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História Divergente. (Adp Clexa) - Capítulo 5


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Capítulo 5 - 05


O ônibus que pegamos até a Cerimônia de Escolha está cheio de pessoas com camisas e calças cinza. Um anel claro de luz solar atravessa as nuvens como a ponta acesa de um cigarro. Nunca fumarei um cigarro, já que eles estão ligados intimamente à vaidade, mas há um grupo de integrantes da Franqueza fumando em frente ao edifício quando saltamos do ônibus.

Tenho que inclinar a cabeça para trás para conseguir enxergar o topo do Eixo, e mesmo assim parte dele desaparece em meio às nuvens. O Eixo é o maior prédio da cidade. Da janela do meu quarto, consigo ver as luzes da torre em seu topo.

Sigo meus pais ao descermos do ônibus. Aden parece calmo, mas eu também pareceria se soubesse o que fazer. No entanto, sinto como se meu coração fosse saltar para fora do peito a qualquer momento, e seguro o braço do meu irmão para me estabilizar enquanto subimos os degraus da entrada do prédio.

O elevador está lotado, então meu pai oferece nosso lugar a um grupo de integrantes da Amizade. Em vez de usar o elevador, subimos pela escada, seguindo-o sem questionamentos. Servimos de exemplo para os outros membros da nossa facção, e logo estamos cercados por uma massa de tecido cinza, subindo as escadas de cimento à meia-luz. Entro no ritmo dos passos da multidão. O som uniforme dos pés em meus ouvidos e a homogeneidade das pessoas ao meu redor me convencem de que eu poderia escolher isso. Eu poderia ser incluída ao pensamento de colmeia da Abnegação, projetando-me sempre para fora de mim mesma.

Mas então minhas pernas começam a doer, fico com dificuldade em respirar e mais uma vez me distraio comigo mesma. Precisamos subir vinte andares de escadas até a Cerimônia de Escolha.

Meu pai abre a porta do vigésimo andar e a segura como um sentinela até que cada membro da Abnegação tenha passado. Eu teria esperado por ele, mas a multidão me empurra em frente, para fora do vão da escada e para dentro do salão no qual decidirei o destino do resto da minha vida.

O salão é organizado em círculos concêntricos. No círculo externo, ficam os indivíduos de dezesseis anos de cada facção. Ainda não somos considerados membros; nossas decisões hoje nos tornarão iniciandos, e viraremos membros se conseguirmos completar a iniciação.

Organizamo-nos em ordem alfabética, de acordo com os sobrenomes que talvez deixemos para trás. Eu me coloco entre Aden e Costia Pohler, uma menina da Amizade com bochechas rosadas e vestido amarelo.

O círculo seguinte contém fileiras de cadeiras para as nossas famílias. Elas são organizadas em cinco seções, uma para cada facção. Nem todos os integrantes das facções vêm à Cerimônia de Escolha, mas há um número suficiente de pessoas para formar uma multidão.

A responsabilidade em conduzir a cerimônia se alterna entre as facções a cada ano, e este ano pertence à Abnegação. Jack fará o discurso de abertura e lerá os nomes em ordem alfabética. Aden escolherá antes de mim.

No círculo central, localizam-se cinco recipientes de metal, tão grandes que, se me encolhesse, caberia dentro deles. Cada um dos recipientes contém uma substância que representa uma das facções: pedras cinza para a Abnegação, água para a Erudição, terra para a Amizade, brasas acesas para a Audácia e vidro para a Franqueza.

Quando Jack pronunciar meu nome, andarei até o centro dos três círculos. Não falarei nada. Ele me oferecerá uma faca. Farei um corte em minha mão e derramarei meu sangue dentro do recipiente da facção que eu escolher.

Meu sangue nas pedras. Meu sangue fervendo nas brasas.

Antes de os meus pais se sentarem, param diante de nós. Meu pai beija a minha testa e apoia a mão sobre o ombro de Aden, sorrindo.

– Nos vemos em breve – diz ele. Não há qualquer traço de dúvida em suas palavras.

Minha mãe me abraça, dissipando quase completamente qualquer traço de determinação que eu tenha conseguido manter até agora. Cerro os dentes e olho para o teto, de onde luminárias esféricas estão penduradas, preenchendo o salão com uma luz azulada. Ela me abraça pelo que parece ser muito tempo, mesmo depois que abaixo os braços. Antes de me soltar, ela vira a cabeça e sussurra em meu ouvido:

– Eu te amo. Não importa o que aconteça.

Franzo a sobrancelha enquanto ela se afasta de mim. Ela sabe o que poderei fazer. Deve saber, ou não se sentiria obrigada a dizer aquilo.

Aden segura minha mão, apertando-a tanto que me machuca, mas eu não largo a dele. A última vez que seguramos as mãos um do outro dessa maneira foi no funeral do meu tio, enquanto meu pai chorava. Precisamos da força um do outro agora, assim como precisávamos naquele dia.

As pessoas se organizam lentamente no salão. Eu deveria estar observando os membros da Audácia; deveria estar absorvendo o máximo de informação possível, mas a única coisa que consigo fazer é observar as luminárias do outro lado do salão. Tento me perder no seu brilho azul.

Jack fica em pé sobre o pódio, entre as seções da Erudição e da Audácia, e limpa a garganta diante do microfone.

– Sejam bem-vindos – diz ele. – Sejam bem-vindos à Cerimônia de Escolha. Sejam bem-vindos à maneira com a qual honramos a filosofia democrática de nossos antepassados, que afirma que cada homem tem o direito de escolher seu próprio caminho no mundo.

Ou, penso então, um dos cinco caminhos predeterminados. Aperto os dedos de Aden com a mesma força com que ele aperta os meus.

– Nossos dependentes agora têm dezesseis anos. Eles se encontram no precipício da maturidade, e agora é responsabilidade deles decidir que tipo de pessoas serão. – A voz de Jack é solene, distribuindo igualmente o peso de cada palavra. – Há décadas, nossos antepassados perceberam que a culpa por um mundo em guerra não poderia ser atribuída à ideologia política, à crença religiosa, à raça ou ao nacionalismo. Eles concluíram, no entanto, que a culpa estava na personalidade humana, na inclinação humana para o mal, seja qual for a sua forma. Dividiram-se em facções que procuravam erradicar essas qualidades que acreditavam ser responsáveis pela desordem no mundo.

Volto meu olhar para os recipientes no centro do salão. No que eu acredito? Não sei; não sei; não sei.

– Os que culpavam a agressividade formaram a Amizade.

Os integrantes da Amizade trocam sorrisos. Eles se vestem de maneira confortável, com roupas vermelhas ou amarelas. Sempre que os vejo, parecem-me bondosos, amorosos, livres. Mas me juntar a eles nunca foi uma opção para mim.

– Os que culpavam a ignorância se tornaram a Erudição.

Eliminar a opção da Erudição foi a única parte fácil da minha escolha.

– Os que culpavam a duplicidade fundaram a Franqueza.

Nunca simpatizei com a Franqueza.

– Os que culpavam o egoísmo geraram a Abnegação.

Eu culpo o egoísmo; culpo mesmo.

– E os que culpavam a covardia se juntaram à Audácia.

Mas eu não sou altruísta o bastante. Tenho tentado há dezesseis anos e simplesmente não sou altruísta o bastante.

Minhas pernas ficam dormentes, como se tivessem perdido toda a vitalidade, e me pergunto como serei capaz de andar quando eles chamarem meu nome.

– Trabalhando juntas, as cinco facções têm vivido em paz há anos, cada uma contribuindo com um diferente setor da sociedade. A Abnegação supriu nossa demanda por líderes altruístas no governo; a Franqueza providenciou líderes confiáveis e seguros no setor judiciário; a Erudição nos ofereceu professores e pesquisadores inteligentes; a Amizade nos deu conselheiros e zeladores compreensivos; e a Audácia se encarrega de nossa proteção contra ameaças tanto internas quanto externas. Mas o alcance de cada facção não se limita a essas áreas. Oferecemos uns aos outros muito mais do que pode ser expressado em palavras. Em nossas facções, encontramos sentido, encontramos propósito, encontramos vida.

Penso no lema que li no meu livro didático sobre a História das Facções: A facção antes do sangue. Mais do que às nossas famílias, pertencemos às nossas facções. Será que isso é realmente verdade?

Jack conclui:

– Longe delas, não sobreviveríamos.

O silêncio que se segue às suas palavras é mais pesado do que outros silêncios. Carrega o peso do nosso maior medo, maior até do que o medo da morte: o medo de se tornar um sem-facção.

Jack continua:

 Portanto, celebramos hoje uma ocasião feliz: o dia em que recebemos novos iniciandos, que trabalharão conosco em prol de uma sociedade e um mundo melhores.

Uma salva de palmas. Elas soam abafadas. Tento manter-me completamente parada, porque, quando consigo manter meus joelhos fixos e meu corpo duro, paro de tremer. Jack lê os primeiros nomes, mas não consigo distinguir as sílabas. Como saberei quando ele chamar o meu?

Um por um, cada jovem de dezesseis anos deixa a fila e se dirige ao centro do salão. A primeira garota a decidir escolhe a Amizade, a mesma facção de onde veio. Vejo suas gotas de sangue pingarem sobre a terra, depois ela se coloca atrás dos assentos da facção, sozinha.

O salão está em constante movimento; um novo nome e uma nova pessoa escolhendo, uma nova faca e uma nova escolha. Reconheço a maioria das pessoas, mas duvido que eles saibam quem sou.

– AWells Jaha – anuncia Jack.

AWells Jaha, da Audácia, é a primeira pessoa a tropeçar a caminho dos recipientes. Ele abre os braços e recupera o equilíbrio antes de cair no chão. Seu rosto fica vermelho e ele caminha rápido até o meio do salão. Já no centro, olha para o recipiente da Audácia, depois para o da Franqueza: as chamas laranja que crescem cada vez mais alto e o vidro que reflete a luz azulada.

Jack oferece a faca. O garoto respira fundo, inflando o peito e, ao expirar, aceita-a. Então passa a lâmina na palma da mão de maneira violenta e estende o braço para o lado. Seu sangue se derrama sobre o vidro e ele é o primeiro de nós a trocar de facção. O primeiro transferido. Ouve-se um murmúrio na seção da Audácia, e encaro o chão.

Eles o verão como um traidor de agora em diante. Seus familiares da Audácia terão a opção de visitá-lo em sua nova facção daqui a uma semana e meia, no Dia da Visita, mas não irão, porque ele os abandonou. Sua ausência assombrará os corredores e ele se tornará um vazio que não conseguirão preencher. Com o passar do tempo, o vazio desaparecerá, como ocorre quando um órgão é removido e os fluidos corporais preenchem o espaço que deixou. Os humanos não conseguem tolerar o vazio por muito tempo.

– Aden Woods – diz Jack.

Aden aperta minha mão uma última vez e, ao se afastar, encara-me por um longo tempo. Observo seus pés movendo-se em direção ao centro do salão e suas mãos firmes ao aceitarem a faca que Jack lhe entrega movem-se com destreza quando uma aperta a lâmina contra a outra. Ele fica parado, enquanto o sangue forma uma pequena poça na palma da sua mão, e seus lábios se contraem.

Ele expira. Depois inspira. Depois, estende a mão sobre o recipiente da Erudição, e seu sangue pinga para dentro da água, escurecendo o tom de vermelho contido nela.

Ouço uma comoção que rapidamente se transforma em gritos de protesto. Mal consigo pensar. Meu irmão, meu irmão altruísta, um transferido? Meu irmão, nascido para a Abnegação, na Erudição?

Ao fechar os olhos, vejo a pilha de livros sobre a mesa de Aden, e suas mãos trêmulas esfregando-se em suas pernas depois do teste de aptidão. Como não fui capaz de perceber, quando ele me disse ontem que eu deveria pensar em mim mesma, que ele também estava oferecendo esse conselho a si mesmo?

Observo os membros da Erudição, que ostentam sorrisos presunçosos e se acotovelam. Os da Abnegação, geralmente plácidos, agora se comunicam em sussurros tensos e encaram o outro lado do salão, onde está a facção que se tornou nossa inimiga.

– Atenção – diz Jack, mas a multidão não lhe dá ouvidos.

– Silêncio, por favor! – grita ele.

O silêncio domina o salão. Exceto por um zumbido agudo.

Ouço meu nome e um tremor me propulsiona para a frente. Na metade do caminho em direção aos recipientes, tenho certeza de que escolherei a Abnegação. Tudo me parece claro. Já posso imaginar-me amadurecendo como uma mulher que se veste com túnicas da Abnegação, casada com Finn, o irmão de Susan, trabalhando como voluntária nos finais de semana, na paz da rotina, nas noites tranquilas diante da lareira, na certeza de que estarei segura e, se não totalmente feliz, certamente mais feliz do que me encontro agora.

Percebo que o zumbido que ouço vem dos meus próprios ouvidos.

Olho para Aden, que agora está em pé atrás da seção da Erudição. Ele me encara de volta e acena levemente com a cabeça, como se soubesse o que estou pensando e concordasse comigo. Meus passos fraquejam. Se Aden não pertence à Abnegação, como posso pertencer? Mas que escolha tenho agora que ele nos deixou e sou a única que restou? Ele não me deixou opção.

Tensiono o maxilar. Serei a filha que fica; preciso fazer isso por meus pais. Preciso.

Jack me oferece a faca. Eu encaro seus olhos, de um tom azul-claro, uma cor estranha, e a aceito. Ele acena com a cabeça, e me viro na direção dos recipientes. Tanto o fogo da Audácia quanto as pedras da Abnegação estão à minha esquerda, um recipiente em frente ao meu ombro e o outro atrás dele. Seguro a faca com a mão direita e encosto a lâmina na palma da esquerda. Rangendo os dentes, passo a lâmina sobre minha pele. Arde um pouco, mas quase não reparo na dor. Levo minhas duas mãos ao peito e respiro com dificuldade.

Abro os olhos e lanço meu braço para a esquerda. O sangue pinga no carpete, entre os dois recipientes. Depois, com um suspiro que não consigo conter, lanço meu braço para a frente, e meu sangue faz as brasas chiarem.

Sou egoísta. Sou corajosa.


Notas Finais


Olá mores. Espero que tenham gostado do capítulo. 
Diga-me oque pensam. Bjokasss


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