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História Derivados - Capítulo 4


Escrita por:


Notas do Autor


A demora foi grande mas o capítulo da recheado de coisas lindas
(Culpem os vestibulares pela demora, sorry)

Capítulo 4 - Derivados do pronome


1988


Eu estava andando sozinho pela rua depois de um bom tempo só andando acompanhado.

Tive que deixar Jeon em casa por ele estar fraco depois de uma noite mal dormida com a gente lá no galpão. Ele mesmo contou pra Namjoon o que me contou em sua casa, eventualmente, o que deixou Joon ainda mais preocupado com Jeongguk. Apesar de tratar ele normalmente, sempre estávamos prontos com comidas e chás para ele quando passava mal e levávamos com frequência ele para casa, por estar muito fraco pra voltar sozinho em segurança. 

Ele tinha começado a dormir mais conosco e seus pais deram um esporro daqueles, mas ele mal se importou e depois de uma dois dias sem vir ele apareceu de novo e vinha cada vez mais vezes, seus pais passaram a ignorar esse fato. Jeon ia para o colégio de manhã e depois passava o dia com a gente na loja, as conversas e risadas se tornavam mais frequentes apesar de ficarmos em silêncio na maior parte do tempo, sem muitos assuntos em comum. Eu já estava até me acostumando a chamar Jeongguk de hyung. Um outro detalhe interessante é que Jeon pareceu finalmente nos mostrar sua estranha mania de andar com um violão nas costas. O violão é cheio de riscos e tem umas figurinhas coladas, assim como uns rabiscos com canetão. Descobri que aquele era seu violão preferido, mas ele tinha um em melhores condições em casa, mas que não gostava daquele por ter cordas de nylon e não de metal, ou o que quer que aquilo significasse.

Mas de qualquer forma, os dias voltaram a ser tranquilos e era a primeira vez em muito tempo que eu saía de casa sozinho. Talvez fosse por medo, talvez por comodidade, eu não sabia, mas estava sendo uma caminhada razoável apesar de tudo. Consegui depois de tempos apreciar as coisas sem precisar de ajuda e sem me preocupar demais, eu ainda olhava para trás algumas vezes, mas me sentia mais tranquilo. 

Estava escurecendo, devia ser umas 18 ou 19 horas, com o calor que vem fazendo o sol se põe mais tarde que o normal. Eu estava com uma calça de moletom meio manchada e uma camiseta de manga curta, porém com um boné cobrindo minha cabeleira cacheada, talvez isso fizesse eu chamar menos atenção das pessoas. 

Meus passos simplesmente pararam assim que eu vi uma pessoa vindo cambaleando em minha direção. Automaticamente pensei que fosse um homem bêbado, pensei em virar para o outro lado e andar mais rápido, mas vi um pouco de sangue na roupa da pessoa e logo ela caiu no chão. Ainda não convencido de que não era um bêbado, fiquei parado esperando a próxima reação. 

No momento seguinte a pessoa cuspiu sangue e comecei a ouvir um choro estranhamente feminino, foi quando eu soube que precisava ajudar.

Me aproximei devagar, tentando não assustar o estranho.

— Oi? Você precisa de ajuda? — O choro se tornou mais audível ainda, então me aproximei completamente e ajoelhei, ainda não conseguindo ver o rosto da pessoa. Podia apenas notar um corpo muito magro e cabelos cortados de uma maneira irregular, toda torta, como se tivesse sido cortado a força. — Hey, vem aqui, deixa eu te ajudar.

Peguei a pessoa pelos braços, era muito leve, e a sentei na calçada, encostada na parede de uma das casas daquela rua. Quando afastei os cabelos do rosto, me vi confuso. Parecia um homem, era um homem, mas parecia muito uma mulher e tinha maquiagem escorrida no rosto, assim como diversos hematomas também. 

— Olha pra mim, respira. — Quando ele(ou ela) finalmente olhou pra mim, vi espanto em seu rosto, mas não disse nada. O susto pareceu distrair minimamente a pessoa de seu choro compulsivo, uma aberração como eu deve ter impressionado, mas decidi ignorar esse fato e rasgar um pedaço da minha camiseta e começar a secar o sangue que escorria pelos lábios dele(ou dela). — Qual seu nome?

— Ho… Hope. — A pessoa disse baixinho.

— A Hope ou O Hope? — Fui meio indelicado em perguntar, mas estava gentilmente limpando o sangue, achei que pudesse fazer tal pergunta.

— É… “a”, A Hope. — Ela suspirou depois de terminar a frase, como se isso fosse libertador de alguma forma.

— Tudo bem… — A garota fez uma careta de dor quando finalmente achei a fonte de tanto sangue. — Você quer ajuda pra ir pra casa ou…?

— Não. — Me interrompeu. — Eu não tenho mais casa, não sou mais bem vinda lá, posso... uh- dormir aqui mesmo.

— Eu e meu amigo moramos num galpão aqui perto, se quiser passar a noite e decidir amanhã o que fazer, pode vir comigo, tem um colchão e cobertores e talvez tenha comida. — Sorri de canto, tentando passar segurança. 

Não era exatamente a coisa mais segura do mundo chamar alguém aleatório para passar uma noite no galpão, mas ela claramente foi espancada e talvez expulsa de casa por motivos que eu não sei, o mínimo que eu podia fazer é oferecer um pouco de ajuda.

— Muito obrigada, querido, mas é melhor não. — Ela disse, dando um sorrisinho leve. Assenti com a cabeça, mesmo que contra a minha vontade, não a obrigaria a ir comigo por mais preocupado que estivesse.

— Mas cuidado com seus machucados, okay? Tente tratar deles o mais rápido possível e tente se alimentar. — Ela novamente não me respondeu verbalmente, mas assentiu. Depois tirou meu boné, deu um carinho no meu cabelo e depois recolocou, encostando na parede logo depois. Meu coração quebrou em milhões de pedaços depois daquilo, mas respeitei a decisão e saí andando lentamente quando não recebi mais nenhum comentário.


[...]


Depois de 4 dias daquilo, Jeongguk estava sentado em um dos colchões tocando seu violão quando do nada deu um berro, falando alto que havia lembrado que sua família teria um compromisso e ele deveria estar em casa num horário que claramente já havia passado. Pra evitar que ele desmaiasse sozinho no meio do caminho por estar andando rápido demais, fui com ele até lá. Bom, talvez não fosse só por isso que eu fui, eu queria mesmo era checar como Hope estava, apenas saber se ela ainda estava no mesmo lugar. 

Assim que deixei ele em casa fui em passos rápidos até o lugar onde a vi pela última vez porém quando cheguei lá, não encontrei nada, nem as manchas de sangue estavam lá.

Quando me virei pra ir para casa, já desistindo, senti um corpo se chocar brutalmente contra o meu. 

— E-eu vi, o carro do meu pai- ele- — Era Hope, se agarrando desesperada à minha camiseta, com os olhos arregalados e a respiração acelerada.

— O quê? Calma, respira, o que tá acontecendo? — Disse, segurando suas mãos e tentando fazê-la se acalmar.

— Eu preciso sair daqui por favor me tira daqui. — Ela começou a chorar e quando olhou pra trás e viu um carro virando a esquina, seu choro se tornou mais desesperado.

Mesmo perdido, tentei manter a calma e tirá-la dali o mais rápido possível. Segurei sua mão com firmeza e comecei a correr. Entrei em ruas pequenas e em becos para tentar despistar o carro que estava claramente nos seguindo e no finalmente consegui avistar o galpão. Indo para a parte de trás dele e entrando pela porta que levava ao porão, soltei sua mão suada e consegui respirar.

— Você está bem? — Disse, meio ofegante, vendo que Hope lentamente se sentava no chão, agora meio chorando e meio rindo. — Você está segura agora, ninguém vai te achar aqui.

— Obrigada, você salvou minha vida. — Ela secou as lágrimas do rosto e se deitou no chão, respirando fundo. Antes disso, jogou a mochila - que eu não havia reparado que estava em suas costas - no chão a seu lado. 

Foi aí que realmente parei para analisar a menina e percebi que havia algo muito estranho. Seu rosto tinha traços extremamente masculinos e seu cabelo estava um pouco acima do ombro, apesar de estar irregular. O peito era liso, não havia nenhum sinal de seios ali, mesmo que a roupa que estava usando era larga, conseguiria ver pelo meno uma leve elevação, porém não tinha nada. Ela estava com uma calça de moletom e juro que vi um volume entre suas pernas.

Hope era um homem? Mas ela tinha me pedido pra usar o nome no feminino... Então era uma menina?

Eu sinceramente não me importei que ela estivesse mentindo pra mim ou que preferisse que verbos no feminino fossem referidos a ela, mas eu tinha certeza que aquele era um corpo de um homem e aquilo queimou alguns neurônios do meu cérebro.

— Hope. — A chamei. Ela, ainda deitada no chão, abriu os olhos e me encarou. Seu olhos tinham olheiras fundas e tinham mais vida do que qualquer olhar que já vi, apesar de estar encoberta por uma sombra de tristeza, era possível ver um brilho no fundo dos seus olhos. — Por que aquele carro estava nos seguindo?

— Bom, aquele era meu pai. — Ela deu uma risada e cobriu os olhos com o braço. — Fui pra casa para pegar algumas roupas minhas que ainda não tinham sido rasgadas ou queimadas e ele me pegou saindo pela janela. Consegui fugir pelos fundos mas ele foi atrás. — Ela esfregou os olhos com as duas mãos. — Pelo menos consegui uma mochila cheia de coisas, posso me virar.

Apesar de estar completamente fodida, Hope mantinha uma positividade incomum. Todas as vezes que a vi, ela disse que conseguiria passar por tudo aquilo e não perdeu as esperanças.

— Se quiser ficar aqui por uns dias até que ele pare de te procurar, fique a vontade. — Ofereci, mesmo me sentindo um pouco culpado por não consultar Namjoon antes. — Eu tenho mais um amigo que mora aqui, o Namjoon. Ele deve estar chegando do trabalho, vai entender. — Expliquei rapidamente, espero que ela não se impressione com a aparência dele. — Aliás, acho que não me apresentei, meu nome é Yoongi. 

— Nomes bonitos, gostei. — Hope pareceu automaticamente serena, agora sentando e ajeitando os cabelos bagunçados e as roupas abarrotadas.

Preferi não perguntar o porquê de o pai dela perseguí-la, nem de tê-la espancado a 4 dias atrás, muito menos como ela era menina e menino… ao mesmo tempo(?). Achei que seria melhor esperar ela querer falar, querer se abrir.

— Aliás, muito obrigada por me salvar, Yoongi. — Ela me abraçou rapidamente e me soltou antes que eu pudesse pensar. Foi o primeiro abraço que recebi em muito tempo.

— É-é, você tá com fome? Tem bolacha… — Senti minhas bochechas esquentando, ela riu e assentiu e assim, fui até o armário pegá-lo.


[...]


Quando Namjoon chegou Hope já estava deitada no colchão dormindo. Quando me viu sentado do lado dela, a olhando, fez uma cara fechada.

— Yoongi, você trouxe essa pessoa pra casa porque vocês… — Ele acha que eu e ela…?

— MEU DEUS, não. — Controlei minha voz, com medo de acordá-la. — Ela estava com problemas na rua, aparentemente o pai dela bateu nela e expulsou ela de casa, como ele estava atrás dela, na verdade perseguiu nós dois, ofereci que ela ficasse aqui em casa um pouquinho… pode, hyung? 

— Claro que pode. — Namjoon suavizou sua expressão, vendo que seu rosto ainda tinha vestígios do roxo, que estava esverdeado agora. — Qual é o nome dela?

— É Hope.

— Hope? Certeza que o nome é esse?

— É, hyung, ela que me disse. — Respondi, vendo que nossa falação estava acordando ela. Seus cabelos estavam espalhados pelo travesseiro e era possível ver seu rosto com mais clareza. A mandíbula marcada, o rosto alongado, os cílios longos. Era bonita com toda certeza, apesar de parecer cansada.

Ela finalmente acordou completamente quando Namjoon acidentalmente tropeçou na vassoura que estava encostada na parede. Ela se sentou rapidamente e se curvou sentada mesmo, percebendo que Namjoon era mais velho.

— Você é o Namjoon né? — Ela perguntou. Ele assentiu, com uma expressão mais suave e simpática. — Muito prazer, eu sou a Hope.

— Namjoon já falou que está tudo bem você ficar aqui um tempinho, né? — Perguntei, olhando pra ele e esperando sua confirmação.

— Sim, claro. O tempo que precisar. — Percebi naquela hora que ele tinha mais sacolas que o normal na mão. — Eu comprei comida pra dois, mas acho que conseguimos comer todos juntos.

— Você comprou tudo isso? Por que? Você não tinha comprado um sapato novo? — Perguntei tudo rapidamente, com medo de que ele pudesse ter roubado coisas por minha causa.

— Eu não comprei o sapato, achei que fosse melhor te fazer uma surpresa. — Ele disse, tirando das sacolas potes de lámen cru e mais algumas coisas. — E agora que temos visita acho que realmente fiz a escolha certa.

Pensei em brigar com ele. O sapato dele estava completamente destruído que ele economizou um bom tempo para trocá-los, mas depois pensei em o quão incrível ele estava sendo por ter feito uma coisa dessas, sem que eu ao menos pedisse. Namjoon tinha um coração puro e apenas boas intenções, não tive coragem de brigar com ele.

— Eu posso preparar se quiserem, sei cozinhar. — Hope ofereceu, se levantando e se espreguiçando.

— Olha, ainda bem, porque é provável que tudo isso queime caso a gente tente. — Eu disse, rindo. E bem, não era mentira. Nem eu, nem Namjoon sabíamos cozinhar, a gente sempre comia coisa pronta tipo salgadinho, ou algo queimado mesmo, já que nossa capacidade de fazer coisas comestíveis era praticamente nula.

— A última vez que tentamos, comemos nuggets que mais pareciam carvão. — Ele riu, já tirando os miojos das sacolas verdes.

— Ah, então que bom que eu estou aqui. — Hope ficou quase que automaticamente bem humorada e foi rindo até o balcão, já vasculhando gavetas a procura de algo para esquentar água no fogão.

Depois disso ela preparou com maestria 3 lamens e pegamos hashis descartáveis para comê-los. Eu sentia falta de comida de sal de verdade. Sentia falta do cheiro, do gosto, da sensação de comer algo quentinho e que ficasse no meu estômago com facilidade. Não que eu sentisse muito essa sensação, mas era mágico cada vez que acontecia. Eu procurava comer o mais devagar possível e me concentrar o máximo possível, afinal, eu ao menos sabia quando comeria daquele jeito outra vez. Namjoon estava mais tranquilo, comendo numa velocidade normal, mas eu sabia que ele estava aproveitando tanto quanto eu.

Hope, por outro lado, parecia nostálgica, meio quietinha.

— Tá tudo bem? — Perguntei e ela demorou meio segundo para entender que eu estava falando com ela.

— Sim, só um pouco de saudade de casa. — Ela disse, limpando a boca com a manga da camiseta.

— Por que saiu? — Namjoon perguntou, demonstrando pela primeira vez sua curiosidade.

— Eu fugi. Na verdade, meu pai meio que me expulsou. — Ela contou, dando um sorrisinho. Eu a admirava cada vez mais.

— Mas por que ele faria isso? — Estava curioso desde a primeira vez que nos vimos, porque ela não me contou o porquê de estar machucada.

— Ele não aceitava muito… quem eu sou. — Ela disse, se encolhendo um pouco e baixando a voz, como se estivesse com vergonha. — Eu meio que não nasci assim, como vocês me vêem.

— Se você não se sentir confortável, não precisa nos falar. — Namjoon comentou, tentando ajudá-la.

— Não, eu quero falar. — Ela disse, sorrindo. — Bom, eu nasci num corpo de um menino.

— Como assim? — Eu estava perdido.

— Eu sou uma mulher, mas meu corpo é de um homem. Basicamente minha cabeça é mulher mas eu tenho um pênis. O nome que meus pais me deram é Hoseok, mas eu não uso mais, eu sou a Hope. — Ela ficou um pouco vermelha por sua fala. — As pessoas chama isso de transsexualidade, eu sou uma menina trans, porque eu nasci no corpo errado, entendem?

— Que interessante. — Namjoon disse, se apoiando a mão direita e com uma cara de quem está encantado.

— E como você descobriu isso? — Perguntei, percebendo o quão confortável ela estava com a situação.

— Ah, eu sempre soube na verdade, mas eu só fui entender o que estava de errado com 15/16 anos. — Ela sorriu. — E meu pai não aceita que eu seja uma mulher e tentou diversas vezes me fazer pensar que eu estava enganada e que eu estava errada, mas ele não pode mudar quem eu sou, então eu fugi.

— Isso foi muito corajoso. — Namjoon apontou. — Não se deixar levar pelo seu pai, acho que jamais conseguiria fazer algo assim.

— E você se aceitar do jeito que você é, é lindo. — Quis elogiar ela e chamá-la de linda, mas perdi a coragem no meio do caminho e acabei soltando esse comentariozinho.

— Ai, obrigada meninos. — Ela disse, exibindo um sorriso enorme em forma de coração. — Fazia muito tempo que eu não conversava com alguém…

Depois daquilo terminamos de comer e jogamos as embalagens no lixo, finalmente nos preparando para dormir. Hope ficou com o melhor colchão — o que eu estava usando — e eu fiquei com outro, que estava encostado na parede. Eu andava por aí durante o dia e comecei a trazer coisas que achava na rua, lixo que as pessoas deixavam na calçada. Queria me sentir minimamente útil para a casa. Cheguei a ir até próximo do bairro rico em que Jeongguk mora e consegui coisas muito boas lá, coisas praticamente nova que as pessoas acham que não tem mais nenhuma utilidade. Nisso, consegui mais um ou dois colchões e depois de uns dias no sol eles podiam ser usados sem nenhum problema e agora estavam encostados na parede. Namjoon ainda preferia o sofá por algum motivo que desconheço, talvez seja o cheiro ou alguma coisa que aconteceu ali que faz com que aquele seja seu lugar preferido para dormir. 

Eu ultimamente ando dormindo onde caio e acordo da mesma maneira de que fui deitar.

Na manhã seguinte, quando acordei, Hope ainda estava dormindo serenamente no colchão ao lado, mas Namjoon já tinha saído para trabalhar. 

Resolvi tentar lavar meu cabelo na água do chuveiro que estava morna naquele momento, o que não acontecia com muita frequência. Depois coloquei uma roupa leve, o dia estava ameno e o sol não estava muito forte hoje.

Quando saí da pequena despensa vi que Hope já tinha acordado e estava sentada, coçando os olhos e penteando o cabelo com os dedos.

— Bom dia. — Eu disse, me aproximando e me agachando ao lado dela. — Conseguiu dormir? Quer tomar um banho? A água está finalmente morna.

— Hmmhmm. — Ela murmurou algo que não entendi. Ri de sua voz de sono e me sentei com as pernas cruzadas no chão, esperando ela acordar de verdade. Pensando que o que faria durante o dia, concluí que precisava urgente de um barril ou algo de metal para colocar fogo dentro e nos esquentar, o inverno chegaria daqui a alguns meses e não queria que morressem de frio. Era um pouco cedo para pensar no inverno mas era melhor prevenir. 

Depois de resmungar mais algumas vezes e se espreguiçar, Hope finalmente disse algo entendível.

— Vou aceitar o banho. — Ela disse, rindo a toa. 

O dia inteiro passou tranquilo. Não saí de casa naquele dia e apenas fiquei conversando com Hope sobre como conheci Namjoon e como viramos amigos. Estávamos ambos rindo de algo quando Jeongguk entrou, escancarando a porta e com seu violão nas costas. Seu cabelo estava crescendo muito, estava quase abaixo de sua orelha, e eu sabia que ele queria ao máximo disfarçar seu cabelo caindo(o que descobri ser um dos efeitos do tratamento pra câncer que ele estava fazendo). E com o cabelo comprido, ele já conseguia prender um pedaço dele num coque meio estranho, só porque se irritava com os fios em seu rosto.

Ele parou assim que viu nós dois sentados no chão, inclinando a cabeça pro lado e franziu as sobrancelhas.

— Oi hyung. — Eu disse. — Como foi a aula?

Tentei agir o mais naturalmente possível. Eu sabia que Jeongguk era extremamente resistente em relação às pessoas e não queria que ele tratasse Hope de maneira grosseira.

— Quem é você? — Ele disse, ignorando meu cumprimento.

— Eu sou a Hope, muito prazer. — Ela disse, sorrindo. Foi engraçado ver a enorme diferença de humor dos dois, quando a garota estava sendo super simpática, podíamos ver a mandíbula de Jeon travada em estranhamento.

— Jeongguk. — Ele se apresentou, já tirando o violão das costas e colocando no sofá.

Depois daquilo o clima ficou estranho, mas Hope não deixou aquilo ficar por muito tempo, já começando a tagarelar sobre assuntos aleatórios, contando dos filmes que ela tinha assistido, os quais jamais imaginei que existiam. Eu tive que ir encontrar Namjoon, perto do fim do dia, para avisar que algumas coisas da casa estavam acabando, Hope fez questão de fazer uma lista e disse que éramos desnaturados por viver sem aquelas coisas. Não tive que explicar pra ela que a gente não tinha muita verba pra tais coisas, ela apenas anotou coisas necessárias e baratas, então pedi pra que Jeon fosse comigo, eu precisava explicar a situação da Hope e convencer ele a aceitá-la. A menina também precisava descansar, e de um tempo sozinha, privacidade, caso precisasse fazer algo. Disse a ela pra que em hipótese alguma saísse dali, pois existia a possibilidade de seu pai ainda estivesse rondando o bairro e ela concordou, deu um beijo no meu rosto e disse que eu podia ir. Quando foi se despedir de Jeon, viu que ele não ficou muito contente e apenas acenou, sorrindo.

No caminho, ele ficou extremamente chocado com o fato de ela ser trans e me disse que sequer parecia. Depois, expliquei que ela não era nenhum tipo de ficante minha ou nada do gênero, contei como a conheci e como o pai dela estava querendo machucá-la muito, tive certeza que ele entendeu essa parte, lidar com família não é o forte de nenhum de nós. 

Ele aceitou a situação mais fácil do que eu, foi extremamente difícil pra mim entender que ela tinha um pau mas era uma mulher. Fiquei muito tempo pensando sobre o assunto antes de começar a falar com Jeongguk, era difícil de processar. Mas nenhum de nós está no direito de julgá-la ou nada do gênero. Apesar de ainda ter muitas perguntas, não acho que agora seja o momento certo de fazê-las, a prioridade agora é ela se sentir segura e evitar que seu pai a encontre. Precisava aprender como agir na frente dela e quais coisas eram ofensivas ou não, mas eu aprenderia isso com o tempo.

Quando chegamos na loja, ele já tinha concordado com a presença dela e disse que ia ajudar a cuidar dela caso precisasse. Eu entreguei a lista à Namjoon e ele já pegou a calculadora para ver se tudo que estava na lista era possível de ser comprado com seu salário. Eu já estava planejando mais uma sessão de roubos pela cidade, revirar lixo e talvez pedir dinheiro no sinaleiro, já que o chefe de Nam não estava aparecendo com tanta frequência pra lhe entregar dinheiro. No fim, ele conseguia comprar pelo menos metade da lista e falou que poderíamos ir em outro lugar, onde as comidas eram mais baratas do que ali. Ele achou que seria bom levar Hope junto e disse que o caminho pro tal lugar era em direção a nosso galpão, então andamos até o galpão e cobrimos o rosto de Hope com uma máscara, deixando seus cabelos longos cobrirem parcialmente o rosto também, tudo para evitar que alguém a reconhecesse no caminho até lá. Todos mais entrosados, conversamos sobre coisas aleatórias como cabelo e música, me esforcei pra comentar e continuar na conversa, mesmo que eu não entendesse muito de nenhum dos dois assuntos. Hope e Namjoon gostaram do assunto cabelo, o qual começou com ela perguntando como ele descoloriu o próprio cabelo. Seus cabelos loiros distraiam o olhar das pessoas do resto do corpo, eu achava isso uma boa tática. Hope exibiu seu desenho de pintar o cabelo de ruivo, comentei que ela ficaria muito bonita desse jeito, apesar de sentir minhas orelhas queimando por elogiá-la tão abertamente. Jeon disse alguns produtos que usava no seu cabelo para ficar macio, mas que não se importava tanto com isso. Eu sabia que era mentira, ele se importava muito com o cabelo e o fato de ele estar caindo machucava o moreno todos os dias, mas era bom ver que ele não tinha perdido sua vaidade. Eu, por outro lado, tinha um ninho de raposa ao invés de cabelo, o que levou Hope a falar milhares de produtos pra cabelo, pra hidratar, definir, assentar, todos os quais eu jamais conseguiria comprar, mas agradeci as dicas de qualquer jeito. 

Depois, Jeongguk falou que finalmente compôs uma música e isso animou Namjoon de uma maneira que eu jamais tinha visto. Aparentemente ele também gostaria de compor algum dia e pediu milhares de dicas para Jeon, tantas que o garoto ficou até assustado. Hope falou que adorava músicas cantadas por mulheres e que gostava demais da música coreana, por mais que ouvisse músicas americanas também. Eu, que nunca ouvia música (só quando Namjoon colocava alguma rádio), fiquei quieto durante a conversa, feliz de estar ouvindo os três se dando bem.

Então, chegamos no mercado já recebendo todos os olhares possíveis – todos os das 3 pessoas que estavam dentro do mercado, sendo duas delas atendentes, o mercadinho estava vazio. Não me surpreendi nem um pouco, já que um homem de 1,90, um cara com um coque e manchas no rosto, uma mulher com mais blusas do que o necessário e um garoto negro realmente chamavam atenção comparado às outras pessoas. Eu não me importava mais com esses olhares, muito menos Namjoon, mas Hope pareceu se incomodar um pouco com todas as cabeças viradas na nossa direção. Peguei em seu pulso e todos fomos até o primeiro corredor, com as pessoas logo disfarçando que acabaram de encarar fixamente um bando estranhos. 

— Isso foi estranho… — Hope disse, abraçando o próprio corpo. 

— Bom, se você for andar com a gente é bom se acostumar. — Jeon disse, pegando a lista e lendo o primeiro item. — É meio estranho no início mesmo, mas vale a pena. Vamos pegar um pacote de pão de forma.

Olhei para Namjoon com os olhos arregalados, era raro as vezes que Gguk falava que gostava da nossa presença, principalmente falar que valia a pena os olhares por causa da gente. Namjoon sorriu e deu de ombros.

— Não se importem com marca, peguem o que tiver mais barato, por favor. — O loiro já estava com a carteira na mão, contando o dinheiro que tínhamos disponível e suspirando baixinho. — Não temos muito.

Nós três assentimos, e fomos em nossa aventura. Fiz questão de pegar um carrinho e quando parei no corredor, tive uma ideia.

— Alguém me empurra. — Eu falei em voz alta, subindo dentro do carrinho. Sentei dentro dele e olhei para os outros três vendo que ninguém havia se mexido. — Por favor?

Então Hope finalmente se moveu.

— Se você for com a sua velocidade mais potente, deixo você usar o travesseiro por dois dias. — Digo, me segurando na lateral do carrinho. Só tinha um travesseiro disponível na casa, o qual eu estava usando, fora isso tudo que tínhamos eram colchões.

— Justo. — Sua voz soou próxima do meu ouvido. — Segure firme.

— Vou pegando as coisas, não se machuquem crianças. — Namjoon disse, em tom de riso, se afastando. 

— Jeon, faça uma contagem regressiva. — Eu disse, olhando pra ele.

— É sério?

— Claro. — O mais velho suspirou.

— 3… 2… 1… Vai. — Sua voz soou o mais entediada possível, mas eu sabia que no fundo ele estava ansioso para a merda que estávamos perto de fazer.

Assim que sua contagem terminou, Hope disparou pelo corredor, com seus pés fazendo barulho no chão liso. Ela quase escorregou muitas vezes, e eu gritei assim que ela começou a correr.

O único problema, era que não tínhamos pensamento em um meio de parar então quando ficamos perto do fim do corredor, percebi que não ia funcionar.

— Hope. — Tentei avisar que estávamos perto do fim do corredor. — HOPE.

Vendo que ela não estava diminuindo a velocidade, fechei meus olhos e esperei o impacto.

Ouvi seus pés freando e desacelerando, quando abri meus olhos e olhei pra ela, estávamos grudados na parede e ela sorria pra mim, rindo da minha cara de desespero.

— Ficou com medo, foi? — Ela caiu na gargalhada, uma risada fina e estranha, mas que me contagiou. 

No início do corredor ouvi Jeon rindo da minha reação e dos meus berros esganiçados.

— Eu quase morri. — Eu coloquei a mão no meu peito, sentindo meus batimentos cardíacos acelerados.

— Um pouquinho de emoção faz bem. — Ela bateu no meu ombro e manobrou o carrinho, voltando calmamente com ele até Jeongguk. — O travesseiro é meu. 

— Todo seu. — Eu disse, ainda com falta de ar.

Os dois riram de mim ainda mais.


[...]


— Qual é o sonho de vocês?

Era uma noite quente e estávamos os quatro esparramados na grama, no parque distante que tinha na cidade. Já era bem tarde e não era um dia bom pra nenhum de nós então saímos andando para qualquer lugar, a fim de esvaziar a mente.

Eu podia ver as estrelas e a lua tão fina quanto um pedaço de queijo mordido, ela era a única iluminação que tínhamos por perto, o bairro era simples e depois das 23 horas tudo ficava escuro e silencioso.

Esperei a resposta calmamente, respirando fundo e sentindo o cheiro da grama abaixo de mim, com meus dedos arrancando qualquer pedacinho que conseguia alcançar.

— Fazer a cirurgia de redesignação sexual, num país que faça né, já que aqui não existe. — A primeira resposta veio de Hope.

— Existe cirurgia pra tirar o pau? — Jeon disse, com sua voz mais rouca que o normal.

— Sim, e eles fazem uma buceta bonitinha no lugar. — Ela disse, suspirando no fim, como se esse fosse seu maior desejo.

— Maneiro.

— Meu sonho é me casar. — Namjoon disse, não desviando seu olhar das estrelas.

— Com um homem ou com uma mulher? — Perguntei, surpreendendo todos. Apesar de não julgarem, eu sou o que menos sabe do mundo entre eles. Não em questões de dificuldade, essas eu sou craque, mas em questões da vida mesmo, estudo e relações sociais. Mas eu vi coisas demais pra saber que a vida é cheia de nuances.

— Sei lá, nunca pensei sobre isso. — Ouvi uma movimentação da sua parte. — Contanto que me ame do jeito que eu sou, tanto faz. 

Fazia sentido, realmente.

— Eu quero fazer uma tatuagem. — Jeon disse.

— Aonde? — Hope pergunta.

— No braço talvez, não sei. — Ele respondeu, pensativo.

— Eu que fiz a maioria das minhas, se você quiser eu arranjo uma maquininha e faço em você. — Namjoon sugeriu, olhando um pássaro em aquarela que tinha no antebraço.

— Sério? — Jeon ficou muito animado de repente, se sentou na grama e olhou Namjoon com expectativa.

— Claro, só espera eu economizar um pouco pras tintas. — Eu sabia que as tintas não eram exatamente baratas, mas também sabia que Namjoon fazia tudo pelas pessoas que ele gostava.

— Nossa, muito obrigado.

— Também quero uma, tô na fila. — Hope falou.

Apesar de também querer uma, não me manifestei. Estava preocupado demais pensando na resposta para minha própria pergunta. Percebi que não tinha objetivos, não me culpava por isso, era difícil pensar em um futuro vivendo na rua, sofrendo preconceitos e violência, eu sequer sabia se estaria vivo no dia seguinte, no minuto seguinte. Reparei que nada relacionado a estudos me interessava, também que ter uma casa própria implicaria eu ter dinheiro para tal, o que não me deixava com nenhuma esperança, eu não tinha talentos, não desenhava nem cantava, muito menos sabia fazer contas e cortar o cabelo de alguém, mal sabia ligar um cortador de grama. Meu futuro sempre foi incerto, e eu pouco me preocupei com isso. Por um segundo pensei em pedir uma pele clara e cabelo liso, o que eram a principal razão de tudo que tinha acontecido comigo até então, nunca foi culpa minha. Mas depois olhei para os lados e vi que nenhum deles pediu pra ser diferente de quem já realmente é, Hope por exemplo só pediu uma adequação para o que já é, então me repreendi e me obriguei a pensar em algo melhor, já que aquelas características me definiam, mas não definiam meu caráter. Pensei em pedir para rever minha mãe, mas eu sabia que isso jamais aconteceria, então me coloquei a pensar novamente e meus pensamentos pararam num hambúrguer gigante que eu tinha visto numa placa esses dias, me parecia algo bom para pedir.

— E você, Yoon? — Ouvi a voz de Hope soar junto com uma sinfonia de grilos.

— Eu queria muito aquele hambúrguer da placa da esquina do posto de gasolina, nunca comi um. — Todos ficaram em silêncio naquele momento. Minha alma inocente não percebeu, principalmente por estar focado demais na estrela cadente que passava no céu escuro, mas os três se olharam, conversaram com o olhar de maneira triste o fato de eu não ter nunca comido um único hambúrguer na minha vida, eu mesmo sentiria pena de mim mesmo se achasse isso um problema na época. Não sei que conclusões tiraram, mas obtive apenas uma resposta.

— É, aquele hambúrguer parece bom mesmo. — Jeon suspirou depois de sua fala, eu sabia que ele já tinha comido o tal hambúrguer.


[...]


Eu estava sentado no sofá com as pernas cruzadas como índio observando Hope e Gguk brigando no chão. A verdade é que Jeon merecia a bronca que estava recebendo, ao mesmo tempo que reclamava de dor a cada volta que a menina dava com o esparadrapo na mão dele.

— A próxima vez que tocar até deixar seus dedos nesse estado eu arranco eles fora, entendeu? — Bom, até eu estava com medo dela agora, por isso estava quietinho observando. Namjoon estava perto do fogão comendo uma feijões pretos enlatados com uma colher diretamente da lata, igualmente quieto.

— Entendi! Desculp-Aai. — Ele apertou a própria calça para não mover a mão, todos sabíamos que ia ser pior se ele se mexesse.

— Já não basta seu Min Yoongi cortando o braço mexendo onde não era chamado agora você me vem com essa, o que eu faço com vocês. — Ela balançou a cabeça negativamente, conferindo se tinha enfaixado todos os dedos. Bom, eu tinha ido mexer no lixo de um restaurante pra ver se achava algo interessante e que não fizer me fazer cagar até morrer e acabei me cortando com um vidro quebrado, Hope e Namjoon me ajudaram — depois de terem surtado com a quantidade absurda de sangue, nem estava doendo tanto assim — e depois de enfaixado recebi uma puta bronca. Agora era a vez de Jeon que passou 8 horas tocando seu violão ininterruptamente descontando toda sua raiva acumulada e desse jeito abriu todos os calos dos dedos, além de ter comido toda sua cutícula já não muito resistente. Hope quase teve um chilique quando viu a mão do garoto e correu para a “mini caixinha de primeiros-socorros” que ela trouxe naquela mochila enorme que mais parecia nunca ter fim e começou a limpar e proteger os machucados de um Jeon emburrado e bicudo.

— Pronto, nada de tocar pelos próximos 3 dias. — E quando ele ameaçou reclamar, acrescentou. — E se reclamar vai aumentar pra 6.

Depois daquilo ele se encostou no sofá e ficou lá encarando o nada, balançando a perna.

— Obrigado. — Ele resmungou a contragosto.

— Por nada, querido. — Ela deu um beijo na cabeça dele e voltou para perto de sua cama, onde estava sua mochila, para guardar a caixinha. Um silêncio desconfortável se instalou quando Hope estava entretida em arrumar suas coisas e nenhum dos garotos tinha coragem de falar um a.

— Alguém tá com fome? — Namjoon falou com a boca cheia, fazendo todos rirem, pelo menos um pouco.


Notas Finais


Espero que tenham gostado! Até a próxima


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