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História Divergente. (Adp Clexa) - Capítulo 4


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Capítulo 4 - 04


Chego a minha rua cinco minutos antes do que o normal, de acordo com o meu relógio, que é o único adorno que a Abnegação permite que usemos, por ser um objeto prático. Meu relógio tem uma correia cinza e uma superfície de vidro. Inclinando-o da maneira certa, consigo ver vagamente meu reflexo sobre os ponteiros.

Todas as casas da minha rua têm o mesmo tamanho e formato. Elas são feitas de cimento cinza, com poucas janelas, em um formato retangular minimalista e econômico. Seus jardins são cobertos de grama selvagem e suas caixas de correio são compostas de um metal simples. Para certas pessoas, a composição pode parecer deprimente, mas considero a simplicidade das casas acolhedora.

O motivo para a simplicidade não é o desprezo pela singularidade, como as outras facções já afirmaram em certas ocasiões. Nossas casas, nossas roupas, nossos cortes de cabelo, tudo é projetado para que nos esqueçamos de nós mesmos e para nos proteger da vaidade, da cobiça e da inveja, que são apenas formas de egoísmo. Se possuímos pouco e queremos pouco, e se somos todos iguais, não invejamos ninguém.

Esforço-me para amar essa filosofia.

Sento-me nos degraus da entrada de casa e espero a chegada de Aden. Ele não demora muito. Depois de alguns minutos, vejo figuras com mantos cinza subindo a rua. Ouço risadas. Na escola, tentamos não chamar atenção, mas quando chegamos em casa permitimo-nos brincadeiras e diversão. Mesmo assim, minha inclinação natural para o sarcasmo não é bem-vista. O sarcasmo sempre ocorre à custa de terceiros. Talvez seja realmente melhor que a Abnegação me obrigue a reprimi-lo. Talvez eu não precise deixar minha família. Talvez, se me esforçar para me encaixar na Abnegação, meu esforço se transforme em realidade.

Lex! – diz Aden. – O que aconteceu? Você está bem?

– Estou bem. – Ele está com a Susan e com o irmão dela, Finn, e Susan me olha de maneira estranha, como se eu fosse uma pessoa diferente da que ela conhecia de manhã. Dou de ombros. – Quando o teste acabou, me senti mal. Deve ter sido aquele líquido que eles nos deram. Mas já estou me sentindo melhor.

Tento sorrir de maneira convincente. Pareço ter convencido Susan e Finn, que não demonstram mais qualquer tipo de preocupação em relação à minha estabilidade mental, mas Aden me encara com os olhos semicerrados, como costuma fazer sempre que suspeita de que alguém esteja escondendo a verdade.

– Vocês dois vieram de ônibus hoje? – pergunto. Não me importo com a maneira pela qual Susan e Finn voltaram para a casa, mas preciso mudar de assunto.

Nosso pai teve que trabalhar até tarde – diz Susan –, e ele nos disse que precisávamos reservar um tempo para pensar antes da cerimônia de amanhã.

Meu coração dispara quando ela fala da cerimônia.

Se quiserem, podem passar aqui em casa mais tarde – diz Aden educadamente.

Obrigada. – Susan sorri para Aden.

Finn ergue a sobrancelha e olha para mim. Estivemos trocando olhares há um ano, assim como Susan e Aden têm se paquerado da maneira naturalmente hesitante dos membros da Abnegação. Aden segue Susan com os olhos à medida que ela desce a rua. Sou obrigada a agarrar seu braço para arrancá-lo de seu estado de deslumbramento. Puxo-o para dentro de casa e fecho a porta atrás de nós.

Ele se vira para mim. Suas sobrancelhas se aproximam uma da outra, formando uma ruga entre elas. Com esse semblante, ele fica mais parecido com minha mãe do que com meu pai. Posso facilmente imaginá-lo vivendo o mesmo tipo de vida que meu pai viveu: ficando na Abnegação, aprendendo um ofício, casando-se com Susan e criando uma família. Será maravilhoso.

Talvez eu não esteja aqui para ver.

Agora você me dirá a verdade? – pergunta ele gentilmente.

– A verdade é – digo – que eu não devo falar a respeito do teste. E que você não deve perguntar.

Você ignora tantas regras, e não pode ignorar esta? Nem por algo tão importante? – Suas sobrancelhas se aproximam ainda mais, e ele morde o canto da boca. Embora suas palavras sejam de acusação, ele parece estar tentando arrancar informações de mim, como se realmente quisesse que eu respondesse.

Encaro-o com olhos semicerrados.

– E você pode? O que aconteceu no seu teste, Aden?

Nossos olhares se encontram. Ouço o apito de um trem, tão distante que poderia ser o som do vento passando por um corredor. Mas o reconheço. Parece um chamado dos membros da Audácia, convidando-me a juntar-me a eles.

– Só... não diga nada aos nossos pais sobre o que aconteceu, tudo bem? – digo.

Ele continua a me encarar por alguns segundos, depois assente com a cabeça.

Quero subir para meu quarto e me deitar. O teste, a caminhada e meu encontro com o homem sem-facção me exauriram. Mas meu irmão preparou o café da manhã no início do dia, minha mãe preparou nossos almoços e meu pai fez o jantar ontem, o que significa que é a minha vez de cozinhar. Eu respiro fundo e entro na cozinha para começar a preparar a comida.

Minutos depois, Aden junta-se a mim. Cerro meus dentes. Ele ajuda com tudo. O que mais me irrita a seu respeito é sua bondade natural, seu altruísmo inato.

Aden e eu trabalhamos juntos em silêncio. Cozinho ervilhas no fogão. Ele descongela quatro pedaços de frango. A maior parte do que comemos é congelada ou enlatada, porque as fazendas hoje em dia estão muito longe. Minha mãe me disse que, há muito tempo, havia pessoas que se recusavam a comprar alimentos geneticamente modificados, pois achavam que eles não eram naturais. Hoje em dia, não temos nenhuma opção.

Quando meus pais chegam em casa, o jantar está pronto e a mesa está posta. Meu pai Marcus solta sua bolsa na entrada e beija minha cabeça. Algumas pessoas consideram-no um homem teimoso, talvez até teimoso demais, mas ele também é carinhoso. Tento enxergar apenas seu lado bom; tento mesmo.

Como foi o teste? – pergunta-me ele. Coloco as ervilhas em uma saladeira.

Foi tudo bem – digo. Eu não poderia mesmo ser da Franqueza. Minto com muita facilidade.

Ouvi dizer que houve algum tipo de problema em um dos testes – diz minha mãe. Como meu pai, ela trabalha para o governo, mas coordena projetos de melhoria urbana. Ela recrutou voluntários para a aplicação dos testes de aptidão. Mas geralmente organiza trabalhadores para ajudar os sem-facção com alimentação, moradia e oportunidades de emprego.

– É mesmo? – diz meu pai. É raro haver algum problema com os testes de aptidão.

– Não sei exatamente o que aconteceu, mas minha amiga Erin me disse que algo deu errado em um dos testes, e por isso os resultados tiveram que ser transmitidos oralmente. – Minha mãe coloca um guardanapo ao lado de cada prato da mesa. – Parece que o aluno ficou doente e teve que ir para casa mais cedo. – Ela ergue os ombros. – Espero que ele esteja bem. Vocês ouviram alguma coisa a esse respeito?

Não – diz Aden, e sorri para minha mãe.

Meu irmão também não poderia pertencer à Franqueza.

Sentamo-nos à mesa. Sempre passamos a comida para a direita e ninguém come antes que todos estejam servidos. Meu pai dá as mãos a meu irmão e a minha mãe, e eles dão as mãos ao meu pai e a mim, e meu pai agradece a Deus pela comida, pelo trabalho, pelos amigos e pela família. Nem todas as famílias da Abnegação são religiosas, mas meu pai diz que não devemos dar atenção a tais diferenças, ou elas nos dividirão. Não sei exatamente o que pensar a respeito disso.

Então – fala minha mãe para meu pai. – Qual é o problema?

Ela segura a mão dele e acaricia suas juntas com o dedão em pequenos movimentos circulares. Olho para suas mãos unidas. Meus pais se amam, mas raramente demonstram afetividade diante de nós dessa maneira. Eles nos ensinaram que o contato físico é algo poderoso, por isso o tenho evitado desde a minha infância.

Me diga o que o está incomodando – diz ela.

Encaro meu prato. Os sentidos aguçados da minha mãe costumam me surpreender, mas agora eles parecem me repreender. Por que eu estava tão absorta em meus próprios problemas que não percebi o olhar profundo de preocupação e a postura carregada do meu pai?

Tive um dia difícil no trabalho hoje – diz ele. – Bem, na verdade, foi o Jack quem teve um dia difícil. Não é certo dizer que fui eu.

Jack é um companheiro de trabalho do meu pai; ambos são líderes políticos. A cidade é regida por um conselho de cinquenta pessoas, todas representantes da Abnegação, já que, pelo seu comprometimento com o altruísmo, nossa facção é considerada incorruptível. Nossos líderes são selecionados por seus pares de acordo com a impecabilidade de seu caráter, sua força moral e sua capacidade de liderança. Representantes de cada uma das outras facções podem se pronunciar nas audiências sobre determinados assuntos, mas a decisão final é sempre do conselho. E embora o conselho teoricamente decida em conjunto, Jack é um membro especialmente influente.

As coisas têm funcionado dessa maneira desde o começo da grande paz, quando as facções foram formadas. Acho que o sistema é mantido porque tememos o que pode acontecer se acabar: a guerra.

Isso tem a ver com o relatório que a Lorelei Tsing divulgou? – pergunta minha mãe. Lorelei é a principal representante da Erudição, selecionada pelo nível do seu QI. Meu pai costuma reclamar bastante dela.

Eu olho para eles.

Um relatório?

Aden me lança um olhar de advertência. Não devemos falar na mesa de jantar a não ser que nossos pais nos façam uma pergunta direta, o que raramente acontece. Meu pai costuma dizer que nossos ouvidos receptivos são uma dádiva para eles. Eles nos oferecem seus ouvidos receptivos depois do jantar, na sala da família.

Sim – responde meu pai. Suas pálpebras se contraem. – Aqueles arrogantes e hipócritas... – Ele interrompe sua fala e limpa a garganta. – Desculpem-me. Mas ela divulgou um relatório atacando o caráter de Jack.

Ergo as sobrancelhas.

– E o que estava escrito no relatório?

– Lexa – sussurra Aden.

Abaixo a cabeça, virando o garfo várias vezes na mão até que o calor no meu rosto se dissipe. Não gosto de ser repreendida. Especialmente por meu irmão.

– Estava escrito – meu pai diz – que a violência e a crueldade de Jack em relação a sua filha foram as razões pelas quais a garota escolheu a Audácia, e não a Abnegação.

Poucas pessoas nascidas na Abnegação escolhem deixá-la. Quando algo assim ocorre, não esquecemos. Há dois anos, a filha de Jack, deixou nossa facção e se juntou à Audácia, e isso o deixou arrasado.

 Eliza era sua única filha e sua única família, depois que a Abby Griffin falecera ao dar à luz o segundo filho. O bebê morreu minutos depois.

Nunca vi Eliza. Ela raramente frequentava os eventos comunitários e nunca acompanhou o pai aos jantares em nossa casa. Meu pai costumava comentar que achava isso estranho, mas nada disso importava mais.

Cruel? O Jack? – Minha mãe balança a cabeça. – Aquele pobre homem. A última coisa de que ele precisa agora é que o lembrem de sua perda.

– Você quer dizer, da traição de sua filha? – diz meu pai friamente. – Isso não deveria me surpreender. Há meses que os membros da Erudição têm usado esses relatórios para nos agredir. E este não será o último. Tenho certeza de que outros virão.

Mais uma vez, eu não deveria me pronunciar, mas não consigo me conter.

Por que eles estão fazendo isso? – pergunto.

– Por que você não aproveita este momento para escutar o que seu pai tem a dizer, Lexa? – diz minha mãe gentilmente. Ela me apresenta a pergunta como uma sugestão, e não como uma ordem. Olho para Aden do outro lado da mesa, e vejo seu olhar de desaprovação.

Encaro minhas ervilhas. Não sei se consigo viver essa vida de obrigações por muito mais tempo. Não sou boa o bastante nisso.

Você sabe o motivo – fala meu pai. – Porque nós temos algo que eles querem. Valorizar o conhecimento acima de todas as coisas provoca uma sede de poder que leva o ser humano a lugares sombrios e vazios. Devemos ser gratos por evitarmos isso.

Aceno com a cabeça. Sei que não escolherei a Erudição, embora os resultados do meu teste tenham sugerido essa opção. Eu sou, afinal, filha do meu pai.

Meus pais tiram a mesa depois do jantar. Eles não deixam Aden ajudar, porque devemos nos reservar esta noite em vez de nos reunirmos na sala da família, para que possamos pensar a respeito dos resultados de nossos testes.

Minha família poderia me ajudar a escolher, se eu pudesse compartilhar com eles meus resultados. Mas não posso. O aviso de Tori ressoa em minha memória a cada vez que fraquejo em minha decisão de me manter calada.

Aden e eu subimos as escadas e, ao chegar ao topo, antes de nos separarmos para entrar em nossos quartos, ele me para, colocando uma mão em meu ombro.

Lexa – diz ele, fixando meus olhos. – Devemos pensar em nossa família. – Há algo de estranho em sua voz. – Mas também devemos pensar em nós mesmos.

Encaro-o por alguns segundos. Essa é a primeira vez que o vejo pensar em si mesmo ou falar algo que não pareça altruísta.

Fico tão assustada com seu comentário que digo apenas o que devo dizer:

– Os testes não precisam mudar nossas escolhas.

Ele esboça um sorriso.

– Será que não?

Ele aperta meu ombro e entra em seu quarto. Espio o interior e vejo uma cama desarrumada e uma pilha de livros em sua mesa. Ele fecha a porta. Queria poder dizer-lhe que estamos passando pela mesma situação. Queria poder conversar com ele da maneira que eu quero, e não da maneira que eu devo. Mas admitir que preciso de ajuda seria demais para mim, e por isso desisto da ideia.

Entro no meu quarto e, ao fechar a porta, me dou conta de que a decisão pode ser simples. Escolher a Abnegação exigiria uma grande demonstração de altruísmo da minha parte, e escolher a Audácia exigiria uma grande demonstração de coragem, e talvez apenas a escolha entre uma das duas facções já seja uma comprovação de onde eu pertenço. Amanhã, essas duas qualidades se enfrentarão dentro de mim, e apenas uma poderá vencer.



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