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História Devil's Menu - Capítulo 3


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Notas do Autor


Finalmente chegamos ao fim de mais uma história! Escrever Devil's Menu foi uma aventura depois de um longo tempo sem conseguir nem formular um plot. Eu agradeço muito às minhas amigas e à minha capista @woondz por terem me ajudado a postá-la.
Sem mais delongas, vamos lá:

Capítulo 3 - Terceira Parte.


O grande dia finalmente chegou. 

Hyunjin olhava-se no espelho, finalmente absorto em pensar como seria o rosto do próprio Pai. Os cabelos louros e compridos já tinham sido confirmados pela mãe e pelos dois mensageiros, Chael e Daher. Será que ele teria os mesmos lábios cheios, o rosto fino, as mãos compridas e o corpo esguio? 

Ele abotoou a gola da capa de veludo negro que usaria naquela noite. Era pesada, quente e elegante. Colocou um pouco de gel na palma das mãos e passou-as pelos fios dourados de cabelo, dispondo-os para trás. Ele havia achado uma máscara de Diabo que cobria-lhe apenas os olhos e metade da testa. Colocou-a no bolso, para colocá-la mais tarde, porque não queria que Dana se assustasse quando descesse as escadas. O coração apertou-se um pouco ao perceber que não veria mais a irmã mais nova, ou a mãe, sequer o Padrasto. Nunca mais. 

Provavelmente, quando encontrassem seu corpo terreno sem vida, ao lado do de Angel, no dia seguinte à festa, todos imaginassem que o casal apaixonado tinha sido atacado por um maníaco e não tiveram tempo de defender-se. Ninguém jamais saberia a verdade. 

Ele apanhou o punhal que comprara em uma loja de facas, no centro da cidade. Era leve e tinha uma lâmina dolorosamente afiada. Ele sabia que o ritual sacrificial era muito importante, não podia ser feito com uma faca de cozinha qualquer. Hoje, era o dia em que nada podia dar errado. Hoje, sua véspera de 21 anos, seria o dia em que finalmente ele conheceria o Pai. 

 

Ele desceu as escadas com a capa escura esvoaçando atrás de si. Sua mãe ergueu as sobrancelhas ao vê-lo, enquanto ela e Iseul assistiam um filme. Dana estava sobre o tapete, movimentando duas Barbies como se elas estivessem desfilando em uma passarela. 

‘Já está indo, filho?’ Sua mãe perguntou, ainda encarando o filho de cima a baixo, com um olhar de reconhecimento. Hyunjin sorriu. Devia mesmo estar parecido com o Pai. 

‘Hum… sim… Mas, queria me despedir de vocês antes.’ 

‘Se despedir? Ora, vamos nos ver no café da manhã, não vamos?’ perguntou Iseul, sorrindo. 

Hyunjin deu um sorriso mínimo, com o olhar perdido em Dana e sua inocência infantil. O que ela diria se pudesse entender, quem o irmão mais velho era de verdade?

‘Mas.. hoje é a última vez que vamos nos ver…’ Hyunjin engoliu à seco. ‘Antes dos meus 21 anos.’ ele completou. Sua mãe tomou a frente em levantar-se do sofá e caminhar até ele para abraçá-lo. Tinha sido o abraço mais forte que sua mãe lhe dera em toda a sua vida. E ele estava grato por isso, pois também era o último. Iseul pegou-lhe o rosto entre as mãos e sorriu, orgulhoso.

‘Nosso bom Jinnie já é um homem. Parabéns, filho.'

Hyunjin sorriu, correspondendo Iseul. Sua garganta se fechou um pouco e ele sentiu os olhos arderem levemente, mesmo que soubesse que aquele homem não era o seu pai verdadeiro. Por último, na fila, estava Dana com os olhos negros e redondos curiosos. Ela segurava uma Barbie contra o corpo e fazia beicinho para Hyunjin.

‘Por que é que eu não posso ir na sua festa?’

Ele riu, passando os dedos pelos cabelos ondulados da irmãzinha. 

‘Porque é uma festa de um adulto.’

‘Mas… promete que vai me trazer comidas, depois? Bolo e refrigerante?’

Os três adultos riram e Hyunjin não perdeu tempo em levantar Dana nos braços, e abraçá-la forte até ela reclamar. Ele se perguntou se no submundo, poderia levar cheiros consigo. Se pudesse, levaria o dela, de baunilha e sucrilhos. E mesmo que se tornasse o filho do Diabo, o anticristo ou o que quer que fosse, jamais deixaria que Dana sofresse. 

‘Bom, vou indo… Vejo vocês amanhã de manhã.’ ele disse, sorrindo e acenando para a ‘família’ que deixaria para trás. Ao fechar a porta da casa atrás de si, ele se permitiu uma última olhada para o lugar onde passou sua vida quase toda, até ali. Soltando o ar pela boca para evitar que sentimentos lhe vazassem pelos olhos, ele finalmente deu as costas e saiu em direção ao carro. 


 

Hyunjin era um dos caras mais populares da Universidade. Por isso, não foi nem um pouco surpreendente que a festa de aniversário dele, fosse a festa do ano. Todos os convidados levaram pelo menos mais um convidado, ou dois, ou três… Às dez e meia da noite, a casa de Campo já não comportava mais ninguém. 

Felix, Jisung e Bang Chan, seus três amigos, davam à Hyunjin olhares cada vez mais aterrorizados a cada vez que o brilho de um farol de carro apontava na entrada da chácara. Hyunjin, com um copo de bebida nas mãos, por outro lado, não estava nada preocupado. Para ele, era um tanto melhor que a casa estivesse cheia de penetras e desconhecidos. Seria mais fácil para a Polícia desconfiar de um duplo assassinato, quando encontrassem o corpo dele e de Angel no celeiro. 

‘Cara, você não está preocupado não? Tem um cara tentando se pendurar no lustre!’ Jisung perguntou ao amigo, percebendo o olhar despreocupado de Hyunjin para o caos instaurado. ‘Iseul vai te matar…’

‘Ah, não vai não… Ele terá mais com o que se preocupar…’ ele disse apenas, deixando no ar um mistério que nenhum dos amigos conseguiu compreender. Bang Chan que estava achando o comportamento do amigo muito estranho nas últimas semanas, ou talvez meses, cerrou os olhos levemente para ele. 

‘Bom… Preciso achar a Angel por aí, ok?’ ele disse, sem olhar para nenhum deles, procurando sobre os ombros a garota com quem estava saindo há alguns meses. Ele saiu de perto dos três, a capa de veludo esvoaçando atrás de si. Felix, que usava uma maquiagem inspirada no Monstro de Frankenstein, suspirou e disse, antes de ir atrás de mais bebidas: 

‘É o que dizem… a paixão muda as pessoas, não?’

Jisung e Bang Chan não estavam convencidos disso. 

 

Angel estava vestida de anjo das trevas, com asas de plumas pretas e um vestido curto e leve que ia até a metade das coxas. A auréola preta e macia presa à sua cabeça por um arco, mexia para todos os lados, enquanto ela andava. Ela e a amiga tinham acabado de chegar e não esperavam que a festa estivesse tão cheia. 

‘Está vendo Hyunjin por aí?’

‘Ele é o padre medieval loiro que está vindo ali?’ a amiga disse, levantando a voz para ser ouvida através da música alta. Os olhos de Angel localizaram a figura vestida inteiramente de negro, que sorria para ela, enquanto se aproximava. Ela e Hyunjin cumprimentaram-se com um beijo longo, que obrigou a amiga a olhar para outro lugar, incomodada. 

‘Ainda não entendi sua fantasia, meu bem.’ Angel disse para o rapaz, os olhos passeando pela fantasia confusa. 

‘Pretendia vir de diabo, mas realmente gostaria de parecer assustador e não… idiota.’ ele disse, tirando algo do bolso da túnica. A máscara, com os dois chifres espetados. Hyunjin levou-a à altura dos olhos e amarrou a fita de cetim que prendia-a contra o seu rosto delicado. Assim que virou-se para Angel e a amiga, ele sorriu e perguntou:

‘Estou assustador?’

Um arrepio passou pelo corpo da amiga de Angel, mas ela nada disse. Pensou ser o ar condicionado. 

‘Uau, está muito!’ Angel disse, animada, olhando o rapaz com adoração. 

‘Ótimo…’ ele disse, sorrindo e depositando um beijo na testa de Angel. 

‘Vocês querem alguma bebida?’ ele perguntou.

‘Pode deixar que nós pegamos… a gente se encontra… daqui a pouco, né?’ Angel perguntou para ele, piscando. 

‘Vou deixar tudo pronto. Sabe onde me encontrar, não sabe?’

Ela assentiu, sorrindo.

‘Só não demore muito, meu bem. Estou ansioso.’ ele disse, virando-se com a capa teatralmente em direção à saída da casa. 

Angel seguiu a amiga para dentro da casa, pronta para começar a se divertir. 

‘Onde é que… vocês…?’

‘No celeiro…’ Angel disse, rindo baixinho. 

‘Mesmo? No meio dos animais? Credo…’

‘Não tem animais lá… e se quer saber, eu achei um lugar muito romântico.’ Angel disse, passando os lábios um no outro. 

‘E já sabe como é que vai fingir para ele que é virgem?’ a amiga perguntou. 

‘Ainda não sei… Sei lá, vou fingir que está doendo, vou tentar parecer nervosa, ou qualquer coisa assim.’ Angel respondeu, dando de ombros. Atrás dela, Bang Chan franziu as sobrancelhas. 

 

Depois de virar alguns goles de bebida, Angel viu na tela do celular que faltavam alguns minutos para as onze e meia. Hyunjin já devia estar esperando-a no celeiro. Despedindo-se da amiga, dizendo que estaria de volta em pouco tempo, ela ajeitou o vestido nas coxas e saiu da casa, pela noite fresca, em direção ao celeiro. 

Hyunjin preparou uma cama de armação antiga, com um colchão de molas que levou previamente do próprio quarto na casa, mais cedo. Colocou uma colcha vermelha escura sobre ela, dizendo para si próprio que seria mais fácil para ele matar alguém, se o sangue não estivesse tão visível assim. Ele sorriu para si mesmo, ao ver tudo pronto. Chael e Daher não haviam mencionado nada sobre pentagramas, velas ou animais, por isso, Hyunjin deu-se por satisfeito. A adaga que levava no bolso parecia pesar uma tonelada. Mas, ele sorriu, pensando que tudo estava próximo de acabar… e de começar. 

Angel abriu a porta do celeiro com um barulho quase fantasmagórico, ela riu sozinha até ver Hyunjin, em toda a sua glória, deitado na cama, esperando-a. A capa de veludo estava ainda presa ao corpo e completamente aberta sobre o colchão, formava uma cascata negra e sensual. Ele girou o pescoço na direção dela, arrumando-se sobre a cama e apoiando a cabeça sobre uma das mãos.

‘Oi.’ ele disse, a voz baixa e rouca ressoando pelo celeiro. 

Ela fechou a porta atrás de si, sentindo o tecido do vestido aderir à pele de repente, os pêlos dos braços e da nuca arrepiando-se. Hyunjin tinha uma beleza irritante. Era como uma pintura em um quadro, que nunca envelhecia. Imortal. Angel sentiu sua respiração descompassar e as batidas do coração aumentarem a velocidade. Ela caminhou a passos curtos até a cama onde Hyunjin estava. Ele, levantou-se, ficando sentado na beira do colchão, assistindo a garota vestida de anjo das trevas caminhar em sua direção. Os olhos bem abertos, lábios vermelhos da cor do pecado. Os dois eram um sinuoso caminho de perdição - e ironia. 

Angel sentou-se sobre as pernas de Hyunjin, com as coxas nas laterais dele. Ele colocou a mão nas costas dela, sentindo a pele dela se arrepiar sob o toque dos seus dedos. O rapaz sorriu, feliz com o efeito que sabia que tinha sobre a garota. Seria muito fácil subjugá-la para oferecê-la em troca da sua imortalidade. Mas, por enquanto, ele queria aproveitar os prazeres da carne mortal por mais um pouco. 

Os lábios se encostaram e perderam-se um no outro, em um misto de línguas e luxúria. As mãos, passeavam, exploravam o corpo um do outro, com apertos e toques bem orquestrados. Angel deixou-se ser colocada sobre a cama pelos braços fortes de Hyunjin, ficando com as costas sobre o colchão macio. Ela não conseguia pensar com clareza, sobre o que faria para fazê-lo pensar que ela ainda era virgem. No momento, sua cabeça só estava focada em deixar-se levar. O rapaz afastou-se do beijo, com um sorriso matreiro nos lábios.

‘Pensei em algo para nos divertirmos mais.’ ele disse, tirando dos bolsos cinco pedaços de tecido escuro. Ele deixou o sexto por lá… talvez, nem precisasse usá-lo. Angel franziu as sobrancelhas, curiosa. 

‘O que… o que está pensando?’

‘Em prendê-la aqui… na cama. Você gosta? Eu posso?’

Angel assentiu lentamente com a cabeça, mas ainda desconfiada. Como é que um virgem podia ter um fetiche daquele sem nunca ter experimentado? Ela deixou que suas mãos fossem amarradas à cabeceira da cama, com nós fortes. Ela não reclamou. Nem mesmo reclamou quando ele tirou suas sandálias de salto alto, que já estavam apertadas demais depois de alguns copos de bebida, e prendeu seus tornozelos ao pé da cama, com um nó quase impossível de ser desfeito. 

Faltava ainda um lenço e a garota se perguntou onde Hyunjin pretendia usá-lo. Ele estendeu sobre os olhos dela, dando uma risada marota. 

‘Posso?’ 

‘Hyunjin… como…?’ 

Ele a interrompeu, colocando o indicador sobre os lábios cheios. 

‘Eu disse que essa noite é especial… não é?’ 

‘S-sim… Mas…’

‘Shh, shh…’ ele sussurrou, suavemente. ‘Então precisa confiar em mim, meu anjo.'

Aquelas palavras percorreram a medula espinhal de Angel, em forma de arrepio. Ela engoliu a seco, antes de assentir novamente. E assim que ele colocou a venda sobre os seus olhos, sorrindo, ela não conseguia ver mais nada. 

Hyunjin saiu de cima da cama, conferindo o relógio. Faltavam poucos minutos para o ritual. À meia-noite exatamente, ele precisava cravar aquela adaga no coração de Angel. 

‘Hyunjin?’ ela chamou-o, assustada. 

‘Sim…’

‘Você… o que está fazendo?’ 

‘Estou só… me preparando, ok?’ ele mentiu, enquanto colocava a mão no bolso e tirava a lâmina de dentro da túnica. Era uma faca bonita, com um punho trabalhado em aço puro. O metal era gelado na pele, mas ele podia sentir que era fácil se acostumar com o peso e a textura da arma. 

‘Eu… eu estou… com medo.’ Angel suspirou, por conta do silêncio. Hyunjin contornou a cama, ficando atrás da cabeceira de ferro. Ele tomou os cabelos negros de Angel entre os dedos, como fizera com os de Dana, mais cedo. Angel tinha um cheiro doce, como a da irmã mais nova, mas nem de longe era um cheiro infantil. Era sedutor e fazia cada célula nervosa de Hyunjin ficar em polvorosa. Sob o toque suave das mãos dele, Angel relaxou um pouco. Mas, todos os seus sentidos continuavam alertas. Algo parecia errado. Talvez, fosse o silêncio. 

Soltando os dedos do cabelo da garota, Hyunjin tomou uma atitude para preparar-se para aquilo. Ele ajoelhou-se sobre o feno, a capa de veludo estendida sobre as costas. Ele uniu as duas mãos, como se estivesse prestes a orar e começou a sussurrar:

‘Pai. Sou eu, Pai. Hyunjin. Sei que… deve estar ocupado agora, fazendo alguma alma sofrer ou plantando coisas e sentimentos ruins na cabeça dos mortais, mas… queria dizer que estou pronto. Eu estou pronto para me unir à você. Pronto para me tornar o Príncipe do Mal. Quer dizer, nem tanto… Não sei se consigo fazer isso, Pai...’ 

Angel escutou aquelas palavras, sentindo a garganta secar pouco a pouco. Ela não sabia se tratava-se de uma brincadeira ou não. 

‘No sangue desta oferta, Pai, quero encontrar a redenção e a imortalidade. É por isso que agora…’ Hyunjin apertou mais os olhos, tentando achar em si uma coragem que não tinha, para seguir com aquela loucura. ‘Ofereço-lhe essa virgem…’

Os olhos de Angel arregalaram-se abaixo da venda. O instinto a obrigou a gritar: 

‘Eu não sou virgem!’ 

Hyunjin interrompeu a conversa com o pai. Os olhos dele se abriram de repente, surpresos. Umedecendo os lábios com a língua, ele perguntou, sentindo todo o corpo arrepiar-se:

‘O q-que?’

‘Eu. Não. Sou. Virgem.’ Angel repetiu, sentindo os olhos arderem e lacrimejarem. Ela se mexia em vão sobre o colchão, tentando se soltar das amarras fortes. 

‘Não… não pode ser…’ ele sussurrou para si mesmo, olhando novamente no relógio. Hyunjin tinha apenas dois minutos para oferecer uma virgem em sacrifício e finalmente ver o Pai, finalmente estar com ele. Ele levantou-se, voltando à cama e arrancando a venda dos olhos de Angel com as mãos úmidas de suor. 

‘Você não é virgem? Não é mesmo? Está falando a verdade?’

‘Sim! Eu juro… não sou virgem nem de signo…’ Angel disse, choramingando. 

Hyunjin abriu os lábios em descrença. Suas mãos agora tremiam. 

‘Por que… por que mentiu para mim?!’ ele perguntou, explodindo com a garota. 

‘Por que…?! Ainda bem que eu fiz isso, huh?’ disse Angel, agora com raiva, não mais com medo. ‘Você estava planejando me matar esse tempo todo, para oferecer para… para sei lá quem!’

‘Para o meu Pai! Por sua culpa eu nunca vou conhecê-lo, Angel!’ 

‘Quem diabos é o seu Pai, afinal?’ ela gritava, a voz cada vez mais aguda a cada sílaba. 

‘Meu Pai é o Diabo!’

‘O que?!’ não apenas a voz de Angel ressoou, fazendo aquela pergunta. Mas, também uma voz mais grossa, masculina. Hyunjin virou-se para a porta, a tempo de ver Bang Chan com o rosto enfiado na fresta. 

‘Bang Chan, o que está fazendo aqui?’

‘Eu… eu vim ver o que estava acontecendo! Eu vi que vocês dois tinham sumido da festa e vim procurá-los… Mas, cara, isso não importa agora… você ficou louco? Como assim o seu Pai é o Diabo?’ 

Hyunjin deixou o punhal cair no chão e colocou a mão entre os cabelos, respirando fundo. Ele não podia acreditar como tudo naquela noite deu terrivelmente errado. O alarme do seu relógio disparou. Era meia-noite em ponto. 

Angel e Bang Chan, que agora estava dentro do celeiro, olhavam atentamente para ele. Suas costas tremiam e o garoto parecia a ponto de um ataque de nervos. 

‘Hyunjin… fale a verdade, o que está acontecendo?’ o melhor amigo perguntou-lhe, enquanto ajudava Angel a soltar-se da cama. 

‘Eu… eu não estou mentindo… Eu… eu descobri que o meu pai é o Diabo.’

‘Então, você é o Anticristo?’ perguntou Angel, com uma das mãos já livres. Ela perguntou-se se em alguma das bebidas havia uma quantidade absurda de psicotrópicos, porque era a única explicação plausível para o que estava acontecendo naquele momento. Ela quase morrera, porque… fingiu ser virgem? Ela ia ser oferecida, para o Pai de Hyunjin… o Diabo? Nada fazia sentido. 

‘E como foi que descobriu isso, Jinnie?’ perguntou Bang Chan.

‘Dois mensageiros das trevas… Chael e Daher… eles me encontraram naquele dia, depois do Bar, quando eu confrontei minha mãe sobre o meu pai… eles disseram que o meu Pai era o senhor das trevas, o pai da mentira, o cão, o cramunhão, o coisa ruim… era o Diabo… e… eles disseram que eu me parecia muito com ele…’

Angel, agora totalmente solta e arrepiada, olhava para as costas de Hyunjin no lado oposto da cama, totalmente paralisada e atenta à história. 

‘Eles me disseram, que para encontrar meu pai e passar o resto da eternidade com ele no submundo,’ continuou Hyunjin. ‘Eu precisava oferecer uma virgem à ele em sacrifício, no dia do meu vigésimo primeiro aniversário… e é por isso que eu conversei com vocês, naquele dia, se era possível eu achar uma mulher virgem no câmpus e…’

‘Você estava disposto a matar mesmo alguém, só para conhecer o seu pai?’ o amigo perguntou, desesperado. 

‘Chan… Você nunca entenderia… Era a primeira vez que eu realmente sentia que alguém se preocupava comigo. Era a primeira vez que alguém me disse que eu era parecido com o meu Pai e que… e que ele queria saber quem eu era, queria que eu soubesse quem ele era. A primeira vez que ninguém me escondeu a verdade nua e crua… eu estava disposto a isso.’ 

Angel bufou, irritada.

‘Que tipo de pai péssimo é esse, que exige que você mate uma jovem para conhecê-lo, depois de vinte e um anos se escondendo num submundinho quente e confortável? Ora essa, Hyunjin… achei que fosse mais esperto que isso! Ele nem mesmo apareceu para você pessoalmente, mandou os dois cupinchas fazerem sua cabeça!’

Hyunjin finalmente virou-se em direção de Angel, com os olhos inchados de lágrimas.

‘Jinnie… você estava mesmo disposto a arriscar uma vida e… deixar sua mãe e Dana para trás?’ Chan perguntou de novo, com os olhos cheios de lágrimas também. 

‘Eu… estava cego. A vontade de conhecer meu pai foi maior do que qualquer senso de… de qualquer bom senso, na verdade. Angel… não precisa me perdoar. Eu… sou péssimo.’

Angel mordeu o canto do lábio, sentindo os olhos arderem. Ela só não conseguia identificar por conta de qual sentimento. Ela levantou-se da cama, massageando os punhos ardidos por causa das amarras. Ela abriu os lábios para dizer algo, mas decidiu que não queria, pelo menos não naquela hora. Ela deixou o celeiro a passos rápidos, sem dizer nada. 

Assim que viu sozinho com o melhor amigo, Hyunjin deixou se levar pela emoção. Colocando o rosto entre as mãos, ele chorou. Chorou, porque por todo o tempo em que quis, cegamente, conhecer quem era o seu verdadeiro Pai, procurar um lugar para si no mundo, alguém com quem ele se encaixasse, ele esqueceu-se do quanto ele era amado e querido, não apenas pelos Hwang, mas pelos 3 melhores amigos também. Ele jamais acharia uma família melhor do que aquela - e ninguém pedia-lhe nada em troca. 

Bang Chan abraçou o ombro do amigo, que soluçava audivelmente. 

‘Você acha que teria conseguido mesmo?’

Hyunjin balançou a cabeça, negativamente. 

‘Sabe Jin, eu te conheço como a palma da minha mão. Sei bem quando está triste, feliz, irritado, entediado e extasiado. Sei quando está apaixonado. E você gosta dela. Não foi maldade que eu vi no seu olhar hoje à noite, por mais que fosse um brilho que eu nunca vi nos seus olhos antes. Você sabe que provavelmente a perdeu… e com razão, não?’

Hyunjin levantou o rosto do meio das mãos, encarando a pilha de feno à sua frente. 

‘Não sei por que inventei de conhecer um Pai que nunca se interessou por mim antes, quando tenho Iseul e 

para me dar sermões…’ Hyunjin olhou para Chan, rindo, porém agradecido. 

Chan sorriu, apertando o amigo mais novo contra o corpo, como se pudesse protegê-lo melhor. 

‘Toda ação tem consequências, Hwang Hyunjin. Você decepcionou alguém essa noite e provavelmente vai deixar outra decepcionada amanhã…’

‘A festa… Iseul…’ ele entendeu.

Chan assentiu. 

 

Era pouco antes das duas da manhã quando Jisung, Chan e Felix colocaram todas as pessoas para fora da casa de campo. E eram sete da manhã quando esses ainda limpavam a bagunça, para que a mãe e o padrasto de Hyunjin não o deserdassem. Hyunjin não falou sobre os acontecimentos da noite passada com Felix e Jisung, e Bang Chan disse aos dois que explicava o desolado Hyunjin que saiu do celeiro algumas horas antes, em uma outra hora mais apropriada. 

Os dois limpavam a sala de estar, separando todos os tapetes, almofadas e tapeçarias que precisavam ser mandados para a lavanderia, quando ouviram duas batidas firmes na porta. 

‘Han, vá atender… se for os pais do Jin, a gente sai correndo…’ disse Felix, com a cabeça rodando por causa do álcool e do desespero com o caos que estava lidando. Jisung, com sua fantasia de homem de lata, andou até a porta, abrindo-a. Dois homens carecas horripilantes e sorridentes estavam do outro lado do batente. 

‘O Senhor Hwang Hyunjin, está?’

Ele assentiu com a cabeça, virando-se quase correndo para descer ao porão onde Hyunjin limpava com a ajuda de Chan. 

‘Jinnie.. Acho que os tiras estão aí…’

Hyunjin e Chan trocaram olhares. 

‘Como eles são?’ ‘

‘Assustadoramente carecas.’ 

 

Hyunjin subiu as escadas, engolindo à seco e sentindo o coração pulsar forte a cada passo. Chael e Daher esperavam-no à porta e ele tinha medo do que eles tinham a dizer. 

‘Hyunjin…’

‘Que decepção…’

Felix e Jisung olharam para Chan, os olhos arregalados e confusos. 

‘Sua covardia em não oferecer a moça em sacrifício, demonstrou que você não está apto para ser o novo Príncipe das Trevas…’

‘Seu Pai ficou devastado… ele achou que você tinha tanto potencial.’ 

‘Saiba que com seu título revogado, iremos em busca do próximo candidato…’

‘O que?! Eu… eu não sou o único?’

Os dois homens se olharam, caindo na risada. 

‘Tolinho… acha que Lúcifer não pensa em tudo? A prole dele na Terra é capaz de montar um exército…’

Aquilo acertou o coração de Hyunjin em cheio. Ele nada pôde fazer, além de olhar para o chão, como se pudesse enxergar o Pai no submundo. Queria dizer ‘foda-se’ à ele a plenos pulmões, mas talvez não adiantasse, pois talvez ele gostasse disso. 

‘Diga ao meu Pai, que serei a pior decepção dele na Terra. Ele me criou para ser o Príncipe do Mal… mas, estou decidido agora, que eu, Hwang Hyunjin, serei a melhor pessoa que eu puder ser.’

Chael e Daher franziram os narizes em direção à ele e nada mais disseram. Os dois sumiram na mesma fumaça fedida de sempre e algo dizia à Hyunjin que essa foi a última vez que ele os veria. 

Ele virou-se, dando de cara com um Felix e um Jisung pálidos e confusos e um Chan com um sorriso aberto e orgulhoso.

‘Bem, parece que eu tenho que eu devo algumas explicações à vocês.’


 

‘Senhoras e senhores, estamos aqui hoje reunidos para o Prêmio ‘Boas Atitudes’ que todo ano, homenageia um estudante que luta por causas sociais ou apresenta um projeto revolucionário de solidariedade ou igualdade, que planta a semente do bem em um mundo egoísta. Nesse ano, temos o prazer de premiar o estudante Hwang Hyunjin pelo projeto de adoção afetiva de crianças orfãs e carentes!’ 

Hyunjin levantou-se sob aplausos. Os cabelos inconfundíveis moviam-se entre a multidão no auditório, passo a passo. Ele tinha decorado um discurso de manhã para agradecer o prêmio, mas decidiu no último degrau de subida ao palco, que não diria nada do que havia planejado. Assumindo a tribuna e recebendo o prêmio da mão do reitor, ele limpou a garganta e começou:

‘Eu sou um cara de muita sorte… e demorei 21 anos para perceber isso. Sempre achei que o acolhimento em uma família estivesse presente na genética e na personalidade de cada um. Mas, trançando o cabelo da minha irmãzinha Dana hoje de manhã…’ a garotinha lhe abriu um sorriso banguela lá da platéia, segurando uma Barbie loira que ela chamou de Hyunjin. ‘Eu descobri que não preciso ser parecido com ela, para ser acolhido. Dana me acolhe nos seus bracinhos abertos todo dia. Eu… tenho uma mãe… e um pai que eu amo e que sei que me amam demais.’ Iseul limpou o canto dos olhos com a ponta dos dedos, sorrindo de orelha à orelha para o enteado. ‘E mesmo assim, o amor deles nunca me pareceu suficiente, pois eu sempre achei falta de um amor que eu nunca tive… vê se pode…’ ela balançou a cabeça. ‘Então, em um dia, decidi chamar meus melhores amigos para conhecer um orfanato, onde dezenas de crianças realmente não conheciam o amor, principalmente o de pai e mãe. E jogando bola, lendo para eles ou… simplesmente abraçando-os bem forte, eu sabia que estava dando à eles, algo que eles nunca tiveram. Foi daí, que nasceu o meu projeto. Hoje, eu gerencio mais de duzentos alunos para demonstrar esse mesmo amor para centenas de crianças que ainda não sabem o que é amor. Espero algum dia, poder dobrar, triplicar, quadruplicar o número de voluntários e o número de crianças atendidas. Eu, que sempre quis saber qual era o meu lugar no mundo de verdade… descobri que é no sorriso agradecido de uma criança. E acreditem, não há lugar melhor.’ 

Hyunjin terminou o discurso com um agradecimento, recebendo uma nova salva de palmas. Entre os rostos orgulhosos na platéia, ele conseguiu enxergar os de Angel. Ela sorriu e piscou para ele, fazendo seu coração bater rápido demais. 

Finalmente, ele sabia que estava completo. 

 


Notas Finais


E aí, o que acharam da história? Ela foi uma montanha russa do início ao fim, não foi? Essa história tem um pouco de mim (eu não sou o Anticristo, deixando claro), e por isso acho que ela foi uma boa volta à escrita. Já estou preparando mais algumas para os próximos meses! Espero ter vocês comigo em mais uma, ok?
Se cuidem, cuidem das suas famílias, lavem as mãos, tomem água, leiam uma boa fanfic. Obrigada por tudo!
Até a próxima!


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