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História Diário de um vampiro - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Novo cheiro


Todos ficaram a se perguntar o motivo de aparecer um novo lobo em La Push. Não que fosse algo completamente inesperado, de anos em anos alguns lobos novos apareciam pra tomar o lugar daqueles que estavam se iam.

Eu conheci alguns lobos durante minha existência, e as impressões que ficaram não são exatamente muito positivas. Acho que parte disso vem da nossa rivalidade direta, somos o oposto, e sempre estamos em guerra, de uma forma ou outra. Talvez não seja a existência mais benéfica, mas para quem flertava com a imortalidade, era necessário criar conflitos, ter uma vida com aquela possibilidade de que nada iria durar para sempre.

Quando não se sente digno de estar vivo, a imortalidade subitamente parece uma prisão e não um presente. Neste momento, por exemplo, eu sinto como se minha vida não fosse mais do que uma sequência sem fim de dias que pareciam não querer passar. Eu tenho uma missão, a de proteger Charlie, mas isso parecia não ser o suficiente. Minha mente fica perdida na dor de uma decepção, na dor que a morte trouxe para mim.

Sempre estive a flertar com o desconhecido, e com esses momentos de precariedade cognitiva que parecem agora não sumir mais de mim. Talvez por ser tão difícil matar um vampiro é que a vontade de conquistar essa barreira parece ainda mais interessante, ainda mais chamativa para todos.

Mas de volta aos lobos. Sempre senti que essa volatilidade da nossa relação era algo plantado. Uma farsa para que as espécies continuassem a se digladiar, continuassem a brigar sem ter uma esperança de algum dia ser feliz juntas. O que na verdade, é impossível. Bom, ou seria impossível.

É só sentir o cheiro de um lobo para ter uma ideia de como não queremos ser parte de algo com eles. Nosso corpo rejeita isso, a biologia do que somos já demarca essa diferença, e não é fácil passar por cima disso.

Mas é claro, não tem como fazer nada contra o que a vida nos joga. E estamos sempre tentando desafiar as leis que nos regem. Mesmo sem querer.

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Edward passou as próximas semanas em uma rotina cansativa, mas de certa forma, aquela rotina fazia ele sentir mais em controle de si. Quando não estava ao redor da casa de Charlie, tentando se certificar de que o homem continuava protegido, ele estava correndo pela floresta em busca do cheiro que ainda o eludia.

Ninguém conseguia achar uma forma de colocar o trilho desse cheiro no caminho certo, não dava para descobrir de onde vinha e para onde ia, o que queria fazer em volta de Forks. Quando os Cullen se reuniram para traçar novas rotas no mapa da península, eles estavam dando voltas ao redor de si mesmo, e não era possível encontrar um fim para esse emaranhado de fios entrelaçados.

Mas a conversa nem sempre ficava apenas na perseguição dos invasores, porque após o uivo do novo lobo, eles tinham um novo assunto.

“Quer dizer que agora o menino Black também é um lobo,” comentou Esme uma noite à mesa. Ali estavam Edward, seus pais, Alice e Jasper, enquanto Rosalie e Emmett corriam pela floresta.

“Assim que ele uivou, eu vi ele correndo em minha mente. Acho que isso era alguma coisa que iria acontecer,” Alice disse.

“Acredito que o fato de que um vampiro esteja aqui de passagem possa ter causado essa aceleração da transformação. Talvez a morte de Bella poderia ter causado, mas…” Carlisle não continuou, e olhou para Edward para saber como ele se sentia.

Na realidade, ele estava um lixo. O normal de sempre, claro.

“Quem sabe o que ele sentia por ela não era assim tão real a ponto de causar a transformação nele,” disse Edward, se sentindo vingado por ter aquele pouco de Bella para si e não ter que compartilhar com Jacob. Mas era um tipo de inveja tão pequena e insignificante que ele quase se sentia envergonhado de se sentir assim.

“Não deve ser um momento bom, como você deve saber,” comentou Jasper, não tomando o lado de ninguém. “Uma transformação nunca é fácil.”

E ele de fato saberia mais do que ninguém. Mas uma parte de Edward queria se permitir sentir um pouco de raiva de estar onde estava, de sentir o que sentia, perdido no meio do nada. A intrusão de Jacob Black na vida de Bella parecia uma coisa chata no passado, mesmo que fosse tão inocente que agora parecia algo bem-vindo. Edward preferia lidar com um lobo a seus calcanhares do que enterrar Bella sete palmos sob o solo. Mas ele não poderia escolher.

“Ele sofreu nas primeiras noites,” disse Alice. “E ele tem corrido bastante junto com o bando, pelo território deles.”

“Não podemos nos permitir errar, ou convidar as pessoas erradas para nosso meio, porque o bando de La Push tem ficado cada vez mais forte. E mesmo sabendo que podemos nos proteger, uma guerra não é algo que queremos agora,” disse Carlisle.

“Já tivemos muitas perdas pelo presente momento,” Esme completou, alcançando a mão de Edward por sobre a mesa. E ele sentia o olhar de todos.

Até parecia que Edward era um animal preso em uma gaiola pra ser estudado, porque parecia estranho se sentir o centro das atenções, quando por tanto tempo ele preferia ter ficado sob a sombra dos outros. Mas tantas coisas mudaram com Bella em sua vida que agora Edward tinha que entender melhor a si mesmo, entender o que queria do que restava da sua vida.

Por enquanto, pelas próximas décadas, ele tinha sua missão. Depois ele poderia encontrar uma forma de mudar seus paradigmas. De encontrar uma forma de saciar sua sede de paz. O abraço frio da morte nunca fora tão bem-vindo, aquela é que era a verdade.

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Na semana seguinte, Edward passou todas as noites no telhado da casa de Charlie. Ele queria entrar pela janela do quarto de Bella e encontrar ela por lá, encontrar ela ali esperando por ele, ou talvez dormindo, apenas para poder enxergar ela, nem que fosse uma última vez. Ele sabia que era estranho e invasivo ir atrás dela como ele fez, mas a sede de algo que secava sua alma era mais forte do que o controle de Edward.

Quem ainda não tinha um bom controle sobre si era Jacob Black, que uma noite apareceu pela casa, seu corpo de lobo passeando pelo asfalto da rua. Ele parou quando viu Edward no telhado, e algo em seus olhos se ressaltou quando lobo e vampiro trocavam olhares. Edward podia sentir a mudança nos pensamentos de Jacob--ele nem estivera prestando atenção, mas quando os olhares dos dois se cruzaram, um sentimento novo brotou em Jacob, impossível de dizer em nome, mas estava ali.

Edward se sentiu tentado a iniciar uma conversa, mas antes de poder dizer algo, Jacob fugiu, se jogando às árvores e desaparecendo para não mais voltar. O lobo havia passado por uma mudança repentina de sentimentos, e Edward não conseguia saber exatamente qual era o motivo daquilo, pois seu poder de ler a mente não estava completamente aflorado neste momento.

Sem mais o que dizer, ele decidiu continuar com sua vigília na casa de Charlie, mas ele teve que admitir que havia curiosidade em seu peito, e Edward não sabia como matar ela naquele momento.

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Parece ser a coisa mais idiota estar aqui em frente a um túmulo. Bella não pode me dirigir mais palavras, não pode me dizer o que estou fazendo errado, não pode sequer respirar ao meu lado. Parecia algo tão simples, mas eu sempre estive impressionado com a habilidade dela de respirar, pois era algo não natural para mim, ou sequer uma necessidade.

Ela precisava do ar para viver, e eu não. Já éramos diferentes naquele sentido. A vida de Bella havia apenas sido tocada pelo sobrenatural, enquanto a minha tinha terminado e começado com o sobrenatural. Sim, eu vivi anos como um humano, mas aquilo já faz tanto tempo que fica difícil saber exatamente como lembrar daqueles momentos. Sem falar que a vida era tão sofrida no passado que quase nem vale à pena lembrar.

Mas eu só posso dizer isso agora porque como vampiro, e como membro da minha família, eu tenho tantas coisas à minha mão, tantas coisas que seriam simples passatempos, e para outros são coisas sequer alcançáveis na vida. Eu queria ter dado tudo para Bella, na vã esperança de que ela iria ficar comigo, mas ainda não há dinheiro que compre a vida de alguém de volta.

Eu me despeço do túmulo dela e peço perdão mais uma vez, mas corro para longe antes de algum dos amigos que a visitam, ou Charlie, me ver por ali.

Confesso que não consigo encarar nenhum deles, pois a vergonha do que causei a Bella me afunda num mar de incertezas. E sendo um animal frio como um vampiro, eu não deveria me importar tanto com essas coisas, não deveria pensar nos sentimentos, quando eu poderia desligar eles e vivem sem pensar nisso.

Mas então eu estaria a perder uma das partes que são mais importantes para mim, uma parte que me faz diferente, a habilidade de sentir. Tantos vampiros não se importam com isso, apenas querem o que há de melhor, querem sangue e apenas isso para se sentir vivos, mas eu queria algo diferente. Carlisle nos ensinou a ser diferentes. E o preço a pagar era alto, pois não era fácil não ceder às tentações, Jasper ainda tinha seu controle pouco desenvolvido. E para ser bem sincero, todos nós temos que levar um dia de cada vez, tentando nos controlar das coisas que podem nos puxar para o lado ruim.

Ou o lado que é parte de nossos instintos.

Quando eu fujo para a floresta de novo, em busca da trilha daquele vampiro que está rondando Forks, eu não consigo encontrar nada de novo, é como se ele tivesse passado por aqui e se escondido para longe, pois não há mais cheiros estranhos--o que me faz querer parar de procurar por algo que aí não está.

Mas ao invés de sentir o cheiro de um vampiro, eu sinto o cheiro de um lobo. Um pouco longe da trilha normal que eles ficam perto de La Push. E a primeira sensação que tenho é a de ficar com o ouvido esperto para saber onde ele vai. O lobo passa longe de mim e continua indo, e eu percebo logo que esse cheiro é novo--Jacob Black, o menino, mais o outro lado de Jacob Black, o lobo. Seu cheiro é novo, e talvez por isso ainda não me causa completa repulsa, mas dentro de meu estômago a sensação é ruim.

Ainda assim, eu não consigo me desligar dele. Talvez porque Bella tenha tido uma história com Jacob, e o garoto gostasse tanto dela. Eu não conseguia não me sentir culpado por sua explosão canina e a mudança em sua vida. Os genes de lobo já estavam lá, mas eles não se desprendem sem um evento que os fizesse mudar.

Eu corri pela floresta atrás de Jacob, e o segui até que ele parou perto da casa de Charlie. Só então o lobo se virou para mim, majestoso. No fundo de minha mente eu pensei na possibilidade de lobos e vampiros se unirem, e como seriam poderosos. De certa forma, seria quase impossível ir contra eles, pois eram os dois lados da balança, e criaturas viciosas, fortes, quase impossíveis de se bater sem derramar sangue.

Talvez, se nós tivéssemos um lobo do lado quando fomos tentar salvar Bella, as coisas não teriam terminado do jeito que terminaram.

Jacob chegou mais perto de mim, e era possível sentir a confusão vindo do lobo, enquanto eu fiquei parado no lugar onde estava. Quanto mais perto Jacob chegou, mais eu me senti como uma estátua. Se morresse naquele momento, se me permitisse morrer, quem sabe as coisas não seriam tão ruins. Eu ainda tinha uma promessa a cumprir.

De uma certa forma, eu podia ver em Jacob que a vontade de matar não existia, por mais que fosse uma surpresa para mim. E talvez para ele também.

Jacob veio mais e mais perto, até quase encostar em mim, e então como uma mudança no vento em meio à tempestade, ele saiu correndo para longe. Deixou para trás apenas o seu cheiro em meu nariz, e dúvidas em meu peito.

 

 



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