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História Diário de uma paixão - IMAGINE JUNG HOSEOK - Capítulo 5


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Notas do Autor


espero que gostem

boa leitura

Capítulo 5 - Caiaques e sonhos esquecidos


Fanfic / Fanfiction Diário de uma paixão - IMAGINE JUNG HOSEOK - Capítulo 5 - Caiaques e sonhos esquecidos

Sn acordou cedo na manhã seguinte, forçada pelo incessante chilrear dos estorninhos, e esfregou os olhos, sentindo a rigidez do corpo. Não tinha dormido bem, a acordar depois de cada sonho, e recordava-se de ver os ponteiros do relógio em diferentes posições durante a noite, como se a confirmar a passagem do tempo. Tinha dormido vestida com a camisa macia que ele lhe dera, e mais uma vez inspirou o cheiro dele enquanto pensava na noite que haviam passado juntos. O riso fácil e a conversa voltaram-lhe à memória, e lembrava-se especialmente da maneira como falara da pintura dela. Fora tão inesperado, e reconfortante, e enquanto as palavras voltavam a repassar-lhe na cabeça, percebeu-se de como ficaria arrependida se tivesse decidido não o ver outra vez. Olhou para fora da janela e observou os pássaros a palrar à procura da comida na luz matinal. Hoseok, ela sabia, tinha sido sempre uma pessoa madrugadora que saudava a aurora à sua própria maneira.

 

Sabia que ele gostava de andar de caiaque ou de canoa, e recordava-se da manhã que tinha passado com ele na canoa, a observar o Sol a nascer. Tinha tido que se escapulir pela janela para o fazer, porque os pais não lhe iriam permitir, mas não fora apanhada e recordava-se agora de como Hoseok lhe tinha passado o braço pelos ombros e a tinha puxado para si enquanto a aurora começava a desdobrar-se. "Olha ali," sussurrara, e ela observara o seu primeiro nascer do Sol com a cabeça sobre o ombro dele, perguntando-se se podia existir algo de melhor do que o que estava a acontecer naquele momento. E quando saiu da cama para tomar banho, sentindo o chão frio sob os pés, perguntava-se se ele teria estado na água nesta manhã para observar o começo de outro dia, pensando que provavelmente sim.

 

Estava certa.   Hoseok tinha-se levantado antes do Sol e vestido rapidamente, as mesmas calças jeans da noite anterior, camisola interior, uma camisa de flanela limpa, casaco azul e botas. Lavou os dentes antes de descer, bebeu rapidamente um copo de leite, e agarrou em dois biscoitos a caminho da porta. Depois de Kai o saudar com um par de lambidelas molhadas, foi até à doca onde tinha guardado o caiaque. Gostava de deixar o rio exercer a sua magia, descontrair os músculos, aquecer o corpo e clarear a mente.

 

 

O velho caiaque, muito usado e manchado pelo rio, estava pendurado em dois ganchos ferrugentos pregados no pontão, mesmo acima da linha de água para manter as bernaca à distância. Levantou-o, libertando-o dos ganchos e pousou-o aos pés, inspecionou-o rapidamente, depois levou-o para a margem. Num par de movimentos há muito amadurecidos pelo hábito, estava na água a fazer o seu caminho ribeiro acima, consigo próprio a servir de piloto e motor.

 

O ar passava-lhe frio na pele, quase áspero, e o céu era uma neblina de cores diferentes: preto imediatamente acima dele como o pico de uma montanha, depois azuis de um alcance infinito, tornando-se mais claros até que se cruzavam com o horizonte, onde eram substituídos pelo cinzento. Deu algumas inspirações fundas, cheirando os pinheiros e a água salobra, e começou a refletir. Isto era parte do que mais saudades lhe fizera quando vivia no Norte. Por causa das longas horas no trabalho, ficara-lhe pouco tempo para passear na água. Acampar, andar à boleia, chapinhar nos rios, namorar, trabalhar... alguma coisa tinha tido que ser abandonada. Em grande parte fora-lhe possível explorar o campo de Nova Jersey a pé sempre que tivera algum tempo disponível, mas em catorze anos não andara de caiaque ou de canoa nem uma única vez. E foi uma das primeiras coisas que fez assim que regressou.

 

Existe algo de especial, quase místico, em passar a aurora dentro de água, pensou para si, e agora fazia-o quase todos os dias. Estivesse sol e tempo claro, ou frio e escuro, nunca lhe importava enquanto movia os remos ao ritmo da música dentro da sua cabeça, trabalhando acima da água cor de ferro. Viu uma família de tartarugas a descansar num tronco parcialmente submerso e ficou a observar uma garça real a iniciar o vôo, planando sobre a água antes de se desvanecer no crepúsculo de prata que precede o nascer do Sol. Remou até ao meio do rio, de onde reparou na incandescência laranja a começar a estender-se sobre a água. Deixou de remar com força, despendendo apenas o esforço suficiente para ficar no mesmo sítio, a observar até que a luz começou a rebentar por entre as árvores. Sempre gostara de fazer uma pausa ao nascer do dia - havia um momento em que a vista era espetacular, como se o mundo estivesse a nascer outra vez.

 

Depois começou a remar com força, a desgastar a tensão, a preparar-se para o dia. Enquanto o fazia, perguntas dançava-lhe na cabeça como gotas de água numa frigideira quente. Questionava-se sobre D.o e que tipo de homem seria, interrogava-se sobre a relação entre os dois. Mais que tudo, porém, perguntava-se sobre Sn e o motivo da vinda dela. Pela altura em que chegou a casa, sentiu-se renovado. Olhou o relógio, ficou surpreendido por descobrir que demorara duas horas. Porém o tempo ali sempre lhe pregara peças, e há meses que deixara de se preocupar com isso. Pendurou o caiaque para secar, esticou-se durante uns dois minutos, e foi até ao barracão onde guardava a canoa. Carregou com ela até à margem, deixando-a a poucos metros da água, e quando se virou na direção da casa sentiu que as pernas ainda estavam um pouco rígidas. A neblina matinal não se tinha evaporado ainda, e sabia que a rigidez nas pernas normalmente era prenúncio de chuva.

 

 Olhou para o céu a ocidente e viu nuvens de tempestade, espessas e pesadas, distantes mas definitivamente presentes. Os ventos não sopravam com força, mas começavam a juntar as nuvens. Pelo aspecto delas, não gostaria de estar na rua quando chegassem ali. Raios. Quanto tempo tínhamos? Umas poucas de horas, talvez mais. Talvez menos. Tomou uma ducha, vestiu calças jeans lavadas, uma camisa vermelha e botas de cowboy pretas, escovou o cabelo, e desceu até à cozinha. Lavou os pratos da noite anterior, arrumou a casa aqui e ali, fez café e foi até ao alpendre. O céu agora estava mais escuro, e olhou para o barômetro. Mantinha-se firme, mas em breve começaria a descer. O céu a ocidente prometia-lhe isso.

 

Há muito que aprendera a nunca subestimar o tempo, e perguntou-se se seria boa ideia sair. A chuva aguentava-se bem, mas com relâmpagos era outra história. Especialmente se andasse na água. Uma canoa não era lugar para se estar quando a eletricidade faiscava no ar úmido. Acabou o café, e adiou a decisão para mais tarde. Foi até à arrecadação das ferramentas e pegou num machado. Depois de verificar a lâmina premindo-a contra o polegar, afiou-a na pedra até estar pronta. "Um machado rombo é mais perigoso que um afiado," costumava dizer-lhe o pai. Os vinte minutos seguintes passou-os a partir lenha e a amontoar os toros. Fê-lo com facilidade, os golpes eficientes, e nem sequer ficou a suar. Pôs alguns toros de parte para mais tarde e levou-os para dentro depois de ter acabado, colocando-os ao lado da lareira. Olhou de novo para a pintura de Sn e estendeu a mão para lhe tocar, o que fez regressar o sentimento de incredulidade por vê-la de novo. Meu Deus, o que é que ela tinha que o fazia sentir-se assim? Mesmo depois de todos estes anos? Que tipo de poder teria sobre ele? Virou-se por fim, abanando a cabeça, e regressou ao alpendre. Olhou de novo para o barômetro. Não tinha mudado. Depois olhou para o relógio. Sn não tardaria a chegar.

 

Sn tinha acabado de tomar banho e já estava vestida. Um pouco antes tinha aberto a janela para verificar a temperatura. Não estava frio lá fora, e decidiu usar um vestido creme, de Primavera, com mangas compridas e decote subido. Era macio e confortável, talvez um bocadinho fechado de mais, mas tinha bom aspecto, e depois escolhera umas sandálias brancas a condizer.

 

Passou a manhã a andar por ali no centro da cidade. A Depressão tinha feito ali as suas baixas, mas podia ver os sinais do regresso da prosperidade a começarem a abrir caminho. O teatro Masonic, o mais antigo e ainda aberto na província, parecia um bocadinho mais arruinado, mas estava a funcionar com filmes recentes. O parque do forte Totten parecia exatamente o mesmo que fora há catorze anos, e pressupôs que as crianças que brincavam nos balanços depois da escola também pareciam iguais. Sorriu então às recordações, pensando como as coisas tinham sido mais simples. Ou pelo menos aparentavam ser. Agora, como parecia, nada era simples. Parecia tão improvável, tudo a encaixar no seu lugar como encaixara, e perguntava-se o que estaria a fazer neste momento, se por acaso não tivesse visto o artigo no jornal. Não era muito difícil de imaginar, porque as rotinas dela raramente mudavam. Era quarta-feira, o que significava bridge no clube de campo, e a seguir a ida à Liga das jovens Mulheres, onde provavelmente estariam a organizar outra festa para angariação de fundos para uma escola ou hospital privados. Depois disso, uma visita com a mãe, e depois ir para casa para se preparar para jantar com D.o, porque ele fazia questão de sair do trabalho às sete. Era a única noite da semana em que o via regularmente.

 

Suprimiu um sentimento de tristeza quanto a esse assunto, esperando que um dia ele pudesse mudar. Já lhe tinha prometido muitas vezes e normalmente cumpria a promessa durante algumas semanas antes de deslizar para o horário antigo. "Hoje não posso, querida," explicava sempre. "Lamento, mas não posso. Depois compenso-te." Ela não gostava de discutir com ele sobre isso, na maior parte das vezes porque sabia que ele era sincero. O trabalho de tribunal era muito exigente, tanto antes como durante os julgamentos, porém ela às vezes não conseguia deixar de pensar por que é que ele passara tanto tempo a cortejá-la se não queria agora ficar mais tempo com ela.

 

Passou diante de uma galeria de arte, quase não a vendo, concentrada nas suas preocupações, virou-se e voltou para trás. Fez uma pausa à porta por um segundo, surpreendida por não Ter visitado nenhuma há tanto tempo. Pelo menos três anos, ou talvez mais. Porque é que as tinha evitado? Entrou - tinha aberto com o resto das lojas na rua principal - e foi bisbilhotar as pinturas. Muitos dos artistas eram da região, e havia um forte cheiro a mar nas suas obras.

 

Muitas cenas marítimas, praias arenosas, pelicanos, velhos navios à vela, rebocadores, pontões e gaivotas. Mas, mais que tudo, ondas. Ondas de todas as formas, tamanhos e cores imagináveis, e passado um bocado pareciam todas iguais. Ou os artistas tinham pouca inspiração ou eram preguiçosos, pensou. Numa parede, porém, havia alguns quadros mais próximos do seu gosto. Eram todos de uma autora de que nunca ouvira falar, Lisa, e em grande parte parecia ter sido inspirada pela arquitetura das ilhas gregas. Na pintura de que gostou mais reparou que a artista tinha propositadamente exagerado a cena com figuras menores que o tamanho real, linhas largas, e pesadas pinceladas de cor, como se não estivesse bem focada. Porém as cores eram vívidas e em turbilhão, atraindo o olhar, quase dirigindo-o para o que deveria ver a seguir. Era dinâmico e dramático. Quanto mais pensava naquilo, tanto mais gostava, e considerou comprar uma tela antes de se aperceber que gostava porque lhe recordava o seu próprio trabalho. Examinou-a mais de perto e pensou para consigo que talvez Hoseok tivesse razão. Talvez ela devesse recomeçar a pintar. às nove e meia Sn deixou a galeria e foi até Hoffman-Lane, um centro comercial na parte baixa da cidade. Levou alguns minutos até descobrir o que vinha à procura, mas estava ali, na seção de artigos escolares. Papel pastel e lápis, não de grande qualidade mas suficientemente bons.

 

Não era pintura, mas era um começo, e já se sentia entusiasmada na altura em que chegou ao quarto. Sentou-se à secretária e começou a trabalhar. Nada de específico, apenas a experimentar outra vez o sentimento da coisa, deixando as formas e as cores fluir da memória da sua juventude. Depois de alguns minutos de abstração, fez um esboço rude da cena de rua que via da sua janela, divertida pelo fato de lhe sair tão facilmente. Era quase como se ela nunca tivesse parado. Examinou-a quando acabou, contente com o esforço. Perguntou-se o que poderia tentar a seguir e por fim decidiu-se. Dado que não tinha um modelo, visualizou-o na cabeça antes de começar. E embora fosse mais difícil do que a cena de rua, saiu naturalmente e começou a tomar forma.

 

Os minutos passaram depressa. Trabalhou afincadamente mas verificava o tempo com assiduidade para que não se atrasasse, e acabou-o um pouco antes do meio-dia. Tinha levado quase duas horas, mas o resultado final surpreendeu-a. Parecia que demorara muito mais tempo. Depois de o enrolar, pô-lo num saco e pegou no resto das coisas. Ao sair a porta olhou-se no espelho, sentindo-se estranhamente descontraída, sem saber exatamente por quê. Escadas abaixo e porta fora. Ia a sair quando ouviu uma voz atrás de si.

 

 - Menina?  - Virou-se, sabendo que era consigo. O gerente. O mesmo homem de ontem, uma expressão de curiosidade na cara.

 

 - Sim?

 

 - Teve algumas chamadas telefônicas ontem à noite. - Ficou surpreendida.

 

- Tive?

 

- Sim. Todas de um senhor Hammond.  - Oh, Meu Deus.

 

 - D.o telefonou?

 

- Sim senhora, quatro vezes. Falei com ele quando ligou da segunda vez. Estava assim preocupado consigo, Ele disse que era o seu noivo. - Ela sorriu fracamente, tentando esconder os pensamentos.

 

Quatro vezes? Quatro? O que poderia isso significar? E se tivesse acontecido alguma coisa em casa?

 

 - Ele disse alguma coisa? Era uma emergência?  - Abanou a cabeça rapidamente a negar.

 

 - De fato ele não disse, menina, mas também não referiu nada em especial. De fato, ele parecia era mais preocupado consigo.  - Bom, pensou ela. Isso é bom.

 

E então, igualmente súbita, uma pancada no peito. Porquê a urgência? Porquê tantas chamadas? Tinha ela dito alguma coisa ontem? Porque estava ele tão insistente? Era completamente estranho aos seus hábitos. Haveria alguma maneira pela qual ele pudesse ter descoberto? Não... era impossível. A não ser que alguém a tivesse visto ali ontem e tivesse telefonado... Mas teriam tido que a seguir até à casa de Hoseok. Ninguém teria feito tal coisa. Agora tinha que lhe telefonar, não havia maneira de contornar a situação. Mas, estranhamente, não lhe apetecia. Este era o tempo dela, e queria gastá-lo a fazer o que queria. Não tinha planejado falar com ele a não ser mais tarde, e por um motivo qualquer sentia que falar com ele agora podia estraga-lhe o dia. Além disso, o que iria dizer? Como podia explicar ter estado fora até tão tarde? Um jantar tardio e depois um passeio? Talvez. Uma ida ao cinema? Ou...

 

- Menina? -  Quase meio-dia, pensou ela. Onde é que ele estaria? Provavelmente no escritório... Não. No tribunal, apercebeu-se de repente, e imediatamente sentiu como se tivesse sido libertada de algemas.

 

Não havia maneira de falar com ele, mesmo que quisesse. Ficou surpreendida com as suas emoções. Não devia sentir-se assim, ela sabia, e todavia não lhe interessava. Olhou para o relógio, e começou a fazer teatro.

 

- É mesmo quase meio-dia? - O gerente confirmou com a cabeça depois de olhar para o relógio de parede.

 

- Sim, um quarto para o meio-dia, mais exatamente.

 

- Infelizmente - começou ela - ele está no tribunal agora mesmo e não vou conseguir apanhá-lo. Se ele voltar a telefonar, podia dizer-lhe que eu fui às compras e que tentarei ligar-lhe logo?

 

- Claro - respondeu ele.

 

Porém ela podia ver a pergunta nos olhos dele: mas por onde é que andaste ontem à noite? Ele sabia exatamente as horas a que ela tinha regressado. Muito tarde para uma mulher sozinha nesta pequena cidade, ela tinha a certeza.

 

 

- Obrigada - disse a sorrir - ficava-lhe muito grata. 

 

 Dois minutos mais tarde estava no carro, a conduzir até casa de Hoseok, antecipando o dia, muito pouco preocupada com as chamadas telefônicas. Ontem teria ficado, e perguntava-se o que é que isso quereria dizer. Quando ia a passar por cima da ponte móvel, menos de quatro minutos depois de abandonar a estalagem, D.o telefonou do tribunal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Continua....

 


Notas Finais


até o próximo cap


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