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História Derivados - Capítulo 2


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Notas do Autor


Boa leitura

Capítulo 2 - Derivados do fogo


1988


Senti meu nariz quase quebrando. Cobri meu rosto com os braços, não tinha muito o que eu pudesse fazer. Eu era uma aberração aos olhos deles. Uma hora eles parariam, uma hora isso pararia, não sabia nem se ia sobreviver pra contar a história. Chutes, chutes e mais chutes. Quando tentei abrir meus olhos, pontos pretos quase me impediram de enxergar meus agressores. A cada chute desferido tinha a certeza que nasci errado e que não deveria nem estar mais ali. Meus pulmões pediam ar desesperadamente mas não conseguia puxá-lo para dentro. Por quê tinha que ser assim? O que eu fiz? Quase não percebi quando gritos começam e os chutes começam a diminuir. Queria que minha pele derretesse e meu cabelo caísse, que eu sumisse. Me senti distante quando os gemidos de dor não saíam mais dos meus lábios, mas de outra pessoa e finalmente perdi minha consciência quando vi um par de coturnos pararem na minha frente.


[...]


Acordei num colchão duro. Minha visão continuava turva e todas as partes do meu corpo latejavam, me fazendo gemer de dor.

— Ei, se você se mexer vai doer mais. — Não tinha a menor ideia de onde eu estou, então tentei levantar de novo, sentindo duas mãos me empurrando para me manter quieto. — Fica quieto e deixa eu terminar de limpar seus ferimentos.

Deixei. Quem quer que fosse, queria e estava tentando me ajudar, então apenas relaxei meu corpo novamente, logo sentindo a ardência de um pano com álcool entrando em contato com as minhas feridas abertas. Tentei fugir novamente, mas ouvi um suspiro frustrado da pessoa que estava tentando me ajudar, então mordendo meu lábio inferior parei de me mover e permite que cuidasse de mim. Não era muito comum coisas assim acontecerem, digo, pessoas não costumavam me ajudar quando eu sofria alguma agressão assim, só me olhavam com mais desprezo do que antes, como se eu merecesse tais coisas. Mas aquele homem — deduzi isso por sua voz — parecia disposto a me ajudar.

— Q-qual — Dei mais uma gemida de dor. — Qual seu nome?

— Shhh, só mais um pouco. — Senti dessa vez o pano em meu rosto, o que ardeu o dobro do que em minha barriga. Me esquivei de novo, reclamando mais. Porém meu movimento brusco fez tudo doer mais, então parei de novo. — Calma, por favor..

Depois de mais um tempo, o homem parou de mexer em meu rosto e se afastou. Tentei abrir meus olhos, mas tudo que conseguia ver eram vultos. Podia ver que estava numa espécie de galpão, talvez um porão, podia ver caixas, uma geladeira e um sofá, mas logo minha visão ficou turva demais para ver mais alguma coisa.

— Você quer tomar um analgésico? Só pra ajudar a dormir. — Apesar do medo de esse estranho querer fazer algo ruim para mim, duvidei que fosse fazer. Decidi dar o voto de confiança, então eu movimentei lentamente minha cabeça, dizendo que sim. Não estava em condições de recusar alguma coisa, de qualquer forma.

Logo senti uma mão tocando meu lábio inferior. Com dificuldade, abri minha boca e senti uma pílula ser depositada na minha língua e depois um copo da água encostando no meu lábio. Bebi e não demorei nada para cair na inconsciência de novo.


[...]


Acordei com alguém me balançando levemente. Abri meus olhos e quase morri de susto ao conseguir focar em alguma coisa, o rosto na minha frente. Não era um rosto comum, era um rosto deformado, cheio de cicatrizes, dava a impressão que tinha sido derretido. Além das possíveis cicatrizes de queimadura, era cheio de tatuagens, no rosto mesmo, como se tentasse esconder tais cicatrizes, o que claramente não estava funcionando.

Depois de passado o susto, vi que o homem deu um sorrisinho triste, como se soubesse do que levei um susto.

— Bom dia. — Olhei em volta e percebi que o lugar não tinha janelas, o que estranhamente não me deixou receoso.

— Já é de manhã? — Perguntei, já que não conseguia ver do lado de fora.

— Sim, passei a noite aqui com você, caso você decidisse acordar no meio da noite. — Ele estava sentado no chão, ao lado do colchão em que estava deitado.

— Obrigado mesmo por cuidar de mim. — Disse, sentindo meu lábio cortado arder mas já não tinha mais sangue seco nele.

— Não foi nada. — Ele deu um sorrisinho de novo, ajeitando seu cabelo preto novamente no topete. — Sou Kim Namjoon. — Ele estendeu a mão pra mim e percebi que ela também tinha cicatrizes de queimadura.

— Min Yoongi. — Não demonstrando estranheza, apertei sua mão. Senti as cicatrizes entrarem em contato com minha mão, eram profundas, quer dizer, não exatamente profundas já que eram queimaduras, mas eram bem marcadas e até suas mãos eram cheias de tatuagens apesar de não saber dizer se foram feitas antes ou depois das cicatrizes. — Onde eu estou?

— Eu trouxe você pro porão de um galpão abandonado, eu meio que moro aqui... a um tempo. — Ele se ajeitou mais no chão, enquanto eu sentava no colchão. — Como você pode ver a geladeira e o sofá, e o lugar estar minimamente limpo pra um prédio abandonado.

— Mas isso é permitido? — Eu não exatamente me importava, mas precisava saber com quem estava lidando, dei o voto de confiança quando não podia me defender e nem pensar corretamente, agora as coisas mudam.

— Eu uso esse lugar a muito tempo, e é o porão então não é como se alguém fosse ver. — Ele passou a mão pelo cabelo de novo. — Tá com fome?

— Um pouco. — Faminto, na verdade. Minha última refeição foi um lanche na manhã de ontem, algo que eu achei na rua, mas ele não precisava saber disso.

— Eu devo ter bolachas aqui em algum lugar, talvez um suco de caixinha. — Ele se levantou e foi até a geladeira. Quando ele se levantou que percebi o quão alto era, claramente bem mais alto que eu. Além de alto ele era musculoso, o que o tornava ainda maior. Por um segundo pensei que se precisasse fugir, não teria a menor chance, mas ele parecia mais gentil do que perigoso. — Qual a sua idade? — Ele perguntou, com a cabeça dentro da geladeira. Pensei em mentir, dizer que era mais velho, mas senti que podia confiar em Namjoon.

— Eu tenho 16… — Apesar de ter pouca idade, fui obrigado a crescer muito rápido, não me sinto com 16 anos. Quando vejo os jovens da minha idade nas praças, depois das aulas, sinto que meus 16 não passam de um mero número irrelevante.

— Parece que meus 16 ano foram a milênios. — Ele tira a cabeça da geladeira com um pacote de bolachas de água e sal e suco de uva. Ele tem um sorrisinho triste no rosto, como se sentisse falta de ter essa idade.

— Você não parece velho. — As cicatrizes davam um ar mais velho e sombrio para ele, mas ele realmente não parecia ser. Ele riu do que eu disse, sentando novamente ao meu lado no chão.

— 23 anos pesam mais do que parece. — Era difícil ver suas feições, mas ele parecia claramente cansado, talvez por passar a noite em claro. Apenas assenti, esperando ele abrir o pacote de bolacha e me dar.

Passamos um tempo em silêncio, aproveitando as bolachas como se fossem a melhor refeição do mundo. Nossos lábios estavam manchados de vermelho por causa do suco com uma quantidade exagerada de corante. Confesso que me senti estranhamente confortável perto de Namjoon, senti vontade de conversar com ele sobre a vida e me senti muito grato a ele por ter me ajudado, não sabia nem como agradecer e retribuir o que ele tinha feito por mim. Eu queria quebrar aquele silêncio, mas nenhuma frase montada no meu cérebro parecia ser boa o suficiente para ser dita em voz alta. Queria comentar sobre o ocorrido, olhei para ele com expectativa, mas ele encarava algum ponto aleatório no chão, perdido em seus próprios pensamentos. Nunca gostei de falar, nem de me comunicar, mas queria muito que nossa conversa continuasse, queria ouvir tudo que aquela voz extremamente rouca e grave tinha pra me dizer.

— Se você quiser ficar mais tempo aqui, fique a vontade. — Ele bateu as migalhas de seu colo. — Tem banheiro com chuveiro, tem colchões, as vezes tem até comida. — Ele riu um pouco e eu o acompanhei. — Não garanto que o chuveiro tenha água quente, aqui não tem luz.

— Não é como se eu tivesse outro lugar pra ir. — Mordi o pedaço de bolacha que estava na minha mão. Estava ficando frio, as chances de eu pegar uma hipotermia eram grandes, eu invadiria algum lugar de qualquer forma.

— Eu tenho que ir trabalhar, quer ir comigo? — Ele se levantou novamente, tirando o moletom e indo para um armário de ferro no canto da sala. Lá de dentro tirou uma camiseta limpa e tirou a que estava no corpo. Como ele estava de costas, observei calmamente suas costas, com menos cicatrizes do que na parte da frente, mas igualmente cheia de tatuagens.

Era possível ver vários tipos de cicatrizes e quelóides, assim como vários desenhos diferentes. Só consegui identificar duas carpas antes de ele vestir a camiseta, um moletom e uma blusa por cima. Depois disso colocou um boné escondendo os fios escuros e por fim, me jogou uma blusa com capuz, que vesti com rapidez.

— Onde você trabalha? — Me levantei, amassando o pacote de bolachas e terminando o suco de caixinha.

— Uma espécie de loja de conveniência, não muito longe daqui. — Coloco o capuz do moletom e acompanho ele até a porta.

Assim que saímos do local percebi que não a construção não era muito longe do lugar onde eu desmaiei, eu já tinha passado por ali algumas vezes, mas nunca tinha reparado nessa construção. Continuamos andando pela rua, me senti muito mais baixo que o normal andando do lado de Namjoon, com seus mais de 1,90 de altura.

—  Sobre o que aconteceu ontem, sinto muito que tenha que ser assim. — Não olhei para seu rosto, mas soube pelo tom de voz que estava chateado.

— Eu sei que eles fazem isso só por causa da cor da minha pele e pelo meu cabelo. — Bom, eu era negro. Minha pele tinha uma cor bem escura e meu cabelo era cacheado, armado e bagunçado. Mas eu ainda era coreano, meus olhos puxados não me deixariam mentir. Um negro com olhos puxados, uma completa aberração.

— Já sofri coisas assim por causa da aparência, ainda sofro. — Finalmente olhei para ele e percebi que tinha o mesmo olhar distante que o meu. — Não deveria ser assim…

— Mas é. — Não tinha intenção de ser grosso, mas é realmente difícil discutir sobre algo assim, quando ainda sinto as dores de ter servido de saco de pancadas. — Às vezes me fazem acreditar que eu realmente não deveria estar vivo.

Ele não soube o que dizer, então eu também não disse mais nada. O clima ficou meio pesado depois disso, mas senti que ele me entendia, senti que ele também acreditava que era uma aberração e que não deveria viver e fiquei com uma vontade enorme de poder mudar o mundo, pra que ele não se sentisse mais daquela forma, pois eu sabia como era horrível. Ambos eram cúmplices de uma dor irreparável.

Fomos então para o lugar que ele disse trabalhar. Chegando lá, era realmente um lugar simples, mas por outro lado era bem diversificado. Era quase um mercadinho. Tinha uma sessão para farmácia, uma para bebidas desde refrigerante até bebidas alcoólicas, e mais uma sessão para alimentos, em geral, industrializados. Parecia um lugar em que eu roubaria algo, mas não vou fazer isso com Namjoon aqui, até porque seria responsabilidade dele. Ele foi diretamente até o balcão e abriu a caixa registradora. Era meio engraçado ver ele, com todo aquele tamanho, atrás de um balcão, fazendo a caixa registradora parecer tão pequena em comparação a suas mãos. Assim que abriu o caixa, pediu para que eu virasse a plaquinha da porta para “aberto” e aí era só aguardar. Nada muito emocionante aconteceu aquele dia. Fiquei sentado do lado dele o dia todo, tentando a todo custo me esconder dos clientes, para que não precisassem ver a aberração que eu sou, no almoço Namjoon dividiu comigo uma marmita que tinha no estoque, disse que é sempre descontado do mísero salário dele o valor de 30 marmitas, para todos os dias do mês — em meses com 31 dias, ele passava um dia sem almoçar. Uma hora teve que sair para ir limpar o banheiro e eu atendi um estudante que apareceu lá. Ficamos conversando sobre nossos gostos, evitando assuntos tristes e pesados, apenas conversando sobre curiosidades nossas vidas. Lhe contei sobre pessoas que vi, sobre o que comi ontem, sobre lugares que visitei, sobre cachorros que passei por perto, queria ao máximo fazer com que nossa conversa fluísse bem.

Lá, vi muitas pessoas diferentes passando, homens, mulheres, jovens, idosos. Muitos deles mal olhavam na cara de Namjoon, alguns eram até grosseiros, mas Namjoon parecia extremamente alheio a isso, falando o mínimo possível para que não ouvissem sua voz rouca e fazendo seu trabalho normalmente.

Depois que o relógio na parede deu 10 horas da noite, finalmente Namjoon pegou algumas coisas da loja, como se estivesse comprando e colocou os valores na caixa registradora. Tirou todo o dinheiro de lá., imprimiu um recibo com tudo que foi vendido no dia(anotando o que o próprio havia comprado no recibo) e foi para o estoque. Provavelmente ele ia guardar o dinheiro no cofre, para evitar roubos e eu entendo que não queira que eu visse, nos conhecemos ontem.

Andamos calmamente até o galpão, no escuro. Posso dizer que tinha uma vantagem quanto a isso, me ver no escuro era com certeza mais difícil por causa da cor da minha pele. Entramos lá e, como não tinha energia elétrica, ele acendeu uma lanterna que tinha e uma vela perto do sofá e depois guardou suas compras no armário. Ele comprou as coisas mais baratas possíveis, creio que ainda precisava comprar mais algumas coisas para o lugar e seu salário era realmente pouco. Me sentei no colchão, perto da vela que ele acendeu. Ele se aproximou de mim um saco de um salgadinho e um baralho de cartas na mão.

— Quer ir tomar um banho? Deve ter uma toalha do banheiro e eu posso emprestar uma roupa caso você queira lavar as suas no chuveiro.

— Quero sim. — Ele me acompanhou até o banheiro, um lugar pequeno, mofado e meio sujo mas melhor coisa que vi em meses. Ele me mostrou a toalha e viu que, com sorte, a água não estava congelante. Depois disso me deixou sozinho. Tirei meu tênis, minhas meias e minha roupa, peguei o sabonete e esfreguei na roupa, lavando-a levemente. Fiz isso também com meus corpo, ficando extremamente feliz por tomar o primeiro banho do mês, é complicado achar lugares decentes para tomar banho de graça. Passei o sabonete nos meus fios cacheados também, percebendo o quão embaraçados estavam. Fiz o possível para desembaraçar ele da melhor maneira possível, sem arrancar meu couro cabeludo fora. No meio desse processo ouvi batidas na porta.

— Pode entrar.

— Trouxe roupa pra você. — Ele deixou em cima do vaso sanitário. — Vou colocar essa roupa molhada pra secar perto da porta. — Pegou as roupas e saiu.

Não demorei muito depois, disso. Desliguei o chuveiro, me sequei tentando não molhar muito a toalha e eu vesti suas roupas. Ficaram obviamente enormes e me senti menor que o normal, me senti até mesmo protegido.

— Obrigado. — Disse assim que saí do banheiro e me deparei com ele sentado no chão, separando o baralho de Ás até o Rei. Ele deu um sorriso sem mostrar os dentes e consegui reparar que no meio daquele rosto enorme e daquele monte de cicatrizes, havia uma covinha, uma de cada lado de suas bochechas. Me sentei do lado dele e ele abriu o pacote de salgadinho.

Senti uma gota de água escorrer do meu cabelo então balancei a cabeça como um cachorro fazendo a água espirrar e fazendo-o rir, uma risada rouca.

Passamos a noite assim, comemos o salgadinho e jogamos vários jogos de baralho, todos que ele me ensinou a jogar ali, na hora. Meus olhos começaram a fechar sozinhos quando estávamos no 7º jogo e comecei a me deitar lentamente, até que mal conseguia ver minhas cartas e caí no sono.

Na manhã seguinte, acordei sozinho. Tinha um bilhete ao meu lado na cama, dizendo que não queria me acordar e que precisava sair, peguei um lápis do lado, agradeci por tudo e fui embora. Não sei exatamente porque fiz isso, porque fui embora, mas senti que precisava dar um tempo. Acho que me senti assustado por ter alguém perto por tanto tempo, me assustei com sua atenção, estranhei uma pessoa e tive um surto de desconfiança.

Fiz minha vida voltar ao normal, voltei a viver como sempre, deixando a lembrança de Namjoon de lado.


[...]


Depois de quase duas semana ignorando as lembranças de Namjoon, eu passei sem querer na frente da loja de conveniência que ele trabalhava. Confesso que me arrependi de ter saído de lá sem me despedir mas ao mesmo tempo sabia que se olhasse para ele, não ia querer ir embora. Ele se tornou um amigo sem nem pedir permissão, meu primeiro amigo em muito tempo, atualmente o único, mas me vi focado em não continuar essa amizade pois sabia que ia ser um estorvo e não deixaria que ele me sustentasse.

Mas ao passar na frente da loja, em uma das minhas caminhadas sem rumo, tive que entrar. Esqueci toda a insegurança e medo que tive e apenas me apeguei a tudo que ele fez por mim.

Quando entrei ele nem ao menos me olhou, achou que era um cliente normal, então parei em frente ao caixa e fiquei olhando para ele. Ele estava distraído, suas mãos grandes fazendo uma dobradura com um papel de bala, ele parecia cabisbaixo, distraído, diferente de como o vi a uma se até que percebeu alguém parado em sua frente e me olhou. Seu olhar pareceu surpreso e depois feliz.

— Yoongi! Oi! — Ele largou o papel e não sabia o que fazer, parecia realmente feliz.

— Oi… — Abri um sorriso de lado, envergonhado pelo que fiz.

— Vem, senta aqui. — Ele apontou pra mesma cadeira que sentei no primeiro dia. — Como você tá?

— Na mesma. — Disse enquanto dava a volta no balcão e me sentava na bancada ao invés da cadeira. — E você?

— Hoje apareceu uma mulher com o cabelo todo desarrumado, era uma senhora sabe? Eu avisei que o cabelo dela tava errado e ela morreu de vergonha, coitada, ela correu no banheiro arrumar e depois riu de si mesma, porque tinha ido em uns 3 lugares antes daqui com o cabelo bagunçado. Depois ela me agradeceu e me comprou um chocolate. — Ele mostrou o papel, ele já tinha comido o chocolate todo.

— Pessoas simpáticas ainda existem. — Ri junto com ele.

— Sim! À uns dois dias eu… — E o assunto continuou a partir dali.

Depois disso decidi não me separar mais dele, não sair mais. Percebi que sentia minha falta e apreciava minha presença, então continuei ali do seu lado. Me permiti ter um amigo, uma companhia.


[...]


Era um fim de semana, nós saímos para ir ao parque pra observar as pessoas e fazer algo diferente. Não tínhamos muito o que fazer, apenas observar pessoas e pombos, relaxar sentindo o ar puro, talvez abraçar alguma árvore. Namjoon permanecia quieto, mas sereno Tinha as expressões de leveza e de relaxamento, como se nada pudesse abalar a sua paz interior.

Desse jeito sentamos na grama, encostados numa árvore. Foquei meu olhar nas nuvens no céu, tentando achar algum padrão para elas.

— Por que sumiu? — Ele perguntou de repente, percebi que estava me olhando.

— Como assim? — Eu sabia do que ele estava falando, mas não queria admitir, entendia sua curiosidade mas não sei se queria falar sobre isso.

— Fiquei te esperando o dia todo naquele dia, quando cheguei em casa e vi seu bilhete fiquei… — Parecia não querer admitir também o estado em que ficou quando parti.

— Eu… — Precisei ser sincero. — Passei muito tempo sozinho e sem nada, acho que me assustei com sua bondade e carinho comigo. Não estou acostumado a ser querido e sim odiado.

— Eu te entendo. — Ele pareceu ter cuidado para escolher suas palavras. — Se quiser se afastar não tem problema, faça o que é melhor para você.

— Eu vou ficar, não quero te deixar sozinho. — Não queria ficar sozinho de novo, na verdade. Ter ele em minha companhia se tornou uma das coisas mais importantes para mim, não que eu tivesse muitas coisas. Ele não disse nada, apenas deu um pequeno sorriso e tirou do bolso duas gomas de mascar, estendeu uma para mim e colocou uma na boca. Assim que coloquei na boca senti uma explosão de um sabor incrível de melancia. Não era muito forte, mas pra quem come bolacha de água e sal todos os dias é sim uma explosão de sabor. — Obrigado.

E sua voz rouca continuou em silêncio, mascando a goma e aproveitando a minha presença, talvez imaginando que fosse instável, temporária, mas eu realmente estava disposto até a chamá-lo de meu irmão.


[...]


Era um dia especialmente vazio na loja, era um feriado e as pessoas estavam em suas casas. Apenas uma pessoa tinha aparecido, de manhã bem cedo para comprar alguma bebida para o café da manhã. Já tínhamos até almoçado e ninguém mais veio. Namjoon tinha posicionado uma cadeira ao lado da minha e estava sentado nela. Vi ele coçar uma das cicatrizes na mão.

— Coça muito? — Perguntei, apontando para as cicatrizes. Sempre evitei falar delas, para não constranger ele, mas ultimamente sinto que temos intimidade o suficiente para falar disso.

— Um pouco, as vezes. — Ele coça um pouco o pescoço também, em cima de uma tatuagem de algo escrito. — Quando tá calor é pior.

— É… — Me arrependi de ter falado no momento que abri a boca. Tinha certeza que ele sabia o que eu queria saber e não queria forçá-lo a me falar.

— Quer saber como eu fiz isso? — Ele riu um pouco, acariciando o pulso. Assenti com a cabeça, meio envergonhado. — Não tem problema, Yoongi. Eu conto.

Ele se ajeitou na cadeira. Me senti ansioso, queria saber mais de Namjoon, queria conhecer mais da sua história, saber o por que de tantas tatuagens e tantas cicatrizes.

— Bom, eu nem sempre morei na rua. Quando era mais novo, morava junto com meu irmão mais novo e minha mãe. Minha mãe era solteira, viúva na verdade, mas não tenho memórias do meu pai então não me importo realmente que tenha morrido mas… — Ele respira fundo. — Vivíamos numa casinha minúscula de madeira. Eu dormia na sala enquanto ela dormia com meu irmão no quarto, mas eu era muito feliz. Trabalhava para ajudá-la, cuidava do meu irmão, cozinhava para ela e me esforçava para dar todo o amor possível para ela, como ela dava para mim. Ela era muito doce e carinhosa, abria mão da comida dela caso eu e meu irmão não tivéssemos o que comer. Ela trabalhava em dois empregos, voltava pra casa 2 da manhã para sair as 7 do outro dia, e ainda arrumava tempo para nos dar amor, tomar café da manhã com a gente e ainda ir conosco até a escola. Eu estudava de manhã e trabalhava a tarde e meu irmão estudava o dia todo, já que era novinho. — Ele mexeu no bolso da calça e pegou uma foto colorida e a entregou para mim.

Pude ver uma mulher jovem com uma criança no colo e outra, Namjoon, ao seu lado, com um sorriso banguela e o braço da mãe envolvendo seus ombros. Ele já era alto nessa época, provavelmente estava perto da puberdade, onde cresceu monstruosamente até se transformar no Namjoon que chamo de amigo hoje em dia.

— Um dia, quando eu tinha 13 anos, quando chegou a noite, minha mãe me deu um chocolate de presente e agradeceu por eu ser um filho tão bom para ela, eu a esperava todos os dias, não dormia antes que chegasse. No dia seguinte fiz hora extra e comprei ingredientes para preparar um café da manhã. Quando ela chegou aquele dia, foi diretamente dormir e eu fui preparar o café, já que sabia que ela acordava às 6. — Ele fez uma pausa, como se lembrasse das sensações que sentiu aquela noite. — No meio da preparação, não lembro nem como, a panela explodiu. Nisso, a cozinha inteira entrou em chamas e eu me queimei muito. Minha mãe acordou com meus gritos e veio me ajudar. A casa, por ser de madeira, queimou com uma rapidez impressionante. Eu desmaiei de dor. Minha mãe, tentando salvar ambos os filhos, conseguiu tirar meu irmão com leves queimaduras, mas acabou morrendo sufocada quando um pedaço da casa caiu nela. Os bombeiros chegaram rápido, meus vizinhos chamaram, conseguiram apagar o fogo da casa e me tirar de lá quase sem vida. — Ele respirou fundo, segurando as lágrimas, passando a mão pelas cicatrizes do braço. — Eu acordei 7 dias depois e passei mais muito tempo internado, uns 3 meses. O tratamento público era precário mas me salvou. Descobri depois que minha mãe não tinha sobrevivido e que meu irmão tinha sido levado para um orfanato. Depois que tive alta passei uns bons tempos nos cuidados de uma enfermeira que meio que me adotou, quando ela não pode mais cuidar de mim eu me despedi e fugi. Passei os 3 anos seguintes procurando meu irmão e tentando não ser pego pela polícia, mas não consegui encontrá-lo. Conheci várias pessoas pelo caminho, tatuei meu corpo inteiro para tentar esconder as cicatrizes e pra substituir a minha dor.

Ele parou novamente para se encostar na parede, me olhando finalmente.

— Ainda tenho esperança de achar meu irmão.

— Sinto muito, por tudo. — Entreguei de volta a foto, vendo ele acariciar a imagem da mãe, finalmente deixando as lágrimas rolarem. Abracei seu corpo — tentei pelo menos — de lado, tentando passar conforto. Ele chorou de soluçar por um tempo, apoiou sua cabeça em meu pescoço e ficamos assim por vários minutos, apenas esperando o choro que evidenciava pura dor parar.


[...]


Depois daquilo, tive certeza de que não queria sair de perto dele, então nossos dias passava todos assim. Hoje, ele tinha comprado uma barra de chocolate, tinha sobra algum dinheiro no fim do mês e ele resolveu pegar um agrado para nós dois.

Ver suas feições satisfeitas em ter conseguido alguma coisa fora do usual para nós com seu próprio salário era muito gratificante. Como forma de agradecimento, fiquei uns dias na “casa”, apenas limpando, varrendo e passando pano em todos os cantos daquele lugar, até deixar extremamente limpo. Mais cedo, coincidentemente quando ele chegou com a barra, eu tinha terminado de limpar o banheiro. Quando abriu a porta, deu um sorriso aberto, era a primeira vez que via um sorriso largo como aquele, mostrando todos os dentes incrivelmente brancos. Ver o lugar limpo e arrumado pareceu, aos olhos dele, uma coisa tão linda e singela, que ele me obrigou a ficar com mais do que a metade da barra, em forma de agradecimento, mesmo que não precisasse me agradecer de nada. Ver a cozinha, o banheiro, o chão e até as paredes, parece que o deixou ainda mais motivado. Estávamos terminando o chocolate quando ele me pediu pra esperar, saiu correndo pela porta e vários minutos depois voltou com um rádio, tocando uma fita do Michael Jackson, estava tocando Beat it. Ele veio cantando a música e por conhecer comecei a cantar junto dele. Depois disso ambos já estavam cantando a música gritando, como se ninguém pudesse nos ouvir. A música era em inglês e bem, eu não conhecia nada do inglês, mas já tinha ouvido essa música em algumas lojas que passei na frente ou que me sentei no chão, no lado de fora, então eu apenas produzi sons sem sentido e palavras sem significado, apenas acompanhando o ritmo da música.

Amei o fato que ele escolheu um cantor negro. Ele poderia ter escolhido um cantor coreano ou qualquer outra fita do mesmo lugar onde essa veio, mas não, ele pegou uma de um cantor negro super famoso em outros países e eu me senti muito feliz em saber que ele teve esse cuidado, sinto que não foi por acaso.

Bom, nós dançamos como se nada pudesse nos parar. Pulamos no chão, no sofá, balançamos os braços e as pernas, cantando como se não houvesse amanhã.

Confesso que ouvimos o álbum todo, a fita toda e me senti tão confortável ao lado dele, que realmente me soltei e permiti que eu me divertisse e foi incrível. Cantar todas aquelas músicas sendo elas felizes ou tristes, suar igual louco de tanto dançar, chorar um pouquinho com as músicas emocionantes, mesmo que não soubéssemos o que elas significavam e depois que tudo acabou, apenas se jogar no chão frio e rir do quão idiota parecíamos. Senti meus cabelos grudando na testa e não conseguia tirar o sorriso do rosto.

Acho que estávamos tão cansados, que dormimos ali mesmo, onde caímos, sabendo que ali era exatamente onde deveríamos estar. Juntos.


Notas Finais


Espero que tenham gostado
Vou tentar atualizar toda semana, mas terceirão é foda então, vou tentar hehe
Até a semana q vem :)


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