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História Dez Dias no Futuro - Capítulo 9


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Capítulo 9 - Quarto Retorno - Definição de Amor


  Com os olhos doloridos de tanto chorar, Yona acorda em seu presente no nascer do Sol.

 

  Estava de pensamento lento por conta do coração machucado. 

 

  Após tudo o que testemunhou não poderia ser diferente. Acabou assistindo o seu amado Soo-Won assassinar o seu querido pai, bem como a prontidão dele em vê-la ser executada sem nenhuma misericórdia.

 

   A dor era imensa. Todos os seus sonhos matrimoniais já não eram mais doces ou amáveis e sim pesadelos disfarçados.

 

   Soo-Won era como uma árvore podre por dentro que mostrava beleza e esplendor nos frutos em que fazia crescer. Todavia, bastava aproximar-se dessa árvore e cortar-lhe um pedaço que veria a podridão em seu interior. A planta e seus frutos eram podres e o sabor que ela oferecia era amargo e venenoso, igual de uma serpente.

 

  Talvez uma cobra definisse-o melhor, pois mesmo em morte, uma árvore podre consegue transpassar vida aos que permanecem através dos nutrientes que oferece a terra ao morrer.

 

  Mas uma cobra também não serve. Soo-Won era algo que Yona não conseguia definir com palavras que remetessem a objetos concretos. Características abstratas definiriam-no melhor: cínico, falso, argiloso, maligno.

 

   Jogada aos lençóis, a ruiva olhava os raios do Sol começarem a surgir pelas janelas de seus aposentos sem nenhuma intenção de levantar. 

 

  Sem Hak ali para consolá-la na cama, seu objetivo de definhar até morrer poderia se tornar realidade. 

 

  Foi então que se lembrou de Hak...

 

  - Você realmente vai desperdiçar todos os meus presentes? - assustou-a Eleanòr em tom cansado. - E eu ainda tive todo o trabalho de te acorda antes do nascer do Sol.

 

  Ela estava sentada e encostada no canto da parede. Seu olhar estava baixo e reflexivo. Não parecia mais aquela garotinha fofa, pois seu rosto era meigo, mas suas expressões não mais.

 

   - Você andou desaparecida... Você sabia, não sabia? Sobre o Soo-Won... Sabia que ele assassinaria o meu pai e era por isso que meu destino não estava interligado com o dele em matrimônio. - disse Yona com a voz quase chorando.

 

  - Eu tenho minhas ocupações. Além disso, há alguns inatisfeitos com os presentes que lhe dei. - respondeu.

 

  - Você sabia? - insistiu Yona.

 

  Após alguns segundos em silêncio encarando a ruiva, a cartomante abaixou o olhar, dizendo com serenidade:

 

  - Sim. Eu sabia que Soo-Won assassinará o seu pai. Seu pai morrerá pelas mãos daquele que tanto ama. É assim que deve ser. 

 

  - Se você sabia, por que me deu esses presentes?... Por que me fez assistir a tudo o que aconteceria no meu futuro?... Por que não me impediu que eu tentasse... matar... o Hak...? - disse fracamente, deixando uma lágrima.

 

  Suspirando, disse calmamente:

 

  - Eu não queria que aproveitasse o meu presente dessa maneira, apesar de já saber que você faria o que bem entende. Era para você aproveitar as coisas boas, mas o paradoxo é que os seres humanos só entendem o que é verdadeiramente bom quando experimentam o que é verdadeiramente ruim. Você só acreditaria se visse com os seus próprios olhos e só poderia aproveitar genuinamente o futuro que tem dessa forma.

 

  - Mesmo vendo e até mesmo sentindo... dói saber... que o homem que tanto amei... Na verdade... é... - não prosseguiu por causa das lágrimas.

 

  Com uma breve pausa, Eleanòr retornou a conversar com a jovem maduramente:

 

  - Algumas pessoas tentaram definir o que era o amor. Teve diversas definições nessa discussão. Uma pessoa disse que o amor era desejo por aquilo que te faz falta e te completa, é o antigo conceito conhecido de que os opostos se atraem, pois a alma busca o seu complemento. Outro riu e disse que o amor era desejo por aquilo que faz falta, mas que na presença se esvai e o amor se acaba, pois o objeto de desejo foi saciado na posse, sendo assim, não se pode amar o que se tem, visto que só se deseja o que não tem. Teve outro também que disse que o amor era desejo na presença, pois era na presença do objeto amado que o amor se nutria e florescia.

 

  - O que isso tem haver com a nossa conversa? Amor não é o que sinto. É apenas raiva e tristeza. Não consigo parar de pensar na morte do meu pai. Não consigo parar de sofrer pela maneira em que ele foi morto. - disse Yona chorando.

 

  Ouvindo Yona, Eleanòr prosseguiu sem mais rodeios:

 

  - Você uma vez me disse que só poderia ser feliz se tivesse amor. Então eu te perguntei o que era o amor. Você me respondeu que é a apreciação da companhia do amado, independetemente das circunstâncias e do tempo. Eu te pergunto: você ainda ama o Soo-Won da mesma intensidade que o amava, indepentemente das circunstâncias e do tempo ao ponto de desejar a sua companhia para sempre?

 

  Nesse instante, Yona abalou-se. Sentia vergonha de seus sentimentos que não queria comentar. Era dolorido pensar no amor agora. Parecia algo incansável e inexistente.

 

  - Certe vez, disseram que quando se ama algo ou alguém, quanto mais se conhece do objeto amado, mais amor se sente por desfrutar da descoberta. Afinal, não se pode amar verdadeiramente aquilo que se desconhece, senão torna-se apenas um sentimento ilusório e passageiro. Nesse sentido, volto a perguntar se, conhecendo mais acerca da essência e da verdade por trás do seu amado, você continua a amá-lo inabalavelmente.

 

 Não suportando mais as perguntas incisivas e precisa, Yona chorou ainda mais, dizendo quebrantada:

 

  - Por que você está fazendo isso? Por que está me torturando desse jeito? Não foi o bastante para você?

 

  - Não é dor o que quero transmitir para você. Apenas conhecimento e reflexão. Porque o conhecimento liberta, na mesma medida que a ignorância aprisiona. Mas o caminho da sabedoria por vezes se mostra árduo e dolorido. - respondeu em sincera serenidade. 

 

  A jovem continuava chorando no seu luto, apesar das palavras.

 

  - Eu não vou conseguir prosseguir sabendo das coisas que eu sei. Mesmo sendo prisioneira, na ignorância o fardo carregado era menor. Agora, me parece que nunca mais poderei ser feliz de novo. Eu não me sinto livre quando estou repleta de sofrimento. - disse Yona soluçando.

 

  - A felicidade é uma discussão para outro momento, mas desde já eu comento que certa vez disseram que a alegria dos momentos vividos são compartilhados por aqueles que amamos. Agora eu lhe pergunto: no futuro em que você parecia feliz com as pessoas que amará, quem permanece ao teu lado zelando pelo teu riso?

 

  Yona parou de chorar por um momento. Reflexiva, começou a se lembrar de seus momentos e das pessoas que compunham seu ciclo de amores.

 

   Então murmurou o nome de todos eles na medida em que se lembrava de seus nomes e sorrisos compartilhados:

 

  - São numerosos... Todos eles... Mundok... Raiden... Kija... Zeno... Hayato... Yasuhiko... Yun... Aiko... Kentaro... Shin-ah... Harumi.... Jae-ha... e... e... Hak... Hak! - afirmou por último um pouco surpresa.

 

  - Sim. Hak. É aí aonde quero chegar, pois foi o motivo de eu ter me dado o trabalho de te acordar antes do Sol nascer, mas o tempo passa tão rápido...

 

  - Antes do Sol nascer? Por que você faria isso? - indagou curiosa, tentando refletir sobre os fatos.

 

   Respirando fundo, a cartomante disse-lhe pacientemente:

 

  - Aonde o rapaz está agora mesmo? O que ele deveria fazer até o nascer do Sol? 

 

  - Ainda tem dez minutos antes dele partir. - advertiu.

 

   Pensativa, Yona refletiu sobre os últimos acontecimentos até chegar a conclusão de que a essa hora, Hak deveria estar bem longe do Castelo por conta de suas malditas ordens.

 

  Tudo isso porque confundiu-o com o assassino de seu pai e o exilou do Palácio sob pena de executá-lo por traição. O histórico de arrependimentos dela não poderia ser maior.

 

   - Essa não! - disse culpada se levantando com pressa e saindo de seu quarto sem olhar para trás.

 

  Correndo pelo Palácio, Yona procurava qualquer sinal dele ou de qualquer outra pessoa que soubesse o seu paradeiro. 

 

    A pressa era enorme e ela corria como o vento, sendo distraída por algumas dezenas de soldados que acabavam de sair da reunião mais cedo que tiveram. Por isso, todos estavam meio sonolentos.

 

   Vendo que eles poderiam fazer ideia de onde o General Hak porderia estar, perguntou-lhe angustiada:

 

  - Onde está o Hak?  

 

  - Ele... Acabou de terminar uma reunião conosco. Mas eu o vi indo até o estábulo. - disse um dos soldados.

 

  Sem mais, nem menos, ela voltou a correr. Dessa vez, foi até o estábulo apressadamente.

 

  Chegando até lá, adentrou o recinto sem cerimônia e acabou encontrando o rapaz montando sua cela.

 

  Quando ela a viu, seu olhar parecia angustiado, mas também agradecido por ter tido a oportunidade de vê-la uma ultima vez. No entanto, não a encarou por muito tempo, virando o rosto e abaixando o olhar.

 

  - Estou me retirando do Castelo agora mesmo, Vossa Alteza. Os soldados estão reorganizados para uma segurança mais eficiente de Vossa Majestade. Não se preocupe. O preço do cavalo também foi pago e carrego comigo apenas as minhas coisas. Não estou roubando nada. Então não precisa se preocupar. - disse respeitoso, mas não teve nenhuma resposta.

 

  Estranhou o silêncio, mas não teve coragem de se virar. Apenas soune que ela permanecia ali quando foi abraço pelas costas de maneira brusca e repentina.

 

  - Não vá. - chorava agarrando-se nas vestes deles. - Por favor... Fique aqui comigo. Não saia do meu lado quando mais preciso de você.

 

  O rapaz estava pasmo com os seus gestos e palavras. A maneira como ela suplicava pela sua presença o comoveu por completo. 

 

  Mesmo as palavras e as ameaças da jovem não poderiam afastar o que ele sentia por ela.

 

   Abraçando-a repentinamente de volta, respondeu-lhe:

 

  - Não há nada nesse mundo que eu queira mais do que ficar ao seu lado.

 

    Yona apenas chorou ao se lembrar de seu gentil futuro e soube que as palavras dele eram verdadeiras. Não se separariam tão fácil assim.

 

   Apertando o abraço, Hak perguntou-lhe aflito:

 

  - A Princ-.... A Vossa Alteza realmente... acredita que eu poderia machucá-la ou ao Rei Il? Eu peço perdão se em algum momento eu passei essa terrível impressão.

 

  - Não. Você jamais faria isso. Você nunca nos machucaria. Eu... Eu... Eu... quem peço perdão pelas minhas palavras injustas. Eu sinto muito, Hak. - disse entre lágrimas e soluços.

 

  - Você não entende que já está perdoada? - perguntou suavemente, abraçando-a ainda mais.

 

  E então lembrou-se Yona do que o Hak do futuro lhe disse de maneira tão verdadeira:

 

  " Princesa! Você não entende que já está perdoada? Não entende que não há nada que você faça que eu não consiga perdoar e continuar ao seu lado?"

 

   "É porque eu te amo, Princesa... Eu a amo e é por isso que eu jamais sairei do seu lado."

 

  - Eu vou ficar aqui no Castelo, então não precisa chorar. - disse enxugando suas lágrimas.

 

 

   "Hak... Se eu te dissesse que você não mudará nada, acreditaria em mim?" pensou enquanto ele a consolava. "O fardo do conhecimento se tornou mais leve com a verdade porque você me ajuda a carregá-lo. Obrigada..."

 

   - Obrigada... Hak... - sussurrou num último choro ao abraçá-lo.

 

  - Não há o que agradecer. - respondeu-lhe docemente, correspondendo o seu abraço mesmo que estranhando-a em seus amáveis gestos.

 

   


Notas Finais


"O Banquete" de Platão. Recomendo.


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