História Deuses Mecânicos - A Roda da Fortuna - HIATO INDETERMINADO - Capítulo 16


Escrita por:

Postado
Categorias As Provações de Apolo (The Trials of Apollo), Os Heróis do Olimpo, Percy Jackson & os Olimpianos
Personagens Afrodite, Apollo, Ares, Artemis, Atena, Bóreas, Caronte, Dionísio, Éolo, Éris, Eros (Cupid), Febe, Hades, Hefesto, Hera (Juno), Hermes, Íris, Nêmesis, Niké (Nice), Oceano, Perséfone, Personagens Originais, Phobos, Poseidon, Prometeu, Quíron, Tique, Zeus, Zoë Nightshade
Tags 1800, Acampamento Júpiter, Acampamento Meio Sangue, Apa, As provações de apolo, Chb, Deuses, Era Vitoriana, Hdo, Inglaterra, Olimpo, Os Herois Do Olimpo, Percy Jackson, Pjo, Steampunk, Toa
Visualizações 43
Palavras 3.943
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Shounen, Sobrenatural, Steampunk, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá meus amigos e amigas, saudações para vocês direto de Ginnungagap, mentira haha, mas agora é sério, senti saudades de vocês e eu me desculpo por me ausentar muito tempo e ter ficado sem escrever e tudo mais, caso alguém aqui seja leitor de "Os Contos de Yggdrasil" sabe que eu disse que ia ficar num hiato de duas semanas para aumentar minha produtividade, mas acabou que nesse tempo meu PC deu pau e teve que ir pro consertos umas três vezes e eu só tenho ele de de volta esses dias e eu fiquei escrevendo o capítulo dezesseis de Deuses Mecânicos e bem, vejam só ele está maravilhoso eu me empenhei tanto e como a trama está se aproximando do fim (em tipo seis ou sete capítulos) eu já quero já deixar tudo preparado para o final que vocês tanto aguardam que é a batalha em Cadair Idris, no país de Gales.
Este capítulo não é um capítulo de muita ação, apenas um capítulo de transição que creio que amarão tanto (ou odiarão, mas aí é opinião de vocês).
Até as notas finais.

Capítulo 16 - XVI - Sonhos precisam ser tão estranhos assim?


            O DIA TINHA sido muito estranho para o filho da deusa da sorte e prosperidade; ele tinha conhecido dois deuses, capturado dois leões incapazes de serem caçados, enfrentado um pirata crustáceo louco e sua tripulação mecânica e perdido muitas coisas como seu arco, meia dúzia de flechas e dois amigos — o cão infernal Negrume, um presente dos três juízes do mundo inferior e o seu sátiro-guia, Cyprian Forrest. Foi um horrível, terrível e assustador

            Hector agradecia ao deus do sono, seja lá qual for seu nome, por ele não ter perdido o sono. Depois de quatro dias dormindo tendo o céu estrelado como teto, Hector sentia falta de seu mínimo quarto na mansão Yearwood onde conversava com seu pai que lhe contava histórias como as do Rei Artur e seus homens, os cavaleiros da Távola Redonda, ou de Robin de Locksley, também conhecido como Robin Hood e suas peripécias em Sherwood Forest.

            Ele nunca se viu como um herói como Artur que empunhava sua lâmina Excalibur que tinha sido forjada pelo ferreiro Wayland e entregue a ele por Viviana, a Dama do Lago, em uma de suas aventuras ou como Robin que roubava dos ricos para dar aos pobres. Ele sentia-se um lixo, não tinha feito muita coisa heroica desde que saíra de Londres.

            A mantícora na mansão? Helen matara. Atar-se à um lobisomem com algemas mágicas vindas de lugar nenhum obrigando-o a vir numa missão suicida até Cadair Idris? Anson o fez. Capturar os outrora caçadores Atalanta e seu marido Hipômenes, que agora eram leões, para retornar a deusa Cibele? Não teria conseguido sem James e sua rede de Hefesto e Ofélia.

            Ele sentia-se pior que um lixo, sentia-se imprestável, a missão era para recuperar a Roda da Fortuna, o timão mágico de sua mãe, que era capaz de guiar a sorte dos homens e alterar suas sinas com um único giro. Ele achava que quando nasceu e sua mãe girou a Roda da Fortuna o azar tinha descido em Hector como um raio no solo durante uma tempestade.

            Ele revirou-se na grama e tentou entrar no reino dos sonhos onde lá poderia ser um herói como Artur, Robin Hood ou Perseu.

            Em seu descanso onírico o filho da sorte estava num pico enevoado de uma montanha pisando na grama esverdeada e orvalhada que reluzia o brilho da lua no céu em meio as nuvens pesadas acima. Em passos leves andou pela montanha e viu sua extensão rochosa estender-se circulando um lago negro como um pesadelo obscuro no qual nem os raios prateados do luar ousavam tocar como se um demônio ali vivesse em sua aquosa profundidade cor de carvão.

            Permaneceu-se a caminhar pela montanha e por suas cavernas, encontrando uma galeria esculpida em rocha negra vulcânica como o salão de tesouro de Hades, mas sem joias ou ouro. Em amplos salões cavernosos vazios via-se paredes com quartzo brilhante, a única fonte de luz do local, e mais túneis que davam em salões maiores, porém não vazios havia mais daqueles estranhos autômatos que ele tinha visto no Cassiopeia, porém pareciam não se mover como as vítimas de Medusa e mesmo parados ali sofriam numa agonia muda, Hector podia sentir nos ossos o grito das almas confinadas no metal divino e o gemido incessante dos espíritos da natureza sacrificados para servir como combustível daquela coisa horrenda que o tal Lorde Coroado tinha feito.

            Ele queria vingar os espíritos da natureza mortos para algo tão nefasto, sentia-se obrigado, mal conhecia Cyprian e ele merecia ser vingado, o capitão tinha sido o começo e a Terra Incognita seria o fim.

            Os túneis começaram a ficar estreitos conforme se dirigia a outros salões até que chegou num salão enorme onde um estrado de pedra com três tornos e um timão de navio feito de madeira de carvalho com partes de bronze celestial com trepadeiras de hera inglesa ao redor dos raios da roda do timão.

            Aquela era a Roda da Fortuna, o item mais poderoso de sua mãe, capaz de fazer homens terem tanta boa ou má sorte, de alterar suas sinas com um movimento e tudo mais, mas por que ela estava desprotegida? Não deveria ter dúzias de autômatos ali?

            — Carvalho é uma ótima madeira, não acha? — disse uma voz rica. — Faz ótimos arcos e flechas. Dizem que dá para ouvir os sussurros de Zeus na casca da árvore. Eu soube que já houve um bosque de carvalhos falantes em Dodona que diziam profecias, imagino que flechas das árvores deste bosque devem ser horríveis e terrivelmente falantes, haha.

            Hector virou para a esquerda e não viu ninguém. Virou para a direita e também não viu ninguém, mas quando virou para trás viu alguém estranho e que não parecia com nada do que encontrara em toda sua vida.

            Era uma figura alta, por volta de um metro e noventa sem contar com os chifres do capacete feito do crânio de um cervo que ele usava para encobrir seu sombrio rosto. Os olhos eram de um tom de amarelo medonho sem pupilas e sem íris, apenas um amarelo fantasmagórico e chamejante como um lampião.

            A pele do homem era da cor de trigo torrado e suas roupas pareciam de séculos atrás, ele usava uma camisa de seda negra e calça de couro marrom que combinava com as botas, ele usava uma capa feita da pele de um animal que Hector não queria conhecer enquanto vivo e portava armas que tinham um detalhe em comum — nenhumas delas era de ferro ou nenhum metal aparente. O arco e as flechas na aljava em seu cinto eram de madeira branca, talvez choupo, e a espada era feita do osso do fêmur de um animal bem grande e o berrante de caça era feito do chifre de um carneiro.

            O visual do homem era sinistro, parecia o tipo de pessoa que Hector não queria encontrar numa noite sem lua num dos becos do leste de Londres. Os penduricalhos nos chifres do capacete amaciava um pouco sua sinistra aparência, cristais e cacos de espelhos pendurados por fios finos como teia de aranha decoravam a altiva galhada cadavérica do crânio cervino que era a proteção cefálica do homem.

            — Quem é você? — perguntou o filho da deusa da sorte.

            — Atendo por muitíssimos nomes — respondeu ele. — Filho Branco, Face Escurecida, Escolta dos Mortos, Ladrão de Cadáveres, O Arauto, Nobre da Corte do Ar, Abutre dos Campos de Batalha, Líder da Matilha Celeste, mas muitos, sejam meus amigos ou meus inimigos, me chamam de Caçador. Nomes tem poderes inacreditáveis, escondem segredos e poderes inimagináveis. Seria você capaz de controlar tais poderes e aguentar tais verdades sufocadas nestes segredos, Hector?

            — Hã, Caçador, o que faz aqui? — perguntou Hector.

            — O que um caçador faz, aguarda ansiosamente pela sua presa — respondeu. — Mas eu te convoquei aqui, pois você precisa ver com seus olhos um dos meus locais de caçada favoritos e o que esta Terra Incognita está fazendo.

            — A Terra Incognita? — indagou. — Quer dizer que o Lorde Coroado está aqui?

            — Não, ele está em seu outro palácio — explicou Caçador. — Mas em breve virá para cá com seus compadres e seu exército.

            — Os autômatos não são o exército dele?

            — Apenas marionetes sem uso algum. Fantoches de lata com alma humana, almas sem voz que gemem em sua agonia muda e que obedecem cada ordem do Lorde e de seus homens, seres vis que você nem pode imaginar.

            — Tipo monstros?

            — Alguns são monstros, outros são mortais trazidos de volta a vida por meios necromânticos terríveis, deuses menores ressentidos e semideuses que querem vingança do Olimpo e de seus deuses antigos e empoeirados.

            — Cruzes.

            — Sim, cruzes, filho da Sorte — disse Caçador que brincava com um dos penduricalhos nos chifres de cervo do seu capacete. — E eles não vão parar com os deuses gregos, eles tem aliados poderosos infiltrados em outras organizações que eu nem deveria dizer a você. Para eles, a humanidade necessita de novos deuses, de uma nova era, de que tudo seja limpo para que eles ascendam em sua terrível apoteose e governem os mortais como os Titãs governaram antes e como os Gigantes governariam.

            Hector não conhecia tais gigantes ou titãs, mas tinha desconfiança que eram caras maus que os deuses já tinha derrotado no passado.

            — A sina dos seus deuses será mudada no dia anterior ao Solstício e você, Hector, é a peça principal para reverter isso — o Caçador retirou seu capacete de cervo e pôs debaixo do braço revelando seu cabelo loiro platinado como fios de geada pura e seu rosto bronzeado sujo de cinzas negras como carvão fazendo jus a um de seus nomes, Face Escurecida. — E nos céus acima de Cadair Idris eu estarei assistindo. Eu e meus homens; Arawn e seus cães; as mulheres aladas de Odin, as valquírias; a deusa Freya em sua carruagem de gatos; o seu deus da morte, Tânato e todos os psicopompos possíveis estarão assistindo de camarote a batalha. Esta será a primeira batalha de muitas e aos primeiros raios de sol no amanhecer de vinte e um de junho se tudo ocorrer certo e você ter virado a sorte ao seu favor e um de seus amigos semideuses ou você ter morrido, a sua profecia do seu Oráculo Délfico terá acertado.

            Ele tentava esquecer dos versos finais da profecia de Elizabeth dizendo que um deles morreria ali em Cadair Idris, Hector sentia que podia ser ele, já que era o único jeito de ser um herói, morrendo heroicamente.

            — E como tem certeza disso? — perguntou Hector. — Como posso acreditar em você? Você pode muito bem estar mentindo e estar trabalhando para a Terra Incognita, ser um dos aliados dele.

            O Caçador riu, exibindo um sorriso incrivelmente branco e perolado de dentes que lembravam os de Ofélia, a gata de Anson.

            — Eu não sou aliado de ninguém, eu sempre permaneço neutro, apenas favoreço a mim mesmo, Hector Alastair — disse. — E eu não minto, não posso, sou incapaz. Eu desconheço o amargor da língua, o amargor que acoberta vocês mortais e você mais do ninguém deveria conhecer tal sabor acre da mentira, você viveu na mentira por quase dezoito anos.

            — O quê?

            O caçador deu um sorriso de sarcasmo para o filho de Tique.

            — Eu até poderia dizer, mas a verdade não vem de mim, não fui eu quem menti a vida inteira para você — disse o Caçador colocando o capacete de crânio de cervo de volta à cabeça. — Nós nos veremos em breve no campo de batalha, Hector Alastair e nele descobrirá a verdade e seu sabor salgado. Adeus!

            E Hector acordou suado e assustado daquele estranho sonho que teve com o Caçador. Ele estava ofegante e não conseguia se levantar, sentia-se paralisado até que viu o motivo de sua paralisia, o pequeno sátiro, Charlie dormia em cima do corpo de Hector.

            Ele parecia um anjinho dormindo, ele não queria incomodá-lo, apenas o carregou nos braços, aninhando seu corpo, cantando uma canção de ninar de sua enevoada infância para que o pequeno sátiro continuasse no reino dos sonhos, um lugar onde seus pais e seu irmão não tinham morrido e um lugar onde ele podia ser o que quiser.

            A praça onde dormiram em Cardiff era pequena e cheia de árvores bonitas, carvalhos frondosos, tílias, olmos e algumas bétulas. Ele lembrava-se do que o Caçador tinha falado no início sobre carvalhos, dizia que era possível ouvir os sussurros de Zeus na casca, talvez valeria a pena arriscar ouvir os sussurros do Rei dos Deuses numa árvore sem parecer maluco.

            Ele andou até o carvalho mais próximo ainda com o pequeno Charlie nos braços e posicionou sua orelha na madeira rugosa da enorme árvore e deixou sua mente esvaziar-se para ouvir o que quer que a árvore pudesse dizer para o filho da deusa da sorte.

            Nada vinha, nem um mínimo sussurro de Zeus ou de alguma outra divindade envolvida com carvalhos como aquela deusa das plantas e da colheita. Como era o nome mesmo? Deméter!

            — O que está fazendo? — disse uma voz feminina e suave como o cantar de um pássaro.

            Hector virara-se para cima e vira uma moça de cabelos castanhos longos e trançados com bolotas de carvalho. Ela tinha a pele verde-clara e usava um vestido diáfano vermelho preso nos ombros por duas bolotas de carvalho que serviam de broches para segura a roupa. As íris eram castanhas como a casca de uma árvore muito velha e assim como sua pele, as escleras ou branco dos olhos, era de um tom verde porém mais concentrado.

            — Ah, me desculpe, eu só…

            — Você estava tentando ouvir os sussurros dos deuses pelas ranhuras do meu tronco? — perguntou ela e Hector acenou com a cabeça.

            — É, eu desconfiava disso — sorriu a garota. — Prazer, Cleócale, sou uma hamadríade, uma ninfa do carvalho.

            — Cléo… Cleóca…

            — Cleócale, significa glória e beleza no velho idioma da Grécia, mas pode me chamar de Cleo ou de Cale ou de, ah, você decide — riu ela. — Minha mãe me deu este nome estranho, deuses…

            Hector também riu, ele também achava seu nome estranho.

            — E seu nome como é, mortal?

            — Hector.

            — Que nome lindo. O que retém, o que segura ou até o que possui, às vezes significa o que se contem — disse a ninfa com um ar poético, talvez fosse uma aficionada pelo velho idioma grego. — Sabia que seu nome vem do príncipe Heitor de Troia?

            — Não, eu não sabia — respondeu Hector.

            — Deveria saber. Heitor foi um bravo guerreiro na Guerra de Troia, matou mais de trinta e um mil guerreiros gregos, dentre eles Pátroclo, amante de Aquiles.

            — Amante?

            — Sim, o que há de errado num homem que ama outro?

            Hector nunca pensou nisso, mas sabia de homens que amavam outros homens. Ele por outro lado nem sabia se amava algo, a única mulher que já amou já tinha partido dessa para a melhor e homens não vinham a sua mente, muito menos ter o prazer do sexo com estes ou com mulheres.

Sexo era uma coisa que nunca vinha a mente de Hector, ele não queria fazê-lo ou sentir seus prazeres e ternuras, por mais que Jackson, seu velho amigo da mansão e agora um cocheiro para Dare em Percy Street tenha lhe apresentado belas moças, prostitutas que talvez tinham sífilis, cândida e outras doenças em seus corpos castigados pela profissão que tomavam, para o garoto quando este tinha dezesseis, mas ele rejeitara a proposta, não queria ter o prazer de tal ato carnal.

— Não, não há nada de errado, eu só estranhei meu homônimo ter matado o amor da vida de Aquiles. — mentiu.

— Mas foi um acidente, ele tinha usado a armadura de Aquiles e seu elmo, presentes de Hefesto — disse a ninfa. — Mas depois Aquiles vingou-se matando o herói troiano e deixando Andrômaca viúva e o pequeno Astíanax órfão.

— Bem, eu sou diferente de Heitor — disse ele para a ninfa. — Não matarei o amante de ninguém e nem matarei trinta mil guerreiros.

— Claro que não vai, herói — disse a ninfa. A palavra herói soou forçada na boca da dríade. — E se quiser realmente ouvir os deuses, siga até a floresta nas fronteiras da cidade, seu lobisomem poderá guiá-lo, lá encontrará as deusas que precisa se quer algum conselho e se quiser um teto para dormir é só procurar A Casa da Floresta, seu lobo sabe o que é tal lugar.

— Obrigado, senhorita — agradeceu ele.

— E tome isto, bolotas de meu carvalho, são para o pequeno sátiro que carrega no seu braço — disse ela entregando seis bolotas de carvalho maduras para ele. — Ele precisa de comer algo, precisa de forças para superar esta horrível perda.

— Novamente obrigado…

— Não agradeça — disse Cleócale. — Nós espíritos da natureza sentimos quando um dos nossos sofrem, afinal, nascemos do sangue de Urano, o Pai Céu, que caiu na pele de Gaia, a Mãe Terra. Que você e os seus cuidem bem deste garotinho. Adeus.

E a ninfa hamadríade mergulhou na casca do seu carvalho e desapareceu deixando um aroma de folhas.

 

James ainda pensava nos autômatos estranhos com almas humanas em seu interior presas lá, sofrendo e na força vital dos espíritos da natureza correndo pelo filamento de bronze celestial. Aquilo foi o suficiente para lhe dar pesadelos com espíritos da natureza sofrendo sendo mortos por um homem usando uma estranha coroa feita de galhos abrolhosos de um espinheiro-negro e com uma haste longa, uma lança.

Seu pesadelo lhe levou para um lugar diferente, um lugar lotado de autômatos, nada parecidos como os que estavam no Cassiopeia jogados no chão com peças quebradas.

Havia armaduras, elmos e saiotes em manequins no cantos e espadas, lanças e escudos numa das paredes rochosas da caverna onde estava.

Uma enorme bigorna de bronze com martelos, buris, cinzéis, pinças, limas e outras ferramentas de ferreiro tomava o centro da caverna ao lado de um forja que queimava em fogo dourado e prateado intenso.

Sentados numa mesa de madeira e metal não muito longe dali estavam três figuras distintas: dois homens e uma mulher.

A mulher tinha um rosto sério e atemporal entre os dezoito e os quarenta anos e cabelos longos e ruivos como folhas de um outono tardio que caíam em tranças duplas sobre ambos os ombros, ela usava um longo vestido vermelho de mangas largas e um cinto de couro trançado de forma labiríntica como um nó górdio deixando-a mais séria do que já era. Seus olhos eram chamas prateadas que pareciam querer fulminar a alma de James com apenas uma piscada.

Um dos homens tinha cabelos em um tom loiro envelhecido e olhos dourados, usava um avental de couro que ferreiros usavam para não se queimar sob uma camisa de algodão que outrora fora branca e calças de couro e botas pesadas. O rosto era castigado pelo tempo com inúmeras rugas e cicatrizes e as mãos também eram assim, muito calejadas pelo árduo trabalho que devia fazer em metal noite e dia.

O outro homem era mais castigado que o outro, seus cabelos eram negros como fuligem e a cabeça parecia ter sido amassada e o nariz repleto de verrugas parecia um ziguezague como se tivesse caído de uma montanha muito alta e sobrevivido a queda. Ele usava um avental de couro de ferreiro também e roupas que outrora foram brancas, mas que que agora estavam sujas de óleo, fuligem e fumaça. As pernas eram disformes e tinham órteses de bronze para sustentá-la. A barba do homem crepitava fogo de vez em quando o que assustou James.

No centro da mesa havia uma longa espada com joias encravadas no punho e com dizeres entalhados de forma bela na lâmina da arma: Empunhe-me.

— Bela espada, não acha, meu filho? — disse o homem com a barba flamejante. Deuses, não podia ser, era… não podia ser… era Hefesto, seu pai. Então quem seriam aquelas outras figuras?

— Sim — James não gostava de espadas, mas aquela era de fato uma linda espada. Ele tentou tocá-la, mas sua mão atravessou as espada como se ela fosse feita de água.

— Não dá para tocá-la, garoto, não ainda — disse o velho loiro. — Esta espada precisa ser reclamada de novo. Esta é só uma projeção desta lâmina sagrada que aguarda por seu herói.

E a espada virou sozinha e revelou o outro lado da sua lâmina cujo entalhe dizia: Atire-me longe. Os dizeres eram estranhos, quem empunharia uma espada só para depois atirá-la longe? O ferreiro que a tinha feito era de fato louco ou só criativo por demais.

— Qual o nome desta espada? — perguntou James para o ferreiro. — Foi você que a forjou?

O homem acenou com a cabeça que sim.

— Meu nome é Wayland, deve não me conhecer, mas aposto que conhece meus trabalhos como esta lâmina — disse ele tocando a projeção como se não fosse etérea e sim sólida como metal. — Excalibur, a lâmina de Artur. Forjei a Cortana de Ogier, o Dinamarquês; a Joyeuse de Carlos Magno; a Durendal de Rolando; a Gram de Sigurd, entre outras lâminas famosas.

— Só conheço Excalibur — respondeu James. — Espera, precisaremos de Excalibur nessa missão?

A mulher riu.

— Minha criança, Excalibur que precisa de vocês — disse ela com sua voz aveludada e séria. — Você, meu nobre Ashworth, descende de ferreiros poderosos como Wayland ali e tem a minha bênção e…

— Bênção? Wayland? — perguntou James. — Você é Brígida? Tipo, a deusa celta irlandesa tríplice do fogo, dos ferreiros e tudo mais?

E ela acenou a cabeça que sim.

— Minha família dizia que descendia de você, não que foi abençoada por você — disse James apontando um dedo para a deusa celta irlandesa e xingou algo em gaélico.

— Um erro clássico — riu ela. — Eu abençoei seu clã de fato, mas você descende dos filhos de Wayland com a donzela cisne. Seus ancestrais forjaram para reis e cavaleiros, conhecem a arte dos metais divinos e abençoados e acho que isto que fez Isolde ser tão atraente para meu grego amigo Hefesto.

Ele levantou a mão e riu bobo, talvez lembrando-se da mãe de James, Isolde.

— E eu, meu jovem James, quero que reclame as suas origens ferreiras, esta Terra Incognita está brincando com coisa séria e eu convoquei estes dois neste sonho teu para que você os pare logo, uma vez que o destino for mudado será irreversível e afetará não só o panteão grego, mas o meu, o dos deuses do além-Norte de Wayland — o rosto do ancestral de James ficou triste, ele não era um deus como Hefesto e Brígida, parecia mais com James, um mortal e ele conhecia mortais e como os conhecia — procure aliados, imediatamente, o solstício se aproxima, eu tenho fé em meu pai, Dadga, o bom deus, que você conseguirá os aliados e entre eles encontrará aquele que reclamará Excalibur de novo. Consegue fazer isto? Consegue parar esta Terra Incognita?

Era muita coisa para o cérebro de James processar, mas ele apenas respirou fundo e disse:

— Sim, eu posso!

Brígida sorriu, levantou de sua cadeira, tocou nos ombros de James e beijou sua testa e desapareceu em luz branca.

Hefesto levantou, mancou e foi até James e o abraçou e o olhou nos olhos.

— Eu tenho orgulho de você, James — disse o deus manco. — Sofri com Zeus, meu pai adotivo, e minha mãe, a deusa Hera, dizendo que você era uma enorme interferência de panteões, mas tenho certeza que você é melhor que isso, você é poderoso e tem a bênção de Brígida e meus poderes em você e claro, um pouco dos bons genes de Wayland — ele riu e Wayland ao fundo revirou seus olhos velhos. — Me orgulhe James, há um fogo dormente em você esperando queimar e se ele queimar, que ele seja brilhante como os fogos do Monte Etna.

— Obrigado, pai.

E Hefesto sumiu numa coluna de fogo deixando apenas ele, Wayland e uma projeção de Excalibur que mostrava os dizeres de sua lâmina Empunhe-me e Atire-me longe.

Wayland parecia não ter muito o que dizer, ele apenas deu um suspiro e disse:

— Orgulhe-me meu garoto, eu sei que você pode ser o que quiser e que é um poderoso guerreiro como os homens e mulheres que carregaram as lâminas que forjei — disse Wayland. — É como seu pai disse, há um fogo em você e ele brilha como os fogos de Muspellheim e no dia do solstício você brilhará, criança e a essa sua chama poderá ser vista de todos os Nove Mundos. Adeus, criança.

E dessa vez não foi Wayland que sumiu, foi James, que sumiu em luz. Ele acordou e viu seus outros companheiros dormindo, exceto Hector que aninhava o sátiro Charlie nos braços.

— Está sem sono também? — perguntou Hector.

— Tive um sonho estranho — respondeu James.

— Também tive.

— Quer contar? — sugeriu Hector. — Aposto que o meu é mais estranho que o seu.

— Não mesmo — sorriu James.


Notas Finais


O que gostaram deste capítulo cheio de sábios conselhos, deuses, ancestrais e uma ninfa de nome de nome difícil?
O que vocês acham que pode vir futuramente para nossos heróis? Eu queria poder responder esta pergunta, mas nem eu saberia responder, só nos resta sentar e esperar (principalmente esperar que meu notebook não vá para o conserto outra vez) pelos próximos capítulos.
Beijos e até lá.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...