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História Depois da tempestade - Capítulo 4


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Notas do Autor


Olá preciosas e preciosos.
Um pouco mais da história da Regina, um pouco mais desse Rocinante maravilhoso.
Boa leitura ❤️

Capítulo 4 - Capítulo 4


Rocinante progredia de forma quase surpreendente.

Se nos primeiros dois dias ele havia se mostrado um animal completamente arisco, agora permitia que Emma o tocasse e seu pelo estava com um brilho que já não era visto há muito tempo. Apesar de ter se mantido afastado dos outros cavalos, inicialmente, ele se tornara capaz de dividir o cocho de comida e água, além de buscar se manter próximo deles quando estava no campo. No entanto, a proximidade de Regina o deixava claramente incomodado.

Em algumas vezes que Emma o fazia girar no redondel, a empresária vinha até a cerca para observar e no instante em que o cavalo percebia sua presença, deixava de lado a doma e corria em sua direção ou na direção oposta, de maneira agressiva.

E a isso se sucedia um exercício a ser recomeçado e uma Regina de olhos baixos voltando para os papéis do Rancho, que ela estava resolvendo com rapidez.

Os papéis eram, em sua maioria, contratos velhos que precisavam ser apenas organizados, alguns Emma nem mesmo havia assinado, o que provocou um certo incômodo na morena. Ela estava utilizando o pequeno escritório no celeiro para trabalhar e era reconfortante fazer pequenas pausas apenas para acariciar Lily, que sempre aceitava de boa vontade um petisco.

—O seguro precisa ser renovado – Ela comentou, quando entrou na casa principal e encontrou Emma a mesa, bebericando de uma xícara de chá – E eu acho que você devia ler a coisa toda, porque aparentemente, ele não cobre aquele celeiro do fundo – Enquanto falava, Regina deixou sobre uma das cadeiras a caixa que tinha em mãos.

—Certo, apenas deixe-os onde eu possa ver e cuido disso hoje mesmo – A loira franziu o cenho – E essa caixa?

—Contratos que você não assinou – Regina colocou ambas as mãos na cintura, a encarando – A maioria deles é velho e assim que você assinar, podemos colocar junto com os outros.

—Mas.... São velhos – Emma abriu a caixa, olhando alguns dos papéis – Dois, três anos atrás.... Não faz sentido assinar.

—Emma – A empresária sorriu, sem muito humor – Se algum desses cavalos tiver um problema sério e por alguma razão, o proprietário decidir que você é a causa disso. A coisa toda vai para a justiça, os dois lados juntam provas.... E você aparece com um contrato que nem se deu ao trabalho de assinar – Emma a encarava, com os lábios entreabertos.

—Eu.... – Era impossível pensar quando uma mulher como Regina se colocava diante dela com aquela postura e usava um tom de liderança completa. Nem em seus sonhos adolescentes mais loucos, ela imaginou que aquilo iria acontecer um dia. Ela simplesmente duvidava que qualquer outra mulher no mundo, pudesse ficar tão bem vestindo um jeans.

—Eu sei que você faz um trabalho sério com os cavalos, Henry sabe, você sabe. Mas imagine o que uma bancada de júris ou mesmo um juiz vai pensar sobre o trabalho de alguém que não assina um contrato de serviço.

—Não iria parecer bom, não é?

—Não, não iria.

—Eu vou assiná-los, todos – Emma devolveu os papéis na caixa e a fechou – Vou deixar isso aqui e a noite lido com tudo – A morena sorriu e se virou, pronta para voltar ao trabalho – Regina.... Já que está aqui, eu gostaria de tentar uma aproximação com Rocinante – O sorriso de Regina desapareceu – Preciso observar como é a interação entre vocês, para saber o que fazer em seguida.

—Claro.... Se é preciso ser feito, vamos fazer.

—Vem comigo – As duas saíram da casa e seguiram direto para o redondel, onde o cavalo esperava – Eu quero que você fique calma. Vamos fazer tudo devagar e da maneira certa – Emma a tocou no braço e ambas pararam de andar – Eu vou entrar primeiro e começar a trabalhar com ele como sempre faço. Quando eu der o sinal, você entra e fica parada ao lado do portão, pode segurá-lo aberto, se isso a fizer se sentir melhor. Só não deixe abrir de vez, se não ele foge.

—Tudo bem.

Emma fez como havia dito, entrou no redondel e iniciou os giros com Rocinante, que demonstrava maestria em cada um de seus movimentos, como se aquilo fosse um show particular ao invés de uma doma. Após alguns minutos, ela sinalizou para que Regina entrasse e, vagarosamente, a morena destravou o portão e o abriu apenas o suficiente para passar.

Foi o bastante.

Rocinante alterou de imediato sua postura. Batia os cascos dianteiros no chão, compassadamente, de modo a deixar claro seu descontentamento com a presença de Regina. Suas narinas se inflavam mais a cada instante, como se tentasse expelir mais ar do que era capaz.

—Não saia ainda – Emma alertou, observando – Espere – Ela continuou olhando cada um dos movimentos do cavalo, decidindo o que fariam em seguida – Ok, pode ir.

Com um suspiro de alívio, Regina saiu do redondel e como que para provar seu ponto, Rocinante correu até a beirada da cerca e fez a poeira levantar com seus cascos, bufando para ela.

—Ok, agora eu posso montar um plano para trabalharmos com ele nos próximos dias – Emma falou, enquanto vinha até ela – Ele não está tão agressivo quanto eu temia e..... Você está bem?

—Claro – Regina tentou se livrar das lágrimas que insistiam em descer sobre seu rosto e a olhou, tentando sorrir e fracassando.

—Vamos, vamos tomar alguma coisa.

Para Emma, alguma coisa significava cerveja e a cada dia que passava, a morena se acostumava mais ao fato de nunca despejar sua bebida em um copo, como costumava fazer em casa. Já se tornara quase um hábito segurar a garrafa as mãos e bebericar dela.

Existia aquela pequena parte da empresária que se rendia ao sono alcoolizado no sábado à noite, sem culpas ou preocupações e ela não pôde deixar de pensar o quanto seria julgada, principalmente por sua irmã, se bebesse whisky daquela maneira.

—Certo – Emma lhe entregou uma das garrafas e se sentou no degrau da varanda, ao passo que ela preferiu equilibrar-se na ponta da cadeira de balanço e se manter quieta, para não acabar caindo para trás – Quer falar sobre isso?

—Não realmente – A loira suspirou.

—Regina.... Eu estou trabalhando com Rocinante e ele está melhorando, você mesma vê isso – A empresária assentiu – Só que.... Eu posso resolver o problema dele com você, mas não posso resolver seu problema com ele.

—Mas....

—Cavalos não precisam que você bata os cascos e bufe para que saibam que prefere não estar perto deles. Principalmente um que já conviveu com você durante algum tempo – Emma bebeu de sua cerveja, esticando as pernas e encarando o celeiro – Eles sabem ler as pessoas, sabem identificar sentimentos e assim como em tantos outros relacionamentos, a confiança é uma das principais bases entre cavalo e cavalheiro. E vocês dois.... Não confiam um no outro.

O quão difícil seria dizer tudo agora? Ainda mais importante, o quão difícil seria para que Emma entendesse que tudo aquilo ia muito além de um acidente? Era como uma grande bola de neve que havia começado pequena e crescido diante de seus olhos a um ponto onde se tornara quase impossível ver o caminho a frente ou mesmo a claridade.

Talvez ela não precisasse entender. Regina se pegou encarando o perfil da loira, desde seu nariz fino até os cabelos loiros, parcialmente escondidos sob o chapéu e seus braços com músculos bem delineados. Não era essencial que ela entendesse coisa alguma, afinal, dentro de alguns dias ela iria embora e Emma Swan não passaria de uma memória.

—No dia do acidente, eu estava dirigindo – Ela começou a falar devagar, experimentando o assunto em seus lábios – Meu marido, Robin, queria ter ficado na fazenda por mais um dia, mas eu precisava voltar ou.... Ou achava que precisava. Tinha chovido muito naquela manhã e havia água na pista, eu perdi o controle e o carro capotou em um barranco, só parou quando bateu em uma pedra. Eles disseram que Robin morreu na hora do impacto, bateu a cabeça.

—Sinto muito – Emma a olhou.

—Depois disso tudo mudou, tudo. – A morena balançou a cabeça – Nos primeiros dois meses, eu só queria afundar na minha própria miséria. Liguei para saber de Rocinante e como ele estava bem, simplesmente não fui vê-lo. Me afundei no trabalho, lia um manuscrito atrás do outro, depois me embebedava e ia dormir, porque não queria sair das páginas de ficção e voltar para a minha vida. É patético, mas era uma boa saída, na época.

—Cada pessoa lida com sua dor de uma maneira, não há o que julgar sobre isso – Emma comentou, lembrando-se de seus próprios exageros após a morte da mãe.

—Fale isso para minha irmã. Ela nunca entendeu que eu só precisava de um tempo, pensou que eu estivesse na beira do suicídio ou algo nesse sentido – A loira franziu o cenho – Depois desses meses, quando eu finalmente consegui voltar para a realidade, Zelena passou a me tratar como se eu vivesse nas bordas do que minha vida costumava ser antes. Ela quer que eu vá em encontros de família, mas todos eles pisam em ovos ao meu redor, evitam quaisquer assuntos que envolvam casamento, gravidez, felicidade, como se eu fosse uma infeliz miserável. O que talvez eu tenha me tornado depois de ser tratada assim por tanto tempo.

Elas ficaram em silêncio durante alguns minutos. Os quais Emma esperou, com paciência, sabendo que aquilo ia muito além dos problemas com Rocinante, era simplesmente algo que estava guardado há muito tempo e precisava ser dito.

—Eu sei que ela só quer ajudar, mas.... – Regina suspirou – Não preciso mais de ajuda. Não quero que ela tente me arrastar para encontros com pessoas que não tem nada a ver comigo ou que continue agindo como se eu fosse quebrar a qualquer segundo. Parece horrível dizer isso, mas eu já superei, já deixei para trás e ela continua me lembrando dia após dia de tudo o que aconteceu, o que deixou de acontecer. Em uma noite ela quer me apresentar algum homem aleatório e no dia seguinte, não me deixa ler as notícias porque está no jornal que uma celebridade se casou e acha que eu vou partir no meio se ler isso. E eu estou cansada.

—Ela realmente pensa que você não superou isso apenas porque não passa a noite com qualquer pessoa? – Emma teria rido, se o momento não fosse impróprio – Isso é loucura.

—Finalmente alguém para concordar comigo – Regina sorriu e desistindo do desconforto de estar empoleirada na ponta da cadeira, se sentou ao lado da loira, no degrau – Isso já dura dois anos e não sei se faz sentido, mas eu acreditei que Rocinante pudesse ser uma espécie de ponte para o passado. Não para meu casamento ou para a memória de Robin, mas sim para a maneira como eu me sentia na época, entende? Quando minha família não agia desse jeito comigo, quando eu não tinha a família do meu marido me dizendo que eu o matei. Eu era feliz e passei a pensar que ele pudesse me fazer sentir assim de novo.

—Acho que consigo entender. É como quando nós vamos a um lugar pela primeira vez e a experiência é incrível, mas quando voltamos lá, as coisas não acontecem igual.

—É, quase isso. Porém, quando eu fui ver Rocinante pela primeira vez, alguns meses depois do acidente, descobri que ele não era mais o mesmo – Ela deu de ombros, encarando a garrafa agora quase vazia que tinha em mãos – Eu continuei voltando, tentando desesperadamente me aproximar dele, porque ele não me olhava com aqueles olhos de pena. E então, Zelena começou a implicar porque eu dava muita atenção ao cavalo e eu passei a tentar ainda mais.

—Você já disse isso a ela?

—Já, com todas as letras e mais de uma vez. Mas ela acredita cegamente que o fato de eu não transar há dois anos é uma prova perfeita de que não superei a morte de Robin e que meu trabalho e o cavalo são válvulas de escape para minha solidão miserável – Emma riu – Eu estou realmente cansada de ter que manter uma aparência todos os dias, porque preciso estar totalmente presente na editora e eu faço isso como sempre fiz, mas quando chego em casa, não posso me despir de todas essas coisas porque minha irmã está lá, ela está sempre lá para desqualificar até a cor do meu esmalte.

—Você e seu marido ficaram casados por muito tempo?

—Três anos – Ela deu de ombros – Nos conhecíamos desde jovens, mas sempre fomos apenas amigos, até que.... Aconteceu.

—Acho que eu entendo agora – Emma olhou para a empresária – É uma hipótese, mas.... Você e seu marido visitavam Rocinante com frequência, certo?

—Sim, quase todos os finais de semana e feriados. A verdade é que ele era mais ligado a Robin do que a mim. É claro que ficava feliz em me ver, mas quando Robin aparecia, era diferente.

—Ok, pense comigo. Rocinante tinha atenção quase constante e de repente, vocês sofreram o acidente e essa atenção desapareceu sem explicações – Ela pensou um pouco – E quando você voltou, seu marido já não estava lá. Talvez ele precisasse de um tempo para assimilar isso tudo, mas não teve.

—Porque eu continuava tentando o forçar.... – Regina olhou para o cavalo, que comia tranquilamente.

—Isso. Então além do trauma do acidente e da falta que ele sentia do seu marido, você estava tentando empurrá-lo em uma direção que ele ainda não estava pronto para ir.

—Meu Deus, eu reclamo tanto de Zelena e fiz a mesma coisa – A empresária parecia prestes a chorar – Nunca pensei que ele pudesse.... Sentir. Não dessa maneira.

—Não se culpe tanto, a maioria das pessoas não sabe disso – Emma suspirou – Vamos continuar trabalhando com ele, está bem? Eu tenho um plano agora. Hey.... O quanto você me odiaria se eu dissesse que pesquisei sobre.... Você sabe, seu acidente e tudo mais.

—Você fez isso? – Regina a encarou e ela não soube dizer quais sentimentos haviam em sua expressão.

—Fiz. Foi curiosidade, eu acho. Depois daquela noite que você não quis me dizer nada.

—Bom.... Você não passou a me tratar como alguém que precisasse de atenção especial. Então eu não te odiaria – Regina sorriu, levemente – Na verdade, acho que foi atencioso de sua parte. E..... Obrigada, por tudo.

Regina apoiou a mão no joelho de Emma e apertou com suavidade, antes de se levantar e entrar na casa, sem dizer mais nada.

A loira encarou a própria perna, afetada. Ela teria sérios problemas se aquela mulher continuasse ali durante muito tempo.



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