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História Dias Obstinados - Capítulo 7


Escrita por:


Notas do Autor


Um pouquinho de TianShan para vocês.

Lembrando que capítulos novos todas as TERÇAS e SEXTAS.

Capítulo 7 - Sete


— Ei, você. — dirigi a palavra para He Tian, quem estava escorado no balcão da cozinha não fazendo nada além de me incomodar e mexer no celular. Tirei o avental, jogando sobre a mesa. — Vou no banheiro. Vigia o curry pra mim. — ordenei.

    He Tian desviou o olhar do celular e então olhou para a panela borbulhando, com uma cara da qual era possível ver sua insegurança. Aquele pedaço de merda inútil não servia nem mesmo para olhar uma comida?

    — E se alguma coisa acontecer?

    — Então isso significa que você não passa de nada além de lixo. — ele me dirigiu aquele sorriso psicopata, podia ver sua veia saltando na testa. Antes que me fizesse alguma coisa inconveniente — como por exemplo seu habito estranho de me apertar as bolas quando faço algo que ele não gosta — fui para o banheiro e me tranquei.

    Suspirei. Não que eu gostasse de fazer aquilo ou que fosse adicto. Aliás, eu preferia estar em casa dormindo, mas esses estúpidos faziam questão de ir até lá e me trazer arrastado até esses ensaios sem fundamento. Todos nós sabíamos que éramos ruins, então para que perder tempo?

    Sentia uma gota de suor escorrendo por minha testa. Apesar do bloqueio de som e da porta que me separava do outro cômodo e de He Tian, me sentia perseguido por sua aura, é como se ele estivesse ali, cheirando meu cangote. Fui até o armário na parede no fim do espelho desnecessariamente grande e o abri, procurando por aquele frasco que propositalmente havia empurrado até o final do armário dias atrás. Lá estava ele, intacto. Dior Homme Sport. Eu não sabia nem pronunciar aquela merda. Uma parte de mim temia — e muito — caso ele descobrisse que um item caro como aquele havia sumido do seu armário, mas tinham tantos outros perfumes ali que a probabilidade era bem pequena. Além do mais, aquele merda era podre de rico, e um perfume não era um sofá. Coloquei bem no fundo da minha calça propositalmente larga e tampei o pouco volume com a barra da jaqueta. Fiquei mais um minuto parado olhando para o meu próprio reflexo na parede apenas para que “fizesse hora”.

    Quando voltei, me esforcei ao máximo para manter a normalidade e minhas sobrancelhas franzidas. Finalizei o curry e chamei aqueles inúteis mortos de fome para comer. A atmosfera parecia diferente do de sempre, Jian Yi não estava agarrando, enforcando e incomodando Zhan Zheng Xi, e Zheng Xi parecia observa-lo silenciosamente também, mas continuava um homem de poucas palavras. Eu estava com o cu na mão e He Tian era o único ali agindo de forma natural; me tocando desnecessariamente na coxa, ou tirando resíduos invisíveis dos meus lábios e, claro, apanhando por isso. Eu não gosto de toques humanos desnecessários, especialmente de homens. Especialmente de He Tian. Involuntariamente fechava minhas pernas cada vez que ele se aproximava de mim, e naquele momento estava suando frio. Caso arrumássemos uma briga, o frasco poderia quebrar. Eu não sabia se tinha mais medo do vidro estilhaçar e cortar uma artéria ou do He Tian perceber que aquele perfume era dele.

    Como sempre, o tico e o teco haviam ido embora mais cedo, juntos, embora parecessem desconcertados. Eu pensei em ir com eles, mas talvez isso demonstrasse o meu desespero interno, então fiquei para lavar a louça, agindo como a pessoa mais irritada do mundo naquele momento — e não precisava fingir, para ser honesto. Aqueles perdedores sempre deixavam a comida e louça nas minhas custas. Um dia, definitivamente, iria fazê-los pagar.

    Pretendi não estar sentindo a presença de He Tian nas minhas costas, fumando e olhando para mim. Aquilo era padrão. Ele parecia sentir uma espécie de prazer ao me ver fazendo seus deveres. E isso quase me fez quebrar um prato, com raiva.

    — Louça limpa, estou metendo o pé. — falei, jogando o avental sobre o balcão. Quando estava quase alcançando a porta e com ela a liberdade, ele segurou meu braço e me puxou de volta para dentro.

    — O que foi agora?!

    — Está chovendo muito, você não quer dormir aqui?

    Ele me perguntava com um ar de cachorro que caiu da mudança, apesar de estar com os músculos expostos daquele jeito, sem camisa. Que asco. Ás vezes, He Tian tinha a capacidade de agir como um bebê, como se se sentisse solitário. Talvez fosse real, afinal, ele não parava de me agarrar.

    — Não?! — rebati, me afastando para uma área segura. Se ele resolvesse me pegar no colo e me arrastar até a cama para dormir com ele — o que já aconteceu uma vez — poderia sentir o frasco ou mesmo fazê-lo cair. Eu tremia. — Além disso, eu trabalho amanhã cedo. Não tenho tempo para as suas frescuras.

    — Certo... — ele me soltou, convencido. Ajeitei minha jaqueta e fui embora o mais rápido que podia, finalmente voltando a respirar como se deve.

 

    A chuva realmente estava intensa, e eu fiquei pensando em meus atos enquanto estava dentro do metrô frio. Não queria acabar como meu pai. Tinha consciência da minha personalidade ruim, meu esforço medíocre no colégio — que sequer havia terminado — e meu problema de sociabilidade, mas eu não era ladrão. Pelo menos, não até agora. Quando cheguei em casa — que nada mais era do que uma garagem adaptada — imediatamente me joguei na cama e comecei os meus contatos. Ergui o frasco e tirei uma foto. Não foi difícil vender aquele perfume; tinha uns amigos tão fodidos quanto eu, que viviam de aparências e gostavam de ostentar. Não fazia ideia de quanto custava aquele perfume, mas sabia ser caro. Um colega logo apareceu, dizendo que gostaria de fazer uma surpresa para a namorada. Omiti a informação de que era masculino, ele era tão idiota que quando percebesse o dinheiro já estaria na minha mão. Venda feita, suspirei de alivio.

    Conseguiria ter um lugar para morar por mais um mês. Mas isso não poderia continuar assim. Fui demitido do meu ultimo trabalho como garçom, porque estava cansado daqueles almofadinhas me fazendo de gado para satisfazer suas vontades mesquinhas. Me faziam de subordinado, riam enquanto dividiam piadas sobre o meu provável estilo de vida, debochadamente me perguntavam se alguma vez na vida já havia experimentado aquela porcaria de Moet Chandon. Ergui o dedo do meio e mandei todos se foderem. Dois minutos depois, estava na rua.

    O mesmo aconteceu na cafeteria, quando reclamavam sobre a preparação do café que claramente estava no padrão. E no caixa de mercado. Ah, eu odeio gente estúpida. Desse jeito, não iria mais haver trabalho na cidade para mim em pouco tempo. Por enquanto, estava me aproveitando da minha presença forçada na casa de He Tian pela comida, assim, a minha duraria mais.

    Iria voltar a buscar emprego no dia seguinte.

    E assim o fiz. Na manhã do dia seguinte, fui até uma loja de roupas. Não conhecia, nem nunca havia ouvido falar. As peças pareciam bem básicas, então o público certamente seria menos insolente. Pessoas ricas me irritam profundamente. Entrei, procurando por alguém que se parecesse com o gerente. Um homem alto e bem vestido estava virado de costas conversando com uma atendente.

    — Com licença.

    — Hm? — e, então, quando o homem se virou, eu pensei seriamente em sair correndo da loja. Talvez fosse a minha ansiedade em arrumar logo um emprego, ou eu teria percebido pela largura de suas costas. Seu olhar parecia ter me pego. Ele se virou, pegando a sacola da compra que efetuou e então se virou para mim, com o seu típico sorriso sociopata.

    — Foi mal, me enganei. Melhor eu ir. — tentei virar e sumir, mas ele segurou meu braço, mais rápido. Nunca conseguia sair do foco dos seus olhos.

    — Aonde vai tão rápido, Mo? — ele me aproximou e me segurou pelo ombro, em um abraço um pouco intimidador. Fomos andando até a saída. — Veio atrás de mim, hm?

    — Você sabe que não! — me soltei.

    — Oh, sim. Até porque você deveria estar no seu trabalho, certo? — ele olhou em seu relógio, erguendo a sobrancelha pra mim. Me sentia como um pirralho com as mãos nas calças. — Afinal, foi por isso que você me rejeitou ontem.

    — Fui demitido. — murmurei enquanto caminhávamos, sem eu saber para onde.

    — Ah, sério? — fingiu surpresa.

    — Eu estava em busca de um novo emprego naquela loja, mas você estragou tudo.

    Não percebi quando fomos entrando em uma cafeteria. He Tian pediu dois capuccinos e sanduiches, e então nos sentamos enquanto aguardávamos a chamada.

    — Você não tomou café ainda, certo?

    — É... — passei a mão na nuca. Aquele lugar estava atiçando a minha fome, mas eu não queria ter parecido tão patético e carente como pareci naquele momento. — P-porque eu acordei muito cedo para estar aqui...

    “Porque meus suprimentos estão acabando e eu preciso decidir em qual horário vou comer”

    — Ou é por que seu dinheiro está acabando? — ele levantou o questionamento, certeiro.

    — É, eu fui demitido já se fazem duas semanas, na realidade. — admiti, a contragosto.

    — E você não tem dinheiro mesmo tendo roubado meu perfume? — de repente, meu corpo gelou. Ele olhava o celular, como se não fosse nada o que acabou de dizer. Rolava o feed do instagram, eu podia ver pelo reflexo dos óculos que colocou. — Você ao menos sabe quanto custou aquele perfume?

    Engoli saliva.

    — Eu...

    — Eu sei onde tudo na minha casa está, pequeno Mo. — ele colocou o celular na mesa e apoiou o queixo na palma da mão. — Você sabe, eu sou muito observador.

    Naquela altura, meu rosto já estava completamente quente e vermelho. Me sentia constrangido, e sentia vontade de lacrimejar. Eu não era um ladrão. Sabia, no fundo, que não era. Mas havia sido pego. Como pude ser tão burro? Era de He Tian que estava falando, e enquanto estava de cabeça baixa e desculpas presas na garganta, ele parecia ver através de mim.

    — Eu precisei. Eu não pensei direito. Eu vou te recompensar, de alguma forma. — falei, firme, embora as lagrimas já estivessem ali.

    — Ah, claro que vai. — ele esticou a mão e secou o canto do meu olho direito. Pensei que estaria enfurecido, mas seu toque parecia muito gentil. É claro, ele iria se aproveitar da situação. — A partir de hoje, você vai manter o seu celular ligado para mim. Você não vai ignorar minhas mensagens, e vai me encontrar quando eu bem entender, entendido?

    Assenti com a cabeça. Não tinha direito de lutar, eu havia entrado em sua casa e o roubado. Eu, alguém que sempre frequenta aquele lugar.

    — Muito bem. — ele se levantou para pegar seu pedido, e então se sentou novamente. Empurrou para mim um capuccino e um sanduiche. Me sentia tão mal que minha fome havia ido embora. Encarei a comida enquanto ele voltava a falar. — O perfume custou 389,00 reais. Vamos arredondar para 400,00, graças ao seu pequeno delito. A cada vez que vir até mim na hora que eu mandar, você estará pagando 50,00 da sua dívida comigo. O que totaliza 8 encontros. As mensagens de texto, de voz e vídeo chamadas não estão inclusas nesse pagamento. Entendido?

    Assenti novamente, cerrando o punho em minhas coxas. Não entendia a vantagem que ele via sobre aquela negociação, mas concordei. Não estava em posição de me negar, tinha sorte por não ter me torturado fisicamente pelo meu crime. Seu irmão era assustador. Quem sabe o que ele poderia fazer comigo, caso He Tian, o irmão mais novo e estimado, pedisse.

    — É só isso? — perguntei, duvidoso. — Apenas sair com você e responder as mensagens?

    Parecia fácil demais.

    — Sim, só isso... — ele respondeu, em um sorriso. — ... a princípio. — continuou, após uma golada em seu café. Seus olhos fodidamente escuros me observaram por cima da xícara de uma forma um pouco assustadora, penetrante. — O resto vai ocorrer naturalmente.

    Que resto?! Do que esse bostinha estava falando?!

    — Eu pedi esse lanche especialmente para você, pequeno Mo. Coma logo, ou vai esfriar.


Notas Finais


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