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História Destined - Capítulo 15


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Capítulo 15 - Passado...


 Álvaro (sete anos antes)

Meu celular vibrou sobre a mesa. Peguei e grunhi sem dizer oi.

— Você está atrasada.

— Você realmente achou que eu chegaria cedo? — perguntou Sarah. Pelo tom de sua voz, eu sabia que ela estava sorrindo.

Balancei a cabeça e sorri de volta, embora não estivesse feliz com o atraso. De novo.

— Onde você está?

— Saí mais tarde do que imaginei e tive que passar em um lugar. Vá indo que já vou. Encontro você no restaurante, não no escritório.

Para uma atriz, ela realmente precisava trabalhar para ser menos transparente.

— Onde você está indo, Sarah?

— Uma missão.

— Algo para eles ou seguindo Jonny?

— Não dá na mesma?

— Não, não dá. Por favor, me diga que você não vai para aquele lugar de novo.

Ela ficou quieta.

— Droga, Sarah. Achei que tínhamos concordado que você não iria mais fazer essa merda.

— Não, você me disse que eu não iria mais fazer. Não quer dizer que concordei.

Passei os dedos pelo cabelo.

— Me espere na cafeteria quando sair do metrô.

— Eu estou bem.

— Sarah...

— Você está sendo superprotetor. Vai ser assim quando nos casarmos? Quer que eu fique grávida e descalça, esperando você com seus chinelos na porta?

Eu a pedi em casamento havia dois dias. Provavelmente não era uma boa ideia dizer a ela que eu adoraria exatamente isso, porque, pelo menos, eu saberia o que ela estava fazendo.

Peguei o paletó no armário do escritório e fui para o elevador.

— Estou a caminho, sua mala.

Na calçada, liguei para minha irmã enquanto caminhava até o metrô para dizer que chegaria atrasado.

— Vai chegar atrasado para a própria festa de noivado?

— A ideia foi sua, não minha. Você procura qualquer desculpa para fazer festa.

— Meu irmãozinho vai se casar. É uma grande coisa, não uma desculpa. Deus sabe que todos nós pensamos que você morreria de alguma IST antes de Sarah aparecer.

— Não vamos ter essa discussão. Vamos atrasar porque minha noiva pensa que é Columbo. Tenho que ir.

— Quem?

— Esqueça. Nos vemos em breve. E obrigado, maninha.

Quando cheguei ao metro começou a chover.

Assim que consegui sinal no celular, liguei para Sarah. Ela não atendeu.

— Merda. — resmunguei e fui me abrigar na frente do prédio mais próximo.

A chuva caía em diagonal, e tive que cobrir o celular com a mão para mantê-lo seco. Liguei novamente e esperei que ela atendesse. Mas nada aconteceu.

— Droga.

Sabia que a comunidade improvisada para desabrigados não estava longe e assumi que Sarah não tinha se preocupado em me esperar. Abrindo o Google Maps, encontrei a área do parque com a ponte. Ficava a três quarteirões de distância, então resolvi andar na chuva. A cada trinta segundos, eu telefonava de novo. Cada vez que a ligação ia para a caixa postal, minha ansiedade aumentava. Eu estava com uma estranha sensação na boca do estômago e, depois da terceira chamada sem resposta, algo me fez começar a correr.

Outra ligação.

Outra caixa postal.

Virei a esquina e vi a ponte que Sarah descreveu ao longe.

Outra ligação.

A voz de Sarah soou, me dizendo para deixar uma mensagem após o bip. Algo pareceu errado. Muito errado.

Acelerei o passo.

Quando o celular vibrou em meu bolso, meu coração batia forte. Ver o rosto de Sarah na tela deveria ter me acalmado, mas, por algum motivo, isso não aconteceu.

— Álvaro, onde você está? — A voz dela era instável, parecia amedrontada.

— Onde você está?

Ela não respondeu.

— Sarah? Merda. Onde você está?

O barulho do celular caindo no chão soou alto em meu ouvido. Mas foi o que aconteceu depois que me assombraria pelos próximos anos.


Itziar

Acordei com Álvaro tentando respirar. Era um barulho ensurdecedor que parecia sair de dentro dele, e não hesitei antes de acordá-lo.

— Álvaro, acorde. — Eu o cutuquei com força.

Ele abriu os olhos e me encarou, mas era como se não me visse de fato.

— Você estava tendo outro pesadelo.

Ele piscou algumas vezes, e sua visão entrou em foco.

— Você está bem? — perguntou ele.

— Estou. Mas você... parecia que não conseguia respirar.

Eu não tinha certeza se era um pesadelo ou se estava realmente tendo alguma dificuldade respiratória.

Álvaro se sentou. Seu rosto estava úmido de suor, e ele enxugou a testa com o dorso da mão.

— Desculpe por tê-la acordado.

Assim como no dia anterior, ele saiu da cama e passou dez minutos no banheiro, com a água correndo. Quando voltou, ele se sentou de novo na beirada da cama, eu fiz o mesmo que pela manhã e o abracei por trás, só que agora eu estava vestindo uma camiseta.

— Você está bem? — perguntei.

Ele assentiu.

— Tem algo que eu possa fazer?

— Você poderia tirar a camiseta. Seus peitos pressionados contra minhas costas contribuem muito para aliviar os pesadelos.

Assinalei o óbvio.

— Hummm... você já está acordado. Não acho que isso ajudaria com os pesadelos de hoje.

— Talvez agora não, mas sempre tem amanhã.

Eu sorri, me inclinei para trás e tirei a camiseta.

Pressionando a pele nua contra a dele, perguntei.

— Melhor?

— Claro que sim.

Ficamos assim por uns bons dez minutos, nossas respirações se sincronizando no quarto silencioso e escuro.

— O pai de Sarah foi embora quando ela era pequena, e ela, a mãe e as duas irmãs fizeram todas as refeições em um abrigo por um tempo. Quando Sarah ficou mais velha, ela queria retribuir o que fizeram por ela, então se voluntariou em alguns restaurantes comunitários. Ela fez amizade com um cara, Jonny, que tinha problemas com as pessoas se aproximarem muito dele e, por isso, se recusava a dormir nos abrigos. Jonny estava sendo agredido por um grupo de adolescentes. Eles apareceram à noite em um acampamento em que havia muitas pessoas que não tinham onde dormir e começaram os problemas. Era um jogo dos garotos. E todos os dias Jonny aparecia com um corte na cabeça ou com hematomas.

— Que horrível.

— Sim. Sarah foi à polícia, mas não fizeram muito. Jonny não falava mais que uma ou duas palavras aqui e ali, e Sarah não podia deixar quieto. Ela começou a segui-lo à noite para ver onde ele estava dormindo, pensando que, se desse mais detalhes à polícia, eles investigariam o caso. Eu avisei que não era seguro, mas ela não me ouviu. No dia de nossa festa de noivado, Jonny apareceu no abrigo com o nariz quebrado e os olhos roxos. Sarah descobriu onde ele ficava e apareceu para ver se tirava mais informações dos outros, já que Jonny não falava muito. Ela me esperaria na estação de trem.

— Puta merda.

— Eu a encontrei alguns minutos depois. Jonny a estava embalando e balançando de um lado para o outro, sentado em uma poça do sangue dela. Foi um ferimento a faca. Ela deve ter ficado no caminho do jogo de bater em pessoas sem-teto. — Ele respirou profundamente. — Ela morreu antes que a levassem para a ambulância.

Minha garganta queimou, e as lágrimas se formaram em meus olhos, deslizando em seguida por meu rosto.

Álvaro deve ter sentido a umidade em suas costas.

— Você está chorando?

A passagem de meu peito para meus lábios estava entupida. Era difícil falar.

— Sinto muito pelo que aconteceu, Álvaro. Não consigo imaginar pelo que você passou.

— Não contei isso para chatear você. Só queria que soubesse, assim não haverá segredo entre nós. Odeio que os pesadelos tenham voltado, mas esta é a primeira vez que sinto mais que alguma coisa física por alguém desde Sarah e não quero estragar as coisas antes mesmo de ter a chance de começarem.

— Você não está estragando as coisas, é exatamente o contrário.

Álvaro se virou, me puxando para seu colo. Afastando uma mecha de cabelo para trás de minha orelha, ele disse.

— Não sou um herói como seu irmão.

Minhas sobrancelhas arquearam.

— O que você está falando?

Ele balançou a cabeça.

— Não mantive Sarah em segurança.

— Como assim? O que aconteceu não foi culpa sua.

— Eu deveria estar com ela.

— Alvaroy, isso é loucura. Você não pode proteger alguém vinte e quatro horas por dia. Não é como se você tivesse colocado a faca na mão do assassino. As pessoas precisam assumir a responsabilidade pela sua própria proteção. É por isso que sou como sou. Minhas experiências me tornaram ainda mais consciente disso.

Álvaro olhou em meus olhos, como se procurasse sinceridade. Quando encontrou, porque falei cada palavra do fundo do coração, ele assentiu e beijou meus lábios com gentileza.

Ele exalou, e eu realmente senti a tensão deixar seu corpo.

Ao verificar o despertador na mesa de cabeceira, ele falou.

— Não são nem cinco horas. Por que não dormimos um pouco?

Eu não tinha certeza se era apropriado, mas queria fazê-lo se sentir melhor, tirar sua cabeça da tristeza do passado.

Nenhum de nós poderia mudar o que aconteceu em nossa vida, mas poderíamos deixar para trás, seguir em frente e viver. Meus cílios piscaram antes que eu falasse.

— Não estou com sono.

— Não?

Balancei a cabeça de um lado para o outro, bem devagar. O timbre da voz dele diminuiu.

— O que você tem em mente?

— Talvez um pouco disso. — Inclinando a cabeça, beijei seu musculoso peitoral. Seguindo em frente, eu alternava entre lamber com gentileza e sugar até chegar ao maxilar.

Minha língua seguiu de uma extremidade de sua bela boca até a outra, dando um beijo suave no canto dos lábios.

Virando a cabeça para capturar meus lábios com os dele, Álvaro me beijou profundamente. O beijo pareceu diferente dos outros que compartilhamos, mais intenso, mais apaixonado, mais significativo. Se cada um de nossos beijos fosse uma história, esse seria aquela em que o mocinho salvava a garota, e eles cavalgavam ao pôr do sol.

Durante uma hora, compartilhamos mais do que apenas o corpo. O sol começou a subir, lançando um tom dourado no quarto enquanto Álvaro lentamente se movia para dentro ebpara fora de mim. Era bonito e terno, e senti tudo em minha alma, coisa que até então eu não considerava possível.


                                    ***

Pegamos um voo noturno após o segundo dia envolvidos nos grupos focais. Depois de trabalhar lado a lado durante o dia e dormir enrolados nos braços um do outro, uma sensação de melancolia tomou conta de mim enquanto seguíamos para o aeroporto. Olhei pela janela do carro, perdida em pensamentos enquanto Álvaro participava de uma teleconferência com um fornecedor estrangeiro.

Ele cobriu o celular e se inclinou em minha direção, apontando para um grande cartaz à frente.

— Você quer ir, não é?

Era um anúncio do Museu do Mágico de Oz.

Depois que desligou, ele me surpreendeu ao se aproximar e me puxar confortavelmente em sua direção.

— Você está muito quieta.

— Você estava no telefone.

— Você ficou sentada o mais longe possível e olhando pela janela. No que está pensando, Docinho?

— Nada. Só foi um longo dia.

— Tem certeza?

Pensei por um minuto. Eu não estava nem um pouco cansada, não era isso que estava lançando uma sombra sobre mim. Então, por que mentir? Por que esconder o que passava em minha mente?

Me virei para encará-lo.

— Na verdade, não. Estou mentindo. Pensei em algo durante todo o dia.

Ele assentiu.

— Certo. Me conte.

— Bem... gostei do tempo que passei aqui com você.

— Também gostei do tempo que passei em você.

Eu ri.

— Não foi exatamente o que eu disse, mas tudo bem. Achobque... estou preocupada com o que vai acontecer quando voltarmos à vida real.

— Achei que já tínhamos discutido isso. Deitar você sobre a mesa, em baixo dela, de joelhos, mesa de reunião... Vocêbtem um cronograma completo para quando voltarmos ao escritório. — Ele puxou o tecido da calça. — Porra. Mal posso esperar para voltar ao trabalho. Talvez devêssemos ir até lá ao pousarmos esta noite.

Bati em seu ombro, de brincadeira.

— Estou falando sério.

— Eu também. Com a maior sinceridade, considero transar com você.

— Bem, com a maior sinceridade ou não, acho que nada deveria acontecer no escritório.

Seu rosto se desfez como se eu tivesse acabado de dizer que o coelhinho da Páscoa não existe.

— Nada de sexo no escritório?

— Não tenho certeza de que seja uma boa ideia alguém descobrir.

— Vou fechar as persianas.

— Provavelmente seria mais seguro se, no trabalho, mantivéssemos distância. Obviamente, estaremos em reuniões juntos às vezes, mas sem toques inadequados.

— Mais seguro para quem?

Essa era uma ótima pergunta.

— Para mim?

— Está me perguntando ou me informando?

— Sou nova na empresa. Quero que as pessoas ouçam o que eu tenho a dizer, não que concordem porque estou transando com o chefe. E... quando... sabe, quando não estivermos mais juntos, já vai ser estranho entre nós dois. Ter todo o escritório observando nossas interações só pioraria.

Álvaro ficou quieto. Ele olhou pela janela, e a distância entre nós aumentou, embora estivéssemos lado a lado.

— Você que sabe.

Chegando ao aeroporto, passamos pela segurança e tivemos mais de uma hora à toa antes de embarcarmos no voo das nove da noite, então fomos para o salão da primeira classe. Álvaro tinha ido ao banheiro masculino enquanto fiz o pedido de bebidas para nós no bar. Um rapaz bonito e jovem se aproximou de mim quando o barman abriu uma nova garrafa de pinot noir.

— Posso pagar uma bebida?

Sorri de forma educada.

— São de graça.

— Droga. Esqueci. Vou pagar duas, então.

Eu ri.

— Estou bem. Mas obrigada, de toda forma, grande gastador.

O barman colocou minha taça de vinho no balcão e foi preparar a bebida de Álvaro. Olhei o painel eletrônico pendurado para verificar se nosso voo ainda estava na hora.

Ao me ver analisar a lista de voos, o cara ao lado disse.

— O meu já atrasou duas vezes. Para onde você está indo?

Eu estava prestes a responder quando uma voz profunda soou atrás de mim.

— Para minha casa.

O rapaz olhou para Álvaro, que estava de pé atrás de mim, envolvendo minha cintura, e assentiu.

— Entendi.

Pegando nossas bebidas, nos sentamos em um canto silencioso.

— Não imaginava você fazendo o tipo possessivo.

Álvaro olhou para mim por cima da bebida enquanto tomava um gole.

— Não costumo ser. No entanto, fico muito ciumento quando vejo você. Não quero que outro homem se aproxime.

Nossos olhos se encontraram.

— É por isso que está chateado comigo? Por querer marcar território e eu não querer que ninguém no escritório saiba sobre nós?

— Não.

— Então o que é? Você ficou calado durante a última meia hora, desde que conversamos no carro.

Álvaro desviou o olhar, percorrendo o salão enquanto organizava os pensamentos antes de me encarar de volta.

— No carro. Quando você estava falando que não queria que as coisas ficassem desconfortáveis no escritório, você disse “quando não estivermos mais juntos” , não “se não estivermos juntos”. Você já planejou nosso término e como isso vai afetar você no trabalho.

— Eu não... — Ah, caramba. Ele tem razão.

Pulei toda a parte do relacionamento e já estava preocupada com a forma como o término me afetaria. Como se eu não fosse dar chance a algo novo.

— Você está certo. Sinto muito. É só que não tenho exatamente um bom histórico de relacionamentos. E deixei um emprego que amava por causa do último romance de escritório. Acho que estou usando meu passado para definir as expectativas sobre o futuro.

Álvaro me observou.

— Sem expectativas, sem decepção?

Não sei por que razão, mas admitir isso me deixou envergonhada. Olhei para baixo.

— Acho que sim.

Álvaro se inclinou para frente. Tocando meu queixo e o levantou com gentileza.

— Dê uma chance. Talvez eu seja aquele que não vai decepcionar você.



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