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História Dez Dias no Futuro - Capítulo 10


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Capítulo 10 - Quinto Dia no Futuro - O Valor da Morte para a Vida


   Era noite, e Yona ainda não havia se alimentado com nada, seja no presente ou no futuro onde se encontrava agora.

 

  Seus filhos e amigos tentaram reanimá-la e alimentá-la, mas ela apenas dava um sorriso fraco dizendo que estava sem fome e pedia para ficar sozinha. Em seguida, voltava a se deitar na cama e a lamentar o luto de seu pai e a traição de Soo-Won.

 

  Atarefado com os deveres, Hak tentava manter a ordem na casa e no reino. Não fossem seus companheiros, a situação estaria mais complicada. Ademais, com seu avô ali, era mais fácil lidar com as numerosas obrigações de monarca, pai e marido, tendo em vista que o velho se ocupava bastante com as crianças que o adoravam.

 

   - Como ela está? - perguntou Mundok ao Hak (que ainda estava longe de terminar seu cansativo trabalho), adentrando o escritório.

 

  - Não come nada. Não fala nada. Eu não entendo o que está acontecendo, mas espero que ela fique bem logo. - disse Hak preocupado enquanto tentava equilibrar a escrita de uma carta com o balanço que dava em Yasuhiko nos braços.

 

  - Você também não. Nem dormido. E você gostava tanto de tomar um cochilo sossegado.

 

  - Maridos, pais e reis não tem o luxo de poder dormir tranquilamente. Infelizmente eu sou todos os três ao mesmo tempo. Não teria problemas em ser marido e pai, mas ser rei é um saco. - disse agoniado com os deveres que ainda tinha que terminar naquela noite. 

 

  - Parece que você está precisando de ajuda. Me dê o meu netinho, por enquanto. - pediu Mundok, pegando o bebê no colo.

 

  Largando o pincel e o pergaminho, Hak colocou as mãos no rosto, suspirando aflito:

 

  - Eu não sei o que fazer. Já está à quase três dias sem comer ou beber nada. Além disso, as obrigações não param de chegar. Parece até que azar atrai mais azar.

 

  - Eu sinto muito ter tocado no assunto do falecido rei. Acredito que foi uma péssima hora para comentar a morte dele, mas não esperava uma reação tão intensa dela. - observou.

 

  - Eu entendo. Está tudo bem. Ela também está distante de mim um pouco. Fizemos a pazes, mas ela está um pouco diferente. É como se fôssemos estranhos convivendo. - disse em desabafo.

 

  - Vocês estão precisando de férias. Todos vocês. Venham passar uns dias em Fuuga novamente. Sempre serão muito bem-vindos, principalmente os meus netinhos. - sugeriu paparicando Yasuhiko.

 

   - Foram ótimas semanas de verão. - riu Hak, sentindo saudades. - As melhores, na verdade.

 

  - Se tem uma coisa que esse velho aprendeu ao longo de sua vida é que todo problema é passageiro. Não existe nenhum sofrimento ou tristeza eterna. - aconselhou-o. 

 

  - Nem felicidade também. Esse é o problema. - suspirou.

 

  - Você irá fazer trinta anos e ainda não entendeu que a graça da felicidade é justamente essa? A felicidade está nos momentos e não na eternidade. - disse Mundok.

 

  Hak absorveu aquele conselho, mesmo exausto. Afinal, estava cansado demais para discutir, mas também concordava com o posicionamento do avô, mesmo não gostando dos piores momentos.

 

  - Papai? Vovô? - adentrou Aiko no recinto com um semblante chateado.

 

  - Sim, princesinha? Você está bem? - perguntou Hak com um sorriso para esconder o cansaço.

 

  - Estou bem. Só... preocupada com a mamãe. - disse aflita.

 

  - Ela não comeu nada ainda? - perguntou o pai.

 

  - Não. Mesmo com todos nós tentando... - disse abaixando a cabeça. - A mamãe... está bem? Ela está brava conosco? Fizemos... algo de errado?

 

  Aproximando-se dela, Hak abraçou-a para confortar seu coração frágil de criança.

 

  - A mamãe vai ficar bem, eu prometo. E não se preocupem, vocês não fizeram nada de errado.  - disse num sorriso reconfortante.

 

  - Mesmo? - perguntou esperançosa.

 

  - Mas é claro! - disse convicto e em seguida beijou sua testa, finalizando:

 

  - Peça aos cozinheiros prepararem os lanches e doces favoritos da sua mãe por mim. Pode pedir os seus favorito e dos seus irmãos também. Mas apenas hoje, tudo bem? Não quero que comam doces todas as noites.

 

  - Tá! - disse mais animada, saindo correndo.

 

   Quando estava finalmente a sós com Mundok e o bebê, Hak suspirou cansado ao olhar para as papeladas.

 

  - O que você ainda está fazendo aqui, seu idiota de trinta anos? - perguntou Mundok. 

 

  - Hã? - perguntou Hak confuso.

 

  - Não vê que sua esposa está precisando de você? Família...

 

  - Família em primeiro lugar. - completou Hak. - Mas e o que faço com tudo isso? Era pra eu ter enviado há três dias. Se a Princesa descobrir... - apontou para os pergaminhos. - Esses lordes pomposos e irritantes querem respostas o quanto antes. 

 

  - Deixe isso conosco! - disse Kija adentrando o recinto com os demais Dragões.

 

  - Pessoal? - disse Hak surpreso.

 

  - Viemos ajudar. - disse Shin-ah.

 

  - Mas vocês não estão ocupados também? - perguntou Hak, rejeitando a oferta.

 

  - Seu... Só você mesmo pra pensar que não iríamos ajudar. - disse Kija inconformado.

 

  - Cada um ajudará como pode, senhor. O menino está nesse momento ajudando com os pratos favoritos da senhorita. - disse Zeno. 

 

  - Isso mesmo. Ficaremos aqui cuidando da papelada que você acumula até o último segundo. Mas cuidar da Yona quanto a esses problemas do passado, só você pode fazer isso. - disse Jae-ha tocando o ombro de Hak.

 

  - Não fique mal acostumado. - advertiu Zeno ao olhar a papelada.

 

  Aceitando a oferta, Hak não sentiu-se mais tão solitário e sorriu de lado, dizendo:

 

  - Valeu. O que eu faria sem vocês?

 

  - Família em primeiro lugar. - disse Shin-ah.

 

  - Exatamente. - concordaram Kija e Zeno e Jae-ha.

 

  - Francamente... Por que você ainda tá aqui? - perguntou Mundok ao neto.

 

  Sorrindo, Hak logo saiu do recinto após receber energias positivas de sua família.

 

  - Valeu mesmo! Eu vou recompensar vocês! - saiu apressado. - Cuidem bem das crianças.

 

  - Mas os filhos são teus... - brincou Jae-ha após Hak já ter saído.

 

  - Por favor, parem de ter bebês. - choramingou Kija.

 

 

  No período em que Hak estava trabalhando - antes de finalmente ir correndo até sua esposa -, a ruiva teve um dia solitário no seu quarto sem aceitar a companhia de mais ninguém, até que ouviu alguém lhe perguntar perto da cama em que jazia:

   

    - Por que está tão triste? - era Eleanòr que apareceu em seu quarto.

 

  Após perceber a presença invasiva da garota, Yona disse chorando baixinho:

 

  - Estava pensando... se meu pai... se Soo-Won o matou para se tornar rei, mas hoje eu sou a rainha... então quer dizer que meu pai foi assassinado em vão e inutilmente. Meu pai não deveria ter morrido. Não foi justo. 

 

  - Não existe algo mais justo do que a morte. A morte vem para todos. Tudo que possui o sopro de vida divino está destinado a morrer. Rei ou não, seu pai não será exceção. - explicou em tom indiferente.

 

  - Ele... não deveria ter morrido. Ele não deve morrer. - disse chorando desesperada. - A morte é algo cruel.

 

  - Você se lamenta porque uma pessoa querida morreu, mas não se alegra pela vida que ela teve? A morte é não é cruel, mas sim o que dá sentindo a vida, pois se os humanos soubesse que nunca iriam morrer, jamais dariam valor aos verdadeiros momentos importantes. Se os humanos fossem imortais, por que iriam aproiveitar a vida se ela nunca iria acabar? 

 

  - Isso não tira o fato de que é cruel alguém morrer porque a morte tira das pessoas o seu bem mais precioso: a vida. Meus filhos nunca conhecerão o avô deles porque ele morreu de uma maneira coverde. E, em breve, eu nunca mais verei meu pai também... - chorou inconformada.

 

  - Mas é por entender que o tempo é limitado que os humanos buscam viver. Você não se lembra como seu pai se emocionou pelo seu crescimento no seu aniversário de dezesseis anos? Ele sabia que a vida era passageira e ele entendia a verdadeira essência da vida ao se alegrar por ela e não se entristecer porque você estava mais perto da morte ao envelhecer. Invés disso, ele chorou de alegria porque entendeu o valor que a vida tem mesmo quando estamos morrendo ao viver. 

 

  - Além disso, - prosseguiu. - a morte é o que possibilita a vida e a sua constante transformação. Permite a ordem cósmica do universo ao equilibrá-lo em perfeita harmonia com existência, pois, sem a morte, a vida não seria possível e nem sequer existiria. E a morte do seu pai, ao qual você diz ter sido em vão, foi o que permitiu que você fosse a mulher que é agora e chegasse aonde chegou. A morte dele transformou a sua vida de uma maneira inimaginável, pois a mulher que és agora, tu não eras 10 anos atrás.

 

  Por fim, deu-lhe a última reflexão ao dizer em tom mais fraco e pensativo:

 

   - O que morre, vive. E o que vive, se transforma. É por isso que Hiryuu desceu à terra como humano, preferindo morrer para que pudesse viver de verdade.

 

  - Mesmo que tudo o que me disse seja verdade, é difícil acreditar. Só quem entende é quem perdeu alguém muito querido de maneira muito cruel e injusta. É por isso que só consigo chorar e ficar triste... É por isso que você não consegue me entender. É por isso que eu não quero e nem irei te ouvir. - balbuciou fraca em lamentação.

 

  Ainda chorando, Yona agarrou-se ao seu colar e fez um pedido de lembrança:

 

  - Eu quero ver... a última vez... que eu vi o Soo-Won.

 

    O que Yona fazia em seu luto era reviver os momentos recém descobertos do assassinato de seu pai.

 

  Aliado a isso, afundava-se no sofrimento ao gastar suas preciosas lembranças vendo momentos referentes ao Soo-Won, aumentando sua dor.

 

  Após pensar o dia inteiro sobre o que veria dessa vez, escolheu assistir a última vez em que viu o rapaz, torturando-se.

 

  Estava agora nas suas lembranças. 

 

  Viu-se no Castelo Hiryuu que estava em comemoração. Haviam pessoas, principalmente nobres, que enchiam os salões, enquanto comiam, bebiam e falavam de política.

 

  Procurou Soo-Won por toda a parte, mas não o encontrou. Invés disso, achou o seu "eu" do futuro ao lado do Hak, do Yun e dos Dragões. Todos ainda pareciam bem jovens e não haviam nenhum sinal de suas crianças, pois em verdade nenhuma delas haviam nascido ainda.

 

  Estavam muito bem vestidos e Yona estava sentada no trono com elegantes roupas e a coroa real na cabeça. Juntamente com isso, estavam os convidados que se ajoelhavam e parabenizavam sua coroação bem-sucedida.

 

   Cansada de todo aquele glamour que aprendera a desapegar-se, a Yona coroada, após dezenas de cumprimentos, retirou-se um pouco da multidão. Ou ao menos tentou.

 

  - A vida de casada lhe fez bem, Rainha Yona. - ouviu alguém lhe chamar.

 

  - Lili! Obrigada. A sua presença aqui é muito agradável. - sorriu-lhe. - E me chame de Yona! - insistiu.

  

  - Não em público! - disse convicta.

 

  - Bobagem! - riu. - Não tenho nem um dia como Rainha e até o mês passado eu ainda era só uma princesa sem legitimidade nenhuma para governar.

 

  - E dois meses atrás estava solteira também. Você está ficando velha! - brincou Lili.

 

  - Não diga isso! Ainda irei fazer 18 anos!  - corou.

 

  - Esposa tão jovem... E Rainha também. Mas você parece tão feliz, apesar de estar incomodada com tantos estranhos. Deve ser por isso que Hak está tão superprotetor esta noite. - comentou.

 

  - Sim... Ele parece bem preocupado com tudo isso. Também estou com medo de fracassar e de não ser uma boa rainha. São tantas responsabilidades... - disse Yona melancólica. 

 

  - Se até mesmo Soo-Won pôde aprovar a sua ascensão deve ser porque ele enxergou o seu incrível potencial. Não se sinta insegura. Sua família não te abandonará por nada. Nem eu. - disse Lili num sorriso.

 

  - Obrigada. Pode contar comigo sempre que precisar também. - disse Yona abraçando-a sem se importar com os olhares.

 

  - Quem liga para as aparências, não é? - riu Lili a abraçando.

 

  Quando Lili foi cumprimentar os demais amigos de Yona, a ruiva aproveitou para fugir de vez dali e tomar um pouco de ar. Era inegável que aquelas roupas e pessoas roubavam um pouco sua energia, principalmente porque ainda estava incrédula sobre seu casamento e sua coroação.

 

  Sozinha, encostou as costas numa pira do Castelo perto do Jardim e respirou os ares bons e verdes, enquanto absorvia a energia da linda Lua cheia que iluminava seu corpo.

 

  - Foi uma bela coroação. - ouviu alguém dizer.

 

  Como a voz era familiar, desencostou-se da pira um pouco aflita.

 

  - Soo-Won... - murmurou pacificamente, vendo-o se aproximar e admirar o luar também.

 

   Com a aparição do rapaz, a Yona que assistia as memórias apenas atentou-se ao momento com seus olhos cansados de tanto chorar e sem energia para falar ou pensar qualquer coisa complexa.

 

  - Eu também fugi da minha coroação. Eu estava... - hesitou, mas concluiu. - de luto por você e pelo Hak. Pensei que haviam morrido.

 

  Acalmando-se, tornou a se encostar na pira.

 

  - Eu não esperava vê-lo aqui.

 

  - Eu sei que não. Mas eu precisava parabenizá-la. - respondeu serenamente.

 

  - Era pra ser um dia especial, mas não me sinto especial. Me sinto apenas eu mesma vestindo roupas que nunca pensaria em vestir e uma coroa pesada demais para passar o dia. - desabafou.

 

  - É semelhante a um casamento, então. - comentou.

 

  - Não. Meu casamento foi feliz e eu me senti especial, num dia especial, mesmo que eu não vista mais àquelas roupas. - retrucou pacificamente.

 

  - Imagino que sim. Você parecia feliz antes da cerimônia de coroação. - observou. 

 

  - Aproveitando que você veio me ver, teria algum conselho de como governar? - perguntou Yona aflita.

 

  Após alguns segundos em silêncio, Soo-Won respondeu-lhe:

 

  - Sabe... Passei minha vida inteira me preparando para ser rei e não durei nem dois anos completos. Acredito que não teria bons conselhos para lhe dar. 

 

   O silêncio reinou por um tempo e nenhum dos dois saíam dali. Estavam interligados numa linha tênue de ódio e amor que era frágil e delicado. Apenas conversavam sem espadas e gritos que já estavam cansados demais usarem como armas um contra o outro.

 

    -Mas se me permite dizer... - começou o Soo-Won quebrando o silêncio. - Aproveite os seus preciosos momentos com a sua família o máximo que puder. Porque quando se tudo, às vezes, não se tem nada. Mas agora você tem tudo e muito mais além.

 

  - Soo-Won... - chamou-o uma última vez e perguntou-lhe serenamente:

 

   - Enquanto você reinou... sentiu que tinha tudo o que queria ou apenas o nada, como se nada disso tivesse o real valor que pensava que teria?

 

  Ele não respondeu. Ficou apenas em silêncio até que Yona virou-se para encará-lo.

 

  Retirando-se, o rapaz disse serenamente para a jovem Rainha:

 

  - Desejo-lhe paz e prosperidade para seu reino e sua família. Que fiquem bem.

 

  - Nós ficaremos bem. Todos nós. - respondeu-lhe um pouco emotiva, pondo a mão delicadamente sobre o seu próprio ventre.

 

   Então, Soo-Won percebeu a mensagem por trás daquele singelo gesto. No ventre da nova rainha havia um bebê cuja existência era de pouquíssimas semanas e desconhecida por todos, exceto eles dois no momento. Agora ela seria não apenas rainha, mas também esposa e mamãe e era por isso que estava tão assustada.

 

  Um pouco emotivo também, Soo-Won tentou disfarçar suas emoções de saudades pelos velhos tempos. Nisso, reteve-se apenas a dizer docemente um singelo:

 

  - Parabéns... Tenho certeza de que Hak ficará feliz com a notícia.

 

  - Sim. - disse Yona, também disfarçando suas fortes emoções.

 

  Trocaram olhares doloridos pelos velhos tempos, mas alegres pelo futuro maravilhoso que estaria por vir. 

 

  Sabiam que essa maravilha não aconteceria com eles juntos, mesmo que apenas amigos ou companheiros, pois a verdade era que as dores do passado não poderiam ser inteiramente cicatrizadas, por mais que agora - mais sábios - entendam terem sido necessárias.

 

  Então, Yona o viu partir dali pelos jardins lentamente. Em seu íntimo, ambos sabiam que seria a última vez que se veriam naquela vida. Talvez estivesse esperançosos de que na próxima os erros cometidos nessa pudessem ser perdoados e seus pecados redimidos de modo que os três amigos pudessem novamente olhar para os céus com tremenda alegria pura e infantil.

 

   Quando ele já estava imperceptível aos olhos da ruiva, ouviu um barulho atrás de si e logo percebem quem era o responsável por ele.

 

  - Hak... - assustou-se com medo do julgamento dele.

 

 - Então... Ele está mesmo indo embora? - perguntou Hak, vendo-o partir.

 

  - Ao que parece, sim... - respondeu-lhe.

 

  - Você o mandou ir embora? - perguntou curioso.

 

  - Não. Foi você, então? - perguntou em igual tom.

 

  - Não. O Castelo é seu agora, princesa. Não... Rainha. - disse desacostumado com o termo. As ordens são suas. 

 

  Vendo-o desaparecer, Hak confessou a Yona com um olhar distante:

 

   - As últimas palavras dele para mim foram "Obrigado por ter protegido a Princesa Yona".

 

  Passaram um tempo em silêncio até que Yona, refletindo, perguntou ao Hak temendo a resposta:

 

  - D-Desde quando... você ficou aqui bisbilhotando a nossa conversa?

 

  - Desde o início. Eu não poderia deixar a minha rainha sozinha, não é mesmo? - respondeu tranquilamente.

 

  - Então... V-Você ouviu tudo? - gaguejou corando fofamente, pegando no seu ventre. Não que estivesse algo a esconder de seu marido, mas havia uma notícia que ele não deveria saber por hora.

 

  Aproximando-se dela, perguntou-lhe com certo brilho esperançoso no olhar:

 

  - É verdade o que disse? Quero dizer... Eu entendi bem o que você quis dizer? - hesitou ao perguntar.

 

  - Eu não sei o que você pensa o que eu quis dizer. - disse tímida, desviando o olhar. Estava nervosa da cabeça aos pés.

 

   - É verdade... - começou pegando no ventre dela. - que está esperando um bebê nosso?

 

   Ruborizando, Yona começou a ficar um pouco nervosa e sem jeito com as palavras. Não era a forma ideal que esperava dar-lhe a notícia, mas ele parecia ansioso pela resposta de tal maneira que não teve como mudar de assunto.

 

  - Eu... - hesitou ao olhá-lo nos olhos. Ele parecia ávido por uma resposta, deixando-a ainda mais nervosa. - você... ficaria com raiva de mim se eu... dissesse... que... sim...? - respondeu encolhida e acanhada.

 

  Com a possibilidade da paternidade, Hak sorriu  suavemente com agradável esperança, fazendo com que Yona percebesse que a notícia não era - nem de longe - desagradável ao marido.

 

   - Como eu poderia ficar com raiva da minha rainha, da minha esposa e agora... a mãe do meu bebê? - perguntou-lhe apaixonadamente, deixando-a corada.

 

  Em seguida, demonstrou sua felicidade com um beijo cheio de paixão que ela respondeu em igual altura. As mãos dela se prendiam ao pescoço dele da mesma forma em as dele se agarravam a sua cintura num desejo mútuo de não se apartarem daquele precioso ósculo.

 

   - Sim... - sussurrou ela docemente entre os beijos. - Estou esperando um bebê.

    

  O coração de Hak acelerou alegre de tal maneira que imaginou que poderia estar sonhando. Ainda assim, não poderia imaginar uma realização mais doce do que essa para o casal. Se não fosse real, saberia que não teria uma imaginação tão fértil ao ponto de criar tamanha fantasia prazerosa. Por isso, teve certeza de que não era um sonho e sim realidade o fato de estar nos braços da mulher que tanto amava e que agora nutria em seu ventre o fruto desse amor.

 

  Ajoelhando-se perante a princesa, agarrou-se a sua cintura e depositou-lhe um gentil e demorado beijo em seu ventre para, em seguida, agarrar-se nele com um abraço.

 

  - Eu não poderia estar mais feliz do que isso... - disse emocionado apertando o abraço.

 

  - Eu... também não, Hak. - respondeu Yona com voz emocionada e chorosa. - Obrigada...

 

  Agarrando-se nos negros cabelos do rapaz, Yona deu-lhe um beijo neles. No entanto, seu marido não se desprendeu do ventre dela, tamanha era sua felicidade.

 

   E, deixando uma fina lágrima de alegria descer, Yona lhe disse em tom verdadeiro:

 

  - Eu te amo, Hak. - disse erguendo o rosto do rapaz para si e aproximando os lábios. 

 

  - E eu sempre irei te amar, minha rainha, minha princesa. - respondeu-lhe, selando o beijo que ambos tanto queriam dar.

 

   Observando um momento que oscilava em tristeza, mas que findou em alegria, a Yona que observava essa lembrança ainda estava despedaçada. Por isso, suas lágrimas voltaram para o seu rosto, mas agora eram um misto de melancolia e esperança de uma vida mais alegre.

 

  Voltou, então, para o quarto do futuro, onde permaneceu um pouco menos triste do que estava porque o que vira não foi apenas a despedida do assassino, mas também o início de um novo começo da sua vida.

 

 Notou, no entanto, que não era apenas ela ali, pois, no fundo do quarto, estava Eleanòr de expressão entristecida que deixava transparecer. 

 

  - Eu... - hesitou. - perdi meu querido irmão há muitos anos atrás. - revelou capturando a atenção da ruiva. - Meus irmãos e eu queríamos que ele tivesse voltado para casa, onde estaria seguro, mas ele prefiriu viver. Então, não lamento mais tanto a sua morte. Porque antes de morrer, ele viveu.

 

  - Eu não consigo não lamentar a morte do meu pai. - confessou Yona.

 

  - Você precisa comer alguma coisa... - disse abatida.

 

  - Eu não tenho fome para comer. - retrucou fragilmente.

 

   Olhando para Yona agora não apenas com tristeza, mas também severa preocupação, sussurrou com seu olhar distante:

 

  - Talvez tenha sido um erro te trazer para conhecer o seu futuro...

 

  - Por que você pensou nisso apenas agora? Eu avisei desde o primeiro dia que isso não era um presente e sim uma maldição... - disse Yona chateada.

 

  Enfim, revelando sua preocupação que a levara desde o início a conversar sobre aceitação da morte, a cartomante confessou-lhe o que era de seu conhecimento e a fonte de sua aflição:

 

  - Porque os seus demaios e fraquezas... a razão de você estar tão fraca aqui não é apenas porque está faminta enquanto faz viajens no tempo. Você está ainda mais fraca porque está gravida.

 

  Yona não pôde deixar de se surpreender com aquelas palavras. Era um choque tal descoberta para si, pois sequer imaginava. Ainda assim, mesmo espantada, não pôde deixar de pegar no ventre que abrigava uma criança de pouquíssimas semanas de gestação.

 

  No entanto, seu espanto piorou quando, em seguida, Eleanòr complementou essa notícia com uma trágica:

 

  - Mas você está matando o seu bebê. E ele morrerá de fome primeiro do que você se não seguir em frente. A vida dele está nas suas mãos agora.

 

  Levantando-se, Eleanòr foi até a janela e olhou para os céus angustiada.

 

  - Eu preciso ir agora. - anunciou.

 

  - O quê? I-Isso... Isso não é uma brincadeira ou um truque seu para abalar o meu luto...? - perguntou incrédula e nervosa, ainda agarrando a barriga.

 

  - Eu sugiro... - começou sem olhar para a ruiva. - que tire apenas mais um dia de luto pelo seu pai, no presente. Chore, sofra, lamente... Mas se isso continuar aqui no futuro, a próxima morte que irá se lamentar é a do seu próprio filho que matará ainda no ventre.

  

   De fato, foi uma notícia espantosa de se receber. Antes mesmo dele nascer, soube que desde já matava o seu próprio filho aos poucos, condenando-o a uma morte verdadeiramente cruel e injusta. Então a cartomante deixou-a ali sozinha para que refletisse sobre o verdadeiro valor da vida que ela estava matando brutalmente.



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