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História Desejo Obscuro - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Capítulo V


Fanfic / Fanfiction Desejo Obscuro - Capítulo 5 - Capítulo V

— Acorde, Orihime. Vamos, levante-se!

Ela abriu os olhos lentamente pela metade, com muito sono, e viu Momo Hinamore inclinada sobre seu corpo.

— Que horas são? — perguntou olhando pela luz baça da janela.

— Não importa, mas já é madrugada. Vista-se logo, porque Ryuken está fora de si e convocou a todos nós para uma reunião urgente.

Com o auxílio de Momo, Orihime sentou-se na cama e pediu sua escova para cabelos. Lavou-se e vestiu-se rapidamente, só gastando um pouco mais de tempo na escovação dos dentes com o pó de menta, que havia sido uma de suas primeiras aquisições com o adiantamento salarial.

A água fria no rosto ainda não estava seca quando, seguindo a amiga, Origime desceu até o saguão de entrada, onde as outras criadas se enfileiravam em desconfortável silêncio.

O que se podia ouvir era o murmúrio de vozes masculinas através da porta da sala. Logo Byakuya surgiu e correu a vista pela fila de serviçais. Orihime cravou o olhar no chão, com a boca amarga e uma crise de pânico ameaçando-lhe as entranhas.

Respeitosamente, Ryuken mantinha a distância de um passo atrás do patrão. Sua expressão era de cautela enquanto focava Byakuya, parecendo distante e pensativo.

— Aconteceu algo muito estranho. — começou o médico, erguendo no ar o livro de esboços que trazia na mão esquerda — Da última vez que consultei esta obra, havia uma única ilustração na página 63. Agora, encontrei dois desenhos em vez de um.

Livros e imagens científicas não faziam parte do universo normal das criadas, por isso o silêncio que se seguiu deveu-se em grande parte á incompreensão. Mas Orihime sabia bem do que ele falava. As primeiras luzes matinais intensificaram sua tensão, tanto que, sem interrupção audível, ela julgou escutar formigas escalando os azulejos.

— Quero saber se alguém aqui tem idéia de como um segundo esboço apareceu no meio do meu livro. — o tom era firme porém suave, sem censura nem ameaça.

Nenhuma das outras serviçais moveu-se.

Foi ela quem fixou o olhar em Ryuken e descobriu que ele a observava, com ar calmo e interrogativo. Olheiras comprovavam que ele não havia dormido, pensamento que lhe causou certa piedade. No entanto, por que deveria lamentar a vigília do patrão, quando sua própria vida repousava nas mãos dele?

Consciente de que a transgressão cometida não deveria recair sobre as criadas inocentes, Orihime ergueu o queixo e deu um passo à frente, saindo da fila. Primeiro encarou Ryuken, cujas feições eram pouco amistosas. Depois, olhou lateralmente para Momo, que lhe mostrou um ar piedoso antes de voltar a focalizar o chão. Por último, forçou-se a encontrar os olhos de Byakuya Kuchiki.

— Eu fiz o desenho, senhor. — falou com clareza, ocultando o tremor na voz.

Uma respiração coletiva foi à resposta involuntária do grupo de empregadas. Orihime desviou a vista para a janela, lutando para que as pernas trêmulas não a derrubassem. Apesar de sentir o olhar de Byakuya sobre si, não conseguiu enfrentá-lo,

— Ah! — exclamou o médico após uma pausa tensa — Venha comigo.

Ele girou o corpo a fim de subir a escada, e Orihime pestanejou, surpresa, antes de segui-lo até o estúdio. Ryuken a fitou como um inseto desprezível, dando passagem aos dois.

A fila feita pela criadagem mostrou-se tensa de preocupação:

Kirio, a cozinheira que havia sido tão bondosa com ela; e Kyoraku, o cocheiro, que falava pouco mas demonstrava simpatia; Momo, a colega de quarto, sua amiga. Lágrimas encobriu a visão de Orihime enquanto ela escalava os degraus, apressando-se para alcançar o  Dr. Kuchiki.

Confusa, ela parou no alto da escada. Esperava ser demitida sem cerimônia, sem um sermão a respeito de seu comportamento errôneo.

— Venha. — o médico convidou.

— Com licença, senhor. — ela conseguiu articular, recorrendo a uma reserva de coragem — Cheguei a esta casa com um único bem: uma pasta com desenhos de minha autoria. Posso apanhá-la?

— Por que motivo deseja pegar a sua pasta? 

— Para levá-la comigo quando for embora.

— E aonde pensa que vai? — em vez de impaciência, o tom do médico denotou genuína confusão, porém não maior que a dela.

— Só me resta voltar às ruas. — ela replicou, mantendo o contato visual a fim de evitar que, chorando, procurasse o ombro dele e implorasse para ficar

N— O que você tanto precisa das ruas? — inquieto, ele gesticulou com a mão — Isso pode esperar. Agora eu necessito de você.

Ele ganhou o corredor e, voltando-se, viu não apenas Orihime, mas também Ryuken, que o seguira servilmente. Dirigiu-se ao mordomo:

— Conto com você, Ryuken, para encontrar outra boa empregada para tarefas gerais. Orihime não serve mais para esse posto.

— Claro, senhor. — ele fingiu superioridade diante dos criados que, no saguão, tinham visto e ouvido tudo, sorridentes — Orihime não pode continuar na mesma posição, depois do que o senhor descobriu a respeito dela.

Orihime teve vontade de chorar, mas se conteve após pensar que teria uma eternidade para as lágrimas.

— De fato, não deve prosseguir fazendo o que faz aqui. — Byakuya concordou, meneando a cabeça — Devem existir centenas de moças precisando de emprego. Cuide de encontrar uma que permaneça no serviço mais do que algumas semanas. Parece que perdemos nossas melhores criadas num ritmo alarmante.

— Imediatamente, senhor. — Ryuken retirou-se escada abaixo e dispensou a criadagem reunida, ainda perplexa.

— Agora que vi uma prova do seu talento — disse Byakuya ao entrar no estúdio — seria um desperdício manter você no serviço de faxina geral. Pretendo utilizar esse seu dom para o desenho anatômico.

Agitada, Orihime derrubou um vaso de flores da mesinha do escritório. Tentou segurá-lo em tempo, mas seu estado de espírito, dividido entre a náusea e a euforia, não permitiu. O vasinho espatifou-se no chão.

— Desculpe-me. — ela murmurou, esperando uma explosão de raiva do patrão, devido à perda da fina peça de porcelana.

Byakuya, porém, limitou-se a olhá-la com expectativa.

— Não tem importância. — falou — O problema é que você se cortou. — uma lasca de porcelana havia espetado o polegar esquerdo de Orihime, justamente onde existia um corte cicatrizado.

Sem hesitar, Byakuya tirou um lenço branco da calça a fim de amarrá-lo no dedo que derramava um filete de sangue. Ele examinou o ferimento antes de cobri-lo. Orihime pensou no lenço salpicado de sangue que o médico descartara anteriormente e Momo havia encontrado.

Resolutamente, ela livrou a mão do toque do médico. Imaginou, horrorizada, se Byakuya não seria um vampiro pronto a sugar-lhe o sangue.

Com a serenidade de sempre, ele abriu a porta e avisou que desceria para apanhar sua maleta de emergência, esquecida na sala, e ao mesmo tempo avisar Ryuken para tratar, mais tarde, da limpeza do chão.

Orihime viu-se sozinha no escritório, sentada na cadeira de couro da escrivaninha. Mais do que depressa, seus olhos se fixaram no pequeno retrato da jovem morena, colocado em lugar de honra sobre a mesa.

Não havia outra possibilidade: aquela mulher fora o grande amor de Byakuya Kuchiki. Esse pensamento, um estranho espasmo pressionou seu coração e incômodas lágrimas brotaram de seus olhos. Passou o dorso da mão nas pálpebras umedecidas. Reconheceu-se ansiosa demais. Que segunda explicação haveria para a sua tristeza diante de uma simples fotografia?

Do porta-retrato, sua atenção deslocou-se até o livro de esboços que havia sido a causa de tanto tumulto. Estava aberto na mesa, exatamente na página que ela havia retocado.

Ao regressar, Byakuya aproximou-se e enrolou uma bandagem com pomada no polegar esquerdo de Orihime, garantindo que não só estancaria o sangramento como melhoraria muito o aspecto da velha cicatriz.

— Obrigada.

— Não há de quê. — ele pousou a mão firme e gentil no ombro dela. Somente a tirou ao posicionar o livro de modo que os dois pudessem ver com clareza o desenho feito por Orihime.

— Você consegue repetir o desenho? — trouxe sua cadeira para mais perto da mesa e colocou a pena e a tinta ao alcance de Orihime.

Ela assentiu com um gesto de cabeça, inalando a fragrância que vinha do corpo dele. Notava seu hálito fresco quando sentiu a perna quente do médico pressionada contra a sua. A sensação era de peles em contato, apesar do grosso tecido da calça masculina e das camadas de roupa que ela usava, incluindo meias, combinação e vestido.

Mesmo que o toque não fosse agradável como era, Orihime nunca poderia reclamar. Não passaria por ingrata ao homem que já a salvara duas vezes.

— Está doendo? — ele tomou-lhe a mão como se fosse tirá-la para dançar num baile elegante.

— Não.

— Consegue desenhar?

— Sou destra.

— Notei sua cicatriz. — ele tocou de leve o polegar esquerdo. Mais uma vez, ela apreciou o contato — O corte parece profundo. Você teve sorte em não perder o movimento do dedo.

Com um olhar angustiado, Orihime retirou a mão e enterrou-a no colo, atritando a cicatriz como costumava fazer quando estava nervosa. Ali residiam lembranças muito particulares, terríveis demais para ser partilhadas.

Byakuya a fitou e esperou.

— Segredos, Orihime? — perguntou com delicadeza e perspicácia — Esta sua cicatriz pode ser bastante melhorada. — ele sentenciou, traçando com o dedo a linha que marcava a pele de Orihime, acima do curativo já feito — Mas você não precisa me contar como aconteceu. Fique calma.

Em silêncio, ela centrou-se no desenho sobre a mesa, disposta a manter seus segredos sepultados, apesar da gentileza de Byakuya. Ele parecia querer tomar conta dela, na condição de profissional, ou então respeitava a distância que ela tomou, a fim de manter sua privacidade. De qualquer modo, não era tão simples assim. O médico aguardava o momento certo de passar-lhe uma nova tarefa.

Efetivamente, pouco depois ele pousou os dedos sobre o próprio desenho.

— Veja, não tenho nenhum talento com carvão, lápis ou tinta. Minha arte se resume a representar, da maneira menos tosca possível, os músculos, os tendões, os ossos de uma perna. — virou uma página do livro e mostrou: — Isto deveria ser um pé humano, mas não se parece com nada. Você poderia tornar-se minha desenhista, colocar no papel tudo o que venho estudando, fazer gráficos detalhados das minhas dissecações.

— Não sei se consigo, senhor. — ela murmurou, imaginando como reagiria ao esboço de cadáveres e de suas partes.

— Você desenhou muito bem a perna. Não existe grande diferença entre uma perna, um braço ou um pé, além dos detalhes específicos. Se traçou um membro, pode traçar outros.

Meneando a cabeça, Orihime procurou articular seus pensamentos. Prestar assistência ao Dr. Kuchiki, enquanto ele dissecava um corpo humano, não era a idéia que fazia de felicidade pessoal. Tinha ouvido falar que em Londre, anatomistas famosos vendiam ingressos para quem quisesse assistir a uma sessão de retalhação de cadáveres. Conduta deplorável, ela achava. Mas como dizer a ele o que pensava dessa prática?

O médico ergueu-se e cruzou o estúdio até a janela. Apoiou-se no caixilho, abriu uma fresta na cortina e observou o abrigo da carruagem. Quando falou, verbalizou seus conceitos como se compreendesse com exatidão os temores de Orihime.

— Você vai se acostumar. Corpos sem vida têm uma finalidade. São como a arca de um tesouro esperando para ser aberta. O conhecimento científico que podem proporcionar é impressionante. — ele a encarou — Constituem a verdadeira chave para a vida e a morte.

Orihime entendia o valor da pesquisa, mas sua repulsa era maior.

— É o que deseja, senhor? Compreender a vida?

— Tenho pouco interesse nos segredos da vida, Orihime. Deixo esse tema aos jovens e tolos acadêmicos. Quero decifrar a morte. Conhecer nossa maior inimiga. Encontrar um meio de enganá-la.

As palavras, friamente pronunciadas, pareciam envolver uma meta sublime, quase divina. Uma sensação de frio tomou conta do coração de Orihime. Apesar do pressentimento que permeou sua mente, ela não pôde negar que a oferta de Byakuya era interessante. Ele lhe propunha uma vida diferente, ajudando-o a pesquisar os mistérios da morte.

No decurso de poucas semanas, Orihime perdeu a repugnância inicial e extraiu alguma satisfação do fato de estar exercendo seu talento de desenhista, que vinha desde a infância. Byakuya não era exigente a ponto de pedir-lhe para fazer algo que não quisesse, como acompanhar as autópsias no laboratório, mas seu entusiasmo pelas tarefas freqüentemente o levava a esquecer-se de comer ou dormir. Levada a seguir os horários do patrão, ela viu-se jantando à meia-noite ou deitada até o meio-dia.

Trabalhavam juntos, lado a lado, e muitas vezes as pernas se tocavam ou os dedos calejados do médico atritavam sua mão. No entanto, mesmo quando a boca dele se aproximava perigosamente de seu rosto, ele era sério e respeitador, alheio à adoração que crescia no coração magoado de sua auxiliar.

Em certas ocasiões, ela o apanhava olhando-a com intensidade, despertando seu fascínio e também um medo irracional. Por horas intermináveis, redesenhava os rascunhos feitos por ele. Mais de uma vez, Byakuya lamentou a própria falta de talento e elogiou o dela, o que originava uma onda de calor em suas veias.


Notas Finais


Continua...


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