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História Desire - Capítulo 2


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Notas do Autor


E aí, galerê-san, capítulo novo de DESIRE na área. Enjoy 😘

Capítulo 2 - Um laço desfeito


Fanfic / Fanfiction Desire - Capítulo 2 - Um laço desfeito

A manhã era fria, então, assim que tocou os pés no piso gelado de seu quarto, sentiu um arrepio subir sua espinha com velocidade. Era quarta-feira e, devido serem as últimas semanas do semestre, as quartas eram dedicadas a estudos na biblioteca, porém a maioria dos alunos que conhecia não iam a faculdade para estudar, muito menos estudavam em casa, aproveitavam para ir a boates, beber, sair em encontros e todas as coisas que ela não fazia há anos. Hinata tampouco ia a faculdade estudar. Suas quartas eram direcionadas a uma longa viagem até Tóquio, onde almoçava com os pais e depois a uma tarde no setor de oncologia infantil do Hospital Regional.

Aquele dia não seria diferente.

Calçando as pantufas, ficou de pé, espreguiçando-se ao máximo, na tentativa de afastar toda a preguiça matutina. Apanhou no guarda roupa uma calça jeans, uma blusa de mangas e separou seu casaco mais pesado em uma cadeira. Tomando coragem, foi até o banheiro, tirando a camisola e se enfiando embaixo do chuveiro, esperando que a água quente lhe ajudasse a escapar do frio surpresa que o dia trouxera.

Enquanto a água caia sobre seus ombros, Hinata podia ver o reflexo no pequeno espelho a sua frente. Seus cabelos de um negro forte, estavam grudados sobre a face pálida, enquanto também emolduravam os olhos de tons suaves. De corpo era uma moça de estatura média e com talvez um pouco mais de físico que a média das garotas no Japão, mas estava feliz assim: nunca tivera complexos com seu corpo. Isso se devia em parte por não ligar muito para o que os outros diziam, mas também porque sabia que era bonita.

Apanhando a toalha e secando-se o mais rápido que conseguia, vestiu suas roupas e secou os cabelos, agradecendo pelo ar quente do secador. Fez uma nota mental de buscar um aquecedor para seu apartamento enquanto estivesse pelo centro. Novamente em frente ao espelho, secou a umidade que havia se formado, pegou o estojo onde guardava sua pequena coleção de maquiagens e tirou de lá um batom rosinha, passando sobre os lábios e vendo seu rosto apático ganhar um pouco de cor.

Viu também que seus olhos estavam com olheiras e ela suspirou. A noite havia sido cansativa, não apenas por estar em companhia de Tenten e Ino, mas por tudo. Em sua cabeça haviam flashbacks desconexos sobre o que acontecera, lembrando da varanda, do vizinho que provavelmente a estava provocando enquanto o observava da janela e, por fim, daquele outro cara.

Sentindo um novo arrepio subir sua espinha, fechou o estojo, calçou suas botas, agarrou seu casaco, o celular e a bolsa e saiu sem querer olhar para trás.

Apesar de frio, o dia estava bonito, com o céu claro e sem nuvens. A rua estava silenciosa como todas as manhãs e, como todas as manhãs, os únicos seres vivos alí eram os passarinhos, Hinata e... Ele.

Sem que tivesse tempo de se esconder ou pelo menos disfarçar sua vergonha, viu quando o vizinho dobrou a esquina em uma corrida com o seu cachorro enorme. Seu rosto corou violentamente e ela abaixou a cabeça, apressando o passo, mas não conseguiu evitar que se cruzassem no meio do caminho.

— Ei – escutou quando uma voz grave a chamou pelas costas.

Hinata congelou exatamente onde estava, mas não olhou para trás. Seu coração estava tão acelerado que parecia estar querendo sair do seu peito pela boca.

— Você deixou cair isso – insistiu, dessa vez a voz estava mais perto. Perto demais.

Lutando para manter o auto-controle de seu corpo e não cair de joelhos naquele momento de tanto que fraquejavam, Hinata girou em direção ao dono da voz.

“Mas que merda”, pesou consigo mesma. Para sua infelicidade, ele era ainda mais bonito de perto. Seu vizinho era alto, alto a ponto de precisar erguer bem a cabeça para olhar-lhe nos olhos. Tinha uma pele morena cor de canela que ressaltava as tatuagens vermelhas em suas bochechas. Seus cabelos eram de um chocolate desgrenhado e os olhos tão escuros que pareciam nem ter pupilas.

Entretanto, o que fez com que Hinata quase perdesse a noção do que acontecia foi o seu sorriso, meio de lado, selvagem e extremamente sedutor.

Um latido a trouxe de volta a realidade.

— Ah, obrigada – agradeceu, sentindo a voz sair em um fio esganiçado e ridículo aos seus ouvidos, estendendo a mão para pegar a chave de seu carro.

Ouviu novamente o cachorro latir animado e o sorriso do vizinho aumentar.

—Parece que Akamaru gostou de você - disse ele, erguendo a coleira do enorme cachorro, que rodopiou e começou a pular em todas as direções. - Opa!

Ensaiou um sorriso, mas sentiu-se fracassar. Apesar de não ter nada contra, tampouco gostava de animais, principalmente tão grandes como aquele.

—Sou Inuzuka Kiba – apresentou-se estendendo a mão. - e você é?

—Hyuuga Hinata – respondeu, estendendo a mão de volta, sentindo-a ser envolvida pelas gigantes e quentes do moreno.

—Bom, foi um prazer Hinata – e sorriu. - Vou nessa, tenho que terminar o passeio do Akamaru. - Falando isso, ele lhe deu as costas e voltou a correr em direção ao bloco de apartamentos.

Na mesma hora sentiu seus ombros despencarem. Como havia sido idiota. Há tempos estava observando o vizinho – desde que ele se mudara para aquele lugar, para ser exata – e quando tivera a oportunidade de falar com ele simplesmente travou. Pensou que, se fosse com Ino, teria puxado assunto na mesma hora, porém ela não era a amiga, e Hinata não puxava assunto.

Sentindo-se derrotada pela timidez, voltou a marchar em direção ao carro, apertando o casado contra o corpo e imaginando que nunca teria outra oportunidade de falar com ele. Não prestou muita atenção no que fazia, apenas ligou o veículo, colocou o rádio para tocar, embora sua cabeça estivesse longe mais para escutar que música soava, e saiu, rumo a estrada que a levava para o outro lado da cidade.

Os Hyuuga moravam em um grande condomínio fechado, ao norte da cidade, de acesso restrito, ela sempre precisava identificar-se como filha de Hiashi para poder entrar, embora desconfiasse que o porteiro só fazia isso para poder incomodá-la, afinal, quem era a outra pessoa que aparecia toda quarta com um carro velho como aquele?

—Hinata Hyuuga – disse, apresentando a identidade.

O homem, muito velho e muito grisalho, pegou o documento, observando por longos minutos sua foto e sua imagem, devolvendo depois, com um sorriso nos lábios murchos.

—Vou avisar aos seus pais, senhorita Hyuuga.

—Hai – e entrou.

A casa de seus pais era grande, embora não fosse a maior do condomínio. Era de um branco gelo e cheia de flores que sua mãe cuidava regiamente todas as manhãs, porém, após a morte de Hinata, ela passara a se dedicar ainda mais a suas flores. Era irônico como um jardim tão bonito escondia uma dor tão grande.

Foi Hiashi quem abriu a porta para ela, saudando-a com um aceno de cabeça simples, um abraço e um beijo suave no topo dos cabelos.

— Ohayo, otosan – cumprimentou.

—Bom dia.

—Onde estão todos? - Questionou, entrando na sala e deixando sua bolsa no sofá.

— Sua mãe está no quintal, cuidando das flores, como sempre – suspirou desanimado. - E Neji está no quarto em uma conferência com alguns acionistas da empreiteira.

—Entendi.

Sua família tinha uma empreiteira, responsável por muitas obras de Konoha e, no geral, do Japão. O pai era engenheiro civil, o irmão havia se formado há poucos meses em direito e a mãe um dia fora uma psicóloga bem conhecida, mas ironicamente era quem mais permanecia com o psicológico abalado, desde a tragédia. Aquilo lhe doía muito, tanto pela perda da irmã, mas também por, de certo modo, haverem perdido a mãe também.

—Vou falar com ela – informou, indo em direção ao quintal.

A encontrou sentada no meio das plantas, com todo o seu material de jardinagem espalhado pelo chão e uma expressão de extrema concentração, enquanto podava algumas folhas secas.

—Ohayo, okaasan.

A mulher ergueu os olhos rapidamente. Dando um sorriso largo, porém ainda se via tristeza, ao vê-la.

—Hinata – e a abraçou tão forte que lhe doeu as costela.

Sua mãe eram uma mulher muito bonita e, apesar de já ter três filhos, sendo dois deles maiores de idade, seguia como uma jovem senhora. Tinha cabelos longos e do mesmo negror que os de Hinata. Era uma mulher extremamente gentil e inteligente, embora hoje já não importasse tanto.

—Vamos entrar, está muito frio aqui em fora – convidou, sendo respondida com um sorriso.

As duas entraram e logo sua mãe foi para a cozinha, se ocupando em terminar os detalhes do almoço. A observava de loja – sua mãe não gostava de ajuda na cozinha -, quando sentiu a mão pesada de Hiashi em seu ombro.

—Como vão as coisas? - questionou a ela, embora também observasse a esposa.

—Bem, logo são as provas finais.

—Ok. E se sairá bem?

Mudou o peso de um pé para o outro. Normalmente sempre tirava notas altas, mas agora eram dias difíceis de manter a cabeça no lugar. Hiashi pareceu ler sua mente quando disse:

—Procure focar no que lhe trará alegria. Essa dor é horrível, mas nossa vida ainda segue e precisamos conviveremos com ela.

—Eu sei, mas... - Hiashi balançou a cabeça negativamente, indicando que a esposa se aproximava e que deveriam encerrar o assunto.

—O almoço está pronto – anunciou. - Hiashi, poderia ver se Neji já está vindo?

—Não precisa – uma voz grave chegou aos seus ouvidos do topo da escada.

Olhando por cima do ombro, Hinata viu a figura de seu irmão se aproximar. Neji tinha nas mãos uma pilha de pastas, provavelmente de coisas da empreiteira que ela não fazia questão de entender. Nunca demonstra interesse por aquele negócio, embora as vezes participasse de reuniões em função de ser uma futura herdeira. Mesmo assim, todas as decisões eram entre seu pai e o irmão que, cada dia ficava ainda mais parecido com Hiashi.

—O que aconteceu com você? - Neji perguntou, sem nem cumprimentá-la, enquanto deixava todos os documentos na mesa ao centro da sala.

Hinata rolou os olhos e inflou as bochechas, simulando uma grande irritação.

—Não é da sua conta – respondeu dando um sorriso amarelo.

Neji fez uma careta, antes de puxá-la para um abraço apertado e dizer alto:

—O cheiro está maravilhoso, okaasan.

Todos ajudaram a montar a mesa e começaram o almoço imergindo em conversas banais, sobre como foi a reunião de Neji (muito chata), sobre o próximo projeto da empreiteira (um edifício comercial ao sul da cidade), o trabalho de Hinata no hospital (achavam que ganhava pouco, mas nem sonhavam que era um trabalho voluntário) e sobre o que fariam quando estivessem de férias.

—Poderíamos ir ao interior – sugeriu a mulher. - As flores do inverno são lindas por lá.

—Mas ir a praia não seria melhor? Faz anos que não vamos a Europa – interviu Neji.

O almoço seguiu tranquilo, mas logo chegou a hora de Hinata ir para o hospital. Anunciando que precisava ir, ela se despediu dos pais e preparava-se para sair quando Neji pediu para que o esperasse.

—Hinata - começou ele, quando ambos já estavam fora de casa e ela quase dentro de seu carro. - Como você está?

Ela ergueu uma sobrancelha, confusa com a pergunta.

—Estou bem, já disse.

Neji balançou a cabeça, descontente com a resposta.

—Você disse que as olheiras são por causa das provas finais, mas sei que é mentira – respirou fundo. - Olha, também estou perturbado com tudo isso, mas não se deixe abalar.

Hinata fechou os olhos, sem vontade de encarar o irmão. A natureza de Neji, por ser advogado, era sempre confiar na justiça e na polícia. Acreditava cegamente que mesmo após cinco anos ainda poderiam pegar quem fez aquilo com Hanabi e nunca parecia perder as esperanças. Mas ela já havia perdido, assim como sua mãe e, embora não tivesse certeza, assim como seu pai.

—Obrigada, Neji, vou tentar não pensar muito nisso. - Disse por fim, abrindo a porta do carro e entrando, porém, antes de conseguir fechar, Neji a segurou.

—Você está precisando de alguma coisa? - perguntou, enquanto enfiava as mãos nos bolsos na intenção de fazer o que ela já sabia.

—Estou bem, anichan – disse suavemente. - Mas se conhecer um bom eletricista, poderia me passar o contato. Preciso instalar um aquecedor no apartamento.

Neji deu um sorriso de lado.

—Pode deixar, encontrarei alguém.

—Obrigada – repetiu, dando um beijo na bochecha do irmão.

—Ei, Hinata, só mais uma coisa – interrompeu sua ida mais uma vez.

—O que foi?

—Sobre aquela sua amiga, ela ainda está solteira? - questionou, coçando o queixo.

Ela riu, dando partida no carro.

—Sim, depois te mando o contado – e saiu, ouvindo um longíquo “obrigado”.

O Hospital Regional não ficava muito longe da casa de seus pais, por isso, quando chegou, ainda possuía alguns minutos de vantagem. Sem pressa alguma, caminhou até o vestiário, pegando no armário seu o traje médico verde e o jaleco branco de sempre. Prendeu os cabelos em um coque alto, calçou os sapatos e retirou a pouca maquiagem que passara com um demaquilante. Passou água no rosto e encarou-se no espelho.

Pensava em como essa semana era pesada quando, pelo canto do olho desconfiou ter visto alguém passar atrás dela. Seu coração deu um salto, pois não vira e nem ouvira alguém entrar no banheiro. Esfregando os olhos, perguntou:

—Tem alguém aí? - mas não obteve resposta.

Curiosa, foi em direção a que o vira passar, junto ao corredor de vários armários. Passou pelo primeiro e não havia ninguém, assim como no segundo, porém, seu ar faltou quando chegou ao terceiro corredor.

Durante todo o dia, Hinata acreditara que o que acontecera na noite anterior fora um sonho maluco, tanto o que vira do seu vizinho, quando aquele homem que aparecera em sua varanda. Entretanto, quando as luzes começaram a piscar e ela viu que não estava sozinha, o ar lhe faltou.

Ele estava sentado no banco, alto e forte, segurando a boneca de palha, mas não a olhava diretamente.

—Seu tempo está acabando – foi ele quem se pronunciou primeiro, com a voz calma e um semblante indecifrável.

Hinata engoliu em seco, olhando de seu rosto pálido para a boneca que segurava entre os dedos.

—Não demore muito a dar uma resposta, ou perderá a chance de conseguir o que quer – alertou, estendendo a boneca novamente para ela.

Hinata não a pegou, pelo contrário, deu alguns passos para trás, sentindo um grito preso em sua garganta, mas que era incapaz de dar. O homem seguiu observando-a, ainda estendendo a boneca, sem parecer se importar com o medo obvio que ela sentia. Seus lábios se curvaram em um sorriso, enquanto se aproximava dela com a graça de um tigre.

—Eu já vi seu coração, Hinata. Aceite – disse, segurando sua mão e depositando a boneca alí.

Seu toque era quente e provocou arrepios na morena, que tentou abrir a boca e dizer algo diversas vezes antes de conseguir se pronunciar.

—Você não é real – foi o que falou, a voz trêmula.

—Eu sou para quem acredita em mim – respondeu calmamente, os lábios quase roçando as orelhas de Hinata.

Seu hálito bateu quente contra sua pele, enquanto tinha um cheiro suave que ela não reconhecia. Por um momento, pegou-se pensando tolamente se demônios usavam perfume. Fechou os olhos e respirou fundo.

—Ainda não sei o que fazer – confessou.

—Tem até a madrugada para decidir – e se afastou.

Engoliu em seco, enquanto sentia seus olhos azuis queimando-a por dentro e por fora. Ele afastou-se de costas, dando passos lentos e por um momento imaginou que estivesse com problemas de visão, pois a imagem do homem ia se tornando borrada pouco a pouco, entretanto, logo o viu desaparecer em uma fumaça negra e sem cheiro, que logo desapareceu também.

Estava estática, observando o vácuo a sua frente. Cada centímetros do seu corpo arrepiado em receio e medo do que estava acontecendo, a boca seca e os olhos queimando com lágrimas que não conseguia conter. Respirando fundo, correu de volta para a pia, jogando água sobre o rosto e tentando encontrar o ritmo da própria respiração.

— Está querendo tomar banho na pia, Hinata? – a voz de Ino chegou ao seus ouvidos, fazendo-a praguejar, enquanto limpava o rosto, evitando contato visual. – Ei, você está bem?

Assentiu, enquanto puxava as folhas de papel toalha, secando o rosto. Via pelo espelho que Ino a olhava preocupada, o que fazia a situação um tanto cômica, pois usava um peruca coloria, grandes sapatos verdes e um nariz de palhaço grande e vermelho.

— Tem certeza? – insistiu.

— Sim, está tudo bem – respondeu, virando-se e tentando dar um sorriso.

A amiga ainda lhe observava preocupada, mas não insistiu. Sabia que não valia a pena. Aproximou-se de Hinata, entregando uma sacola que logo abriu, tirando de lá um par de asas cor de rosa, uma tiara de pelúcia e uma varinha com ponta de coração.

— Então é minha vez de ser a fada? – perguntou com um sorriso mínimo.

— Ah, é. Tenten ainda não chegou, então sobrou a bruxa pra ela – sua expressão era um tanto vingativa.

Hinata encaixou as asas nas costas e colocou a coroa, observando a figura das duas por um momento, antes de voltar a sorrir.

— Hora dos Doutores da alegria? – animou, vendo Ino abrir um enorme sorriso.

Saíram com Ino falando algo que não prestou muito atenção e foram a um quarto onde haviam algumas crianças. Todas elas usavam batas do hospital e grande parte tinham seus cabelos raspados ou muito curtos. Eram crianças de um a dez anos de idade e Hinata sempre sentia um aperto no peito quando as olhava. Eram apenas crianças e já haviam passado por tantas dores na vida... Por isso, por mais que fosse tímida e evitasse exposição, sempre sentia seu coração mais quente e feliz quando estava no hospital com aquelas crianças.

—Obasan, hoje você é um princesa! – exclamou uma das garotinha, assim que ela chegou.

— Hoje sou a princesa das fadas – disse, dando um largo sorriso e abaixando para abraçar a menina, que subiu em seu colo e deu um beijo estalado.

—Você é a fada princesa mais bonita, obasan.

—Muito obrigada, mas você que é a fada princesa mais linda desse mundo – respondeu, tirando sua coroa de pelúcia e colocando na cabeça da menina.

Ela deu uma risada sonora e pulou para o chão, indo em direção ao grupo de crianças que se formavam ao redor de Ino, que dançava e cantava uma música infantil. Seus lábios não conteram o sorriso de ternura ao ver a cena. Na maior parte do tempo, Ino era desbocada e explosiva, mas levava jeito com crianças. Pensava que seria uma ótima mãe, embora sempre fingisse arrepios de pavor quando alguém comentava sobre o assunto e ela a entendia. Também gostava de crianças, mas nunca havia se imaginado como mãe, principalmente quando viu o estado em que a sua própria agora vivia. Era uma vida a base de remédios, sorrisos largos, mas o expressivos e um olhar distante, nublado, como se sua cabeça já não estivesse mais alí.

Pensava nisso quando viu Tentem chegar às pressas. Já havia montado sua fantasia, exibindo-se como uma bruxa, embora fosse uma bruxa bonita, tinha que admitir.

— Achei que não viria hoje – comentou em um sussurro, enquanto Ino contava uma história para as crianças.

A morena respirou fundo, ofegante.

— Eu também -admitiu. – Mas consegui chegar a tempo.

— Onde você estava?

Tente ajeitou o nariz pontudo de bruxa e passou os dedos pelos cabelos.

— Fui ao banco. Minha conta está novamente bloqueada e não sei porque cargas d’águas isso está acontecendo toda vez que tento usar meu cartão.

Hinata limitou-se a fazer uma careta, retribuída por Tenten, que agora se mantinha atenta a história, esperando o momento em que deveria interagir.

— Estive com meus pais hoje - comentou aleatoriamente. – Meu irmão pediu seu telefone.

Ouviu com graça Tenten engasgar e a encarar com os olhos arregalados.

— O que? - esganiçou-se.

— Bom, ele perguntou se estava solteira e eu disse que sim e depois lhe passaria seu contato – explicou.

Tenten balançou a cabeça várias vezes, tentando digerir a informação.

— Como assim? Achei que ele não fosse com a minha cara.

Hinata deu de ombros e acolheu em seus braços a garotinha que voltara, agora carregando um coelhinho de pelúcia.

— Do que estão falando, Obasan?

— Conversa de adultos, garotinha – Tenten respondeu com uma voz rouca, tentando, sem sucesso, imitar uma bruxa.

A menina riu e Hinata explicou:

— Estou tentando arrumar um namorado para essa bruxa malvada.

— Um namorado? Quem é? – seus olhinhos brilharam de curiosidade.

— Meu irmão, o príncipe das fadas mais lindo que existe nesse mundo.

Escutou Tenten dar uma risada alta e lhe encarou em censura.

— Desculpe, é não me contive. Creio que Neji não usaria uma roupa de fadas como a sua.

Sua resposta foi uma nova careta.

— E você tem namorado, obasan? – questionou a pequena, fazendo Hinata corar.

— Bom, não – admitiu.

— Mas teria se não fosse tão envergonhada – ralhou Tenten, o que a fez revirar os olhos.

Deu um beijo no topo da cabeça da garota, incentivando-a depois a juntar-se a roda de histórias.

— Você sabe que as coisas não funcionam desse jeito comigo - lamentou-se com um pouco de mágoa na voz.

Tenten meneou a cabeça, mas logo fez um gesto com a mãos, abanando-a no ar como um “sei” desinteressado.

— Olha, acho que é sua vez – informou, apontando para a roda e dando a entender que logo a princesa deveria entrar na história.

Sem continuar a discussão, Hinata se aproximou, balançando o jaleco como se fosse um vestido esvoaçante e tocando cada criança com a ponta de sua varinha. Não demorou muito para que Tenten também entrasse na brincadeira, correndo atrás dela e sendo atacada por muitas crianças.

Foi um tempo que correu rápido e logo após as brincadeiras, dirigiram as crianças para seus devidos lugares. Quem tinha quimioterapia ficou para um lado, quem apenas tomaria seus remédios iria pra outro. Como de costume, foi para atender as crianças da quimioterapia. Tirou seus adereços, guardando-os na bolsa que Ino lhe entregara e os deixou em uma cadeira. Estava colocando sua máscara de proteção quando sentiu o telefone vibrar nervosamente no bolso de seu uniforme, logo vendo que o nome que piscava alí era o de Neji.

— Moshi Moshi.

— Hinata, onde você está? – sua voz era nervosa e urgente.

— No hospital. O que aconteceu?

Ouviu ruídos do outro lado da linha e ao fundo o som de uma ambulância.

— Mamãe – disse secamente. – Estamos chegando ao hospital. Nos espere na emergência – e desligou.

Seu coração perdeu o compasso, embora ela já soubesse do que devia se tratar. Correndo em direção a médica residente que era responsável pela quimioterapia em seu turno, avisou que se ausentaria e correu em direção a ala de emergências. Não enxergava direito por onde estava passando, já com os olhos marejados e segurando o choro na garganta e, ao chegar deparou-se com a ambulância chegando ao estacionamento. Viu quando os paramédicos desceram, quando retiraram o corpo desfalecido de sua mãe, com os pulsos cobertos por gaze ensanguentada e viu o rosto de desespero de seu pai, ao lado dela. Viu quando Neji chegou em seu próprio carro, como desceu nervoso e caminhou em sua direção.

— O que aconteceu? – perguntou, agarrando o pulso do irmão.

— Nosso pai a encontrou na banheira, com os pulsos cortados – revelou, passando as mãos sobre o rosto. Sua atitude pareceu mais furiosa que preocupada.

Secou suas lágrimas com a manga do jaleco e deu um forte abraço em Neji. Não precisava de muito para entender porque ele estava tão bravo e, na verdade, tinha que admitir que também estava. Aquela não era a primeira vez que eram pegos por uma tentativa de suicídio da mulher. A primeira foi com remédios e, mesmo em seus primeiros anos na faculdade, conseguiu socorrê-la e evitar o pior. Depois Hiashi descobriu que havia comprado um veneno para ratos sem que estivessem precisando disso em casa. Era difícil para ele, assim como para seu pai e talvez um pouco para ela, entender a dor de sua mãe, mas recusava a aceitar que para ela um suicídio seria a melhor opção.

— O coração dela dói, mais que o nosso – disse baixinho, apertando a mão de Neji.

— Eu sei, Hinata. Estou me sentindo culpado por tê-la deixado sozinha, principalmente agora, mas... – ele respirou fundo e pode ver que seus olhos estavam chorosos.

— Tudo bem. A okaasan vai ficar bem.

— Você não pode acompanhá-la? – questionou o irmão, olhando por cima de sua cabeça.

Hinata balançou a cabeça negativamente.

— O protocolo médico não permite que trate alguém da família, além do mais, não tenho minhas permissões de residente.

— O que vamos fazer agora? – perguntou derrotado.

— Esperar – admitiu, embora também quisesse fazer algo.

Ficaram na sala de espera por um tempo que pareceu longo demais e ambos se revezavam entre pegar copos de café e perguntar sobre notícias. Hinata foi algumas quantas vezes buscar por informações com seus colegas do hospital, mas não obtiveram muito sucesso além de saber que seu pai se recusaram a sair da sala de cirurgia. Tenten e Ino haviam passado por ali pouco depois de saberem o que havia acontecido, lamentando o ocorrido e dando-lhe abraços de conforto, mas logo partiram.

Era difícil para ela ficar parada, esperando, e em sua cabeça já passavam milhões de possibilidades, embora soubesse que se algo de muito sério houvesse acontecido, teriam sido avisados. Mesmo assim, o nó na garganta era inevitável. Inevitável sentir a agonia e o medo de agora ter que lidar com duas mortes trágicas e precoces na família. O nó de, mesmo entendendo seus motivos e sabendo que a perda da filha caçula retirar a luz do mundo dela, sentia uma mistura de raiva. Será que ela não entendia que se ela também se fosse, o buraco naquela família só aumentaria? Respirou fundo, sentindo o ar faltar outra vez.

— Aonde você vai? – Ele perguntou ao vê-la ficar de pé.

— Preciso ir ao banheiro – e saiu em direção ao toalete mais próximo.

Caminhou a passos largos e firmes, sentindo agora um peso antes imperceptível no bolso do jaleco. Certificando-se que estava sozinha, parou em frente ao espelho, fechou os olhos e enfiou a mão no bolso, tirando de lá a boneca de palha. Contra a palma de sua mão ela era quente e áspera e vê-la ali, entre seus dedos, fez seu coração acelerar ainda mais.

Em uma enxurrada de memórias da noite passada, lembrou do homem que se apresentará como a morte, da promessa que ele fizera de dar-lhe a oportunidade de conseguir justiça ou vingança, o que viesse primeiro, porém lembrou também do preço para aquilo e hesitou.

Hinata nunca fora religiosa, mas temeu que, se realmente tivesse uma alma, o que poderia acontecer. Seria castigada? Iria para o inferno?

— A porcaria do inferno já é aqui – sibilou para o próximo reflexo.

E então, sem se permitir ter tempo para hesitar e mudar de ideia, desfez o laço.


Notas Finais


E aí, o que acharam? Capítulo muito grande, né? Tenho que aprender a diminuir um pouco.


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