História Devilish (Taekook ABO) - Capítulo 3


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Tags Abo, Alfa, Gêmeos, Jungkook, Ômega, Romance, Taehyung, Taekook, Vkook
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Palavras 14.247
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Festa, Hentai, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Olá

+ Sim, eu demorei para um senhor cacete, bem mais do que o esperado para falar a verdade (foram dois meses e meio pelos meus cálculos), e entendo que podem estar querendo me matar. Andaram acontecendo algumas coisas não tão boas comigo aqui no site, mês retrasado, foi necessário que eu desse uma pausa para me reestabelecer, peço desculpas.
De qualquer forma, eu voltei 100% focada nas minhas histórias, e Devilish será a minha prioridade a partir de agora, apesar de um outro projeto estar quase saindo do forninho. No começo de janeiro postarei o quarto capítulo, então, terão um mês de espera, é pouquinho.


+ Nos meus primeiros esboços, Devilish teria seis capítulos, BUT, andei revendo alguns pontos e extendi a fanfic, que deverá ter mais ou menos dez partes. Quero deixar tudo no plot bonitinho, explicadinho, sem atropelar nada e nem ninguém, é por isso que, este capítulo teria um momento +18 no meu primeiro esboço, mas decidi jogar esse momento para a quarta metadinha.
Mas não fiquem tristes ainda, por favor, temos um beijão aqui só para o deleite de vocês.


+ Eu gostaria de agradecer imensamente por todo o apoio que venho recebendo com Devilish, de verdade, vocês não tem ideia do quanto sorrio lendo cada comentário, do quanto me sinto feliz ao notar mais um favorito, do quanto a minha vontade de continuar escrevendo cresce junto com a fanfic.

+ Eu betei, mas, posso ter deixado passar alguma coisinha ou outra, checo isso ainda essa semana.


Desejo a todos uma ótima leitura,
Tem uma perguntinha nas notas finais, gostaria que me respondessem.
Beijos da Dii

Capítulo 3 - Capítulo Três


Jungkook já havia aberto os olhos há bons minutos, no entanto, continuava deitado em meio a seus cobertores, sentindo a textura peluciada e a temperatura quente, numa falsa impressão de proteção. O despertador estava desligado, por ter acordado sozinho, antes da hora, mas mesmo sem olhar para o objeto sobre a escrivaninha velha, podia jurar que, devido à preguiça, corria o perigo de se atrasar.

Encarou o teto de madeira, observando as pequenas rachaduras causadas por cupins, sabendo que precisaria aprender a conviver com os cabelos cheios da serragem que caia durante a madrugada, até porque, Kwan deixara bem claro que o novo colégio de Junghyun era mais caro que o antigo, não poderia gastar com besteiras como aquela quando uma simples touca resolveria o problema.

            O ômega de cabelos escuros suspirou sozinho, lembrando da vontade que sentiu de perguntar ao pai se ele conseguiria aguentar o sol de trinta e dois graus enquanto usava um gorro de lã para esconder os fios sujos, e também lembrando do motivo de ter escolhido ficar em silêncio, aceitando a ideia do mais velho.

            Talvez fosse seu lado lupino querendo deixar claro que não gostava do calor, de qualquer forma, oito dias atrás, a pressão do Jeon baixou enquanto trocava as lâmpadas do salão de festas, fazendo com que levasse um belo tombo, arranhando a panturrilha e também o braço, puxando consigo a escada e quebrando um dos degraus.

            Taewoon felizmente estava por perto, ajudou-o a levantar, tentou saber se havia se machucado gravemente em algum lugar, mas Kwan não parecia tão preocupado consigo, na verdade, choramingava pelo preço que pagou na escada, prometendo passar longe da sessão de balinhas azedas que Jungkook gostava por pelo menos dois meses, como forma de puni-lo, de descontar o valor que iria ter que tirar do bolso.

            Respirou fundo em meio a semi escuridão do quarto pequeno, dando uma checada na cadeira ao lado da porta, na touca cinzenta que descansava no assento, sabendo que não teria como lavar o cabelo antes de ir até a igreja, só ganharia um novo shampoo dali duas semanas, portanto, precisava economizar o máximo que podia, por mais quente que estivesse, limitando-se a molhar os fios de três em três dias, tentando espantar parte da fuligem enquanto os balançava.

            Por fim, temendo que alguém acordasse e não visse o café posto na mesa, levantou ainda sonolento, bocejando rumo ao banheiro, deixando que a calça do pijama escorregasse pelas pernas e puxando a camiseta velha para fora do corpo, não se importando com o lugar que ela caísse ou se sujasse, sabia que precisaria lavar as roupas de todo mundo mais tarde.

            Não demorou muito escovando os dentes, logo esfregando o rosto com a água gelada e fazendo xixi; não havia percebido que sua bexiga estava tão cheia até o momento que olhou para o vaso. Vestiu a primeira calça de moletom que viu pela frente, calçando os tênis surrados e a blusa vermelha, com estampa do Homem-Aranha.

            Gostaria de ficar um pouco mais em seu quarto, dormir até que o sol incomodasse, mas sabia que precisava descer depressa ou então arrumaria uma bela encrenca após seus pais acordarem. Passou pelo corredor pisando com suavidade, cuidando para as tábuas não rangerem o suficiente para que o som chegasse do outro lado da porta a sua direita.

            Deu um pequeno sorriso ao notar que conseguiu mais uma vez, passando pela sala fria e então chegando ao batente do cômodo correto. Estava prestes a pegar a cafeteira e colocar a água esquentar, todavia, parou no meio do caminho, observando Junghyun sentado em uma das cadeiras, segurando a cabeça com uma das mãos, os olhinhos escuros presos aos seus.

— Não deveria estar aqui, ainda mais sozinho. São sete horas da manhã — Jungkook falou confuso, conferindo o horário no relógio da parede — Aconteceu alguma coisa? Teve um pesadelo bem ruim? Pensei que tomar leite morno antes de dormir te fizesse ter sonhos bons.

— Festa da Família. Aconteceu ontem durante a tarde, e você não foi, outra vez — o rapazinho comentou emburrado, balançando as pernas — Todos os irmãos dos meus colegas estavam lá, eles me perguntaram por que você sempre faltava, mas eu não tive como responder.

— Jong… E-Eu estava muito ocupado fazendo os doces para nossa mãe vender na feira e…

— Mentira — cortou o mais velho, a voz começando a se tornar chorosa — Os potes estavam todos cheios quando fui para a escola, mas você não estava em casa. Papai não quis me contar onde havia ido.

Jungkook percebeu a garganta apertar, e precisou virar as costas para o irmão, indo até a bancada e pegando a cafeteira enquanto ligava a máquina de torradas na tomada, esperando que ela esquentasse o bastante para que pudesse colocar o pão. Tudo o que mais queria era estar perto do pequeno em suas apresentações, mas infelizmente não era um desejo viável.

Seus pais nunca deixavam que participasse da vida escolar de Jonghyun, nem ao menos diziam quando eram os teatros, as festinhas, os shows de talento em que cantava músicas infantis. O ômega era como uma sombra que os Jeon’s eram obrigados a carregar, mas quando podiam fingir que não existia, não pensavam duas vezes.

Sabia que os olhinhos do mais novo estavam marejados, assim como seus próprios começavam a ficar, por isso não ousou olhar para trás, não ousou tentar pedir desculpas, prosseguiu arrumando as coisas para o café da manhã da família, fingindo que ouvir aquelas palavras não doiam tanto quanto uma faca cravada em seu peito.

Caso Kwan desconfiasse que estava se aproximando daquele que seria a salvação de seu sobrenome, possivelmente inventaria coisas feias sobre si, com o intuito de despertar a raiva de Jonghyun. Jungkook podia suportar o ressentimento do irmãozinho, mas não conseguiria suportar o ódio.

— Queria que gostasse de mim, poderia ser só um pouquinho — o pequeno alfa falou baixo — Nós iríamos tomar sorvete e depois brincar nas árvores, como irmãos de verdade.

— Gosto de você — as palavras pareciam difíceis de sair, pesadas — Bem mais que só um pouquinho.

Por ser um ômega do sexo masculino, seus pais pensavam que deixá-lo perto do pequeno alfa pudesse ser uma péssima influência, não tentavam esconder isso do filho mais velho, na verdade, as vezes davam sermões sobre isso, principalmente quando o verão dava as caras, já que a piscina era montada e inocentemente Jonghyun perguntava para si se não queria nadar um pouco.

Automaticamente olhou para a janela entreaberta da cozinha, tendo a visão do quintal e também do objeto redondo repleto de água, parecendo implorar para que pulasse, para que sentisse suas roupas molharem e o corpo agradecer, tendo a temperatura abaixada.

Aquele havia sido o primeiro ano que o pequeno garotinho não foi correndo até seu quarto, querendo saber se aceitaria dar o primeiro mergulho da estação consigo, e Jungkook não podia culpá-lo, não se sentia no direito de sentir aquela dorzinha no peito, afinal, era até bom que ele finalmente estivesse deixando-o de lado sem a intervenção dos pais.

Suspirou pesado, indo até a geladeira e retirando o leite, presunto e o queijo, deixando tudo em cima da mesa ainda vazia. Pegou quatro xícaras no balcão de mogno, botando uma em cada extremidade, inclusive na frente do irmãozinho, que sabia, estava o observando, mas não ousou olhar diretamente para o rosto triste.

— Está me tratando assim por que vai viajar? — Jonghyun perguntou de repente, fazendo com que o mais velho franzisse o cenho, sem entender — Para o mosteiro. Papai me contou.

— O que? Papai te disse que eu irei para um mosteiro? — a boca de Jungkook secou, e uma sensação terrível se apoderou de seu corpo — Quando?

— Oh, era apenas uma brincadeira dele? Você não vai? Ele e a mamãe estavam falando sobre isso na sala, que no próximo ano iriam te mandar para uma longa viagem.

— Os dois querem que eu vire padre… — engoliu a saliva com uma dificuldade maior que o esperado, despejando o leite na leiteira e deixando que um pouco caísse no chão — Não pastor, padre.

— Ouvi dizer que padres não podem casar, isso é verdade? Não sabia que você não queria filhotes — o rapazinho de olhos gentis continuou, sem perceber o quão abalado o irmão estava — Mamãe sempre me disse que queria a casa cheia de netinhos.

Jungkook não sabia se pretendia ser pai, talvez em um futuro distante, talvez em um futuro não tão distante, talvez em nenhum futuro, todavia, sabia que, quando sua mãe citava netos correndo pelos corredores e a deixando de cabelos brancos, não estava se referindo a possíveis filhos seus e sim aos do pequeno alfa.

Entendia que seu lado ômega possuia certos instintos, e que mais cedo ou mais tarde o maternal daria as caras, faria com que seus cios viessem em intervalos menores e com mais força, o que o impediria de tomar seus remédios, faria com que olhasse para carrinhos de bebês e desejasse ter a necessidade de comprar um também.

Sendo sincero, temia pelo dia que seu corpo forjasse uma gravidez psicológica e com isso entendesse que era a hora certa de ter um bebê, porque, obviamente não teria a apoio algum de seus pais, que inclusive pretendiam o mandar para o outro lado do país, num campo afastado de tudo e de todos, onde não correria o risco de se apaixonar, o mosteiro.

Sabia que os genitores não planejavam que encontrasse um alfa para si, que faziam de tudo para que ficasse trancado em casa ou trancado no quintal da igreja que comandavam, no entanto, ficar sabendo que, pelas suas costas, decidiam fazê-lo virar padre era terrível, mas pelo lado deles, era a única forma de garantir que aquela vergonha não fosse adiante, que pelo menos o ômega macho não parisse, que não se deitasse com outro homem.

Não querendo deixar o menor preocupado, tentou dar um pequeno sorriso, mesmo sabendo que provavelmente iria falhar, forçando a garganta até que uma tosse falsa surgisse, falha e miseravelmente baixa, mas ainda assim, uma tosse.

Se Jonghyun perguntasse a Kwan sobre a tal viagem durante o café da manhã seria um grande desastre, precisava mudar o foco. Padres eram uma versão mais radical dos pastores, em sua religião, eram obrigados a manter-se longe de qualquer impulso sexual ou romântico, perambulando sozinhos.

— O que acha de comer um pouco de açúcar para começar bem o dia? — abriu uma das portas do balcão mais alto, precisando ficar na ponta dos pés para enxergar lá no fundo o pacote de cereal ainda fechado — Era o meu preferido quando tinha a sua idade.

— Vai me deixar comer Froot Loops antes do almoço? Papai e mamãe não vão gostar disso…

— Pois então trate de comer rapidamente, antes que os dois acordem. Posso dizer que você perdeu o sono e veio tomar seu suco com torradas um pouco mais cedo — despejou uma boa quantidade das bolinhas coloridas numa tigela, tapando as mesmas com leite gelado e então fazendo com que o objeto cheio deslizasse até a outra ponta da mesa — Bom apetite.

Prosseguiu com os preparativos para o desjejum do restante da família, escutando as suas costas o barulho do irmão comendo com vontade o cereal repleto de açúcar e nem um pouco saudável, mas que ainda assim sempre seria gostoso, apesar de ultimamente estar preferindo os de chocolate ao invés das frutinhas cheias de cores.

Por mais que tentasse se concentrar nos afazeres, olhando para o relógio que aparentava correr mais depressa que o normal, não conseguia parar de pensar sobre o que Jonghyun lhe contou, as palavras “viagem”, “mosteiro” e “padre”, brilhavam como se fossem placas de trânsito no meio de uma rodovia escura.

Podia não saber se queria ter filhotes futuramente, todavia, sabia muito bem que a vida religiosa não combinava consigo.

Ainda havia tanta coisa que gostaria de ver, por mais que sufocasse suas vontades com toda a força que possuía, na maior parte do tempo, principalmente agora que aos poucos se tornava mais e mais próximo de dois forasteiros incrivelmente charmosos.

Um enorme bolor pareceu ter sido formado em sua garganta, precisando fazer um esforço extra para deixar a saliva passar sem que doesse tanto. O que ocorreria caso fosse mesmo mandado para o outro lado do país durante anos, com a possibilidade de não voltar?

Se hoje era uma sombra dentre a família Jeon, amanhã seria uma mera lembrança, uma migalha, algo que eles poderiam fingir que nunca existiu, colocar finalmente para baixo do tapete como vinham tentando desde que seu cheiro adocicado se fez presente pela primeira vez.

Definitivamente, não odiava ser ômega, mas odiava a maneira como tratavam-no por ser um ômega do sexo masculino. Não havia sido uma escolha sua, simplesmente nasceu daquela forma, assim como algumas mulheres nasciam alfa, assim como algumas pessoas nasciam beta, uma mistura onde um lado da moeda anulava o outro.

Soltou um suspiro magoado, terminando de colocar as coisas sobre a mesa, a água quente já na térmica para que cada um fizesse o café do modo como preferia, mais doce ou mais amargo, mais forte ou mais fraco.

 Sentou-se numa das cadeiras e observou quieto o irmão terminar de comer sua tigela de cereal, balançando as pernas.

Não sentia fome, portanto, não tentou beliscar um pedaço de pão ou encher uma colher com creme de avelã, continuou sentado, olhando para o pequeno alfa de olhos iguais aos seus, um pouco sonolento, mas não o suficiente para que bocejasse, apenas tivesse os sentidos mais lentos.

Jonghyun levantou sozinho quando acabou de tomar o leite do fundo do potinho, lavando com cuidado o objeto de porcelanato e deixando junto ao restante da louça limpa do jantar, voltando para a mesma cadeira em seguida. Jungkook riu soprado, por ser a primeira vez que tinha a oportunidade de ver o mais novo fazendo alguma tarefa doméstica, normalmente era tudo posto em suas costas.

Não levou mais dois minutos para que escutasse o despertador de seus pais soar alto, ressoando pela casa inteira. Ajeitou a postura, fazendo sinal para que o irmão ficasse quieto, pois, sabia que ele era um tanto hiperativo, que se ficasse nervoso demais, pensando sobre o cereal proibido que comeu, todos perceberiam que algo estava errado.

Kwan surgiu no batente da porta, enrolado num roupão felpudo, sendo seguido pela esposa, de vestido florido, com seus longos cabelos escuros balançando até a cintura não tão fina quanto em seus vinte e dois anos, a idade com que teve o primeiro filho. Os dois carregavam as mesmas feições sérias de sempre, como se algo os aborrecesse vinte e quatro horas por dia.

— Bom dia — Jungkook saudou antes que qualquer pergunta fosse feita, optando por agir primeiro, mas não conseguindo esconder totalmente a nota de nervosismo em sua voz — Dormiram bem? Não foi uma noite tão quente, mas o sol está começando a ficar mais forte agora.

O genitor arqueou uma das sobrancelhas, parado no meio da cozinha, os lábios tão juntos que quase não pareciam existir. Jungkook engoliu a seco, sabendo que o pai estava pensando se deveria falar alguma coisa ou então manter o silêncio, e sendo sincero, respirou aliviado quando o ouviu resmungar baixo, indo se sentar sem responder o seu bom dia.

Cho não chegou a olhá-lo diretamente, a mulher passou próximo a si, mas foi direto até Jonghyun, beijando carinhosamente a testa do garotinho e então escolhendo uma cadeira ao lado do marido, puxando o pote de café em pó para mais perto.

Amarrou os longos fios para que não a incomodassem, oferecendo o açúcar ao alfa da casa, que aceitou com um aceno positivo.

Para não deixar transparecer seu desconforto, o ômega ousou encher meia caneca com leite morno, misturado com achocolatado antes de dar o primeiro gole, cuidando para não fazer muito barulho ao engolir.

Normalmente o café da manhã era um momento calmo e silencioso entre os Jeon’s, mas naquele dia isso frustrava ainda mais Jungkook.

Ele tinha perguntas, muitas perguntas, e batia o pé contra o chão repetidamente, sabendo que não deveria abrir a boca, mas principalmente, rezando para que seu irmão mais novo esquecesse aquela história de viagem, que não desse com a língua nos dentes e repetisse as palavras que anteriormente foram despejadas em si.

Piscou curioso quando Kwan forçou a garganta, criando algo entre uma tosse e um rosnado, já que nem sempre a natureza animal podia ser controlada.

 Olhou para o pai como um prisioneiro olha seu carrasco, sabendo que o homem diria algo, seja esse algo bom ou ruim, de qualquer forma, sua espinha gelava sempre aqueles olhos frios fixavam-se em sua face, o coração quase parando de bater.

— Temos três batizados para realizar no próximo sábado, todos de grandes amigos meus, que sempre contribuem com nossa igreja — deu uma mordida no pão pingando geleia de amora, mastigando sem pressa — E ainda não vi os bancos polidos, e muito menos os banheiros do salão limpo.

— N-Nós enfrentamos alguns problemas com o vaso do banheiro masculino, acho que o cano está entupido, é isso que causa o mau cheiro.

— Nesse caso, acredito que deveriam ter me informado sobre a compra de novos canos o mais breve possível; estou correto?

— Sim, senhor. É que como havia dito que não havia mais dinheiro, pensamos que não faria muita diferença — encarou os próprios pés, balançando a colherinha de um lado para o outro dentro da xícara — Tentamos dar o nosso máximo, as paredes já foram lavadas, mas sempre jogam coisas nelas durante a noite, então precisamos lavar outra vez.

— Pois, parece que esse máximo ainda não foi o suficiente — Kwan deu continuidade, com a voz baixa e calma, coisa que, na visão do filho mais velho, conseguia ser tão assustador quanto gritos histéricos — Sei que não quer me ver passar vergonha justo no dia em que mais crianças se apresentam à comunidade.

Jungkook negou rapidamente, tentando encontrar formas de resolver o problema dos canos mesmo sem verba alguma, além do tempo recorde em que teriam que fazer tudo, já que sábado não estava longe, só faltavam três dias para que a igreja se enchesse de fiéis, e consequentemente dos amigos de seu pai, alfas assustadores.

Para falar a verdade, não havia conhecido muitos alfas que despertassem emoções boas em si, todos causavam o mesmo frio terrível que cruzava seus ossos sempre que Kwan abria a boca, talvez por ter crescido juntos a eles, talvez por todos o verem como uma aberração que deveria ser corrigida o mais breve possível.

Tentaria mandar mensagem para Yoongi antes do almoço, perguntando se por acaso não teria como emprestar parte de sua mesada, para que pudesse comprar algumas fitas adesivas. Não seria o suficiente para acabar com o vazamento, mas definitivamente diminuiria o fluxo durante alguns dias se enrolassem bem.

Esforçando-se, tomou mais um gole de seu leite extremamente doce, ainda escutando o pai mastigar enquanto o olhava por cima do pão. Agradecia imensamente pelos reguladores e falsificadores darem uma boa amenizada em seu cheiro, escondendo o nervosismo que sentia toda a vez que aqueles olhos escuros praticamente faziam um buraco em sua testa.

— Hm… Não está com fome? Leite não sustenta ninguém por muito tempo — Kwan recitou bebendo um gole do café preto e fumegante de sua xícara especial, pegando um guardanapo em seguida, limpando os lábios sujos de geleia — Percebi que Jonghyun não tocou nem nos biscoitos de aveia.

O garotinho arregalou os olhos, Jungkook agradeceu pela mãe estar concentrada no alimento e o pai estar virado quase totalmente para si, coisa que o impedia de ver o desespero do pequeno alfa, que parou de mexer as pernas, com medo de ter metido o irmão mais velho em problemas.

— N-Nós já comemos antes de vocês chegarem. Jonghyun teve um pesadelo, acordei com o choro dele, então nós viemos comer torradas com creme de avelã — o ômega tentou soar firme, mesmo que a língua parecesse um tanto embolada — Não foi nada demais.

Gostaria que as coisas fossem mais fáceis, que tivesse a oportunidade de realmente amparar o menininho sempre que sonhasse coisas ruins ou então maratonar filmes junto a ele, mas sabia que era impossível, que já não se viam muito dentro de casa, e se os genitores desconfiassem que crescia uma amizade ali, cortariam o mal pela raiz sem dó.

Esperou quieto pela resposta de Kwan, todavia, o homem levantou uma das sobrancelhas feias e espalhadas, girando o corpo na cadeira, para que sua atenção fosse voltada ao Jeon mais novo, que prosseguia com os olhinhos arregalados, mas não tanto quanto antes, não sendo tão inocente ao ponto de achar que Jungkook sairia impune caso uma mentira fosse descoberta.

Ele podia não entender ao certo a razão do irmão manter-se sempre afastado ou então dos pais nunca o chamarem para os passeios em família, no entanto, já havia escutado o choro do maior após longos sermões dados pelo progenitor, entendia que toda a paciência destinada a si não era destinada ao outro, mesmo que isso parecesse um pouco sem sentido em sua visão de criança.

— Esqueceu-se de rezar antes de dormir? — o alfa de fios brancos questionou o menino, com a voz mais mansa do que antes, mas ainda assim, sólida.

— Não, eu rezei — Jonghyun se defendeu como pode, piscando rapidamente os olhinhos infantis — Acho que tomei muita água, sonhei que fazia xixi na cama e depois ela quebrava. Fiquei com medo de voltar a dormir e isso ocorrer de verdade.

— Bem, isso explica o teu pesadelo — soltou um resmungo qualquer, pegando outra vez a caneca de café e levando aos lábios — Tente beber menos da próxima vez, não tem mais idade para molhar lençóis.

O ômega de fios castanhos refletiu sobre aquela fala, principalmente quando as diversas imagens das noites em que Jonghyun fez xixi invadiram sua mente.

Lembrava-se de sua mãe tentando acalmar o rapazinho, explicando que aquilo era normal e então deixando que dormisse na cama do casal, lembrava também do pai jogando de qualquer jeito as roupas sujas na máquina, bagunçando o cabelo do filhote e lhe entregando um copo de achocolatado gelado.

Consigo, no entanto, as coisas sempre foram muito diferentes. Não podia contar para Kwan quando umedecia os lençóis após um sonho ruim, isso o deixava irritado, e também não podia contar para Cho, que sempre acabava olhando-o como um bicho asqueroso, dando algum castigo que considerava duro o suficiente.

Jonghyun molhou a colcha pela última vez no ano anterior, com oito anos, e foi recebido carinhosamente no quarto dos mais velhos, Jungkook porém, molhou a colcha pela última vez com cinco, e ficou sem jantar por duas semanas. Não conseguia sentir raiva do irmão, sabia que não era culpa dele, mas ainda assim, existia um pouco de mágoa.

Respirou com calma, bebendo forçadamente o que ainda estava em sua xícara e deixando a mesma em cima da mesa, sem se importar em levar até a pia, afinal, teria que lavar toda aquela louça dali poucos minutos. O pequeno alfa não parecia mais tão nervoso agora que Kwan deixou de olhá-lo, e isso era algo bom.

Bem, em partes pelo menos, já que o genitor outra vez fixou os olhos escuros em si, batucando os dígitos da mão direita na madeira, enquanto levava um dos biscoitos salgados até a boca com a outra, não se importando com os farelos que deixava cair no chão ao mastigar com a boca aberta.

Jungkook detestava aquela mania com todas as suas forças, achava uma tremenda falta de educação conseguir ver a comida rolando entre os dentes de outra pessoa, todavia, não possuía voz ativa naquela casa (nem fora dela), tudo o que podia fazer encarar o rosto sério como se não achasse aquele hábito digno de nojo.

— Irei conduzir um encontro de seminaristas essa tarde, provavelmente voltarei no início da noite — o Jeon mais velho contou — Vou deixar a chave da igreja com você, não esqueça de  checar se trancou todas as portas quando sair de lá. Tudo o que não precisamos é de mais um roubo.

— Não vai aparecer para checar o nosso progresso? Pensei que quisesse ficar de olho no que estamos fazendo, para não cometermos erros que custem mais dinheiro.

— Taehyung e Taewoon estarão lá, confio no trabalho deles, sei que não irão me desapontar, apesar de terem um estilo meio estranho — torceu o nariz, recordando-se nas vestes inadequadas que usavam — Pelo menos consegui os dois pelo preço de um, não tenho de que reclamar.

Não entendia o motivo, mas seu coração deu um pulo ao ouvir o pai falar dos irmãos Kim, além do lobo dentro de si uivar contente, balançando o rabo felpudo para lá e para cá, fazendo com que precisasse lutar para não sorrir, o que sem dúvidas seria estranho e levantaria questionamentos tanto do pai quanto da mãe.

Fazia pouco mais de um mês desde que Taehyung e Taewoon apareceram em sua vida, trazendo uma bagagem cheia de tatuagens, piercings, cabelos coloridos e línguas afiadas. Não sabia se deveria considerá-los como seus amigos, já que trinta dias não era muito tempo, e existia certa diferença de idade entre eles, mas os alfas tratavam-no bem.

Kwan não aparentava gostar muito do modo como se vestiam, principalmente quando tiravam as blusas em meio ao sol quente, todavia, não reclamava na frente dos rapazes, até porque, eram a mão de obra mais barata que iria encontrar na cidade inteira, trabalhavam por meio salário cada um, uma economia e tanto para os bolsos do pastor.

Taehyung era um pouco mais quieto que o irmão idêntico, costumava observá-lo de longe, sorrindo de lado quando flagrava o ômega fazendo exatamente a mesma coisa. As vezes trazia consigo algum bombom ou bala, atirando no colo de Jungkook antes de bagunçar os fios castanhos, mordendo os lábios rosados e perguntando como passou a noite, a conversa sem fluía com facilidade.

Já Taewoon era o gêmeo mais ousado, parecia gostar de deixar Jungkook de bochechas coradas, não poupando piscadas marotas e cuecas à mostra, sempre lhe desejando um bom dia e jogando beijos quando não tinham a oportunidade de falar demasiadamente, já que sempre havia trabalho a ser feito. Por mais envergonhado que se sentisse as vezes, o Jeon gostava do jeito que o ruivo agia consigo, era diferente.

Os dois possuíam auras fortes, sempre presentes não importando a situação, apesar do garoto de dentes salientes começar a suspeitar (devido a conversas com Yoongi), que tentavam não assustá-lo, diminuindo pelo menos um pouco de sua presença alfa quando estavam em lugares fechados, o que era realmente muito respeitoso.

Jungkook sorriu pequeno, balançando positivamente a cabeça para os dizeres do pai, sabendo que o dia talvez não fosse tão ruim quanto havia começado (com a cabeça cheia de fuligem, sono e vontade de chorar por causa do irmãozinho), pois, passar um tempo longe do restante da família era sempre bom, apesar de todo mundo sempre lhe dizer que a família deveria ser o mais importante.

Pediu licença da mesa, retirando os utensílios sujos e começando a lavar, afinal, quanto mais rápido terminasse seus afazeres, mais rápido poderia almoçar, e consequentemente, mais rápido mandaria mensagem para Yoongi avisando que poderiam se encontrar na sorveteria da esquina, para comprar casquinhas de baunilha.

 

(...)

 

— Sabe, eu realmente invejo o quão persistente a Nayeon consegue ser quando quer algo — Yoongi falou, sentado num degrau qualquer na entrada do salão comunitário — Essa garota ainda vai se tornar presidente.

— Não enquanto o pai dele continuar achando que ômegas são uma espécie de incubadora que sabe varrer a casa e fazer o jantar — Jungkook contrapôs, sem prestar muita atenção, esfregando o pano encardido e úmido na vidraça da janela — Presidentes precisam de muito poder em mãos.

— Sem querer parecer ofensivo, mas puta merda, a família de vocês é mesmo abençoada né — o beta deu continuidade, atirando uma pedrinha no gramado bem aparado — Não que a minha seja perfeita, mas, a sua consegue ser pior, bem pior.

— Sabe que eu e a Nay não temos o mesmo sobrenome, certo?

— Isso não significa nada. A mãe de vocês são irmãs, e os pais são primos de primeiro grau que viviam praticamente na mesma casa desde crianças, os quatro têm o mesmo sangue, os seis se contar com vocês. Bizarro.

— Sabe o que mais é incrivelmente bizarro? — o mais novo perguntou, não olhando diretamente para o amigo, sentindo seus braços começarem a cansar — Eu estar fazendo todo o trabalho enquanto você observar descaradamente os flertes da minha prima.

Haviam chegado ali já faziam quase quarenta minutos, com o sol batendo com força total no sono, e consequentemente voltando como calor a seus corpos. Jungkook detestava precisar usar aquela maldita touca na cabeça, mas era necessário caso quisesse esconder os pedacinhos de madeira que se infiltravam entre os fios, por mais limpos que estivessem.

O objeto de lã começava a coçar, tinha certeza que a região próxima de sua orelha ganhava uma cor avermelhada, assim como o começo da testa, o que era tremendamente desconfortável, mas ainda assim, preferia isso a precisar explicar para o melhor amigo a situação precária a qual se encontrava em casa.

Mais uma vez vândalos haviam atirado frutas e balões de tintas contra as paredes e janelas do salão, que era a coisa mais próxima da avenida, afinal, a igreja quase era escondida entre as árvores de um pequeno bosque, e cabia ao Jeon limpar tudo até o final do dia, para que na tarde seguinte pudessem iniciar o remendo nos canos.

Yoongi deveria ajudá-lo, todavia, parecia mais interessado nas tentativas amorosas de sua prima pouca coisa mais velha; não podia culpá-lo ou então obrigar a mexer a bunda magrela da escada, ele não ganhava nada para estar ali, apesar de Kwan dar-lhe trocados de vez em quando, talvez como descargo de consciência.

— Tudo bem, senhor mandão. Vou buscar a mangueira, não iremos limpar todas as paredes usando somente paninhos — o beta resmungou, levantando e sacudindo a poeira de sua calça jeans — Mas fique sabendo que só considero flerte quando ambos os lados estão interessados, e claramente não é o que ocorre ali.

Automaticamente, Jungkook virou a cabeça um pouco mais para o lado, tendo a visão de Taewoon terminando de cortar a grama, sem camisa, o torço repleto de tatuagens parecendo brilhar quando os raios solares refletiam nas gotículas de suor que caiam até a região abaixo de seu umbigo, sumindo.

Os cabelos avermelhados não pareciam mais tão vibrantes quanto na primeira vez que se viram, precisavam de um retoque, e a raíz escura começava a aparecer levemente, todavia, isso não parecia um grave defeito para o ômega, na verdade, ele gostava dos vários tons escarlates que encontrava ali, chegando perto do alaranjado.

Um pouco mais atrás do alfa, Taehyung aparentava divertimento, sorrindo para algo que Nayeon contava animada, mas não era o mesmo sorriso que dava a si quando deixava bombons em seu colo, era algo que beirava o sarcasmo, mas não chegava a ser, talvez por não querer magoar a garota.

O alfa jogou os fios negros para trás, o que fez um suspiro escapar dos lábios da menina, mas não apenas dela, já que o Jeon acabou precisando segurar um soluço, encantado pelo magnetismo natural que o moreno possuía.

Ele estava no telhado, consertando goteiras dez minutos atrás, com a regata branca colada no corpo e a calça de couro deixando suas formas em maior evidência, uma visão e tanto, mas Nayeon apareceu querendo mostrar algo em seu celular, pedindo que descesse pela escada, e então, puxou um novo assunto.

Não era como se Jungkook sentisse ciúmes ao ver a garota interagir com Taehyung ou então tentar interagir com Taewoon (que não se importava em revirar os olhos e deixá-la falando sozinha), gostava da prima, mas, era como se um monstrinho dentro de si acordasse, querendo chorar tanto quanto queria gritar para que ficasse longe dos Kim.

Balançou a cabeça, tentando evitar aqueles pensamentos que se tornavam, estranhamente, cada vez mais comuns, voltando a focar na limpeza dos vidros, o que não estava sendo uma tarefa fácil, boa parte da tinta acabou secando durante a manhã ensolarada, obrigando-o a esfregar o pano com uma força que não tinha, machucando os pulsos.

— Como pode saber que ele não está aceitando os flertes dela? — ele perguntou de repente, assim que o amigo saiu de dentro do salão, desenrolando a mangueira — Consegue ouvir o que estão falando?

— Não, mas não é preciso ser um grande gênio para notar que nenhum dos gêmeos tem o menor interesse na Nay, por mais legal que ela seja — Yoongi deu de ombros, conectando um lado do objeto na torneira — Acho que eles preferem homens, principalmente o moreno.

— Você acha? — O Jeon arregalou os olhos por meio segundo, quase deixando que o pano sujo caísse de suas mãos — Por quê?

— Nunca vi o Taehyung ou o Taewoon olhar para alguma garota, dar em cima de alguma garota, sair com alguma garota, na verdade, elas estão bem frustradas — riu soprado — Mas ambos estão sempre correndo atrás de você, e você é homem. Ou acha que todo mundo recebe chocolates?

O rapaz de cheiro adocicado e dentes salientes arregalou os olhos, começando a esfregar o pano na vidraça com o dobro de velocidade, para que Yoongi não notasse a confusão que aquelas simples palavras haviam feito dentro de si. Gostava de ser tratado bem pelos mais velhos, nunca parou para pensar que poderiam existir segundas intenções em simples atos corriqueiros.

Homofobia não era mais um grande problema desde que a sociedade evoluiu, anexando o código genético animal no humano para criar uma maior resistência a doenças, criando a raça ABO (alfa, beta e ômega), o segundo gênero passou a valer mais que o primeiro, afinal, não havia modo de escolher a pessoa que encantaria o lobo que existia dentro de cada indivíduo.

Ainda assim, existiam famílias que insistiam em lutar contra o que chamavam de modernismo, (que na verdade era nada mais que o enlace de almas, sejam essas almas femininas ou masculinas), casando homens com mulheres, ou melhor, homens alfas com mulheres ômegas, deixando os betas de lados, e as vendo as relações homoafetivas como um erro.

Eram um número pequeno, quase insignificante diante do restante, todavia, ainda assim era um número, e infelizmente o sobrenome que Jungkook carregava possuía um peso. De qualquer modo, não achava que os gêmeos Kim tentariam algo consigo quando existiam tantos garotos e garotas melhores por aí, o amigo estava querendo confundi-lo para rir mais tarde.

O rapaz não se achava a criatura mais feia do mundo, mas também tinha plena consciência de que todo domingo entravam ômegas mais interessantes pela porta da igreja, com cheiros mais adocicados, vozes mais melódicas, corpos mais curvilíneos, e principalmente, mulheres.

Bem, sabia que era verdade, Taehyung e Taewoon preferiam homens, falaram sobre isso quando visitou a casa deles, e neste caso as ômegas serem mulheres não significava muita coisa, mas ainda assim, Jungkook não era o único garoto ser do sexo masculino a pertencer àquela classe, e também existiam betas, numa quantidade  bem maior, e alfas, mesmo que fosse raro ver dois alfas enamorados.

— Por que elas estão tão frustradas? Alguma tentou chamar os Kim para sair e levou um fora? — o garoto de fios escuros perguntou, segurando um dos pulsos e iniciando uma pequena massagem para ajudar a circulação.

— Não é como se elas tivessem coragem de chegar naqueles dois fucking gostosos assim do nada e chamar para um jantar romântico. Já notou o modo como eles olham? Sinto minha alma sendo devorada.

— Não seja tão dramático, os faz parecerem vilões de desenhos animados — sorriu suavemente, achando graça no modo como o beta falava — E ainda não entendi o motivo da frustração.

— Por Deus, Jungkook! Às vezes você é tão lerdo que me dá vontade de te socar. As queridas ômegas da igreja do teu pai estavam contando com o fato de que, tanto Taehyung quanto Taewoon se deixariam levar pelo instinto e escolheriam sua parceira — explicou não tão calmamente — Mas os dois nem mesmo notam quando elas vem com saias mais curtas ou passam mais maquiagem.

— Há outros alfas solteiros que participam das cerimônias, consigo listar no mínimo cinco.

— Mas nenhum tem o cheiro de hortelã ou de café, além de que, eles são lúpus, de sangue purinho, com certeza tem genes maravilhosos para passar adiante, farão uma ninhada de filhotes — terminou de arrumar a mangueira, regulando a intensidade da água — Imagine tudo o que essas doidas fariam para serem mamães de lobinhos lúpus.

Pensar sobre isso mais uma vez levantava a questão que o Jeon vinha tentando ignorar desde seu último cio (que não era tão forte e nem durava muito graças aos remédios), a maternidade, o instinto de gerar sua prole, passar seu DNA para outro ser. Tudo aparentava girar em volta disto, o que era simplesmente apavorante.

A verdade, é que o rapaz tinha medo de futuramente vir a sentir algo parecido, primeiro por não haverem alfas interessados em si (e mesmo que houvesse, seu pai nunca permitiria o casamento), e segundo por que era raro um ômega macho conseguir dar a luz a um bebê vivo, a maioria morria por complicações no parto.

Pela milésima vez desejou ter nascido beta, absolutamente tudo seria mais fácil em sua vida, não precisaria se preocupar com heats vergonhosos, a possibilidade de parar num mosteiro, desejo por filhotes, seu lado animal querendo um companheiro, a família lhe virando as costas e a falta de entendimento sobre si próprio.

— Eu nunca vi Nayeon falar sobre ter filhos, na verdade, acho que nós nunca conversamos muito sobre essas coisas — voltou sua atenção novamente para a menina que prosseguia conversando com o alfa de cabelo negro do outro lado do pátio — Acho que ela não confia em mim.

— Ou ela prefere desabafar com outras fêmeas — Yoongi respondeu como se aquilo não tivesse tanta importância — Mesmo sendo ômega, você ainda é um garoto, talvez isso a deixe envergonhada.

Jungkook concordou silenciosamente, prosseguindo com a limpeza das janelas enquanto escutava o jato de água dar um jeito nas paredes repletas de tinta laranja e amarela. Nunca havia parado para pensar que o simples fato de ser um menino poderia acanhar a prima, mas era uma boa explicação.

Antes de ter o primeiro cio, mesmo sendo do sexo masculino, os dois brincavam juntos, eram grandes confidentes, depois Nayeon pareceu se afastar gradativamente, até se tornar alguém que ainda estimava, mas fazia parte do grupo familiar que não parecia sentir sua falta na piscina durante os almoços de domingo ou então que perguntava se queria ir junto para o shopping assistir um filme de super-heróis.

Passou mais tempo do que gostaria até que conseguisse finalmente retirar todo resquício de tintura e tomates dos vidros, quando deu por si já eram quase quatro horas da tarde, e o estômago começava a reclamar, avisando que foi uma péssima ideia comer pouco durante o almoço, que deveria ter mandado mais um pedaço de bife para dentro.

Lavou as mãos na pia ao lado do salão, coçando os fios que ficavam do lado de fora da touca, que incomodava mais do que nunca, dando-lhe uma sensação de sujeira mesmo sabendo que estava limpo e ainda cheirando a shampoo, apesar dos pedacinhos de madeira que carinhosamente os cupins decidiram deixar cair em si durante a madrugada.

Foi até a área do jardim, que começava a ganhar vida agora que era bem cuidado pelos Kim, com rosas e margaridas chamando a atenção de abelhas que moravam em alguma das inúmeras florestas que a pequena cidade possuía. Soltou um suspiro contente ao ver que o litro de gelo havia se transformado em água geladinha, e não haviam bebido tudo.

Pegou um copo de plástico, enchendo com o líquido e engolindo como se sua vida dependesse daquilo, o que na hora realmente parecia depender; não notara o quanto seu organismo estava seco por conta da temperatura alta, precisava ser mais atento ou poderia passar mal.

— Se hidratar é bom, principalmente quando você insiste em usar essas roupas pesadas e largas. Tem se sentido meio… gordinho, no último mês? Por que, assim, eu gosto de carne para apertar — Taewoon apareceu de repente, ainda sem camisa, escorando-se na mesinha — E um pouco de sobrepeso é a única justificativa que encontro para essas vestimentas durante o verão.

— Não, não tenho problemas de autoestima, não acho meu corpo feio — franziu o cenho, não entendendo como o rapaz pode chegar ali sem que notasse, deveria mesmo estar concentrado em beber água — Gosto de peças confortáveis.

— Se o teu conforto significa me fazer quase morrer de calor só de te olhar usando casaco, tudo bem. Aliás, por que começou a usar touca de uns dias para cá? Faz parte do seu estilo? Eu e o Tae queríamos ter perguntado antes, mas sempre acabávamos esquecendo.

O ômega jogou o copo no lixo, fixando os olhos cheios de vida em Taewoon, notando o cheiro de café se misturar ao perfume das flores, criando um aroma extremamente agradável a seu olfato, e que, curiosamente, havia feito com que o lobo dentro de si se aquietasse, deitando sobre as patas e balançando o rabinho.

As tatuagens feitas com tinta escura continuavam com respingos de suor, apesar de não parecer tanto quanto antes, deixando que um brilho perolado enfeitasse a pele amorenada.

Amaldiçoou-se por demorar mais que o necessário ao observar o abdômen não tão sarado, mas que tinha resquícios do que poderiam vir a ser gominhos com alguns exercícios, mas era simplesmente impossível não se sentir no mínimo enfeitiçado pelos detalhes, pelas veias que formavam caminho do baixo ventre, até entrarem na calça moletom.

Não sabia dizer se o Kim percebeu seu claro olhar de cobiça, coisa que vinha ocorrendo mais constantemente com o passar dos dias, pois, quando se atreveu a olhar o rosto bem esculpido, recebeu em troca o mesmo sorriso canteiro de sempre, fazendo com que fosse impossível saber o que passava pela mente alheia.

— Estou passando por alguns problemas capilares — Jungkook disse, pedindo aos céus para que o mais velho não perguntasse que tipos de problemas eram esses, pois, seria um tanto vergonhoso — Melhor deixar os fios cobertos.

— Nesse caso, espero que esteja dando resultados positivos, Sweetheart. Seu cabelo é realmente bonito, não gostaria de lhe ver perdendo ele — umedeceu os lábios bonitos e rosados com a ponta da língua, ato comum, mas que causou uma avalanche dentro do ômega — Acha que pode ser uma reação alérgica ao shampoo?

De certa forma era, já que o trabalho faminto dos cupins, junto ao pai não querendo comprar um novo produto de higiene, e fazendo-o usar o restinho por mais quinze dias, foi a equação que resultou na fuligem entre a cor castanha que cobria a cabeça do Jeon, mas não sabia o que responder.

Deu de ombros, arrumando a touca cinzenta que insistia em resbalar até sair quase que sozinha de seu corpo. Taewoon aparentou achar a atitude fofa, pois meio segundo depois estava fazendo o mesmo barulhinho que Jungkook fazia ao ver um gato na rua, mas ainda não deixando de lado o olhar predatório e quase assustador.

Com o passar do tempo, o garoto se acostumava com o jeito dos gêmeos Kim, mas ainda assim, não podia deixar de se sentir intimidado, principalmente quando os três estavam sozinhos, o aroma dos alfas, junto as feições travadas e a aura dominadora deixava-o estranho, não um estranho ruim, mas um estranho que não havia acontecido antes, principalmente no que se refere a seu lado lobo.

Teria passado mais alguns instantes pensando sobre isso, todavia, um dos braços do ruivo foi jogado por cima de seus ombros, trazendo-o para mais perto, e mesmo que tal coisa cruzasse muito seu espaço pessoal, não conseguia encontrar motivos para não deixá-lo cruzar, até mesmo apreciava quando isto era feito.

Sentia as bochechas mornas, prontas para corar, e de qualquer forma, não chegava nem perto de sentir vontade de mandar o alfa se afastar, na verdade, lutava contra a vontade de girar girar o pescoço para a esquerda, encostando a ponta do nariz na pele morena e podendo sentir melhor o cheirinho de café.

— Eu costumo tomar banho no chuveiro daqui quase todos os dias, então, sempre trago comigo alguns produtinhos e deixo outros no banheiro mesmo. Não é nada tão caro quanto os que provavelmente existem na sua casa, mas podem te ajudar — Taewoon deu continuidade, acariciando com a ponta dos dedos o lóbulo do mais novo — O que acha?

— D-De tomar banho aqui, usando as suas coisas? — Jungkook piscou rapidamente, boa parte de si entregando-se aos suaves toques que recebia na orelha — Não vai fazer falta?

— Um pouco de shampoo e sabonete? Não mesmo, além de que, você não pode ficar andando com essa touca, para lá e pra cá enquanto tem um sol de quase quarenta graus nos torrando vivos.

— Então eu acho que irei aceitar a oferta. Obrigado.

— Não me agradeça ainda — soltou o garoto, piscando divertidamente — Podemos conversar melhor, mais tarde, ainda tenho que varrer toda a grama que cortei e juntar nas sacolas. Até logo, Sweet.

Jungkook acabou sorrindo sem perceber, a pele queimando onde anteriormente o de fios escarlates tocava e as bochechas já não tão quentes, mas ainda assim, com certeza avermelhadas. Apesar de serem poucos os diálogos com Taewoon que não envolvessem uma provocação mais explícita, estimava cada um deles.

Tentou tirar o foco de cima do alfa, voltando para a área longe do jardim, mas então, sua visão acabou sendo voltada diretamente para o outro alfa, igual o anterior, a não ser pela falta de desenhos espalhados pelo corpo e pelo cabelo que se mantinha no que imaginava ser a cor original de ambos.

Parecia uma brincadeira de mau gosto, quando não era um tomando seus pensamentos e também seu tempo livre, era o outro que aparecia para fazer exatamente a mesma coisa. Não que estivesse de fato reclamando, longe disso.

Nayeon aparentemente desistiu de tentar chamar a atenção de Taehyung, pelo menos durante aquele resto de tarde, talvez a garota já houvesse inclusive ido para casa, não conseguia visualizá-la em lugar algum no pátio, e as chances de que tinha decidido entrar na capela para rezar como modo de se divertir eram mínimas.

Poderia ter vencido a tentação e voltado para o lado de Yoongi, afinal, o beta só estava ali para ajudá-lo, sem ter uma real obrigação, no entanto, o pequeno demônio que morava em um de seus ombros acabou vencendo o anjinho que morava no outro, comandando suas pernas e fazendo com que caminhasse rumo ao moreno.

Subiu a escada de madeira, visto que este Kim havia voltado para o telhado, checando se ainda havia goteiras, e tentou não olhar para o chão, sabendo que desistiria com facilidade, altura nunca foi um de seus pontos mais fortes, bastava estar um metro e meio acima do chão para que começasse a ficar tonto.

Taehyung estava de costas, ajoelhado em uma tábua não muito presa, com o martelo em uma das mãos e dois sacos de pregos jogados de qualquer jeito a seu lado. A calça jeans acabava escorregando por ser colada, deixando parte da cueca branca da Calvin Klein a mostra, o Jeon sabia que era uma marca cara, devia ter comprado ou ganhado antes de se mudar.

A pele era beijada pelo sol, ganhando o mesmo brilho perolado que Taewoon demonstrou ter dois minutos antes. Não queria sentir inveja do da cor bronzeada e bonita que os irmãos tinham, sabia que era tudo fruto de uma boa genética, no entanto, era complicado para o ômega não fazer comparações entre eles e sua derme pálida, quase sem vida.

— Por cinco segundos eu pensei que era Nayeon subindo as escadas, mas então senti seu cheiro — o alfa de fios negros falou ainda sem se virar, mas retirando um pano velho do que parecia ser o lugar mais limpo do telhado, como se oferecesse o espaço — Ela está começando a me assustar, e toda a vez que comento isso com Taewoon, aquele desgraçado ri.

O mais novo terminou de subir os degraus, segurando-se para não sorrir bobamente com uma simples frase dita pelo Kim, o que definitivamente seria vergonhoso, mas nem sempre conseguia controlar. A vontade de estar perto dos gêmeos era imensa, sentia-se bobo, um garotinho que se admirava com os primeiros rapazes bonitos que cruzavam seu caminho, apesar de não serem exatamente os primeiros.

Deu uma boa olhada na tábua onde antes o pedaço de pano descansava, chegando a conclusão de que era a parte mais segura em cima daquele monte de telhas. Sentou sem jeito, segurando os joelhos próximo ao queixo, fazendo com que servissem de apoio e escondessem quase metade do rosto delicado.

— Dê um desconto a ela, por favor, está desesperada, faltam poucos dias para o prazo acabar e a Nay ser obrigada a se casar com um homem de quase quarenta anos que a viu só três vezes — Jungkook pediu — A ideia de casar com você deve parecer mil vezes melhor.

— Mil vezes é um número bem grande — Taehyung sorriu, aquele maldito sorriso que deixava o coração do ômega descompassado, quase pulando para fora do peito — Algum motivo para achar que sou melhor que o alfa aleatório?

— Ah… É que… Hm… Você sabe… Você é… sabe… B-Bonito… E… Hm… Interessante — se antes tinha alguma dúvida sobre as bochechas terem corado enquanto conversava com Taewoon, dessa vez tinha certeza de que o irmão do mesmo conseguiu tal feito — É isso. M-Melhor que o alfa aleatório.

— As vezes acredito que posso explodir com a sua fofura. Mas, acho que sendo eu, ou outro homem, não faria tanta diferença para tua prima — arqueou uma das sobrancelhas bem expressivas, olhando diretamente para Jungkook, que piscou com inocência — Tenho a impressão de que Nayeon se daria melhor com mulheres.

Não fazia ideia de como era a vida pessoal da garota, na verdade, desde que teve seu primeiro cio e os dois se afastaram, não sabia muita coisa nem sobre a vida social dela, contentava-se em assistir da janela de sua casa enquanto ela conversava com as outras pessoas, mas nunca ao menos o olhando para dar um tchauzinho amigável, e não culpava-a por isso, sabia que os tios possivelmente mandavam que permanecesse longe.

Seria possível que Nayeon, a mesma Nayeon que na época de infância sonhava em encontrar o príncipe encantado, havia descoberto que preferia os beijos molhados de uma princesa? Oh não, Jungkook resmungou qualquer coisa inaudível, isto era um problema, um baita problema, um problemão.

Já sentia pena da mais velha por precisar ter um enlace matrimonial com um homem, mais velho e semi desconhecido, agora sentia uma tremenda vontade de chorar ao imaginar a infelicidade que ela sentiria por precisar se deitar com um alfa do sexo masculino, caso desejasse outra mulher.

Não era como se futuramente os lobos de ambos não pudessem se acostumar com a presença um do outro, chegando numa convivência pacífica, todavia, se a parte humana dela gostava somente de garotas, não havia muito que ser feito, sua família jamais permitiria, jamais poderia descobrir.

— Mas… O lobo dela, ele…

— Nossos lobos não têm um gênero ou orientação sexual, são apenas parte da nossa força vital, parte dos nossos espíritos. Mas, nosso lado humano pode gostar de algumas coisas e não gostar de outras — Taehyung largou o martelo, sentando de frente para o menor — É difícil encontrar alguém que não seja no mínimo bissexual em nossa sociedade, mas não é impossível, Kookie.

Jungkook sentia-se ainda mais confuso, sua cabeça chegava a doer por precisar acumular toda aquela carga de conhecimento em poucos segundos. Lamentou por não ter acompanhado as aulas de reprodução ABO nas aulas extras de biologia, mas não foi culpa sua, Kwan e Cho quase abriram um processo contra a escola, por estar querendo incentivar seu filho de doze anos a fazer sexo.

— Quando era mais novo, cheguei a passar o cio com algumas mulheres, mas nunca consegui seguir adiante com isso, marcar encontros, talvez começar um relacionamento. Meu lobo não tem preferência, mas eu tenho, sou gay — o alfa confessou — Pode acontecer do alfa dentro de mim se apaixonar por uma mulher e eu a marcar, mas ainda assim, ela será a exceção na minha vida, continuarei gostando de homens, só ficaremos juntos em nossos heats.

Era complicado para o Jeon conseguir acompanhar a linha de raciocínio de Taehyung, em partes por não entender direito como funcionavam as relações amorosas/sexuais como um todo, sendo sempre mantido numa bolha, e em partes por não entender direito como seu corpo funcionava, as suas vontades, seus desejos, suas preferências, suas necessidades.

Conhecia um pouco da teoria, principalmente pelas conversas que já tivera com Yoongi, o garoto de feições suaves que saia escondido da casa dos pais, no meio da madrugada, para se encontrar com uma galera no pub da esquina, enroscando-se em alguns rapazes, atitude que teve um fim aos dezoito anos, quando foi descoberto e apanhou.

Recordava da primeira e única vez que foi a casa dos gêmeos Kim, no dia que prometeram lhe levar novamente para que tomasse banho na cascata, quando Taewoon questionou sobre sua sexualidade, se preferia homens ou mulheres, e do mesmo modo como não sabia responder um mês atrás, também não sabia responder hoje.

A única certeza que poderia dar a si próprio e a qualquer outra pessoa que chegasse questionando-o (apesar de preferir manter em segredo) que Taehyung e Taewoon causavam reações estranhamente gostosas em seu corpo, e mesmo com as pílulas cortando parte de sua aura ômega, gostava deles.

Não era um gostar romântico, mas também não era um gostar exatamente amigável, como o que sentia pelo Min. Pela primeira vez em dezoito anos seu lobo agitava-se verdadeiramente feliz com alguém, demonstrando compatibilidade, liberando mais hormônios que o costumeiro em seus vasos sanguíneos, formando feromônios puramente animalescos.

Duas semanas atrás, sonhou que seu pescoço era tocado por lábios rosados e mornos, não sabia a qual dos Kim pertencia, mas ainda assim, foi o bastante para que acordasse com uma pequena protuberância no pijama, e sem saber como se livrar daquilo, visto que se tocar seria vergonhoso demais, errado demais, chorou, tendo as lágrimas abafadas pelo travesseiro fofo.

Sentiu-se ainda mais bobo, querendo cavar um buraco e se atirar dentro dele. Tanto o ruivo quanto o moreno eram mais velhos, mais experientes, sabiam de coisas que Jungkook nem mesmo imaginava existirem.

Nunca foi tímido quanto a sua virgindade, todavia, queria não ser ingênuo ao ponto de estar escutando aos dezoito anos as mesmas coisas que um pré-adolescente de treze anos escutava no colégio.

— E como eu posso ter certeza do que eu quero? Como posso ter certeza de que não estou sendo induzido pelo meu lobo? — Jungkook questionou, soltando as pernas, um pouco mais relaxado do que no momento que chegou ali — Parece… Difícil.

— Nem tanto, na verdade. Mas não precisa ficar pilhado com esse assunto, não vale a pena. Uma hora você acha a pessoa certa, e vai saber que é ela — os olhos cor de avelã fixaram-se nos tão escuro quanto a noite, parecendo mais vibrantes — Não se torture, por favor.

— Mas, eu quero saber. Não estou desesperado em busca de alguém, nem mesmo sei se poderei encontrar esse alguém, mas quero saber mesmo assim — a imagem de Jonghyun contando indiretamente sobre o mosteiro ocuparam boa parte de seu cérebro, precisou balançar a cabeça para afastá-la — Como posso ter certeza, como a Nayeon pode ter certeza?

O menino observou o mais velho, com certa expectativa, os olhos escuros brilhando num ar inocente que não deveria existir, visto que estava começando a sair da adolescência, tornando-se um jovem adulto. Por trás da face serena de Taehyung, conseguia perceber um leve movimento no maxilar, deixando óbvio que estava brincando com o piercing da língua.

Por mais estranho que seu pai tentasse fazer aqueles enfeites parecerem, Jungkook achava-os bonitos, seja os que o alfa tinha nos mamilos, um coração preso numa flecha no direito, e uma pistola de cano longo no esquerdo, a argolinha que pendurava no lábio de vez em quando, ou o que quase sempre estava no final de uma de suas sobrancelhas.

Sabia que ele poderia sanar suas dúvidas, responder suas perguntas, e por meio segundo realmente achou que isso iria acontecer, a boca rosada chegou a abrir, querendo deixar que as palavras fluírem para fora, mas, um barulho vindo da escada fez com que ambos tivessem suas atenções voltadas a ela, que rangia, deixando claro que alguém subia não tão vagarosamente.

A primeira coisa que apareceu foi uma série de fios vermelhos, meio desbotados, e em seguida a pele amorenada, com alguns desses fios grudados devido ao suor ou então a água, caso o rosto tenha sido lavado. Taewoon estava ali, com estampando um sorriso que chegava a ser quase maldoso, estalando a língua despreocupadamente.

Deixou seu torso completamente à mostra, mas não se juntou a Jungkook e o irmão sobre as telhas, preferiu continuar na escada pouco segura, bagunçando o cabelo que, devido ao ressecamento por falta de cuidados, tornou-se frisado, diferente do de Taehyung, que era sempre minado com cremes de tratamento e máscaras para fortalecimento.

— Você precisa experimentar, Sweetheart, precisa parar de seguir todas as regras do seu pai e deixar que os instintos falem mais alto — Taewoon disse, sabendo que a curiosidade do menino não seria curada com simples palavras, mas apreciando vê-lo tentar — Um toque, um beijo, um sexo selvagem no banco de trás do carro de um desconhecido.

— Apesar de não estarmos dizendo que deve sair procurando rapazes desconhecidos, não mesmo, isso seria péssimo — Taehyung olhou feio para o irmão, que mandou-lhe um beijo no ar — O que estamos querendo dizer é que, é necessário degustar todos os sabores de sorvete para ter certeza sobre os mais gostosos, e a mesma analogia pode ser utilizada com seres-humanos.

Sorvete, sabores de sorvete, seres-humanos, sabores de seres-humanos? Jungkook franziu o cenho, ainda confuso com tudo o que era dito, mas começando a entender onde os gêmeos Kim queriam chegar com aquele papo (apesar do ruivo ter aparecido a menos de um minuto); achavam-no careta demais, o que não deixava de ser verdade.

Chocomenta, café com gotas de chocolate meio amargo, era o que sempre pedia quando ia a uma sorveteria, e vergonhosamente, se parasse para pensar um pouco mais, notaria que eram a mistura dos três aromas ali presentes. O ômega olhou para os próprios joelhos, não conseguindo sustentar o olhar com nenhum dos alfas.

O que deveria significar? Por que mesmo antes deles aparecerem em sua vida, o que não fazia tanto tempo, o cheiro de café e do hortelã aparentavam persegui-lo? Seja na fragrância de um perfume, num creme depilatório, num hidratante facial, em seus doces prediletos e também nos shampoos que escolhia.

Era como se, ainda que não conhecesse Taehyung e Taewoon, uma parte de si aguardasse ansiosamente por eles, encontrando meios de deixá-los perto mesmo quando haviam quilômetros os separando.

Sorvetes, seres-humanos, melhores sabores, experimentar, Chocomenta, alfa, sexo selvagem atrás do carro de um desconhecido, instintos, ômega, café com gotas de chocolate meio amargo, eles, ele.

Os Kim não estavam entendendo muita coisa, mas era preocupante ver Jungkook tão quieto, principalmente por que, apesar da personalidade mais envergonhada e calma, o menino era comunicativo, pelo menos quando estavam juntos. Encararam-se como se mentalmente um perguntasse ao outro se deveriam falar alguma coisa.

Não entendiam exatamente qual parte do que disseram fez o moreno travar daquela forma, todavia, vê-lo se encolher cada vez mais conforme pensava sobre sabe-se lá o que começava a deixar seus lobos agitados, mandando que agissem rapidamente e não deixassem o Jeon tristonho.

— Kookie… Nós falamos algo errado? Não queríamos te desrespeitar ou causar um colapso mental — Taehyung se aproximou do menino, ficando de joelhos a sua frente — Você está bem?

— Sim, eu estou. É só que… Só que… — nem mesmo ele entendia o que estava acontecendo consigo, os pensamentos conflitantes faziam seu cérebro doer — Não sei.

— Talvez sua pressão tenha baixado, estar embaixo do sol, com essas roupas grossas, deve ter um lado negativo.

— É, talvez… — sabia que não era isso, e no fundo algo lhe dizia que os irmãos também sabiam. Piscou rapidamente, focando no ruivo que continuava na escada, não expressando mais o sorriso debochado — Por que veio aqui tão de repente? Queria conversar com Taehyung?

— Hm, na verdade não. Yoongi estava te procurando, pediu para que eu te chamasse, acho que tem algo a ver com formas de bolo — o alfa recitou — E também sobre ter encontrado algumas bolachas, é para irmos comer.

Jungkook assentiu, levantando da tábua e dando tapinhas na calça, para que qualquer sujeira presa na peça caísse. Ainda sentia-se meio zonzo com a descoberta de que seus sabores favoritos aparentavam ser justamente os dos gêmeos, mas não queria deixar tão óbvio, por que tudo o que não precisava era ser o motivo das gargalhadas alheias.

— Acho melhor encontrarmos o Yoongi então, ele já deve estar cansado de tanto me procurar — pensou no melhor amigo, seu fiel escudeiro e confidente — Vamos logo.

Infelizmente, não se sentia bem o bastante para conversar com o beta sobre suas muitas dúvidas e vontades, até porque, duvidava muito que conseguiria alguma resposta, no mínimo ganharia novas neuras, passando a noite inteira acordado, tentando tirar pedacinhos de madeira de seu cabelo e imaginando-se numa realidade onde não era tão patético.

Não tinha mais ânimo para prosseguir organizando o salão, nem mesmo para folhear a revistinha de flores e ornamentos, escolhendo arranjos bonitos para a cerimônia de batismo, portanto, resolveu que poderiam terminar o trabalho um pouco mais cedo naquele dia que de repente se tornou ainda mais deplorável.

Estava aéreo sobre tudo, e sabia que o Min agiu com razão (nem tanta) quando estapeou sua nuca, numa falha tentativa de trazê-lo de volta para a realidade, socando biscoitos salgados em sua boca junto a uma garrafinha de suco de uva, que não sabia como havia surgido.

De cada cinco pensamentos, três eram sobre sua mais nova descoberta, seu olfato inteiramente ligado ao aroma dos Kim, hortelã e café. Não conseguia parar, mas também não queria continuar quando aquilo claramente não fazia bem, a ansiedade rompia de suas veias, junto a um espírito lupino balançando o rabo, em alerta.

Por mais que não estivesse participando do falatório que enchia os quatro cantos da cozinha não tão bem planejada, escutava perfeitamente as vozes grossas de Taehyung e Taewoon contrastando com a suave rouquidão de Yoongi, o assunto da vez parecia ser Jimin, o alfa amigo dos dois alfas, que gostava do cheiros florais.

Lembrava-se do rapaz até então desconhecido sendo citado, quando esteve na casa dos gêmeos, mas não sabia absolutamente nada sobre o mesmo, principalmente por ele nunca ter dados as caras na igreja, ou quem sabe até no bairro, era como um fantasma que era citado as vezes, quando o Min estava por perto.

Deixou um suspiro escapar, coçando a touca e em seguida cruzando os braços, observando seu melhor amigo sorrir por uma bobagem qualquer que Taewoon falou (e foi repreendida por Taehyung, que o puxou pela orelha até o lado de fora). Não queria ser o antipático do grupo, estava parecendo seu tio avô durante os churrascos.

— Você precisa aprender a disfarçar um pouco melhor — Yoongi falou assim que os alfas cruzaram o batente, indo guardar seus utensílios, já que haviam sido liberados — Não sei o que aconteceu entre vocês, mas, o clima está tão pesado que consigo beliscar ele no ar.

— Não aconteceu nada. Eu só estou cansado, não dormi direito durante a noite — não era uma completa mentira, mas também não era uma completa verdade — Banho e cama seria uma combinação perfeita agora.

— Não me trate como se eu não fosse capaz de ler as entrelinhas, não sou estúpido. Estou indo embora, vou madrugar jogando — respirou fundo, girando a chave de casa entre os dedos — E só para você saber, “Senhor meu olfato não é tão bom em distinguir sentimentos”, eles estão preocupados, mas não era assim tão difícil notar, não conseguiam parar de te olhar.

Culpado. Agora além de confuso sobre sua própria essência lupina, também se sentia culpado por preocupar duas pessoas que considerava bastante, apesar de não conhecer a tanto tempo quanto o beta semi-irresponsável e de mãos ótimas para carinho.

Não é como se fosse conseguir esconder o quão ainda mais cabisbaixo ficou com a frase alheia, todavia, Yoongi não disse mais nada, deu um pequeno sorriso em sua direção, acenou e saiu, sabendo que o Jeon precisava de pelo menos dez minutos sozinho, para se recompor.

Para o mais velho, era óbvio que existia certa ligação entre o ômega e os alfas, porém, achava que Jungkook já havia percebido, o que ficou claro que era um infeliz engano, o moreno ainda se mantinha cego diante daquele fato, ou talvez nem tão cego assim; pelo modo como agiu na última hora, algo poderia ter desencadeado um pouco de conhecimento.

Pegou sua bicicleta e foi embora, deixando o moreno de olhos escuros na área destinada a assar carne e cozinhar arroz durante as festas, um tanto desorientado e se auto acusando por ter afligido duas pessoas que aos poucos se tornavam cada vez mais importantes, ganhando um espaço maior dentro de seu dia a dia.

Jungkook engoliu com dificuldade a saliva que aparentava trancar na garganta, arranhando suas cordas vocais, num claro sinal de que, emotivo do jeito que sempre foi, queria chorar, mesmo não podendo. Limpou os olhos com a manga do moletom que usava, abanando-os em seguida para tirar o excesso de vermelhidão que poderia ter restado.

Não queria mais ficar naquela peça quente (os ventiladores haviam sido levado para casa, onde sua mãe os lavaria), sendo assim, aproveitando a coceirinha chata que a touca causava em seu couro cabeludo após tantas horas seguidas a usando, decidiu que tomaria banho, mesmo que precisasse colocar as mesmas peças de roupa depois, o que era meio nojento.

Puxou uma das toalhas que guardavam no armário, ao lado dos pratos, caminhando rumo ao banheiro maior, atrás da igreja, com quatro chuveiros, um ao lado do outro, e um vaso mais adiante, apesar dele quase nunca ser usado, visto que, haviam os outros banheiros mais acima, estes sim próprios apenas para necessidades fisiológicas.

Não viu os Kim, mas imaginou que estariam terminando de guardar as ferramentas e o cortador de grama. Seguiu seu rumo, entrando na área coberta e fechando a porta atrás de si, sem trancar já que a chave ficava com seu pai o tempo todo.

Tirar as roupas grossas e também junto à touca foi maravilhoso, suspirou, sentindo a derme morna poder finalmente respirar, agradecendo pelo local mais fresco, as janelinhas abertas permitindo que um pouco de vento entrasse, vindo das árvores que se balançavam vagarosamente.

Entrou debaixo d'água, deixando que ela o refrescasse o quanto quisesse, fechando os olhos para aproveitar melhor a sensação de completo e total relaxamento, tateando com a mão até achar o buraco na parede onde eram colocados os produtos de higiene, encontrando o tubo do shampoo que Taewoon deixava ali, abrindo com o dedão e despejando uma boa quantidade na mão esquerda, cuidando para não deixar cair no chão, já que não enxergava coisa alguma.

Não demorou muito, passou o produtinho duas vezes nos fios, que com certeza agradeceram por se livrar da fuligem, deixou que o sabonete escorregasse pelo corpo, sem precisão alguma, e desligou o registro, abrindo os olhos, que arderam devido aos cílios molhados demais, mas rapidamente se acostumaram com a claridade.

Estava com a calça e blusa novamente o cobrindo, terminando de secar o cabelo castanho, quando escutou risadas aproximando-se cada vez mais da porta, e antes que pudesse raciocinar direito, quem sabe trancar-se no box junto ao vaso (mesmo que seu cheiro viesse a denunciá-lo), os dois alfas entraram num rompante.

Não estava mais tão cabisbaixo quanto antes, a água levou consigo parte de sua frustração, ainda que ela prosseguisse existindo, todavia, não sabia como reagir após o período que permaneceu emburrado, distante deles e de Yoongi enquanto conversavam aleatoriamente.

A vergonha abriu espaço até encontrar suas bochechas, corando-as; parou de mexer a toalha felpuda contra os fios desajeitados, permanecendo parado em meio ao banheiro, vendo os mais velhos pararem também, cessando as brincadeiras enquanto a porta fechava sozinha, por culpa do desnível no terreno.

— Hm, pelo visto resolveu o problema capilar que, me contaram, que você tem — Taehyung falou, procurando amenizar a tensão que sugava todo o ar daquele espaço não tão grande, mas que também não poderia ser chamado de pequeno — O shampoo de 2,99 que meu irmão usa, deu certo?

Jungkook piscou rapidamente, não se importando com o valor que havia sido pago no produto, apesar de ter bem mais caros em casa, perguntando-se mentalmente se os Kim tinham percebido algo estranho em toda aquela história envolvendo o uso da touca; esperava que não, mas sabia que eles eram gentis demais para dizer qualquer coisa.

— S-Sim, o shampoo deu certo, ele é muito bom na verdade. Obrigado mais uma vez — desviou a atenção a Taewoon, que limitou-se em piscar o olho esquerdo, repuxando suavemente os lábios — Eu acho que vou deixar vocês tomarem banho agora, então, hã, eu vou, eu, sabem, lá fora, é, lá fora.

Embolou a toalha entre as mãos, rezando para que não tivessem visto sua cueca ali no meio (não teve coragem de usar a mesma, optando por permanecer sem), começando a andar rapidamente até a entrada, no entanto, antes que tocasse no trinco, uma mão segurou sem muita força em seu pulso, obrigando-o a parar no meio do caminho.

— Se eu soubesse que te mandar experimentar, faria com que agisse dessa forma, não teria sido tão direto — o ruivo comentou, com os dígitos ainda formigando na derme do ômega, que se virou, novamente olhando para os gêmeos — Não consigo identificar se está com vergonha ou medo de nós.

— Não sinto medo de vocês, nunca, vocês são… São… Boas pessoas. Gosto do tempo que passamos juntos.

— Então qual é o problema? Está estranho já tem quase duas horas e não sabemos ao certo o que fizemos para ganhar o teu silêncio — foi a vez do moreno, lambendo os lábios e cruzando os braços — É desconcertante.

— Não fizeram nada de errado, é só que, acho que acabei percebendo algumas coisas, e elas me assustam — suspirou, trocando o peso de pé, a voz soando mais baixa que o normal conforme as palavras saiam — Não é a culpa de vocês.

— Jungkookie, desencadeamos isso de alguma forma, pelo menos uma parte é nossa culpa sim.

— Precisa ser um pouco mais aberto, para conseguirmos te ajudar. Você parecia bem receptivo lá em cima, no telhado, pelo menos por alguns instantes — Taewoon contou, soltando o garoto — Pode confiar em nós.

O Jeon confiava, e essa era justamente uma das coisas que começavam a assustá-lo. Demorou meses para, na época da escola, aprender a confiar no beta ranzinza, mas quanto se tratava dos alfas que apareceram de repente em sua vida, a confiança surgiu em dias, talvez horas.

Não entendia o que estava acontecendo consigo, muito menos o que estava acontecendo com seu lado lupino, levantava uma bolha de insegurança do tamanho de um prédio numa clara tentativa de se proteger, mesmo não sabendo por que exatamente precisava dessa proteção.

Não era como se os alfas Kim fossem machucá-lo, de modo algum, ambos já haviam provado mais de uma vez que eram incapazes de o forçar uma ação contra sua vontade, ou então ultrapassar qualquer limite que lhes fosse colocado, apesar de não limitar coisa alguma.

Deixou que a saliva passasse pela garganta, aparentando ser mais pesada que o normal, um dos sinais que seu corpo dava quando se encontrava numa situação que o deixasse nervoso. Não era medo ou falta de confiança, apenas desentendimento e vergonha.

Como Taehyung agiria caso soubesse que possuía o cheiro que mais o atraia no mundo? Desconversaria? Diria que sente muito? E Taewoon, como seria sua reação? Riria de sua cara? O chamaria de bobo? Não queria passar por algo assim, precisava de compreendimento mesmo quando não sabia se compreender.

Olhar para os dois rapazes não ajudava muito, principalmente quando a voz grossa falando que precisava provar, ganhava mais espaço entre seus neurônios. Uma clara e específica vontade surgia, maior do que antes, por que sim, essa vontade não era uma grande novidade, pelo menos não nos últimos dias.

— V-Vocês me ajudariam? Me ajudariam a descobrir quais os sabores de sorvete eu gosto? — Jungkook pediu, decidindo não contar sobre os aromas que chamavam sua atenção, mas também decidindo não continuar sozinho no escuro — Eu preciso disso, muito.

Os olhos pidões fixaram-se nos rostos simetricamente idênticos dos irmãos, desde os fios escarlates grudados na testa de Taewoon, até o piercing na pontinha da sobrancelha de Taehyung. Sentia o coração batendo mais depressa, não sabia de onde arranjou bravura o suficiente para deixar as palavras saírem.

Possivelmente, lembrar-se da voz fina do caçula contando sobre o mosteiro tenha dado o empurrão que faltava, o empurrão que junto a conversa que tiveram horas mais cedo com o alfa moreno ajudou-o, mesmo que indiretamente. Aquela era sua única chance de provar um pouco do que existia fora da bolha imposta por Kwan e Cho.

— Eu estou confuso e minhas pernas estão tremendo, mas ainda assim, não sinto vontade de sair daqui. É como se fosse a coisa certa a ser feita, ficar  — o Jeon confessou com a voz ainda mais baixa, esforçando-se para não quebrar o contato visual — A-Acho que quero tentar isso com vocês, não há pessoas melhores.

Os mais velhos se olharam meio de lado, não querendo deixar muito óbvio para o ômega que estavam pensando sobre a proposta, checando os prós e os contras, mas principalmente, tentando identificar se era o momento certo para aquilo, se Jungkook não estava agindo por pura pressão.

Queriam o garoto, desde a primeira vez que colocaram os olhos sobre ele, era como se seus pedidos de Natal (que eram sempre os mesmos, desde a infância), tivessem ganhado vida e chegado mais cedo. O filho mais velho do pastor era perfeito, o parceiro ideal, a razão pela qual seus lobos ficaram tão agitados por voltarem a cidade de seus avós.

Não importava quantas roupas pesadas o moreno utilizasse, quantos supressores fosse obrigado a tomar diariamente, ainda assim sentiam o delicioso cheirinho doce, ainda assim conseguiam ver a silhueta magra e delicada por baixo dos panos sempre que ficava contra o sol. Eles pertenciam a Jungkook, mas jamais iriam impor que Jungkook pertencesse a eles.

Após segundos de um silêncio quase constrangedor (na opinião do mais novo dentre os três), Taewoon riu soprado, umedecendo os lábios rosados com o músculo atrevido e passando a mão pelos fios tingidos, retirando-os da testa; um relance vermelho passou pelos olhos amendoados, e instintivamente o Jeon deu meio passo para trás.

— É como ver um coelhinho entrando na toca do grande lobo mal, implorando para servir de jantar — caminhou com suavidade até o mais baixo, rodeando-o como um verdadeiro predador, até parar em suas costas, o calor passando a grossura das roupas — É um jogo perigoso, especialmente para um filhote.

 — Não sou mais um filhote, já tenho idade o suficiente para fazer escolhas assim, há pessoas casadas com a minha idade, há pessoas marcadas… — engoliu a seco, olhando diretamente para Taehyung, que ainda estava parado no mesmo lugar, mas sentindo a respiração de Taewoon em sua nuca — Eu quero. Vocês… V-Vocês não me querem, é isso?

— Querer é uma palavra muito pequena, talvez se soubesse tudo o que precisamos, saísse correndo — o alfa moreno finalmente abriu a boca, com o mesmo lampejo avermelhado que anteriormente o irmão mostrou nas íris castanhas — Espero que não se arrependa.

Jungkook procurou respirar fundo, sentindo um dos braços de Taewoon envolverem sua cintura consideravelmente fina, puxando-o, até que estivesse com as costas completamente pressionadas contra o peito desnudo, experimentando a temperatura alta que vinha do mais velho, notando seu lobo resmungar feito um filhote.

Não sabia ao certo no que deveria se concentrar, em Taehyung, que começava a vir em passos lentos até si, os olhos predatórios parecendo lhe despir ruidosamente conforme deixava sua presença mais viva, ou no ruivo, que aproveitou a proximidade como pode, deixando a ponta do nariz encostar em sua nuca, aspirando o cheiro adocicado que possuía.

Soluçou, notando as pernas começarem a dar indícios de que em breve falhariam, mas, felizmente, não foi o único a notar tal coisa, já que Taewoon apertou ainda mais os dedos contra sua pele, por cima da blusa, deslizando a ponta dos dígitos da outra mão por seu braço esquerdo, subindo vagarosamente enquanto prosseguia cheirando a linha entre seu cabelo e o pescoço, dando-lhe arrepios.

Chegou a abrir a boca para falar algo quando finalmente o alfa de fios negros se postou a sua frente, com poucos centímetros os separando, mas nenhuma voz saiu, tudo o que conseguia fazer era se deixar ser acariciado por um dos Kim, enquanto sentia a respiração do outro bater diretamente contra a sua.

Hortelã e café, a presença dos alfas forte o bastante para deixar seu espírito lobo agitado, ainda que soubesse que os dois estavam se segurando, que, por serem lúpus, poderiam fazê-lo ovular caso se soltassem verdadeiramente. E por algum motivo, desejou que eles se soltassem, desejou ver o estrago que poderiam fazer juntos; sentia-se tão sujo, imoral.

— Nós iremos te ajudar, Jungkook, mas não por obrigação, por sentirmos pena do seu estado — Taehyung contou, iniciando uma singela carícia no queixo do ômega, mas, por mais simples que ela fosse, fazia a derme do Jeon formigar — Mas por que necessitamos disto tanto quanto você.

O alfa de cabelo colorido continuou subindo seu toque, até chegar no pescoço alvo e livre de qualquer mancha, segurando-o firmemente, sentindo a textura macia e morna, sentindo o pulsar da jugular, o estremecer da garganta sempre que Jungkook tentava deixar a saliva passar, encontrando pelo caminho certa dificuldade, por culpa do aperto.

De modo sutil, quase imperceptível, procurou a barra da camisa que o garoto vestia, adentrando a mão curiosa, enchendo a palma com os gominhos bem definidos do abdômen, optando por não passar vontade, descobrindo o quão gostoso poderia ser escorregar por entre cada um daqueles quadradinhos, sentindo-o se contrair pelo toque, arrepiando os minúsculos pelinhos que encontrava pelo caminho.

Jungkook ofegou, percebendo o aperto em seu pescoço aumentar quando tentou mexer a cabeça; Taewoon o mantinha preso, obrigando-o a encarar Taehyung, que parecia suficientemente bem em somente observar suas reações, com a ponta do dedo indicador alisando a bochecha rosa.

Já estava quase pedindo, por favor, implorando, não era justo que brincassem consigo, que fizessem seu lobo choramingar. A vontade crescia conforme os segundos passavam, e por mais de uma vez pensou em empinar contra a virilha do ruivo, não importando o quão promíscua a atitude fosse; desde que conseguisse maior contato, tudo bem.

Uma vibração gostosa passou pela região abaixo de seu umbigo quando o alfa escarlate deixou um selo quente e molhado perto de seu ombro, e essa mesma vibração fez um caminho contraditório, chegando a parte traseira de sua calça, assim que o Kim de cabelo negro inclinou o rosto para mais perto do seu, permitindo que os narizes se tocassem, os olhos amendoados, puxando para um leve vermelho, fixos aos seus, que praticamente fechavam.

— Parece muito sensível, Sweetheart. Tenho a impressão de que, se continuarmos, você terá uma ereção — Taewoon novamente beijou a pele alva, deixando que os lábios resbalassem do ombro ao pescoço, numa trilha quente — E isto é delicioso.

O ômega soltou um resmungo, e Taehyung aproveitou a oportunidade para trazer o lábio inferior do menino para entre os seus, chupando delicadamente a área cheinha e rosada, deliciando-se ao ver Jungkook permitir que o corpo fosse completamente amparado por Taewoon, fechando os olhinhos cor de jabuticaba e entreabrindo mais a boca, dando permissão para que continuasse.

A mão que antes estava na bochecha do ômega, subiu até encontrar os fios ainda úmidos pelo banho, enquanto a outra aproveitou a proximidade, agarrando o quadril largo, fazendo dali sua morada, sabendo perfeitamente que, talvez estivesse usando um pouquinho a mais de força do que o necessário, mas nada que pudesse incomodar ou machucar.

Viu o irmão aproveitar-se do pescoço bonito, cuidando para não marcar (não queriam causar problemas na casa dos Jeon’s), com pequenas sucções que terminavam com os dentes deixando a derme quase vermelha, mas no final sendo amparada pela língua molhada.

Levando tal visão como um real incentivo, deixou que sua própria deslizasse pelo lábio bem desenhado de Jungkook, desenhando sobre a textura fofa, demonstrando não possuir toda a pressa que na verdade tinha; o músculo ardiloso trazendo para si o gostinho doce do ômega, junto aos gemidinhos que o mesmo deixava escapar sem notar, cada vez mais mole.

O mais novo ansiava por mais daquelas sensações, e talvez por isso não tenha conseguido manter as mãos paradas quando finalmente Taehyung agiu como precisava, encaixando os lábios finos aos seus e deslizando a língua para junto da sua, trazendo consigo o sabor de hortelã.

Agarrou as vestes alheias como conseguiu, sentindo os dedos doerem por culpa da força que exercia contra o tecido, querendo descontar ali parte do prazer que lhe era ofertado, já que não conseguia mexer quase nenhuma outra parte do corpo, no meio dos irmãos Kim, com Taewoon apertando seu pescoço para mantê-lo quieto.

Não era um verdadeiro perito em beijos, portanto, o modo como o alfa moreno dominava o ósculo foi mais do que bem-vindo, tudo o que precisava fazer era aceitar o toque, seguir seus passos e deixar que a língua atrevida escorregasse por cima da sua, unindo-as conforme as salivas eram misturadas cada vez mais.

Vergonhosamente, gemeu, com a pélvis do ruivo sendo friccionada em sua bunda e a de Taehyung friccionada contra sua própria. Comprimiu ainda mais os dedos na roupa do homem a sua frente, retirando uma das mãos dali, e instintivamente levando-a até os fios coloridos de Taewoon, num claro pedido para que prosseguisse beijando seu pescoço como se fosse sua boca.

Foi impossível não sussurrar o nome alheio, quando, em uma das voltas que a língua do alfa de fios escuros deu na sua, sentiu as duas bolinhas do piercing, a textura lisa e gelada, acarretando numa série de arrepios que, mais uma vez, começaram em seu baixo ventre e terminaram na região traseira de suas calças.

Era a primeira vez que percebia sua entrada começar a encharcar de lubrificante quando estava longe do cio, nem mesmo quando sonhava coisas indecentes uma quantidade tão grande era expelida (culpa dos supressores), mas existia algo na forma como era segurado, na forma como era beijado, na forma como os cheiros deles combinavam com o seu, que deixava o Jeon louco.

Suspirou, perdidamente entregue, tendo os lábios mornos de Taewoon chupando sua derme com gosto, subindo os selos arrastados, até que, com um simples gesto feito pela mão que agarrava o pescoço, pendesse sua cabeça para o lado, facilitando o acesso até sua boca, que já estava a espera, entreaberta.

Foi a vez de Taehyung precisar se contentar em brincar com a área de seu pescoço, apesar de que, ele preferiu se manter ainda próximo aos lábios, mordendo a bochecha esquerda sem força alguma, apenas o bastante para fazê-lo querer mais, e receber, em forma de selos úmidos e deliciosamente longos.

Jungkook soltou um muxoxo contente, a boca do alfa de cabelo escarlate encaixando tão bem na sua quanto a do irmão encaixou segundos antes, mas, apesar de ambos os beijos serem intensamente gostosos, possuíam suas diferenças, nenhum era pior ou melhor que o outro, apenas diferentes, e o ômega queria ambos.

Amassou mais os fios entre seus dedos, gemendo choroso quando a língua ousada de Taewoon envolveu a sua, chupando-a eroticamente, parecendo levar por incitamento os barulhos estalados que eram feitos durante o ósculo mais do que explícito, como se encorajasse a si mesmo fazê-los ser ainda mais altos.

O piercing de Taehyung deixava a pele de sua bochecha gelada por onde passava, e quando desceu até seu queixo, resbalando para o lado, puxando o lóbulo de sua orelha, foi impossível não se contrair por inteiro, aumentando ainda mais o ritmo do ósculo que dividia com o alfa ruivo.

Taewoon o beijava com fome, Jungkook se via incapaz de negar todo aquele apetite, necessitando de contato físico tanto quanto os Kim aparentavam necessitar, puxando-os mais contra si, apreciando a sensação de estar entre os dois, com o calor dos corpos esbeltos excitando seu lobo, e consequentemente excitando-o também.

Sabia que, quanto mais tempo passavam em meio a aquilo, mais estava ficando difícil, não apenas para ele, se controlar, portanto, lutando contra todo o desejo que sentia, cortou o ósculo, ainda permanecendo com o rosto próximo ao do mais velho, que respirava ofegante.

Taehyung percebeu o estalo que os separou, parando de brincar com sua orelha e retornando a posição inicial, deixando mais um selo na bochecha agora avermelhada, passando o nariz por toda a extensão da pele macia, aspirando ao cheirinho que jamais encontraria em outra pessoa, só no seu coelhinho; seu e de Taewoon.

— Chocomenta e café com bolinhas de chocolate, são os meus sabores de sorvete preferidos — Jungkook confessou com a voz entrecortada, sentindo-se fraco demais para conseguir abrir os olhos, sentindo-se fraco demais para sair pela porta do banheiro e fingir que aquilo nunca aconteceu — Eu quero mais.


Notas Finais


Caso tenham gostado, não esqueçam de favoritar a história e adicionar a biblioteca, assim irão receber os próximos capítulos, e é claro, se tiverem um tempinho sobrando, comentei, isso incentiva qualquer autora a prosseguir com seus trabalhos na plataforma, eu amo demais poder interagir com cada um de vocês. Não precisam ter medo ou vergonha, trato todos com muito carinho.

Agora, tenho uma pequena pergunta sobre o nome desse trisal maravilhoso.
Vocês preferem:
1- TaeKookTae
2- TaeTaeKook
Eu darei o resultado no quarto capítulo, então oficialmente teremos o nomezinho do shipp.
Mais uma vez, obrigada por todo o apoio, eu definitivamente já teria desistido a muito tempo do Spirit se não fosse o meu amor pela escrita e também o meu amor pelos leitores.
Beijos da Dii


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