sua cor favorita seria o vermelho. Vermelho como as rosas rechonchudas e saudáveis do belo jardim, como o sangue que jorra de um ferimento cruel e profundo, ou como o vestido usado pela mãe em sua última noite...

Mãe.

Uma palavra tão pequena, mas com tão profundos significados. 

Park ainda não havia descoberto, porém era ela, aquela misteriosa figura maternal que lhe servia como apoio e modelo de suas ações, tornando o jovem uma cópia fiel de sua progenitora. Ambos nutriam um amor irracional por objetos perfurantes, deliciando-se ao ver as lâminas deslizarem certeiras sobre a carne tenra de um ser qualquer. Adoravam também a delicadeza das flores bem cuidadas do jardim, encantando-se com os pequenos botões que cresciam timidamente durante qualquer estação que lhes era oferecida. Ah, tantos detalhes em comum.

Outra minúcia que Jimin notou foi a paixão pelos livros. Jungkook cuidava bem de cada um, chegando a organizá-los durante um dia inteiro sem interrupção.

" - Jimin-ssi! Eu sei que você colocou o livro no lugar errado. Pode ir arrumando isso agora.

- Aigoo! Mas que diferença faz uma posição? - o menor perguntou, suspirando.

- Eu gosto deles nestas exatas posições.

- Isso é TOC, sabia? Pode contar comigo quando quiser fazer um tratamento.

- Se você não gosta dos meus livros, vá embora daqui e deixe-me em paz. - Jeon disse, agarrado a um livro azulado, quase magoado com as palavras do mais velho. Ele só gostava daquela organização, oras.

- Desculpa, não quis te chatear. Só queria entender o motivo de tanta dedicação.

- Eu simplesmente amo os livros. Sempre quis ser um escritor ou qualquer coisa que envolvesse o manuseio com eles. - Jungkook admitiu enquanto sorria bobo para um item qualquer na estante. Este certamente era o melhor sorriso do mundo.

- E por que não tenta escrever algum dia? Você ainda é jovem. Tem muitas oportunidades.

- Não vai dar certo Jimin.

- Por que não? É importante pensar numa faculdade desde cedo.

- Eu nunca irei pra uma faculdade Jimin-ssi. Não posso sair daqui. - declarou seco.

- Claro que pode. Tomar ar fresco às vezes faz bem. Poderíamos sair qualquer dia desses pra cidade. Você vai adorar conhecer novas pessoas.

- Não.

- Deixa de ser teimoso. Vai me dizer que não quer fazer mais alguns de refém? É o seu passatempo favorito. - Park falou, provocando-o.

- Não é não!

- Jungkook. Você gosta de machucar os outros, admita.

- EU NÃO GOSTO DE MACHUCAR PESSOAS! - Jungkook explodiu, irado.

Jimin o olhou assustado, completamente abismado pela reação repentina. Ele ia tentar falar alguma coisa, um pedido tolo de desculpas talvez, porém foi interrompido pelo olhar mortal de Jeon, o penetrando antes dele fugir rapidamente; completamente inseguro de como reagir."

Depois daquele acontecimento, ambos não se falaram decentemente por pelo menos dois dias. Era difícil admitir, mas Jungkook sentia-se desafiado pelo mais velho, obrigando-o cada vez mais a se esconder por trás de uma máscara. O medo de ser rejeitado e odiado eram grandes demais para arriscar-se. 

A verdade era que ele não aguentava mais ser assim. Dualizado. Seu pai devia ter razão. Não passava de um ser horrendo, vindo das trevas, apenas buscando mais uma vítima inocente para arrancar-lhe dor, sangue e sofrimento. Aquele lado bom, feliz e infantil, era apenas um disfarce, um fingimento criado pela verdadeira criatura que havia por de trás dos panos.

Elas só queriam me fazer mal. Me salvar pra depois irem embora. - Jungkook pensava. - Sabe, é difícil viver estando permanentemente preso a um papel. Eu não sou um assassino. Tá, eu matei pessoas, mas não é como se eu tivesse escolha. Eu nunca escolhi ter esses poderes.

Era assim que Jeon se idealizava quando estava sozinho. Como um inocente de seus crimes. Ele acreditava veemente naquelas palavras, repetindo-as mentalmente com tanta frequência que elas já lhe pareciam ter perdido o sentido, se tornando nada mais do que a verdade. 

Porém elas não passavam de desculpas esfarrapadas e amenizadoras.

Jungkook vivia dividido. Mente, corpo e coração.

 

X


Não importava quantos desentendimentos houvessem. Eles sempre voltavam a se falar. E menos de uma semana depois, lá estavam eles, indo passar mais uma tarde juntos. Mas desta vez Jeon tinha uma companhia diferente, um pequeno cálice embebido de uma substância carmim.

Jimin chegou tímido, querendo muito saber que mulher burguesa era aquela na capa do livro que Jungkook segurava.

- Quem é essa moça? - ele perguntou sem rodeios, apontando para a figura feminina.

Jeon apenas ergueu uma sobrancelha, confuso com a repentina abordagem.

- Na capa do livro.

- Ah. Essa é Emma Bovary.

- Emma o que? - o menor questionou, perdido pela rápida pronúncia.

- Emma Bovary, a protagonista deste livro, Madame Bovary. - Jungkook respondeu, baixando o livro e encarando o garoto. - Foi escrito por Gustave Flaubert e publicado oficialmente em... 1857, eu acho.

- Hmm. E fala sobre o que?

Era simples envolver-se com o garoto quando o assunto chegava nos livros. Jeon, de certa forma, adorava contar e até ler histórias para o mais velho, sorrindo internamente ao ver o pequeno brilho nos olhos dele enquanto recitava ou explicava os trechos de um livro qualquer. Sentia-se cativado por finalmente ter alguém para escutá-lo. 

- Sobre traição. Emma foi uma mulher criada no campo e educada num convento. Ela tinha muito tempo livre em mãos, o que fazia sua mente ser muito sonhadora. A garota amava enterrar-se em livros de romance assim como eu.

- Que história bonita... - Park comentou, já sentado no habitual apoio para os pés que ficava em frente ao trono de Jeon. - Mas o que isso tem a ver com traição?

- Ler muito faz a gente viajar, Jimin. - Jungkook respondeu, lançando um olhar involuntário para a sua enorme biblioteca. - Bovary viveu metade de sua vida idealizando amores que nunca aconteceriam. Depois que casou, nenhuma de suas loucas fantasias acabou se concretizando, e ela se viu desesperada por emoção.

- Foi aí que ela começou a trair?

- Isso. Como o marido não a satisfazia, procurou por outros amores. Porém nem mesmo eles supriram seus desejos burgueses. Emma acabou por se encher de dívidas e mentiras, fazendo com que depois de algumas decepções ela cometesse suicídio, tomando um veneno.

- E o marido...? - o menor perguntou, um pouco tenso.

- Morreu de desgosto um tempo depois. Atolado em dívidas e abalado com a descoberta do adultério de Emma.

Jimin permaneceu calado, sem saber ao certo o que comentar. Geralmente ele conseguia emendar o assunto com qualquer outro aleatório, porém naquele dia em específico não teve muita criatividade. Jungkook, entendendo o silêncio como o final do assunto, voltou sua atenção ao livro.

- Agora se me der licença, quero terminar de ler.

Park não saiu do lugar, ainda refletindo em algo para falar. Jeon enquanto isso bebia do cálice até então esquecido, causando grande curiosidade no menor.

- Isso é vinho?

- Não, é suco de uva. - Jungkook respondeu lambendo o lábio inferior, sem qualquer ironia ou sarcasmo presentes em seu tom de voz. Ele não estava brincando.

- Me dá um gole? Eu gosto de suco de uva. - declarou, ainda duvidoso da resposta do mais novo.

O outro nada respondeu, apenas entregando o cálice de bom grado. Jimin o pegou com delicadeza, nem sequer notando o brilho vidrado no olhar que Jungkook sustentava.

Ele não estava mentindo. O sabor doce característico, porém, misturando-se a algum outro, causando estranhez no paladar. Park tomou mais um gole, tentando desvendar que gosto extra era aquele.

- Gostou?

- É estranho. O que tem dentro?

- A essência de um ser humano. A cor que lhe concebe a vida. Sangue! - Jungkook respondeu, tendo quase a certeza de que aquele hábito poderia ser considerado normal para um ser humano qualquer.

Ao ouvir aquilo, Jimin levantou-se, quase se afogando. Ele levou as mãos até a própria garganta, surpreso, largando o cálice num gesto involuntário. A pobre vidro quebrou-se num estalo, derramando parte do conteúdo em cima do tapete.

O mais novo ergueu-se num pulo, quase choramingando como um gato pelo leite derramado.

- S-sangue!? Q-que tipo de bicho você é? Ai que nojo. - o menor estremeceu, fazendo caretas ao tentar se livrar do sabor férrico.

Jungkook permaneceu estático, lamentando todo o sangue que havia demorado tanto a coletar. Jimin iria pagar caro por aquele prejuízo.

- Ah, desculpa aí pelo tapete.

O garoto quase rosnou, mostrando os dentes como um leão. Nenhum perdão devolveria sua bebida, muito menos limparia o tapete, então ele apenas bateu na bunda dele com o livro, abusando da força dos poderes telecinéticos para jogá-lo de bruços contra o pequeno estofado. Feito isso, Jeon sorriu, erguendo o conjunto pelo menos dois metros do chão.

- Jungkook-ah! O que você tá fazendo? Me tira daqui!

O garoto apenas ignorou os chamados, sentando-se no chão em posição de índio enquanto brincava melancolicamente com os cacos de vidro.

- E-eu tenho medo de altura Jungkookie. Me perdoa, por favor! - o menor gritava, agarrado ao objeto como se fosse sua própria vida.

Jungkook o subiu mais ainda, cinco metros o separando do impecável piso laminado. Mais alguns pedidos e choramingos se sucederam, todos sem sucesso. Jimin não sairia dali tão cedo.

Como distração, ele fechou os olhos, deixando a mente conduzi-lo para algum lugar melhor. Acabou por pensar em mais sangue, não descartando a possibilidade do dono daquela casa ser meio-vampiro.

Outro pensamento que lhe veio foi Myriam. Aqueles minúsculos cortes no pescoço muito provavelmente sendo originários de algum instrumento que Jungkook usara para lhe retirar sangue. Oh, ele precisava urgentemente conversar com ela de novo.

E quando saísse dali, era exatamente isso que iria fazer.

- Jungkook-ah!!! Me tira daqui~

- E o que eu ganho com isso? - Jeon perguntou, finalmente respondendo aos chamados desesperados do menor.

- E-eu dou o meu sangue pra você. - Jimin ofereceu, tímido. - Ele com certeza é mais gostoso que o da Myriam.

- Hmm... Entendo. - falou pensativo. - Vou refletir sobre e mais tarde te respondo.

- Ei! E eu não vou sair daqui!? - o pequeno perguntou, percebendo que Jungkook já havia saído da sala.

- Mais tarde, mais tarde. - ele ouviu ao longe.

É, Jimin não sairia dali tão cedo.

 

X

 

No dia seguinte, muito dolorido das costas por ficar preso naquele maldito estofado durante horas, Jimin foi atrás de Myriam. Ele raramente a encontrava (como todo mundo que morava lá), porém resolveu arriscar. Ficou vagueando pela cozinha cerca de uma hora e meia, distraindo-se com jogos bobos de smartphone que não exigiam conexão wi-fi, já que por acaso do destino naquele lugar não havia sinal.

- Bom dia querido. Procurando pelo seu amigo?

- Na verdade não. - o garoto admitiu com um meio sorriso. - Estou procurando pela senhora mesmo.

- É mesmo? O que deseja? - a mulher perguntou, pondo-se a pegar uma panela para começar o almoço.

- Eu sei que o Jungkook fez isso com a senhora. - ele pôs-se ao seu lado, tentando afastar-lhe o cabelo do pescoço. - Não precisa esconder de mim.

- Você é mesmo muito observador. - ela declarou, gentilmente afastando-se de sua presença para pegar alguns legumes. - Deveria algum dia ser policial. Ou até um detetive.

- Obrigado pelos elogios. Mas isso não responde minhas dúvidas. - Jimin agradeceu, escolhendo por comer uma maçã madura na fruteira.

- Pode perguntar. Estou trabalhando mas posso te ouvir.

- Qual o passado do Jungkook? - foi direto, se apoiando na mesa de costas para Myriam.

- Você ainda não sabe?

- Não. O pai dele se recusa a me contar. Só fica repetindo: passado é passado, blá, blá, blá.

- Não é uma grande história.

- Mas mesmo assim eu quero ouvir.

- Bom, até uns sete anos atrás Jungkook era um garoto como você. Doce e gentil. Foi mais ou menos nessa época que a mãe dele morreu.

- Ela tem alguma relação com os poderes dele? - Jimin perguntou, não surpreso com o assunto de morte se fazendo presente no ambiente.

- Pelo que eu sei, Rose era idêntica ao seu filho. As mesmas habilidades, autoridade desenfreada, a louca paixão... Acho que podemos dizer que ele praticamente herdou os poderes e até mesmo a sua personalidade depois de algum tempo.

- Nossa... - ele comentou baixinho, mais consigo mesmo do que com Myriam. - Mas como foi que ela... Partiu?

- Só me contaram que foi assassinada no dia do próprio aniversário.

Park continuava incrédulo com aquelas histórias. Não era à toa que Jungkook havia se tornado um garoto assim. Transtornado. Raivoso. Recluso. Mas no fundo... Extremamente vulnerável.

- Desculpe por falar assim. Às vezes não sei medir minhas palavras. - a empregada desculpou-se, virando-se para encará-lo depois de algum tempo.

- Ah. Tudo bem. Só queria saber se... Tem mais alguma coisa importante que eu não saiba.

- Ele é apaixonado pela cor vermelha. Frutas, flores, objetos... Qualquer coisa que tem essa cor chama especialmente sua atenção.

- E isso deveria ser importante? - ele questionou, finalmente mordendo a maçã.

- Pode não parecer agora, mas algum dia vai ser. Tenho certeza.

- Tudo bem então. Se a senhora está dizendo, vou acreditar.

E ele realmente acreditou.

 

X

 

Depois daquela pequena conversa, Jimin decidiu que era hora de conversar com Dr. Jeon sobre as últimas peripécias do filho.

Infelizmente, ele não fazia ideia de que aquilo traria grandes consequências para o futuro de ambos.

O menor contou tudo sobre o sangue e da punição que recebeu, chegando a exagerar e dramatizar algumas partes. A culpa não era dele, afinal. Não tinha ninguém com quem conversar, e talvez desabafar com um adulto fosse a melhor opção para deixá-lo mais tranquilo.

Essa falta de companhia era um grande problema. Para ambos. Mas principalmente para o mais novo. Ele não tinha contato com o exterior, e isso certamente agravava estrondosamente seu estado psicológico de ser.

Nem acesso a uma internet decente aquela mansão tinha, diminuindo ainda mais as experiências de vida de Jungkook. Para o garoto, o mundo lá fora não existia. Outras pessoas, cidades, países e continentes eram apenas lendas retratadas em seus adorados livros.

E até mesmo os próprios sentimentos não conseguiram escapar daquele redemoinho de confusão. Ninguém nunca lhe explicou direito o que era o amor, o ódio, a tristeza, o prazer, a frustração, a felicidade, o medo... Ele não sabia nada sobre emoções, e muito menos como deveria senti-las ou controlá-las. E quando algo grave acontecia, todo aquele bolo acabava por se misturar, dando origem ao monstro caótico que sua mente havia se tornado.

Naquele mesmo dia, Jungkook provou um pouco mais dessa desordem mental, ouvindo grande parte da conversa entre os dois. Cada palavra proferida era como uma pequena pontada de uma agulha em seu coração.

Foi inevitável fazê-lo. A casa era conectada com o garoto, e tudo que acontecia lá reverberava em seu corpo, alertando-lhe os sentidos.

Ele colocou o ouvido na porta delicadamente, sentindo os murmúrios com clareza.

- Isso já chegou longe demais, Jimin. Precisamos acabar logo com isso.

- Acabar? Como assim acabar?

- Você sabe muito bem o que eu quero dizer.

- Não! Você não pode fazer isso. Ele... Ele é seu filho!

- Não. Aquele monstro não é o meu filho. Não mais.

- Mas eu não quero machucar ele. - disse com a voz manhosa depois de alguns segundos.

- Não precisa machucá-lo para me ajudar. É só distrai-lo. Apenas por tempo suficiente para eu acabar com tudo.

- O que você vai fazer? Ele é forte. Te mata num piscar dos olhos se estiver com raiva.

- Não se eu estiver com isso em mãos.

Isso? O que era isso?

Jungkook precisava descobrir.

- Mas v-vai doer... Eu-

- Pensa bem Jimin. É melhor assim. Você não quer ir pra casa?

- Eu nem tenho mais pra onde ir...

- Então fique aqui. Eu prometo que você vai adorar morar aqui comigo. E se não gostar, posso te comprar uma casa lá no centro da cidade. O que acha?

- Eu não sei se consigo...

- Jimin. Pensa na dor que está sendo viver com ele. Na impossibilidade de ir e vir. Aquele monstro ainda vai te matar da pior da pior maneira possível, lembra? Ele pode te asfixiar até ficar sem ar. Pode te arremessar de algum lugar. Qualquer opção de tortura é possível.

- Mas-

- Ele já matou quatro pessoas antes de você. Quatro! Não espere que Jungkook tenha qualquer piedade por você antes de acabar com a sua vida.

- Hm. Talvez você tenha razão...

- É claro que eu tenho razão. - declarou, garboso.

Alguns segundos de silêncio se seguiram, Jungkook tentando processar tantas informações simultaneamente.

- Mas então garoto, aceita a minha proposta?

- Aceito... Mas o que eu tenho que fazer? Não quero pensar muito.

Jungkook não conseguia acreditar naquele conversa. Ele iria morrer? Era isso? Seu próprio pai o mataria?

O garoto nunca se sentiu tão triste e decepcionado na vida como naquele momento. Ser traído era uma sensação extremamente dolorosa. Como Emma Bovary teve coragem de fazer aquilo com o próprio marido? Era uma sensação tão agradável assim para ela gostar tanto de praticar?

Para o garoto foi algo ruim, e a história certamente não iria terminar por ali. Jungkook iria revidar. Ah, se ia. Nem que isso custasse a vida de ambos.

 

X

 

O grande dia finalmente chegou. O plano seria posto em prática e Jimin estava mais nervoso do que se fosse apresentar um trabalho de aula na frente de uma multidão.

Jungkook sentia-se idêntico. Sua guarda nunca ficou tão alta, temendo até a mais singela das brisas tocando-lhe os ombros.

Naquela tarde Jeon havia resolvido ficar na biblioteca, remexendo em velhas memórias e revivendo seu pequeno passado. Várias fotos recheavam um álbum em específico, o mais recente em sua vida. Aquele em particular era secreto, pois ninguém sabia da existência de tais fotografias.

Jungkook gostava de tirar fotos de cada uma de suas "vítimas", sendo uma em vida e outra depois de mortas. Ele colocava uma ao lado da outra, tendo um prazer culpado em admirar as mudanças que os corpos sofriam depois da partida deste mundo.

Logo depois, arrependia-se, sentindo culpa por ter arrancado a vitalidade de tais pessoas.

Quando vou sair deste ciclo interminável?

Nunca? O hóspede sempre chegaria com aquela missão besta? Curar e reparar uma pessoa que nunca teria conserto?

Ela já chegava na mansão com medo, sendo recebida da pior maneira possível. Queria fugir para nunca mais voltar, mas Dr. Jeon sempre conseguia a impedir, persuadindo-a com dizeres falsos e muito duvidosos. Depois de alguns dias, as interações recomeçavam, Jungkook sendo o grande empecilho para a possível liberdade. Os dois geralmente discutiam muito, um desgaste interminável para o garoto conseguir esconder-se em sua máscara de indiferença. Ele insistia em ocultar seu passado, não querendo revelá-lo a meros intrusos insuportáveis por causa de seus medos e fraquezas.

A ânsia por liberdade gritava na mente dela, chegando a refletir em seus olhos o brilho distante que contrastava harmonicamente com a melancolia do mais novo.

Era irritante demais como as pessoas se tornavam perseguidoras, chegando ao nível de insultar seus hábitos e invadir o seu curto espaço pessoal.

Todo mundo sabe como a história termina.

Jungkook acabava por suavizar sua dor, matando aquilo que tanto o incomodava e agoniava. A culpa chegava logo em seguida, atormentando sua mente depois de sentir-se prazeroso por uma morte injusta.

Quantas vezes ele teria que dizer? Não queria ajuda alguma! Interagir com um ser humano qualquer que só lhe desejava o mal não iria curá-lo. Por que ninguém o deixava em paz? Quieto no seu canto, não machucando desnecessariamente os outros ao seu redor.

- Seria bem mais simples...

- Oi?

- Oi Jimin. O que deseja? - ele perguntou despreocupado, ainda perdido em pensamentos porém atento o suficiente para sentir a presença do mais velho.

- Eu só queria te ver.

- Hm. Já viu então. Pode ir embora.

- O que você tá fazendo? - Jimin indagou, ignorando a resposta grosseira.

- Nada que te interesse.

- Como você sabe que não me interessa? - o menor insistiu, querendo espiar por sobre o ombro do Jungkook.

Ele desviou do contato, virando-se de frente para Jimin.

- É só um álbum de fotos.

- Ai meu Deus. Eu preciso ver as fotos de quando você era criança! - o menor exclamou, querendo arrancar o álbum das mãos do outro.

- Sai daqui. - Jungkook fez um biquinho, se afastando e batendo telecineticamente o livro na cabeça dele.

Aigoo. Isso é trapaça, sabia?

- Eu sei. - ele respondeu, um riso cômico tintilando em sua voz. Jimin apenas cruzou os braços, indignado.

- Não é justo.

- Não? Então quer brincar sem trapaça Jimin?

- Quero~

- Então tente achar uma foto minha com sete anos de idade. Ela está avulsa e perdida nesta biblioteca. - Jungkook desafiou, jogando a franja para trás com a cabeça. Hábito este que Jimin adorava.

- E eu não ganho nem uma dica? Já viu o tamanho dessas prateleiras!? - reclamou, pulando para tentar alcançar a metade da prateleira.

- Hmm... Procure pelo livro da maçã, siga mais sete para a esquerda e encontre o seu prêmio.

Jimin não pensou duas vezes e foi atrás daquele livro, mesmo não sabendo exatamente qual era. O único problema era que Jungkook estava mentindo descaradamente. Não havia foto alguma para ser encontrada. Ele apenas não queria que Jimin visse suas quatro vítimas, todas pálidas e sem vida.

E ao invés de fechar o álbum, seus olhos voltaram a focar na última, o único garoto assassinado por si. Sua pele branquinha e fios negros, contrastando graciosamente com o sangue que corria pela cabeça. Jeon o arremessou de uma das sacadas do segundo andar, num dia frio de dezembro, a neve cristalina caindo vagarosamente.

Ficou tanto tempo hipnotizado pela foto que desta vez não percebeu Jimin se aproximando lentamente, armado com uma pequena adaga. O pequeno mal havia procurado pela foto, apenas querendo seguir o plano guiado pelo pai do garoto.

Park estava quase cravando a arma na coluna do amigo quando Jungkook sentiu a presença do objeto perfurante, rapidamente reagindo e arrancando o item das mãos de Jimin com outra faca. O golpe foi certeiro, o poder telecinético sempre o deixando em vantagem.

O mais novo virou-se rápido, uma das fotos da última vítima caindo despreocupadamente no chão.

- Ah. J-jungkookie... - Jimin balbuciou, a cor de seu rosto se esvaindo aos poucos. Ele sabia que esse plano tinha sido uma péssima ideia.

Jeon nada respondeu, olhando vazio para a adaga que a pouco havia desviado. A faca de açougue branca ainda flutuava e o garoto a pegou no ar, empunhando com gosto um de seus objetos preferidos.

- Você ia mesmo tentar me matar? - perguntou, ainda não desviando o olhar do chão.

- N-não. É que...

- Não minta pra mim.

Jimin quase tremia no lugar, temendo o pior enquanto as palavras não conseguiam sair de sua boca.

- Eu confiei em você.

- E-eu sei-

- Não sabe não! - gritou perdendo a compostura indiferente. - Se soubesse não teria ouvido meu pai.

O mais velho novamente ficou mudo, dando um passo para trás a cada centímetro que Jungkook dava para a frente. Acabou encurralado numa prateleira qualquer, Jeon cada vez mais raivoso.

- Você acha que eu não tenho coragem de te matar?

Jimin negou com a cabeça, o fio da faca logo em seguida prendendo seu pescoço. O garoto gemeu de dor, sentindo um filete de sangue escorrer quente até a blusa.

Foi naquele momento, tão próximos fisicamente, porém distantes psicologicamente, que o mais novo percebeu. Nunca haviam se tocado. Nem sem querer. Em todo esse tempo convivendo juntos e nem um esbarrão sequer havia ocorrido entre os dois. Por que?

- A morte é tão linda e trágica ao mesmo tempo. - Jungkook comentou, mais um monólogo medonho sobre o fim da vida se iniciando. - As pessoas não vêem beleza nisso, mas eu vejo... Vê aquela foto ali no chão? É disso que eu tanto falo. Olhe as cores, posições, a palidez! Absolutamente perfeito.

Jimin encarava os olhos pretumes e sonhadores, a dor misturando-se a adrenalina que corria pelo seu sangue. Era a primeira vez que Jungkook ameaçava alguém com as próprias mãos, a faca cortando diretamente a pele fina e delicada. Ele umedeceu os lábios, satisfeito.

- Boa noite Park Jimin.

Quando ouviu isso pensou que iria morrer, tão tolo por acreditar que algum dia chegaria próximo do coração de Jungkook. 

- Isso não é uma despedida, apenas um 'até mais'.

Jeon acrescentou, apoiando-se nos livros para seguir não tocando-o diretamente. Ele deslizou a lâmina pelo pescoço do mais novo, sabendo muito bem onde cortar para não matá-lo imediatamente.

O sangue escorria em abundância, assustando Jimin que lentamente escorregava até o chão, sem forças para reagir.

A última coisa que ele viu antes de desmaiar foi Jungkook se afastando, lambendo o sangue da faca com um grande pesar em seus olhos. Seu interior novamente dividido.

O corpo sentindo prazer ao apreciar o sangue escorrer pegajoso por entre os dedos.

A mente borbulhando um ódio pela traição maldosamente planejada.

E o coração chorando de tristeza, deprimido por não ter mais em quem confiar.


Notas Finais


Espero que me perdoem por esse final meio... Ruim?


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