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História Dez - Omegaverse ABO - Capítulo 60


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Notas do Autor


Primeiramente, #forabozo #vemvacina
Agora, peço desculpas pelo atraso gigaaaaante em atualizar minhas histórias. Tudo o que eu menos tinha era tempo para escrever, e eu prezo demaais, pela qualidade dos capítulos, incluindo revisões de português. Finalmente, consegui me dedicar aos meus bebês e aqui vai um cap fresquinho. Boa leitura!
ALERTA DE TENSÃO. Este capítulo possuí elevados níveis de coração na mão, nervos à flor da pele e surpresas. Consuma com um copo geladinho de suco de maracujá.

Este capítulo segue o ponto de vista de Arthos.

Capítulo 60 - O Espectador


Fanfic / Fanfiction Dez - Omegaverse ABO - Capítulo 60 - O Espectador

– Tem um Arphensis no Reduto de Ardósia... e você não sabia disso?

A voz fria a calma de Aidan Gaussius naquele momento assemelhava-se mais com uma lâmina de espada – um perigo silencioso e brutal ao mesmo tempo. Arthos não precisou esconder seu temor, mas o demonstrou levemente. Caso contrário, se parecesse tranquilo demais, poderia ser confundido com desdém, e Arthos definitivamente precisava que Aidan acreditasse que possuía alguma superioridade.

– Estou tão surpreso quanto você. – Arthos falou, mostrando-se um tanto confuso.

– Realmente. – Aidan continuou – Principalmente quando um ômega assim jamais poderia passar despercebido em lugar algum.

Arthos engoliu em seco, selecionando com cuidado cada uma das palavras que disse a seguir:

– Bem, meu Líder não parece conhecer as disposições do Reduto de Ardósia. Há o palácio dos Ômegas, que fica numa ala diferente dos lugares aos quais eu e Adélia temos acesso. E por mais que eles tenham liberdade para ir a qualquer lugar nas imediações do Reduto, raramente são vistos fora do espaço reservado para eles. Eu sinceramente não sei em que circunstâncias o cavalheiro bêbado viu esse atípico, mas definitivamente não foi nos ambientes frequentados pelos investidores.

– É um fato... – o homem bêbado disse, ganhando, novamente, a atenção de Arthos e Aidan. Arthos estava tão concentrado no que diria a Aidan que quase havia se esquecido da existência daquele homem – Que lugar imenso, não dá para saber qual dos prédios é a casa deles... Parece que se escondem como gatos assustados. E basta pegar um especialmente arisco para receber um belo de um arranhão.

– Sim... – Aidan murmurou – Conheço a sensação.

Então ele voltou a olhar para Arthos, com os olhos afinados, pensativo. Seu silêncio nem deve ter durado três segundos sequer, mas pareceu bem mais para Arthos.

– Eu me pergunto... – Aidan falou – Que tipo de vantagem você teria em esconder de mim que tinha conhecimento desse Arphensis no Reduto... Mas não consigo pensar em nenhum motivo bom o suficiente para arriscar o seu pescoço dessa forma.

Ah, a espada ainda estava apontada para a sua garganta...

– E não tenho. – Arthos respondeu.

– Mas não acha irônico que alguém o viu na primeira vez que entrou no Reduto, enquanto você, em muito mais tempo, nunca o tenha visto?

– O Reduto de Ardósia é um local de passagem para esses ômegas. – Arthos disse – Estão sempre chegando e deixando o lugar assim que completam suas instruções ou conseguem pretendentes. Então a única explicação é que ele tenha sido recebido recentemente. E que o nosso informante aqui tenha entrado em algum local que não deveria. Por isso nem mesmo Adélia viu esse ômega.

Com um esforço extra, Arthos mencionou Adélia, que, pelo menos aparentemente era considerada por Aidan uma aliada muito mais fiel a ele do que Arthos. Ela com certeza contaria para Aidan se visse um ômega Arphensis no Reduto, e o fato de ela nunca ter falado nada sobre isso ajudava Arthos.

E, sem que lhe fosse perguntado, o bêbado acabou ajudando Arthos mais uma vez, mesmo sem querer. Ele deu de ombros e murmurou, antes de beber mais uma dose:

– Ah... Regras estúpidas... Confesso que vi os guardas saindo e decidi aproveitar a chance. Meus assuntos não eram mesmo com o senhor do Reduto...

Arthos encarou Aidan, como se dissesse: “Viu só? Eu tenho razão”. Aidan então pareceu chegar a uma conclusão, falando:

– Arthos... Eu vou adiar essa nossa conversa por mais tempo, porque agora o meu interesse maior é recuperar o meu gato arisco. E é você quem vai me colocar dentro do Reduto. – Aidan disse, então se virou para o homem que estava com eles – Francis, chame o chefe de polícia imediatamente. Ele vai nos acompanhar.

Espera, o quê...?”, pensou Arthos.

– Sim, meu Líder. – Francis disse, indo embora logo depois.

– Agora mesmo? – Arthos perguntou.

– Obviamente. – Aidan respondeu, e começou a andar, logo perdendo todo o interesse que antes tinha no homem bêbado, deixando-o caído sobre a bancada, como foi encontrado à princípio.

Assim, Arthos teve apenas um instante de alívio, antes de ser jogado novamente no pânico. Ele não estava mais sob a mira de Aidan, mas agora pessoas com quem se importava estavam.

E era Aidan quem ele teria que ajudar.

Arthos precisava ganhar mais tempo. Ao menos alguns minutos sem Aidan por perto para poder enviar uma mensagem que fosse, algo para alertar os moradores do Reduto. Qualquer coisa.

– Já está anoitecendo, meu Líder. – ele disse – Não seria de mau tom solicitar uma audiência com o senhor do Reduto neste horário?

– Eu estou ciente de que será uma atitude indelicada da minha parte, e também estou pronto para me retratar se assim for necessário. Mas não vou deixar essa chance passar apenas porque não é uma hora socialmente conveniente. Não vamos esperar um segundo sequer.

Vendo seus esforços indo por água abaixo, Arthos decidiu não insistir, ou pareceria suspeito demais. Aidan não lhe deixou sozinho por um momento que fosse. Permaneceu ao seu lado até a carruagem do chefe de polícia, o Sr. John Evans, chegar e ordenou que ele entrasse na cabine junto com eles. O policial era um alfa de quarenta e poucos anos de idade, e já exibia alguns fios grisalhos no cabelo curto à mostra fora do chapéu e na barba e bigode bem aparados. Era um homem que se fazia de sério diante de pessoas importantes ou para vender uma boa imagem de si mesmo, mas tratava seus subordinados muito mal, humilhando-os e ameaçando-os sempre que tinha a oportunidade.

Um excelente exemplar da escória humana.

Arthos tinha descoberto recentemente que o Sr. Evans era um Eterno, o que não tinha sido uma grande surpresa. Boa parte dos policiais da capital de Sozan já era corrupta antes de Aidan chegar à cidade, que dirá depois de tudo o que o Grande Líder podia oferecer de bom para que se juntassem a ele e de tudo o que poderia acontecer de terrível caso a resposta fosse não. Sozan atualmente parecia pertencer muito mais aos Eternos do que aos bons cidadãos.

Por fim, a carruagem rapidamente chegou aos portões do Reduto de Ardósia. Ainda dentro da cabine, Arthos fez sua última tentativa de conseguir avisar aos amigos sobre Aidan:

– Acho melhor que eu entre sozinho e converse com o Sr. Arkhannar. Ele é um homem sensato e respeita as leis de Sozan. Caso este seja o ômega que estamos procurando, acredito que ele colaborará com o que deve ser feito.

– Caso seja? – Aidan disse – Estou certo de que é, pela forma como foi descrito. Nenhum outro ômega se comportaria como ele, disso eu tenho certeza.

– Bem... Eu garanto que não levarei muito tempo. O Sr. Arkhannar é familiarizado comigo, eu posso resolver isso com ele tranquilamente. – Arthos olhou para John – Talvez ele considere a presença do senhor chefe de polícia no território dele como algum tipo de descortesia da sua parte, Grande Líder.

Então Aidan falou, dessa vez com ligeira impaciência:

– Você está aqui justamente para me colocar em contato com o Sr. Arkhannar. E o Sr. Evans está aqui para lembrar ao Sr. Arkhannar que, mesmo que a jurisdição do Reduto seja diferente, ele ainda está em Sozan e a lei aqui é muito clara. Eu sei muito bem com quem estou lidando, Arthos, e este ômega é capaz de muitas coisas que o surpreenderiam. Não quero dar nem a mínima chance para ele escapar e não posso descartar a possibilidade de ele ter feito a cabeça do senhor do reduto para permanecer nesse refúgio perfeito.

Fazia sentido. O Reduto de Ardósia, justamente por ser um território onde as leis de Sozan paravam nos portões fortificados daqueles imponentes muros brancos, era o lugar perfeito para alguém que estava fugindo se esconder. E alguém com a inteligência de Keyon – que Arthos sabia muito bem ser algo surpreendente – poderia sim ludibriar outra pessoa para conseguir o que quisesse.

Aidan realmente conhecia Keyon muito bem.

– Eu quero que o Sr. Arkhannar saiba que eu moverei céus e terras para receber meu ômega de volta e tornarei a vida dele muito difícil caso decida ficar no meu caminho. Se ele realmente for tão astuto quanto aparenta, perceberá que não valerá a pena arriscar qualquer coisa por um ômega que já está comprometido.

Arthos viu-se incapaz de argumentar mais alguma coisa. Ele não conseguiria convencer Aidan a permitir-lhe a entrada antes dos outros dois. Com o silêncio de Arthos, Aidan falou:

– Veja, Arthos, eu também quero que tudo ocorra tranquilamente, mas definitivamente entrarei com você e quero ver pessoalmente o Arphensis que eu sei que vive aqui. Afinal, só assim eu terei certeza absoluta de que minha busca finalmente chegou ao fim ou não. Então faça com que o Sr. Arkhannar entenda. A ira de um Boreain é famosa, todos sabem. E é bom que ela não seja despertada por um mal entendido.

Arthos suspirou e concordou com a cabeça, mesmo que sua mente estivesse à mil. Ele não tinha conseguido evitar o que iria acontecer. Aidan realmente não sairia dali sem ver o ômega Arphensis que o bêbado do hotel havia descrito. Zehel ainda podia proibir a entrada deles, mas isso apenas adiaria o problema e ainda faria com que Aidan desconfiasse mais do senhor do reduto. Ainda assim, Arthos torcia que isso acontecesse. Era melhor do que perder Keyon para Aidan. E com certeza muito melhor do que a tragédia que poderia acontecer caso Zehel decidisse atacar Aidan. Porque nenhum dos dois alfas – Zehel e Aidan – abriria mão do ômega. As coisas poderiam ficar bem letais de um momento para o outro.

Porém, depois que Arthos solicitou o acesso aos portões do Reduto de Ardósia a um dos guardas notificando as identidades de todos dentro da carruagem, a resposta que o guarda recebeu de retorno foi a última que Arthos esperava:

– A entrada foi autorizada. – o guarda disse – A carruagem pode seguir até a mansão principal.

E então, os portões pretos foram abertos e o cocheiro conduziu a carruagem para dentro. E naquele instante, ninguém estava mais surpreso com o decorrer da situação do que Arthos.

Os três desceram da cabine assim que a carruagem parou diante dos poucos degraus da entrada da mansão. Dois empregados receberam os visitantes, recolhendo os casacos e, no caso de John, o chapéu também. E, vindo do corredor que levava ao escritório, Zehel apareceu, aproximando-se com uma expressão formal, sendo seguido por Uthayn. Ele não estava surpreso. Ele não estava espantado. Ele nem sequer tinha algum traço de irritação na sua feição, pelo contrário! Ele se mostrou cordial quando chegou diante deles.

– Oh, Arthos. – Zehel disse – Bem-vindo de volta. Não pensei que o veria mais ainda hoje.

– Sr. Arkhannar, obrigado por nos receber. – Arthos disse – Eu venho como mediador do Sr. Gaussius para tratar de um assunto mais... pessoal, e que infelizmente requer a presença de uma autoridade de Sozan, como pode ver.

Os olhos ambares de Zehel foram de Aidan para John de forma inquisitiva. Zehel demonstrava não saber o que tais “cavalheiros” poderiam querer com aquela visita.

– Lembro-me muito bem de ter nos apresentado no porto, Arthos. – Zehel falou – Meus cumprimentos, Sr. Gaussius. – Aidan retribuiu o cumprimento com um movimento de cabeça, e Zehel continuou – E ao Sr. Evans também. Agora eu fiquei intrigado. O que poderia ser de cunho pessoal e necessitar da presença do chefe de polícia da capital?

– Sr. Arkhannar. – Aidan falou – Como o príncipe Arthos já adiantou muito bem, trata-se de uma busca pessoal que eu tenho me dedicado há alguns meses. Eu já peço desculpas adiantadas por parecer rude ao fazer questão de trazer o Sr. Evans comigo, por mais que ele não tenha autoridade dentro do seu território. Mas eu prezo pelo seu bom senso, o que nosso amigo em comum já me garantiu que o senhor possuía.

– Parece que este é um assunto que precisamos tratar num ambiente mais adequado. – Zehel falou – Por favor, acompanhem-me ao meu escritório.

Zehel se virou e começou a andar, e Aidan o seguiu, com Arthos em seu encalço. O chefe de polícia foi logo depois de Arthos e o assistente de Zehel completava o grupo. Eles chegaram ao escritório e Zehel ocupou a poltrona atrás da sua mesa, dizendo:

– Por favor, fiquem à vontade.

À medida que todos se acomodavam, Uthayn oferecia chá, café ou água. Aidan preferiu uma xícara de chá e Zehel decidiu acompanha-lo. Arthos e John acabaram pedindo o mesmo, apesar de Arthos saber que não estava afim de beber nada naquele momento. Estava tão tenso que suas mãos deveriam estar frias como as de um cadáver.

– Diga-me o que posso fazer pelo senhor. – Zehel disse, depois que todos estavam servidos.

Aidan deixou a xícara de lado após tomar um gole do chá e começou a falar:

– Irei direto ao ponto. Meu esposo está desaparecido. Trata-se de um ômega atípico, um Arphensis comum do tipo Inverno. Recebi a informação de que um ômega com suas características se encontrava aqui, no Reduto de Ardósia. Acontece que ele é dono de uma personalidade... um tanto forte. Sua inteligência também é muito notável e não creio que ele saiba como escondê-la, porém, creio que ele seja capaz de enganar e manipular qualquer um que lhe der ouvidos. Há algo nisso que lhe soa familiar?

Zehel encarou Aidan com o olhar mais neutro que Arthos já tinha visto no rosto do amigo. Zehel sempre colocava alguma emoção nas suas expressões. Quando gosta do que ouvia, mantinha um sorriso genuíno, e quando não gostava, qualquer pessoa poderia perceber isso só de olhar para ele. O mesmo para todos os outros tipos de reação. Mas não agora.

A menção de um ômega Arphensis de Inverno nem sequer o afetou minimamente. Ele não esboçou nenhuma surpresa ou dúvida, nem raiva ou desgosto. E pelos anos de amizade que tinha com Zehel, Arthos achou aquilo muito estranho. Mas, sua maior surpresa viria logo em seguida, com o que Zehel falou:

– Oh, entendo. Sinto muito por ouvir sobre o seu esposo desaparecido, mas eu acho que não ele esteja aqui. Eu realmente recebi há alguns dias um novo ômega à pedido dos seus pais para receber instruções na nossa instituição especial, e trata-se de um Arphensis de Inverno. Mas, todos os documentos dele estão corretos e nenhum indica que tenha se casado. É claro, posso mostrá-los para os cavalheiros por via das dúvidas.

Arthos não transpareceu seu nervosismo depois de ouvir Zehel, mas estava à ponto de ter um pico de ansiedade. O que diabos Zehel estava fazendo? Dizendo que tinha um Arphensis dentro dos muros do Reduto! E se Aidan quisesse vê-lo? Onde Zehel tinha arranjado um Arphensis com as mesmas características de Keyon em Sozan dentro de poucas horas?

O que estava acontecendo??

Zehel fez um sinal com a mão e Uthayn rapidamente abriu um dos armários e procurou alguns documentos específicos. Ele logo encontrou os papéis que queria e os entregou para Zehel.

– Este é o único atípico que reside atualmente no Palácio dos Ômegas. – Zehel falou, colocando os papéis ao alcance de Aidan, que deu uma rápida olhada neles – Collin Willet, 16 anos de idade, natural do norte de Flere. Acredito que tenha sido ele quem a pessoa que o informou viu aqui. Aliás, pode me dizer quem lhe comentou sobre ele? Tivemos um pequeno infortúnio mais cedo com um investidor envolvendo este mesmo ômega.

– Ah, então está explicado. – Arthos interviu antes de Aidan falar alguma coisa, e apesar de ainda estar com o coração saindo pela boca, manteve sua voz calma e firme – Foi mesmo este senhor quem comentou sobre o ômega conosco. Meu colega teve esperanças de que fosse uma pista do esposo desaparecido dele.

Aidan lhe lançou um olhar de cumplicidade. Arthos finalmente tinha ganhado um ponto ao seu favor. Ele tinha livrado Aidan de justificar toda aquela situação tendo se baseado nos murmúrios suspeitos de um homem completamente bêbado. Seria muito mais irresponsabilidade de Aidan em ter acreditado nele do que do homem em ter falado qualquer coisa com seu juízo alterado.

Isso até acalmou Arthos um pouco, mas ainda não resolvia a mentira que Zehel tinha criado, e agora Arthos temia pelo Boreain.

– Eu compreendo. Eu também faria qualquer coisa pelas pessoas que eu amo. – Zehel falou, e só então esboçou um leve sorriso – Mas se mesmo assim o senhor ainda quiser se certificar de que não é o seu esposo desaparecido, posso pedir para o meu assistente trazer Collin aqui. Não seria nenhum incômodo.

 

Mas que raios de sugestão era aquela??

 

Zehel não tinha obrigação nenhuma de mostrar os documentos sobre o suposto ômega atípico, para começo de conversa. Não tinha sequer obrigação de ter deixado Aidan entrar no Reduto de Ardósia. O chefe de polícia ao seu lado não tinha nenhuma autoridade ali dentro, para completar. Zehel não tinha nem que admitir nem que negar que havia ou não alguém parecido com o esposo de Aidan ali. Mas ele tinha feito tudo aquilo e, não satisfeito, ainda foi além.

Por Deus, Zehel, é bom mesmo que você saiba o que está fazendo...”, Arthos pensou. Por que era óbvio que Aidan iria querer ver a prova viva de que o ômega atípico que morava ali não era mesmo Keyon.

– Eu não quero parecer rude, mas realmente prefiro vê-lo por mim mesmo. – Aidan disse – Só assim poderei seguir com a minha busca sem continuar suspeitando que este Collin poderia ser meu esposo.

Zehel assentiu e pediu para Uthayn ir buscar o tal Collin. A tensão dentro do escritório do alfa Boreain enquanto todos esperavam em silêncio não poderia ter sido menor. Zehel e Aidan permaneciam absolutamente calmos, um olhando para o outro como se aproveitassem o clima tranquilo. Mas parecia para Arthos que só bastava um sinal de um deles para o outro avançar, tal como tubarões que detectam sua presa quando ela se move.

E foi quando Uthayn retornou e anunciou a chegada do ômega do qual falaram tanto.

E foi quando Arthos finalmente não conseguiu evitar erguer suas sobrancelhas de pura perplexidade. Uthayn ficou para trás quando o ômega entrou no escritório e diante dos outros quatro presentes havia, de fato, um Arphensis de Inverno com todas as características de Keyon... Mas não era Keyon. E além de tudo aquilo, Arthos definitivamente já tinha visto o rapaz que chegou, mas ele não era um atípico antes.

Arthos tinha uma memória excelente. Aquele ômega, no dia do jantar de Chiren, tinha cabelos castanhos claros e olhos azuis. Mas agora, parecia ter nascido com aqueles cabelos acinzentados e os olhos de íris verde turquesa que tanto chamavam atenção. O cinza estava até nas sobrancelhas e nos cílios, o tipo Arphensis estava em cada detalhe da sua fisionomia.

Arthos olhou para Aidan e notou sua surpresa e, mais do que isso, sua decepção. Talvez ele esperasse que não houvesse nenhum ômega atípico chegando. Que o assistente de Zehel voltasse falando que o tal Collin havia sumido. Ou, talvez alguma parte dele pensasse que Keyon surgisse, e que tivesse enganado e manipulado Zehel todo aquele tempo. Mas ali estava, um Arphensis de Inverno – completamente convincente – e que não era Keyon.

Depois, Arthos olhou para Zehel, que não tinha nenhuma sombra de espanto no seu rosto. Ele já tinha tudo aquilo planejado. Mas... Como assim?

– Collin, desculpe chamar você tão de repente. – Zehel disse – Sua presença era de vital importância para eu e os cavalheiros aqui presentes resolvêssemos um assunto que tinha a ver com você.

– Estou vendo que há um policial aqui. – Collin falou, com grande seriedade e um toque ácido de arrogância, olhando para John, que vestia seu uniforme da polícia – É sobre aquele invasor mau educado de hoje cedo? Ele recebeu o que merecia e foi preso? Eu até pediria uma indenização por me importunar, mas meu tempo é precioso demais para perder com tanta burocracia.

Ora, ora, ora, e as surpresas continuavam! Arthos segurou seu queixo para não ficar boquiaberto com a forma como o ômega falou. Ele jamais esperava qualquer outro ômega além de Keyon se portar daquela forma. No segundo seguinte, ele se conteve para não sorrir pela graça, apesar de ainda não entender nada do que estava acontecendo.

– Ah, hã... – o Sr. Evans começou, olhando para Aidan como se buscasse uma orientação do que dizer – Bem, não é sobre isso. Sr. Gaussius, este é o ômega que estamos procurando?

Aidan não respondeu logo, olhando atentamente para Collin, que também o encarou, mantendo o olhar esnobe. Então, quando se virou na direção de Zehel, Aidan finalmente respondeu a pergunta do chefe de polícia, mesmo sem olhar para ele:

– Não, não é ele. É, de fato, outro Arphensis. Peço desculpas por ter tomado o tempo de todos, mas agora tudo está resolvido. – Aidan se levantou da cadeira, seguido por John e Arthos – Está claro que minha busca continua.

Zehel acenou com a cabeça para Uthayn, que pediu para que Collin o acompanhasse, e os dois saíram primeiro.

– Não se preocupe, Sr. Gaussius. – Zehel se levantou e conduziu todos para fora do escritório – Eu que sinto muito por não ser de grande ajuda na sua busca.

Assim, todos chegaram novamente à sala de estar, onde os empregados já esperavam com os pertences dos visitantes.

– Obrigado pela disponibilidade. – Aidan disse, e ele e Zehel trocaram um aperto de mãos.

– Por nada. – Zehel disse – Tenham uma boa noite.

Aidan, John e Arthos devolveram o cumprimento e passaram pela porta da mansão, caminhando até a cabine da carruagem, cuja porta o cocheiro acabara de abrir. Todos entraram e ocuparam os assentos, mas Aidan ordenou ao cocheiro que esperasse. Assim, ele olhou para Arthos e disse:

– Arthos. Seria bom você reforçar as nossas desculpas pelo incômodo de agora, já que o Sr. Arkhannar conhece mais você.

– Não acho que ele ficou aborrecido com isso tudo. – Arthos falou.

– Ah, ele ficou. Você pode não ter percebido, mas eu reconheço quando uma pessoa está sendo educada por obrigação. E você viu o quanto ele quis se certificar de que eu estava errado? Eu admito que se alguém leva um policial para dentro da minha casa alegando que eu estou com algo que pertence a essa pessoa, eu também ficaria aborrecido. Se ele queria me ouvir pedir desculpas, ele conseguiu. – Aidan suspirou – Ah... Se esses Boreain estivessem do nosso lado, eu não precisaria me sujeitar a isso. Por hora, eu ainda preciso dessa relação pacífica com eles. Vou deixar que tenham essa autoridade enquanto ainda podem.

Ali estava! A confirmação de havia algum plano contra os alfas Boreain, assim como Morin tinha dito. Mas, como era de praxe, Aidan parou por ali, mudando de assunto logo depois:

– Por fim, realmente não era meu amado esposo. Eu definitivamente não esperava encontrar outro ômega com aquele comportamento. Isso foi o que mais me deixou surpreso. Me faz pensar se é uma característica da espécie ter a boca tão impulsiva e orgulhosa. Mas eu tenho que me conformar. Aqueles documentos eram verdadeiros. O tipo de papel, os brasões, assinaturas, realmente vieram de um cartório de Flere. E se aquele Collin chegou há poucos dias, você realmente não teria tantas chances de tê-lo visto no Reduto.

– Como eu pensei. – Arthos falou.

– Então, fique e comente o quanto eu me lamentei pelo ocorrido de hoje. Seja o bom mediador. Diga-me o que o Sr. Arkhannar falar depois e continue de olho em tudo aqui dentro.

– Entendido, meu Líder.

Arthos saiu da cabine e fechou a porta, não antes de ouvir Aidan falar para John:

– Sr. Evans, temo que terei que ocupar mais do seu tempo. Temos muito que fazer ainda hoje.

A carruagem finalmente foi colocada em movimento e Arthos ficou onde estava, observando ao longe o transporte até passar de vez pelo grande portão da entrada, finalmente trancado pelos guardas após a saída deles. E só então o príncipe pôde respirar aliviado.

 – Céus, eu ainda vou ter um infarto... – Arthos pensou alto.

Sem demora, ele deu meia volta e começou a subir novamente os degraus da mansão principal. Seus amigos teriam que lhe explicar muita coisa. Arthos voltou a entregar seu casaco para um dos empregados enquanto Zehel, que já estava ali, olhava para ele com uma expressão curiosa: ele parecia satisfeito, mas também estava nervoso.

– Eles foram embora? – Zehel perguntou.

– Sim.

– Ele foi convencido?

– Totalmente.

– E você foi mandado para pedir desculpas outra vez?

– Com certeza.

– Mal acredito que isso realmente funcionou. – Zehel falou, virando-se – Venha, vamos avisar aos outros.

Arthos não disse nada, indo atrás de Zehel sem pensar duas vezes. Os dois entraram na sala de jogos, onde já estavam mais pessoas do que Arthos imaginou encontrar: Collin, que no momento estava sentado, um tanto trêmulo, segurando um copo com água recebendo ajuda de Uthayn e Hassan; Klaus, que imediatamente se levantou do sofá onde estava assim que viu Zehel e Arthos chegarem; e Cieszyn, que estava parada no meio da sala, de braços cruzados, parecendo esperar Collin se acalmar, olhando na direção dele.

 Mas, não foi a presença de todas aquelas pessoas que mais chamou a atenção de Arthos. O ômega que estava tomando água vagarosamente recebendo apoio do assistente de Zehel e do imediato de Cieszyn, agora, estava exatamente como Arthos se lembrava, de quando o viu no jantar de Chiren: cabelos castanhos e olhos azuis. Ele não era mais um Arphensis como era há menos de dez minutos.

– Se tivesse demorado mais um minuto, eu não teria conseguido. – Arthos ouviu o ômega dizer.

– Foi necessária muita força para você ter feito o que fez. – Hassan falou para ele – Este poder só aceita quem realmente possui grande determinação.

– Tente beber mais um pouco de água. – Uthayn disse, logo em seguida.

Cieszyn descruzou os braços ao ver Arthos chegar com Zehel. Ela perguntou aos dois:

– Deu certo?

– Sim, ele foi convencido. – Zehel falou, e Klaus respirou aliviado.

– Foi por pouco... – o alfa loiro disse relaxando os ombros.

– Ah, foi. – Arthos falou – Agora alguém pode me explicar o que foi todo aquele teatro? Porque eu quase tive um colapso quando Zehel nos deu permissão para entrar. E o que houve com ele?

Arthos apontou para o ômega.

– Driah felizmente estava no lugar certo na hora certa. – Cieszyn respondeu.

– O nome não era Collin?

– Collin é outro ômega. – Zehel falou – Ele sim é um recém-chegado de Flere. Usamos os documentos dele para ajudar na atuação. Como a área das características atípicas nos documentos estavam em branco, usamos o espaço para registrar o tipo Arphensis de Inverno. Agora terei que pedir novamente os documentos dele à família declarando que foram destruídos por acidente...

– Não poderíamos usar o verdadeiro Collin para assumir a identidade de um Arphensis porque ele é introvertido demais. – Cieszyn disse – Precisávamos de alguém que pudesse agir um pouco mais como Keyon. Era necessário, já que Klaus deixou claro que o conterrâneo dele foi muito específico quanto ao comportamento do atípico que encontrou aqui na hora de contar tudo ao Grande Líder.

Arthos então olhou para Klaus.

– Você estava lá? – ele perguntou.

– Bem, – Klaus falou – acontece que aquele bêbado maldito é um investidor de Hailac e eu o tinha deixado sozinho alguns minutos antes naquele bar. Quando eu estava voltando, ele já estava entregando tudo ao Gaussius. Eu só esperei vocês se afastarem para saber exatamente quais informações ele passou e depois peguei uma carruagem e vim o mais rápido que pude para avisar que vocês estavam vindo. Felizmente, vocês ainda esperaram a chegada do chefe de polícia. Foi o tempo que precisávamos para armar tudo.

Cieszyn olhou para Hassan e estendeu a mão na direção dele, que entendeu a ordem silenciosa. Hassan pediu licença para Driah e retirou o colar que ele usava, cujo pingente, que era uma pedra de um intenso tom de vermelho, estava escondido por dentro da camisa do ômega. Depois, ele entregou o acessório para Cieszyn, que disse:

– Meu colar mágico pode alterar a aparência de quem usa, baseado na vontade dessa pessoa. Para que afastássemos qualquer suspeita do Grande Líder de que Keyon estava aqui, precisávamos de outro Arphensis. Driah estava por perto e se voluntariou, por conhecer o comportamento de Keyon. – Cieszyn olhou para Driah e continuou – Se tivesse se deixado levar pelo medo, a magia não se sustentaria e o disfarce teria sido perdido. Você tem o meu respeito por ter ido até o fim, Driah.

Driah apenas assentiu em agradecimento, parecendo muito mais calmo já que o copo com água em suas mãos não tremia mais.

– E foi assim que criamos um Arphensis oficial para o Reduto de Ardósia. – Zehel falou, concluindo toda a explicação.

– Minha nossa... – Arthos disse – Excelente trabalho em equipe.

Se Klaus também não estivesse naquele bar, tudo naquele exato instante seria muito diferente.  Pudera! Durante o caminho Arthos estava inclusive pensando na possibilidade de alguma morte acontecer!

E, apesar de Klaus ter sido de extrema importância para tudo ter corrido bem, Driah teve um papel fundamental. Arthos mal o conhecia e já tinha bons conceitos sobre ele.

– E onde está Keyon, afinal? – Arthos perguntou.

– Na Ala Sul. – Zehel respondeu – E é para lá que eu estou indo agora. Tudo aconteceu tão depressa, mal tivemos tempo de conversar direito.

– Vamos juntos. – Klaus disse, aproximando-se de Zehel.

– Arthos, fique à vontade. – Zehel falou.

– Obrigado. – Arthos falou, vendo Zehel e Klaus saírem pela porta da sala.

Nessa hora, ele sentiu uma mão segurar a sua e viu que tinha sido Cieszyn, o que o surpreendeu um pouco.

– Você está bem? – ela perguntou, séria como sempre.

– Agora eu estou. – ele respondeu, e abriu seu sorriso costumeiro – Mas acho que eu ficaria ainda melhor com um beijo.

– Sim, você está muito bem. – Cieszyn disse, soando como se tivesse se arrependido de perguntar.

No entanto, ela ainda não tinha soltado a mão dele.

– Cys, por que eu nunca soube que esse seu colar é mágico?

– Você nunca perguntou. – foi a resposta de Cieszyn.

Arthos a encarou por um tempo, mas por fim, disse:

– Justo. É que eu nunca a vi usar esse poder.

– Acaso vai me dizer que eu “poderia ser menos assustadora mudando minha aparência”?

– E perder todo o seu charme? – ele falou – Você não precisa mudar nada.

Cieszyn permaneceu em silêncio diante da resposta de Arthos, mas ele sentiu ela apertar a sua mão. Os olhos escarlates dela se fixaram nos seus azuis como imãs de polos magnéticos opostos que irremediavelmente se atraíam. Foram feitos para isso.

– Você vai jantar aqui, não vai? – Cieszyn perguntou, tão baixo quanto um sussurro.

Definitivamente vou. – Arthos disse, no mesmo tom.

E, sem dizerem nenhuma palavra a mais, os dois saíram da sala.

Afinal, ainda havia algumas horas para o jantar ser servido.


Notas Finais


De tudo isso, somente uma coisa é 100% certa: Arthos precisa de férias.


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