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História Dez - Omegaverse ABO - Capítulo 46


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Notas do Autor


Este capítulo segue o ponto de vista de Minna e Cieszyn.

Capítulo 46 - Fora do padrão


Fanfic / Fanfiction Dez - Omegaverse ABO - Capítulo 46 - Fora do padrão

Uma loucura. Minna se lembrava de ter pensado que o que eles tinham feito foi uma loucura total.

Fugir do orfanato no meio da noite, sem ter lugar algum para ir... Ela sabia que era perigoso. Tinha ouvido as histórias. Na rua, havia mais gente má do que boa. Pessoas que poderiam se aproveitar dos seus corpos frágeis e da falta de experiência. Bandidos de todos os tipos. Mas era justamente por ouvir as histórias que ela e Kori haviam fugido.

No dia seguinte, ambos completariam 16 anos. E ambos seriam transferidos para o Centro de Recolhimento. E as histórias de lá sempre soavam mais assustadoras do que as da rua.

Minna e Kori já tinham saído do orfanato antes, mas todas as vezes estavam acompanhados por algum responsável. Agora era diferente. Agora estariam por sua própria conta e risco. Isso a tinha deixado apavorada. Quando isso acontecia, ela se lembrava do que Kori tinha dito para convencê-la:

Talvez alguma coisa ruim aconteça com a gente na rua. Mas no Centro de Detenção é certo que vai acontecer. O que você prefere? O talvez ou a certeza?

Sim. Todos os ômegas sem família sabiam muito bem que o diretor – agora, ex-diretor – do Centro de Recolhimento já escolhia quem iria sumir misteriosamente do seu quarto no meio da noite desde muito antes. Corria o rumor de que o médico do Centro – hoje demitido –, que também cuidava dos ômegas do orfanato, era quem mandava as fichas dos candidatos para o diretor. E, na última visita do médico, Minna nunca mais esqueceria o olhar dele enquanto anotava alguma coisa na ficha dela e murmurava: “Sim, sim, perfeita”.

Algo dentro dela sabia que ela já tinha um destino certo assim que chegasse ao Centro.

Talvez Kori tivesse sentido a mesma coisa. E ela bem que queria ser mais corajosa, tanto quanto ele. Kori não pensou duas vezes antes de decidir fugir. Por que ela sempre era assim? Preocupada com todos os “e se”. Faltava-lhe tanto otimismo...

Mas, pudera. Minna nunca conheceu seus pais, abandonada desde que era um bebê de colo. Desde que souberam que ela era uma ômega. As outras crianças também podiam ser bem cruéis, fazendo piadas maldosas com o seu cabelo, que a maioria das cuidadoras do orfanato não tinha paciência de cuidar do jeito certo. Minna teve que aprender a fazer tudo sozinha ao longo dos anos. E depois, quando todos já tinham passado pelos seus primeiros cios e ela não, começaram a afirmar que, até na única utilidade que ela tinha – ser mãe – ela havia falhado.

Isso só alimentou a ideia de que ela iria parar em algum bordel. O único lugar onde uma ômega infértil valeria alguma coisa. E mesmo assim, ela ainda hesitou quando Kori a convidou para fugir com ele.

Suas esperanças de conseguirem, de fato, sobreviver nas ruas tinham aumentado quando eles conseguiram sair do orfanato sem chamar atenção. E quando conseguiram roubar um pouco de comida na manhã seguinte, procurando becos onde ninguém passava para descansarem, enrolados nas capas que pegaram no orfanato. Mas, quando quase foram pegos no outro dia tentando roubar mais comida e tiveram que passar a tarde inteira debaixo da chuva, protegidos apenas pela capa encharcada, com a estação mais fria de Sozan apenas começando, essas esperanças foram se extinguindo lentamente, assim como os pingos de chuva que se dissipavam ao bater no duro chão da realidade.

E foi assim que, quase seis anos atrás, Laulliet os achou e os levou para o prédio abandonado que ele encontrou sozinho. Um ômega de sangue nobre, que cuidou deles como se fossem seus irmãos caçulas. Tão bonito por dentro quanto era por fora. Depois vieram Oscar e Haze. No ano seguinte, Flayra. E então, finalmente, o primeiro cio de Minna chegou. E voltou no mês seguinte. E três meses depois. E a dor simplesmente não ia embora.

O grupo de Laulliet cresceu, à medida que Minna ficava cada vez mais de cama, incapaz de realizar tarefas simples, mesmo tomando tantos remédios que perdia a conta. Mas depois Keyon chegou, o primeiro atípico que Minna tinha visto na vida. Mas não era só sua aparência que era fora do comum. Keyon trouxe com ele o fim das dores de Minna. E o interesse dela em saber mais sobre manter o corpo saudável.

E agora, com Kori fora do grupo há quase cinco meses, os múltiplos cios de Minna totalmente controlados e todos morando escondido no Reduto de Ardósia, tanta coisa tinha mudado...

Era o que ela pensava. Aparentemente, ainda havia ômegas que gostavam de diminuir outros da sua própria subespécie. E ela se deparou com eles no primeiro dia em que ajudou Ayva com as consultas.

Perto de Ayva, os ômegas que ela acabara de conhecer eram educados e simpáticos, mas quando ficaram sozinhos com Minna... Eles tinham aquele olhar de pena que Minna recebera por todo o tempo em que viveu no orfanato.

– Você é daquele grupo de ômegas carentes que o Sr. Ahrkannar trouxe, não é? – Vinie perguntou – Quanta sorte, hã?

Pena. Arrogância.

– Deve ser difícil viver nas ruas. – Dianna disse – E emocionante. Acordar todos os dias onde qualquer coisa pode acontecer... Você já fugiu da polícia?

Viver nas ruas deveria mesmo ser algo exótico para eles. Eles não faziam a menor ideia do que significava “acordar todos os dias onde qualquer coisa pudesse acontecer”. Inclusive perder a própria vida. “Emocionante” não era a palavra certa. Era apavorante.

– Não. – Minna respondeu, cabisbaixa.

Dianna ergueu suas sobrancelhas perfeitas.

– Hum? – ela disse – Poucas palavras. Entendi. Sem detalhes comprometedores.

– Como exatamente você virou assistente de Ayva? – Vinie falou, logo em seguida – Vocês já se conheciam? Ah, não me diga que você era do Centro de Recolhimento?

– Não, nunca estive lá. – Minna disse – Eu... conheci Ayva depois que cheguei ao reduto. E hoje, ela me perguntou se eu podia ajuda-la, então eu-

– Oh... – Dianna a interrompeu, e sorriu com desdém – É isso mesmo que eu estou pensando? Você gosta dela?

Minna só percebeu depois que tinha começado a sorrir quando falou de Ayva. Chiren estava certa. Ela não conseguia esconder aquilo. Mas, ao contrário de Chiren, o que ela ganhou daqueles ômegas foi um balde de água fria.

– É melhor você desistir. – Vinie falou – Ayva nunca deu atenção a nenhum de nós. Talvez até as preferências dela sejam outras.

– E mesmo que não seja esse o caso... Por que ela olharia para você? – Dianna falou, olhando para Minna dos pés à cabeça – Você sabe que ela é da alta classe, não sabe? Os gostos dela devem ser bem mais... requintados.

Minna ficou calada depois disso, sentindo o coração acelerar. Ela queria correr dali. Nunca antes tinha se sentido tão humilhada. E isso porque ela tinha passado por coisas parecidas antes. Muitas e muitas vezes.

Quando Jaden saiu da sala de consulta e pediu que Minna entrasse, pois Ayva a estava chamando, ela se virou rapidamente e andou na direção da sala, não antes de notar o sorriso vitorioso de Dianna. Minna sabia o que ela estava tentando fazer. Ela já tinha bastante experiência com aquele tipo de pessoa. Dianna queria desestabilizá-la. Fazer com que ela duvidasse de si mesma. Mas, mesmo assim... Mesmo sabendo disso... Dianna tinha conseguido o que queria.

A vida não era um conto de fadas. Na vida real, não havia príncipes ou princesas que se apaixonavam pelos protagonistas pobres e sofredores e decidiam levá-los em seus cavalos brancos para seus castelos, para um final feliz para sempre rodeados de riquezas, amor e respeito mútuo. Na vida real, dificilmente as coisas saíam do padrão.

É claro que Minna tinha numerosas desvantagens, se comparada a sua vida com a daqueles ômegas. Ela não tinha um sobrenome, não tinha dinheiro, nem nenhuma habilidade pessoal ou social. Suas roupas eram baratas, ela não usava maquiagem ou joias e não sabia fazer penteados tão elegantes. A pergunta de Dianna era válida. Por que Ayva olharia para ela?

Só que Minna também não era mais aquela garota que vivia de cama. Ela não era mais a menina que precisava do incentivo de outra pessoa para fugir de uma realidade ruim. Minna queria ser uma lutadora, seguir seu próprio caminho baseado nas próprias escolhas, assim como Laulliet, Keyon, Chiren, e outros dos seus amigos do grupo. Por isso tinha pedido a Chiren para lhe ensinar a ser mais apresentável em público para estar ao lado de Ayva em ocasiões que exigissem isso. Por que ela não estava muito afim de desistir daquela alfa.

Minna estava até procurando por livros de leitura mais complicada, para aumentar seu vocabulário. Enquanto ela saía da biblioteca com um novo livro, viu Klaus se despedindo de outro homem, que parecia outro alfa. Os dois tomaram caminhos diferentes. Klaus, é claro, estava indo para a ala sul. Que bom, ela pensou. Talvez ele pudesse melhorar o humor de Laulliet. Ele sempre ficava deprimido depois de suas noites difíceis. Depois de ter acordado gritando na madrugada passada.

Klaus parecia ser um homem bom. E estava claro para Minna que ele gostava muito de Laulliet. E ela queria ver Laulliet feliz.

Minna atravessou o jardim da biblioteca para a área onde ficavam a sala de Ayva e o laboratório de Keyon. Ao passar pela porta do laboratório, Minna viu que Keyon não estava sozinho. A outra pessoa era um dos ômegas do palácio, que ela conheceu no segundo dia em que acompanhou Ayva em suas consultas. Um jovem de cabelos castanhos claros e olhos azuis e, como quase todos os que viviam no palácio, dono de uma personalidade forte. E foi ele quem viu Minna primeiro, dizendo, enquanto sorria:

– Olá, Minna.

Keyon, que estava mexendo alguma coisa numa cuba rasa de vidro sobre uma das bancadas, ergueu a vista para vê-la também.

– ...Oi. – Minna disse, entrando, devagar no laboratório – Keyon e... hã...

– Driah. – o outro ômega falou – Você não se lembra de mim?

Minna se lembrava dele. Mas não a ponto de lembrar seu nome ou sobre o que já tinham conversado. Mas, ela ao menos se lembrava que ele não a tinha tratado mal, embora fosse um pouco exibido quanto a sua própria beleza.

– Lembro, sim. – Minna disse – Eu só... não tinha decorado seu nome. Desculpe.

– Tudo bem. – Driah disse – Eu só espero que você também não lembre o nome dos outros, se não vou me sentir bem excluído.

– Não se preocupe, eu garanto a você que não lembro o nome de todos.

Driah ergueu uma das sobrancelhas e sorriu, satisfeito.

– Menos mal.

Minna então viu as mãos de Driah. Em algumas partes, a pele estava avermelhada e se soltando. Queimadura? Não, não pareciam queimaduras.

– Está tudo bem com você? – Minna perguntou.

Driah notou que ela tinha visto suas mãos e respondeu:

– Ah, sim. Keyon fez... – ele se virou para Keyon – O que foi que você fez mesmo? Uns testes para alergia comigo.

– Isso mesmo. – Keyon disse.

– Eu ganhei um excelente creme para mãos da minha tia, mas minha pele começou a ficar, bem, esta tragédia. A Dra. Ward me disse para procurar Keyon, e aqui estou. Descobrimos que eu sou alérgico a algum componente daquele creme.

– Eu estou terminando uma pasta terapêutica para sarar a pele das mãos dele. – Keyon disse.

– Puxa. Que perigoso. – Minna falou.

– Não é? Ainda bem que não era creme facial. – Driah falou, e suspirou – Bem, minha tia nunca gostou muito de mim, não duvido que ela já não soubesse que eu era alérgico e tenha feito isso de propósito. Acredite, Minna, às vezes é melhor não termos certos parentes.

O sorriso simpático de Minna foi murchando aos poucos depois de ouvir isso. Mesmo que ela não se importasse tanto em ter sido abandonada pelos seus pais, o assunto sempre a fazia ficar pensativa... Como teria sido sua vida se ela não tivesse sido deixada no orfanato? Se ela tivesse tido uma família desde sempre? Uma casa? Onde ela poderia estar naquele momento?

– Oh... – Driah falou, ficando mais sério – Eu disse uma coisa indelicada, não foi? Sinto muito.

– Tudo bem. – Minna falou, sacudindo as mãos – Eu até concordo com seu ponto de vista.

– Eu também. – Keyon falou.

Sim. Keyon era a prova viva de que ter pais e irmãos e pertencer a uma família rica não eram sinônimos de felicidade. E, aparentemente, Driah também. Minna não teve uma vida fácil. Algumas coisas ruins tiveram que acontecer para ela ser quem era. E, naquele momento, olhando para trás, tudo tinha valido a pena.

– Minna, – Keyon chamou – atrás de você, no gaveteiro, tem alguns potes pequenos com tampa. Poderia pegar um deles para mim?

Minna se virou e foi até o gaveteiro.

Essa era a sua realidade. Ela tinha uma família agora. Tinha uma casa. Tinha amigos. E tinha muitas oportunidades disponíveis para crescer.

Ela podia ser quem ela quisesse. E podia amar quem quisesse também. Quem seu coração tinha escolhido.

Mas só de pensar em colocar aquilo em palavras... e para a pessoa em questão...

Quanto nervosismo.

 

*

 

Aquela era a primeira e última vez que Cieszyn acompanharia seu pai numa visita de negócios no palácio real de Hynon, ela decidiu. Ela teria evitado ir, se pudesse. Teria ficado em casa, treinando os novos golpes que aprendeu com seu professor da Irmandade dos Justos. Mas seu pai detestava viajar sozinho, principalmente para o exterior, e sua mãe tinha resolvido ir para a casa dos pais durante a viagem do marido. Então Cieszyn teve que escolher: ir para Hynon com o pai e ver como era a residência de um rei, ou ir para a casa dos avós maternos, que definitivamente não a deixariam fazer muita coisa além de ler um livro ou pintar um quadro – o qualquer outra atividade restritamente silenciosa. Além disso, seus avós maternos não gostavam da ideia de Cieszyn estar aprendendo a lutar. Mesmo que entrar para a Irmandade fosse considerado em Nilaver uma grande honra, eles não queriam que sua neta mais velha estivesse sempre rodeada de perigo.

A escolha de Cieszyn foi meio óbvia. Mesmo que Hynon fosse um inimigo histórico de Nilaver, eles já estavam em paz há anos. Além disso, conhecer um palácio real, para uma criança de onze anos, parecia ser uma aventura.

Quando chegou lá, seu pai a deixou livre para fazer o que quisesse. Mas, como havia outras crianças da mesma idade que ela, elas ficavam-na rodeando, curiosas quanto o seu albinismo, e insistiam em chama-la para brincar. Cieszyn não gostava mais de brincar. Já tinha um tempo que ela se considerava bastante madura. Então, empenhou-se em procurar um lugar em que pudesse ficar sozinha sem ser importunada pelas outras crianças. Quem sabe, até pudesse treinar seus movimentos de luta.

Empenhando-se em se ficar fora de vista, ela fez uma longa caminhada pelo exterior do palácio, encontrando, por acaso, restos de uma grande construção antiga. Cieszyn sabia que aquelas eram as ruínas do velho palácio real, da época em que Hynon e Nilaver estavam em guerra. O palácio estava parcialmente demolido, mas, segundo o que Cieszyn aprendeu, as ruínas foram mantidas para que representasse a devastação da guerra e todo rei ou rainha de Hynon se lembrasse daquilo ao vê-las. Afinal, mesmo que Nilaver tivesse perdido muito mais do que Hynon durante os conflitos, em toda guerra os dois lados perdiam. Nunca havia vencedores de verdade.

Cieszyn entrou nas ruínas, mais curiosa do que gostaria de admitir. Algumas paredes que ainda estavam de pé estavam cobertas por plantas trepadeiras e musgos. O piso decorado mostrava a riqueza que aquele lugar já tinha ostentando outrora hoje cobertos por folhas caídas, já que o teto tinha sido derrubado.

Ela andou por alguns cômodos parcialmente destruídos e parou num deles, achando uma parede com alguns desenhos de traços infantis. Foi quando ela ouviu passos se aproximarem. E então, aparecendo na porta, estava o menino mais irritante que Cieszyn já tinha conhecido: o príncipe Arthos Deccard.

Ele era mais baixinho que ela, cerca de um palmo, apesar de também ter onze anos. Mas as meninas sempre cresciam mais rápido que os meninos na infância. Tanto em tamanho, quanto em mentalidade. Claro que o fato de ela ser uma alfa Boreain também contava.

– Ah, é você. – ele disse – Por que está sozinha? Estranha como sempre.

Cieszyn suspirou, continuando em silêncio.

– Você não quer ficar com os outros, não é? – Arthos disse – Bem a sua cara.

– Eu ainda torcia para vir aqui e ir embora sem ter que vê-lo. – ela falou.

– Puxa, algumas pessoas não valorizam a sorte que têm. – Arthos falou, entrando no quarto – O seu dia acabou de ficar melhor graças a minha presença.

Cieszyn revirou os olhos. Arthos não se incomodava com a falta de fala dela, pois disse, logo em seguida:

– Ei, Cys. Eu fiquei sabendo que você está aprendendo a lutar. O que foi, está tão entediante assim em Nilaver?

Lá estava. Ele sempre começava primeiro. E ainda insistia em chama-la daquele jeito.

– Não tanto quanto aqui. – Cieszyn falou – Desde que pisei em Hynon, sinto que eu já envelheci uns dez anos. Como você consegue viver num país com um ar tão venenoso?

– Eu já sabia que devia ser difícil para você sentir o cheiro da nossa superioridade, mas não tanto assim.

Cieszyn estreitou os olhos e cerrou os punhos. Talvez ela tivesse mesmo achado alguém para ajuda-la no seu treinamento. Como saco de pancadas. Um saco de pancadas da realeza.

– Como você me achou? – ela perguntou.

– Eu não estava procurando você. Aqui é o meu refúgio.

– Seu refúgio?

– É fácil de despistar os professores aqui. Esse lugar é bem grande. Você também pode ficar, se estiver se escondendo de alguém. Eu deixo, por que sou uma pessoa muito legal. – Arthos sorriu, vangloriando-se. – Você nem precisa ficar falando comigo, prometo que te deixo em paz. Aliás, é até melhor mais um par de olhos para vigiar. Se você vir uma mulher magra bem alta usando óculos, muito irritada, se aproximando, me avise. É a minha professora de idiomas.

– Por que você está se escondendo da sua professora?

– Por que é divertido. – Arthos disse, sorrindo.

Naquela época, Cieszyn achou que Arthos era mais um daqueles meninos ricos tão mimados que não se importavam com os outros. Ela só soube anos depois que antes de encontra-la nas ruínas, Arthos estivera tendo aula de idiomas por quatro horas seguidas, depois uma manhã inteira de estudos sobre a legislação nacional.

Ele estava mesmo fugindo, porque, como toda criança, queria um tempo para se entreter. Não era nenhuma surpresa ele acabar associando a quebra das regras a algo divertido. Porque seguir as regras significava viver dentro de uma doma recebendo todo tipo de cobrança. Mas isso Arthos não falava. Ele preferia ser visto como delinquente do que como algum tipo de vítima.

E ele ainda continuava o mesmo. Carregando mais fardos do que qualquer outro, escondendo o cansaço com um comportamento brincalhão. E, sempre que chegava perto do limite, ele procurava um “refúgio”.

Quando Cieszyn abriu a porta do seu quarto, assim que olhou para Atrhos, ela entendeu que era esse o caso. Só que tinha sido pior. Ele estava ainda mais sério do que quando contou a ela que tinha recebido ordens para matá-la.

– Oi, Cys. – ele disse.

Sem dizer uma só palavra, Cieszyn deu espaço para ele passar, fechando a porta logo em seguida.

Sério? Não. Ele estava exausto. Não devia ter dormido bem, pelas olheiras que carregava, isso se tivesse dormido. Seus ombros estavam caídos também, longe da postura digna do seu título real. Também era possível notar que a tentativa de arrumar o cabelo para sair não tinha dado muito certo.

– Conte-me. – Cieszyn falou.

Arthos a encarou e falou:

– Eu estou dentro. Oficialmente.

Oh. Isso explicava muita coisa. Aquilo tinha sido uma surpresa e tanto.

– Você... – Cieszyn começou, mas não terminou sua pergunta. No entanto, Arthos a respondeu:

– Não. Eu não matei ninguém. – ele andou até um sofá que estava no canto do quarto para se sentar – Pelo menos... não diretamente. Mas meu avô... Ele fez alguma coisa e disse ao Grande Líder que fui eu. E Gaussius ficou tão satisfeito que não exigiu que eu... Você sabe.

Cieszyn ocupou uma cadeira próxima ao sofá. Arthos pegou uma das almofadas do sofá onde estava e a colocou sobre o colo, ocupando suas mãos. Ele estava inquieto.

– Aconteceram tantas coisas... – ele disse – Fomos para uma caverna. Outros três seguidores entraram comigo. Gaussius tem um guarda-costas do tamanho de Fahamber. Eu até conheci a Adélia do seu país. E... o mestre deles deu as caras por lá.

Cieszyn ficou espantada com o que ouviu, erguendo as sobrancelhas.

– O Corruptor em pessoa?

Arthos balançou a cabeça, confirmando.

– Ele falou alguma coisa? – ela perguntou, rapidamente – Você viu o rosto dele? Ele se aproximou de você?

– Não. – Arthos respondeu, repentinamente preocupado com o espanto de Cieszyn – Nada disso. Só havia uma fumaça estranha ao redor dele, era a única coisa que se movia. Por quê?

Muito mais calma depois da resposta de Arthos, ela se pôs a pensar. A “fumaça” era conhecida pelos Irmãos. Não passava de uma extensão espectral do Corruptor, uma forma fraca do seu corpo. Era só poeira comparada ao verdadeiro mestre dos Eternos.

– Ah, isso não tem problema. – ela disse.

– Você que diz, – Arthos falou – quando aquilo encostou em mim, pareceu uma facada.

Cieszyn não duvidava disso. A sensação de ar pesado numa sala de rituais – como a que ela e Arthos acharam no bordel – era um rastro deixado pela visita espectral do mestre, meras sobras de poder, que demorava meses para desaparecer. Ser tocado diretamente por aquilo deveria mesmo parecer como um golpe de faca.

– Seria mil vezes pior se você o tivesse visto ou ouvido a voz dele. – Cieszyn disse – Teria passado dias agonizando antes de voltar ao normal.

Sem esconder seu assombro, Arthos perguntou:

– E por que ele faria isso então? Inviabilizar seus subordinados dessa maneira...

– Por que ele conseguiria ver o que você vê. E, se quisesse, controla-lo feito uma marionete. Mas ele não faz isso com todos, porque quem passa por isso tem uma vida curta. – Cieszyn se levantou e caminhou vagarosamente. Isso a ajudava a pensar. – Eu achei que com o seu sobrenome, ele poderia se interessar... Mas parece que foi o contrário. Ele não deve querer ter a intenção de se livrar de você tão cedo.

Arthos apertou a almofada em suas mãos.

– Você poderia ter me dito isso antes? – ele disse.

– Eu não sabia que o Corruptor participava de rituais de iniciação. – ela virou para Arthos – Foi uma surpresa para mim também. Eu teria dito para você se afastar se eu soubesse.

– Não sei se me sinto melhor ou pior em saber que eu poderia ter virado um fantoche.

Cieszyn andou mais alguns passos pelo quarto até pensar num ponto que ela ainda não tinha compreendido:

– Mas, como o Grande Líder conseguiu os sacrifícios tão rápido?

Arthos demorou um pouco para responder.

– Lembra-se que eu falei sobre o golpe interno que estava sendo maquinado para tirar Gaussius da posição dele?

– Para colocarem você? Sim.

– Meu avô os entregou para Gaussius. Lewys... estava entre os sacrifícios.

Quando ele disse isso, Cieszyn percebeu que a menção ao nome de Lewys tinha despertado alguma lembrança ruim em Arthos. Ele abaixou a cabeça, encarando a almofada.

– Droga... – Cieszyn deu as costas para Arthos novamente, reiniciando sua caminhada – Seu avô é esperto. Nenhuma prisão pode mesmo pará-lo, hã?

– Ele me surpreende a cada movimento. – Arthos comentou, com pouco entusiasmo.

Parando próxima a uma das janelas do quarto, Cieszyn olhou para Arthos mais uma vez. Ele ainda estava de cabeça baixa, com a mente muito longe dali. O quão perturbadora tinha sido aquela iniciação para afetá-lo daquela maneira?

– Você está bem?

Foi uma pergunta retórica. Ela sabia a resposta, independente do que ele respondesse.

– ...Não. – Arthos disse, e levantou a cabeça para olhar para ela – Nenhum pouco.

Não havia um sorriso costumeiro naquele rosto, nem algum brilho de confiança própria naqueles olhos azuis. Nada estava como sempre esteve.

Cieszyn manteve seu semblante sério. Para Arthos admitir tal coisa, sem inventar nenhuma piada, ele estava mesmo longe de estar bem. Era diferente lidar com ele daquele jeito. Ela não sabia o que fazer. Estava acostumada a ver Arthos fazendo pouco dos seus problemas – era a forma como ele demonstrava sua força. Ela nunca tinha visto Arthos tão fraco antes...

E não achava que seria tão difícil ver tal coisa.

Tão difícil que fez Cieszyn se arrepender de ter dito para Arthos, ao longo dos anos, coisas como “ficarei feliz em assistir você cair”. Mas que grande mentira. Se fosse mesmo assim, ela não estaria sentindo alguma coisa pesando dentro do seu peito agora.

Olhando pela janela, ela continuou em silêncio, pensando em como poderia melhorar seu tato. Até que ela o ouviu:

– Me desculpe. – Arthos disse, passando as mãos no rosto como se estivesse afastando o sono – Eu sei que você não gosta de ouvir os problemas dos outros...

É, ele a conhecia muito bem. Desde que eram duas crianças se escondendo dos seus próprios problemas num palácio em ruínas. Sim, ela se lembrava. Sem brigas no refúgio. Era o único lugar em que podiam ter um pouco de paz.

– Tudo bem. – Cieszyn falou, oferecendo a Arthos o que um dia ele fez por ela – Você pode ficar. Eu deixo, por que sou uma pessoa muito legal.

Quando ouviu aquilo, Arthos sorriu. Com certeza ele se lembrou de suas próprias palavras, ditas por Cieszyn. Ao menos seu humor melhorou um pouco. O peso dentro de Cieszyn também diminuiu. E, por muito pouco, ela quase sorriu também.

Ao invés disso, ela mudou o assunto:

– Você irá para Hynon ainda antes da temporada começar, não é?

– Sim... – Arthos respondeu, e suspirou, parecendo estar com mais sono agora – Toda a reviravolta no palácio não alterou minha agenda. Eu ainda tenho que visitar minha pretendente... Ah, futura noiva, quero dizer.

Não era para menos ele parecer ter sono quando falou sobre isso, Cieszyn pensou. Aquele assunto também não a agradava. Mais do que isso, a incomodava. Talvez ela devesse ter escolhido outro assunto para falar.

– E você quer ir? – ela disse, depois de uma pausa em silêncio.

– Não. – Arthos disse, num tom de voz que enfatizava o “não”.

– Então não vá. – Cieszyn disse, sem pensar duas vezes.

Ela só pensou duas vezes depois que disse. Por que, por mais que não tivesse soado como um, sua fala parecia mais um pedido. Ligeiramente surpresa consigo mesma, Cieszyn também ficou irritada com suas próprias palavras.

– Ora, – Arthos disse – quem foi que me disse que eu deveria me fazer perguntas sobre o que é o melhor a ser feito?

– Você que está ignorando a pergunta principal. – Cieszyn falou – Você está fazendo algo que o seu pai nunca faria, você é muito diferente do rei. Seus pais são amigos por que sempre se dedicaram juntos a seguir as regras. Você não segue as regras muito bem. Não é compatível com uma ômega que foi criada para ser metódica e absolutamente previsível. Esse casamento não vai fazer bem pra você nem para ela.

Arthos parecia um pouco chocado com o que ela disse.

– Nossa, muito obrigado pela péssima perspectiva de futuro que você me deu.

Cieszyn olhou para a janela e cruzou os braços. Ela realmente achava que tudo o que falou era a verdade. Ela não conseguia imaginar Arthos seguindo restritivamente todas as regras da realeza e casado com alguém igualmente certinha e perfeitinha. Não fazia o estilo dele.

– Você pode governar muito bem como está. – ela disse – E depois se preocupar em encontrar alguém que combine mais com você. Ou seja, alguém que esteja fora da lista dos seus conselheiros.

Os conselheiros de Hynon com certeza não eram capazes de achar uma noiva ou um noivo ideal para Arthos. Eles só escolheriam os candidatos mais tediosos.

Como a rixa de Arthos com os conselheiros do rei também era tão antiga quanto a que ele tinha com Cieszyn, Arthos sorriu de novo, finalmente trazendo de volta uma de suas características mais ímpares: a provocação.

– Alguém não previsível? – ele falou – Como você?

Arthos estava brincando. Ela sabia. E deveria mesmo. Algo entre eles era até difícil de imaginar.

Cieszyn olhou para Arthos por cima do ombro, estreitando os olhos, com as sobrancelhas franzidas. E Arthos estava olhando para ela, apoiando a cabeça com o braço, com o cotovelo sobre a almofada no seu colo, esperando a sua retórica.

Difícil de imaginar, hã?

Lidar todos os dias com alguém brincando com os limites da paciência dela, sem medo do seu olhar de advertência, à vontade o suficiente para inventar apelidos... Bem, ela não precisava imaginar. Aquilo já acontecia. O que não acontecia e ficava para ser imaginado era a parte mais... física.

Antes de aquele pensamento lhe ocorrer, Cieszyn nunca tinha visto Arthos como minimamente acessível nesse quesito. Mas agora, desconsiderando o estado em que ele se encontrava, ele só não parecia acessível como também era... interessante.

Era Atraente.

 

Era como se ela o tivesse visto pela primeira vez somente agora.

 

E ela queria ver... todo o resto. Quem sabe... só uma vez.

Essa estranha necessidade a fez andar devagar na direção dele, relembrando em suas mãos a sensação de já tê-lo tocado. Tantas vezes. Olhando para ele agora, Arthos não parecia mais tão brincalhão. Ele parecia desentendido. Talvez surpreso. Ela queria saber o que ele estava pensando. Ela queria ver qual seria sua reação... E isso só ficava cada vez mais forte.

Cieszyn já conhecia muitas das expressões dele. De diversão, de seriedade, de medo, de provocação. E como seria então... a sua expressão de prazer?

– Cys...? – ela o ouviu chamar. Parecia uma voz distante, no entanto. Muito mais distante do que faltava para alcança-lo. Tanto que se ele falou mais alguma coisa, ela não ouviu.

Então, dois toques na porta do quarto quebraram a atenção de Cieszyn. Ela parou ao lado da cadeira onde estava sentada antes, sendo encarada por Arthos, aqueles olhos ligeiramente confusos. Logo depois ela ouviu a voz de Zehel do lado de fora:

– Cieszyn? Está aí?

– Sim. – ela respondeu, olhando agora para a porta, sem se mexer.

– Preciso falar com você. – Zehel disse – É sobre a fábrica. Estarei no meu escritório.

Ah, era um assunto importante. Cieszyn não podia adiar. Ela se agarrou naquele fio de razão antes que ele sumisse.

– Está... tudo bem? – Arthos perguntou, e ela olhou para ele de novo.

– Eu irei logo em seguida. – disse, em voz alta, para Zehel, ouvindo logo depois os passos dele se afastarem pelo corredor.

Ela deu as costas para Arthos e foi para a porta, sem responder a pergunta dele.

Enquanto andava, falou:

– Eu falei sério quanto a você poder ficar. Você veio cambaleando até aqui. Durma um pouco. – ela abriu a porta e olhou para Arthos – Eu vou avisar a Zehel que você ficará para o almoço.

Cieszyn não esperou que Arthos dissesse alguma coisa. Saiu do quarto e fechou a porta.

Soltando a maçaneta vagarosamente, Cieszyn pensou no que tinha acabado de passar pela sua mente. Seu coração ainda batia muito rápido. Talvez fosse só a Boreain dentro dela falando mais alto. Aquele repentino desejo quase primitivo.

Que quase a tinha feito perder o controle.

Cieszyn sabia que tinha acabado de sair de um hiato de consciência quando Zehel bateu à porta. Tinha sido por pouco. Por muito pouco.

– Mas que diabos eu... – ela sussurrou.

Sacudindo a cabeça, Cieszyn começou a se afastar do quarto, tentando não pensar sobre isso. Mas foi em vão.

Não era como se fosse incomum ela ter esses hiatos, principalmente no meio de uma luta mais complicada. Mas todo episódio tinha um gatilho. Ela não perdia o controle enquanto lutava se realmente não sentisse que sua vida estava em perigo. Da mesma forma, seu desejo por outra pessoa não era aleatório nem sem motivo.

Um hiato era um reflexo do que ela sentia inconscientemente. E sobre isso, não havia muito o que se pudesse fazer. Mesmo que ela negasse com todas as forças, a verdade era algo diferente.

Ela tinha descoberto que, aparentemente, sua vontade inconsciente em relação a Arthos não tinha a ver com uma luta.

E sim, com a outra opção.


Notas Finais


Arthos foi salvo pelo gongo, kk
"Os brutos também amam", já dizia aquela frase... Os tímidos também. (Sejam legais com pessoas tímidas, galerinha ^^)


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