História Desejos do Passado - Capítulo 14


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Capítulo 14 - 14. É ele, não é?


As gravações seguiram em um clima mais leve a partir daquele dia. Porém, apesar de confiar nas palavras de Fogaça, Paola estava receosa quanto a relação dos dois. Manteve-se um pouco afastada na primeira semana, Jason ainda estava em São Paulo e quando não estava na emissora, tentava dedicar-me ao máximo a presença de seu marido em casa. 

Sentia-se uma farsa. Pensava que poderia apagar todos os seus erros e prosseguir seu relacionamento como se nada tivesse acontecido, porém em qualquer momento mais íntimo que tinham, Paola se afastava. Não conseguia. Uma sensação de culpa e saudade a arrebatada todas as vezes que sentia os toques de seu marido. Culpa por tê-lo traído, por sentir tanto desejo por outro homem, por não conseguir corresponde-lo mais. Saudade do motivo de toda essa culpa. Sentia falta de Fogaça, de suas carícias, seu sorriso que só ela despertava nele, seu cheiro, seus beijos, seus toques.

Paola suspirava deitada em sua cama. Seus olhos estavam fixados em um livro, porém seus pensamentos estavam a milhas dali. Jason estava ao seu lado há meia hora, também com a atenção voltada a um livro, porém disfarçadamente prestando atenção em Paola e a cada suspiro que sua mulher soltava. Ele a conhecia mais que qualquer pessoa, sabia que algo não estava bem. 

- Meu amor, você quer conversar? - Ele perguntou, de repente, tirando-a de seus devaneios. Paola, por alguns segundos, não entendeu. - Eu sei que algo te incomoda. Sei também que não está lendo, está na mesma página desde que começou. - Falou sincero. Seu tom era terno e Paola sentiu vontade de chorar. Tinha o parceiro perfeito e não o correspondia. Que tipo de monstro eu sou? Ela se perguntava.

- Está tudo bem. Apenas preocupada com alguns problemas no restaurante. - Mentiu. Jason retirou o livro de sua frente e segurou a mão de sua esposa. 

- Paola, há meses não conversamos direito e quando chego aqui percebo que está distante e com o olhar triste, mal me deixa te tocar. O que está acontecendo? - Jason falava sincero e Paola se encontrava com a garganta sufocada, presa por um choro desesperado por sair. - Pode chorar, tudo bem. - Ele a puxou para si quando percebeu que lágrimas insistiam em sair dos olhos de Paola. Jason a abraçou e a chef se entregou a tudo que sentia. Chorou por aproximadamente 10 minutos, enquanto seu marido acariciava seus cabelos. Quando conseguiu, finalmente, se acalmar, saiu do abraço e limpou suas lágrimas. Levantou-se da cama, vestiu seu robe e sentou-se ao lado de Jason, respirando fundo, pronta para falar. Não sabia exatamente o que, mas não conseguia mais ficar naquela situação.

- Jason, eu amo você, espero que nunca duvide disso. Eu sou grata por se preocupar tanto comigo, me cuidar, me conhecer tão bem. Você não merece isso que estamos vivendo... - Não conseguia. Ia começar a chorar novamente, quando Jason a interrompeu. 

- É ele, não é? - Paola se assustou. Ele quem? Seus pensamentos eram um turbilhão. - Eu quero evitar essa conversa de "não é você, sou eu'' então já vou adiantando. Paola, eu não sou idiota. Eu vejo o que as pessoas comentam nas suas fotos, principalmente quando elas envolvem o Fogaça. Eu sei que tem um grupo de fãs que querem vocês dois juntos e no início eu achava uma bobagem ridícula. Mas aí eu observei. E foi inevitável não ficar com ciúmes. Eu sei que você odeia esse tipo de coisa e nunca nem pensei em comentar com você. Achava que era paranóia da minha cabeça. Mas não é paranóia, você é apaixonada por ele, Paola. - Jason soltava as frases como um devaneio distraído, olhava para a parede do quarto, como se concluísse aqueles pensamentos naquele momento. Paola ainda encontrava-se em choque, sem voz ou qualquer reação. - Percebi logo que cheguei aqui que algo tinha mudado. Eu sei que você me ama, mas não como ama ele, não é? Eu não sei se algo aconteceu entre vocês e nem quero saber. Eu só peço que seja sincera comigo. - Ele finalizou. A respiração de Paola estava pesada, sentia como se a qualquer momento fosse passar mal. Fechou os olhos e tentou respirar fundo para se recuperar. Ela, de forma alguma, esperava por aquilo e precisava dar um ponto final no relacionamento que havia se transformado em uma tortura, por mais que mentisse a si mesma.

- Jason, eu… - Ela iniciou. - Sinto muito, eu nunca quis machucar você. - As lágrimas em seu rosto já não eram mais contidas, Paola não as conseguia mais segurar.

- Eu vou dormir no quarto de hóspedes. - Ele falou enquanto se levantava da cama. - Amanhã conversamos. Eu vou respeitar sua decisão, seja qual for. - Ele se aproximou e deixou um beijo na testa da chef. 

Paola foi deixada no silêncio profundo de seu quarto. Estava quase sufocando depois de ouvir todas aquelas verdades. Se sentia péssima: uma péssima mulher, péssima amiga, péssima pessoa. Mas ao mesmo tempo um alívio tomava conta de seu ser. 

Sentia medo de terminar tudo com Jason e se arrepender. De perceber que estava tudo errado e que foi um erro largar de uma pessoa tão maravilhosa. Mas não havia mais como voltar atrás. Até seu marido havia percebido sua paixão por Fogaça, como negaria isso para si mesma?

Não dormira nada naquela noite. Pensava em Jason por alguns instantes, mas logo sua mente levava seus pensamentos até seu tatuado. Em como ele a conquistou e a tirou de órbita a ponto de cometer algo que abominava tanto, traindo seu marido. Mas já havia percebido que não conseguiria fugir da realidade por muito tempo, o amava numa intensidade tão grande que por momentos não sentia arrependimento algum de tudo que aconteceu.

Pela manhã, sentia-se um lixo. Sua cabeça doía, assim como seus olhos ardiam. Seus cabelos estavam um caos. Apenas tomou uma ligeira ducha e vestiu a primeira roupa que viu pela frente. Logo que saiu do quarto, percebeu que Jason havia saído e levado consigo seus pertences. Uma parte de si havia ido embora de sua vida tão repentinamente e a sensação parecia tirar o ar de seus pulmões.

Não conseguiu comer nada no café da manhã, seu estômago estava embrulhado. Foi para o restaurante guiar a preparação para o almoço do dia, na tentativa de se distrair, e depois foi direto ao estúdio para gravar o Masterchef. Logo que adentrou no estúdio foi recebida por Pato que lhe dava um turbilhão de informações sobre as provas do dia e demorou para perceber o estado deplorável da chef.

- Meu Deus, Paola, o que aconteceu? - Ele perguntou assim que se atentou ao rosto da chef, que se encontrava avermelhado e inchado, pelo choro incessante. 

- Problemas pessoais, Pato. Vou ficar bem logo. - Paola disse tentando dar um sorriso. 

Assim que se liberou de Pato, foi ao seu camarim onde a maquiadora, a cabeleireira e a figurinista já aguardavam. Suspirou pensando no trabalho que elas teriam hoje para deixá-la menos miserável nas câmeras. Em uma hora já estava pronta e se dirigia ao estúdio. Logo que chegou, Ana Paula veio ao seu encontro, animada, mas assim que percebeu o olhar de Paola parou de falar.

- Minha nossa, o que houve com você? Foi atropelada? - Ela brincou e dizendo isso puxou a chef para um canto mais reservado. 

- Nem a maquiagem foi capaz de disfarçar? - Perguntou desanimada. - Não consigo explicar agora, mas podemos nos encontrar depois das gravações? - Propôs e Ana assentiu imediatamente. - Estou precisando de um ombro amigo. -  Disse sincera. 

Pato convocou todos para suas posições e assim fizeram os três jurados e Ana Paula. A produção precisou chamar a atenção de Paola algumas vezes, a chef parecia distante e inerte, não ria nem das piadas de Jacquin. Até que o intervalo foi iniciado e Fogaça de aproximou dela, abraçando-a sem aviso prévio. Paola aceitou de bom grado, sentia-se despedaçada e carente, qualquer demonstração de afeto era bem vinda. 

- Não sei o que aconteceu, mas sei que está triste. Só quero lembrar que sou seu amigo e tô aqui pro que cê precisar, nem que seja só pra um abraço. Tá? - Ele disse baixinho próximo ao seu ouvido. Paola assentiu e reprimiu a vontade de chorar. Naquele abraço se sentiu bem pela primeira vez no dia.

- Um abraço é tudo que eu preciso. - Falou sincera e o apertou mais ainda contra seu corpo. - Obrigada. - Sentiu Fogaça dar um leve beijo em seu pescoço e no momento seguinte se afastou.

Em alguns minutos retomaram as gravações e assim prosseguiram até o fim do dia. Fogaça tentava ao máximo animar Paola e a abraçava em todas as oportunidades possíveis, puxava assuntos sobre o programa para a distrair e também para mantê-la atenta ao que acontecia, visto que estava extremamente distraída. Ele fez o melhor que pode para ser o amigo que Paola precisava naquele momento, porém estava incomodando por não saber o que havia a deixado naquele estado. Desconfiava que poderia ter sido Jason, por isso não questionou por saber que esse assunto desestabilizaria ambos.

Após o fim da última prova do dia, Paola saiu rapidamente para seu camarim e combinou de ir a casa de Ana Paula. Precisava de uma amiga com quem desabafar e tornar aquilo mais real. Pois ainda se sentia em um pesadelo. 

- E então, o que aconteceu? - Ana questionou enquanto oferecia uma taça de vinho a Paola. Estavam sentadas na elegante sala de estar de Ana Paula. 

- Jason e eu vamos nos separar. - Paola falou e Ana arregalou o olhos. Então a chef contou tudo o que aconteceu entre ela e o (ex?) marido na noite anterior. 

- Entendo que você esteja triste, Pao. Mas não é melhor assim? Você já estava tão confusa entre esses dois… - Ela comentou. 

- Não sei, Ana. E eu nem sei o que é isso que eu e o Fogaça temos, nós já tivemos nossa chance, o que garante que agora vai dar certo? 

- Isso não importa agora, vocês se amam, isso é o certo. Não é você que diz que com amor tudo se resolve? Você só precisa de uns momentos de reflexão para aceitar que você já não estava mais inteira no seu casamento há tempos…

- Isso é verdade, senão não o teria traído. - Falou. - Há tempos já não amava o Jason como meu marido, o admiro muito e o amo como pessoa. Mas de qualquer forma, dói me despedir de tudo que vivemos. - Paola estava prestes a chorar novamente. 

- Olha, resolve tudo com o Jason, conversem e terminem isso da melhor forma possível. Depois você vê como se resolver com Fogaça. - Ana falou e segurou a mão de Paola. - Não sei se essa informação no momento vai ajudar ou atrapalhar, mas ele está oficialmente divorciado. - A chef arregalou os olhos e se sentiu trêmula. Então era real. Ele estava separado. Pela primeira vez desde que se reencontraram estavam ambos solteiros. - Paola, respira. - Disse Ana Paula e Paola percebeu que havia trancado a respiração enquanto absorvia a notícia. 

- Ok, informação demais para um dia só. Eu preciso encher a minha cara. - Paola falou enquanto virava toda a taça de vinho. Ana Paula riu e entrando no clima, encheu suas taças novamente. 

Ficaram horas conversando sobre a vida e seguindo o plano de Paola de encher a cara. Quando não sentiam mais seus próprios corpos, de tanto álcool ingerido, elas decidiram que era hora de parar. Ana Paula insistiu que Paola dormisse em sua casa, pois a chef não estava em estado de voltar para casa nem mesmo de uber, então ela dormiu no quarto de hóspedes. 

Pela manhã, foi acordada por Ana Paula gritando desesperada que estavam atrasadas. Paola demorou alguns minutos para se habituar ao ambiente e entender porque não estava em sua casa. Aos poucos lembrou do dia anterior, da bebedeira e de seu celular descarregado. Provavelmente o mundo estava um caos e seus restaurantes haviam pegado fogo diante de sua ausência. Porém teve que ignorar suas preocupações e ir atrás de um remédio para dor de cabeça, que estava prestes a explodir.

Logo se arrumaram, tomaram café e foram para a emissora. Foram para seus camarins e em poucos minutos estavam gravando, pois haviam chegado realmente atrasadas. Graças ao bom Deus, naquele dia a gravação era apenas no turno da manhã. Paola sentia-se enjoada pela ressaca e se precisasse experimentar mais algum prato seria capaz de vomitar. Não costumava beber até esse ponto e muito menos estava habituada a ter ressaca, mas parecia que os acontecimentos recentes haviam deixado seu corpo perturbado. 

Paola estava em seu camarim trocando de roupa, tirando seu traje de Paola Carosella, jurada do Masterchef e voltando para Paola Carosella, a cozinheira. Vestiu uma blusa de alças finas e uma calça jeans básica, como se sentia confortável. Ouviu batidas na porta e deu sinal para que entrasse. 

- Estou convidando todo mundo para almoçar lá na Sal, topa? - Fogaça perguntou com sua voz rouca e baixa. Percebeu que o olhar do chef se perdeu momentaneamente no decote de Paola e ela pigarreou, chamando sua atenção. Ele sorriu bobo e deu de ombros. 

- Eu estou de ressaca, não estava nos meus planos almoçar. - Ela disse e deu uma risada sincera. Fogaça fez biquinho como se estivesse triste com a recusa. - Não faz essa cara! - Paola pediu e o empurrou de leve. 

- Ok, vou te perdoar dessa vez. Mas se quiser jantar comigo, me avisa, estou testando novos pratos e gostaria de uma segunda opinião. - Fogaça disse esperançoso, tentando achar brechas para que a chef se aproximasse novamente dele como antes. Paola assentiu.

- Se eu estiver melhor até de noite, te aviso. E é bom que sejam bons pratos! - Ela brincou. 

- Claro que são, aprendi com a melhor. - Ele piscou, Paola riu mas ao mesmo tempo ficou sem graça. Fogaça se aproximou e abraçou a chef, deu um rápido beijo em sua bochecha e logo depois se retirou do camarim. Paola ficou alguns minutos parada, absorvendo aquele beijo inocente e amigável em sua bochecha. Era irreversível, cada toque dele a deixava louca por mais. Suspirou e acordou do transe, tirando ele de seus pensamentos e saindo, tomando o rumo de sua casa. 

Passou o resto do dia deitada, tomando chás para recuperar seu organismo. Não deixou de trabalhar, resolvia o que surgia pelo notebook, mas evitou pegar o celular.

O sol já havia descido quando ouviu movimentação pela casa. Jason havia buscado Francesca na escola e logo a loirinha surgiu no quarto da chef correndo e pulando em sua cama.

- Mamá, mamá! - Gritava Fran enquanto a abraçava. Paola riu da animação da menina e lhe perguntou sobre seu dia. As duas iniciaram uma conversa animada sobre o dia de Francesca, foram interrompidas quando viram Jason parado encostado na porta do quarto. 

- Fran, vai ajeitando suas coisas para o banho, eu já vou lá te ajudar. - Paola pediu e a filha foi saltitando até seu quarto. Se levantou da cama e colocou seu robe. Desceram até a sala em silêncio. 

- Eu vim me despedir da Fran. - Jason disse. - Vou sentir saudades dessa maluquinha. - Eles sorriram. - Vou sentir saudades de você, mas será melhor assim, nós sabemos. Estou voltando para Londres ainda essa semana e não sei quando volto. - Ele falou com a voz falha, seus olhos lacrimejavam, assim como os de Paola. Ele a puxou para um abraço. 

- Eu gostaria de pedir para que ficasse, mas não seria o correto. Me dói te deixar ir, mas já não temos mais condições de seguir nosso. - Paola dizia sincera entre o abraço. Aos poucos se soltaram e olharam em seus olhos. 

E então era isso: estava acabado. Jason se despediu de Fran com um abraço demorado e promessas de alguns presentes na próxima vinda. Não haveria, mas a pequena não sabia disso. Ela sofreria muito e não entenderia o porquê da separação, então Paola preferiu omitir a informação da filha, pelo menos naquele primeiro momento tão recente. Não gostaria de lidar com mais um sofrimento. 



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