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História Derivados - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


Bom dia, boa tarde e boa noite a todos
Pra terminar o ferido bem tá aí um cap quentinho
Boa leitura

Capítulo 3 - Derivados da música


1988

Era para ser um dia normal. Chegamos no trabalho normalmente, almoçamos normalmente, conversamos normalmente. O dia todo se passou igual aos anteriores, num ciclo infinito de dias repetitivos, onde minha única distração era Namjoon e jogos de carta.

Mas no fim daquele dia, um cliente apareceu. Não reparamos muito nele, de início. Não decorávamos rostos assim como ninguém se importava em olhar os nossos então ele era irrelevante. Ele estava de boné, não podíamos nem ver seu rosto. Levamos um susto quando, enquanto ele estava escolhendo algum salgadinho, ele simplesmente caiu no chão levando grande parte dos produtos da prateleira com ele.

O garoto tinha desmaiado? Sem mais nem menos?

Corremos de trás do balcão para ajudá-lo, completamente perdidos. Nunca tínhamos passado por isso, torcia para Namjoon saber primeiros socorros e meu lado desesperado já pensava em possibilidades de enterrar um corpo. Deitamos ele direito no chão e Namjoon pediu pra que eu trouxesse um copo d'água, quando percebeu que o menino estava acordando e gemendo de dor. Corri até o quartinho dos fundos, enchendo um copo com água da torneira e quase o derrubando quando levei de volta. Quando cheguei lá, o menino já estava sentado, com as mãos na cabeça e as pernas esticadas no meio do corredor, Namjoon estava agachado do lado dele, perguntando alguma coisa.

— Você tá bem? O que aconteceu? — Namjoon mantinha aquele semblante preocupado, muito parecido com o qual me olhou quando nos conhecemos.

— Eu só fiquei tonto, não foi nada. — O garoto foi curto e grosso, não parecia querer demonstrar que estava visivelmente mal.

— Eu trouxe uma água pra você. — Lhe entreguei o copo de água. O copo tinha umas manchas pelo tempo de uso e isso pareceu lhe preocupar um pouco, ele analisou a borda do copo com uma cara de nojo antes de colocá-lo na boca e beber. Depois disso, fechou os olhos e apoiou a cabeça na prateleira, seu rosto bem pálido e as olheiras fundas mostravam que ele claramente não estava bem.

— Tenta tirar o boné. — O mais alto tinha pegado um papel para abanar o menino.

— N-não! Deixa aí. — Foi estranho seu repentino desespero pela possibilidade de tirar seu boné, mas preferimos não estressar ele mais.

— Você quer ajuda pra ir pra casa? — Ele espremeu os olhos e fez uma cara de dor, como se tivesse sentido uma pontada.

— Eu consigo ir sozinho. — Ele deitou a cabeça na prateleira novamente. Ele parecia cansado, exausto na verdade. — Eu… eu…

E desmaiou de novo, ou caiu no sono, parecia mal o suficiente para só cair de sono. Tirando sua blusa, que havia sujado de refrigerante, percebemos que seu braço tinha roxos grandes e espessos, não eram roxos de soco, pareciam roxos de outra coisa que não sabíamos exatamente o que era.

— Ok, o que a gente faz com ele? — Perguntei para Namjoon, sem reação ao novo desmaio do menino. Não sabíamos onde era sua casa, nem mesmo sabíamos seu nome, era impossível fazer algo desse gênero para ajudá-lo. E ele demonstrou que não queria esse tipo de ajuda.

— Podemos levar ele pra casa, alimentá-lo e tentar conseguir informações pra levar ele pra casa. — Minha vontade de querer ajudá-lo era quase nula, todos os momentos em que abriu a boca foi extremamente grosso conosco, mas se Namjoon queria algo eu não conseguiria tirar isso de sua cabeça.

— Não é perigoso fazer isso? Ele não parece pobre, e se denunciar a gente se levarmos ele?

— Não podemos simplesmente deixá-lo sozinho, ele não está bem. — Parecia determinado a ajudar o garoto, como estava quando coisas aconteceram comigo. Essas atitudes me provavam cada vez mais que Namjoon tem um coração de ouro.

— Tudo bem, podemos fechar mais cedo? Faltam 10 minutos. Se não der eu fico aqui até fechar enquanto você leva ele pra casa.

— Ninguém se importa se fecharmos 10 minutos mais cedo, vamos embora. — Corri para lá fazer os processos de finalização, que tinha aprendido depois de passar todo esse tempo ao lado de Namjoon enquanto ele dava um jeito de equilibrar o menino em suas costas, já que com seu corpo grande ele conseguia facilmente carregá-lo, mesmo que ele não fosse tão pequeno quanto eu.

Parei um momento para analisar seu rosto e achei engraçado o fato do nariz dele ser um pouco grande demais pro seu rosto. Outra coisa engraçada, em seu rosto, em algumas partes, parecia que a cor tinha deixado de existir. Tipo, ao lado da boca, na bochecha esquerda, acima do olho e em toda a orelha direita. A mancha branca passava por cima da sobrancelha, a deixando também sem cor. Como se ele tivesse tomado sol em apenas algumas partes do corpo e em outras não. Parecia uma doença de pele, mas não sabia dizer. Era de fato estranho e eu realmente esperava que não fosse contagioso.

Peguei a chave do lugar e tranquei, quando vi o mais alto me esperando no lado de fora, ajeitando o garoto para que ficasse confortável em suas costas. Ainda estava com medo de levá-lo até lá, mas uma coisa que aprendi com a convivência é que Namjoon é teimoso e acredita fielmente na sua intuição, então não posso reclamar.

Andamos até em casa em silêncio. O menino respirava com dificuldade, como se seus pulmões se esforçassem mais do que o normal para puxar ar. Seus cabelos, muito mais finos do que o normal voavam com o vento. Suas sobrancelhas estavam franzidas, como se tivesse com constantemente com dor.

Eu tive que abrir a porta e Namjoon colocou ele delicadamente no sofá surrado. Se o menino ficou com nojo do copo encardido, não conseguia imaginar o que faria quando acordasse naquele sofá encardido. Namjoon colocou uma toalha molhada em sua testa, levantou seus pés e fez um chá para mim e para ele, deixando água na chaleira pra quando o menino acordasse.

Eu estava sinceramente curioso. Ele parecia muito doente e eu não tinha ideia de onde ele tinha vindo. Por que tanta frieza? Por que não queria que tirássemos seu boné? O que estava acontecendo com ele? Eu queria respostas.

— O que você acha que ele tem? — Perguntei, não tirando os olhos do garoto adormecido.

— Eu não tenho a menor ideia. — Seu tom de voz parecia preocupado. Ao contrário da minha curiosidade pelos problemas dele. Confesso que por uns instantes, me senti culpado por ser insensível, mas minha curiosidade foi maior.

Estava na metade do meu chá quando o garoto acordou. Ele deu aquele suspiro característico de acordar e simplesmente não pareceu preocupado. Ele apenas fechou os olhos novamente e franziu a testa, como se estivesse com dor, ou apenas frustrado por ter caído no sono.

Ele não pareceu com nojo do sofá, nem mesmo assustado de ter acordado num lugar desconhecido.

— Você está se sentindo melhor? — Namjoon sentou no chão, ao lado do local em que ele estava deitado. Ele fez que não com a cabeça, ainda com os olhos fechados.

— Eu vou vomi- — Não deu tempo nem de terminar a frase, ele apenas vomitou tudo no chão, a poucos centímetros de Namjoon, que deu um salto para trás. Ele vomitou por um bom tempo, apenas tendo ânsia e não saindo mais nada de sua boca, já que não tinha mais nada em seu estômago. Eu e o mais alto ficamos em choque, não chegamos a ir ajudar, apenas assistimos ele se acalmar. Ele finalmente conseguiu respirar novamente e se levantou, sentando no sofá. Seu rosto pálido quase faziam as manchas em seu rosto desaparecerem, seu boné não estava mais na sua cabeça, ele havia tirado para não sujar, então percebemos que seu cabelo tinha falhas no meio, buracos vazios em que podíamos ver seu couro cabeludo. Seu pescoço estava cheio de bolinhas vermelhas, pelo esforço imenso para vomitar nada.

Ele grunhiu, parecendo extremamente frustrado com a situação deplorável que se encontrava.

— Vou pegar um pano e um balde. — Me levantei para ir até o banheiro, deixando o mais alto cuidar do menino, que estava tossindo e puxando o ar com força.

Confesso que não estava nada inclinado a limpar aquilo, provavelmente deixaria o trabalho para Namjoon, por ele estar acostumado a limpar o banheiro da loja. Aquele menino tinha alguma doença muito grave. Cabelo com falhas, manchas roxas no braço, manchas sem cor na pele, desmaios repentinos e agora a sessão de vômitos. Quando voltei, consegui ouvir a conversa de Namjoon com o desconhecido.

— Como você se chama? — Ele perguntou com calma. Reparei que tinha tirado o garoto de perto do vômito, evitando que o cheiro o levasse a vomitar mais. Deitado, ele parecia mais calmo. Tinha o olhar fixo no teto e sua expressão facial parecia ainda mais cansada.

— Jeongguk, Jeon Jeongguk. — Ele falou de maneira sussurrada, como se sua garganta doesse a cada palavra proferida.

— Como podemos te ajudar, Jeongguk? — Dava para ver que ele estava tentando achar uma boa maneira não prejudicar Jeon e ao mesmo tempo conseguir informações.

— Não podem. — A voz de Jeongguk embargou um pouco.

— Ok, tudo bem. — Namjoon disse com uma voz fraquinha. — Está com fome?

— Nada pára no meu estômago. — Ele cobre o rosto com as mãos, frustrado com a situação. — Não adianta.

— Que tal jogarmos cartas? — Sugeri, vendo que o mais velho estava com certa dificuldade.

— Eu… não sei jogar nada. — Jeongguk me olhou de verdade pela primeira vez e consegui ver a tristeza em seu olhar. Seu tom de voz parecia derrotado.

— A gente ensina. — Falei, desviando rápido o olhar e indo buscar as cartas.

Namjoon tentou ajudar o garoto a sentar no chão, encostado no sofá, mas o garoto recusou sua ajuda com uma aceno de mão. Namjoon foi pegar o balde e passou um tempo limpando o vomito espalhado pelo chão. Quando achei o baralho, dentro de uma caixa, ambos já estavam posicionados longe do sofá e do cheiro ruim. Me sentei no espaço vago do círculo. Namjoon tinha feito seu melhor em limpar o chão, mas com a falta de produtos de limpeza e tempo - já que não queríamos deixar o garoto sozinho - ele não conseguiu fazer muito.

Nós claramente não sabíamos nada além de jogos de carta, não tínhamos nada melhor pra fazer. Era ou assistir algo em uma televisão preta e branca, cheia de ruídos e que mal funcionava sem que passássemos um bom tempo ajustando sua antena, ou jogar cartas, que é claramente mais rápido e fácil.

Ensinar jogos a Jeongguk foi estranho. Ele parecia fraco, sua voz estava baixa e ele estava completamente na defensiva. Percebi que a parte de trás da sua cabeça tinha uma mancha branca também. Suas mãos tinham manchas nas pontas dos dedos e no pulso esquerdo.

Como com Namjoon, me esforcei ao máximo para ignorar meu desconforto. Ele parecia apenas ignorar o fato de que nós éramos estranhos e aberrações. Parecia ter caraminholas demais na cabeça para se incomodar com isso. Então, num gesto de retribuição, também ignorei suas diferenças, mesmo que não tivesse certeza se aquela doença que ele tinha era contagiosa. Será que o vômito e as falhas tinham algo a ver com as manchas? Será que ele fugiu de um hospital?

Jogamos por um bom tempo, até que o sono nos fizesse errar jogadas. Tiramos alguns sorrisos de lado de Jeongguk com jogadas mal calculadas, notamos que Jeongguk era competitivo, pois ficou muito satisfeito quando ganhou uma partida. Depois de um tempo ele começou a parecer menos arisco e desconfortável perto da gente. Descobrimos que ele tinha 18 anos, era dois anos mais velho que eu. Ele também foi o primeiro a dormir, com a respiração mais calma. Namjoon parecia feliz de estar deixando o garoto distraído e me senti satisfeito, por ter ajudado alguém da maneira de que me ajudaram. Eu e o mais alto trocamos olhares e ele sorriu sem mostrar os dentes, ajeitando o garoto em um dos colchões. Dei meu cobertor para que Namjoon dormisse em um dos vários colchões espalhados, já que seu lugar era originalmente no sofá. Namjoon voltou a jogar uma água e tentar jogar quiboa no chão, tentando fazer o cheiro forte ficar mais fraco, esperava que funcionasse porque o cheiro estava começando a se espalhar em todos os cantos do grande espaço.

No dia seguinte, quando acordei, Namjoon e Jeongguk já estavam acordados, comendo bolachas de água e sal silenciosamente. O mais novo deles não demonstrava qualquer sentimento e Namjoon tagarelava sobre seu emprego e sobre o clima, tentando deixar o clima mais leve.

— Bom dia Yoongi. — O mais velho me cumprimentou, como sempre faz.

— Bom dia. — Respondi com a voz rouca. Passei a mão na minha cabeleira, tentando fazê-la baixar. Quando acordo provavelmente pareço um leão, meu cabelo vira um ninho e desisti a tempos de desembaraçar os cachos. Banhos pouco frequentes o fazem ficar ainda mais embaraçado, deixando ainda mais acentuada a minha cabeça de algodão sujo do cabelo lisinho dos outros dois.

— Bolacha? — Namjoon me ofereceu o pacote que ambos estavam dividindo. Só balancei a cabeça, afirmando. O mais alto deu um tapinha em Jeon, que me entregou o pacote. Vi Jeongguk com uma bolacha na mão e pelo o que disse no dia anterior, acho que foi a única coisa que comeu.

Ele não parecia melhor, o Jeon. Mesmo que parecesse mais leve, estava meio abatido. Comi a bolacha, ouvindo o barulho que a minha mastigação fazia. Não comi muito, queria que sobrasse para depois. Podia viver sem comer muito.

— Eu preciso voltar para casa. — Sua mandíbula parecia travada e ele aparentou odiar tal ideia, como se sua casa não fosse um lugar bom.

— Quer que a gente te acompanhe? — Ofereci, com medo que ele acabasse desmaiando de novo, só que no meio da rua dessa vez.

— Não. — Ele fez uma pausa, como se pensasse melhor sua resposta, mas não voltou atrás. Grosso. Ele levantou e colocou o boné na cabeça, ajeitando sua jaqueta de volta no corpo.

Ele olhou em volta mais uma vez, talvez procurando a porta. Depois, olhou bem para nossos rostos, como se quisesse guardar na memória.

— Tchau. — Disse, e depois saiu porta afora, não deixando que devolvêssemos o cumprimento.

Não agradeceu, sequer pareceu se importar.

— Você acha que ele vai lá na loja amanhã? — Pergunto, voltando a deitar.

— Creio que sim. — Namjoon coçou a nuca. — O que é até bom, estou preocupado com o que quer que ele tenha.

— Será que é algo tão grave assim? — Não queria imaginar o pior, mas sabia que as coisas não eram fáceis.

— Ele parecia muito mal pra ser algo simples. — Merda. — Espero que se permita pedir ajuda. — Apenas balancei a cabeça, não queria pensar muito em problemas grandes, de outras pessoas, que estávamos tornando nossos.


[...]


Demorou dois dias para que ele voltasse a aparecer na loja. Dessa vez com uma jaqueta de couro e uma touca na cabeça.

Disfarçou que ia na sessão de salgadinhos, ficou lá um tempo e depois de escolher dois, foi ao caixa e em nossa direção.

— Jeongguk, oi. — Namjoon o cumprimentou, não realmente surpreso com a aparição do mais moreno. Acho que encontramos o lado sentimental de alguém que parece tão frio. Não queria sinceramente julgar as ações do Jeon em ser grosso com as pessoas, com a gente mas as coisas ficavam complicadas quando Joon era tão simpático com ele e era retribuído com apatia. Eu não sabia pelo o que o garoto estava passando, não o conhecia, não queria julgá-lo.

— Oi. — Ele disse, lentamente, com a voz tão fraca quanto antes. Suas mãos magras entregaram mais dinheiro do que os salgadinhos valiam. Quando o hyung estava prestes a abrir a caixa registradora, Jeon o interrompeu. — Fiquem com o troco.

Fiquei surpreso com tal ação, mas continuei quieto.

— Obrigado. — Namjoon sorriu pra ele, enquanto colocava os salgadinhos em sacolas. — Quando quiser, apareça aqui ou lá em casa para nos visitar.

— Ok. — Então ele parou, encarou a sacola, encarou o balcão, tirou um dos salgadinhos da sacola e colocou na frente de Namjoon. Depois, só foi embora como se nada tivesse acontecido.

— Oh. — Namjoon fez um barulhinho de surpresa e quando pensou em agradecer o menino já havia saído porta a fora. Olhou pra mim surpreso, como se esperasse alguma reação minha.

— Não é como se fosse alguma surpresa. — Dei de ombros, pegando o salgadinho do balcão. Talvez não fosse apropriado, mas eu aproveitei a comida do mesmo jeito. — Acha que ele parecia melhor?

— Não muito, na verdade. — Ele enfiou a mão enorme no pacote e quase entalou ela lá dentro. — Mas essa foi sua forma de nos agradecer com certeza.

Assenti, com a boca cheia do alimento salgado e levemente apimentado. Aquele garoto era estranho.


[...]


Era o dia de folga de Namjoon - na parte da manhã apenas - e decidimos ir andar pela cidade. O clima estava meio agradável e estávamos usando roupas mais leves. Fizemos um acordo silencioso de sairmos do nosso jeito, então deixei meu cabelo ser livre e hyung não colocou máscara nem luvas. Fomos aproveitar o dia como se fossemos normais e nenhum olhar alheio podia tirar nosso bom humor compartilhado.

Chegamos perto de uma praça não muito longe de casa. Estava um dia não tão frio. O inverno estava acabando e estava começando a época em que mais odiamos, pois temos que usar menos roupas e expor nossas diferenças, mas que também tem seu lado bom, pois quase perder dedos por causa da neve - como aconteceu comigo nesse inverno - nunca é bom. Então, deixando de lado toda a vergonha e o preconceito, a primavera vem pra aliviar nossos corações e deixar a visão que temos das ruas mais bonitas com flores e céus azuis.

Íamos apenas sentar na grama e pegar sol na praça Mas quando estávamos nos aproximando, cutuquei o mais alto e apontei. Jeon Jeongguk estava lá, sentado encostado numa árvore, com fones no ouvido, conectados a um walkman.

— Nós…

— Sim, vamos. — Joon nem ao menos esperou que eu terminasse de falar e já agarrou meu pulso, indo em direção a Jeon. Provavelmente estava ciente de que eu não gostava do moreno, mas queria se aproximar dele do mesmo jeito.

Chegando lá, sentamos ao lado dele, que apenas olhou para nós sem expressão, afastando para trás um dos lados do fone.

— Oi. — Eu e Namjoon pronunciamos quase juntos, mas ele com animação e eu com mais indiferença.

— Oi. — Jeon parecia mais tranquilo, mais sereno e relaxado. Talvez tivesse gostado de companhia ou estava fingindo, rezando para que decidíssemos sair dali o mais rápido possível.

— Como você está? — Namjoon, sempre simpático e preocupado.

— Okay. — Parecia de fato um pouco melhor do que as outras vezes que o encontramos mas nenhum de nós de fato sabia como era estar realmente bem.

— O que está escutando? — Perguntei, depois que percebi que ele interrompeu a fita.

— The Cure. — Ele respondeu, simples, mas satisfeito. — Vocês gostam de música?

— Escutamos rádio enquanto trabalhamos. — Namjoon respondeu por nós dois. Mesmo que não fosse contratado, achei legal ele me incluir no trabalho, já que passava praticamente todos os dias com ele lá. Sobre o rádio, era realmente verdade. Quando não tinha ninguém na loja, as vezes saiamos dançando como loucos por entre as prateleiras e disfarçavamos quando alguém entrava fazendo o sininho da porta balançar. Era divertido segurar a risada, derrubar produtos, escorregar e cair, tudo ao som de uma boa música. Óbvio que, às vezes, o rádio nos traia e tocava alguma música que nos fazia querer deitar no chão e dormir, ou músicas completamente chatas e demoradas, que nos fazia querer morrer mais que o normal, mas normalmente as músicas eram muito boas pra ouvir, mesmo que eu não fizesse a menor ideia do nome delas ou de quem as cantava. — E você?

— Eu sou… — Ele pareceu relutar em falar algo para nós. — Apaixonado por música, é meu sonho montar uma banda e tocar por aí.

— E por que não monta uma? — Perguntei, deitando na grama. Eu sempre gostei do cheiro da grama, das nuvens no céu, do som que as folhas das árvores fazem quando se movimentam com o vento. Mas nunca tive paz suficiente nos meus pensamentos pra apreciar dias como esse.

— Eu não tenho ninguém pra se juntar a mim, ninguém é realmente interessado nisso. — Ele falou como se não se importasse mas pela sua suposta paixão, provavelmente importava sim e muito.

— Não desista, sempre tem uma chance. — Joon, sempre encorajador. Não conhecia nada sobre o mundo da música, ao menos sabia se a tal chance realmente existia mas não podíamos tirar as esperanças do menino sem mais nem menos. — O que você toca?

— Eu toco violão, piano e guitarra, mas meu sonho é tocar baixo. — Ele ajeitou sua postura, se encostando mais na árvore, demonstrando estar interessado no assunto, parecia incrivelmente empolgado falando sobre isso, acho que achamos seu ponto fraco. — E eu canto um pouco, mas não é meu forte.

— Você poderia nos mostrar algum dia. — Eu disse, sorrindo fraco, que apenas assentiu e sorriu sem mostrar os dentes, meio envergonhado. Era estranho como ele não parecia interessado em conversar da mesma forma que não parecia realmente querer que saíssemos dali. — Aliás, obrigado pelo salgadinho no outro dia, não precisava.

— Não foi nada. — Ele disse rápido, querendo mudar de assunto.

Depois disso, eu fechei meus olhos e aproveitei o sol em meu rosto, Namjoon se afastou da sombra da árvore e fez o mesmo. Jeongguk virou para o lado externo um dos fones e colocou a música mais alta, na intenção de que, com o silêncio a nossa volta, conseguíssemos ouvir a música.

Eu queria muito saber qual era a de Jeongguk. Ele era meio agressivo, arisco, completamente na defensiva mas parecia só… machucado. Não só fisicamente mas psicologicamente também e confesso que comecei a criar empatia por ele, queria ser capaz de lhe ajudar mesmo que ele fosse grosso e respondesse curtamente nossas tentativas de conversa. Eu queria ajudar, ser amigo dele, entender sua cabeça e aprender a valorizar suas qualidades escondidas.

— Vocês tão com fome? — Ele perguntou baixinho, deixando tanto eu quanto Namjoon surpresos. Não sei como Namjoon mantinha a forma, porque meu corpo estava completamente desnutrido e eu conseguia com facilidade contar minhas costelas, não comia nada além de bolachas a dias mas não tínhamos o que fazer. O salário de Namjoon estava 2 semanas atrasado e o chefe misterioso parecia ter esquecido nossa existência. Eu pensei em roubar, pensei mesmo. Ir em outra loja e pegar uns salgadinhos, dar um olhar malvado pra atendente e ir embora, mas Namjoon me pediu de maneira desesperada pra eu não fizesse aquilo e disse que daríamos um jeito. Ele saiu por dois dias e voltou apenas com um pacote de pão de forma que, famintos, terminamos em duas refeições. As coisas não estavam fáceis e eu esperei Joon responder, com medo de falar algo errado.

— Bom… Nós… — Ele parecia dividido entre mentir ou dizer nossa real condição. — É…

— Vamos. — Jeon disse, se levantando e guardando o walkman no bolso da jaqueta.

— Aonde? — Perguntei, sentando na grama.

— Vou levar vocês num lugar. — Ele disse, do nada parecendo muito legal e descolado com aquela jaqueta de couro. Ele, por um momento, não pareceu doente e sim um cara que teria um Plymouth 1960 que andava com a parte conversível sempre aberta e teria muita garotas a sua volta, além de estar sempre com um cigarro entre o lábios. Foi uma mudança repentina e meu queixo foi parar no chão e eu não era o único, o mais alto também parecia levemente chocado, mas não tanto quanto eu. — É… vamos.

— Tudo bem — Namjoon foi o primeiro a se mover, tendo que me dar um tapinha nas costas e me ajudar a levantar pra me descongelar.

Começamos a seguir o moreno em uma direção que não conhecíamos, mas até sua postura havia se tornado superior, o que fez eu nem prestar atenção no trajeto. Quando percebi que provavelmente parecia ridículo, quase precisando de um guardanapo, resolvi parar de babar em Jeon e me distrair.

— Aonde vamos? — Perguntei, olhando para o céu e esperando que seu brilho me cegasse, talvez assim eu passaria menos vergonha.

— Pra uma padaria. — Comida, meu Deus. Meu estômago roncou só com a possibilidade e reparei que Namjoon percebeu, pois abafou uma risada com as costas da mão, olhando pra mim divertido. Desgraçado.

— Oh. — Deplorável, Min Yoongi.

— Olha, realmente não precisa, nós-

— Pode deixar. — Tive que fingir uma tosse para disfarçar o fato de que me engasguei, eu estava chocado e surpreso.

Jeongguk perdeu um pouco de sua autoridade quando começou a ficar muito ofegante com a caminhada e começou a diminuir a velocidade de seus passos, curvando as costas com um cansaço repentino.

— Estamos perto? — Namjoon perguntou, preocupado com o garoto. Ele não respondeu com palavras, apenas assentiu e continuamos andando, respeitando sua velocidade. Parei pra pensar o quão estranho era Jeon ser sozinho, quando ele parecia tão descolado até mesmo pra eu estar perto e tudo pareceu não fazer sentido quando olhei para ele com o canto dos olhos, reparando o quão agradável seu rosto parecia.

Mas quando achamos que ele estava melhorando, ele começou a ficar muito ofegante, suas pupilas ficou quase do tamanho de suas íris e ele se encostou no muro ao nosso lado. Suas pernas começaram a tremer muito e nós nos desesperamos.

— Hey, o que aconteceu? Você tá bem? — Namjoon estava tão confuso quanto eu e o garoto apenas escorregou pelo muro de tijolos até sentar no chão, com uma dificuldade enorme para respirar.

— Quer que eu te leve pra casa? Consegue me guiar até lá? — Perguntei, me agachando na frente dele e tentando fazer com que ele me olhe. Ele nem falou nada, apenas assentiu. — Namjoon… — Eu perguntei silenciosamente, eu sabia que ele tinha que ir trabalhar em pouco tempo e que se acabasse chegando tarde talvez perdesse o pagamento que estava atrasado. Eu estava com medo, Jeongguk era mais alto que eu, eu não sabia se conseguiria carregá-lo até a sua casa sozinho.

— Eu vou com vocês. — Sua expressão se tornou sombria quando disse isso, sabia que nossas preocupações eram as mesmas e entendi sua decisão. — Vamos.

Então ele pegou Jeongguk por baixo do ombro, passando o braço pela cintura do garoto e fazendo o braço do mesmo passar pelos seus ombros. Fiz a mesma coisa do outro lado, fazendo Jeon ficar torto pro lado, pela minha altura ser o total oposto da altura de Namjoon. O mais alto provavelmente estava carregando a maior parte do peso, mas estava ajudando também.

— Jeongguk. — Namjoon o chamou, baixinho. — Pra que lado fica sua casa? — Eu podia sentir seu corpo tremendo e sem força, mas ele aponta pra um dos lados da rua e então seguimos.

A cada esquina ou rua perguntávamos pra ele as direções. Não havia nenhuma melhora nele enquanto andávamos rápido, eles apagava e voltava várias vezes, eu chegava a perguntar diversas vezes as direções, às vezes Namjoon dava tapinhas em sua bochecha, tentando fazer ele voltar e nos ajudar a chegar em sua casa.

Depois de andar mais do que eu imaginava, ele apontou lentamente para o sobrado da área super nobre da nossa cidade. Tudo era muito limpo, as árvores eram bonitas, o cheiro era melhor, as casas eram monstruosas e haviam carros nas ruas. Não tinham muitas pessoas na rua, mas isso não me fazia sentir menos desconfortável de estar em um bairro tão rico e me senti extremamente deslocado.

— Ok, vamos entrar. — Eu disse, girando a maçaneta e percebendo que estava obviamente trancada.

— B-bolso. Atrás. — Tentando ser o menos invasivo possível e não tocar muito nas partes traseiras do menino passando mal, peguei a chave no bolso esquerdo e destranquei a porta, sentindo meu rosto queimar de vergonha.

— Yoongi, eu preciso ir. — Namjoon chegou perto de mim para dizer isso, colocando lentamente todo o peso do Jeon em mim.

— Tudo bem, encontro você no galpão. — Apesar de estar apavorado com ter que cuidar do menino sozinho, tentei ser o mais compreensivo o possível com Namjoon.

— Leva ele pra dentro, deita ele e coloca os pés dele pra cima. Faz um chá, tenta dar algo pra ele comer, faz ele descansar. Coloca uma compressa gelada ou um pano molhado na testa dele, vai ajudar. — Percebi no seu olhar a preocupação dele de deixar nós dois sozinhos e eu “no comando”.

— Tá bom. Come alguma coisa você também e cuidado pra não se atrasar. Não se preocupe com a gente, posso fazer isso. — Ouvi Jeon resmungar de dor perto do meu ouvido, eu precisava ir mais rápido. — Tchau.

— Até. — Então abri a porta e comecei a entrar. As pernas de Jeongguk estava começando a voltar, então ele já conseguia me ajudar a carregá-lo. Namjoon ficou esperando nós entrarmos e só sai de seu campo de visão quando fechei a porta.

Eu não teria a ajuda de Jeon para achar as coisas, mas dando uma rápida olhada já consegui enxergar a cozinha, que ficava separada da sala por um meio balcão; o sofá da sala, que era bem grande e estava na frente de uma televisão bonita e cara que jamais tinha visto na minha vida. A única coisa que eu teria que achar era o banheiro e onde todas as coisas que Namjoon me orientou a usar estavam.

Levei todo aquele peso até o sofá, tentando ao máximo ser gentil ao colocá-lo no sofá, mas quando seu corpo pendeu pro lado ele só caiu.

— Desculpa. — Disse baixinho, ajeitando ele direito deitado no sofá, tirei seus coturnos logo em seguida, jogando eles em algum lugar em que não ficassem no meu caminho. Tirei também sua jaqueta, fazendo ele ficar apenas com a calça jeans e uma camiseta branca soltinha. Olhei em volta e vi uma quantidade razoável de almofadas. Comecei a empilhar elas aos seus pés, tendo em mente que teria que deixar suas pernas levantadas por um tempo. — Consegue levantar suas pernas? Preciso colocar elas em cima das almofadas.

Ele me ajudou a colocar seus pés em cima das almofadas e colocou seu braço na frente dos olhos, respirando fundo várias vezes.

— Okay, okay. Compressa. — Saí de perto dele e abri a primeira porta que achei, era uma espécie de dispensa com diversas comidas, eu precisava do banheiro. Abri a próxima porta e vi todos os tons brancos, o vaso sanitário e a grande banheira. Bingo.

Vasculhei o armário debaixo da pia e achei uma toalha pequena. Encharquei ela de água bem gelada e depois de tirar o excesso voltei em passos rápidos até o sofá, onde ele se encontrava na exata mesma posição.

— Licença. — Tirei seu braço de cima de seus olhos e coloquei a toalha molhada em sua testa. Ele mantinha os olhos fechados e as sobrancelhas franzidas e não resisti a passar o dedão entre suas sobrancelhas, suavizando sua expressão. — Olha, desculpa estar mexendo nas suas coisas assim, eu juro que não vou roubar nada, mas eu preciso te ajudar. Eu vou tentar preparar um chá, se eu acabar incendiando sua cozinha, me desculpe, eu nunca mexi num fogão antes e eu juro que posso concertar. Mas não se preocupe! Relaxe e descanse que eu já volto.

Não dei tempo de ele me responder e já fui para a cozinha, encontrando uma panela logo na pia. Coloquei água da torneira dentro dela e coloquei em uma das bocas do fogão. Era só descobrir como acendê-lo. Tentei virar todos os botões para todos os lados possíveis e nada funcionou. Como que eu vou fazer chá, meu Deus. Eu podia deixar isso para depois, precisava também achar os saquinhos de chá, o que eu provavelmente acharia naquela dispensa que abri um pouco antes. Voltei lá e olhei rapidamente pelas prateleiras, achando uma caixinha de chá preto. A abri e peguei dois saquinhos, logo voltando a cozinha e os deixando ali na bancada e pensando o que poderia fazer para acender o fogão.

— Jeongguk. — Cheguei perto dele de novo, agora vendo que ele estava sentado, massageando as próprias pernas, que deveriam estar meio dormentes. — Você pode me dizer como acende o fogão? — Falei envergonhado.

— Tem fósforo na primeira gaveta, você vira até a metade o botão da boca que você vai usar e acende o fósforo do lado, ai vai acender. — Ele falou com a voz grossa dele.

— Fica deitado aí, hein. Eu já volto com o chá, obrigado. — Fui em passos rápidos para a cozinha. Achei o fósforo na gaveta e fiz o que ele mandou, me assustando quando ele deu um pequeno estouro e uma chama média quando eu acendi. Coloquei a água pra ferver e vasculhei os armários atrás de uma xícara. Não foi muito difícil achar uma xícara branca no armário de cima e logo o chá estava pronto. Eu até prepararia uma xícara de chá pra mim também, mas não queria ser abusado numa casa tão chique.

Depois fui na sala e o encontrei com as pernas em cima da mesa de centro.

— Aqui seu chá. — O entreguei a xícara. — Eu não adocei porque não sabia exatamente como você gosta e nem onde o mel fica, então se você quiser, acho que é bom você ir andando devagarinho, pra ajudar a movimentar suas pernas. — Ele apenas assentiu, deixou a xícara na mesinha e apoiou a mão no sofá para levantar.

Fiquei um pouco indeciso entre o ajudar a levantar e esperar ele fazer sozinho, então fiz um meio termo e fiquei o mais próximo possível, mas sem encostar nele, deixando que fizesse sozinho. Ele quase caiu mas no fim conseguiu adoçar seu chá e voltar para o sofá em segurança.

Eu me sentei na poltrona que tinha ao lado do sofá maior onde o maior estava sentado. O observei tomar o chá calmamente e decidi que era hora de sanar minhas dúvidas.

— Jeongguk. — O chamei. Ele levantou os olhos e me olhou, curioso. — O que está acontecendo?

Ele respirou bem fundo, colocou a xícara na mesa e passou a mão nos cabelos, deixando eles bagunçados.

— No fim do ano passado eu comecei a passar muito mal e meus pais me levaram às pressas para o hospital e eu fui diagnosticado com câncer, leucemia para ser mais específico. — Eu já tinha ouvido falar de câncer na rua, ouvindo duas mulheres conversarem. Eu não entendo muito bem como funciona mas sei que é uma doença eu sei que mata. — Eu até faço tratamento, é por isso que meu cabelo está caindo, mas eu vou morrer uma hora ou outra, não tem nada que médicos ou curandeiros possam fazer. É por isso que eu desmaio e passo mal e vomito com frequência.

— Não tem nenhuma possibilidade de você ser curado? — Comecei a me sentir realmente mal com a possibilidade de Jeongguk morrer.

— Bom, se eu receber um transplante de alguém compatível até posso, mas o tratamento é bem mais caro e arriscado do que continuar com o tratamento normal e morrer um hora ou outra. — Ele tomou mais um gole do chá, fazendo uma careta dessa vez, como se o gosto tivesse ficado esquisito em sua boca.

— Oh...Sinto muito. — Eu ao menos sabia o que dizer para ele. Ficamos em silêncio depois daquilo, tomando chá. — Está se sentindo menos tonto?

Ele só assentiu, terminando finalmente de beber o líquido quente.

— Vamos, vou te mostrar meu quarto. — Ele se levantou devagar e seguiu até a escada. Demorei pouco para segui-lo, não tinha certeza se deveria.

Porém, olhando ele de pé no início da escada me encarando fez com que eu fosse, mais por pressão de seu olhar, porque eu sentia que ia quebrar ou sujar cada lugar daquela casa apenas por respirar perto.

— Olha, não precisa ficar como se tivesse pisando em ovos só porque a casa é grande, fica tranquilo. — Oh, eu não estava esperando aquilo, fiquei extremamente encabulado por ele ter percebido que eu estava meio sem jeito.

— Tudo bem, desculpe. — Então o segui até o andar de cima, que parecia ainda mais confuso para mim.

Era enorme e cheio de portas, eu podia claramente ficar preso ali por anos e nunca achar a saída. Fizemos uma curva no corredor e depois de algumas portas chegamos a seu quarto. Assim que entrei a primeira coisa que percebi foram as paredes azuis, o chão de carpete e uma quantidade considerável de instrumento no quarto.

— Uau. — Murmurei, percebendo que aquele era provavelmente o maior quarto que eu já tinha visto na minha vida.

— Entra, pode sentar, fica à vontade. — Ele disse, já se sentando na cadeira da escrivaninha. Me senti desconfortável naquele lugar, tudo parecia estranhamente sensível e frágil a qualquer movimento, era impossível não andar como se tivesse pisando em ovos, mesmo que eu quisesse seguir seu conselho.

— Você toca… — Apontei para todos os instrumentos. — Tudo isso?

— Aham, aprendi com meu pai e com minhas tias.

— É tipo, muita coisa. — Continuei olhando em volta. Sua cama era toda branca e tinha um bidê com uma luminária ao lado.

Me sentei na cama não deixando de olhar cada centímetro, cada decoração em cima da escrivaninha, cada detalhe dos instrumentos que eu nunca tinha visto na vida, os detalhes do guarda roupa.

— Jeongguk. — O chamei, ele me olhou esperando para ouvir o que eu iria falar. — Desculpe por ser intrometido mas, o que aconteceu com seu rosto e suas mãos?

Percebi que ele ficou confuso por um momento, quando ele olhou para suas mãos pareceu lembrar de suas manchas.

— Ah, as manchas? — Fiz que sim com a cabeça. — É uma doença de pele, não é contagiosa nem nada, ela só tira a cor da minha pele e cabelo por onde passa. Vitiligo o nome.

— Como você pegou isso?

— Não peguei, nasceu comigo e foi crescendo ao longo do tempo, agora ta assim. No resto do corpo é bem pior. — Ele parecia tranquilo ao falar isso, mas dava para sentir seu olhar sombrio.

— Oh, interessante. — O que eu iria dizer? Sinto muito? Não existia maneira de eu consolar ele.

Nada muito interessante aconteceu depois daquilo, ele me contou um pouco sobre como seu pai, quando era presente, o viciou em rock e em tocar instrumentos e que agora sua única participação era pagando instrumentos novos, o que não era exatamente o que Jeon queria. Quando percebi que estava escurecendo decidi que era melhor encontrar Namjoon logo e deixar Jeongguk descansar em paz.

Me despedi rapidamente, pedindo pra que ele se cuidasse mais e que descansasse bastante, sem faltar o colégio no dia seguinte. Mesmo de contra vontade, ele concordou, e andei rua abaixo com seu olhar queimando em minhas costas.


Notas Finais


É isto gente, espero que tenham gostado da história do Jeon
Até semana q vem <3


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