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História Descendentes do Crime - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Injustiças


Rapidamente vou até ela e me abaixo.

— Mamãe? Ei, o que aconteceu? — Toco em seus braços e percebo manchas roxas em algumas partes deles.

Ela parece sair de um transe e olha pra mim, seus olhos estão vazios. Ela pisca algumas vezes e logo se dá conta de quem está a sua frente.

— Ash, quando você voltou? Por que não me avisou? — Ela parece atordoada e tinha esquecido que eu tinha avisado sim que viria, ela nem chegou a atender o celular.

— Eu tentei avisar, mas você não atendeu. — digo o óbvio e vejo seu olhar divagar mais um pouco, ela não está bem — Eu vou chamar uma abundância, fica calma.

De repente ela parece acordar definitivamente e segura meus braços.

— Não! Não, querida, não precisa, eu estou bem, só quebrei alguns copos sem querer. — Mentirosa, penso.

— Então, o que são esses machucados por todo o seu corpo mãe, não vai me contar o que aconteceu? — Pergunto já sabendo que ela não iria querer me envolver.

— Eu cai, — ela ri, sem graça — foi uma queda feia essa que levei no banheiro, mas não se preucupe.

— E como uma simples queda no banheiro te deixou tão machucada? — Pergunto, cínica — Mãe, eu já morei aqui, não precisa mentir pra mim.

— Mas do que você está falando querida? — Ela muda de assunto — Vamos, me ajude a limpar essa bagunça, depois vamos tomar um chá nós duas, com biscoitos como você sempre gostou.

Eu a ajudo a se levantar e sento ela em uma cadeira próxima.

— Por que veio tão cedo para Paris, querida? Eu achei que ainda faltava um pouco mais de tempo pra você terminar sua faculdade. — ela fala, sentada, com uma voz mais cansada do que eu estava acostumada a ouvir.

— E faltava, mas eu decidi fazer meu curso de moda aqui mesmo, que vai servir de complemento para o curso de design que fiz no Canadá. — Dou uma pausa curta — Além do mais, já estou trabalhando como designer gráfica e… — dou uma pausa.

— E? — Ela pergunta, me incitando a continuar.

— … E moro num apartamento, sozinha, então estava pensando em te chamar pra vir morar comigo. — Ao ver que ela permaneceria calada, tento mais um pouco: — Sabe, pra cozinhar pra mim, porque não sei nem cozinhar um ovo!

Tento ser engraçada, mas não dá certo.

— Eu agradeço, minha flor, mas eu não quero sair daqui. Eu gosto muito dessa casa e do seu pai também. — As palavras saem meio forçadas.

— Ao que parece, ele não te ama nem um pouco. — Tenho que ser sincera.

— Não fale assim, é claro que ele me ama, se não, não teria se casado comigo. — Ela ainda era uma mulher que conservava ideias patriarcais do passado — Além do mais, uma mulher têm que viver para o seu homem, fazendo suas vontades e cuidando dele. Não posso cuidar dele estando longe, Ashley.

Eu não queria brigar com ela, então fiquei calada, quanto a isso, mas mesmo assim tentei mais uma vez.

— Ok, mas a proposta de morar comigo sempre vai estar de pé, mamãe. — Vai estar de pé até eu encontrar uma maneira melhor de te tirar das mãos desse criminoso.

 

[…]

 

A justiça policial não têm efeito em pessoas poderosas. Isso é evidente quando se fala em políticos, por exemplo, com amplo poder de influência que não são presos, mesmo estando atolados em provas e acusações. E essa era a realidade do meu pai, um dos maiores criminosos da França, contrabandista de drogas e também de mulheres.

O tráfico de pessoas é um dos mais lucrativos do mundo, chegando a gerar uma renda maior do que a de empresas multinacionais. Em muitos países, de leis fracas e culturas opressoras, esse crime é atenuado e recoberto, por isso é difícil de ser punido ou sequer descoberto. Não é o caso da França, porém, que têm suas leis bem firmes, mas mesmo assim, aqui ainda há casos de mulheres que saíam pra trabalhar em busca de melhores condições em outro país e nunca mais voltavam.

Minha mãe é só mais uma das esposas do meu pai, não sei ao certo quantas ele têm, mas tenho certeza de que não são poucas. Há muitos anos venho tentando planejar algo pra tirar ela dessa vida, mas mesmo assim, todos os meus planos são fracassados e ela não colabora muito. Não porque ela não quer, ou por que ela o ama, mas porque têm medo.

Não é só ela que têm medo, eu também tenho medo. Medo de que uma hora ele decida que ela já não é mais necessária pra ele e acabe com a vida dela. Ou de que vá atrás de mim e decida que não quer ter mais uma filha, embora desconfio de que eu seja insignificante para ele, mais como uma poeira no sapato do que verdadeiramente uma filha.

Ir à polícia poderia ser a última ação que faria antes de morrer. Com certeza não resolveria nada e só me poria na mira do revólver dos homens dele. E mesmo assim, eu fui, ainda com esperança e tendo em mente de que era a única coisa que estava ao meu alcance fazer, por que, afinal, o que uma pobre estudante de moda poderia fazer contra um mafioso rico e poderoso?

— O seu caso é complicado garota. — O delegado falou e eu já esperava que ele falasse isso mesmo. Estávamos sentados de frente um pro outro, em uma sala pequena e pouco iluminada, parte da delegacia. — A senhorita têm alguma prova disso tudo que falou?

— Eu não tenho, mas eu posso trazer minha mãe aqui e mostrar as marcas no corpo dela. — falo, mesmo sabendo que provavelmente ela não viria de livre e espontânea vontade — São marcas óbvias de violência, não têm como não notar!

Eu já estava um pouco alterada, não por ódio, mas por desespero. Tenho certeza de que se fosse um homem rico e branco aqui de frente pra ele, ele já teria tomado providências. 

— Se você não tem provas moça, não têm nada. Não podemos agir em cima de suas palavras apenas, ainda mais contra um homem tão importante como o Senhor Benson. — Ele fala sem nem sequer olhar para mim, não estava prestando atenção em quase nada do que eu estava falando. 

— Ele é um criminoso, por que não investigam ele? — Era evidente que aquele homem não resolveria nada pra mim.

— Suas acusações são muito sérias garota, poderia até ser presa por falsas acusações ao Senhor Benson. Inclusive, — ele pega um bloco de notas e começa a anotar alguma coisa — eu estou sem tempo pra ficar escutando esse tipo de coisa agora, se quiser fazer alguma denúncia séria ligue para este número mais tarde. A senhorita está liberada.

Eu fico sem reação. Um policial têm que por a mão no meu ombro e me levar até a saída da delegacia. Eu não deveria mesmo ter vindo…

— Tá me escutando? — o policial que veio me levar pergunta. Ele tinha cabelos e olhos castanhos, era alto e bem forte, aparentava ser bem jovem, quase da minha idade.

— Pode repetir? Eu não estava prestando atenção.

— Eu fiz uma proposta, — ele diz — posso te ajudar a juntar provas pra dar continuidade no seu processo contra esse homem.

Eu fico meio sem reação, mas ele continua.

— Me desculpe, não me apresentei ainda, — ele estende a mão — meu nome é Shawn Mendes, pode  me chamar de Shawn só.

Ele ri e eu aperto sua mão.

— Obrigada, mas, por que me ajudaria? — Falo, recolhendo a mão.

— Por justiça. Eu ouvi sua conversa com o delegado, e acho que ele foi injusto. — Ele começa a falar em um tom mais baixo — Faz pouco tempo que cheguei pra trabalhar nessa cidade e não foi uma grande surpresa pra mim descobrir que aqui há policiais comprados, em todos os cantos há esse tipo, na verdade.

— Comprados? — Pergunto.

— É, geralmente são pessoas ricas que acabam fazendo negócios com a polícia em troca de favores. — Ele continua — Esquemas de corrupcão, acho que você sabe.

— Sim, eu sei como funciona.

— Olha, sei que não nos conhecemos bem ainda, mas eu acredito em você e vou te ajudar. — Ele dá um meio sorriso pra tentar ser simpático e, bem, consegue, o sorriso dele era lindo — Se não conseguirmos justiça por aqui, podemos ir pra outra cidade ou contatar um advogado.

— Obrigada, obrigada mesmo. — Ponho umas mechas do meu cabelo atrás da orelha — Podemos sair algum dia desses pra acertamos os detalhes?

— Com certeza. — Shawn sorri.

 

 

[…]

 

P.O.V Justin Bieber

 

Eu não precisava que a  Ashley acreditasse em mim imediatamente, iria protegê-la de qualquer jeito. E uma hora ou outra, ela iria acabar acreditando em mim. Dessa vez eu não seguiria ela, como fiz no Canadá quando ela fugiu da minha casa. Iria agir de forma diferente, mas não menos eficaz.

Como bom namorado, fiquei sabendo da relação dela com a família, em especial o pai, que era podre de rico, mas mesmo assim agia como se a filha não existisse. E depois de descobrir que o tal Senhor Benson é um grande contrabandista, entendi o porquê dela ter fugido da minha casa. Quando ela descobriu que eu também era um traficante, ficou com medo de que eu fosse que nem o pai dela e fugiu. Não a culpo, eu entendo o que ela deve ter vivido e sei que os traumas do passado são como cicatrizes na mente.

Embora ela tenha terminado comigo, não posso deixar que ela enfrente tudo isso sozinha, ainda mais com o perigo de ser morta a qualquer momento. Então fiz algumas investigações mais a fundo sobre a vida dela, sobre a mãe, pai e irmãos. Tenho alguns informantes aqui na França e acabei descobrindo diversas coisas úteis. Entre elas uma que talvez seja a mais importante; ao que parece, o Senhor Benson não se encontra fora da cidade, como o que é contado por aí. Ele está aqui em Paris, talvez não na sua mansão, mas ainda sim, aqui. Há alguns meses atrás, ele estava no Canadá, exatamente na época em que sua filha se preparava pra voltar e sofreu o acidente.

Não acredito em coincidências. E se antes eu não tinha ideia de quem poderia estar atrás dela, agora eu tenho, e com provas fortes ainda. Só não tinha ainda a resposta a respeito das intenções dele com a Ashley. O Senhor Benson é um criminoso, deve ter milhões de filhos espalhados pelo mundo, por que querer ir atrás logo dela agora? Ela deveria não ter importância para ele, como era o que dava a entender, pelas suas ações. O que o faz se interessar por ela agora?

Sentado em meu escritório, com as pernas em cima da mesa, fumando um cigarro, eu pensava nessas questões. Sou tirado de meus pensamentos quando alguém entra na sala e pigarreia para chamar minha atenção.

— Volta, bate na porta e pede pra entrar porra. — Nem olho pra ver quem era, esses caras estavam cada vez mais folgados. — Que falta de respeito é essa?

— Foi mal, quer que eu te chame de senhor agora? — Era Chaz, um dos meus caras de confiança.

— Seria bom. 

— Quer que eu dê meu cu pra você também?! Vá se foder Justin. — Ele fala e se senta folgadamente na poltrona à minha frente. Se não fosse um dos meus amigos, já teria levado um tiro no meio da testa. E mesmo assim, minha paciência hoje não estava muito boa, talvez eu desse um soco na boca dele, caso ousasse ser mais folgado.

— Quais são as novidades? — Pergunto.

— Encontramos a localização do cara que você tava procurando. — ele diz. — O que vai fazer com ele? Parece ser um velho poderoso.

— Conversar apenas. — Uma boa conversa era melhor do que qualquer atitude precipitada — Avise aos outros que vamos sair essa noite.


Notas Finais


"Se, na verdade, a justiça é sabedoria e virtude, julgo que facilmente se demonstrará que é mais forte do que a injustiça, uma vez que a injustiça é ignorância." Frase do nosso queridíssimo Platão.


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