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História Destino - Capítulo 3


Escrita por: Randomusuario e Kinski_Sah

Notas do Autor


Estamos nos aproximando do fim, e como eu esperava, a fanfic não foi muito bem. Mas não tem problema, estou feliz por ter conseguido ir até o final e postar. É raro eu terminar uma história e não abandonar no primeiro ou segundo capítulo. Boa leitura.

Capítulo 3 - Ladrãozinho


A bruta chuva castigava a pequena cidade, açoitando suas ruas, casas e construções com seus pingos imparáveis e constantes. A sonoridade chiada e sibilante ecoando infinitamente, espalhada pelas esquinas e bairros quaisquer. A luz azulada do luar noturno reluzia por entre pedras, paredes, janelas e tudo que a cidade tinha para oferecer. Por conta da força da tempestade, não havia uma alma viva fora de casa. Ninguém que pudesse ver, testemunhar, presenciar qualquer ato ocorrido no meio da noite. E por mais que tal receio corroesse a alma, existia alguém que não se deixava intimidar: um homem totalmente coberto, misterioso.

Sua figura serpenteava entre a água de forma sinuosa e discreta. Possuía direção, objetivo, mas não parecia. Qualquer um que visse, de olhar desatento, perceberia um zé ninguém andando torto e sem rumo. Entretanto, muito contrário a isso, o homem andava pelas ruas tão familiarizado ao local que parecia fazer parte dele. O próprio corpo, coberto de trapos negros, mesclava-se ao calar da noite chuvosa e desaparecia, quase invisível, imperceptível a olho nu. A estratégia era boa para noites movimentadas ou, no caso específico, não ser visto de maneira nenhuma após um golpe bem sucedido.

A caminhada furtiva enfim o levou ao objetivo: um pequeno casebre em um beco escuro e sujo. Engolido entre casas e construções maiores, no fundinho do corredor de concreto agressivo, descansava no mesmo lugar de sempre. Vendo de fora, acometido pela tempestuosa noite, a casa parecia querer desabar a qualquer instante. Suas tábuas titubeantes rangiam alto, ameaçando soltar, mas sendo detidas por dezenas de pregos entalhados no fundo da madeira. Sua luz fraca e amarelada emanando das janelas e frestas mais parecia o extinguir de uma chama, que em seus momentos finais, soltava últimos raios luminosos heroicos para enfim esvanecer na história. Ajeitou o chapéu, escondendo ainda mais o rosto e chegando na porta. E então, sem cerimônias, entrou, a porta destrancada.

Forçou os olhos lentamente assim que foi atingido pelo clarão de luz amarela, as pálpebras fechando involuntárias. As tábuas de entrada rangeram, não suportando o peso de seu corpo, afundando mais do que deveriam para dentro. Agora, iluminado pelo brilho amarelado, detalhes do homem oculto se tornaram visíveis: cabelo castanho claro escondido abaixo do chapéu, olhos marrons, pele branca enfeitada por algumas pintas e sardas. Estatura normal, cerca de um metro e setenta. Seu corpo, coberto por camadas de roupas, aparentava ser mais robusto do que realmente era; com o retirar de mantos negros, revelava-se um sujeito magro e esguio, sinuoso tal qual um felino. Mal tivera tempo de se recuperar, apoiar a bolsa que carregava em algum canto e tomar um ar, quando um grito pueril preencheu a residência, sobressaindo-se em relação ao sibilar abafado da chuva batendo no teto.

— PAI!!! — O grito irrompeu dos confins da humilde residência, seguido de estalidos altos de passos pelo corredor. Um menino surgia lá do fundo, energicamente, correndo de encontro com o homem e lançando-se para um abraço.

Recebeu sem pestanejar, de braços abertos, o garoto tão animado. Apertava com força o menor, acariciando seu cabelo também castanho, mas mais escuro. Sentiu o rosto alheio em sua clavícula, sorrindo de leve, sua mente viajando por um segundo. Há pouco tempo atrás, mal batia em sua cintura, e agora, já estava chegando até a altura do pai. Incontrolavelmente, ao pensar nisso, seus olhos voltaram para o batente da porta, onde viu diversos entalhes feitos com faca seguidos de anotações, números fracionados em metros e centímetros. O mais recente, de uma semana atrás, batia a marca de um metro e sessenta. Não era muito alto para um garoto da idade dele, mas deveria crescer mais um pouco, quiçá alcançar a estatura do progenitor.

— Boa noite, filho. Senti sua falta. — Declarou ao mais novo, separando gradativamente o abraço, e então deslizando a alça da bolsa do ombro até a mão. Em seguida, abria o zíper e começava a remexer algum conteúdo ali dentro.

— Nós sentirmos muito a sua falta, pai! A mãe e eu. Você demorou tanto, eu achei que... — O semblante se obscureceu por instantes, a cabeça baixa evitando pensar no pior, mas era impossível. Pensamentos sombrios iam e vinham de vez em quando. — Não importa, você está aqui. Deu tudo certo? Poderia ter me levado junto...

— Não, não poderia. Era perigoso demais. — Advertiu, sério, mas ainda procurando algo na bolsa. — Onde foi que eu deixei? Ah, aqui! — Exclamou ao abrir outro compartimento de zíper do objeto, enfiando a mão e agarrando um bolo de tecido mal enfiado ali dentro. — Sim, deu tudo certo. Tão certo que me senti na liberdade de trazer presentes para as minhas razões de existir.

Disse, por fim, puxando algo da bolsa. De início, parecia só um amalgamo verde de tecido grosso em mãos. Depois, ao largar a bolsa no chão delicadamente e segurar a massa verde com ambas as mãos, estendeu-a e revelou uma roupa. Um tipo de casaco de moletom grosso e largo, bem grande, de tons esverdeados em sua grande maioria. Seu bolso único era azul, enquanto no meio do capuz, uma faixa amarela dividia e cortava o verde. Em pequenos detalhes, botões enormes azulados eram costurados, um a cada lado da cabeça, simulando grandes olhos. Da parte de cima do capuz, pendia uma tira felpuda e aveludada de tecido vermelho que simulava uma língua. Na parte das costas, ao final delas, um pedaço da roupa enrolava-se para emular uma cauda. Era um casaco de moletom que imitava um camaleão.

— Eu não acredito... é mesmo!? Não, não, você só pode estar brincando! — Um sorriso de empolgação imediato surgiu no rosto, a alegria transbordando.  — Pai, você é o melhor! O melhor pai de todos! — Bradou e, num pulo, apanhou a peça numa energia infantil não muito comum à sua idade. Assim que percebera isso, as bochechas coraram, o rosto avermelhou. Tossiu, ajeitando a voz antes de continuar, assumindo uma falsa autoridade. — Mas isso foi perigoso demais, você deveria pensar melhor antes de fazer uma coisa dessas, pai!

— Leon, meu filho, não precisa fingir. Não comigo. — Lançou um sorriso genuíno ao rapaz, bagunçou seu cabelo e caminhando devagar, prosseguiu. — A autoridade é só pra tranquilizar a mãe enquanto eu estiver fora, entendido? — Indagou, olhando para trás, sendo respondido por um aceno de cabeça positivo. — Ótimo! Continue sendo um bom garoto.

O rapaz viu seu pai sumir entre uma porta mais ao fundo, indo em direção a cozinha, onde provavelmente sua mãe estaria. A bolsa, jazida no chão, fora esquecida pelo homem. Leon a observou, seus olhos passeando por seus inúmeros espaços e saliências que brotavam de dentro, indicando que a busca havia sido bem sucedida. Aliviado, suspirou, colocando o moletom rente ao corpo para ter uma ideia de como ficaria. Seria largo, do jeito que gostava. Cobriria grande parte do corpo magrelo por uns bons anos, até que crescesse e viesse a ficar mais justo. O verde lhe cairia bem, o capuz esconderia sua face, mas de maneira estilosa. O sorriso se alargou, demarcado na boca de lábios finos e avermelhados. Esconderia seu cabelo castanho escuro bagunçado, evitando que precisasse pentear todos os dias. Só esses detalhes já encantavam o garoto, sem contar seu fascínio pelos camaleões, répteis formidáveis em sua concepção. A maneira que se camuflam, ficando invisíveis de qualquer coisa, imperceptíveis para o resto; recordava-o sobre seu próprio — e de sua família — estilo de vida.

Leon era um rapazote que recém completou catorze anos. De pele negra e um pouco queimada pelo sol, olhos castanhos e corpo pequeno, esguio como o do pai. Parecia uma mini versão dele, porém tendo diferenças físicas como a pele e o cabelo. Sentiu uma brisa gelada percorrer o corpo, ocasionada pela porta ainda aberta, deixando que massas de ar gelado adentrassem a casa. Se prontificou a fechar e, além disso, vestir o casaco novo. Ajeitou-o no corpo, puxando e soltando o ar lentamente, alegre. A roupa o aquecia e fazia-o sentir-se bem. 

Na cozinha, uma mulher baixa de pele negra e lindos e longos cabelos pretos cacheados cortava algo sobre uma tábua apoiada na pia. De costas para a porta, não percebia a aproximação alheia atrás de si. O homem, engolindo risadas, se esforçou para não fazer qualquer barulho que pudesse alertar. Mesmo que fosse um profissional na arte de permanecer oculto, era difícil se "disfarçar" contra aquela mulher. Ela o conhecia muito bem, a convivência denunciava milhares de coisas. Suas maneiras de se esconder eram uma delas. Caminhou passo a passo calma e lentamente, imaginando que qualquer pisão errado poderia arruinar tudo. Segurou as risadas o máximo que pôde, impedindo que risinhos ou sons de ar escapassem e denunciassem sua posição.

Após minutos de esforço, conseguira chegar perto o bastante para fazer o que desejava. Sorriu, apertando a coroa em mãos, mas tomando cuidado para que não desmanchasse. Deixou sobre a mesa atras de si, e então, em meio a sorrisos sarcásticos, levou as mãos até os olhos da mais baixa, tapando-os por completo. A mulher estremeceu, seus pelos se eriçaram, o corpo tremeu brutalmente de uma vez só, quase que espasmódico. O pai de família riu com a reação, mas abafou o riso entredentes. Sentiu as mãos da outra nas suas, puxando, tentando se desvencilhar de alguma maneira. Mas não permitiu; manteve o contato firme, determinado, suavizando um pouco a voz, aproximando a boca do ouvido dela, e então dizendo:

— Não vale espiar... Adivinha quem é.— Pediu, sorrindo. Momentos de silêncio se estenderam por alguns segundos, antes que a mulher começasse.

— Hummm, deixe-me ver... Quem poderia ser? — Em dúvida fingida, coçou o queixo, pensativa. — Talvez o senhor... Jack Littlefoot? — Concluiu em pergunta, mas no fundo sabendo que estava certa.

— Bingo! E senhor? Uma ova! Eu não sou tão velho assim. — Repreendeu, retirando as mãos dos olhos alheios. A mulher se virou, os olhares se encontrando firmemente. — Mas parabéns, senhorita Yasmin Littlefoot, esta completamente correta!

Não se aguentaram, caíram na gargalhada juntos. As faces contraídas e os corpos, perdendo a força de ficar de pé, apoiando-se um no outro. Yasmin apoiada na pia e Jack, por sua vez, na mulher. O homem usava isso como uma desculpa para um abraço, as testas coladas uma na outra em um ato de carinho e saudade. Ao fim dos risos, os olhos antes semicerrados agora estavam abertos, observadores, fixados um no outro cheios de vontade. Tamanha era a saudade que, apenas com o olhar, desejavam um ao outro, mas não em conotação sexual, sim amorosa. O rosto de Jack, vagaroso, virou de lado pouco a pouco, lábios entreabertos e ansiosos. Yasmin não ficara para trás, investindo em direção ao marido com cuidado, tocando os lábios e iniciando um beijo tranquilo, passivo, apaixonante e necessitado. Matavam a saudade latente naquela singela carícia, satisfeitos de finalmente poderem estar um com o outro mais uma vez.

— Trouxe algo para você. — Anunciou após o fim do beijo, pegando a coroa atrás sem ao menos ver. — Pra te deixar ainda mais bela, meu anjo.

— Não larga a mão desse jeitão galanteador, hein amor? Não que eu esteja reclamando. — Alegre, disse, recebendo em mãos o presente: uma coroa de flores. — Muito bonita, mas e o seu objetivo principal, Jack? Não vai me dizer que esqueceu mais uma vez.

— Não, não. Pode ficar tranquila, não precisa se exaltar e vir correndo atrás de mim com uma colher de pau. — Brincou, soltando risadas gostosas, embora no fundo tivesse medo que realmente acontecesse. — A bolsa com as coisas ficou lá na sala.

Assim que disse, feito uma peça de teatro ensaiada por meses a fio, Leon entrou pela porta com a bolsa cheia em mãos. Mostrava dificuldade para carregá-la, o que era justificável, visto a quantidade de coisas enfiadas ali dentro. Ainda que não fosse enorme, parecia que o homem sempre arranjava formas novas de meter cada vez mais objetos ali, como se fosse um jogo de encaixe interminável. Ora ou outra, até ele tinha dificuldades de levar tanto peso para lá e para cá, ainda mantendo sua furtividade ao mesmo tempo. Por mais que tivesse adversidades, Leon não se deu por vencido: jogou a bolsa para trás, apoiando o peso em suas costas, envergando-se de leve e enfim conseguindo chegar até seus pais.

— Aqui, você esqueceu lá na sala, pai. — Disse, largando no chão e se apoiando na mesa para tomar ar. — Por que tá tão pesado desse jeito?

— Bem, tomei a liberdade de pegar pro mês todo. De nada. — Respondeu simples, um largo sorriso na face.

Algo simplório, que normalmente não teria grandes reações ao ser dito. Todavia, nesse caso, tanto o menino quanto a mulher lacrimejaram, irradiados por alegria e felicidade impossíveis de conter. A fala os passou a estabilidade que necessitavam, a segurança que queriam, a garantia que precisavam. A certeza que naquele mês, não iriam somente sobreviver, mas sim viver. Aproveitar a vida, não preocupar-se em continuar preservando-a. Não teriam que sentir a dor excruciante no estômago causada pela fome. Poderiam, finalmente, recuperar-se um pouco das suas marcas de desnutrição, cobrir o salientamento dos ossos com um pouco de massa e gordura. E principalmente: não precisariam se arriscar roubando por um tempo.

O nome "Littlefoot" não era original da família. Fora uma nomenclatura pela qual ficaram conhecidos, dada por outros como forma de humilhação, mas adotada orgulhosamente por eles. Na tradução, pé pequeno, queria dizer que os pés pequenos seriam para andar sem fazer barulho, assim não alertando as pessoas e roubando mais facilmente. Odiaram de início, mas Jack abraçou para evitar o acúmulo de estresse todos os dias, e Leon seguiu o exemplo do pai. Yasmin não se incomodava tanto, então decidiu ignorar e ir com os homens da casa em suas decisões.

Desde cedo, Jack ensinou a Leon tudo que sabia sobre se esconder, camuflar, furtar e trapacear. O garoto via o pai como um ídolo, alguém que nunca poderia ser tocado, derrotado, capturado. Afinal, tinha fama por toda a cidade, mas nem ao menos uma única vez alguém veio tirar satisfação ou acertar as contas. Inspirado pelo mais velho a vida toda, Leon fez de tudo para tornar-se um mestre da furtividade e ladinagem o mais rápido possível. Se saíra muito bem, impressionou o próprio pai e, vez ou outra, acabou sendo chamado por ele para ajudar em alguma empreitada. Juntos eles furtaram diversas feiras e mercados, mas somente pegavam alimentos ou vestimenta, nunca dinheiro. Jack, de forma séria e responsável, sempre dizia para o filho: "Nunca roube dinheiro, Leon. As pessoas trabalham duro para conquistá-lo, e usam para sustentar a quem amam. Além disso, dinheiro fácil e em grande quantidade sobe à cabeça, te corrompe antes mesmo que possa perceber". Além disso, também estabelecia a regra de nunca furtar de pessoas que estivessem em condições piores ou semelhantes do que as suas próprias.

Uma família de ladrões, de fato, que vivia tranquilamente escondida entre um beco escuro e esquecido. Nos confins da cidade, na área mais pobre e barra pesada que tinha. Por mais que fossem pacíficos, o ambiente ao redor na era. Leon perdeu a conta de quantas vezes escutou tiros, gritos, pedidos de ajuda e todo tipo de coisa traumatizante para uma criança. Cresceu neste meio, conviveu ali, nada que viesse daquilo o impressionaria mais. Estava acostumado em, às vezes, sair de casa e dar de cara com um cadáver. Porém, embora o dia a dia destruidor de sua vida, o garoto escolhia manter-se feliz, sorrir e enxergar as partes boas nas situações ruins. Ainda que fossem nulas, acreditava na possibilidade de um amanhã melhor. Nunca deixara a esperança fugir de seu semblante, agarrara com unhas e dentes e nunca soltara. Não enquanto não se concretizasse.

[...]

Passou uma semana, os três conviveram pacíficos e felizes. Jack comentou, mais de uma vez, que o golpe final estava por vir logo logo. Leon, animado, pediu inúmeras vezes para poder participar da "aventura", mas os pais negaram cada uma delas. Yasmin, preocupada, estava nervosa sobre o plano dar errado e algo horrível acontecer. Temerosa, mantinha-se perto do marido a todo instante, sentindo que se deixasse de estar perto, mesmo por um segundo, ele sumiria e nunca mais iria retornar, deixando apenas a dor e a sensação de perda latentes para trás. Yasmin se caracterizava como uma mulher "durona", do tipo que por vezes parece fria ou muito rígida, um tanto irritada e brigona. Todavia, por mais que agisse assim na maior parte do tempo, no fundo era alguém que só se  preocupava demais com seus amados. Mal podia imaginar o que seria de seus dois "garotões" sem ela. Doía o peito só de pensar nas enrascadas que se enfiariam.

— Amor, certeza que precisa mesmo fazer isso? Podemos viver assim por mais um pouco... Quer dizer, logo o Leon vai ter idade pra trabalhar. — Insegura, Yasmin questionou, olhando para o nada. Observava, ao longe, Leon balançando-se no balanço velho e meio torto da praça.

— Querida, eu preciso. Se der certo, nunca mais teremos problemas. Poderemos viver de forma digna, enfim. — Ao contrário da mulher, Jack estava determinado. Os olhos afiados fitando também o filho, mas analisando-o. — E mais, olha para ele: acha mesmo que vai conseguir algum emprego?

A mulher suspirou, resignada, conformada pelo mal que já aceitara. Ainda que não quisesse admitir, sabia que seu filho não estava pronto para aquilo. Esticou-se no banco, suspirando e debruçando-se sobre as costas do assento, olhando pro céu pensativa. Ao seu lado, Jack deu uma olhadela para a esposa, mas logo voltou ao filho alguns metros mais distante, brincando sozinho. Divertia-se aos montes, por vezes soltava uns gritinhos numa alegria infantil questionável para alguém de sua idade. Havia um motivo pelo qual Leon não se portava como alguém mais velho, uma razão pela qual a adolescência lhe faltava nas atitudes. Desde muito novo, o menino fora privado de sua infância. Seus primeiros anos de vida foram horrorosos, passados fugindo de cidade em cidade, passando fome e frio constantes. Enfim, aos cinco, se estabeleceram, mas a criança teve que aprender a roubar o mais depressa possível. Mal teve escolaridade, nem amigos ou colegas com quem pudesse compartilhar momentos. A vida toda sempre fora ele e seus pais, seus exemplos e únicas fontes de relações. Eles eram sua vida, seu mundo. Não poderia existir sem eles, não saberia como. No fim, mesmo que bancasse o responsável as vezes, nunca deixara de ser dependente.

Para suprir a privação que sofrera, Leon decidiu subconscientemente viver ainda a infância, tomando atitudes de criança e se portando como uma muitas vezes. Foi uma maneira que o cérebro encontrou de não enlouquecer, ou não entrar em uma profunda e incapacitante depressão. Sabia que sofrer de problemas psicológicos na sua situação de vida seria letal, encurtando sua vivência em décadas. Negava a verdade dolorosa e, tal qual uma criança, só via a parte boa das coisas, encontrando as fagulhas de luzes na mais devassa escuridão. Mantinha a esperança inabalável e inflexível de alguém que acredita no amanhã. Em suma, não se deixara abalar pelas adversidades de uma vida tão miserável quanto a sua.

Entretanto, essa era a visão de Leon sobre sua situação. A visão de uma "criança" perturbada e traumatizada. Jack e Yasmin, por outro lado, tinham perspectivas totalmente diferentes. A mulher já havia perdido as esperanças em si mesma, mas acreditava — ou queria acreditar — em seu filho. Desejava crer no aprimoramento dele como pessoa, vê-lo evoluir e tornar-se alguém bom e respeitável. Um pensamento bobo de toda mãe, mas amargurado pela certeza de que o destino que imaginava não se concretizaria, claro que não. No máximo, tornaria-se um ladrão melhor que o marido, melhorando suas vidas a custo de dignidade. A ideia já nem lhe machucava mais. Jack, por sua vez, se encontrava em um estado perturbado; odiava o que fazia, sempre odiou. Ódio esse que foi o responsável por suas regras de não roubar dinheiro ou pessoas em situações ruins. Todavia, após alguns anos, seu ideal se encontrava mais e mais deturpado, distanciando a cada dia até ficar tão longe que mal podia enxergar os detalhes. O homem percebeu que, se continuasse dessa forma, mataria sua mulher e filho, ou a si próprio e levaria eles juntos. Tinha que dar um jeito naquela situação de uma vez por todas, deixar a índole de lado por um bem maior, virar essa página de sua vida e se reestabelecer em outro local, desta vez para sempre.

Visto sua decisão radical de ignorar os próprios critérios e ideais, em uma tentativa desesperada de melhorar as condições de sua família, o ladrão decidiu investir em algo extremamente perigoso: roubar a máfia. Na cidade a qual residiam, havia um pequeno grupo mafioso que dominava o tráfico de drogas nos becos. Sabia que era uma mina de dinheiro, por isso bolou um plano e convocou alguns parceiros de confiança, arquitetando meses a fio como daria o golpe. E agora era hora de agir, o fim do estudo, tempo da ação. O sucesso dessa missão anunciaria o final de sua vida de ladrão, o crepúsculo do nome Littlefoot e a alvorada de um novo amanhecer, uma nova reputação.

— Yasmin, quando nos casamos há quinze anos, eu prometi que nunca deixaria que faltasse nada para você. Prometi isso pois sabia que sua vida era miserável naquele bordel imundo.— A voz saiu sussurrada, cabisbaixa e triste. — Eu te tirei de lá, te levei para aquela coisa que chamava de casa e, por pouco tempo, pude cumprir a promessa. Mas Leon veio, e eu venho falhado desde então, dia após dia. Você tem ideia do quanto isso me dói? Quantas noites na rua eu passei em claro, em puro terror, pensando não em como eu dormiria no meio de um beco perigoso, mas sim na maneira que eu voltaria para casa de mãos abanando. Eu não podia fazer isso, não me permitia. — Marejados, os olhos ameaçaram lacrimejar, mas Jack segurou. Se inclinou na direção da esposa, colocando a mão em sua face e acariciando calmamente. Os olhares travaram um no outro mais uma vez, passando uma preocupação mútua incomparável. — Sim, eu tenho medo e sei o quão perigoso é fazer isso. Mas eu preciso. É a minha única chance de me redimir como marido, pai e homem. Minha oportunidade de cumprir uma dívida de quinze anos. — Ao terminar, depositou um beijo na testa da amada e a abraçou, deixando o rosto em seu peito.

— Tudo bem amor, eu entendo. Eu entendo... — Ao contrário do esposo, Yasmin não pôde conter as lágrimas que rolaram abundantes. Enfiou mais o rosto no peito alheio, esfregando para tentar se recompor. Sentiu dedos delicados aninhado suas mechas cacheadas, seu rosto fino e queixo. O carinho a acalentou, tranquilizando-a.—  Mas você promete pra mim que, depois disso, nunca mais vamos ter que passar por nada de ruim? Que vamos ser uma família estável e feliz? Seja sincero, por favor...

— Sim meu amor, nós não vamos passar por mais nada disso. Vai ficar tudo bem. Para nós, e pro nosso filho. — Disse, não ao vento, mas sim convicto da resposta. Tinha certeza que tudo correria certo.

Agora abraçados, voltaram a observar Leon, que trocara de brinquedo. O rapaz estava em uma barra de exercícios, mas ao invés de puxar o corpo para cima, girava e fazia acrobacias em facilidade descomunal. Destreza e agilidade impecáveis, realizava os movimentos com graciosidade e perfeição. Girou, algumas vezes, e então pulou, caindo de volta na barra, mas dependurado pelas pernas. De ponta cabeça, comemorou, erguendo os braços para baixo e sorrindo, olhando para os pais orgulhosos de si mesmo. Impressionados, bateram palmas, parabenizando-o e dizendo como havia sido ótimo. Convencido pelo sucesso e bajulação, o garoto decidiu se arriscar mais: balançou-se com as pernas, fazendo abdominais no ar, tentando alcançar a barra novamente. Após algum esforço, conseguiu, girando de novo e dessa vez parando em cima, os pés apontandos para o céu, e a cabeça, para o chão. Segurava-se naquela posição com certa dificuldade, tremendo, mas mantinha-se. As palmas ressoaram de novo, e felizes, se encararam. Quem sabe ele tenha jeito para algo sim.

[...]

— Mãe, eu sei que faz mais de cinco horas que o pai saiu, mas não precisa se apavorar. Eu sei que ele vai voltar rapidinho! — Tentando acalmar a mãe, Leon dizia enquanto a abraçava. A mulher se agarrava ao filho com força, respirando entrecortado e com receio. — Você sabe que ninguém pega o pai, ninguém.

— É, ninguém pega ele, filho... — Não tão convicta em sua fala, concordou, acariciando a cabeça do filho coberta pelo capuz da roupa de camaleão que não tirava mais. — Mas eu não pensei que demoraria tanto assim, logo vai escurecer.

O dia se aproximava de seu fim, o sol logo iria se pôr. Os dois sentiam um nervosismo gigantesco, abraçando-se um ao outro, apertado, pusilânimes do futuro incerto, do destino que seguiria. A mulher checou, talvez nove vezes, as malas arrumadas pela casa. Tudo estava pronto para, assim que Jack chegasse, sumissem de vez daquela cidade e nunca mais ousassem cogitar um retorno. Recomeçar a vida, dessa vez dignamente, em algum outro lugar. Leon se pegou imaginando como seria, fantasiando sobre coisas e mais coisas. Finalmente poderia frequentar uma escola decentemente? Teria amigos para se divertir e enfrentar as dificuldades? Poderia sair de casa sem medo de ser uma vítima do alto índice de violência existente? Conseguiria dormir tranquilo a noite inteira, sem ser acordada por tiroteios e berros de dor? Mal podia esperar por tudo isso.

Um trovão irrompeu dos céus, alto, barulhento, estremecendo a terra. Leon se assustou, dando um pulo para trás e caindo no chão. Junto ao raio, o sibilar chiado da chuva veio, ainda mais bruto que a última. A temporada de chuva havia chego, as nuvens tão carregadas que poderiam despejar litros e litros de água por décadas. As tábuas que compunham o teto do casebre rangeram alto devido aos impactos brutos da água, algumas goteiras se formando aqui e ali. Yasmin espalhou algumas panelas no lugar das goteiras, mesmo que fossem abandonar a residência em pouco tempo. Passara tanto tempo ali, chamando aquele lugar de lar, que sentia uma responsabilidade para com ele. Sentia que, se abandonasse de qualquer jeito, sua vida seria amaldiçoada de alguma forma. Quiçá um pensamento deveras supersticioso, mas verdadeiro.

Leon terminava de arrumar sua mala,  sentando no sofá ansioso, dando alguns pulinhos. Sua animação não podia ser contida, estava louco para que a porta se abrisse, seu pai entrasse e tudo se resolvesse. Ávido pela mudança, nervoso com a viagem, mas ansioso demais para se preocupar. Seu estômago se revirava em excitação, a pela retraía e os pelos eriçavam. A boca ficou seca, língua umedecendo lábios e glândulas salivares trabalhando em um trago para molhar. Não se daria ao luxo de sair e beber água, ficaria ali até o fim, olhando para a porta enquanto estivesse fechada, aguardando a abertura por uma eternidade. Ou ao menos, era o que imaginava, antes da porta ser aberta de supetão.

Sem esperar, Leon disparou em direção a entrada da casa. Sua mente divagando nos pensamentos felizes, e os olhos, fechados. Todo seu ser gritava em êxtase, bradando aos ares seu entusiasmo inenarrável. Nunca correra tão rápido em sua vida, mas estranhamente, o momento passara em câmera lenta, demorando centenas de anos para findar. Quem sabe apenas um truque da mente, uma peça pregada a si próprio para brincar consigo mesmo. A teoria se refutou assim que, subitamente, Leon fora acometido por um baque estrondoso, seguido de uma dor lancinante na face, e o lançar de seu corpo alguns metros mais distante. Um líquido quente escorreu pela boca, vindo do nariz, manchando os lábios, queixo e um pouco do moletom. Levou a mão a fonte daquilo, era viscoso e grudento, além da temperatura elevada. Sangue, mas não era pouco feito o sangramento de um corte superficial, pelo contrário. Descia aos montes indicando um dano muito sério, quem sabe algum tipo de hemorragia.

Porta adentro, dois homens truculentos e enormes, carregando Jack pelos braços. O pai estava estropiado: rosto lotado de cortes e hematomas, sangue seco e inchaços que denunciavam um espancamento. Os brutamontes, além de seus músculos, portavam armas de fogo, revólveres de alto calibre que destroçariam qualquer um sem dificuldades. Eles lançaram Jack ao chão, de rosto na madeira, e então pisaram em suas costas fortemente, o fazendo abafar um grito que não saiu por falta de voz. Tentou erguer a cabeça de leve, mas um dos homens pisou nela, apertando-a e esfregando contra as tábuas, lotando sua face de farpas. Os agressores, ambos portados de ternos e chapéus pretos, lançaram um olhar de desprezo e desgosto para todos os presentes.

— Então esses são os Littlefoot, hein? Esperava mais. — Cuspiu o primeiro, que pisava nas costas de Jack. Este possuía mechas de cabelo loiro pendendo do chapéu.

— O chefe avisou que eram ratos. E bom, não somos conhecidos como exterminadores de pragas à toa. — O segundo, debruçado sobre a cabeça do menor, sorriu largo. Diferente do parceiro, não tinha cabelo visível para fora, parecia mais careca. — Por quem quer começar primeiro?

Ambos riram ao fim da pergunta. Tonto, Leon levantou, escorando-se na parede para tentar recobrar a consciência e discernir as coisas corretamente. Escutou passos atrás de si, eram de sua mãe. A mulher parou no meio de todos os presentes, ajoelhando-se e juntando as mãos, implorando que não fizessem nada a seu filho. Incrédulo, Leon assistiu, sem conseguir dizer qualquer coisa. Os exterminadores riram, gargalharam, regozijaram da fala como uma piada. O júbilo passou tão breve quanto veio e, de repente, ambos apontaram os revólveres de cima para baixo para a mulher, que assistiu chocada. Jack, preso, se debatia, mas nada podia fazer além de assistir. Tentou alcançar seu canivete de bolso, mas não foi capaz. Lançou um olhar para o filho, chamando-o e balançando a perna. Leon, confuso, demorou para entender o recado.

— Por favor! Qualquer coisa, eu faço qualquer coisa! Podem me matar, mas imploro que deixem meu filho viver! Ele não tem nada a ver com isso. — Lançando-se sobre os pés dos brutamontes, a mulher beijava os sapatos alheios como forma de demonstrar inferioridade. — Podem me usar, se quiserem! — A fala doeu, acometendo a mulher em um turbilhão de memórias terríveis esquecidas há muito, trancafiadas no fundo da mente. Mas vieram, destruindo-na de vez.

Leon aproveitou a distração para ir, sinuosamente, do jeito que o pai ensinara. Conseguiu não ser detectado pelos homens, que olhavam com interesse para a mulher a seus pés. Chegou até o lado do pai, pegando o canivete no bolso dele. Confiante, enchendo o pulmão de ar, gritou e avançou contra um dos homens, o de cabelos loiros, enfiando a lâmina com a maior força que podia em sua barriga. O agressor gritou em dor, levou a mão ao centro da injúria e se desvencilhou de cima de Jack. Confuso, o outro olhou, afrouxando o peso e deixando que o ladrão escapasse. Jack prontamente se levantou, iniciando confronto corporal contra o careca, tentando arrancar a arma de sua mão. O revólver serpenteou para cima e para baixo, disparando inúmeras vezes contra o teto e o assoalho. O segundo, percebendo a situação, enraiveceu-se e puxou o canivete de fora do ferimento, jogando ao chão e mirando a arma na batalha corporal. Esperou, esperou e esperou mais. Queria atirar de uma vez, mas correr o risco de acertar o seu parceiro não era agradável.

Vendo como um momento agir, Leon se sentiu na obrigação de fazer algo. Caçou o canivete ensanguentado no assoalho, apanhou e ergueu novamente. Aproveitando a concentração do loiro em seu pai, avançou em um pulo contra ele, utilizando de sua habilidade acrobática para pular no peito alheio e meter a lâmina em sua clavícula, arrastando pra baixo e rasgando até o peito. Retirou e enfiou de novo, esfaqueando diversas vezes o exterminador. O sangue espirrou com tudo em sua face e roupa, manchando o moletom inteiro. No susto, o mafioso disparou, e o som do tiro foi seguido pelo barulho de carne se partindo e sangue batendo na parede.

Dois coelhos numa só cajadada. A bala acertou na nuca do mafioso, varando a cabeça e atingindo também Jack, no meio da face. Seus rostos estouraram e ambos caíram inertes, imóveis e desprovidos de vida. Tanto menino quanto homem restante se assustaram, ambos dando passos para trás incrédulos. Falaram coisas incoerentes balbuceliadas, e a mulher só assistia tudo em choque, arrasada, sem entender nada e tentando ainda raciocinar o que estava acontecendo. Seus olhos, arregalados, jorraram lágrimas para fora brutalmente. Leon também queria chorar, desabar no próprio peso e desistir, abraçar suas pernas e esperar sua perdição. Mas, por alguma razão, fora tomado por uma vontade incessante de viver, sobreviver. Um instinto primal que viera numa carga de adrenalina, a sensação de que poderia fazer qualquer coisa para sair vivo, o inconformar perante a morte. Não iria morrer. Não queria. Não estava destinado a isso.

MOLEQUE DESGRAÇADO!!! — Gritou, enfurecido, virando a arma contra o jovem. Sem pensar, puxou o gatilho.

Leon viu toda sua vida passar diante dos olhos por um segundo, e então percebeu, enfim, o quão horrorosa ela foi. Notou que durante tanto tempo, fora adepto do negacionismo, observando tudo feito um mar de rosas, apenas coisas boas, nada mais. Mas agora, a beira de sua morte, um estalo mental esclareceu cada canto da sua mente, iluminando-a com sabedoria repentina. Aconteceu algo que tinha que acontecer uma hora ou outra, que já deveria ter ocorrido devido aos maus bocados que passara: Leon amadureceu. Deixou toda a criancice de lado de uma só vez, esqueceu os resquícios infantis impregnados em seu ser. Tornou-se alguém diferente, evoluiu. Encarar a realidade mortal de sua experiência vivida fora um soco no estômago tão forte que vomitara seus intestinos, soltando do fundo deles toda sua antiga personalidade.

Abriu os olhos, temeroso, mas não sentia dor, nem sangue além do que saia do nariz. Perplexo, encarou sua frente, deparando-se com sua mãe caída. O buraco da bala varando seu peito, saindo pelas costas. O projétil, inofensivo, jazia entre as pernas do garoto. Arregalou os olhos, sua respiração se tornando irregular e descontinuada. Estava apavorado, aterrorizado perante ao findar das vidas das únicas pessoas que o amaram e o ajudaram. Encarava o assassino, que cheio de dor, mantinha uma expressão de raiva e continuava apontando a arma. Leon gelou, sentia o peso daquele objeto mesmo sem estar segurando-o. Um calafrio percorreu suas costas, o terror tomando conta novamente, enchendo sua mente de teorias e possibilidades paralisadoras. Entretanto, não ficou parado, pois, foi inspirado pela mesma vontade de viver anterior, um lampejo de sobrevivência primordial que só o fazia pensar em uma coisa: corra.

E foi o que fez; tomou a parede como impulso e investiu, jogando-se contra o atirador. O homem atirou de novo, mas acertou apenas o vácuo por onde Leon passara. Cambalhotando no ar, deslizou por entre as pernas do exterminador, desembocando na rua e correndo a todo vapor debaixo da chuva. Seu sangue espirrava, caindo pela estrada e sendo limpado pela água. Bang. Bang. Bang. Mais disparos soaram, mas Leon se enfiava por entre becos, latões de lixo e carros para se esconder das balas. Ganhou vantagem na corrida, e ao avistar um beco diferente ao longe, cujo os latões de lixos eram gigantes, adentrou sem demora. Escondeu-se por entre os dejetos, deitando no fundo do lata, soterrado por sacos enormes e ocultando o corpo por inteiro. Minutos mais tarde, ouviu os passos da correria demorada do grande homem, mas não fora encontrado. Não tardou nada em escutar ele xingando e se distanciando a contragosto. Embora seguro, permaneceu ali, quieto, recuperando-se. Só saiu depois de dez minutos, quando a adrenalina baixou, e o cheiro pútrido e azedo do lixo molhado começara a se tornar um incômodo.

[...]

Alguns meses depois, Leon estava a quilômetros de distância da sua cidade, tendo passado umas três a pé. As vezes conseguia carona, mas era raro. Vivia a nova vida amargurado, silencioso, focado em sua sobrevivência e nada mais. Não se deixava sentir as dores da perda dos pais, não permitia ser acometido pelos sentimentos. Sabia que se o fizesse, seria seu fim, desabaria e ninguém estaria lá para ajudá-lo. Desejava, do fundo do coração, poder gritar e chorar descontroladamente até esgotar suas forças, mas sabia que não poderia. Tinha que viver. Precisava sobreviver. Era seu destino.

Usou de seus conhecimentos para roubar comida e manter-se vivo. Quando não conseguia, raramente, fuçava o lixo e se alimentava por pura necessidade. Mais uma vez estava magro, bem magro. Quando levantava, a pressão caía, a visão obscurecendo tão rápido que mal entendia o que acontecera. Os ossos salientes eram escondidos sob o moletom de camaleão, sujo e surrado pelo uso diário.

No momento presente, o garoto fingia estar apenas sentado na calçada pedindo esmolas. Seu rosto, entre as pernas, ignorava os transeuntes que passavam e deixavam moedas as vezes, encarando apenas o restaurante do outro lado da rua. O cheiro de almoço emanava, causando grandes roncos no estômago do rapaz. Sua boca salivava, mas mantinha-se ali, quieto, esperando uma oportunidade. Só precisava que saíssem para levar o lixo, assim abrindo a porta dos fundos e deixando uma brecha para sua entrada. Vinha observando o estabelecimento fazia uma semana, obtendo uma noção geral dos horários, e utilizaria isso a seu favor.

A oportunidade veio; um estagiário que abrira a porta e deixara escancarada, saindo pros fundos com ela aberta. Leon levantou-se, cambaleante, se dirigindo o mais furtivamente que podia. Não demorou para atravessar a rua e chegar, entrando porta adentro agachado. Como esperava, estava na cozinha, abaixado rente aos balcões e prateleiras móveis cheias de comida. Ninguém havia o visto ainda, então aproveitando isso, saltou sobre um balcão e agarrou a primeira coisa que conseguiu com ambas as mãos: um pão recheado. Antes que pudessem gritar sobre sua presença, disparou para a saída, escutando os gritos só quando já estava fora. Guardou o pão no bolso do casaco, saltando as escadas da entrada e fugindo do local.

Ou foi o que pensou que faria. Antes de fugir, foi agarrado pelo capuz, segurado com força e puxado para trás. Era um segurança, que jogara-o no beco atrás do restaurante. Leon bateu forte a cabeça e as costas, sentindo sua visão rodar, o sangue subir a garganta e a respiração vacilar. Tentou se levantar, mas antes que pudesse, foi atingido por um pisão na barriga, tirando ainda mais o seu oxigênio. O que veio a seguir foi um festival de dor; socos, chutes, pisões e pontapés. Um espancamento brutal e raivoso por parte daquele homem. Mal tinha tempo de respirar, se recompor, quando novos golpes o atingiam ferozmente. Sentia o sangue escorrendo, os músculos falhando de tanta dor, o cérebro querendo apagar a todo momento, mas a vontade de  viver impedindo. Escutou barulhos de fraturas, prováveis avariações nos ossos, alguns até partidos. Morreria se continuasse daquele jeito por muito tempo. Não poderia permitir.

Em meio ao cansaço dos pisões do segurança, reuniu o restante de suas forças para investir, pulando e dando uma cabeçada entre as pernas do homem. Após o golpe baixo, correu novamente. Aquele pânico de meses atrás, quando estava a beira da morte, subjugou seu ser mais uma vez. Corre, corre, corre. Corra. Fuja. Saia logo daí. Tinha que sair, fugir de novo, encontrar outro lugar, reaparecer em qualquer localidade diferente da atual. Sabia que, perto dessa cidade, havia uma entrada florestal, então foi para lá que correu. Adrenalina a mil no corpo, entrou pela mata em frenesi abismal. A cada passo, sentia que se  aproximava de algo grande, mesmo que estivesse correndo reto e sem direção. Insistiu, guiado por sua intuição sobrenatural, convencido de que sua vontade de viver absurda tinha relação com isso. Encontraria algo de suma importância, que mudaria sua vida para todo o sempre.

O oxigênio faltou dos pulmões e as pernas falharam quando se encontrava de frente para uma gigantesca caverna. Apoiado nos próprios joelhos, tomando fôlego, Leon observou os detalhes da imensidão de pedra. Era forte, imponente, imutável. A bruta pedra transmitia sua indestrutibilidade sem ao menos ser tocada, sabia muito bem que nem o mais terrível dos terremotos, ou o mais cruel dos tsunamis seriam capazes de mover aquela rocha. Sentiu que, ainda que a Terra fosse destruída, aquela caverna permaneceria ali, cosmológica e infindável. Tal energia estranha emanava, de dentro, no mais profundo da caverna. Leon sentiu-se chamado, atraído por tal força invisível e encantadora.

Em passos lentos e atrapalhados, passou pela entrada gigantesca, tão grande que permitiria a entrada de um elefante. Sentiu-se pequeno, nulo, mas não deixou que o abalasse. Era escuro, não enxergava nada no mais profundo onde a luz não chegara. Mas as trevas não foram o suficiente para detê-lo, que continuou caminhando reto em direção ao chamado. A energia ressoava dentro de seu ser, progando-se como ondas sonoras vibrantes que chacoalhavam seu peito. Quase podia ouvir uma voz, raivosa e autoritária. Venha. E foi, despreocupadamente, sentimentos neutros, em direção. Depois de andar por cerca de um minuto, encontrava o fundo, a parede final sendo tomada logo a frente por uma grande rocha, parecida com um altar. E, no meio dele, havia algo. Ou melhor, alguém.

A visão se adaptara à escuridão, agora enxergava melhor o ambiente ao seu redor. No meio daquele altar de pedra, havia uma pessoa. Deitada, moribunda, retraída contra o próprio corpo. Os braços, rentes ao peito, abraçavam a blusa encardida enquanto as mãos a apertavam. As pernas, encolhidas, tremiam muito em frio. O cabelo ruivo totalmente sujo e ensebado, escorria pela pedra e face irregularmente, coberto de sangue e caspas. O corpo, mal coberto por trapos destruídos e sujos, fedia a suor e pus. Feridas abertas em todo canto, arranhões e cortes profundos espalhados pela face e machucados mais sérios na barriga e pescoço. Os pés, repletos de bolhas estouradas, as unhas cheias de terra encravada por debaixo. Dormida, a menina passava uma energia mística surreal, ocasionando uma pressão inigualável no estômago de Leon. Calafrios percorriam suas costas, a voz retornava mais alta, mais forte e autoritária. Muito bem. Morra. Com a última palavra, suas entranhas se reviraram em perigo iminente, o corpo inteiro gelou e travou, imóvel. Não conseguia mexer um único músculo sequer, e sentia, lá no fundo, que dessa vez não conseguiria escapar da situação.

A menina despertou do nada, gritando com agressividade e a boca bem aberta. Seus dentes eram afiados, como presas de um predador, cobertos de sangue e pedaços de músculos presos entre si. Ao findar do berro, Leon ouviu algo muito pesado se levantando, seguido de um rugido alto que lhe acometeu pelas costas, uma lufada de ar quente e fedorento que quase o derrubou. Virou-se, vagaroso, completamente arrepiado e amedrontado. E viu, enfim, a maior fera da sua vida. Um ser colossal de dois metros de altura, largo e robusto como um carro. Peludo, gordo, pesado. A bocarra abriu em um ângulo irreal, mostrando suas presas gigantescas e língua avermelhada. Seus pelos, de um jeito bizarro, eram vermelhos. Um urso. Um colossal urso que o devoraria inteiro.

Mas não foi o que aconteceu. O urso, lerdo e alquebrado, talvez sonolento, prostrou-se, o olhar equivalendo-se ao nível do garoto. Os olhos castanhos do menino se encontraram com os grandes glóbulos pretos e redondos, feito duas enormes jabuticabas. O animal o fitou, por longos segundos, e então empurrou sua face usando o focinho. Leon tombou para trás, caindo de bunda o altar de pedra. Seu ar faltava, mas lutava para tentar ainda respirar. O urso, que antes o encarava, agora subia o olhar para outro lugar, a garota. Leon, curioso, olhou para trás, seguindo a direção do animal. E lá estava a menina, outrora caída e impotente, agora de pé e forte, os dois braços erguidos na direção da fera, as mãos espalmadas solicitando que parasse. O olhar, determinado, expressão fechada e séria. Dentes a mostra, apertando-se um contra o outro, soltando um leve ranger furioso seguido de um ganido gutural. A garota bateu o pé no altar, três vezes, odiosa, e então Leon escutou mais uma vez aquela voz agressiva: que seja.

A ruiva sentou-se, junto ao urso, que deitara novamente apoiando o rosto entre as costas das patas. Os olhos voltaram-se para o menino de moletom, curiosos, e Leon sentiu um arrepio inexplicável. Agora mais calmo, cogitava em se comunicar, mas sua voz não saia. Se limitou apenas a olhar nos belos olhos esbranquiçados da outra, sentindo uma dor imensurável no fundo deles. Dor real, concreta, quase que palpável. Uma destruição sem igual que ocorrera nela e não possuía mais reversão. Um estrago avassalador causado por adversidades da vida, por acasos do destino. Por um momento, se viu nela: um jovem só e destruído, sem nada, ninguém. Apenas dor e auto-sobrevivência. E  estava certo; ambos possuíam os mesmos olhos, o idêntico semblante de uma criança abandonada e perdida, desorientada e incerta do futuro. Tal identificação o fez lembrar-se do que passou, a dor atingindo o peito tão forte tal qual o espancamento mais cedo, porém mais profunda, mais destruidora.

A menina soltou um rosnado baixo, mas não era raivoso. Estava mais para um grunhido, um estranho grunhido convidativo de chamado. Gesticulava com as mãos, estranhamente, reafirmando seu posicionamento. Inseguro, contudo, confiável para com ela, Leon engoliu essa estranha mistura e decidiu seguir a menina. Aproximou-se com cuidado, evitando cair ou encostar no corpo alheio. A garota sentiu o calor corporal do outro de longe, sendo atraída por ele. Era um dia frio, mas Leon não o sentia por conta do casaco. A garota, por outro lado, sentia a pele sendo cortada pela temperatura. Sentiu uma atração pelo garoto, como se ele pudesse ajudá-la, aquecê-la e protegê-la. Então, sem mais nem menos, lançou-se contra ele, abracando-o apertado com toda a força que lhe restara.

Leon escancarou os olhos, a boca um pouco aberta também em surpresa. Mas não durou muito. Logo o choque fora substituído por um sentimento cálido de conforto, de sensibilidade em relação à situação da garota. Não se conteve, as memórias vieram com tudo, e finalmente, Leon se permitiu sofrer, se deixou sentir. Desabou, abraçando a garota na maior força de sua vida, quase que segurando-a como uma âncora para a realidade. Fazia tanto tempo que não sentia o calor de um abraço, o acalentamento e o conforto da proximidade carinhosa... Era magnífico, perfeito, sem igual. E a ruiva, que conhecia pela primeira vez esse contato, queria se enfiar dentro do menino, desabando em lágrimas sem nem saber ao certo o porquê. A temperatura era formidável, relaxante, maravilhosa. Tamanha era a confortabilidade que, mesmo as uma da tarde, ambos sentiam o cansaço tomando conta. Chorando imparáveis, sentindo as dores de anos acumuladas e guardadas, acometidos pelo cansaço de todo esse tempo, caíram ao sono abraçados, um em cima do outro. Não tinham capacidade para entender, mas aquele momento seria responsável por mudar tudo para sempre.

Durante o silêncio instaurado, apenas o barulho das respirações dos humanos e do urso eram ouvidos. Entretanto, o ambiente não permaneceria naquela quietude por muito tempo. Logo, fora tomado por um baixo sibilar e serpentear de luzes vermelhas piscantes, a forma de um grande animal, um urso, aparecendo no meio do ar. A figura espectral observava os dois desconhecidos que, embora nunca tenham se visto, eram tão compatíveis e parecidos. Não foi capaz de conter um sorriso de canto, que surgiu a contragosto na boca. Satisfeito, suspirou, chegando mais perto para observar atentamente os detalhes dos dois adormecidos. Então, pela primeira vez na sua existência infindável, admitiu em tom baixo:

— Talvez ainda existam humanos que valham a pena. 


Notas Finais


Obrigado por ter chego até aqui, lido tudo isso e, de algum jeito, gostado. Desta vez, não vou solicitar opiniões nos comentários, deve ser irritante. Daqui a dois dias, como combinado, vou postar o último. De todos, é o menor dos capítulos, apenas um epílogo para a história.

Tenha um bom dia, tarde, noite, madrugada ou novo conceito de tempo inventando daqui 200 anos pelos viajantes do tempo. Adeus, fiquem bem e até o próximo capítulo.

Ps: Após o fim da postagem dessa história, vou me concentrar nas one-shots de FNaF, provavelmente, mas não tenho nada confirmado.


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