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História Desejo das Estrelas - Capítulo 28


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Capítulo 28 - Perdão.


Fanfic / Fanfiction Desejo das Estrelas - Capítulo 28 - Perdão.

Thranduil observava atentamente quando Amarïe recebeu Glorfindel no portão do palácio, no início ela parecia tímida, as mãos para trás das costas, um sorriso tímido e seus olhos constantemente contemplavam o chão enquanto conversava com o guerreiro. Mas logo o loiro lhe sorriu e deixou que ela apoiasse o braço sobre o dele, deixando seus corpos próximos, então eles entraram para dentro do palácio, parando quando o perceberam encarando-os.

- Bem, vamos esclarecer algumas coisas. – o rei disse conciso enquanto se aproximava do casal. – não vou causar problemas com a sua permanência, e nem com seu espaço da vida do meu filho. Mas em troca exijo que para de me tratar como um rival.

Amarïe umedeceu os lábios um pouco ansiosa enquanto observava a reação de Thranduil. Ele parecia se controlar, mas o brilho de impaciência ainda brilhava em seus orbitas.

- E como devemos nos tratar agora? – questionou Glorfindel desconfiado – não me diga, que como amigos?

O meio sorriso debochado de Thranduil mudou quase toda sua aparência, mas permaneceu com a mesma altivez enquanto os olhava, e com a voz nivelada e firme como o comando de um rei, disse:

- Vai me tratar como o que eu sou. O rei da Floresta das Trevas. – ele esperou até que o guerreiro fizesse uma mensura, então virou-se e saiu para retornar aos seus deveres.

Amarïe o observou partir um pouco confusa, ainda tentando entender se Thranduil realmente estava disposto a deixa-la partir de sua vida outra vez, mesmo dizendo que a amava muito. Estava tão distraída que não viu Glorfindel se mover, e apenas voltou a si quando os lábios úmidos foram pressionados contra os dela. A loira se afastou do guerreiro e tentou entender o que tinha acontecido.

- Eu deveria saber. – ele resmungou depois de um momento de silencio constrangedor. – você não me chamou aqui por que me ama, não é mesmo?

Ela suspirou e deu um passo para trás.

- Eu queria conversar, porque o modo como saiu de minha vida foi abruta, e ruim... – ela suspirou – queria acertar as coisas entre nós, por causa de Legolas.

- Vamos conversar em um lugar mais privado. – ele rangeu desgostoso enquanto a acompanhava.

Amarïe o instalou em um dos quartos de hospedes, e o deixou descansar. Só então, depois de jantarem, ela se sentiu inclinada e voltar no assunto que realmente a interessava.

- Glorfindel, eu gosto muito de você como um amigo, e agradeço os anos que se dedicou a mim e a meu filho, mas de coração, você sabe que eu tentei, mas não consegui me apaixonar por você. – ela confessou um pouco sem graça – nós tivemos momentos bonitos quando estávamos juntos, como amantes, mas eu não consigo sentir por você algo mais profundo, por tanto tempo tentei, mas para mim foi impossível.

O guerreiro olhou para suas mãos enquanto pensava, e por fim soltou um suspiro longo que demonstrou o quanto estava cansado.

- Você não está provocando ele com minha presença, não é? Eu não gosto de pensar que faço parte de algo assim. – ele disse suavemente – vocês dois erraram bastante, e já foi muito grave o fato, de você esconder dele a existência de Legolas, por quase um ano.

- Não estou provocando-o. Mas também não estou muito confiante em dar uma segunda chance. – ela mordeu os lábios – quero que ele me ame de verdade, e não que se aproxime de mim por se sentir culpado de tudo que aconteceu.

- Eu sei que ele a machucou muito, eu estava do seu lado, e vi seu sofrimento, mas causar dor a ele nesse momento tão delicado, também não é justo Amarïe.

Ela engoliu em seco e ficou pensando no que o guerreiro lhe tinha dito. Não era justo, mas era preciso. Não para testa-lo, mas para testar a si mesma.

- Obrigado por tudo que tem feito por mim, Glorfindel, gostaria que pudéssemos ser amigos, de agora em diante. – ela solicitou, esperando com desejo, que o loiro não decidisse se afastar.

- Eu vou tentar continuar sendo um ótimo padrinho para Legolas, mas não posso prometer nada. Ainda a amo muito Amarïe, e não me agrada a perspectiva que ficar olhando sua felicidade ao lado de outro ellon, sejam ele quem for.

**

Thranduil procurou evitar a companhia de Glorfindel e Amarïe durante uma semana, mas estava começando a ficar impossível inventar desculpas para não jantar com a família. Esta noite ele desceu para a sala de jantar, e sentou-se em sua cadeira como sempre fazia, sua mãe ao seu lado, então Amarïe e o guerreiro ao seu lado esquerdo.

A conversa fluiu suavemente sem nenhum problema. A risada de ambos o fazia um pouco mais miserável, mas tratou de comtemplar a felicidade deles, sabendo que não era merecedor. Um dia todo amor e toda alegria poderiam ter sido dele, mas foi ele que decidiu desistir de tudo isso, e nem sequer recordava o motivo.

- O que há de errado com a parte sul da floresta? – questionou Glorfindel, e demorou alguns segundos para o rei perceber que a pergunta se dirigia a ele.

- Não sei dizer a causa. Mas tudo está mudando a alguns anos, lentamente. – ele afirmou – a escuridão parece se aproximar cada vez mais.

- Dol Gundur? – o elfo questionou, Amarïe ficou quieta mas o olhava intensamente.

- A cabana dos meus pais? – ela questionou finalmente, e as lembranças invadiram a mente do rei.

A última noite em ela esteve em seus braços, e a maneira como fizeram amor. Podia sentir a suavidade de sua pele, o perfume suave, e a sensação delicioso de seus cabelos dourados, seus gemidos. Mas também lembrou-se do que ela havia dito a ele naquela última noite.

- Não pode voltar até aquela cabana, está destruída. – ele afirmou, e o rosto dela foi tingido de um rosa suave enquanto também se lembrava naquela noite.

Vê-la ruborizada só aumentou o desejo que surgiu com as lembranças, alimentando também o amor sufocado que mantinha no peito. Amarïe não voltou a olha-lo nos olhos, e assim o jantar foi um tanto silencioso. Meladriel fazia algumas observações, mas seus olhos verdes estavam fixos na costureira e o guerreiro.

- Nós, vamos nos retirar. – disse Amarïe – boa noite, majestades.

O casal fez uma pequena reverencia e então se foram, provavelmente namorar, ou checar Legolas. Thranduil tentou em vão continuar com seu jantar, o ciúmes começou a consumi-lo lentamente e por mais que dizia a si mesmo que tinha prometido não interferir, em seu corpo rastejava o desejo de roubar Amarïe para si.

- Não entendo o que se passa aqui. – resmungou Meladriel – mas seja o que for, não vou sorrir enquanto claramente vejo que está sofrendo.

Ele voltou os olhos pálidos para sua mãe, seus olhos verdes transmitiam uma singela irritação e magoa enquanto o observava.

- Se ela lhe quisesse, eu não faria nada para estragar isso, mas não é o caso, Thranduil. – ela ralhou – está na hora de você esquecer ela, e seguir em frente.

- Nana. – ele suspirou – isso é impossível, nunca amei ninguém com a força que amo a Amarïe. Mas não pretendo viver me flagelando pela eternidade.

Meladriel se levantou, colocando sua delicada mão ao redo do queixo e plantou lhe um beijo na têmpora.

- Eu o amo, meu pequeno menino. – ela sorriu – só estou tentando manter-te bem. Não aguento mais assisti-lo sofrer com essa angustia e esse amor.

- Entende que a culpa é minha? – ele sorriu – fiz minhas escolhas nana, e estou colhendo os resultados.

- Isso não diminui minha dor, anjinho. – Meladriel lhe beijou novamente – mas estou aqui ao seu lado. Faria tudo por você, íon nîn.

- Eu sei nada, também lhe amo muito. – Thranduil pegou a mão delicada e levou aos lábios para beija-la com adoração.

- Boa noite, querido.

- Boa noite, mãe. – Ele desejou, e a observou se retirar. Soltou um suspiro cansado antes de se retirar também.

**

Thranduil despertou durante a madrugada com a respiração um pouco acelerada. Demorou alguns instantes para sua mente reconhecer que estava deitado em sua cama, os lençóis limpos roçaram sua pele nua, sua mente ainda turva em relação ao sonho que estava tendo.

A noite estava fresca, e as janelas de sua sacada estavam parcialmente abertas, permitindo que o vento úmido da floresta enchesse o cômodo. Foi então que compreendeu o que o tinha despertado. Os risos de Glorfindel e Amarïe infiltravam por debaixo da porta, saturando seu quarto silencioso com a melodia cadenciada de seus regozijos.

Ele virou-se de lado, olhando para a parede onde ficava seu closet, o espelho pendurado na parede refletiu sua imagem, e o brilho da lua só fez acentuar o cansaço que brilhava em suas orbitas. Não se sentia melhor com o passar dos dias. O peso da perda de sua filha ainda o assombrava durante a noite, e a sensação de culpa se tornava muito mais apertada ao redor de seu coração. Ter Amarïe tão perto e ao mesmo tempo tão longe, não facilitava nada, apenas acentuava a sua culpa em todas os eventos que decorreram a morte prematura de sua criança, e o fazia lembrar com clareza o quanto desejou que a menina não existisse por causa do amor que sentia nutria pela loira.

Era merecido o que sentia agora. Toda a culpa e dor. Ele desejou isso. Desejou que Amarïe não o amasse, desejou que Thawel morresse e se retirasse de uma vez de sua vida, desejou que sua filha não existisse. Desejou governar Mirkwood sem ter uma rainha lhe perturbando constantemente.

Todos os seus desejos foram realizados, e agora podia entender o quão arrogante, mesquinho, cruel e estupido tinha sido desejar essas coisas, mas agora era tarde para lamentar. Nunca teria nada disso de volta, principalmente sua pequena filha. Vê-la morrer em seus braços foi o pior de tudo. Era inocente, frágil, não tinha forças, e estava condenada à morte desde de o momento de seu nascimento. Não adiantou que ele rogasse aos Valars, não adiantou se humilhar e implorar, eles a tinham levado.

Thranduil levantou-se e vestiu uma calça de dormir, então procurou em seus pertences a manta a qual tinha embrulhado sua filha, e sentou-se diante da lareira fria, onde tinha sentado com o bebe em seus braços. Tinha consciência que essa perda era para puni-lo por tudo que tinha feito, e que apesar de tudo ainda tinha Legolas, seu primeiro filho, ao qual amava muito. Mas era difícil não se sentir infeliz e incompleto sabendo que lhe haviam tirado um filho de uma forma tão fria.

Seu coração se apertou ao comtemplar a única coisa que fez aos seus dois filhos, foi faze-los sofrer desde de o primeiro sobro ao mundo. Oropher estaria envergonhado de suas atitudes, e lhe gritaria isso no rosto se ainda estivesse vivo.

- Thranduil? Você está bem? – ele escutou a voz doce de Amarïe lhe chamar. Tentou em vão ocultar o estava fazendo, abaixou o manto para descansar em suas coxas, e se inclinou para que o cabelo ocultasse suas lagrimas.

- Estou. – ele disse brandamente – não tem carvão para acender a lareira, e ainda não decidi se realmente quero pedir a algum criado a essa hora na noite.

Ela não se aproximou, mas ele podia sentir como queimava sua pele em cada ponto de seu corpo que seu olhar se fixava.

- Glorfindel pode colocar um pouco de carvão e madeira virgem da minha lareira na sua. – ela sugeriu finalmente dando um passo em sua direção.

- Não tem necessidade, volte ao seus aposentos. – ele tentou detê-la de se aproximar fazendo um gesto de desdém com as mãos, olhando-a por de baixo do cabelo por um instante antes de se voltar para o outro lado.

- Fomos nós que o despertamos, não foi? – ela parecia um pouco angustiada enquanto o questionada. Provavelmente com medo de que sua alegria, o feriria.

- Não. – ele se levantou sem se virar para olha-la se dirigiu para a cama. – tive um pesadelo.

- Não temos pesadelos. – ela afirmou – elfos não sonham com sonhos inventados, geralmente com lembranças muito vividas.

Thranduil quase riu de desgosto. Mas se deitou em sua cama e comtemplou o teto do dossel. Não tinha a necessidade de que explicasse isso, mas queria imensamente que ela partisse, mas a loira fez justamente o contrário, se aproximando da cama.

- Sonhou com aquele dia? – ela sussurrou – com o falecimento de sua filha.

- Sim. – ele confessou derrotado, e pôs o braço dobrado sobre o rosto, tratando de ocultar as lagrimas que já se acumulavam.

- Você nunca me disse o que ocorreu. Nunca falou com ninguém, talvez seja mais fácil se compartilhar o quanto te angustia essa perda.  – ela suspirou e sentou ao lado, observando o peito nu se mover com cada respiração.

O braço de músculos firmes e pele suave ocultava quase todo seu rosto, deixando apenas os lábios perfeitamente desenhados a mostra, avermelhados pelo efeito do choro. Amarïe tentou não pensar no quão bonitos e arqueados eram seus lábios, nem que o inferior era mais cheio que o superior, nem no fato de serem deleitáveis, e muito menos queria pensar no quão bem ousados são.

- Eu não sei. – ele suspirou com pesar – não gosto de lembrar desse dia.

- Mas sonhou com ele, então me conte e alivie um pouco sua carga...prometo não fazer comentários. – ela sorriu mesmo que ele não pudesse lhe ver. Seu desejo era deixa-lo um pouco mais livre de toda a culpa que visivelmente o assolava.

Depois de algumas respirações profundas, ele começou a falar com a voz firme, mas baixa em quase um singelo sussurro.

- Ela era tão pequena, um pouco maior que a palma da minha mão, tinha alguns fios bem dourados em sua cabeça. Estava tão fria, e ficou pior quando as parteiras a lavaram. Quando Thawel começou a sangrar...as enfermeiras se afastaram, e deixaram a menina ali sozinha. Ninguém olhou para ela mais do que duas vezes.

- Mais você a olhou. – ela afirmou, enquanto observava o rei levar a outra mão para o rosto, quase parecendo ter a intenção de se sufocar.

- A olhei horrorizado. – sua voz adquiriu um pouco de ódio – fiquei incrivelmente absorto quando percebi que era minha. Thawel não estava me enganando, a criança era minha, e percebi o terrível erro que cometi.

- Thranduil...

- As parteiras disseram que ela ia morrer. – ele a interrompeu – “muito pequena, não vai durar uma noite”. Foi o que disseram. Então eu a peguei e a trouxe para o quarto. Estava chorando muito, e muito gelada. Sentei em frente a lareira para que pudesse se aquecer, com o fogo e o calor do meu corpo.

- Imagino que tenha se assustado. – ela sussurrou – também me assustei durante o parto de Legolas, nasceu e não chorou por uns quantos minutos aterradores. Achei que morreria com ele.

Thranduil tirou os braços do rosto e a olhou com seus olhos aquosos, que tinha um brilho muito frio e desolador. Por um minuto ela pensou quem era aquele elfo com quem ela estava conversando. Com certeza não era o mesmo do jantar, nem o mesmo que esteve com Legolas um pouco antes de dormir.

- Os Valars não poderiam cometer essa injustiça com você. Seria muito cruel, até mesmo para eles. – então ele voltou os olhos para o dossel da cama.

- Não foi sua culpa. Entende não, é? A gravidez é muito complicada.

- Não entende Amarïe. – ele se levantou – por todos esses meses desejei que essa criança não fosse minha, que não existisse. Desejei tanto. Ela não tinha culpa dos meus erros, mas pagou por todos eles.

- Thranduil... – ela tentou toca-lo, mas ele se afastou levantando-se para encara-la.

– Estava condenada desde de o minuto em que nasceu, e não sabe o quanto me doeu assistir isso. Morreu um pouco depois de abrir os olhos e olhar pra mim.

O rei estava de frente para o espelho comtemplando o próprio reflexo, um brilho de ódio e dor ainda estampado em seus olhos, sua mão apoiada da superfície fria do vidro.

- Tinha os olhos do meu pai. – sua voz saiu fraca, enquanto levava os dedos para esfregar as sobrancelhas e consequentemente os próprios olhos.

- Por que não diz que tinha seus olhos? Você tem os olhos do seu pai. – ela sussurrou. – não pode mudar o que aconteceu. Não é sua culpa, nunca foi. Não tem o poder de determinar quem nasce e quem morre. Claro que foi muito errado não desejar essa criança, a culpa nunca foi dela, e sim sua e de Thawel, mas isso não faz de vocês responsáveis pela fragilidade com que nasceu.

Thranduil deu um soco em seu reflexo quebrando o espelho e cortando seus dedos, o sangue vermelho e grosso escorrei por entre os dedos e até alcançar o cotovelo. O som fez Amarïe se sobressaltar, sua mente em turbilhão enquanto não entendia o que tinha dito para desencadear essa reação.

A costureira se levantou, e se aproximou, desejando toca-lo e lhe dar um pouco de consolo, mas não se atreveu a se aproximar muito.

- Você não podia fazer nada. – ela sussurrou – Thranduil, você…tem que aceitar que é limitado como todos os outros seres. A vida dela não dependia de você.

O rei se sentou na beirada da cama, ela se aproximou dele, agachando-se diante de seus joelhos, e pegou a mão ensanguentada. Os olhos pálidos dele estavam translúcidos com emoções fortes que rondavam sua mente complicada. Amarïe sentiu o próprio peito se apertar enquanto limpava o corte, o rei permaneceu quieto preso em sua própria mente. Ela sabia que não deveria perdoa-lo e beija-lo simplesmente porque sentia pena, mas era custoso não poder abraça-lo e consola-lo de sua dor, tal como ele tinha feito com ela no jardim, quando ainda sofria pela rompimento do noivado.

- Eu sinto muito que pense tão pouco de si mesmo. – ela sussurrou e lhe segurou o rosto, beijando o topo de sua cabeça. Se via tão fragilizado que era aterrador deixa-lo sozinho.

- Amarïe? - Glorfindel questionou entrando nos aposentos pela porta adjacente – ouvi um barulho. Vocês estão bem?

- Sim, não é nada. – ela se apressou a se afastar do rei, segurou a mão do guerreiro loiro e o tirou dali as presas.

Thranduil deitou na cama se sentindo mais cansado, agradecido que Amarïe tinha tirado seu amante dali, ou ele seria capaz de voltar a duelar contra o intrometido. Pelo menos por um tempo pode deixar sua raiva e sua frustração livre, lhe banhando o rosto em forma de lagrimas quentes.

**

Glorfindel esperou atentamente enquanto um dos guardas que estavam parados diante da porta da sala de estudos do rei. Ouviu a permissão para deixa-lo entrar, e tão logo estava diante do rei, que estava sentado atrás de uma enorme mesa de mogno, em uma cadeira que imitava a um trono, mas menor. Os olhos pálidos nem se quer se levantaram para notar sua presença, ele fez um gesto com as mãos para conduzi-lo a falar. O guerreiro apertou a mandíbula sentindo vontade de lhe espetar, mas conteve sua fúria.

- Deve ser muito importante para querer toda minha atenção. – o rei finalmente cedeu, largando sua pena e descansando as costas contra a cadeira.

- Se trata de Amarïe. – ele respondeu e observou como os olhos pálidos ficavam turvos com uma fúria que ele nem se quer fez questão de esconder.

- Não vai seguir adiante com o casamento? Você a desonrou.

- Não mais que você, majestade. – o guerreiro triturou os dentes em vão esperança de não dar rédea solta a sua violência como tinha feito durante o duelo.

- Eu espero imensamente que não esteja aqui com o propósito de me tirar a paciência. – ameaçou o rei – você nunca me viu irado, e te asseguro que não sobreviveria para contar a outros o que presenciou.

Glorfindel respirou fundo para reunir coragem e uma dignidade que custariam seu coração. Sustentando o olhar desaprovador e ameaçador do rei, ele continuou com que tinha planejado fazer.

- Vou voltar para Rivendell hoje. Não tenho nada que fazer aqui, e me sinto um joguete entre vocês. – quando terminou de falar o rei já estava em pé em toda sua estatura, tirando a única coisa que os separava com as mãos.

- O que pensa está fazendo? Não vê que Amarïe precisa de você? – o Teleri chiou, apesar de sua postura calma e o controle que tinha sobre suas emoções, podia-se ver que estava por um fio.

- Ela não ama a mim, nunca amou, e nem se quer casar comigo.

- Ela precisa de sua segurança. – ralhou o rei cada vez mais impaciente.

- Não! Droga! – Glorfindel explodiu – Ela ama a você! E tem medo de que você não a ame o suficiente, como não amou para fazer dela sua esposa!

Thranduil ficou em silêncio enquanto o analisava, tentando entender o quanto disso era verdade. Precisou de dois minutos para o guerreiro se acalmar, nos quais ele pode pensar antes de dizer:

- Esteve com ela em seu quarto por várias noites.

- Não fazíamos nada, além de brincar com Legolas, e conversar. Sempre fomos muito bons amigos. – Glorfindel apertou os dentes – condenados bons amigos. Mas não passou disso, me chamou para pedir perdão e reatar nossa amizade, mas também porque queria testar você, o quão bem levaria isso, e o quanto de ciúme poderia suportar.

Thranduil franziu o cenho ao pensar nisso, não era uma coisa típica da personalidade de Amarïe provocar ciúmes, ou desencarregar qualquer tipo de briga e violência. Era uma pacifista adepta.

- Não acredito.

- Você a fez sofrer muito quando a deixou! Ela esqueceu como é bom amar e ser amado, agora o amor para ela significa crises de desconfiança. Não consegue acreditar que a amem, muito menos que você a ame. – ele acusou ressentido. Se tivesse conhecido Amarïe antes, ela nunca teria sofrido, e eles seriam imensamente felizes.

- E por que está? – o rei questionou levantando uma sobrancelha, agora o desconforto e irritação se sobressaindo a sua pose de dominador.

- Me importo com ela. A amo mais do que gostaria de admitir, e lhe desejo somente o melhor…a felicidade, mesmo que essa “felicidade” só possa ser provida por alguém como você. – carregou de ódio sua última palavra para deixar claro o que pensava do “pomposo rei de Mirkwood”.

- Estou perdendo a paciência, trata-se de se recordar que eu sou um rei. – o Teleri rosnou indignado – mal posso suportar que esteja na minha casa, com meu filho e com a mulher que eu desejo, desdenhar de quem eu sou, pode ser muito perigoso pra você, Glorfindel.

- Aran nîn. Perdoe-me. – disse o guarda quando os interrompeu. – senhora Nera deseja uma audiência.

Antes mesmo do rei autorizar, Nera invadiu o cômodo, correndo para abraça-lo. Por um momento ficaram os dois abraçados sem dizer nenhuma palavra, a donzela com o rosto moreno enterrado em seu peito, enquanto o rei descansava o queixo no topo de seus cabelos negros. Glorfindel teve que reter uma maldição. Como o condenado ogro tinha tantas mulheres bonitas ao seu redor? Desgraçado ainda era um rei, e um dos elfos mais galantes que conheceu.

- Como chegou aqui, pequena? – Thranduil questionou afastando sua ex-noiva, ela deu de ombros e se virou para enfrentar Glorfindel.

- Você é o noivo de Amarïe? Aquele que fingiu ser o pai de Legolas por quase dois anos completos? – a pequena questionou parecendo muito irritada, seus olhos amendoados cheio de ódio, enquanto seus punhos estavam crispados em fúria contida.

- Eu não sou noivo de Amarïe. – ele explicou – tão pouco fingi ser pai de Legolas. Eu fui um autêntico pai para ele, e ainda sou. Serei seu padrinho enquanto a mãe dele permitir.

- Está prestes a dar-lhe um soco, não Thrandy? – ela se moveu – deixe-me que faça isso por você!

- Ei, Nera. – Thranduil a impediu segurando-a pelo braço – não há necessidade disso, ele me irritou, mas não é nada diferente do que passo com a corte.

- Tem uma donzela de cão de guarda? – provocou Glorfindel sem nem mesmo tirar os olhos da pequena tirana a sua frente.

- Em hipótese nenhuma ofenda, Nera. – ameaçou o rei – posso ter permitido algumas coisas a você, em consideração ao meu filho. Mas se insulta-la novamente, pagará muito caro por sua insolência.

- Agora entendo porque Amarïe morria de ciúmes dela. O que há entre vocês?!

- Nada que lhe interesse! – cuspiu Nera, levantando uma mão para lhe ameaçar, e ele pode ver o anel de casamento em seu dedo anelar.

- Eu e Nera sempre fomos assim, Amarïe sabe tudo sobre ela. E eu não vou explicar nada a você. – rosnou o rei – aconselho que há deixe em paz. Ela tem um ódio muito particular a todos os elfos Teleri.

- Menos a você, suponho.

- Menos a mim. – o rei rosnou – outro motivo que não te importar saber, sendo que a própria Amarïe sabe muito bem. O que aconteceu entre mim e Nera é de conhecimento público em Mirkwood, mas não interessa a estrangeiros. Acho melhor que parta de uma vez.

- Eu realmente espero que a trate bem dessa vez, porque se a magoar. – Glorfindel ameaçou – não sei do que seria capaz.

Então o guerreiro não esperou uma réplica, apenas se afastou, consciente de que seu coração sofreria por ter perdido essa batalha de amor para o rei.

**

Thranduil sentou-se na mesa de jantar exausto. A conversa com o amante de Amarïe, só o fez confuso e muito, muito condenado. Sua mãe e Nera sentaram-se ao seu lado, e um pouco tarde Amarïe se aproximou.

- Nera. – ela disse um tanto surpresa – não esperava que visitasse o rei tão cedo.

Sem fazer caso do tom desconfortável da loira, Nera se inclinou e começou a comentar o que viu na estrada, e como foi sua viagem.

- Thranduil convidou eu e meu marido para morar e trabalhar aqui no palácio. – ela sorriu animada, lançando lhe um olhar de felicidade. O humor de Amarïe pareceu se fechar.

- Tudo que nós precisávamos era um pouco da sua alegria, Nera, aqui as coisas tem estado aborrecidas. – sorriu Meladriel, enquanto desfrutava de uma taça de vinho.

- Sua alegria sempre muda os ares, e faz um condenável tempo que não discuto com alguém com a teimosia semelhante a minha. – Thranduil suspirou, Nera era um balsamo ao seu espírito com certeza, sempre soube como ajuda-lo em seus tormentos.

Amarïe não conseguiu controlar o constrangimento. Lembrou-se de quando Nera e Thranduil discutiam nos corredores, fazendo um alarde aos funcionários, e logo depois se atracavam em um beijo muito indecoroso e sensual. Sempre tinha presenciado essas cenas quando era uma simples ajudante de costura, e foi difícil não ser uma boba apaixonada desejando algo semelhante ao que eles tinham. Os ciúmes que sempre sentiu em relação a outra começou a formigar sob sua pele, a intimidade, a amizade e parceria que Nera tinha com ele, ela nunca conseguiu alcançar.

- Acho que vou me deitar. – ela se levantou – peço desculpas majestades, sr. Nera.

- Vá descansar querida. – sorriu Meladriel com ternura – a partida de Glorfindel deve ter sido muito exaustiva.

- Sim, como sempre me resulta difícil vê-lo partir. – ela suspirou, mas não pode deixar de perceber como Nera ficou nervosa.

- Não gosto daquele tipo. – ela franziu o cenho, Thranduil soltou uma risada abafada e a beliscou no rosto.

- É uma elleth muito possessiva, carinho. – ele zombou – não tem porque detesta-lo, afinal não se passou nada.

- O que quer dizer? – Amarïe questionou, mais do que incomodada com o tratamento amável que o rei dava a sua ex-noiva casada.

- Quando cheguei, seu guerreiro estava faltando com o respeito ao Thrandy, tive que fazer alguma coisa. – ela ralhou – como pode deixa-lo desrespeita-lo daquele jeito? Tudo bem que foram rivais pelo amor de Amarïe, mas você ainda é o rei. Pelo menos isso ele deveria respeitar.

- Expulsou-o? – a costureira questionou angustiada, Glorfindel tinha decido partir de última hora, e isso a tinha deixado confusa.

- Não. Já estava de partida quando foi me ofender. – o rei franziu o cenho – mas não foi nada, você sempre presenciou nossos tratos, Amarïe, sabe como ele é, mais do que qualquer um de nós.

Ela concordou, mas Nera estalou os lábios em desaprovação, mas logo mudou a conversa para outro tema. Aproveitando-se disso, Amarïe se retirou, nervosa e ciumenta.

**

Amarïe estava cansada, mas não conseguia dormir. Legolas estava deitado ao seu lado, seus lábios ao redor do polegar enquanto descansava profundamente na terra dos sonhos.

Mesmo assim ela não conseguia encontrar a tranquilidade, algo dentro dela dizia que a partir dessa noite, as coisas ficariam muito definidas em relação a Thranduil. Mas ela não sabia o   que seria, ou como seria. Seu coração batia freneticamente, seus pensamentos correndo de um lado para o outro, a angustia e ansiedade apertando seu estômago.

Nos aposentos de Thranduil ainda havia luz das chamas das velas acessas, e um suave murmúrio. Ele estava acordado, seu coração se agitou um pouco mais, e ela pensou na noite em que o encontrou sofrendo pela morte de sua filha, ela tinha sentido uma inquietação que a fez ter vontade conferi-lo naquele dia.  Hoje poderia estar passando pelo mesmo. Com isso na cabeça ela vestiu o robe e entrou nos aposentos sem bater, mas o que encontrou, não era bem o que imaginava que seria, por mais que sua cabeça tivesse previsto isso, seu coração o recebeu como a um golpe.

Nera estava escovando os cabelos dourados do rei, enquanto ele a olhava através do reflexo do espelho. Seriam um bonito casal, se não tivessem rompido, Thranduil era um Teleri de sangue puro, suas maças do rosto alta, olhos de um azul pálido quase translúcidos, e cabelos longos e dourados com algumas mechas mais prateadas, Nera era a mais linda elleth silvestre que tinha visto, pele bronzeada, cabelos volumosos e ondulados de cor castanho como a casca das árvores, olhos grandes de uma cor castanho acinzentada, cílios longos e lábios cheios e arqueados. Os dois pareciam sérios, e um pouco estranhos, como se discutissem, apesar da maneira carinhosa e intima com que a ex-noiva penteava os cabelos dele.

Como se a pressentisse, os olhos pálidos de Thranduil se focaram nela através do reflexo, presa nesse instante, ela esqueceu o que tinha vindo fazer, e o que esperava da noite.

- Amarïe. – ele chamou, Nera se voltou para contempla-la e sorriu suavemente.

- Boa noite, atrapalhamos seu sono? – questionou a ex-noiva deixando a escova e passando uma mão sobre os cabelos dele para alinha-los atrás das costas.

- Não. Eu não conseguia dormir. – ela mordeu os lábios sem saber o que dizer. Confessar que estava preocupada com o que aconteceria com o relacionamento dela com o rei não era uma opção.

- Entre. – convidou Nera soltando um bocejo fingido, o que a fez ganhar um olhar mortal do rei. – eu vou me deitar, estou muito cansada.

Amarïe ficou em silêncio enquanto a outra se afastava, dando um beijo rápido em Thranduil e desejando boa noite. A costureira tentou não sentir ciúmes, mas era impossível, seus olhos arderam com as lagrimas. Naquele momento se deu conta de que nunca conseguiria vê-lo com outra mulher, deixa-lo ser livre para ter outra. Foi muito difícil morar em Mirkwood nos últimos meses e presenciar o relacionamento dele com Thawel, mas se ele chegasse a amar outra mulher, ela desmoronaria.

- Qual o problema, Amarïe? – ele questionou enquanto se levantava para estar diante dela.

- Sinceramente, não sei. – ela respirou cansada por segurar as lagrimas, cansada de tentar compreender seu coração.

Ele se aproximou mais, forçando-a a erguer o rosto para encara-lo, seus olhos brilhavam sem maneira nenhuma de ocultar seus sentimentos. Thranduil pensou que nunca teria o amor dela novamente, mas depois do que disse Glorfindel, e a mudança de humor que sofreu depois que viu Nera, tinha quase certeza de que ela o queria, tanto quanto ele desejava a ela.

- Quer saber o assunto na minha conversa com Glorfindel? – ele questionou suavemente, ela inspirou o ar com dificuldade e concordou.

- Me manteve preocupada. Não sabia que ele iria partir. – ela sussurrou e mordeu os lábios preocupada.

- Ele me contou que você não queria se casar com ele, que pretendia apenas me reatar sua amizade. Também me confessou que você me ama, mas não consegue acreditar no amor que tenho por você.

Amarïe mordeu a língua para não soltar uma maldição. Deveria saber que Glorfindel iria lhe dedurar. Mas ela tinha que admitir que apesar de muito incomodado, Thranduil não tinha reclamado nem procurado briga com o guerreiro. Perdida em pensamentos, só notou a aproximação dele, quando o rei segurou seu queixo e a forçou a olhar para ele.

- Ele estava falando a verdade, Amarïe? – ele sussurrou. Sua voz falhou enquanto estava presa na intensidade de seu olhar.

Ela poderia dizer que sim, mas isso os colocava em uma nova posição. Teria forças para nega-lo mais uma vez? Seu coração pulsou ferozmente, seu mente correndo de um lado para o outro, não sabendo interpretar o que seu coração realmente queria.

- Não podemos continuar assim. – declarou o rei – não vou aguentar estar do seu lado, sabendo que me deseja, e eu não posso chegar perto. Se quer me manter afastado, tem que me negar. Diga que não me quer.

Amarïe suspirou tentando em vão reter suas lagrimas. Ela sabia que tinha que tomar uma decisão, mas não esperava que fosse tão cedo, e tão definitivo.

- Me ama o suficiente para me deixar ir? – ele questionou suavemente – eu tenho certeza que posso me controlar. Mas será doloroso como inferno ver você a amar a outro que não seja a mim. Você já se perguntou se está preparada, se a situação se inverter?

Não. Ela não tinha se perguntado, porque não tinha pensado nisso, tinha se agarrado firmemente na declaração de amor que tinha feito a ela naquela noite, antes de anunciar que Thawel esperava um bebê.

- Eu amo você, Lissë, sempre amei. Fui muito mais que um tolo quando rompi nosso noivado. Eu estraguei nossas vidas. – ele confessou, fazendo-a abrir os olhos para encara-lo.

Seus olhos azuis transmitiam o arrependimento e o amor ardente que ainda ferviam por debaixo de sua pele, dentro do seu coração. Ela desejou poder obter todas essas promessas e desejos, mas sua decisão pesava sobre todas as magoas. Seus olhos azuis encheram-se de lagrimas, mas ele recusou deixa-las cair, enquanto abria seu coração tanto quanto era possível.

- Se você puder me aceitar, Amarïe, eu passarei o resto da minha vida eterna me redimindo com você, e demostrando o quanto realmente a amo, e quanto você é dona do meu coração e daminha alma. – ele sussurrou com a voz embargada – tudo que eu preciso é de você, do seu amor. Não me importarei de ter que provar todos os dias o quão verdadeiros sãos meus sentimentos. Eu abria meu coração para você todas as noites, mas se você não puder...se você não quiser. Eu vou remove-lo do peito, e impedir que o que eu sinto a afaste de mim ainda mais.

Amarïe não soube o que responder, as lagrimas já queimavam sua pele, o desespero apertava seu coração, e o amor que tanto tentou sufocar vibrava com mais intensidade a cada palavra dita por ele. Então Thramduil a tocou, colocando as mãos em seu rosto, a obrigando a olha-lo nos olhos. Seu toque lançou uma onda de esperança por todo seu corpo, até os dedos dos pés, desejou um beijo e muito mais, desejou tê-lo em sua vida e poder chama-lo de marido, mas não sabia o que a impedia de dizer isso, de agarra-lo e ordenar que ele se entregue a ela, da mesma forma que ela tinha lhe entregado o coração.

- Eu sei que tem medo de mim. – Thranduil respirou – prometo que se um dia, eu tentar afasta-la de mim outra vez, e fazer-te sofrer como fiz, eu mesmo enterrarei uma lâmina no meu negro coração. Mas quero lhe garantir, que de todas as coisas ruins que eu tenho, e de todas as vezes que eu menti pra você. A única coisa que eu não fiz, foi mentir sobre o que sinto. Eu sempre verdadeiramente amei você, de corpo e alma.

- Realmente me ama? – ela questionou ainda insegura, mesmo olhando para seus olhos e podendo ver seus sentimentos refletidos, sua alma e sua própria insegurança.

- Todas as vezes que eu a afastei, eu chorei. – ele pegou a mão dela e descansou sobre o seu peito. Afastando um pouco o tecido do robe para revelar a pele quente, e fez sua palma descansar em cima de seu coração.

Seu órgão batia freneticamente em um ritmo que não era normal, podia sentir a pulsação contra sua própria pele, quase podia sentir o sangue rugindo em suas veias.

- Aquele dia que a encontrei no jardim chorando, quando disse que sentia saudades de mim. Quebrou o meu coração ter que afasta-la – ele sussurrou – naquela noite em que fizemos amor pela última vez, na caba de seus pais. Eu não consegui dormir um segundo, eu chorei a noite toda ao seu lado, me perguntou porque eu tinha deixado você sair da minha vida. Naquela noite, eu me arrependi amargamente do que tinha feito, eu tinha finalmente noção do quanto tinha desgraçado minha vida. Eu perdi a minha alma e meu coração ali, nunca mais pude ser o mesmo.

Ela observou Thranduil fechar os olhos por alguns segundos, limpando a garganta para manter a voz firme, seu coração ainda batia freneticamente, enquanto lagrimas cintilantes corriam por seu rosto que já não escondiam mais suas tristezas e amarguras.

- O dia em que eu a vi partir para Rivendell, eu desejei morrer. Desejei que alguém tirasse minha vida, porque já não valia mais a pena continuar, se eu não pudesse respirar o mesmo ar que você.

- Então por que não foi atrás de mim?! Por que nenhuma vez foi atrás de mim, Thranduil? – Amarïe rosnou, afundando as pontas de suas unhas na pele macia que no mesmo instante se avermelhou. O rei abriu os olhos para encara-la, sua dor mais real e visível.

- Por que eu acreditei que tudo que sentia era uma debilidade, uma fraqueza. Eu acreditei que era como meu pai, manipulável, que me deixaria enganar por qualquer elleth graciosa que enganasse meu coração. – ele sorri tristemente – Oropher amava muito a minha mãe, ele respirava por causa dela, vivia somente por causa dela e se ela não fosse minha mãe, duvido que me amaria da maneira como me amou.

- Mas ela é sua mãe, e se ele a amava assim, não era um pecado ou uma debilidade. – ela rosnou, ainda sem aceitar as palavras dele. O rei deslizou uma mão sobre o rosto dela, enxugando suas lagrimas.

- Ele fazia tudo por ela. Todas as coisas. E um dia, quando ela decidiu que não daria nenhum filho mais a ele, ele ficou estranho, principalmente comigo. Eu pensei que tinha sido um filho ruim, por isso ela não queria outro. – ele riu sem graça – eu já era um adulto, mas ainda era tão acessível e vulnerável sentimentalmente, que até um olhar mais duro dos meus pais me fazia desmoronar.

- Não consigo imagina-lo assim. – ela sussurrou, e Thranduil sorriu.

- Nem sempre eu tive um coração negro. – então continuou – Oropher quis morrer quando ela foi embora de casa. Ele ficou tão vulnerável e inútil como um bebê recém-nascido. Foi então que eu assumi as responsabilidades dele, em relação ao reino. Isso me deixou um pouco mais confiante em mim mesmo, mas meu pai ficou ainda pior com o meu bom desempenho. Ele tinha tentado se matar algumas vezes depois disso.

- Valar. – ela franziu o cenho – eu não me lembro dessas coisas. Me lembro de quando começou a trabalhar no palácio, minha mãe sempre dizia coisas sobre você. Eu sinto muito que tenha que ter visto seu pai assim, e por causa de sua mãe. Deveria ter isso horrível.

- Foi muito pior. – ele balançou a cabeça – a mãe de Thawel entrou em nossas vidas nesse momento, e se tornou amante dele. Meu pai tinha a mesma devoção doentia por ela, que teve por minha mãe.

- Eu não...com a mãe de Thawel? Sua mãe sabe disso?

- Ela tem uma desconfiança, mas me pediu para que eu não dissesse nada, porque ela não queria saber. Está feliz em pensar que meu pai sempre foi digno de seu amor e confiança.

- Eu não entendo. Ela ficou sabendo quando voltou para Mirkwood? Seu pai não rompeu com a mãe de Thawel?

- Ele não conseguiu. Oropher implorou para que minha mãe voltasse para ele, toda semana mandava uma carta a minha mãe, cheia de suplicas e promessas, de amor e uma devoção infinita. E ao mesmo tempo estava com Thawel, fazendo exatamente o mesmo. Ele tinha uma devoção sentimental horrível.

- Estava enganando as duas?

- Enganando não. Nunca enganou. Ele verdadeiramente sentia todas essas coisas, era louco pelas duas, e não poderia viver sem uma delas. Toda vez que eu o confrontava, ele adoecia, se dizia fraco, que as amava e não sabia o que fazer. Não poderia viver se tivesse que escolher uma ou outra.

- E o que ele fez? Quando sua mãe voltou?

- Não é óbvio? – ele riu amargurado – para resolver seus problemas, ele correu liderando um exército para a morte certa. Preferiu morrer como um guerreiro, do que enfrentar o que o esperava em casa.

- Eu sinto muito, você carregou esse problema sozinho por todo esse tempo? – ela questionou se aproximando um pouco mais para descansara o rosto contra seu peito, seu coração ainda batia velozmente.

- De certa forma. Então eu decidi que nunca seria como ele, nunca amaria uma mulher de forma tão dependente, nunca me submeteria a essas coisas. Por isso meu noivado com Nera foi tão bom, nós dois sabíamos que nunca nós amaríamos profundamente, um trato de amigos seria o suficientemente bom. Mas então ela se apaixonou por outro, e eu tive que deixa-la partir.

- E você pensou que uma costureira como eu, nunca poderia despertar o amor em você? – ela questionou tentando manter a dor em seu peito de fora.

- Não. Eu quis você, porque você parecia tão inocente e meiga, que nunca se daria conta de que eu não amava de verdade.

- Você é um ordinário sabia? – ela enriqueceu, sentindo a dor voltar a superfície – e quando se deu conta de que me “amava com loucura” decidiu que não poderia estar ao meu lado?

Thranduil segurou a parte de trás de seu pescoço e forçou a olhar para ele. Seus olhos brilhavam ainda aquosos.

- Quando eu percebi que estava louco para agir como meu pai em relação a você, fiquei com muito medo. – ele sussurrou – eu não sabia mais fazer outra coisa, a não ser pensar em você, desejar que o dia acabasse, contar os segundos para que pudéssemos estar juntos, quando eu percebei que até mesmo inconscientemente estava fazendo todas suas vontades. Quando eu esperava uma ordem sua, como um cachorro ansioso. Fiquei com medo de que você fosse minha debilidade, fiquei com medo com a intensidade que eu desejava e precisava de você. Fiquei com medo da direção dos meus pensamentos quando se afastou de mim. Decidi romper nosso noivado quando cheguei conclusão de que eu era exatamente como meu pai, e eu não queria acabar como ele.

- Mas eu amava você! Eu amo você! – Amarïe gritou e gravou as unhas um pouco mais na pele suave.

- Minha mãe sempre amou meu pai, e Thawel também o queria muito. – ele sussurrou – o perigo não está no amor, e sim no que nós somos capazes de fazer em nome dele.

- Por que não me contou? Eu faria qualquer coisa...

- Eu também amo muito a você, e em nenhum momento me passou pela cabeça o tamanho da dor que eu estava causando a nos dois. Eu fui egoísta e estupido. – ele implorou – perdoe-me, Amarïe, perdoe-me por ser o pior homem do mundo, por deixa-la quando eu a necessitava tanto, por feri-la quando tudo o que eu queria era estar em seus braços.

Amarïe o abraçou, envolvendo a cintura com seus braços, e enterrando o rosto na curva de seu pescoço, sentindo como pulsava sua veia. Suas lagrimas se misturaram as dele, enquanto se seguravam nos braços. Ela poderia perdoa-lo, ou deixa-lo a mercê de seus próprios sentimentos.  Mas então ela pensou em Oropher, que estava em tanta dúvida com seus próprios sentimentos, que ao invés de confronta-los, ele tinha preferido fugir, deixando duas mulheres que o amavam e seu filho para trás, sua decisão impensada deixou um rastro de dor e desilusão não somente em sua família, como em tantas outras em Mirkwood que perderam os seus ao lado dele naquele dia.

Ela não queria ser como Oropher, ela não queria ser como Thranduil. Ela sempre assumiu seus sentimentos, seus problemas e seus defeitos. E por mais que Thranduil tivesse magoado, ele queria uma segunda chance, e ter ele de volta era tudo que seu coração mais ansiava.

- Eu o perdoo-o por tudo que me causou. – ela sussurrou contra a pele de seu pescoço. – eu perdoo pro ter medo e por fugir de nós dois. E eu o amo tanto, e aceito que você passa o resto de sua vida imortal se dedicando somente a mim, de corpo e alma.

Amarïe se afastou para admirar o olhar surpreso e aliviado que o tinha estampado em seu rosto úmido. Ela segurou seu rosto puxando-o para si.

- Eu quero exigir apenas uma coisa. – ela lambeu os lábios – quero que você permita-se me amar da maneira mais profunda que possa, e eu prometo que vou segura-lo e nunca vou deixa-lo partir, prometo lhe amar com a mesma intensidade e ser devota a você, o tanto quanto você se devotar a mim.

- Amarïe... – ele sussurrou um pouco incrédulo. Mas ela o puxou para um beijo, deixando que seu corpo demonstrasse quanto o necessitava, e o quanto o amava.

Thranduil se sentiu inundado com as palavras dela, seu coração finalmente sentisse completo, e sua alma aquecida com o mais delicioso balsamo. O sentimento era tão gostoso quanto luxuriante, possuindo cada centímetro de seu raciocínio, os dias de dor e solidão pareciam se desvanecer diante do futuro glorioso que se estendia diante dele. Ela usou a língua para passar em seus lábios pedindo que se abrissem, prontamente sua boca se abriu para aceitar um beijo muito mais ardente, suas línguas misturam-se e enredaram-se em uma dança lenta de amor mútuo.

 

 Ela mantianha as maõs ao redor de seu rosto, deslizando-se para segurar os cabelos dourados em punhado. Ele a rodeou com um dos braços, e a outra mão livre vagueou por seu corpo, matando a saudade que sentia por estar a tanto tempo afastado. Quando sua mão se deteve um momento em seu seio, acariciou lhe perigosamente mamilo com um dedo. Este se endureceu e formou um casulo pequeno e firme sob o fino tecido da camisola por baixo do robe. E com o amor se acendeu novamente o desejo, não a avidez desesperada que a dominava antes, e sim uma emoção expansiva em que o amor e a paixão eram inseparáveis. Que eles agora eram inseparáveis.

Thranduil se afastou um momento para tirar seu robe, e o robe dela, tirando logo em seguida suas calças de dormir, e sua camisola. A nudez dela o deixou ainda mais embevecido de prazer, nunca tinha visto uma mulher mais linda e perfeita. Inclinou-se para frente alguns centímetros para que seus lábios conseguissem tocar os dela. A boca de ambos se encontrou, a de Amarïe suave e acolhedora, língua contra língua provocando um delicado prazer. Depois de um beijo longo e pausado.

A deitou de costas sobre os travesseiros, querendo absorvê-la para si, dar um banquete com sua embriagadora feminilidade.  Sua boca se apoderou da dela, aberta e exigente, desejando fundir-se ao seu corpo e espirito. O rei moveu-se para cima e se colocou entre suas pernas para lhe separar com as coxas os joelhos que já se abriam para recebê-lo.

Amarïe não conseguia ouvir nada além de seu coração frenético que batia ao mesmo ritmo de Thranduil. O toque dele em seu corpo provocava sentimentos tão intensos, que mal conseguia dizer que ainda era ela mesma, seu corpo parecia ter despertado agora depois de alguns anos de hibernação, o desejo sexual muito estreito com o desejo de amar e ser amada. Ela jogou a cabeça para trás sobre os travesseiros quando ele a penetrou, enchendo-a de dentro para fora, preenchendo-a no coração e na alma, estava entregue totalmente ao seu amor, sem nenhuma insegurança ou medo de rejeição.

Thranduil grunhiu quando finalmente se sentiu completo, sua vida estava finalmente perfeita, seu filho e sua mulher ao seu lado, e nada poderia mudar isso. A ultima vez que fizeram amro rondou sua mente, porque daquele tinha se sentido tão incompleto, estava dentro dela, e ainda assim a tinha muito longe, uma despedida, um rompimento. O pior dia de sua vida. Ele respirou pesadamente sem se mover, olhando para a mulher em baixo dele, seus olhos azuis brilhavam com o mesmo amor que tinha visto aquela noite, mas desta vez tinha Amarïe por inteiro, seu amor iluminava os cantos escuros de sua mente, sua ternura era como um bálsamo para seu dolorido coração. Ela conhecia seus pontos fortes e seus pontos fracos, seus medos e suas esperanças, tanto como ele também conhecia os dela. E o amor que os unia era tão inconfundível como o próprio sol.

A culminação física foi fulgurante, fogoso símbolo da fusão dos espíritos de ambos. Depois se deitaram de rostos colados e abraçados, a testa dela apoiada na bochecha dele, sua respiração ofegante contra seu cabelo. Ele mal se atrevia a mover-se, no caso daquilo ser um sonho de que pudesse despertar.

- Isso realmente está acontecendo? – ele sussurrou incrédulo, ainda sorrindo um tanto preocupado.

- Sim, isto aqui é muito real. – Amarïe sussurrou contra a pele de seu peito, passando os lábios em uma caricia lente em seu mamilo.

- Ainda me assusta a possibilidade de você mudar de ideia. – ele confessou. – eu a magoei tanto.

- Ainda dói, mas eu confio que você vai se redimir. – ela levantou o rosto para encara-lo e sorriu docemente. Thranduil a acariciou seus cabelos dourados e cacheados que caiam sobre seu peito como uma cascata de ouro. Pensando na dor que ele foi capaz de causar. Então fez uma inspiração profunda, e disse:

- Eu te amo. Seu coração não foi prejudicado em um dia e não se vai curar em um dia. Eu prometo te amar de todas as maneiras possíveis e tão profundamente quanto o possível pra curar todas as dores que lhe causei. – ele sussurrou beijando-lhe a mão e a face em uma promessa aos Valars.

- Sendo um ótimo marido e ótimo pai. – ela sorriu – eu já lhe dei essa oportunidade. Sei que vamos nos amar muito, você tem tanto capacidade de amar, como ternura. A única coisa que precisa é se libertar para viver isso, comigo e com Legolas.

- É você quem põe ordem em minha vida, Amarïe. Ordem e amor. – ele sorriu – Melinyes, Amarïe.

Amarïe sorriu brandamente, antes de beijar-lhe o queixo e os lábios, descansando o rosto na curva de seu pescoço e ombro.

- Por todos os dias, de agora em diante serei eterna e completamente seu.

- Então faça amor comigo outra vez, Thranduil.

 

Fim.


Notas Finais


Gente peço desculpas, mas como vcs devem ter percebido, eu ando muito sem tempo, e a muitos meses posto meus capítulos sem Editar kkk peço desculpas por isso. Espero que gostem do fim. (Por enquanto esse é fim, mas talvez, quando eu estiver menos ocupada, posso fazer um Epilogo.)


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