História Demônios - Capítulo 6


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Personagens Personagens Originais
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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Violência
Avisos: Álcool, Estupro, Linguagem Imprópria, Mutilação, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 6 - Fraca


Fanfic / Fanfiction Demônios - Capítulo 6 - Fraca


Eu não sei.

Talvez a ordem do juíz e o descaso em relação ao estupro, a forma como o violentador fora solto, como uma pessoa honesta que acabou sendo presa por engano e depois solta sem mais nem menos, tenha sido o responsável pela minha reação.

A crise de pânico em saber que poderei encontrá-lo na rua e como tranquilamente - ou não, não se sabe ao certo - ele faça a mesma coisa novamente e novamente e seja absolvido dos seus crimes como acontecera do meu.

É, com certeza foi isso, esse descaso e injustiça foi o culpado por eu ter me afundado na depressão a ponto de questionar o porquê ainda vivia.

Passou-se semanas e durante este intervalo de tempo não saí da minha casa para nada, nem para ir ao supermercado com meus pais, nem as minhas consultas médicas com Patrícia e as consultas na psicóloga Lorena eu passei a viver no automático e amedrontada demais para sair de dentro da proteção da minha casa e encontrar por ventura o estuprador que está solto.

- Beatriz - Mamãe entra no quarto e deixa sobre a escrivaninha um copo com suco e um lanche de presunto e queijo - Tenho que ir na consulta com seu pai, volto logo.

Ela beija minha testa e acaricia meus cabelos, meu olhar vagueia perdido até sua barriga e eu suspiro. Mamãe descobriu que é um menino, finalmente em sua terceira tentativa conseguiu o menininho, apesar de tudo não houve comemoração ou ao menos risos contentes da parte dos meus pais ou minha, descobrimos o sexo do bebê depois de um mal estar dela depois que entrei em estado catatônico no fim do julgamento.

Me senti mal por descobrir daquela forma, em um ultrassom às pressas para saber se o bebê não tinha sido afetado com a queda da minha mãe ao desmaiar, e foi assim que a obstetra Kátia revelara a nós.

- É um menino saudável!

- Qualquer coisa ligue para mim - Mamãe avisa antes de sair do quarto e eu apenas meneio com a cabeça.

Minutos depois o som dos portões da garagem se fechando é escutado e eu respiro fundo antes de deitar de costas no colchão macio, fecho os olhos com força e enfio minhas mãos embaixo do travesseiro, esbarro em alguns comprimidos de antidepressivos e calmantes que me recusei a tomar e para evitar dores de cabeça escondi-as o melhor que pude.

Suavemente escorrego para um cochilo e acordo apavorada ao reviver o estupro novamente em um pesadelo, todos os detalhes, dores e sentimentos voltam de uma vez e sufocada pulo para longe da cama, respiro profundamente algumas vezes.

Não consigo, não posso continuar desta forma.

Sento-me na cadeira giratória em frente a escrivaninha e apóio minha cabeça entre as mãos, tentando recobrar a força a clareza dos meus pensamentos, um pequeno montinho de folhas decoradas com ramos de flores estão colocados a minha frente junto com uma caneta esferográfica preta. Uma ideia passa por minha cabeça e eu puxo-as até estarem a minha frente, quase que imediatamente começo a escrever.

" Querida mamãe.

Se está lendo esta carta, significa que não consegui segurar toda a pressão que estava em meus ombros após o estupro.

Espero que não se culpe por nada e nem jogue a culpa para o papai, vocês dois foram incríveis e me ajudaram em tudo que precisei.

Mãe, quando eu falava sobre depressão, a senhora dizia que a automutilação e o suicídio só eram feitas por pessoas fracas, mas não é. Eu tentei ser forte até o final, enfrentei a dor de um estupro, não só a dor física, como também a psicológica e a emocional. Eu juro que tentei, porém quando vi o quanto a justiça foi falha e fez descaso do meu julgamento, deixando aquele homem nojento nas ruas enquanto eu tinha que viver com a sombra do medo e da vergonha em meu encalço não suportei.

Nem todas as desculpas do mundo e as juras de amor que pude fazer a você, suprirá a dor, mas agora, eu estou feliz, mamãe. Nicolas irá ocupar um pedacinho do seu coração que a muito tempo foi reservado a mim e um dia quando ele for mais velho e entender que o mundo é mau e que as pessoas são cruéis, conte a ele que sua irmã passou por uma dessas crueldades e não suportou, diga a ele que mesmo sem conhecê-lo sempre o amei muito, assim como te amo.

Com amor, Beatriz. "

" Querido papai.

Espero que essa carta chegue bem as suas mãos e se chegou, peço que me perdoe pelo que fiz. Mas simplesmente não pude mais suportar tudo, a dor do estupro,a dor emocional e psicológica e principalmente a forma que fui tratada após tudo que sofri, receber a insinuação que eu havia consentido e feito tudo para ganhar atenção, o descaso da justiça e a soltura do violentador foi demais, não consegui aguentar.

Sei que deve estar sofrendo como a mamãe, porém torço para que se mantenha forte por ela, pelo Nicolas e por mim também. Pai, você sempre foi meu herói, o homem que sempre respeitei e admirei com todas as minhas forças, o pai que sempre fez tudo que pode por seus filhos e que acima de tudo, me deu tanto amor que mal tenho palavras para agradecer e dizer o quanto te amo.

Espero que me perdoe, com amor Beatriz."

" Para Teresa - Tessa.

Desculpe por não cumprir minha promessa de ir para a mesma faculdade que você ou de irmos viajar quando ficarmos mais velha, na verdade, me desculpe por deixá-la assim, com um carta de despedida que consegui escrever por estar sem meus remédios há algum tempo.

Nunca foi minha intenção acabar com minha própria vida, eu queria ter sido aquelas histórias de mulheres fortes que dão a volta por cima após o estupro, que vêem seus estupradores recebendo a punição que merece, mas nada disso aconteceu comigo. Eu fui fraca, como nunca fui, não suportei o peso e o choque da realidade e da injustiça sobre meus ombros e acabei cedendo.

Tessa, assim como milhares de mulheres que são violentadas e acabam se matando depois, eu não fui diferente. Entretanto espero que um dia minha história seja conhecida, que a repórter maravilhosa que você será mostre para o mundo o caso da sua melhor amiga que se suicidou após um estupro e por uma injustiça na Lei. Faça todos verem e sentirem as dores das mulheres que são violentadas, faça com que conheçam mais uma história sobre uma garota que não suportou.

Me desculpe por não cumprir minhas promessas e deixá-la de repente, cuide-se bem, amo você. "

Após escrever, trêmula faço três envelopes com folhas de sulfite e coloco as cartas dentro, escrevendo cuidadosamente o nome de cada um dos destinatários.

Olho para fora da janela e observo o céu nublado, em meu interior uma batalha é travada e eu me levanto decidida. Com o copo de suco e todos os vinte e três comprimidos de não havia ingerido, os tomo de uma vez e deixo o copo cair no chão quebrando-se em pedaços.

Não volta, não mais.

O som estridente de motos, caminhões e carros não me incomodam quando passo por uma avenida movimentada, a chuva forte faz com que o fluxo de automóveis diminua significativamente e eu conheço a caminhar no acostamento de um viaduto, a visão turva pelos comprimidos que começam a se dissolver no estômago dificulta para que eu encontre um bom lugar para descansar, coloco os cotovelos na grade e olho para o céu as gotas de chuva que me atingem no rosto parecem lavar minha alma e a sujeira deixada por aquele homem, viro e impulsiono o corpo sentando-me na grade de proteção.

Um meio sorriso surge em meus lábios e eu olho para o céu novamente.

- Um dia a gente se encontra de novo - Sussurro quando a imagem dos meus pais aparecem em minha mente.

Lentamente deixo meu corpo escorregar para trás e despenco. Apesar de tudo, não sinto medo ou pânico, apenas paz enquanto encaro o céu e nesse momento o sol aparece entre as nuvens deixando-as laranjas. Sorrio, pela paz interior que sinto como se todos os demônios que atormentaram-me desde o dia negro finalmente me deixassem, como se fosse em câmera lenta ouço a buzina de uma caminhão.

Escuridão, sem dor ou sofrimento, minha vida acaba por aqui, onde me livro das correntes do sofrimento.


Notas Finais


E aqui chegamos ao último capítulo da estória.
Sinto muito por aqueles que pensavam que a Beatriz iria superar seu trauma e dar a volta por cima, mas a realidade em que vivemos muitas vezes isso não acontece, mulheres são estupradas e colocadas como culpadas e não vítimas, enquanto os estupradores são soltos para perambular entre nós e livres para cometer o mesmo crime novamente.
No caso da Bia isso aconteceu e a pressão por isso e por tudo que viveu, a forma que a irmã quis colocá-la como a vilã é muito comum, espero ter retratado bem isso.


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