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História Déspota - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo 1


O céu estava nublado. A rua escorregadia e irregular dificultava mobilidade da carruagem, o caminho estreito e dificultoso fazia os passageiros balançarem a cada erosão obrigados a passar.

O príncipe perdido nos acontecimentos recentes sentia o ar pesado comprimir seus pulmões, o cheiro podre amargava seu estômago, o suor escorrendo por sua testa e o olhar perdido. Queria não está naquele lugar, queria ter a consciência limpa novamente, não poderia apagar suas lembranças, seus atos imperdoáveis. Um raio havia caído em sua cabeça. Sentia que poderia vomitar a qualquer momento.

-À alteza está muito calado.

Ele tentou desviar seus pensamentos sórdidos e concentrar-se apenas na voz suave de seu companheiro, mas suas memórias insistia em repassar cada momento torturante até então. Suas mãos tremiam, seu corpo pesava, a pressão que estava sentindo seria demais para poder suportar. Remoendo cada segundo.

-Seu pai deve estar orgulhoso. Você conseguiu.

O nobre forçou seu resquício de estabilidade para não colocar todo seu desjejum para fora. Seus dedos apertavam o acolchoado em que estava sentado, a respiração saiu pesada pela boca sentindo o gosto terrível do ar grudar em suas papilas, seus poros transpirando, olhos lacrimejando. Sentia o peso ainda maior de suas escolhas, de suas palavras.

-Você estava lá... viu tudo...- às palavras tão amargas quanto sua alma. Queria poder desmanchar-se em culpa. medo. As mãos tremendo ainda mais.

Ainda poderia ouvir.

-Vi um grande governante. O trono será seu futuramente, fará escolhas piores.- o olhar afiado de seu companheiro dilacerava seus pensamentos, o peso das palavras dele ecoavam em sua cabeça.

Ele estava fora de si, queria poder gritar e pedir perdão. Quem sabe entregar a coroa e voltar para o aconchego de sua infância, mas é inevitável.

-Eu sei o que está pensando. Não pode.

O príncipe abaixou o olhar, engoliu suas palavras. O amargo tomando conta de seu coração. Juntou suas mãos arrancando um pedaço de pele de seu indicador com às próprias unhas .

-E-eu n-ão queria.- fechou seus olhos sentindo todo o acúmulo e lágrimas. A dor de seu dedo não se comparava ao desespero que lhe consumia aos poucos.

-Acalme-se, alteza.- suspirou. Sentia-se condoído pelo estado lastimável de seu senhor, mas não poderia regressar- Foi um decisão difícil, foi mais forte do que eu esperava.

Às palavras lhe faltaram mais uma vez. Sentia o sangue escorrer por seu dedo e manchar o chão da carruagem, contudo recusava à limpar ou olhar. A dor de seu recém ferimento incapaz de substituir a fenda aberta em sua carne, a dor em seu coração. Encostou sua cabeça no apoio detrás. O suor escorrendo por seu rosto.

-Eu enforquei aquelas pessoas. Rebeldes ou não, pacifista ou opressores, inimigos ou aliados. Eles tinham família, filhos e eu os condenei a morte na frente de todos. Mulheres e crianças os viram sendo enforcados. Eles, provavelmente, conviviam juntos e em um piscar de olhos à praça está cheia de corpos pendurados acusados de conspiração.

A dor passou, não sentia mais o sangue escorrer de seu dedo, seus batimentos voltando ao normal, o suor secando, pensamentos quietos. Queria apenas poder relembrar de cada segundo, os gritos desesperados, os olhares horrorizados, o ar condensado, o medo. A voz infantil de uma das crianças chamando por seu pai, até encontrá-lo com a corda  no pescoço e no momento seguinte e unicamente por sua autoridade, enforca-los.

-Como meu pai consegue?- perguntou em um sussurro mesmo não querendo a resposta.

O companheiro mediu cada pedaço do semblante do príncipe. Nunca o viu tão desnorteado , o estado catastrófico de suas emoções bagunçadas, as feições denunciava o quão perdido estava. Queria ter a autoridade o suficiente para tirar o peso de suas costas e mandá-lo de volta para o Primeiro Palácio. Quem sabe rogaria a majestade para levar o príncipe de volta, porém todos já esperavam que com o décimo quinto aniversário viria grande reponsabilidades, ingressaria efetivamente na conquista dos reinos. Daqui há alguns anos ele herdará a coroa, precisa está pronto.

Iria dizer palavras de encorajamento para seu senhor, porém a carruagem parou de súbito acompanhado com o agito dos cavalos. O herdeiro levantou seus olhos assustado, o companheiro se precipitou para proteger seu príncipe acima de qualquer circunstância. Não estavam um lugar seguro, era um reino recém conquistado, poderia ter rebeldes e mesmo sendo seguido por grande parte do exército do reino, precisava está em alerta.

Fez-se silêncio novamente. Não poderia ser um atentado.

O príncipe levantou rapidamente e saiu de dentro da carruagem antes de ser impedido por seu companheiro.

-Senhor, não saía da carruagem.- cinco guardas se prontificaram em sua frente. Olhou em volta e notou que guardas e mais guardas cercavam a carruagem.

-Enlouqueceu, alteza? Tamanho descuido. Cuidem dele, soldados.- seu companheiro ditou.

-Desculpe, senhor. Os cavalos se assustaram com uma criança, o pirralho correu para a frente da carruagem- o condutor surgiu cansado- Mas eu já o tirei do caminho.

-Esse barulho foi apenas uma criança? Seja mais atento na próxima. Vamos, alteza.

O príncipe desde que chegara de viajem não havia atentado-se aos detalhes característicos do reino, tão perdido que estava. Contudo o cheiro de podre não era a sua imaginação, aquele lugar é terrível. As casas feitas de madeira estragada, as ruas cheias de lama e barro, olhou novamente em volta e não viu ninguém além da comitiva real. Era uma decadência, pobreza e miséria. Húmido e fedorento.

-O que aconteceu aqui?- questionou. Já havia estado em outros reinos antes, mas aquilo estava fora de cogitação.

-Eu havia dito, alteza. Aqui era um reino de muitas riquezas, o antigo governante acabou explorando mais do que prosperado, roubou o próprio povo e fugiu. Eles já estavam na miséria, agora largados, pouco tempo depois uma doença arrasou um terço dos moradores e muitos morreram. É um milagre ainda ter gente morando aqui. Esse é o único lugar que o rei não conquistou.

Seu coração apertou. Suas emoções não lhe daria trégua tão cedo, mais uma vez teve vontade de sair correndo e desistir. Logo, logo estaria tão podre quanto este reino. O oxigênio preso em sua garganta misturado com o medo, angústia e desespero. Queria voltar ao Primeiro Palácio, trancar-se em seu quarto e chorar todas as suas lágrimas. Entregaria a coroa, imploraria para o seu pai.

Uma lamúria.

O herdeiro voltou a si. Buscou por quem fez esse barulho. Um pequeno amontoado de trapos jazia no chão. Deu apenas um passo.

-É melhor não se aproximar, alteza.- um dos guardas colocou-se em sua frente, mas seus pés se moviam sem consentimento.

O companheiro andou ao seu lado quando chegou até aquele pedaço de gente. Era uma criança.

-Foi ele quem correu em direção aos cavalos. Deveria está tentando se matar, nessas condições diria que não está muito longe.- explicou o condutor.

-Ele está doente.- falou o príncipe.

-Todos neste lugar estão. Devemos nos apressar... alteza?- o companheiro tentou mais uma vez persuadir seu senhor, porém o herdeiro nunca teve tão compenetrado nas feições de alguém.

Aquele reino destruído refletia em um garoto. As mãos ossudas com ferimentos, os braços finos, vestido de trapos sujos e mal cheirosos, os cabelos negros e enozados, os olhos fundos, a pele arroxeada pela doença e frio. Fraco e pequeno. Ele já estava condenado, não sobreviveria mais um dia. Não poderia fazer nada, iria dizer para a guarda retroceder e seguirem caminho para o  palácio, porém antes de abrir seus lábios seus olhos se ligaram. Não poderia deixá-lo.

 

 

Há duas semanas não encontra resto de alimento, ou se tiver sorte, uma fruta quando raramente tem na floresta. Restava-lhe pouquíssima força, tentava alimentar suas esperanças e rastejar em busca de sobreviver mais um dia. Não tinha nada e nem ninguém, sua família não existia desde quando sua mãe morreu devorada pela doença e seu pai afogar-se no rio lamentando à falta de sua esposa. Restou apenas ele e sua irmã, até poucos dias atrás ela morrer de fome. Todas as suas esperanças foram arrancadas cruelmente, não conseguia ir adiante. Viver doía até os ossos. Quando ouviu o trotar dos cavalos enxergou almejada saída, iria ver sua família novamente, porém nem isso possuía. Foi enxotado mais uma vez. Sabia que estava morrendo, abriu os olhos uma última vez e em vez de do céu manchado enxergou um anjo. Desconhecia essa sensação, era quente e belo. Uma emoção estranha corria por suas veias fazendo seu coração bombear o pouco sangue que lhe resta. Antes de desmaiar, ouviu:

-Coloquem ele na carruagem.

 

Poucas vezes o companheiro ouviu seu senhor soar como o verdadeiro príncipe que é, nem quando mandou enforcar vinte homens empunhou suas decisões na frente da opinião alheia. Sabia o motivo por ele está fazendo isso.

-Não precisa fazer isso. Salvar esse garoto não vai a apagar suas decisões, alteza.- suspirou- Ouviram o príncipe! Peguem ele.

Toda à guarda retomou seus postos, alguns confusos pela decisão fora de contexto de seu senhor, principalmente, quando esse ordenou que colocassem o pedaço de gente na mesma carruagem em que estava quando claramente deveria ao menos ir com os empregados.

O príncipe secou o suor que escorria por sua bochecha com um pequeno lenço de bolso. Dedicava-se a desentender o olhar desconfiado de seu companheiro. Estava exausto psicologicamente, não queria responder indagações ou explicar situações. Queria ignorar tudo envolta até a presença infame de seu novo servente.

-O senhor está um caos- sentenciou- Não deve aparecer assim diante do rei.

-Minha aparência é o que menos importa.- enrolou o lenço ao redor de seu dedo machucado.

-Ao menos tente aparentar está mais tranquilo. Está tão rígido quanto uma rocha.

O herdeiro suspirou convencido certo dos concelhos de seu companheiro. Percebeu que estava tão tenso ao soltar seus músculos. Dentre todos seus deveres reais nunca esteve tão sobrecarregado.

-Não devemos esta tão longe. Os guardas logo anunciarão nossa chegada.

O príncipe assentiu arrumando seus cabelos e posicionando bem sua coroa, ajeitou os botões de suas vestes, regulando à manga mais para baixo, dispôs suas botas e espanou sua calça. Olhou novamente para seu companheiro esperando aprovação, recebendo um leve manear de cabeça.

Ele tentou levar suas divagações para mais longe possível, esquecer por poucos minutos as obrigações que teria participação de hoje em diante. Porém sua tranquilidade foi dissipada pelo comunicado de seu pai, anteriormente estava tão absortos no Quinto Reino para processar as informações relatadas, mas agora tudo se embrenhava na mais pura confusão. O que seu pai está planejando? Antes de ter a chance de questionar para seu companheiro, houve uma leve batida na porta da carruagem anunciando a chegada no palácio. Sobressaltou-se até reconhecer o som do trompete transmitindo o regresso da comitiva real.

Ajeitou sua postura antes de sair da carruagem.

-O que faremos com ele?- perguntou seu companheiro olhando de soslaio para o garoto desacordado.

-Peça aos guardas que o levem para a enfermaria. Depois veremos o resto.

-Vossa majestade está aguardando a alteza na sala do trono.- um dos servo de seu pai o abordou assim que adentrou o grande portão do castelo.

Mesmo o povoado está em estado lastimável esperava um tanto mais do palácio. Contudo, tudo parecia está indo de mal a pior naquele lugar, até as paredes de mármore estavam sujas, sem prata ou ouro, coberto por lodo. As grandes portas dos aposentos estavam arrancadas, as escadas por onde passou são escorregadias, o grande jardim invadia alguns espaços abertos e as únicas flores que, provavelmente, decoravam o ambiente estavam murchas, aquele ambiente húmido deveria ter tornado-se morada dos animais peçonhentos da floresta. Apena sum grande espaço vazio.

-Depois de ter roubado o próprio povo, os aldeões estavam desesperado por alimento. Eles invadiram o palácio e pegaram tudo que podiam carregar.- esclareceu o companheiro dado a confusão de se senhor.

Mais uma vez se perguntou o que seu pai planejava fazer em um lugar falido como esse. Decidiu guardar suas indagações quando encontrasse o próprio, seguiu mãos de perto o servo esperando chegar logo em seu destino. Tudo ali parecia exageradamente longe. Assutado com a condição deplorável daquele reino, se ainda poderia denominar assim.

-O servo se curvou em sua direção e escancarou um grande portão cedendo-lhe passagem para adentrar o espaço.

-A vossa alteza!- anunciou em alto e bom som.

Seu pai estava distraído com seu machado expondo sem esforço a coroa pomposa em sua cabeça, dialogando com alguns governantes aliados de seu reino. Olhou em sua direção deixando seu artefato de guerra com um dos guardas e andou até si. De todas as saudações que aguardava, nunca esperava que seu pai lhe esmagasse à espinha em um abraço exagerado. 

-Eu soube o que fez no Quinto Reino. Controlou os rebeldes como ninguém.- o rei apertou seus ombros orgulhoso, o príncipe não soube reagir a tal afirmação- Eu esperava medidas assim de sua irmã, mas pelos relatórios não temos nada fora do comum.

Ele tentou, mas uma vez naquela manhã engolir a ânsia instalada em seu estômago. Queria aceitar as congratulações e sorrir resplandecente, porém seu pai está lhe felicitando por enforcar vinte homens como se fizesse todos os dias.

-Obrigada, majestade.- sorriu artificial.

-O príncipe foi incrível, senhor. Todos viram seu ato, ninguém ousará se rebelar contra o reino depois desse acontecimento.- apoiou seu companheiro.

A coluna retesada com a proximidade de seu pai, de perto olhando em seus olhos ele poderia descobrir que não está feliz com nada. Arrependia-se de sua decisão.

-Eu irei parabenizá-lo adequadamente com a chegada de todos. Soube de seu desempenho ao lado de meu filho, estou satisfeito com o apoio a ele.

Seu companheiro reverenciou cordialmente em direção ao seu pai enquanto esse se afasta.

-O que pretende fazer, pai?- inquiriu afastando todos os maus pensamentos.

O rei mais uma vez sorriu em sua direção tomando o lugar onde deveria ter um trono cravejado de pedras preciosas, porém mais um espaço vazio.

-Quando todos chegarem, meu filho. Mas esse reino será nosso grande triunfo.

-O que o senhor pode tirar proveito de um lugar como esse? Está tudo arruinado.- sua mente embaralhando tentando achar lógica no pensamento de seu pai.

-Sua mãe e sua irmã chegarão com o exército amanhã em horários opostos. Muito provavelmente nos reuniremos pela noite com os governadores.- o ar de vitória emanando de seu pai lhe causava calafrios.

-Conquistaremos outros reinos?- não seria a primeira reunião convocada por seu pai, mas o lugar como esse reunindo todo um exército? Não ocupavam reinos somente com força e guerra. Para reunir toda a sua família fora do Primeiro Reino deveria ser algo grande.

-Não se apresse, filho. É melhor descansar da viajem, amanhã teremos um longo concílio. Não é um lugar agradável, mas as servas o levarão para seus aposentos.- encerrou seu pai.

O ar lhe causava náuseas, estava tonto e atônito. Descansar parecia uma ideia agradável, depois da longa viajem e dos últimos acontecimentos necessitava dormir um pouco. Se curvaria para seu pai e pediria licença, porém antes de fazê-lo os grandes portões da sala do trono foram abertas. Olhou para quem estava entrando sem autorização do rei e para a sua surpresa dois guardas estavam arrastando o garoto que havia salvado.

-O que isso significa, soldados?- perguntou seu pai questionando tal situação demonstrando visível desprezo pelo estado do garoto.

-Isso foi encontrado na carruagem de seu filho, majestade.- um dos guardas falou largando o pedaço de gente aos pés do rei.

O menino não aguentava as próprias pernas, os olhos fundos e aturdido. Se fizesse qualquer esforço desmaiaria ali mesmo.

-Estava roubando?- questionou o rei analisando cada parte do rosto escondido dele. Talvez ele nem soubesse a atual condição, duvidava se conseguiria gesticular uma sílaba. Sabia o quanto seu pai era intransigente com infrações.

-Pai, ele está comigo. Será meu novo escudeiro.- revelou. O olhar do rei foi do garoto ao chão para seu filho.

-Seu companheiro não estar fazendo um excelente trabalho?

-Sim, majestade. Mas esse será para um soldado defensor, irá na minha frente nas batalhas.- tentou manter a postura tão segura quanto de seu pai.

-Ele rato não tem o menor porte de um soldado. Está morrendo.

-Ele será cuidado e alimentado pelas enfermeiras. Seus soldados não deveriam ter o tirado de onde estava. Ele será treinado e preparado para defender a coroa.

-Vejo que está decidido. De tantos soldados que poderia escolher optou logo por isso?- o olhar crítico do rei capturou o corpo esguio do garoto. Os soldados seguravam sem nenhum esforço o braço ossudo dele.

-Isso pode ser de grande valor para mim.- desviou brevemente seu olhar para ele, mesmo sendo apoiado pelos guardas procurava mais apoio com os joelhos no chão. Estava prestes a desmaiar.

-Não vejo valor algum nele.- mesmo o príncipe tentando demonstrar tal compostura de um líder, estava temeroso. Não conseguia, jamais, ir contra seu pai.

-É meu...- tentaria apelar pela última vez a prudência do rei. Eles ainda fazia atos de piedade.

-Você tem razão, filho. Admiro sua compaixão, um grande rei sabe onde deve aplicar sua clemência.- o sorriso tétrico do rei lhe causou pânico, de modo algum seria capaz de desvendar os pensamentos torpes de seu pai- Contudo, ao fazer parte de qualquer exército de nossa família, ele deve asseverar sua completa lealdade ao nome de seu salvador.- o príncipe poderia ver a incitação atravessar os olhos opacos do rei.

Sob nenhuma condição aquele pedaço de gente conseguiria pôr-se de pé e proclamar lealdade perante a corte. Na pior das hipóteses, ele seria expulso do palácio e estaria condenado a morte. Diante de todas as vertentes ele já está morto.

-Peço que leve em consideração a condição em que ele se encontra, majestade. Agora sua lealdade não me servirá de nada, sendo que ao menos pode ser considerado uma pessoa nessas circunstância.- estava falhando, sua voz poderia travar a qualquer momento. O estômago revirando de nervosismo, nunca havia insistido tanto pela vida de alguém.

Todos ali estavam em total silêncio apreciando o diálogo desafiante dos ascendentes. O príncipe queria buscar com o olhar a ajuda do bom senso de seu companheiro. O rei sempre o ouvia, mas estava sozinho.

-Menosprezar o seu atual servente não vai mudar as leis, filho. Foi assim que o encontrou, é assim que ele deve exaltá-lo. Mas se não for possível, o sangue dele será um preço a se pagar, aliás ele traiu sua bondade ao ser incapaz de honrá-lo por o ter salvo da morte, porém a masmorra pode ser um excelente alternativa. Ele está quase morto mesmo.

O príncipe queria poder dizer que a culpa de estarem naquela árdua situação é completamente do próprio rei. As leis eram dele! Foi ele quem as idealizou.

O temor da soberania de seu pai cedeu lugar a indignação do momento. Se recusava a mandar mais uma pessoa a morte, principalmente por esse não ter nenhuma acusação de conspiração. O príncipe fechou seus punhos e respirou fundo.

-Solte-o!- ordenou aos soldados do rei, eles olharam brevemente para seu líder.

O príncipe agachou-se próximo ao pedaço de gente. Torceu seu nariz ao sentir o fedor das vestes puídas. Não sabia o que deveria dizer ou ao menos se ele poderia ouvir, um milagre ele não está desacordado.

-Eu posso te salvar mais uma vez, mas você precisa se ajoelhar diante de mim. É uma ordem!- sussurrou, não queria ser ouvido por alheios. Ao menos poderia o ajudar à levantar, contudo suas palavras não surtiram um mínimo efeito. O garoto permanecia inerte abandonado ao chão.

Entretanto mesmo que as palavra soassem ásperas aos seus ouvidos, tinha um breve lapso de lucidez ao reconhecer quem estava lhe falando. Não tinha noção de tempo ou onde estava, até era desconhecido por si o perigo que estava correndo. Um anjo. É o anjo que o salvou das traças e do pensamento suicida. É a voz dele lhe dando ordem, tinha ânsia de lhe servir qualquer desígnio.

Buscou forças onde não existia. Necessitava aquiescer as ordens de seu anjo, mas estava fraco. Ao menos conseguia pôr-se de pé, suas mãos tremia e suas pernas oscilavam, seu subconsciente lhe chamava mais alto, poderia ouvir a voz de sua mãe, seu pai trazendo o jantar do dia e o doce aroma da torta de maçã que sua mãe sempre preparava. Foi tudo tão cedo. Queria poder poder se juntar a sua família, sentia-se sozinho e abandonado nesse mundo sombrio. Se pudesse retroceder, faria de tudo para não perder nenhum deles mesmo que tivesse fora de seu alcance. Agora existia uma chance em suas mãos. Seu subconsciente o revestia com um agradável abraço frio, os pensamentos nocivos cobria seu discernimento.

Desistiria 

Poderia se juntar a sua família. Seria amado novamente.

Entregar-se-ia aos más pensamentos, era sua única saída, não tinha vigor para acatar um só ordem. Queria olhar para seu anjo, seu único objetivo é sucumbir a morte olhando nos olhos de seu salvador . No entanto, ao buscar o olhar dele para morrer em paz viu que não poderia deixá-lo. O anjo é sua única esperança. A mesma sensação quente envolveu seus ossos, não doía mais. Os pensamentos ruins indo em bora as poucos.

Seu pé fincou firme do chão, o olhar resplandeceste dele tão belo quanto um dia de sol ao lado de sua família iluminava sua mente. Não tinha forças para ficar de pé permanecendo de cabeça baixa, as mãos tremulas.

O príncipe tentou esconder um sorriso aliviado, não poderia descrever a angustia que sentiu quando seu novo servo o olhou. Aparentava uma despedida. Ele esperou pacientemente a próxima ação do pedaço de gente, mas parecia que ele não conseguia mais do que aquilo. Já é o suficiente para si.

Abriria os lábios para aceitar ele em seu exercito, mas seu pai o interrompeu.

-Ajoelhe-se, rato!- a voz do rei preencheu toda a sala do trono. Mesmo a situação sendo angustiante, havia esquecido das circunstância ao ver o esforço disso.

-Majestade, eu já considero válido o empenho do meu novo servo. Ele será introduzido no exército real ao ser tratado e treinado. Guardas!- queria acabar logo com tudo isso antes de seu pai ter uma nova ideia absurda.

Os guardas pertencentes a ala real do príncipe locomoveram-se até onde o seu senhor o chamou, porém pararam assim que viram a mão do rei erguida.

-Não acabamos, filho. As leis são bem claras.

A raiva e inquietude sendo suas únicas aliadas no momento. Queria salvá-lo, porém o rei tão inflexível lhe deixava ainda mais odioso.

-Majestade, ele não conseguirá mais do que isso. Como meu servo, eu aceito o desemprenho dele.- sibilou firme. O olhar corajoso do príncipe incitava a imaginação do rei.

A sala do trono permanecia em silêncio, os demais não ousavam mover um só musculo. Sufocados pelo pânico da presença de seu rei e seu príncipe, não poderiam imaginar o quão amedrontador poderia ser o diálogo entre monarcas.

-Tenho certeza que isso sentirá conforto no calabouço.- o rei moveu-se para onde deveria ter um trono, aparentemente exausto pela tenacidade de seu filho.

-Espere!- pronunciou firme. Já estava farto, ansiava o quanto antes sair da presença asfixiante de seu pai.

O príncipe adiantou alguns passos e ajoelhou-se novamente. Queria tirá-lo daquela situação. Tentou buscar o olhar de seu servo, contudo não estava lhe restando nada. Não sabia o que fazer, não sabia se seria ouvido. lembrando-se da situação em que haviam se encontrado.

-O que estava tentando obter ao se jogar em frente a minha carruagem?- tentou, não sabia se ele o entedia, mas prosseguiria- Almeja tanto a morte? Sinto muito, mas não posso te conceder tal absurdo- contou ainda mais silencioso- Seu sofrimento terminou, estou aqui agora. Te trouxe a salvação, não vou deixar que parta. Então, por favor, apenas diga ao rei que me servirá e será leal a mim.- disse por fim. Esperava que ele entendesse a urgência em sua voz, se ao menos pudesse olhar nos olhos dele veria o quanto também está angustiado. Se afastou para dar espaço a ele.

Por favor, fale alguma coisa.- pediu silenciosamente.

Quando seus pais ainda estavam vivos, lembrava-se de vê-os juntar as mãos em prece. Sua mãe o ensinava junto de sua irmã sobre a existência de uma divindade, um Deus que residia no céu. Acreditava, porém. O livro também testificava a existência de anjos. Mesmo nunca tendo o visto na realidade, sabia que estava na presença de um. Ele reluzia, brilhava quando tentava o olhar, a voz morna e terna afugentava os pensamentos fúnebres. Sabia que com ele voltaria a sorrir, jamais ouviria novamente seu estômago roncar de fome. Voltaria a viver. Então, com o chamado de seu anjo abriu seus olhos devagar. 

Poderia viver junto de seu anjo

Retomou a vitalidade de onde não existia mais.

Viveria feliz com ele 

Fincou seu pé firme no chão, tentou levantar-se e olhar na direção de quem estava presente.

Voltaria a sorrir, a amar

Esforçou-se a puxar mais ar aos seus pulmões, mas a cada mínimo movimento seu corpo sucumbi ao chão, mas iria até o final.

Poderia ouvir a mesma voz que o salvou todos os dias 

Abriu seus lábios para emitir algum ruído, mas não tinha som em sua garganta. Suas cordas vocais atrofiadas pelo eterno tempo em que só sabia se esconder e ranger, não tinha com quem conversar, vivia isolado em busca de migalhas para se alimentar. Entretanto, já estava o vendo embaçado, via o olhar dele o observando, ele lhe dava forças. Tentou novamente, sentia algo vindo. Poderia falar, conseguia.

Viveria por ele

-E...e...eu...-forçou, sua garganta arranhava, sua cabeça rodava- Eu devoto a...a... a minha...- queria desmaiar, não sabia o quanto poderia ser desafiador proferir poucas palavras, mas conseguiria qualquer coisa se fosse por ele- a minha vida... ao meu...- os olhos do príncipe estavam preso nele. Queria poder se aproximar e tocá-lo, os olhos brilhantes refletindo seu futuro.- Salvador.- findou seu limite. Sua visão ficou escura novamente, seus pés o traíram. Contudo, em vez do baque rígido contra o chão, seu corpo débil encontrou algo acolhedor. Sentia um aroma agradável invadir suas terminações nervosas, sabia que poderia dormir sem pesadelos. Um cheiro de vida.

O príncipe sentiu seu peito encher-se de esperança. O medo de seu pai desaparecera, não estava mais na sala do trono, não tinha guardas e conselheiros por toda parte, não existia mais ninguém ali. Apenas ele. 

O amou no exato momento em que o viu pela primeira vez, ligados por algo que não sabia mensurar. Aquele pedaço de gente seria uma parte de si, a única parte boa. As palavras mesmo com a voz fraca o atingiu tão fundo quanto a tristeza que estava carregando por todo seu dia. Não sentia mais culpa, sentia alívio. Queria sorrir e chorar de felicidade, não sabia qual parte de si aquele ser estava mexendo consigo, contudo despertava algo nulo e desconhecido. Antes de terminar, viu que ele não conseguiria mais do que aquilo. Já é o suficiente, mais do que o suficiente.

Suas pernas foram mais rápidas do que seu raciocínio, antes dele cair o príncipe o segurou contra seu corpo. A cabeça apoiada confortavelmente em seu ombro. Não queria olhar para seu pai, apenas tirá-lo logo dali.

-Eu o aceito. Aceito e guardo suas palavras. A partir de hoje me servirá, sua vida pertence a mim.- falou, não queria parecer mais afetado do que já estava, mas precisava acabar logo com isso- Guarda!- chamou, o príncipe entregou o resto de gente nos braços de quem se aproximou primeiro.

-Se não se importa, papai. Posso me retirar?- queria apenas correr, mas ao olhar para o rei não viu um olhar desconfiado ou irritado por não ter esperado mais ordens, encontrou um sorriso. Não era bom, sentiu um arrepio amedrontador correr sua espinha.

-Filho, o palácio é seu. Aproveite.

Ele reverenciou diante da majestade de seu pai e retirou-se o mais depressa que conseguia, deixando o ar gélido da sala do trono.

Alguma serva se aproximou cautelosamente sussurrando algo que seu cérebro não conseguia processar no momento. Imaginou que seria para onde seria seu quarto, então apenas a seguia em silêncio. Sua mente inundada por pensamentos barulhentos, queria desligar-se por um segundo. Sem tentar desvendar os pensamentos de seu pai, sua irmã saberia. Ela é igual a ele.

Sentia o suor deslizar por sua bochecha. Estava, sem dúvidas, exausto. A farda que usava pregava em sua pele, não estava quente ou frio, mas suava. A coroa que estava habituado pesava em sua cabeça, sentia as pernas fracas, lábios secos.

Ainda subiu uma leva de escadas antes de chegar onde, provavelmente, seria seu quarto. A serva abriu a porta para o príncipe, contudo antes de proferir algo, ele se adiantou.

-Tranque a porta ao sair. Não quero ser incomodado.- ditou. Não costumava soar ríspido, mas estava farto do dia de hoje. Ele apenas fez uma reverência e saiu.

O príncipe desabou assim que ouviu a porta ser fechada. Jogou a coroa longe, desfazia os botões de sua camisa, queria tirar tudo que o lembrava de quem é. Sentia falta de ar, seu pulmão queimava, os flashes vindo de uma vez. Chorava, lamentava, queria gritar alto. Suas mãos tremia, estava sozinho, mas via seu pai apertar seu pescoço. Estava fraco e tento, suava frio. Cambaleou até sua cama, chorava desesperado em silêncio.

Estava perdendo o controle de si. Tapou sua boca assim que sentiu que gritaria, amaldiçoou a si mesmo, sabia que seria difícil ao completar o décimo quinto aniversário, entretanto ninguém o preparou para suportar uma carga emocional tão grande. Tentava expurgar todos seus medos nas lágrimas, mas seu peito comprimia mais. Com a visão turva chorou mais. Dedicou poucos segundos para voltar ao normal, mas apenas conseguiu dormir vendo todos os corpos que mandou enforcar pendurados em sua frente, no entanto, não estava sentado no trono como hoje de manhã enquanto assistia tudo. Estava entre eles, uma corda presa em seu pescoço e seu pai sorrindo. O mesmo sorriso de sempre.

                                                                                            -D- 

Acordou com o rosto no travesseiro. Com a cabeça latejando, moveu-se devagar na cama. Era apenas um pesadelo. Abriu seus olhos devagar, já está de noite. Não reconhecia aquele ambiente, levantou da cama. Levou poucos segundos para recuperar a consciência, não foi um pesadelo.

Seu coração estava apertado, queria afundar novamente na cama. Então notou a coroa jogada no chão. Relembrou todo o dia, até os momentos que queria esquecer. Mas havia um, um ensejo que o deixava menos angustiado.

Alinhou os botões de sua camisa e calçou novamente as botas anteriores, não quis sequer olhar para sua coroa. Respirou fundo, olhou em volta por um segundo e observou que as servas fizeram o melhor possível para deixar seus aposentos limpos. O aroma desagradável das ruas não atingia seu  quarto.

Corredores longos, imensas salas vazias, escadas sem fim. O príncipe caminhava pelos corredores sujos e abandonados do palácio sem saber para onde ir. Agradecia por não encontrar nenhum guarda ou criada, queria ficar sozinho. Ao andar por longos caminhos percebia que sentia falta de sua casa, nada ali soava familiar. Sentia falta de sua mãe e irmã.

Ao andar mais a fundo nos corredores, finalmente encontrou umas das criadas. Aproximou-se devagar antes dela o perceber.

-Como faço para encontrar a enfermaria?- questionou. Ela assustada fez uma reverência ao ver quem fala.

-Alteza, não o tinha notado. É aqui, senhor.- ela revelou ainda de cabeça baixa indicando uma porta atrás de si. As paredes escuras inundada por lodo e pela floresta  unido pela iluminação precária, não pôde ver que ainda existia uma porta naquele andar abandonado. O príncipe agradeceu com um aceno de cabeça e entrou na sala.

A extensa sala estava vazia, contudo podia ver alguém ao longe coberto por lençóis brancos. Não percebeu seu andar mais apressado, seu coração palpitava ansioso. Quase podia ver um sorriso contornar seu rosto. Aproximou-se, enfim. O garoto estava diferente, reparou que as criadas ainda não havia banhado ele, mas seu rosto estava parcialmente limpo, trajava outras roupas. Podia ver melhor suas feições, o semblante estava calmo. Perguntou-se se ele já havia se alimentado.

Conseguiu. Conseguiu salvá-lo.

O príncipe sentiu um peso abandonar seus ombros. Sentou junto a ele, institivamente passou sua mão pela fronte do resto de gente. Sorriu alegre.

-Você é meu último ato de misericórdia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Notas Finais


Aproveitem a quarentena ^_^


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