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História Diário de um vampiro - Capítulo 1


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Notas do Autor


Estou uma década atrasado. Mas eu não poderia deixar de não escrever alguma coisa nesse fandom.

Capítulo 1 - Morte


E então eu me vejo outra vez em frente ao abismo que se abre a meus pés. Poderia ser menos doloroso do que o desespero que me aflige tenta provar, mas não é tão simples assim entender uma perda que parece tão grande quanto a necessidade vital de beber sangue. Difícil de explicar o que é algo que não é de nossa natureza, pois criaturas como os vampiros não deveriam sentir esse tipo de emoção. Não deveriam ter o direito de provar esse sabor, que para alguns não significa mais do que um aperitivo, mas para mim já havia se tornado uma obsessão.

Ao me despedir uma última vez dessa alma tão gentil, pura e inocente, meu corpo frio se torna ainda mais gélido, e é quase impossível sentir o mundo que me cerca. As pessoas choram enquanto as pás de terra vão cobrindo o caixão, e eu vejo um pai, uma mãe, amigos e parentes em prantos por causa de uma morte.

A todo momento eu desejo que fosse a minha. Minha morte não passaria despercebida, não posso afirmar isso. Mas sei que iria doer menos. Pelo menos iria doer menos em mim, iria ser nada mais do que um suspiro antes do fim que me abraçaria pela última vez.

Achei que esse frio iria me abraçar há um século, mas uma nova chance surgiu. Agora, o frio me coloca distante da única coisa que parecia importar em minha vida. Da única coisa a qual eu conseguia enxergar longe no futuro. Não consigo entender como é possível perder tanto de si, quando eu sequer tinha todas essas coisas. Mas agora eu as sinto. As sinto se esvair conforme o caixão some no chão.

O sentimento de vazio toma conta de mim, e eu me sinto mais fraco do que sempre fui. Parte de mim não se importaria em simplesmente deixar que meus instintos tomem conta, deixar que a sede do sangue que há tanto tempo não provo por prazer, se aposse de mim e me transforme naquele monstro do qual eu sempre tentei a proteger.

Se existem pessoas como Charlie, Billy, e até Jacob, pessoas que me olham com desconfiança e desgosto, nos olhos de cada um a certeza de que a morte dela é culpa minha, eu não posso deixar de concordar com eles e aceitar minha culpa.

James queria tirar de mim o que era mais importante, como se fosse um esporte para ele. E em troca, ele morreu, vítima de sua própria ganância, e da fome de justiça da minha família. Mas justiça para quem?

Bella morreu.

Antes sequer de um poder a salvar, antes de qualquer um poder salvá-la. Tudo por culpa minha, culpa da minha inabilidade de manter uma pessoa em segurança. Não estive tentando salvar uma cidade toda, era apenas uma garota, e nem isso consegui. Antes mesmo de qualquer outra pessoa me crucificar, eu mesmo subo ao altar e me prostro em frente à cruz.

Mas de que adianta ser crucificado se os pregos não irão me matar? Além disso, o pouco que ainda me liga à ela reside em meu peito, a promessa que ela me fez jurar antes de soltar seu último suspiro.

Proteger Charlie.

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Como se o céu estivesse tentando demonstrar sua tristeza, a manhã do enterro de Bella foi sob chuva torrencial. A escolha de Forks como local para seu descanso eterno havia sido uma surpresa para todos, especialmente quando Charlie encontrou uma carta no quarto dela. Sem ninguém saber, ela havia deixado claro que seu lar era Forks, e era ali que queria ficar.

A mãe de Bella tentou argumentar contra, mas caiu aos prantos ao ver a carta. Se Edward não soubesse a forma como ela morreu, talvez teria dúvidas sobre um possível suicídio. Mas era impossível tirar as imagens de sua cabeça. Tudo era um filme que passava e se repetia sem fim, e sem deixar sua mente em paz.

“Você deveria prestar seus respeitos para Charlie,” disse Alice quando ela e Jasper passaram por Edward no caminho para fora do cemitério.

Quase como um suspeito pelo crime, Edward estava dezenas de metros longe, mas o olhar de muitas pessoas ainda se dirigia a ele. Talvez alguns pensassem que ele não tinha estômago para chegar perto--mal eles sabiam o que Edward já tinha visto em sua vida.

“Eu não sei se serei bem-vindo perto dele.”

Alice suspirou. “Não é uma questão de ser bem recebido pelo homem que perdeu a filha, mas sim mostrar que ele pode contar com você neste momento.”

Edward queria rebater por cima da insistência de Alice, mas com um leve passeio na mente dela, ele viu que algumas imagens de um futuro incerto estavam ali. A voz embargada de Charlie a agradecer, o olhar perdido em seu rosto, a mão a tocar o ombro de Edward. Quem sabe não seria tão ruim como ele imaginava.

“Não precisava nem ter olhado dentro de meus pensamentos,” ela disse, antes de se virar e ir, mas não sem alcançar a mão dele e apertar com força. Em qualquer humano aquela força iria ser suficiente para quebrar uns dedos.

Por mais um momento, Edward ficou a pensar. Então ele encontrou em si a coragem e se dirigiu até o local onde Bella estava sendo enterrada. Apenas restaram os amigos mais próximos dela e a família. A cada passo próximo a eles, Edward sentia a pressão da realidade. Todos tinham algo contra sua presença ali, seja de forma direta ou apenas em pensamento.

Ele assentiu para os adolescentes da escola, e então se encaminhou para perto de Charlie, a única pessoa que ele realmente conhecia um pouco mais neste grupo. E ainda assim, eles não eram mais do que uma família em processo de aborto, uma relação construída por causa de Bella, e destruída por causa dela.

Assim que ficou de frente para o homem, e de costas para o caixão, Edward tentou buscar as palavras certas.

“Eu gostaria de pedir desculpas por não protegê-ela.” Mesmo com o coração congelado, os olhos de Edward queriam se encher de lágrimas. “Não fui digno de ficar junto dela.”

Charlie olhou para Edward como se fosse um desconhecido, mas então seu olhar se fixou e as emoções retornaram a seu rosto.

“Obrigado, garoto,” ele disse, e então estendeu o braço para colocar sua mão no ombro de Edward. A proximidade entre os dois parecia estranha, mas era reconfortante. E ele se sentiu abraçado mesmo sem pedir.

Edward não queria forçar sua estadia, por isso deu meia volta para ir embora. Só então seus olhos foram para o caixão, quase coberto de terra agora. A imagem não tinha o mesmo impacto que o último suspiro de Bella, mas a finalidade do ato parecia encerrar um momento na vida de Edward, curto como o bater de asas de um pássaro, mas tão brilhante como o sol ao iluminar a pele dele.

Sem querer ser linchado, Edward foi-se. A tristeza em seu peito fazia ele sentir a falta de algo que nem tinha mais, a sensação de ser humano. Se ele fosse, seria tão mais simples terminar sua vida naquele momento, mas a promessa a Bella soava em sua cabeça uma e outra vez. Ele não queria ter prometido aquilo, mas mesmo que nem tivesse jurado, um pedido dela seria uma ordem.

E Edward não teria que viver muitos anos a mais do que já havia vivido, essa era a verdade. Ele já contava os segundos para o dia em que não precisaria mais cuidar de Charlie. Porém, até aquele momento, ele tinha um propósito.

Ainda assim, não parecia ser o suficiente para continuar a viver.

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A velocidade do carro era perigosa para qualquer pessoa ao seu redor na estrada, mas pelo menos a península de Olympic o abraçava com sua floresta de coníferas, e mais ninguém estava ali àquela hora da noite. Ele foi em direção ao norte, tentando fugir de tudo que era conhecido, mas os Cullen conheciam os cantos mais escondidos da região, pelo menos aqueles em que eles poderiam colocar seus pés.

Edward até pensou em ir até La Push, mas não tinha vontade de depois limpar o carro da areia do mar, se ele decidisse se aventurar nas águas tempestuosas.

Foi para o outro lado, então. E quando já estava quase em Port Angeles, Edward seguiu pela 101, sem nem pensar onde queria ir. Teve que parar em um posto de gasolina para abastecer, mas depois seguiu sem rumo. Ele pegou a direção do leste e depois seguiu a estrada para sul, em direção a Olympia, antes de mover para oeste outra vez na direção do mar, ensaiando uma volta para Forks. Ele continuou puxando o seu Volvo até o limite da velocidade, querendo que lágrimas caíssem de seus olhos, mas eles nunca iriam cair.

Ele queria sentir e processar essa perda, mas era difícil. Quase impossível, tão impossível que no meio do caminho, em Hoquiam, Edward fechou seus olhos e só ouviu o estouro do carro se enrolando em um posto de luz, carregando os fios e tudo junto por alguns metros, combustível explodindo ao pegar fogo enquanto o carro se destruía.

Ele sentiu e não sentiu a dor da batida. E a maior frustração foi sair do carro a pegar fogo intacto. Caminhando como se nada tivesse ocorrido. Na noite escura, ninguém passou pela estrada, e Edward queria ligar para a polícia e informar que um acidente havia ocorrido, mas ele não o fez. Iriam conectar ele ao carro, e quem sabe aquela seria uma oportunidade de ele fugir para longe e fingir que morreu.

Mas havia Charlie em seu caminho.

Edward gritou suas frustrações. E então saiu correndo pela mata. Não havia um objetivo na sua escapada, ele só queria esquecer de tudo, mesmo que fosse impossível. Ele seguiu correndo pela floresta sem rumo, cada vez sentindo que estava próximo de Forks, e do território que não deveria adentrar, mas uma parte dele queria apenas se perder entre os lobos e deixar que terminassem com ele. A cada hora a mente de Edward queria criar um cenário em que ele poderia finalizar sua existência, apenas para não sentir a dor que acometia seu corpo, e sua alma.

Ele ouviu de longe o barulho de lobos pela floresta, pois eles sabiam que ele estava ali, sabiam que ele não deveria estar correndo por aquelas terras, e quando Edward parou por um momento para se apoiar contra uma árvore, ele ouviu os uivos. Um, depois o outro, depois o terceiro, correndo a distância da reserva indígena, e do território que estava protegido por eles.

Pegando o rumo de Forks, Edward desviou das terras dos lobos, e foi para casa. Quando chegou lá, todos estavam dentro, mas Carlisle ficou à porta da casa o esperando. Edward não queria olhar na cara do homem que era seu pai, não pelo fato de ter vergonha do que sentia por dentro, mas por não querer mostrar a dor em seu rosto. Ele não queria deixar a todos mais preocupados com ele do que estavam.

Edward também sentiu um cheiro intruso em seu ambiente familiar, mas não pensou naquilo agora.

“A polícia achou seu carro,” Carlisle disse ao invés de cumprimentar Edward, que apenas assentiu.

“Eu não tentei me matar,” ele falou, como resposta.

“Não creio que você fosse conseguir nem se estivesse tentando.”

Edward sacudiu a cabeça, enfrentando a triste realidade que era a sua.

“Você tem uma visita. Ele está na sala. Nós vamos dar privacidade a vocês.”

Com aquele aviso, Edward lembrou de seus sentidos, e então percebeu quem estava em sua casa. Era claro que os lobos ainda não tinham recebido ele em seu meio, porque se tivessem, Jacob não estaria ali na sala da casa dos Cullen. Era quase certo que ninguém nem sabia onde o garoto estava, porque se soubessem, viriam correndo atrás dele.

Se bem que lobos tinham sentidos aguçados. No fundo de sua mente, Edward pensou na possibilidade de os lobos atacarem sua família, mas até onde sabia, Carlisle revelou ao chefe do bando que o que aconteceu com Bella não foi culpa deles, e por isso o tratado não havia sido quebrado.

Quando Carlisle correu em direção à floresta, Edward respirou fundo ao entrar pela porta de casa. Os vidros já tinham dado conta de quem estava à sua espera, se sentindo um invasor. Um lobo em meio aos vampiros, mesmo que Jacob ainda não fosse um de verdade.

Edward fechou a porta atrás de si, e se virou para Jacob.

O garoto à sua frente parecia muito mais novo e indefeso àquele momento. Mas então seus olhos se encheram de fogo, e de dor.

“A culpa é sua,” Jacob cuspiu. Edward não tinha nenhuma vontade de lutar.

“Eu sei,” ele admitiu.

E então Jacob avançou contra ele, pronto para brigar.

 



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