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História Destino - Capítulo 4


Escrita por: Randomusuario e Kinski_Sah

Notas do Autor


E finalmente, último capítulo postado. Não vou me estender muito por aqui, boa leitura.

Capítulo 4 - Destino


De queixo caído, Leon observou aquela monstruosidade enorme em formato de urso saltar de dentro do rio, emergindo da água segurando dois peixes em sua mandíbula. Balançou o corpo, um jato respingado de líquido voejando sobre o garoto, molhando-o inteiro. A ruiva, sentada ali perto, riu e bateu palmas, tal qual um bebê se divertindo ao ver algo engraçado. Leon bufou, mas não se irritou por conta da alta temperatura do dia. O sol queimava a pele facilmente, mas a garota não parecia se incomodar, o corpo já acostumado por desavenças climáticas. O garoto, por outro lado, sentia suor escorrendo de cada canto, seu moletom quase que pegando fogo de tão aquecido que estava.

Os peixes caíram aos pés dos dois, ainda dando alguns pulos desesperados e inúteis antes de se estirarem inertes na grama. O urso, satisfeito, saiu de perto deles e foi até o outro lado do rio, deitando-se na grama e por vezes tomando um pouco da água. Subitamente, a menina lambeu os lábios, soltando alguns grunhidos ininteligíveis e saltando contra os peixes. Teria abaconhado-os facilmente, não fosse a intervenção do menino. Leon apanhou o alimento, se pôs de pé e levantou os braços bem alto, impedindo que estivessem ao alcance da mais baixa.

— Opa, opa, opa! Você tá pensando em comer isso aqui cru? Tá maluca? — Falava, embora no fundo suspeitasse se a garota realmente o entendia. — Tem que cozinhar primeiro, menina!

Mas a resposta que recebera não passou de grunhidos e resmungos de raiva. Pulava, esticando seus bracinhos, tentando de todo modo alcançar aqueles peixes. Nervoso, Leon se afastava em passos curtos para trás, apenas para ser seguido pela garota que o fuzilava com o mero olhar. O urso, antes distraído fitando o rio, agora mantinha os olhos presos ao garoto, o que o fez engolir em seco e sentir a boca secando. Viu os dentes estranhamente afiados da menina, manchados por algo escuro que lembrava sangue. Seus olhos, brancos, encaravam-no transmitindo um genuíno ódio típico de um animal quando tem seu território invadido. Leon fizera isso, ultrapassara a linha daquela fera.

— Desculpa, desculpa! Pode ficar! Leon não querer problemas! Leon amigo! Leon amigo! — Tentou usar um vocabulário mais "homem das cavernas", na esperança de ser entendido, mas a garota continuava como um bicho. Antes de arrumar problemas, lançou o alimento para a menor, que agarrou um com a boca e outro com a mão. — Eu só queria te mostrar uma coisa...

Pouco se importou a mais nova, entertida demais em sua comilança desenfreada. Manchava a boca e os dedos com sangue e escamas, cuspia pedaços de espinha e mastigava com brutalidade demasiada, pedaços de comida mastigada escapando da boca e caindo ao chão. Leon a deixou ali, no cantinho próxima a uma árvore, e decidido, foi até o lago. Pegou um galho de uma árvore, uma pedra na grama e se colocou ao trabalho; riscava a madeira usando a rocha, determinado, até que criasse uma ponta decente. Em poucos minutos, seu trabalho estava concluído: uma mini lança improvisada que daria pro gasto, supunha. E então, de frente para o rio tranquilo, armou um golpe e aguardou pacientemente.

Durante minutos a fio, calculara a trajetória dos peixes, observando suas figuras distorcidas pela refração da água. Relembrava-se da vez que o pai o levou para pescar, visualizando a memória quase como um filme bem diante de seus olhos: "Espere bem, calcule os movimentos e então, quando sentir que entendeu, ataque. Sempre enfie até o fundo, o peixe costuma estar mais baixo do que aparenta." Era isso que faria, estava na fase do cálculo, da espera. O momento em que a ansiedade mais ataca, o instante onde tudo tem a tendência de dar errado, os erros provando-se fatais. De olhar fixo sobre a corrente, nem percebeu quando a garota entrou na água, andando até o outro lado do rio e se sentando ao lado do urso, os olhos fechando pesados. Adormeceu ali mesmo em poucos instantes.

As águas se partiram, espirraram, molhando ainda mais o menino. A ponta de madeira venceu o rio e afundou o máximo que podia. Atravessara tudo sem qualquer resistência, um golpe certeiro e preciso. Puxou a lança de volta, retirando-a da água cravada em um peixe pequeno. Sorriu, alegre, pois era um progresso. Continuaria ali, por algum tempo, até que conseguisse fazer o que queria, mas valia a pena. Então não desistiu, arrancou o casaco do corpo e enxugou o suor da testa, lançando-se sobre o rio e prosseguindo o trabalho.

[...]

O cheiro de fumaça e carne queimada despertou o interesse das narinas alheias, tanto do urso quanto da menina. Ambos despertaram, cheios de preguiça, bocejando e coçando os olhos cansados. Avistaram, ao longe, fumaça saindo por entre as árvores. Observando a direção, parecia vir de onde se situa a caverna do urso, provavelmente. A menina nada disse, mas o animal sabia perfeitamente o que fazer. Prostrou-se, espalmando as patas, aguardando por sua "mestra". Sem demora, a garota subiu, agarrando o pelo e deixando que a fera a guiasse até aquele ponto chamativo e irresistível. E foram, enfiando-se entre as árvores, vencendo a pouca distância facilmente.

Na chegada, foram recebidos por um grande e imponente brilho alaranjado de chama. O crepitar do fogo era alto e ressoava aos montes, tão presente quanto o próprio calor da pira. Envolta por uma cadeia circular de muitas pedras, alimentava-se de pilhas de lenha como galhos secos, pedaços de madeira e folhas encontradas pelo local. Em sua cadeia circular de pedras, descansavam grandes folhas maiores que as outras, as quais serviam de "guardanapo" para manter peixes muito bem assados que exalavam um odor delicioso. Haviam muitos, dezenas deles, cada um sobre alguma pedra diferente. E por último, de frente para a pira, estava Leon, sorrindo convencido.

— Agora sim você pode comer! — Exclamou, ansioso, parando de frente pro urso e encarando a garota. Os olhos se encontraram por longos segundos, encarando um ao outro. — Espero que goste, fiz pra você e... — Um ronco colossal interrompeu a fala, era o estômago do garoto. — Ok, talvez um pouco para mim também. Mas tem pra todos nós, até pro urso.

Dito isto, se afastava e ia até a fogueira, pegando um dos peixes e estendendo para o animal. Ele cheirou, farejou, avaliou a oferenda por bastante tempo até se sentir confortável. Abriu sua grande boca, abocanhando com cuidado para não levar a mão alheia junto. Assim que pôde, puxou aquilo pra dentro, mastigando e engolindo rapidamente. Por razões óbvias, não disse nada, mas seus olhos pretos pareciam querer expressar algo. Se pudesse fazê-lo, seria satisfação. Perplexa, a garota estreitou os olhos, suspeitando daquilo. Leon a ofereceu um também, uma demora de alguns minutos ocorrendo antes que a menina pegasse o peixe. Tal qual o urso, a possuída farejou o alimento, sua face contorcendo e a boca salivando com o delicioso aroma. Sem demora, devorou, o rosto explodindo em expressões por conta do carnaval de sabores em sua língua. Leon sorriu satisfeito, pegando um assado para si mesmo e sentando ali por perto.

O garoto mal conseguia comer, gargalhando da maneira como a menina e o animal disputavam para ver quem devorava mais. Não demorou muito para que seu trabalho de uma hora fosse consumido, talvez cerca de uns dez ou quinze minutos. E após a comilança, o urso deitava-se de barriga para cima, a pata sobre seu abdômen feito um humano que comeu demais no almoço. Ao lado do garoto, a ruiva apareceu, sentando perto e encostando a cabeça em seu ombro. Leon a viu de perto e, por trás de toda a sujeira e feridas, foi capaz de enxergar uma menininha alegre e meiga. A visão mexeu com seu coração, apertando forte o peito e marejando os olhos. Havia conhecido aquela garota no dia anterior, mas já sentia que estavam criando algum tipo de laço, mesmo que pouco a pouco.

O que passaram juntos, menos de um dia atrás, foi algo diferenciado. Leon nem ao menos conseguia explicar, mas sentira-se atraído pela outra, como se houvesse uma força os aproximando. A menina sentiu o mesmo, porém não era capaz de perceber ou comunicar. E bendita seja tal energia mística aproximadora, pois um abraço apertado e um choro interminável era tudo que precisavam naquele momento.

[...]

Passaram quatro semanas desde o "ensinamento" do peixe assado. Durante esse tempo todo, Leon se prontificou em tentar ensinar o máximo de coisas que pudesse para a companheira. Primeiro de tudo, fez questão de sempre estar falando com ela, uma forma de fazer a menina entender e assimilar algumas palavras e seus significados. Lentamente, havia um progresso, pois ela entendeu coisas simples como "sim, não, pare", além de conseguir responder quando era chamada. Seria uma jornada árdua, mas não planejava desistir tão cedo assim.

Durante esse período de tempo, os dois começaram a caminhar pela floresta, rumando nômades em direção nenhuma. Leon tomava a frente, acreditando que estava se dirigindo até alguma cidade. Sabia que haviam algumas ali por perto, só não tinha a noção completa do caminho. A menina sempre o seguia fielmente, esperando os passos do mais velho para dar os próprios; enxergava-o como alguém extremamente sábio e certeiro, sempre sabendo onde estava indo e como chegar lá. O garoto sabia dessa impressão e esforçava-se para manter as aparências.

Atualmente, são cerca das seis horas da tarde. O sol já se punha enquanto a dupla ainda vagava pela mata. Longes de qualquer rio em que pudessem pescar, a fome assolava seus estômagos vazios. Além da fome, o cansaço também se mostrava bem aparente, forçando que parassem no lugar para uma pausa. Leon, derrotado, caiu de costas na grama, encarando o céu que transformava-se em noturno lentamente, trocando suas cores de alaranjado para um azul escuro impenetrável. Os braços estendidos pelo mato, as costas das mãos espalmadas pela grama, pinicando. O peito subia e descia devagar, respirações lentas e custosas. Cada expirada era problemática, acometidas pela canseira e preguiça inerentes ao ser humano.

— Menina? Menina, cadê você? Menina! — Chamou, a voz mal saindo, fraca demais. — Eu não tô bem... Menina, fica perto!

Ela surgiu, por trás dele, a cabeça aparecendo em seu campo de visão. Encarava o rosto da menor de baixo, observando os detalhes. Os cortes e machucados no rosto agora menos aparentes, alguns cicatrizados. A face limpa, desprovida de poeira e terra, os cabelos menos oleosos, mas ainda sujos e com alguma caspa. Não tinha mais bolhas de sangue ou sangue seco pela face, corpo e em qualquer canto. Sua aparência mais apresentável dava-se por conta de Leon ter dado banho na menina numa cachoeira no dia anterior. Também aproveitara para se banhar.

— Que bom que está aqui... tá com fome? — Indagou Leon, os olhos preocupados. Sua cabeça doía e o corpo parecia mais pesado que o normal. — Não deve entender assim, né? Quer comer? Aaaa? — Abriu a boca, gesticulando com os dedos, simulando mastigar e engolir algo.

Embora estivesse morrendo de fome, negou com a cabeça, preocupada demais em relação ao garoto para se importar consigo mesma. Não sabia o que era, mas a menina sentia uma energia estranha no menino. Conseguia ver seu sofrimento, sentir a dor muscular que ele sentia. O que dera nele? Por que estava assim? As perguntas eram muitas, as respostas, nulas. Ele não está nada bem. Tais palavras ressoaram na mente da ruiva, mas não como vocalizações incompreensíveis, mas sim entendíveis pela possuída. Ela arregalou os olhos, sem compreender o que acabava de acontecer. Ela entendera uma fala.

Eu posso ajudar. Mais uma vez, falou. Seus pelos arrepiaram, a boca entreabriu. Era uma voz que soava do fundo de sua mente, um tom que outrora já foi irritado, selvagem, bruto. Porém, agora se tornou manso, calmo, ameno e esmorecido. Parecia um guerreiro furioso que deixou o ódio de lado, esquecera a cólera e se dera conta de que, além de lutar, nada sabia fazer. Isso doía, acabava com a moral, honra, sanidade. A súbita realização de que era tão simplório e medíocre quanto aqueles que subjugara o destruiu em poucos dias.

— De que jeito? — A menina perguntou ao vento, já não estava mais ao lado de Leon. Ele sumiu, todo o ambiente ao redor sumiu. Estava perdida numa escuridão inextinguivel.

— Ele está doente, não era acostumado com a vida na floresta. Vai morrer em pouco tempo, mas eu posso ajudar. — Surgindo das sombras, um urso espectral e incorpóreo de brilho vermelho. — Eu posso curá-lo.

— Você pode!? Por favor, eu faço qualquer coisa! Vamos Bruce, ajuda! — A menina suplicou, empertigada. Por achar que era seu urso, falou o nome que Leon o deu. Nem sabia como estava falando, para começo de conversa. — Espera, por que eu consigo falar?

— Não está falando realmente, só estamos ligados a tal ponto que um compreende o outro completamente. — Respondeu, o olhar distante. — E eu não sou o Bruce, apenas influenciei ele para que se apegasse a você. Ele a enxerga como um filhote. Também acha que é sua mãe, mesmo sendo macho. Chegar a ser engraçado. — Soltou risadinhas, a voz enrouquecendo e soando feito um trovão. — Pegue isso, use para curar o garoto.

A menina observou o urso, de pé em duas patas, abrir uma das dianteiras e estendê-la. Um brilho rubro tomou conta, envolvendo-a cegante. Após se dissipar, tinha uma espécie de palitinho com algo redondo na ponta. A menina não sabia o que era, pois nunca viu um na vida, mas se tratava de um pirulito. A cor do doce era de um vermelho forte, pungente, vivo. Parecia ter tremeliques, pulsando ora ou outra em momento aleatórios.

— Por que está me ajudando? — Questionou, pegando o objeto.

— Por quê? — O espírito repetiu, olhando para o nada por longos segundos. Respirou profundamente, para assim dar enfim uma resposta. — Eu não sei ao certo. Coloque isso na boca de Leon, mas não o deixe engolir. Ele vai gostar.

Piscou, e então estava no mundo real novamente. Leon, deitado ali abaixo, mantinha os olhos fechados e uma expressão dolorosa. Se contorcia sem parar com as mãos na barriga, parecia ser a fonte da dor. A ruiva se prontificou em abrir a boca alheia, enfiando o doce ali apressada e com força, torcendo para que desse certo. Segurou o palito, impedindo que ele engolisse, e então escutou o garoto sugando o doce, chupando devagar. Os olhos adormecidos piscaram, despertando calmamente de seu sono doloroso. Parecia ter mais brilho no olhar, menos indisposição, maior vontade de continuar e fazer o que tinha que ser feito.

— Menina... O que aconteceu? Ah, que gostoso... — Disse, saboreando o melhor pirulito de sua vida, mas sem poder comemorar muito por conta do cansaço. — Por que tá me olhando desse jeito? Tá tudo bem, eu só percisava dormir um po...

A fala morreu, interrompida por um  peso sendo lançado contra o corpo imediatamente num baque forte e violento. Leon sentiu as mãos se enredando em sua nuca e costas, o próprio rosto ser esmagado contra o peito alheio. Fora puxado com tudo para um abraço apertado e necessitado, os dedos correndo por seu couro cabeludo e costas desesperados, aninhando sem pausa como se o simples ato fosse fazer que ela perdesse o menino de vez. Leon escutou o choro não mais animalesco da menina, agora mais semelhante à algo que lembrava humano. Sentiu as lágrimas dela caírem dentro do capuz de seu moletom, molhando o pescoço e escorrendo pelo peito e costas. Após o choque, Leon se lembrou por um segundo tudo que passaram nas últimas quatro semanas; o jeito que cozinhava para eles, como contava histórias de dormir para a pequena — que mesmo não entendo, animava-se com a empolgação na narrativa de Leon —. Do jeito que cavalgavam juntos em Bruce e como sempre caia do urso e se espatifava no chão, causando risadas na menina... Seu corpo inteiro tremeu, e também choroso, abraçou de volta a menor o mais forte que podia.

— Leon... Leon!!! — A menina, de supetão, articulou, sua fala saindo má fonetizada e quase impronunciada, mas audível, compreensível o suficiente para alguém tão próximo dela.

— Você... disse meu... nome. Eu nem acredito!!! Que legal!!! — Exclamou, ignorando a dor e o cansaço. Levantou-se, ainda abracando a menina, girou-a no ar enquanto abraçava e gargalhava. — Você pode mesmo falar, menina! Que legal! Espera, acho que te chamar assim agora é meio estranho, já que fala meu nome... — Confuso, colocou-a no chão, encarando pensativo. — Você precisa de um nome. Que tal... — Vasculhou no fundo da mente, procurando por alguma coisa que fizesse sentido, ou fosse bacana, mas nada o ocorreu no momento. Todavia, os olhinhos brancos ainda o fitavam, ansiosos, e Leon se sentiu nervoso e impelido a dizer algo logo. — Nita! Que tal Nita!?

Um silêncio se instaurou, Leon observando a outra com um sorriso amarelo em lábios. A menina nada disse, parada, intacta, quieta. O garoto sentiu as entranhas se revirando, os intestinos querendo pular para fora pela boca, empurrados pela ansiedade e adrenalina gerada com a expectativa gigantesca colocada em relação a reação da garota. Cada segundo pareceu uma eternidade, ou talvez minutos, o tempo ficou confuso demais para discernir qualquer coisa. A menina encheu os pulmões, puxando muito ar, mais do que precisava, e então falou.

— NITA!!! — Berrou, estremecendo as cordas vocais e quase que o próprio amigo ali do lado. Seu brado saiu alegre e eufórico, pareceu gostar.

Leon não conteve um enorme sorriso, os dentes mostrando-se orgulhosos e satisfeitos, toda a face contorcida numa expressão feliz e contente. Nita gostara do nome, era tudo que importava. Aquela ligação estranha e surreal que tiveram desde a primera vista se tornava mais nítida, mais palpável. Leon agora entendia, entendia mesmo o que havia os unido: destino. Não poderia ser outra coisa, era muita coincidência para não ser o destino. Apenas uma força imparável seria capaz de mover montanhas para unir duas pessoas que, embora tão distintas, tão necessitadas uma da outra. O menino cresceu nesse pouco período de tempo, amadurecendo sem perder sua essência brincalhona e meio "infantil". E a garota, que antes nada mais era além de uma besta feroz e incontrolável, agora aprendia como se tornar um ser humano. E o que é mais humano do que ter e amar um irmão, uma família?

[...]

"Os irmãos Littlefoot", um nome conhecido por todo e qualquer cidadão de Stars City. A cidade estrelática os recebera cerca de seis anos atrás, no início de sua grande revolução comercial com a chegada de um torneio especial. Rumores e boatos apontam que chegaram moribundos, desesperados e sem esperança, mas mantendo-se firmes apoiados um no outro. Entretanto, isso são só boatos, nada além de histórias geradas pelo efeito do telefone sem fio de seis anos. Atualmente, ambos participam dos jogos do "Brawl Stars", uma espécie de torneio violento ocorrido na cidade. O evento era o responsável pela economia local inteira, fazendo girar todo o capital em absurdas quantidades desde sua chegada.

Na maior parte das vezes, jogam juntos, mas ora ou outra os irmãos acabam caindo em lados opostos da arena. Quando isso ocorre, sempre é um espetáculo que lota as arquibancadas. A sinergia perfeita entre os dois e o conhecimento pleno de um sobre o outro os fazia lutar como nunca antes visto. Golpes perfeitamente executados, esquivados com graciosidade fenomenal. Emboscadas perspicazes armadas com maestria, mas percebidas por tão grande sabedoria quanto a esperteza. O embate durava longos e emocionantes minutos, variando o vencedor a cada vez, de modo que sempre estivessem empatados, a liderança de cada um durando pouco.

No dia de hoje, três da tarde, um evento de futebol se fazia presente no torneio. Nita e Leon, no mesmo time, entraram na arena para fazer história, como sempre. Do outro lado, outros lutadores tão valorosos quanto eles, aclamados naquele evento em específico. Os irmãos trocavam olhares antes do apito inicial, um sabendo o que o outro pensava e dizia apenas com o movimento dos glóbulos oculares. Sorriram de canto, sapecas, ao bolarem uma estratégia astuta e enganadora que pegaria os inimigos de surpresa. Nem saberiam o que os atingira antes que caíssem impotentes.

O apito soou, os lutadores avançaram, a arquibancada foi à loucura. Todos gritaram, ansiosos, loucos pelo desenrolar do jogo. Torciam, cada um para algum time, clamando de todo seu ser pela vitória de seus escolhidos. Entretanto, em meio a tanta animação, havia uma figura destoante das demais: um homem de rosto sério, inexpressivo, cabelo longo negro amarrado. Encarava os irmãos, sem desviar os olhos por uma ínfima fração de segundo, sua visão tão aguçada quanto a de uma águia. O peito desnudo, coberto apenas por um colete esverdeado que utilizava. Vestia também uma calça flanelada marrom, larga demais para ele, assim como o colete aparentava ser grande. O corpo, antes mais definido, agora estava meio magro e a musculatura consideravelmente menor. Seus olhos brancos fitavam os irmãos com interesse, intrigado.

— Você está tão diferente, nem ao menos me reconhece mais. — Bo disse para si mesmo, a voz abafada pela gritaria da multidão ao seu redor. — Mas é melhor que seja assim, hoje entendo que não era sua culpa e que fui um tolo. — Concluiu, baixando a cabeça, perdido em lembranças. — Queria eu ter coragem para me aproximar, mas não sou forte o bastante para isso.

Olhando a cena de cima, a mulher acenou de leve com a cabeça, observando o caótico campo de futebol acometido por tiros e explosões das habilidades especiais dos lutadores. Uma a uma, folhas de atividade eram deixadas em sua mesa, acomodadas perto da bola de vidro que observava sem parar. Sua mente, entretida, não pensava em mais nada além daquilo, viajando por entre pensamentos dos futuros atos prestes a se desenrolar. Então, após a cabeça analisar tudo aquilo, todos aqueles acontecimentos inevitáveis e conseguir entendê-los enfim, foi capaz de quebrar sua concentração inifinita e pensar em voz alta.

— Vai acontecer? Não, não. Já aconteceu. — Tara resmungou, fitando a esfera a todo momento, inerte em seus próprios pensamentos.

— O que já aconteceu, tia Tara?




Notas Finais


E aí, o que acharam da história, vocês que chegaram até o fim? Espero que tenham gostado. Foi bem trabalhoso fazer. Comente algo se quiser, mas apenas se quiser.

A história se saiu como eu esperava? Não, de fato não. Mas é um prazer ter terminado um projeto grande e publicado por inteiro. Já é satisfatório o suficiente, estou orgulhoso de mim mesmo e de meu próprio trabalho, a pesar do desânimo pelo flop.

Enfim, obrigado por ler até aqui, significa bastante pra mim. Até a próxima história, que eu não sei ao certo o que por ser; talvez algum poema, quem sabe uma one de FNaF.


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