História Depois das oito - Capítulo 6


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Categorias Malhação
Tags Fives, Limantha, Malhação, Viva A Diferença
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Palavras 6.045
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Ficção, LGBT, Literatura Feminina, Policial, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


gente, eu nem vou pedir desculpas pela demora porque eu sempre demoro, mas eu não vou abandonar a fic não viu ahaha


Bom, queria agradecer principalmente à Thamira e a Maria, autora de Quando éramos jovens e queríamos colocar fogo no mundo — ou quando éramos jovens e piromaníacos, como tão carinhosamente apelidei —. Sem elas esse cap não ia sair nunquinha.

Espero que gostem. <3

Capítulo 6 - Erros e orgulho


É tarde demais para se arrepender sobre o que eu fiz

Em meus pensamentos

Eu já me condenei

Não há nenhuma chance de liberdade condicional



 

Lica

 

Era uma quarta-feira à tarde quando MB terminou de levar seus pertences importantes para minha casa. Não era muita coisa, como disse MB — só a maior parte das roupas casuais, sua guitarra, todo o estoque de bebida alcoolica que coube dentro das malas (que foi interceptado por dona Marta e Luís), sua coleção de CD’s e vinis (“Que tipo de pai eu seria se deixasse eles pra trás? E Marta falou que eu podia tocar eles aqui.”) e algumas camisetas que estavam enterradas no meu closet, que me doeu tê-las de devolver. No mesmo dia partimos em busca de um novo celular e passamos a noite arrumando os pertences no quarto em que ele tinha se alojado. MB parecia estar alegre com a mudança, apesar das restrições para manter a estadia temporária.

— Valeu mesmo, Liquinha. — ele disse, colocando um vinil d’Os mutantes na prateleira. — Sabe, por… tudo.

— Olha, se cê agradecer mais uma vez eu te jogo pra fora de casa. — respondi de brincadeira. — Tá tudo bem, sério.

— Cê me jogaria mesmo pra fora? Eu sou um anjinho — fez uma carinha de cachorro pidão. — Tô igualzinho aquele curta “Polaris”, esquecido no churrasco.

Ele balançou a cabeça e pegou alguns CD’s da mala, assumindo um semblante pensativo. Observei MB se esticar para colocar no alto da prateleira os discos — organizados por ano de lançamento e nacionalidade —, num silêncio confortável. Me abaixei para pegar mais um CD e o segurei por um momento, me dando conta que era um álbum de Marjorie Estiano. Mordi o lábio, tentando esconder um sorriso, quando me lembrei da conversa com Samantha no Uber. MB, mais do que depressa, arrancou o cd de minhas mãos e o colocou na prateleira.

— Que é que cê tá rindo?

— Nada não — tentei manter a cara séria. — E seus pais? Não mandaram outra mensagem? Vem cá, cê não sabe qual é esse projeto da empresa?

Ele balançou a cabeça em resposta e se afastou, demorando-se de propósito a dar uma resposta.

— Meu velho nunca passou tanto tempo fora antes, sem nem avisar data de volta. Não faço ideia do que seja, mas deve ser muito lucrativo, senão JM não ia estar metido nessa. — ele não parecia muito interessado em prolongar o assunto. — K1 disse pra eu tentar conversar com a secretária dele, mas ainda não tentei.

Havia alguma coisa errada nessa história, mas eu não sabia o quê; era uma calma que se antecede à tempestade, como se algo estivesse terrivelmente errado, deslocado. Trabalhamos em silêncio por alguns minutos, quebrado apenas quando MB explicava como conseguiu algum vinil de sua enorme coleção.

— Mas e suas crushes, hein Liquinha? — ele falou de brincadeira, me lançando um olhar divertido que gritava com todas as palavras “EU TÔ SABENDOOOO”.

A resposta veio antes de eu sequer pensar a respeito, num tom mais agudo que o normal:

— Não brisa, MB! “Suas”?

Ele ergueu as sobrancelhas, rindo, mas não insistiu no assunto.

Conforme as horas passavam, MB voltou a ser ele mesmo; fazia brincadeiras com as capas dos vinis, ria com facilidade, parecendo muito ser o garoto que eu conheci quando éramos crianças, tão diferente do garoto que vinha se perdendo e tentando se encontrar. Era bom tê-lo ali fazendo piadas e brincadeiras, ter trabalho a fazer: queria me certificar de que ele ficaria bem, pelo menos no tempo que estivesse  com minha família. Eu não tinha nenhum senso de proteção com MB, a verdade era que havia certa compaixão misturada a todas as merdas que costumávamos fazer juntos. O companheirismo nasceu por ambos se sentirem só e deslocados. Ele não via os pais com frequência e sentia falta de ter alguém por perto, eu precisava de uma válvula de escape para lidar com Edgar. Agora MB tinha K1 e não se sentia tão só, mesmo que ainda frustrado; eu tinha as five, mas ainda me sentia estranha.

Mais deslocada que nunca, acho.

Já era tarde quando coloquei o último vinil na prateleira. Eu sabia porque meus olhos ardiam de cansaço; não entendi como demoramos tanto. Quando me virei, MB já dormia com a boca aberta, de jeans e camiseta, deixando óbvio o motivo do silêncio repentino. Ele parecia apenas cansado e vulnerável, nada como o garoto intenso e cachaceiro que era acordado. Cobri-o com um cobertor e deixei o quarto, batendo a porta de leve ao sair.

 

Queria eu ter tido a mesma facilidade pra dormir.

Beleza, cê pode dizer que eu sou dramática. Algum tempo mais tarde, com o cobertor até o queixo e muitas caraminholas na cabeça, não pude deixar de me perguntar por que tanto me importava. Os últimos dias foram corridos; não houve tempo para pensar em Samantha, ou o motivo de ela estar distante de tudo, qual era o problema, ou porque eu ainda não tinha respondido Bruna, ou porque eu queria tanto beijar as duas.

“Lica, que merda é essa?”

Fitei o teto escuro, dividida entre puta e confusa — eu não podia mentir pra mim mesma. Mas eu era — eu achava que sim — hétero, certo? Beijar alguém, bêbada, não conta. Descarta.

“Mas sóbria cê tem desculpa?”

Maldita voz da consciência. Pensar sem agir não adiantava em nada, na verdade se confundia mais.

Peguei o celular no criado mudo e fui direto para a conversa com Samantha, ignorando as mensagens não lidas de Felipe e Clara. Parei por um instante, os dedos a centímetros do teclado. Mordi o lábio, tentando reprimir o nervosismo.

 

Eu: Ei Sammy

Eu: Tá tudo bem? :)

 

Alguns minutos se passaram e não houve resposta. Provavelmente ela estava dormindo, como eu deveria estar. Fechei a conversa e abri o outro aplicativo.

 

Segunda-feira:

Bruninha do Recife: oie

 

Quarta-feira:

Eu: Oi :)

 

Deus, se eu conseguisse uma resposta depois de dois dias de vácuo, eu ia falar um palavrão.

 

Bruninha do Recife: e aí!

 

— Puta que pariu — eu tava completamente o meme rindo de nervoso.

 

Eu: cê não dorme?

Bruninha do Recife: garotas legais nunca dormem hahaha

Eu: Ahahahaha

Eu: Ei, desculpa pelo vácuo. A semana tá meio louca

Bruninha do Recife: imagina :)

 

Tá, eu não sabia mais o que falar.

 

Eu: Vou continuar sendo uma garota legal se eu disser que vou dormir?

 

Dessa vez a resposta demorou.

 

Bruninha do Recife: vai depender da nossa próxima conversa

 

E foi isso.

 

A fuga da prisão foi muito fácil

Mas eu ainda estou na prisão

Como um pássaro em uma gaiola

Acene com minhas asas, mas eu não posso voar

Eu usei uma colher para cavar

Mas não há nenhuma comida lá fora para comer

 

xxx

 

MB estava falante aquela manhã. Tipo, muito falante. Ele não falou a boca um segundo no percurso ao colégio e me vi obrigada a me colocar no modo standby, respondendo com “aham” e “é”, distraída com o movimento do lado de fora do carro. Em condições normais eu já não falaria, depois de poucas horas de sono meu humor não tava lá dos melhores.

Ao desembarcarmos em frente ao Grupo avistamos Felipe e Ellen. MB entusiasticamente os cumprimentou, correndo e gritando “Felipinhoooooooo”, dando-lhe um abraço como se não o visse há muitos anos. Ellen ergueu as sobrancelhas quando me aproximei.

— Cê devia cortar a açúcar dessa criança, meu — observou meu rosto, analítica, antes de continuar — Não dormiu revisando matéria?

Balancei a cabeça.

— As aulas do Bóris são tão memoráveis que a gente nem precisa de revisão. — ela riu, concordando — Cadê Tina?

— Tá em algum lugar aqui fora com o Anderson. Sabe, não tô muito a fim de esperar, não, principalmente com o senhor Alegria aí.

Passamos pelas catracas e nos desfizemos de nossos celulares. O porteiro nos desejou bom dia — a falta de punição de Edgar me fazia crer que ele nada soube da minha fuga na segunda. Isso me fez lembrar de uma coisa:

— Ô Ellen, sobre essa parada dos celulares, eu tive umas ideias.

— Suas ideias sempre envolvem alguma piromania, quebrar lei que ninguém dá mínima, Jota ou minha provável expulsão se entenderem que eu faço parte do plano.

— Qual é, não é nesse sentido não — falei inocentemente, tentando fazer uma carinha fofa. Ellen cruzou os braços — Tá, talvez a gente fosse precisar da sua ajuda, sim. É pelo Grupo!... Tá bom, poxa. — desisti ao ver a expressão dela. Puxei de dentro da mochila um caderno e o empurrei para a garota.

— As anotações tão incompletas mas tem algumas coisas que são realmente boas, mas nenhuma com tempo hábil pro fim do bimestre. Abaixo assinado, performance, acompanhamento surpresa dos pais… ah, um aplicativo de agenda e acompanhamento escolar?

— Eu disse que tinha coisa legal pra você — fiz um biquinho, zombando.

— E, é claro, ideia pra grafite — ela fechou o caderno e o devolveu — É sobre a Malu? Cê não pode fazer nada contra ela, senão vai incentivar as pessoas a irem contra sua irmã. — ela advertiu com a voz severa.

— Não, não era sobre ela. Mas falando na Clara…

Ela estava a alguns passos de distância com Gabriel, se protegendo do sol sob a marquise. Gabriel mandou um oizinho.

— Buenos dias, minhas maravilhosas — deu um beijo em cada uma — Ellen tá linda, olha só.

— Tô como sempre, Gabriel

— Linda como sempre, ué. — ela balançou a cabeça, sem saber o que responder. Ellen não aceitava elogios com facilidade, mas queria que ela soubesse como era incrível em todos os aspectos. — Tava falando agora mesmo pra Clara a importância de gostar de si mesma.

— Bem leonina o Gabriel — a loirinha comentou.

— Sempre, né, amiga. — Gabriel passou a mão nos cabelos ondulados, sorrindo — É muito importante a gente não correr atrás de quem não demonstra muito interesse, né Lica?

— Do que cê tá falando? — minha voz soou mais agressiva que o normal.

— Do Felipe, ué — ele abafou uma risada debochada — de quem mais?

Recomeçamos a andar, passando pelo corredor a caminho da sala. Clara entrelaçou seu braço ao meu e começou a metralhar palavras em alta velocidade. Meu Deus, qual era o problema dos adolescentes loiros nesse colégio?

— Lica, eu tô falando com você. — Clara estalou os dedos, me assustando.

— Desculpa, não consegui ouvir as últimas 52 mil palavras que você falou.

Clara fechou a cara e entrou na sala, puxando Ellen consigo. Gabriel me olhou, espantado.

— Acordou bem hoje, Lica?

— Cê não faz ideia.

Entrei na sala sozinha, com Gabriel dando passinhos rápidos atrás de mim para me acompanhar.

— Ou, peraí, pô. Vou na sua casa hoje, né? — assenti sem realmente escutar. Samantha estava em seu lugar conversando com Clara e Guto, mas ao nos ver, acenou entusiasticamente para nós. Clara se uniu a Ellen no meio da sala, ainda irritada comigo.

— Oi — Samantha me cumprimentou quando sentei em meu lugar; Gabriel, atrás de Samantha, logo puxou papo com Guto. — Tá tudo bem?

— Uhum. Tudo. — minha expressão não deveria ser das melhores, então apressei a me justificar — Só cansada.

— Parece mesmo. Pois eu acordei muito bem. — ela riu, balançando os cachinhos.

Ainda que a animação contida de Samantha não me incomodasse, decidi que o tempo restante até a aula seria produtivo com alguns rabiscos. Dei um sorriso cortês e me apoiei à minha mesa, desligando minha cabeça enquanto aguardava a turma e o professor.

Sem muita demora, MB e Felipe apareceram e largaram seus pertences à mesa, seguidos por Tina e Bóris. Ela chegou na carteira pulando passo sim, passo não, parecendo inumanamente satisfeita para alguém que tinha acordado cedo. Ela jogou a mochila na cadeira e deu um enorme suspiro, tentando fazer um ar misterioso ao falar comigo:

— Dia lindo — pelo sorriso de Tina, parecia que ela tinha acabado de ganhar um grammy —, lindíssimo dia.

Bóris pediu silêncio à classe, ajeitando os óculos de uma forma particularmente sua.

— Espero que estejam todos acordados e de bom humor — atrás de mim, Samantha deu uma risadinha. —, hoje vamos ter um assunto muito sério, meus caros.

Dito isso, pegou o pincel como se brandisse um chicote e escreveu no quadro: “prova bimestral fim do 2o ano = ENEM”

— Cê tá BRINCANDO que a gente vai começar a aula falando de vestibular! — alguém reclamou lá no fundo.

— É importantíssimo que vocês se dediquem, tanto nas provas do colégio como no ENEM — Bóris ergueu o dedo, falando num tom paternal — talvez seja cedo para alguns, outros podem apenas fantasiar, mas quantos de vocês pensam em alguma profissão ou curso superior?

— Mas é claro que eu já pensei nisso! — MB disse. Todos olharam, espantados. — Nome, MB, profissão: herdeiro. Curso superior: não precisa pra ser herdeiro.

Todos riram, inclusive Bóris.

— Bom, nem todos têm a sorte de serem herdeiros, Michel, então é válido avaliar as opções, mesmo que seja só para daqui a alguns anos. E sabe porque digo isso? Porque tudo é História, e a história está acontecendo aqui. — apontou o pincel para Felipe. — Diga, meu caro: se escolhesse agora, onde aplicaria todo seu talento?

— Hã… — Felipe coçou a barbicha, pensando. — Acho que eu faria artes plásticas pra dar um up nos meus grafites.

— Eu queria fazer Jogos Digitais, mas é só possibilidade. — Jota   

— Acho que eu gostaria de fazer moda ou pedagogia, por causa do Grupo. Não sei, ainda tô em dúvida. — Clara pareceu ansiosa. Mal sabia minha irmã que ela se sairia bem em qualquer coisa que fizesse.

— Vai ser top se todo mundo conseguir, com esse monte de cota pra roubar nossa vaga.

O murmúrio das conversas cessaram quando todos olharam para o autor da frase. Os óculos de Bóris escorregaram um pouco ao demonstrar espanto. Ellen tinha uma expressão entre choque e raiva. Felipe parecia muito confuso ao olhar para trás e perguntar:

— Como assim, meu?

— Mano, é cota pra tudo. Pra preto, pra escola pública, pra índio, já vi que até cota pra viado vai ter — Rafael tornou a falar. — É injusto pra caramba com a gente que tá aqui estudando, pagando essas mensalidades aqui pra vir um qualquer um desqualificado e roubar o que é nosso por direito.

A reação imediata foi um monte de gente falando de uma vez, dividida entre a concordância, a confusão e, em caso de poucos, a raiva pela fala do garoto atrás de Felipe. Bóris se recompôs e ajeitou os óculos no rosto e bateu o pincel na mesa, chamando a atenção da turma.

— Rafael, meu caro, seu posicionamento foi...

— Uma bosta — comentou Tina em voz alta, olhando feio para o rapaz. Ele a encarou, agressivo.

— Sim, quero dizer, não, quero dizer — o professor se atrapalhou e deu uma pausa antes de prosseguir. — Acho melhor explicar seu equívoco. É…

— Bóris, queria saber se você pode me dar a honra. — Ellen disse num tom de voz contido, porém firme. Bóris olhou para ela, dando um sorriso encorajador.

— Claro, claro! A voz é toda sua.

— Obrigada — se levantou, então, para que todos a vissem. Imediatamente depositei toda minha atenção em Ellen. — É engraçado o Rafael ter falado sobre cota. Sabe por quê? Quantos de vocês aqui são pobres?

Ela olhou para toda a turma com aparente raiva. Respirou fundo antes de continuar:

— Eu respondo, uma. Eu. Ganhei uma bolsa no Grupo depois de fazer uma prova, prova a qual me dediquei para ser aprovada. Não são todos os alunos da rede pública que têm uma oportunidade como eu tive. Pra falar sobre cotas, Rafael — ela estalou os dedos para fazê-lo prestar atenção em sua fala —, precisamos contextualizar muita coisa. Fora do berço de ouro onde vocês foram nascidos e criados, fora do ensino particular que seus pais pagam para ser de ótima qualidade, com ar-condicionado e computador de ponta, tem o ensino público que, sim, é bom, mas sucateado. Não sei se vocês sabem, mas esse ano foi aprovado um congelamento de gastos de 20 anos na educação que vai afetar diretamente o ensino público, principalmente faculdades. Cora Coralina não passa por isso, mas tem escolas que não completam horário por falta de professores, outras não têm cadeiras, às vezes nem mesmo lanche, já que desviam grana da comida dos meninos.

— Eu não entendi muito bem, cara — Felipe pareceu receoso ao falar. — Se sua nota é menor, por que cotista entra na frente?

— Vou chegar lá. Tem escolas públicas muito boas que conseguem dar uma preparação pro ENEM, mas não são todas. Tem alunos que não podem pagar um cursinho e contam somente com o ensino da escola, que pode ser precário devido a pouca verba investida pelo governo na educação. E se o aluno mora longe, ele não tem carro particular pra levar ele até a porta, tem que pegar balaio lotado. Às vezes trabalha e estuda, não tem tempo pra se dedicar o dia inteiro só pros estudos, o que já o deixa em desvantagem em relação aos candidatos que tem mais grana. Quem é pobre trabalha cedo pra ajudar a sustentar a família, estudo é luxo e é a gente peitando o governo pra mostrar que temos direito à educação, sim.

— Ô Ellenzinha, desse jeito que tu tá falando, parece que a gente tem culpa de ser rico. — MB pareceu incomodado e algumas pessoas concordaram com ele.

— É consciência, MB. E eu só comecei, falei só de cota do ensino público, do porque que existe. O aluno que estuda em escola estadual não tem nem metade da estrutura que um aluno do Grupo tem, e devemos reconhecer esse privilégio.

Ela deu um suspiro antes de continuar.

— Sobre cotas para negros, Rafael. Negros. Chame isso de reparação histórica. O povo negro foi escravizado e tratado como mercadoria durante séculos, e não foi diferente no nosso país.

— Mas a princesa Isabel libertou os caras…

— Caramba, dois anos tendo aula com o Bóris pra isso? Isabel não libertou ninguém por caridade, ela foi pressionada. Se não fizesse, iria perder comércio de um monte de país. Libertou os escravos, não deu nenhuma chance pra eles. Só jogou todo mundo na rua, sem ter nem onde cair morto. E o mínimo que poderiam fazer pra reparar essa mancha histórica é criar leis que pudessem garantir o acesso do negro às universidades.

— O Brasil é mestiço, garota. Se for assim, eu também posso tentar essa cota aí.

— Claro, e vai perder logo depois por ter fraudado — Ellen rebateu, entediada — Meu, cê é branco e rico. Aceita. E falando sobre entrar em universidade pública, ela deveria ser para os pobres, pra gente que não tem como pagar um ensino superior. Dois conto pra vocês é nada, pra minha família é mais que a renda que a gente tem. Tem prouni, mas é pouca bolsa e não é todo mundo que consegue pagar mais de 500 pau numa faculdade. Quer estudar na faculdade? Se não conseguir entrar numa universidade pública por ter tido uma nota ruim, paga uma privada, Rafael. Cê já tá no ensino privado agora, por que quer pular pro público na faculdade? E respondendo a pergunta do Felipe… cotista não concorre vaga com ampla concorrência, e tem muito menos vaga pra cota que pra concorrência geral.

— Mas se não tivesse cota, todas as vagas seriam pra gente.

— Ai, abana o iludido. Se não tivesse cota, é provável que tivesse o mesmo tanto de vaga que é reservada pra ampla concorrência e só. Cotista concorre com cotista, ampla concorrência com ampla concorrência. Enquanto cês falam duas, três línguas, tem galera de 15 anos fazendo técnico em administração pra ajudar a família a colocar comida na mesa, ganhando muito menos que sua mesada. E sobre roubar vaga… tem seu nome escrito nela?

Continuei fitando Ellen de boca aberta, impressionada com o esmurro que ela tinha acabado de dar. Depois de muitos desentendimentos — pela minha vivência privilegiada não me deixar ver além do meu umbigo —, hoje eu compreendia os motivos de Ellen se dedicar tanto e defender suas causas com tanto afinco. O respeito que eu tinha pela minha amiga só crescia, pelo tanto de coisa que eu aprendia com ela. Como eu disse, as aulas de história eram inesquecíveis.

— PISA MENOS, AMIGA! — Tina gritou e o clima voltou a ficar descontraído. Algumas pessoas riram. Rafael continuava puto.

— Excelente explicação, Ellen, excelente! — Bóris sorriu, animado. Deu uma rápida checada no relógio de pulso. — Ainda temos um tempinho de aula, então vamos às revisões, sim?

 

 

Fosse pela perspectiva de fim de bimestre ou só que o fim de semana se aproximava, todo mundo parecia bem feliz. O dia pareceu passar rápido, apesar das revisões. Logo chegou o último horário, e Tina colou em mim depois da breve despedida de Ellen.

— E qual que é a programação pro fim de semana?

— Até agora, estudar.

— Que chato, Lica.

— É importante. Eu não sou muito boa de física, cê é? — a platinada me lançou um olhar malicioso. — Pelo amor de Deus, Tina, tô falando da matéria! É isso que cê faz com o Anderson antes da aula? Que coisa feia. — fingi um tom de censura, embora risse junto com ela.

— Anderson tá se preparando pra deixar o emprego de motoboy, esse fim de semana a gente vai começar o roteiro de um videoclipe. Não é nada muito grande, vai ser pra um grupo de rap, mas acho que vai ficar legal. MB e Samantha ajudaram bastante com o investimento depois da produção da banda. — ela disse, super empolgada. — Mas não era só por isso que eu tava animada…

Empurrei o ombro de Tina de brincadeira, ainda rindo. Adorava ver como o relacionamento de Tina e Anderson persistia e resistia, apesar do preconceito de Mitsuko.

— Ô Lica, posso falar com você? — Tina e eu nos viramos automaticamente ao ouvirmos a voz de Felipe, que estava parado, segurando as alças de sua mochila amarela, com um sorriso no rosto.

— Olha só a hora, eu já tô indo, beijo Lica, pro Bode não, até depois — Tina mandou um beijo se afastando de costas, fazendo uma careta. Às vezes Tina não conseguia disfarçar que não gostava muito de Felipe.

— Sobre o quê? — eu já tinha um palpite mas não iria ajudá-lo a chegar lá.

— Ah, um grafite no…

— Cê pode me falar pela internet?

— Ah, posso. — ele ajeitou o boné do colégio, parecendo meio irritado, meio chateado. — Depois a gente conversa, então.

Felipe, percebendo que não conseguiria estender o assunto, acenou e foi em direção às catracas, os ombros baixos. Suspirei aliviada por ter conseguido dispensá-lo tão depressa; não queria que Clara visse Felipe conversando comigo, quando já estava um pouco chateada com o rapaz. MB e Gabriel ainda não haviam passado por mim, e eu esperava por eles antes de sairmos do colégio. Os alunos saíam em trios e grupos, dentre eles Guto, Clara e Samantha. A loirinha mostrou a língua ao passar por mim, segurando firmemente o braço de Guto. Ele acenou, sem ter como parar, carregado por minha irmã.

— Clara, desculpa! — Falei alto pra ela me escutar.

— Cavala! — não pude deixar de gargalhar ao ver Clara fazendo birra.

— Amor de irmã é uma coisa, né? — Samantha disse, achando graça. — Clara realmente gosta de você.

— Eu sei. — respondi, sincera. Também gostava muito de Clara, e ficava realmente feliz pelos problemas de Edgar não ter nos afastado definitivamente.

— MB tá bem?

— Tá, sim. Cê sabe, ele vai passar um tempo lá em casa, terminamos de arrumar as coisas ontem. Ele só não tá podendo beber lá, dona Marta jogou tudo na pia assim que ele passou pela porta.

Ela assentiu.

— Finalmente vai ter MB sóbrio antes dos ensaios, então — ela comentou em tom de brincadeira. — Mas eu tava querendo te pedir desculpas por aquele dia. Acho que saí meio fugida…

— Imagina…

— Então eu queria compensar te chamando pra tomar um sorvete no sábado.

Meu coração parou por um milissegundo, tropeçou e eu podia jurar que ia morrer ali mesmo.

— Hã — minha garganta tinha secado e a voz saiu rouca. — Sair? No sábado?

— Só se você tiver a fim. — ela respondeu tentando, pude perceber, deixar o clima leve.

— Partiu sorvete. — que se dane a prova de física. — Me fala o horário depois.

Ela sorriu e se virou para ir embora, balançando os cachinhos. Fiquei pregada no mesmo lugar, sorrindo igual uma idiota, pensando em tudo e ao mesmo tempo sem pensar em nada. Eu só sentia uma vontade louca de rir. Uma parte de mim estava saltitando e a outra estava ansiosa, mas não tive tempo pra pensar no assunto porque logo MB e Gabriel apareceram.

— Que cara é essa, Liquinha?

— Nada — tentei manter a cara séria, mordendo o lábio. — Cês demoraram!

— Tava tirando dúvida com o professor, foi mal. — Gabriel, MB e eu saímos do colégio, pegando nossos celulares no processo. — Tô precisando de uns 5 pontos nessa prova...

— Sai da frente, viadinho — Antes que registrássemos o que a voz tinha falado, Rafael empurrou Gabriel ao passar, fazendo-o perder o equilíbrio. MB o agarrou antes que caísse no chão, mas o rapaz já tinha se afastado o bastante para que fizéssemos alguma coisa.

— Qual é o problema desse cara?

— Amargura, se quer saber minha opinião. Deixa pra lá, MB. — Gabriel acrescentou quando o loiro fez menção de apertar o passo atrás de Rafael.

Ver o garoto tão resignado me atravessou com uma raiva tão palpável que eu podia senti-la correndo em meu sangue, um contraste incrível com meu corpo que estava tão gelado. Saí andando à frente de MB e Gabriel, que em menos de quatro segundos perceberam o que eu queria. MB agarrou a alça da minha mochila e Gabriel se pôs à minha frente, segurando meus ombros.

— Olha só o que esse FILHO DA PUTA tá fazendo — acho que qualquer pessoa num raio de 1km podia me ouvir — Me solta, MB!

— Lica, tá tudo bem, beleza? — Gabriel não saiu da minha frente e tampouco me largou — Olha, o Rafael já tá longe e provavelmente tá com o grupinho dele, o máximo que cê vai conseguir é se machucar. Fica calma, uma hora a gente resolve isso, tá? E para de se debater, vai rasgar sua mochila.

Eu ainda espumava por dentro mas fiz o que Gabriel pediu, respirando forte.

— Pronto. Eu vou passar em casa pra ficar com o Tonico, aí mais tarde eu vou pra sua, ok?

— Cê quer que a gente te leve? — MB ainda não tinha me soltado, sinal de que não confiava tanto no meu autocontrole. — Pro caso de você topar com o Rafael?

— Não, ele foi pro lado contrário; a não ser que ele queira um beijo, a gente não vai se cruzar — Ele apertou minha bochecha — Quero sorvete de passas ao rum, só pra avisar.

Ele se despediu e continuou seu caminho. MB soltou um assobio baixo e finalmente soltou minha mochila, passando o braço em meus ombros.

— E eu achando que a Liquinha Street Fighter tinha morrido…

 

Minha prisão é a sua liberdade

Vamos explodir o jogo agora

Vamos explodir o mesmo

 

 

xxx

 

— MB, preciso que você caia fora.

Ele se levantou do sofá, fazendo sua carinha de cachorrinho sem dono.

— Tá mesmo me expulsando, Liquinha? Que isso! Cê vai trazer alguém pra cá, né? — ele levou as mãos à boca — cê vai transar com alguém tipo quando a gente…

— Eu só vou trazer o Gabriel, Jesus! — essa parte da minha vida eu fazia questão de não lembrar.

MB fez cara de “ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh tá”.

— Ah, é só o Gabriel? Eu não tenho onde ir, não. A mãe da K1 não vai deixar ela sair hoje.

Já era noite e estávamos apenas MB e eu em casa. Marta e Luís tinham ido a um jantar e não deveriam voltar tão cedo, de forma que ele e eu — depois de um acordo que seria a única vez, já que não iríamos à aula no dia seguinte — contrabandeamos algumas garrafas de vinho pra comemorar a chegada do fim de semana. Precisava de muito mais que uma garrafa pra derrubar MB, então eu não via problema.

— Tá legal, mas cê não vai ficar junto com a gente.

— Tio MB não vai estragar a festinha do pijama de vocês — ele prometeu solenemente. A campainha soou e ele se levantou, recolhendo sua garrafa. — É minha deixa, gatinha.

Pegou, então, minha garrafa da mesa e atravessou a sala para atender a porta.

— Seja muito bem vindo ao orfanato Raio de Luz, lar das crianças sem pai, Gabrielzito — MB fez uma reverência e manteve a porta aberta para Gabriel passar.

— Não tô acreditando que vocês tão bebendo em plena quinta, e não tô acreditando que você tá bebendo depois do susto que a gente levou — Gabriel balançou a cabeça, desacreditado. MB encolheu os ombros.

— Reclama com a Lica, eu tô vazando — saiu bem depressinha em direção ao quarto que ocupava, com as garrafas nas mãos.

— Muito que bem, Heloísa Gutierrez. — Ele colocou as mãos na cintura — Cadê o sorvete de passas ao rum que eu pedi?

— Ah! — eu ri, aliviada — vem cá, tem um monte de coisa pra você escolher.


 

Gabriel e eu pilhamos comida o bastante pra uma noite e ele ficou com o pote inteiro de sorvete. MB também tinha aparecido pra roubar alguma coisa, mas logo voltou para o quarto. Mais cedo havia pedido para que Leide não se preocupasse com o jantar, logo, Gabriel e eu estávamos dividindo três sabores de pizza e milkshake.

Eu não tinha muita pressa para dizer o motivo de eu tê-lo chamado, e nem ele parecia muito preocupado com isso. sentados no chão da sala em frente à tv, as conversas variavam entre as provas finais e nomes da música pop, que o garoto fez questão de avaliar os pontos positivos de cada cantora, coisa que eu não entendia nada. Retalhei falando sobre o cenário musical brasileiro, coisa que Gabriel nem pestanejou antes de falar num tom de fingida tristeza:

— Garota, você despreza demais a cultura pop, eu tô chocado.

— Claro que não, Gabi.

— Ah, tá! Vou ser chato mesmo, fala aí três hits desse ano!

— Ué… Gimme all your luvin’, Bad Romance e Firework.

— EU TÔ BERRANDO — Gabe se jogou no chão e começou a rir escandalosamente.

— Quê?

— Essas músicas são, tipo, do século passado… sei lá, mas não são de 2017. — ele continuou rindo no chão e só parou quando eu o belisquei na coxa. — Caralho, Lica!

— Escolhe logo qualquer coisa no Netflix aí.

— Mas não tem nada…


 

Logo Gabriel e eu nos entediamos. Duas das três pizzas já haviam sido devoradas e não aguentávamos mais tomar milkshake. O catálogo da Netflix ainda estava aberto, e nós dois estávamos deitados no chão, meio acordados, meio sonolentos.

— Coloca um Star Wars.

— Deus me dibre, Lica.

Suspiramos ao mesmo tempo. Acho que o momento de tentar puxar papo sobre o que eu queria falar não podia mais ser adiado.

— Gabi… como tá você e Rodrigo?

— Acho que legal — Gabriel pareceu um tantinho feliz — Sabe que ele tá estudando pro ENEM? É o último ano dele no colégio.

— Mesmo? E o que ele quer fazer?

— Pelo o que ele me disse, ele e os amigos vão estudar artes cênicas e todos vão pra mesma faculdade pra continuar com a banda.

— Ah. A Bruna também? — perguntei como quem não queria nada.

— Aham.

Gabriel balançou os pés muito à vontade, sem acrescentar mais nada. A falta de uma piada ou deboche me tranquilizou e reconheci como uma permissão para fazer qualquer pergunta.

— Gabi, posso te fazer uma pergunta?

— Ué, Lica. Claro que pode.

— Ah… como… como cê descobriu?

— Como eu descobri que sou gay? — assenti. Ele pensou por um momento antes de responder. — Olha, eu realmente não faço ideia. Sei lá, acho que foi um entendimento de anos. Quando eu era criança e via o Robert Pattinson e eu pensava “caramba, o Edward Cullen é muito legal”, e eu pensava que queria ser ele. Depois de uns anos, eu entendi que queria ter — deu uma risadinha — E pra mim tava tudo bem, sabe? Nunca liguei pra essas coisas. Fui criado com minha mãe e meus parentes mais distantes eram bem legais, então não tive uma educação machista, uma masculinidade tóxica. Eu nunca namorei uma menina, e na verdade nunca me preocupei com namoro até eu começar a sentir uns trem estranho por um amigo, lá pra quando eu tinha uns 14 anos. E eu demorei uns meses, fiquei confuso, fiquei bravo comigo mesmo porque eu tive a coragem de gostar de um amigo. E aí foi quando eu sentei comigo mesmo e decidi que a única forma de entender era agindo, pensar não ia resolver nada. E fui. E esse meu amigo gostava de mim também, mas nunca aconteceu nada porque a família dele não era tão legal como a minha, e ele tinha medo, eu não tinha. Luciano ainda não falou pra ninguém que é gay ou bi, mas ele me ajudou bastante a entender o que tava acontecendo. Demorei quase um ano e meio pra falar com minha mãe, e quando eu falei, ela me abraçou e disse que isso não importava. Não mudou nada entre nós, porque ela me ama. Às vezes a gente acaba encontrando uns babacas feito o Rafael, mas o que importa mesmo é as pessoas que tão perto da gente. Nossos amigos, nossa família se nos apoiar, pessoas que gostam da gente; Luciano nunca falou pra ninguém, mas somos amigos até hoje. Ele em Minas, eu aqui.

Ele se virou para me ver melhor e completou:

— Acho que a coisa é essa, né? Se você tá com dúvida, pergunta, se puder fazer faça.

— E se eu tiver medo?

— Aí você enfrenta. Eu tenho medo de sofrer alguma agressão por ser gay, mas enfrento isso todo dia, de cabeça erguida. Eu me amo e me orgulho do que sou, e ninguém vai me tirar isso.

— Gabi, você acha que eu posso ser lésbica, ou bi, ou…

— Isso é só você que pode dizer.

— E sobre a Bruna… o que cê acha que eu deveria fazer?

— Uai, Lica, não sei. O que cê quer fazer?

Gabriel se levantou e espreguiçou, catando as duas caixas de pizza jogadas em cima da mesa.

— Vou deixar isso aqui na cozinha, quando eu voltar espero que você já tenha colocado no 3x1 de Skins, Naomi Campbell.

Ele saiu carregando as caixas, o que me propôs uma rápida reflexão. Pensar era, sim, algo que eu fazia, mas de fato apenas refletir não tiraria nenhuma das minhas dúvidas e nem me traria tranquilidade. Foi com esse pensamento que peguei o celular e digitei a mensagem:

 

Ei, o que cê vai fazer no sábado?

 

A fábrica da igreja da escola

Ao longo destas prisões eu sobrevivi

Mas uniformes, mestres, relógios e tempo

Não são nada em comparação com a parede de uma mente

 

Sara Não Tem Nome - Prison Break

 


Notas Finais


A Fernanda (desculpa moça, esqueci seu user ahaha) disse aqui nos comentários que cometi um engano sobre a concorrência em vestibulares. Se alguém tiver mais alguma coisa a acrescentar, ficarei muito feliz em ler. Obrigada. 💛


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