História Dias perfeitos - Kim Taehyung - Capítulo 3


Escrita por:

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Kim Taehyung (V)
Visualizações 5
Palavras 3.221
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Terror e Horror
Avisos: Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Boa leitura! 💕

Capítulo 3 - "Amanhã a gente se fala."


Fanfic / Fanfiction Dias perfeitos - Kim Taehyung - Capítulo 3 - "Amanhã a gente se fala."



Mal acordou, Taehyung quis telefonar para ela. Digitou o número que sabia de cor, mas não teve coragem de completar a ligação. Como explicar que tinha seu telefone? Soaria patético — até infantil — contar o que havia feito. 

Ao contrário do reconforto da noite anterior, agora ele percebia como Hyunah continuava distante. Se não fizesse nada — simplesmente apagasse o contato do visor — era possível que jamais se encontrassem de novo. Quantas vezes a vida nos coloca diante de alguém tão instigante? Sansão se aproximou, brincando nas pernas de Taehyung. Ele acariciou o pelo farto e deixou que o cão lambesse suas mãos. Depois o afastou. Não queria ser consolado. 

Vestiu-se para a missa de domingo.



 “Vamos chegar tarde!” — A mãe gritou do elevador. 



Ele respirou fundo. Não era obrigado a segui-la sempre, empurrando a cadeira de rodas pelas calçadas de Copacabana como um enfermeiro apático. 

Conteve-se. O que pensariam? 



“Já estou indo, mãe.” 



Pegou a carteira e o celular na cabeceira antes de sair. 


Receba o Senhor por tuas mãos este sacrifício, para a glória do seu nome , para o nosso bem e de toda a santa Igreja. 


Taehyung considerava a missa de domingo um ritual interessante. Tinha vontade de rir da crença de alguns fiéis ; lágrimas nos olhos, lábios sussurrantes em oração, como se Deus pudesse ouvi-los. 


Ele está no meio de nós. 


Havia também algo de surreal: aquelas mesmas pessoas passavam a vida na esbórnia, chafurdando prazeres mundanos, e ao primeiro sinal de problemas apelavam por uma redenção de que não eram merecedoras. 


É nosso dever e nossa salvação. 


No passado, as missas de domingo eram um martírio para ele. Fizera catecismo quando criança. E crisma também — Sua mãe era muito religiosa. Desde que podia se lembrar, não gostava da impossibilidade de questionar os dogmas da fé.


 O vosso Filho permaneça entre nós!


Havia percebido rápido que o dever do católico não era debater, mas aceitar e decorar, como a criança que memoriza a tabuada. Aprendera a aproveitar melhor aqueles sessenta minutos. 


Mandai o vosso Espírito Santo!


Sabia de cor cada frase do folheto. Os fiéis nem atentavam para o que diziam. Entoavam as frases em uníssono. 


Salvador do mundo, salvai-nos, vós que nos libertastes pela cruz e ressurreição. 


Acompanhava a ladainha, sorrindo para a mãe vez ou outra. Deixava a imaginação fluir por caminhos distantes da igreja barulhenta. A missa e a aula de anatomia eram os momentos em que ele mais relaxava. 


Recebei, ó Senhor, a nossa oferta! 


Naquele domingo, no entanto, os pensamentos fixaram-se em Hyunah, impedidos de voar mais alto. Durante a homilia, ele relembrou o dia anterior: a abordagem pouco sutil, o pratinho de linguiças e corações, a pergunta provocativa: "Taehyung, você trepa?"


O vosso Espírito nos una num só corpo! 


Esgotadas as lembranças, já conseguia antecipar diálogos, cheiros e sabores em Hyunah. Os momentos com ela seriam fabulosos, comparáveis aos que havia tido com Gertrudes.


 Caminhamos no amor e na alegria!


Teve uma ideia. Era complexa e teria de ser bem pensada para que funcionasse. Ainda assim, já tinha sido suficiente para reanimá-lo. 


Concedei-lhes, ó Senhor, a luz eterna! 


Ao fim da missa, ele tinha tudo em mente, repassado três vezes. Sem falhas. Sabia como se aproximar de Hyunah. 


Graças a Deus.


Ao saírem da igreja , Joo viu uma amiga que não encontrava havia semanas. Taehyung se despediu da mãe com a desculpa de que pretendia estudar. Comprou cartão telefônico numa banca e encontrou um orelhão em uma praça de pouco movimento. A parte interna do orelhão estava repleta de anúncios de prostitutas. Tarjas pretas vedando os olhos e nenhuma vedando o sexo. Bocas de veludo e vaginas quentes. Aquelas eram mulheres sujas. Hyunah era diferente: insinuante, porém doce. 

Digitou o número. O telefone mal deu o segundo toque e ela atendeu. Taehyung desligou. Precisou respirar fundo antes de ligar novamente. Hyunah também atendeu rápido dessa vez. 



“Boa tarde. Por favor, a sra. Hyunah?” — Ele disse, fingindo um sotaque paulistano



"Sou eu. Quem é?”



“Boa tarde, Sra.Hyunah. Somos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e encontramos seu nome em nosso cadastro. A senhora poderia confirmar seu sobrenome, por favor?”



“Manhães.”



“Certo, obrigado. Sua idade?” 



“Vinte e quatro.” 



Ficou surpreso que ela fosse dois anos mais velha do que ele. 



“Aguarde enquanto digito as informações no sistema, por favor.”



Um ônibus passou em alta velocidade pela rua, buzinando para um automóvel que saía da vaga. Ele cobriu o bocal. 



“Obrigado por aguardar. Estamos fazendo uma pesquisa com jovens universitários. A senhora é universitária, correto?” 



“Isso.” — Havia certa impaciência na resposta.



“Poderia me informar o que estuda e em qual faculdade?”



“História da arte, na UERJ.



“Seria a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, senhora?”



“Até onde eu sei, UERJ é isso mesmo.”



“A senhora entra na aula em que horário?”



“Sete da manhã.”



“E está satisfeita com o curso?”



“Vou ser processada se falar o que realmente penso daquele inferno.”



“Em que período a senhora está?”



“Vem cá, você também vai querer saber meu CPF, meu RG e a cor da minha calcinha?” — Taehyung sentiu as mãos formigarem. 



“Imagina, esta é a última pergunta. Em que período a senhora está?”



“Final do quinto.”



“O IBGE agradece sua participação.”  Ela desligou sem responder. 


Taehyung devolveu o fone ao gancho e repassou mentalmente as informações. Em seu rosto, brotou um sorriso. O domingo se estendeu nostálgico. Taehyung não gostava dos domingos. Como estava sem sono, pesquisou sobre Hyunah na internet durante horas. Descobriu que ela havia passado em história da arte em primeiro lugar, com nota suficiente para entrar nos cursos mais disputados. Descobriu também que ela havia obtido boas colocações nos demais vestibulares, aparecendo sempre no início das listas. Encontrou ainda um blog sobre astrologia do qual ela participara fazendo comentários. Nas redes sociais, o nome Hyunah Manhães indicou uma mulher horrorosa que, sem dúvida, não era ela.

Antes de deitar, Taehyung preparou o despertador para o dia seguinte. Às sete, estaria no andar de história da arte da UERJ.

O Vectra preto era o resquício de nobreza da família Kim, dos tempos em que moravam em uma  cobertura na Coréia. Mesmo com os cortes de gastos, Joo tinha feito questão de manter o carro na garagem. Precisava disso para não se sentir tão mal.

Taehyung chegou à UERJ às seis e meia. O andar de história da arte estava vazio. Ele vestiu o capuz do casaco. Ainda que fosse primavera, um vento congelante percorria os corredores silenciosos.



“Onde fica o quinto período?” — Perguntou a um faxineiro. E o homem não sabia.



Sentou-se num banco do hall, acompanhando o movimento dos alunos. Havia trazido consigo um livro de Dürrenmatt, mas o nervosismo impedia que apreendesse sentido nas frases. Lia e relia, inútil. Moças bonitas passavam, cabelos exóticos, pele alva, cadernos em mãos; nenhuma Hyunah.

Às nove, Taehyung buscou informações na secretaria. Inimiga da solicitude, a moça do balcão regurgitou que o ano estava no fim, que possivelmente já estavam de férias, que ela não tinha como saber.

Ele voltou ao hall, agarrado ao corrimão da escada difusa que o ligava a Hyunah. Não conseguia enxergar os degraus adiante, a subida era tortuosa. Cogitou desistir de tudo. Voltar aos livros e aos defuntos. Se Hyunah também o desejasse por perto, teria arranjado uma forma de se aproximar. Ela era o tipo de mulher que sempre conseguia o que queria. 

A derrota foi confirmada por uma menina de olhos esbugalhados: 



“O quinto período acabou. Sou do sétimo, mas faço umas matérias com eles. O sétimo também já acabou. Só vim ver umas notas na secretaria. E não faço ideia de quem é essa Hyunah.”



Taehyung agradeceu, sem paciência. Era absurdo que a imbecil não conhecesse Hyunah. Desceu as rampas da universidade pensando em como as pessoas ignoravam o que havia de melhor à sua volta. Quando já tomava o caminho para o estacionamento, ele viu Hyunah passar, conversando com uma amiga. Vencida a surpresa, ficou no encalço dela. Aquela coincidência predizia que estava no caminho certo, e ele se sentiu forte e poderoso. As duas entraram na secretaria. 

Lá fora, o sol brilhava no céu em disputa com as nuvens cinzentas. Hyunah saiu depressa da secretaria.

Divertia-se com a conversa da amiga. 

Taehyung invejou o que aquela menina dizia de tão engraçado para ela. Ainda que se considerasse bem informado, ele não sabia como dobrar Hyunah. Melhor Gertrudes, que respondia em silêncio.

Tomaram as rampas. Hyunah vestiu um casaquinho verde-musgo sobre a blusa de listras coloridas e acendeu um cigarro de menta, que fumou até o metrô. Já tinha a passagem em mãos. Taehyung comprou o bilhete a tempo de encontrá-las na plataforma. Entrou no mesmo vagão, na porta ao lado. Uma multidão de rostos entrava e saía a cada estação; Hyunah continuava indiferente ao resto do mundo, sorrisos e olhares restritos à amiga.

Desceram em Botafogo. As duas pegaram um ônibus para o Jardim Botânico. Taehyung chamou um táxi e — divertindo-se com a situação cinematográfica — disse:



“Siga aquele ônibus.” 



A viagem continuou até o parque Lage, quando as meninas saltaram, ainda conversando animadamente. Taehyung pagou o táxi e não esperou pelo troco.

Alheias à chuva anunciada, crianças corriam pelo parque, sujas de terra. Babás uniformizadas tricotavam assuntos no banquinho, lançando olhares mal-intencionados aos homens que faziam cooper. Velhinhos passeavam de mãos dadas e um grupo de jovens sentados em roda improvisava um piquenique. Hyunah e a amiga foram graciosamente adicionadas ao cenário. Sacaram câmeras fotográficas semiprofissionais da mochila, registrando flores azuis e palmeiras imperiais. Tiravam fotos uma da outra tirando fotos, num exercício de metalinguagem fotográfica.

Hyunah guardou a câmera e colocou brincos de pérola. Sorriu para a lente, uma dama do século XIX. Fez poses nos jardins e na beira do lago; cheirou flores. Subiu e desceu as escadarias diante do palacete onde ficava a Escola de Artes Visuais. Tinha olhos de leoa. Iluminada pelo sol, Hyunah reviu as fotos com a amiga. Gargalhava com algumas, desdenhava de outras, mandando que fossem excluídas. Taehyung queria vê-las, tê-las para si, inclusive as sumariamente eliminadas. De uma árvore distante, ele também fotografou Hyunah, mas com os olhos, armazenando as imagens na memória entre um clique e outro.

As amigas comeram maçã ao entardecer. Dez horas tinham passado sem que ele notasse: não tinha nem almoçado! Hyunah se despediu da amiga e acendeu um cigarro de menta. Subiu ladeiras, dobrou esquinas, atravessou sinais. Andava com movimentos leves, menina baixinha sugada pela multidão. Entrou numa rua pequena. Sacou a chave do bolso, girando-a na fechadura de uma casa de muros altos, feitos em pedra. Taehyung esperou mais alguns minutos para confirmar que Hyunah morava ali mesmo. 

Anotou o endereço.

Pagou o táxi até a UERJ e buscou o carro no estacionamento. Em casa, saudou a mãe com um beijo agitado. Tomou banho, perfumou-se e fez a barba. Vestiu o melhor do guarda-roupa: uma camisa polo esverdeada que caía bem nos ombros largos. 



“Está bonito. Pra onde vai?” — Joo perguntou, devolvida à realidade no intervalo da novela enquanto acariciava Sansão, adormecido em seu colo. 



“Encontrar uma garota. Vou de carro.”



Era maravilhoso não precisar mentir. Diversas vezes, ele tinha inventado histórias promissoras de meninas com quem se atracava na última fileira do cinema. Como justificar que nunca tivesse apresentado uma namorada desde a adolescência? Como justificar que preferisse ver sozinho os filmes europeus em cartaz? Se não dissesse que saía com meninas, a mãe poderia ter ideias absurdas, chegando a supor que ele fosse homossexual. E ele não simpatizava com homossexuais. Eram impuros, movidos a sexo. Antes eremita do que gay.

Agora, falava a verdade. Não havia por que mentir para Joo. Nem para si mesmo. Queria estar na última fileira do cinema com Hyunah. Ela o havia beijado naquele churrasco. Por que parar? Do beijo, furtado e furtivo, ele havia se tornado refém. Não era o invasor, mas o invadido; não queria só desvendar, mas ser desvendado. Ele amava Hyunah, admitiu. Precisava ser amado.

Taehyung se aborreceu com a ideia de que não a veria naquela noite. Já estava no carro havia mais de duas horas. Acompanhava o movimento das luzes nos quartos, sombras passeavam atrás das cortinas. 

Um Corsa vermelho parou diante da casa e deu duas buzinadas. Hyunah apareceu na porta, encantadora em um vestido preto. O motorista saltou para recebê-la. Parecia ter vinte e tantos anos, quase trinta. Os enormes óculos quadrados e a roupa social preta o envelheciam. Hyunah deu-lhe um beijo na bochecha e entrou no carro.

Chegaram à Lapa em poucos minutos. 

O rapaz saltou do carro com uma mochila grande e entrou na Sala Cecília Meireles de mãos dadas com Hyunah. Um folheto na porta indicava a programação da noite: Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem — Concertos da Juventude. Naquela noite, executariam a Sinfonia nº 9 de Antonín Dvořák. Taehyung hesitou em assistir ao espetáculo. A imagem da orquestra com rostos sérios, violinos e violoncelos a postos, deixou-o irritado. Não queria ver Hyunah beijando outro homem. As mãos dadas já haviam sido bastante ofensivas.

Acabou pagando o ingresso. Entre os cabelos femininos, conseguiu identificá-la, sentada ao lado da amiga que havia encontrado mais cedo. O acompanhante dela não estava por perto. Quando o concerto começou, Taehyung enxergou o rapaz de óculos quadrados em meio à orquestra, tocando um violino de cor avermelhada. Foi tomado por um sentimento forte de antagonismo em relação a ele. Mal prestava atenção na música. Uma formiga passeou pelo encosto da poltrona da frente antes de ser esmagada pelo seu polegar.

A noite avançou, e o grupo foi a um bar próximo. Pediram pizza, cerveja. O assunto parecia não ter fim, alimentado pelas garrafas na mesa. Hyunah bebia em excesso para uma mulher. O relógio marcava três da madrugada quando o acompanhante dela saiu da mesa. Caminhou até o carro, limpando nervosamente as lentes dos óculos na camisa. Bateu a porta e foi embora. Taehyung espichou a cabeça para entender o que havia acontecido. A amiga continuava sentada à mesa, bebendo sozinha, falando sozinha. Hyunah havia se levantado também. Do lado de fora do bar, acendera um cigarro, braços cruzados. Fumava de um jeito bruto.

Taehyung quis se aproximar, mas não parecia o momento certo. Hyunah jogou o cigarro no bueiro e voltou para o bar. Pediu doses de tequila, viradas rapidamente com limão e sal. Horas depois, ela e a amiga pagaram a conta.

Saíram abraçadas, arriscando passos nas calçadas irregulares da Lapa. Hyunah gargalhava, apoiada na amiga, que parecia mais sóbria. Conversavam em voz alta, sem temer a rua mal iluminada. Ele as seguiu de carro com os faróis apagados. Dois táxis vazios passaram, mas elas não fizeram sinal.

Numa esquina deserta, Hyunah e a amiga trocavam carícias: beijos resfolegados, cabelos em desalinho, sapatos lançados à distância. Beijavam-se e riam, gozando o prazer das bocas sedentas. A amiga desceu a língua por Hyunah, provando da pele alva e das sardas recônditas. Hyunah escancarava a boca, fincava as unhas coloridas nas coxas da outra, aprovando as mordiscadas no pescoço. A primeira reação de Taehyung foi fechar os olhos. Como ela podia?! Quis saltar do carro, impedir aquela violência. Ela não tinha freio? 

Quando um casal virou a esquina, Hyunah se encolheu, mas continuou a acariciar os cabelos da outra. Um táxi passou e a amiga —Taehyung agora tinha dificuldade em chamá-la de amiga — fez sinal. Deu beijos estalados em Hyunah e, tchauzinhos pela janela, partiu. Hyunah voltou a caminhar. Trançava as pernas preguiçosamente. Quando atravessava a rua, um carro em alta velocidade buzinou. Ela despertou a tempo e se jogou na calçada, gritando ofensas ao motorista. Levantou-se com dificuldade. Saía sangue do joelho ralado. Tentou mais alguns passos e caiu outra vez. Encontrou um canto escuro, o batente de uma casa velha, e dormiu ali mesmo. Taehyung se aproximou em silêncio, pois não queria assustá-la. Pegou-a pelo braço, acariciando seus cabelos para que acordasse. Hyunah entreabriu os olhos. 



“Que é?”



“Vamos, vem comigo.”



“Que é?”



“Você está dormindo na rua. Vem comigo, te levo pra casa.”



Ela aceitou, deixando o peso cair nos braços dele. Sentou no banco do carona e deitou a cabeça no encosto. O cheiro de álcool empesteava o carro.



“Tá fazendo o que aqui?” — Ela perguntou. 



As palavras saíam tortas. Taehyung pensou em uma resposta, mas Hyunah voltou a dormir, os olhos trêmulos como se enfrentassem um pesadelo. Com quem estaria sonhando?

Estacionou diante da casa. Algumas pessoas já acordavam para a terça-feira de trabalho. A iluminação era tênue e repleta de frescor. O relógio no painel indicava cinco e meia. Ele encontrou um molho de chaves na bolsa dela e a acordou. 



“Qual é a chave certa?”



“Essa.”



“Vamos, eu te ajudo.” — Saiu do carro. 



“Cuidado pra não tropeçar.”  Segurou-a pelo antebraço e notou o perfume sufocado pelo álcool. 



Latidos vinham do outro lado do muro, mas o fato de não terem se aproximado fez Taehyung deduzir que os cachorros estavam presos nos fundos. Girou a chave e entrou. Hyunah era incapaz de caminhar sem cair.

Soltou um gemido quando ele acendeu a luz. Os cabelos estavam desgrenhados; o vestido, em desalinho. Taehyung a deitou no sofá da sala. O cômodo era enorme, com mesa de jantar e móveis em madeira. Havia ainda uma biblioteca de livros jurídicos e uma TV de muitas polegadas.



“Onde é a cozinha?” — Clarice soluçava sem parar. 



Fechou os olhos, enroscada à manta do sofá. 



“Quem é você? O que está acontecendo aqui?!” 



A mulher que entrou na sala não parecia em nada com Hyunah: era alta, esguia, um tanto desesperada. Vestia um robe vinho. 



“Só estou tentando ajudar…” — Téo disse. 



“Ela não está bem.” 



A mulher se sentou no sofá. Acariciou a testa de Hyunah, mediu a temperatura. 



“Ela está bêbada, isso sim. O que você fez com a minha filha?”



“Não fiz nada. Nem bebi. Encontrei ela na rua, por acaso. Onde fica a cozinha?”



“Pra que você quer saber?”



“Melhor dar algo doce pra ela.” — A mãe de Hyunah o encarou com desconfiança. 

Deu tapinhas no rosto da filha, mas ela não acordou. 



“Ela está péssima. Pode ser coma alcoólico.”



“Se ingerir glicose, ela vai melhorar.”



“Por acaso você é médico?”



“Estudante de medicina.”



“Qual é seu nome?”



“Taehyung.”



“Sou Helena, mãe dela. Pode ir embora que resolvo isso sozinha.” 



Helena pegou Hyunah pelo braço, levantando-a. Ela ainda soluçava. 



“Se precisar, eu ajudo.”



“Não precisa. Obrigada.”



“Eu já conhecia a Clarice.” — Helena o encarou. 



“Ah, vocês são amigos?”



“Nós…” 

O que eles eram? 



“É meu namorado, mãe”  Clarice murmurou. 



Ele duvidou que tivesse entendido certo, mas Helena repetiu: 



“Namorado?”



“Meu novo namorado. Amanhã a gente se fala, Taehyung” — Ela disse, e ele ficou orgulhoso de que ela soubesse seu nome. 



“Obrigada por tudo.” 



As duas sumiram no corredor. Mais tarde, deitado na cama, Taehyung não conseguiu dormir. 

É meu namorado,mãe…

O que ela queria dizer com aquilo? Hyunah era frágil. Embebedava-se e fazia o que não devia. Como explicar os beijos com a outra? Ela sabia que ele tinha visto tudo? Agora pensando, ele tinha certeza de que a amiga tomara a iniciativa: havia se aproveitado do estado de Hyunah para abusar dela, furto de beijos e abraços. Ele jamais faria isso. Preferia conquistá-la discretamente, nos pequenos gestos, mostrando como podiam ser felizes juntos.




"Amanhã a gente se fala, Taehyung"




Notas Finais


Obrigada por ler!
Até mais💕


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...